Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Por que "Pamela"?

Porque decidi que, fria daquela jeito, só podia ser inglesa. Eu tinha feito uma inglesa! Deve ser por isso que conservei o meu inglês. Era a língua com a qual eu fazia declarações de amor a Pamela e tentava despertar no seu corpo a calidez que o rosto prometia. Ela não reagia. Ela não me respondia. Com os pássaros, pelo menos, havia diálogo. As árvores pelo menos me escutavam. Pamela ficava muda e distante. Também não respondeu quando eu comecei a gritar com ela, e a xingá-la, e acusá-la.

― Acusá-la de quê?

― De me trair. Pamela estava me enganando.

― A mulher de areia estava enganando você?

― Estava!

― Com quem?

― Não tenho a menor idéia. Com os caranguejos, com o vento, com as minhas alucinações. Sei lá. Eu só não tinha dúvida de que, com eles, ela se mexia.

Uma loucura, eu sei. Mas eu tinha pedido aquilo. Eu tinha criado o meu próprio tormento, criando um outro para compartilhar da minha solidão. Não se tem companhia humana impunemente. Onde há um outro, há confusão, há conflito, há desgosto. E há traição.

― O que você fez?

― Um dia, destrui a Pamela a pontapés. Só deixei o buraco no chão. Mas no dia seguinte a reconstruí, os grandes seios, as longas coxas. Pedindo perdão, dizendo que o ciúme, e o seu silêncio e a sua inércia, tinham me deixado louco, e jurando que aquilo nunca mais aconteceria. Caprichei no seu novo rosto. No cabelo de algas verdes, na expressão de compreensão com o desatino dos homens apaixonados, e de perdão. E no outro dia a destruí a pontapés outra vez.

― Grego.

― Hein?


― O seu sotaque. Pode ser grego.

― Hmmm. Grego. É possível. Me sinto muito antigo.

― Qual é a última lembrança que você tem do mundo, antes de naufragar?

― Deixa ver... Rita Pavone. Não tinha uma Rita Pavone?

Decidiram não contar nada ao náufrago sobre o 11/9, até ele estar completamente recuperado.


Ninfas e ninfetas

Há tempos apareceu uma teoria segundo a qual existiria uma "memória da água". A água reteria nas suas moléculas uma "lembrança" recuperável de movimentos e efeitos. A teoria não foi provada, o que é uma pena. Suas possibilidades poéticas eram imensas.

O italiano Roberto Calasso, no seu livro Literatura e os Deuses, escreve sobre uma "onda mnemônica", ou vaga de memória que invade a nossa civilização, a intervalos, vinda do passado clássico, com os deuses pagãos surfando em cima. Esta imagem é minha, não do Calasso, que é um cara sério.

Ou nos deixamos inundar por ela ou fugimos dela com braçadas decididas.

A Renascença foi uma "onda mnemônica" varrendo a idade das trevas da nossa praia. Já maré baixa da onda, segundo Calasso, aconteceu na França do século 18 quando "as infantis fábulas gregas", junto com "o bárbaro Shakespeare e as sórdidas lendas bíblicas" foram todas sumariamente dispensadas como "o trabalho de um esperto sacerdócio determinado a sufocar mentes potencialmente esclarecidas no berço", por gente como Voltaire. A onda voltou no século 19 com Nietzsche, que costumava assinar suas cartas "Dionísio".

Os deuses surfistas vindos do passado assumiam qualquer forma. Escreve Calasso: "Muitas vezes eram reduzidos à mera existência de papel, como alegorias morais, personificações, prosopopéias e outros engenhos do arsenal retórico." Ou eram "meros pretextos para o lirismo, nada mais do que sons evocativos". Em qualquer forma, seus anfitriões modernos os mantinham sob controle, eufemismados e disfarçados. Isto nas letras, porque nas artes plásticas houve uma enchente: os deuses heróis tomaram conta e durante quatro séculos foram sujeitos, ou no mínimo coadjuvantes, de toda a pintura e a escultura ocidental. E dê-lhe sátiros e ninfas.

Principalmente ninfas. As ninfas trazem na 'onda mnomônica" a forma mais antiga e potencialmente mais perigosa de matéria artística, segundo Callasso, que é a obsessão. Homero conta que Apolo, o Caçador Encantado, descobre uma ninfa e uma grande serpente guardando uma vertente de água doce. Tanto a ninfa quanto a serpente são aterradoras, pois o que elas guardam é uma fonte de sabedoria e poder que dará a Apolo o domínio do mistério fluido da vida pela arte, mas em troca o transformará num deus possuído. Ninfa e serpente são a mesma coisa, a sedução da arte e a danação do artista na mesma descoberta. A correspondência com a "sórdida lenda bíblica" do Paraíso perdido não precisa ser enfatizada.

"Nimphe" em grego quer dizer "menina pronta para o casamento" e também "fonte". Calasso: "Aproximar-se de uma ninfa é ser apreendido e possuído por alguma coisa, e imergir num elemento ao mesmo tempo terno e instável, que pode ser emocionante mas também pode muito bem ser fatal." Mas qual era o poder das ninfas, o que eram essas águas mágicas? Há um hino a Apolo que fala do "noeron udaton", "as águas mentais" que são o presente das ninfas ao deus das artes. Uma vez conquistadas, as ninfas se ofereciam e a sua oferenda era o "eídolon", a imagem, o simulacro. Ou seja, a matéria da criação, a literatura. Cada vez que uma ninfa se oferece evoca este poder que precede a palavra, este manancial de vida para o artista se abastecer, ou imitar, ou na qual se afogar.

Sócrates se descrevia como um "nymphóleptos", alguém "capturado pelas ninfas". O mais notório "nymphóleptos" da literatura moderna é Humbert Humbert, o professor pedófilo da tragicomédia de Vladimir Nabokov, Lolita. O desafortunado Humbert Humbert é um "caçador encantado" que persegue a sua ninfeta até possuí-la (num motel chamado "A caçadora encantada), e dali em diante é possuído por ela. Descrevendo sua emoção ao ver Lolita pela primeira vez no quintal da sua casa, seminua, "numa poça de sol", Humbert Humbert diz que "uma onda de mar azul" cresceu sob o seu coração. Pois parte da sua obsessão com a ninfeta é a memória que ela lhe traz de um amor pré-pubescente na beira do Mediterrâneo, a perdida Annabel, que deve o nome que Nabokov lhe deu à Annabel Lee do poema de Edgar Allen Poe, outro "nymphóleptos", outro possuído.

Nabokov, que se saiba, não era um pedófilo, portanto seu livro é um genial respingo de "onda mnemônica", ou um mergulho deliberado nas "águas mentais" de alusões e significados que a onda nos traz, lá de trás. Para Calasso "a verdade esotérica" de Lolita está numa única frase de Humbert Humbert: "A ciência da nympholepsia é uma ciência precisa." O que Nabokov não diz é que esta "ciência precisa" é exatamente uma que Nabokov exerceu durante toda a vida, não a perseguição de ninfetas mas a literatura.


No trem
Disse o homem:

― Perdoem, por favor, mas eu sou um escritor, e como tal fascinado pelas pessoas e seus destinos. Notei que cada um de nós, neste compartimento, tem um tipo físico, uma idade e um semblante diferente dos demais e está claro que nenhum de nós conhece o outro. Mas me pergunto se a única coisa que temos em comum é estarmos no mesmo compartimento do mesmo trem, indo para o mesmo lugar. Seria interessante, de um ponto de vista literário, ou apenas para passar o tempo, tentar descobrir alguma outra coisa que nos una. Ou importuno?

― Não, não ― disse a mocinha. ― Eu estava pensando a mesma coisa. Seis pessoas, seis vidas, seis destinos. O que teremos em comum? O senhor diz que é escritor...

― Nabokov. Nasci na Rússia, mas fui obrigado a me exilar. Suponho que ninguém mais aqui seja escritor. Ou, que Deus nos proteja, russo. Sabem o que dizem: dois russos são sempre dois mais que o necessário.

― Eu sou eurasiana. Quando não estou trabalhando, passo todo o meu tempo viajando para esquecer um grande amor. Mas prefiro não falar em Robert.

Minha profissão: acrobata.

― Esse Robert era físico e suíço? ― perguntou a senhora mais velha. ― Um dos meus colegas nas pesquisas sobre isótopos e lipídios subatômicos em Montreux se chamava Robert.

― Não senhora. Era domador. Americano. Está morto há anos.

A senhora, então, é pesquisadora? ― perguntou Nabokov, dirigindo-se à mulher mais velha.

― Sim. Belga. Não adiantaria dizer meu nome. Ninguém guarda o nome dos ganhadores do Nobel de Física.

― Uma acrobata e um Prêmio Nobel! Que interessante. Eu nunca ganhei o Nobel.

Sabem como é, a política manda na Academia sueca. Não no seu caso, é evidente. Não imagino que possa haver uma interpretação marxista da mecânica quântica. E o senhor?

A pergunta era para o velho de cachecol verde.

― Sou grego e não faço nada. Milionário. Era a mim que o Onassis recorria para empréstimos, quando se apertava. Vivo para o prazer e a aventura.

Aliás, senhorita, há alguns anos, num circo em Copenhague, pulei na arena para evitar que um leão arrancasse a cabeça de um desafortunado domador.

Tarde demais, infelizmente. Não seria...

― Não. Foi um tigre.

― Ah, bom.

― E o senhor, padre? ― perguntou o escritor.

― Sou um mero assessor do papa. Certamente o mais humilde. Só dou minha opinião quando Sua Eminência a pede, depois de ouvir todos os outros.

Frugatti. Natural de Arezzo. Fui eu que redigi a versão do terceiro segredo de Fátima que o Vaticano publicou recentemente. O verdadeiro segredo, claro, é outro, terrível demais para ser revelado. Não me peçam detalhes. Só posso dizer o seguinte: Fiquem longe de Istambul, no verão de 2001.

― Bem, até agora, nada em comum ― comentou Nabokov. ― Talvez o senhor, cavalheiro, seja o elo que falta em nossas vidas.

― Acho difícil ― disse o homem com o cabelo engomado. ― Qualquer um de vocês já teria me reconhecido, se freqüentasse os mesmos círculos. Eu sou Delmas.

O nome lhes diz alguma coisa? Eu sabia que não. Fui eu que contatei o espírito de Coco Chanel para esclarecer alguns pontos obscuros do seu testamento. Mas, é óbvio, isso não foi divulgado fora da família. Só eu falo com Goethe. Nacionalidade húngara. Não tenho nada em comum com ninguém.

― É espantoso. Seis nacionalidades diferentes, seis profissões...

― Bem, temos dois artistas. Um escritor e uma acrobata...

― Duas profissões de risco, é verdade. Mas são completamente diferentes. Um escritor não usa rede.

― Quer dizer, então... ― começou a pesquisadora belga.

― Que não temos nada em comum, salvo o destino deste trem ― completou a acrobata eurasiana.

― A única coincidência é que somos todos personagens interessantes ― concluiu Nabokov.

Na verdade, nem esta coincidência havia. Estavam reunidos no mesmo compartimento do trem os seis maiores mentirosos da Europa, mas isto nenhum ficou sabendo.


Noé 2 ou o segundo arrependimento


E viu Deus a Terra, e eis que estava corrompida, porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a Terra. Então disse Deus a Noé: o fim de toda a carne é vindo perante a minha face, porque a Terra está cheia de violência, e eis que os desfarei com a Terra.

E disse o Senhor: Destruirei de sobre a face da Terra o homem que criei, desde o homem até o animal, até o réptil, e até a ave dos céus, porque me arrependo de os haver feito.

E disse Deus a Noé: Faze para ti um foguete interplanetário. E entrarás no foguete, tu e os teus filhos, e a tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo.

E, de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, meterás no foguete, para os conservares vivos contigo; macho e fêmea serão.

Porque eis que trago um asteróide que se chocará com a Terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus: tudo o que há na Terra expirará, menos tu e os teus. E guiarei a tua arca espacial até um planeta escolhido, onde começarás outra Terra e outra prole.

Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor, que obviamente não sabia com quem estava falando. "Um foguete, Senhor?!", disse Noé, explicando em seguida que era um carpinteiro desempregado no Iraque, cuja situação, que já era ruim, ficara ainda pior com o bloqueio econômico das Nações Unidas, que duvidava muito que conseguiria ajuda do governo do seu país para construir um patinete, quanto mais um foguete, mesmo que fosse para disparar contra Israel ou para salvar Saddam e sua família, e, mesmo, o centro do mundo se deslocara desde os tempos bíblicos, não ficava mais entre o Tigre e o Eufrates. Deus que esquecesse sua ligação sentimental com o Oriente Médio, desistisse do Terceiro Mundo e dele, e tentasse um americano, de preferência da Nasa, que teria a tecnologia para fazer a nova arca. E, principalmente, a verba.

E Deus suspirou e o hálito decepcionado do Senhor pairou sobre a Terra condenada. E viu Deus que tinha perdido seu tradicional canal de comunicação com o homem, que era escolher entre os varões o mais justo e reto em suas gerações, e quem consegue falar com os americanos? E seu arrependimento cresceu, e o seu dedo instigador apressou o asteróide na direção da Terra.

Enquanto isso, em Washington, dispensando qualquer aviso analógico e anacrônico de Deus e baseados em cálculos de seus computadores, técnicos levam ao presidente americano a confirmação de que o asteróide se chocará, sim, com a Terra e a destruirá, e que antes de liberar a informação para o mundo é preciso acionar a Operação Arca de Noé 2, a construção de um foguete que salvará um número mínimo de pessoas da destruição, macho e fêmea, começando, é claro, pelo presidente e pela Hillary ou uma estagiária da sua preferência para que ele continue a liderar o mundo livre lá fora. E quem mais?

Instala-se a controvérsia. A arca deve conter apenas americanos, que afinal ganharam a corrida espacial e merecem ou devem levar representantes de outras nacionalidades, mesmo no porão? Todas as raças devem ser representadas ou deve-se aproveitar a oportunidade para acabar de vez com o racismo, levando apenas brancos para a outra terra? Que critérios devem ser usados na escolha dos espécimes humanos? Os mais inteligentes, com sua tendência para a neurose e a miopia, ou os mais jovens, saudáveis e bonitos, com sua dificuldade de raciocínio e seu gosto musical duvidoso? Há um consenso de que o Leonardo DiCaprio deve ser um dos machos salvos da catástrofe, inclusive por uma questão de justiça, já que no Titanic ele morreu. Acabam concluindo que, já que a tecnologia espacial é um subproduto da guerra fria entre o capitalismo e o socialismo e os capitalistas ganharam, a locação de lugares deve obedecer às regras do mercado. Vai quem pagar mais, o que assegurará a sobrevivência dos mais ricos e, portanto, mais empreendedores e capazes, para colonizar a nova terra. Que já começará neoliberal, sem ter que passar por todo o tedioso processo histórico que tanto atrasou a vitória do capitalismo, e o segundo arrependimento de Deus, na Terra. Só fica para ser decidido quem limpará as privadas na lua de Saturno.

E Noé olhará por um buraco da sua tenda improvisada e verá o asteróide ficando maior a cada noite, e meditará sobre a mudança dos tempos. Pois houve um tempo em que para ser o escolhido de Deus bastava ser um varão justo e reto em suas gerações, e estes tempos não são mais, e nunca mais serão.


Provocação


Os sem-terra insistem em existir, no que já está se tornando uma provocação intolerável.

Não há emprego para eles nas cidades, não há terra para eles no campo, e mesmo assim eles teimam em não tomar a única medida que não apenas resolveria seu problema como asseguraria a paz social e devolveria a tranqüilidade à comunidade e às classes produtoras: o suicídio coletivo. Não podem alegar que não são responsáveis pela situação a que chegaram.

Com um mínimo de previdência teriam todos nascido no Canadá, evitando, assim, o atual clima de confronto. Negando-se a desaparecer voluntariamente, os sem-terra dão uma lamentável prova de intransigência e não podem se queixar da radicalização do outro lado.

Noite especial


Gaspar ergue o seu copo de champanhe e olha nos olhos de Patrícia.

― A nós.


― A nós ― diz Patrícia.

― E a esta noite cheia de promessas.

― Que elas se cumpram.

Os dois bebem o champanhe.

― Vamos para a mesa? ― diz Gaspar.

― Vamos.


― Traga o seu copo.

A mesa está posta para dois. Velas acesas no meio.

― Que beleza! ― exclama Patrícia.

― Esta noite tinha que ser especial.

Os dois sentam-se à mesa. A porta da cozinha se abre e aparece a cabeça descabelada de uma mulher.

― Gaspar... ― diz a mulher descabelada.

― Quié? ― diz Gaspar, impaciente.

― Você pode dar uma chegadinha aqui?

― Não posso. Esse é o seu departamento.

― É o suflê. Eu não sei se...

― Vire-se como puder. E não me interrompa mais.

A cabeça da mulher desaparece. Gaspar sorri para Patrícia.

― Desculpe, meu bem. Outro brinde.

Os dois erguem seus copos.

― Ao nosso amor ― diz Gaspar.

― Ao nosso amor.

Entra a mulher da cozinha trazendo coquetéis de camarão.

― Não me responsabilizo por esses camarões ― diz a mulher, colocando os coquetéis na mesa. ― Não estavam com boa cara, não. Comprei na feira e...

― Chega, Matilde. Obrigado.

Matilde se retira. Patrícia começa a botar um camarão na boca.

― Pare!

― Que foi?



― Como você está linda. Com essa luz no seu rosto, esse camarão no seu garfo, a boca entreaberta...

Entra a Matilde outra vez.

― Gaspar, o suflê não vai dar não.

Gaspar, se esforçando para manter a calma:

― Então faz outra coisa, não é, Matilde? E rápido.

Matilde volta para a cozinha, resmungando.

― Essa sua empregada... É folgada, não é? ― comenta Patrícia.

― Empregada? Ah, você pensou que... Não, não, essa é a minha mulher.

Patrícia fica sem fala. Entra Matilde trazendo pão.

― Matilde ― diz Gaspar ―, ela pensou que você fosse minha empregada.

― Antes fosse, minha filha ― diz Matilde. ― Antes fosse. Assim eu pedia minhas contas e ia embora. Ô homem difícil!

Matilde aponta para o coquetel de camarão na frente de Patrícia.

― Já acabou?


Notícias da guerra

Aconteceu outra vez. Como em todas as guerras, a primeira vítima da invasão do Iraque foi a Verdade. Ela foi ferida nos primeiros minutos de luta e quando deu entrada no hospital do Kuwait ― ou num hospital de campanha montado dentro do território iraquiano, as versões divergem ― já estava morta. Foi atingida por um solado iraquiano disfarçado de civil, por "fogo amigo" dos aliados, por uma mina terrestre iraquiana, por uma bala perdida de origem desconhecida, por um míssil disparado pelos americanos contra Bagdá que se perdeu e a feriu junto com outros dez inocentes, por um míssil disparado pelos iraquianos contra o Kuwait que também se perdeu e a feriu junto com outros 20 inocentes ― depende de quem faz o relato. Era morena ou loira, alta ou baixa, magra ou gorda, casada ou solteira ou tudo isso ao mesmo tempo. Sacrificou-se pela libertação do povo oprimido do Iraque ou foi uma vítima da criminosa agressão ao povo do Iraque. Famílias diferentes foram notificadas da sua morte e brigaram pelos seus restos mortais, cada uma reivindicando o corpo para si, inclusive com documentos, certidões, fichas dentárias, etc., sem chegarem a um acordo. É sempre assim. Já se convencionou que só há uma maneira de saber ao certo de quem é, afinal, a Verdade: esperar o fim da guerra para que o vencedor possa, com calma, descrevê-la em detalhes, identificar sinais de nascença e velhas cicatrizes, e acabar com todas as dúvidas. A História mostra que nesses casos a Verdade era sempre do vencedor. E se não era, ficava sendo.

Contam que num determinado vale do Azarbeijão viviam duas etnias: os curtos e os surdos. Os curtos eram em menor número mas mais inteligentes do que os surdos, que de tanto se abaixarem para ouvir o que os curtos estavam dizendo acabaram criando os tortos, que culpam os surdos pela sua condição e vivem em guerra com eles apesar de serem da mesma etnia, apenas com desvio na coluna, o que os torna da mesma altura dos curtos, aos quais se aliaram para controlar todo o petróleo e as concessões Prada e Vuitton na região. Os surdos, na sua luta contra os tortos e os curtos, aliaram-se aos mofas, uma tribo de caçoadores das montanhas, apesar destes gostarem de mover os lábios e fingir que estão falando, para os surdos gritarem "Ahn?" e revelarem sua posição na trincheira ao inimigo, o que os diverte muito. Os americanos tentaram reunir todas essas etnias numa só frente contra o Iraque que teria o nome de "Desert Friends", com uma vaga promessa de visita da Jennifer Aniston à região, dirigida pelo general Mack Truck, também conhecido no Pentágono como "Mack sem Tato", e cujo primeiro ato no comando da operação foi distribuir latinhas do laquê usado pelo presidente americano durante suas apresentações na TV aos líderes das etnias com a bem-humorada mensagem de Bush "Boa sorte com o seu cabelo" escrita, por descuido, em hebraico. Não ajudou o fato de o general Truck, na chegada, desorientado por uma tempestade de areia, gritar para os curtos ouvirem e inclinar-se para falar com a barriga dos surdos, apontando a bunda para os tortos e os mofas, nem a sua preleção a seguir, que terminou com uma debandada geral e indignada dos pretendidos aliados, para grande surpresa de Truck. De volta a Washington, Truck foi avisado que a única coisa que unia as quatro etnias era o seu ódio aos turcos, que volta e meia invadiam o vale para estuprar as suas cabras e roubar suas mulheres, e que não pegara bem seu anúncio de que, para maior eficiência da operação, ela seria comandada por turcos. "Por isso que eu odeio a política" teria dito Truck, lamentando que o mundo não fosse dividido em apenas duas etnias, nós e eles, o que o tornaria bem mais manejável, antes de voltar para a região, desta vez levando dinheiro.

Eu sei, eu sei, é inviável. Mas por que não deixar que o Deus de Bush e o Deus de Saddam, tão invocados pelos dois, resolvam a questão num nível mais alto? O Deus cristão e o Deus do Islã, que devem ser vizinhos, poderiam se reunir para decidir tudo no braço ou no par ou ímpar, ou pelo menos estabelecer algumas regras básicas para a lisura do conflito.

― Tempestade de areia, não, Alá.

― Ah, é? B-52 pode, mas tempestade de areia não?

― Não é a mesma coisa, meu velho. Eu tenho que respeitar a cadeia de comando, e ninguém ouve os meus representantes na Terra. Nem o papa! Mas você tem o controle direto sobre os ventos do deserto.

― Tinha. Agora é com o deus de outra facção.

Eu sei, eu sei, é inviável.


Nova York e eu

As bombas atômicas tinham sido lançadas no Japão semanas antes e multidões comemoravam o fim da Segunda Guerra Mundial no Times Square, mas a única coisa que lembro da primeira vez em que estive em Nova York é de duas mulheres que passeavam nuas dentro do seu apartamento e que eu via da janela do nosso hotel. Duas americanas muito brancas, indiferentes à sua janela aberta e ao meu olhar maravilhado e ao fato de que acabáramos de entrar, todos, na era nuclear. Na certa preparavam-se para também ir ao Times Square beijar marinheiros. Eu ia fazer 9 anos. Tínhamos chegado da Califórnia, onde passáramos dois anos, para pegar um navio de volta para casa. O navio era um cargueiro argentino chamado Jose Menezes, o primeiro a fazer a viagem de Nova York para o sul depois da rendição dos japoneses. Lembro da viagem porque aniversariei a bordo e porque um dos nossos companheiros era o Paulo Gracindo, que nos divertia fazendo a voz do Sombra, o personagem que interpretava no rádio. Mas não lembro mais nada de Nova York em 1945 salvo as mulheres brancas.

Oito anos depois, voltamos. Meu pai estava indo dirigir o departamento cultural da Organização dos Estados Americanos, substituindo o Amoroso Lima.

Chegamos a Nova York de navio. Minha mãe se recusava a viajar de avião, fomos fregueses freqüentes da linha Moore-McCormak. Primeira sensação:

televisão no quarto do hotel! Ficaríamos alguns dias na cidade antes de ir para Washington. Saí a explorar Nova York sozinho, agora com a liberdade e a curiosidade dos 16 anos. No velho e gigantesco teatro Paramount, que não existe mais, o show depois do filme era com o ídolo da juventude do momento e novo Frank Sinatra. Eddie Fisher, que também não existe mais, embora, parece, continue vivo. Felizmente, mal pude ouvi-lo, porque as meninas à minha volta na platéia não paravam de gritar cada vez que ele abria a boca.




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