Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Não foi exatamente o fim de uma guerra mundial ou o começo de uma era, mas não deixou de ser um momento histórico. Sim, vi o Eddie Fisher num instante extremo da sua glória fugaz.

Em Washington, onde moramos durante quatro anos, sempre que dava eu pegava minha escova de dentes e me mandava, de ônibus, para Nova York. Passava dois ou três dias entrando e saindo de museus e cinemas, me alimentando de hambúrgueres e milk-shakes e, à noite, indo ao Birdland onde, uma vez ― como não canso de contar ― vi o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie tocando juntos, e suspeito que o pianista era o Bud Powell. Por alguma razão, nunca fui barrado na entrada do Birdland, apesar de não ter idade para estar ali.

Você podia sentar numa seção lateral só para ouvir a música, sem precisar beber. Nenhuma emoção musical que tive antes ou depois se compara à de ouvir a orquestra do Count Basie, espremida no palco, o seu som poderoso tornado ainda mais aplastante pelo teto baixo do Birdland, em ação. No Birdland vivi vários momentos históricos ― pelo menos da minha história particular de ouvinte.

Certa vez decidi gastar menos ainda do que normalmente gastava nas minhas rápidas excursões a Nova York e fiquei num hotel ao lado da rodoviária. Todo o interior do hotel era mal iluminado por lâmpadas azuis, acho que para dificultar o trabalho de identificação de testemunhas na polícia, depois, e a diária era de dois dólares e meio. Não é preciso descrever um quarto de dois dólares e meio, mesmo descontando-se o fato de que naquela época o dólar valia mais. O lençol não tinha sido mudado, calculei, desde a administração Roosevelt e as paredes dos cubículos não iam até o teto, de sorte que passei a noite inteira ouvindo mais ruídos corporais dos meus vizinhos do eu pensava que existissem. Na verdade não passei a noite inteira: de madrugada desci pela escadaria azul e me mandei do hotel. Fiquei caminhando por Manhattan até o nascer do sol e depois fui me registrar no velho e confiável Wentworth, na Rua 46, onde pelo menos tinha certeza de que nenhum fato histórico ― como ser carregado por baratas ou morrer asfixiado no meio da noite ― me aconteceria.

Em 1980 eu, a Lúcia e os filhos passamos uma temporada de quase um ano em Nova York. Foi o ano em que mataram o John Lennon. Lembro que interromperam a transmissão de um jogo de futebol para dar a notícia. Passei uma matéria sobre o assassinato para o jornal pelo telefone e fiquei acompanhando, pela TV, a vigília dos jovens no Central Park, em frente ao lúgubre edifício Dakota, onde antes da morte de Lennon o único acontecimento histórico tinha sido a concepção e o nascimento do bebê de Rosemary. As pessoas acendiam velas, se abraçavam, cantavam, sem saber exatamente o que acontecera, e porquê. As crianças foram para o parque no dia seguinte mas eu não quis ir.

Mantive, escrupulosamente, a TV entre o fato e a minha percepção direta dele e das suas conseqüências. Não estava mais em idade de acreditar no que Lennon representava para os jovens, na sua fase de guru, mas, que diabo, os Beatles tinham sido importantes para a minha geração, aquela morte estúpida matara algum tipo de expectativa na minha vida também e eu não queria estar presente nas suas exéquias floridas.

Nos anos seguintes, estivemos várias vezes em Nova York. Desenvolvemos alguns hábitos nova-iorquinos, naquela boa intimidade que a gente vai criando com os lugares de que gosta. Comer sanduíches de pastrami era sempre no Bernstein da 3.ª Avenida. Não podia faltar a espera na rua para assistir à segunda apresentação da noite no Blue Note ― se o músico que estivesse se apresentando valesse a espera na calçada, claro. Eu voltava sempre a algumas livrarias favoritas, mas algumas me traíram e foram desaparecendo ao longo do tempo. Acompanhamos a lenta europeização de Nova York, os tradicionais coffee shops atendidos por velhas garçonetes de cabelo laqueado sendo substituídos por falsos bistrôs atendidos por representantes de todas as raças do mundo, e o café aguado, misericordiosamente, dando lugar ao capuccino e ao expresso. Não fazíamos muitos programas turísticos. Vimos o Bobby Short e o Woody Allen no bar do Hotel Carlyle. Uma vez fomos jantar no Windows on the World, no topo de uma das torres do World Trade Center. A vista era melhor do que a comida. Não, desculpe, não tive nenhum tipo de premonição. Uma vez ficamos presos no hotel porque estava chegando um furacão que, de acordo com as previsões, arrasaria boa parte da cidade. Não derrubou uma árvore. Depois disso achei que Nova York já se parecia tanto com a nossa casa que eu não teria mais nada de extraordinário a acrescentar às minhas lembranças dela. Nossa casa, por definição, é o lugar onde a História não acontece.

Na manhã de 11 de setembro estávamos em Nova York. Eu lia o New York Times ainda na cama e a Lucia tinha acabado de sair do banho. Tocou o telefone.

Era a minha irmã, de Washington. "Liguem a televisão", disse ela. Liguei no momento em que o segundo avião se aproximava da torre do sul.




Novos loucos

Novos tempos, novas loucuras. As pessoas tinham pesadelos com automóveis, quando aqueles primeiros monstros barulhentos começaram a aparecer nas ruas.

Outras foram tomadas pelo delírio de voar, depois das primeiras experiências com aviões, e atiravam-se de penhascos com asas mecânicas às costas, abanando-as furiosamente até se esborracharem lá embaixo. A eletricidade despertou a imaginação criativa de muita gente. Minha mãe conta que o pai dela fazia todos em casa se darem as mãos e depois enfiava um metal na tomada de luz: o choque que percorria a família inteira só podia fazer bem.

Isto talvez explique o subseqüente comportamento estranho de alguns descendentes. De acordo com a lógica que diz que com a invenção do fogo, inventaram o piromaníaco, cada nova técnica inaugura uma nova forma de loucura.

Como a da Jussara, por exemplo. Jovem executiva, dinâmica, sem tempo a perder, foi a primeira do seu grupo a usar o celular de ouvido, aquele que permite a pessoa ficar em permanente contato com o mundo, com as mãos livres. No outro dia, conta a Jussara, ela teve o seguinte diálogo pelo seu fone atachado.

― Alô.


― Alô?

― Quem é?

― Eu.

― "Eu" quem?



― Pra quem você ligou?

― Quem fala?

― Hein?

― Eu quero falar com a Jussara.

― É a Jussara que está falando!

Juro, conta a Jussara. Eu estava falando comigo mesmo. Não me lembro se fui eu que liguei ou eu que atendi. Encerrei a conversa imediatamente, claro.

Mas fiquei em pânico. Como aquilo podia ter acontecido? Procurei ajuda médica. O médico não ajudou. Disse que era uma alucinação, que eu precisava de descanso, e principalmente de tirar aquele fone do ouvido. Como eu posso fazer isso? E as chamadas que preciso receber o dia inteiro? E se eu mesmo estiver tentando me dar uma informação importante? E acho que não posso mais tirar o fone do ouvido. Não tiro nem para tomar banho. Ele e o ouvido já se integraram, já nasceu uma pelezinha, só tirando com o ouvido junto. Com licença... Alô. Jussara. Quem fala? Alô?

A palavra "atachado", aí em cima, não existe, claro. É um aportuguesamento de "attached", computês que quer dizer, ahm, assim, hmm, bem... "atachado".

O computador também está criando muitos malucos novos. Como o Marco Tulio, que recebe e-mails do além, e responde. Marco Tulio garante que já se correspondeu com o papa Inocêncio III, Vitor Hugo, os marechais Deodoro, Rondon e Tito, Mata Hari, Roy Rogers, Carlos Gardel, Cristóvão Colombo, Frank Sinatra, Lucrecia Borgia ("Uma simpatia!"), Moisés, Ankito, etc.

Descobriu o "chat room" em que todos se reúnem por acaso e não há dia em que não se comunique com um deles. Segundo Marco Tulio, como é difícil encontrar um assunto comum a todos, eles acabam trocando idéias sobre o equipamento de cada um.

― Vocês sabiam que o Voltaire tem um Pentium 4 com 256 megabytes de memória e processador de 2.4 hz?

Velhas superstições ganham novos adeptos com as novas técnicas. Tem gente que acredita que as câmeras fotográficas digitais não apenas capturam a alma do fotografado como a transformam em microimpulsos que sobem para formar um cinturão eletrônico em volta da terra, onde a mistura com o ozônio impedirá sua redenção final. Velhas crenças em misturas mortais, como a do leite com melancia, crescem para incluir, por exemplo, misturar "Subcomandante Marcos", tequila com pimenta e Prozac, e "magret de canard" antes de pular numa piscina, se você usa botox. Quem tem silicone deve passar pelos detetores de metais dos aeroportos de costas, senão os seios podem explodir. Guardar o viagra numa cesta com ovos frescos por uma noite e fazer o sinal da cruz antes de ingeri-lo aumentam sua eficácia.

Etcetera, etcetera.

Novos tempos


Sala de espera de maternidade. Cinco homens nervosos caminham de um lado para o outro. De repente, um deles pára de caminhar. Hesita, limpa a garganta e diz:

― Pessoal...

Os outros param e olham para ele.

― Eu acho que nós devemos nos preparar.

Os outros se entreolham. Um diz:

― Nos preparar para quê?

― Segundo as estatísticas, um em cada cinco bebês que nascem no mundo, hoje, é chinês.

― E daí?


― Somos cinco. Nossas mulheres estão tendo filhos ao mesmo tempo. Devemos nos preparar para a possibilidade de um dos nossos filhos ser chinês.

― Que absurdo!

― É a estatística.

― Mas geneticamente, é impossível que...

― Quem falou em genética? Não tem nada a ver com genética. A genética tradicional é uma relíquia de outros tempos. Ainda funciona, mas é um símbolo de outra era, como a locomotiva. Estamos falando de estatística, de teoria das probabilidades, de geopolítica.

― Mas se o meu filho for um chinês...

― Está aí. Esse pensamento também é obsoleto. Você precisa parar de pensar em termos de "meu filho", "minha família", "meu país". Ele não é o seu filho. Isso acabou. Ninguém mais tem um filho. Tem um dado, se for homem, e uma cifra, se for mulher. Ele ou ela é uma unidade demográfica, pertence a um ecossistema integrado cuja variação mínima afeta a vida e o futuro de todo o planeta. A quantidade de ar que aspira e expira não é uma consideração doméstica, ou apenas da vizinhança próxima. Interessa a toda a humanidade. O xixi e o cocô que produz não é uma questão de fraldas, é uma questão de sobrevivência da espécie. Até o volume da sua papinha é uma variável nas previsões dos recursos da Terra. Ele é um filho do planeta. Portanto, é grande a possibilidade de que seja um chinês.

― Mas eu é que vou mudar as suas fraldas e dar a sua papinha. Ou pelo menos a minha mulher. A China não vai ajudar. Mal pode com os chineses que já tem.

― Por isso eu repito: precisamos pensar no que fazer. Se um de nós for o pai de um chinês. Temos que nos adaptar aos novos tempos.

Todos ficam em silêncio, pensando.

― Se o chinês for o meu, eu fico com ele.

― Sei não. Vai ser difícil explicar...

― Explicar o quê? O presumível adultério da sua mulher com um oriental? Isso também não existe mais! Com a nova engenharia genética, fertilização artificial, septúpulos nascendo a três por quatro, clonagem, et cetera, quem pensa mais nisso? Se sua mulher desse à luz sete ovelhas, seria um fato jornalístico, mas não um fato matrimonial. As pessoas especulariam sobre suas experiências em laboratório, nunca sobre a sua conduta moral. A cara do bebê não prova mais nada. Estão abolidas todas as piadas sobre o vizinho, o padeiro ou, no caso, o dono da fruteira.

― É...


― Quem receber o chinês deve agir com naturalidade. E os outros não devem fazer qualquer comentário. Devemos agir, literalmente, como homens do mundo. Se nascer um chinês aqui, hoje, terá sido, apenas, uma decorrência estatística. Nada mais moderno.

― Certo.


― De acordo.

― Concordo.

― Oquei.

Os cinco voltam a caminhar de um lado para o outro, agora com a expectativa e o nervosismo redobrados diante da perspectiva do chinês. Um deles sacode a cabeça e diz:

― Essa globalização...

O 'Valet de Chambre'


― Simão...

― Sim, dr. Pinto.

― Vou ter de despedi-lo.

― Sim, dr. Pinto.

― Não posso mais pagar um "valet de chambre".

― Sim, dr. Pinto.

― Ninguém mais pode, hoje em dia. Eu acho que era o último brasileiro que ainda tinha "valet de chambre". Depois da morte do Raimundo, seu ex-patrão, que descanse em paz.

― Amém, dr. Pinto.

― Não sei se vou poder pagar o que lhe devo, Simão.

― Eu entendo, dr. Pinto.

― O fato é que não tenho mais dinheiro para nada. Minhas empresas faliram todas. Não tenho mais crédito em lugar algum. Já vendi tudo que eu tinha. Não tenho mais nem o dinheiro da cômoda, que estava guardando para uma emergência. A emergência chegou, mas o dinheiro da cômoda sumiu.

― Eu sei, dr. Pinto.

― Você sabe, Simão?

― Fui eu que peguei o dinheiro, dr. Pinto.

― Você?!

― Venho roubando do senhor desde que vim trabalhar aqui, depois que o dr. Raimundo morreu. Antes roubava do dr. Raimundo. Antes, roubava do dr. Guedes. Antes, do...

― Mas o que você faz com todo esse dinheiro, Simão?

― Movimento no mercado de capitais.

― Você deve estar rico, Simão.

― Não posso me queixar, dr. Pinto.

― E por que continua trabalhando como "valet de chambre"?

― Porque pessoas como o senhor precisam de "valets de chambre" e eu preciso de pessoas que precisam de "valets de chambre". É o que eu faço, dr. Pinto. Eu não existiria se não tivesse alguém como o senhor para vestir, perfumar, escovar, aconselhar e roubar. É o meu métier.

― Bom, você não terá mais o que roubar de mim. Estou quebrado, arruinado, falido.

― Sim, dr. Pinto.

― Com todo o dinheiro que já juntou, por que você ainda não se aposentou?

― E quem seria o seu "valet de chambre", dr. Pinto? O senhor precisa de mim para viver. E para morrer...

― Por falar nisso. O que se deve usar num suicídio?

― Depende de como o senhor pretende se matar, dr. Pinto. O dr. Raimundo preferiu atirar-se por uma janela. Eu sugeri algo elegante, mas discreto, que não chocasse demais na calçada, onde a sua chegada já seria atração bastante. E uma echarpe de seda branca, que daria um bom efeito na queda. Já o dr. Guedes escolheu um tiro na têmpora e estava indeciso entre uma camisa branca, para realçar dramaticamente o sangue, e um blazer bordeaux, para disfarçá-lo. Acabamos nos decidindo pelo branco, para o sangue aparecer mais nas fotografias e deixar bem marcado o seu protesto contra a situação de insolvência a que tinha chegado. Já o dr. Adriano...

― Todos os seus patrões se suicidaram, Simão?

― Sim, dr. Pinto.

― Depois que você roubou os seus últimos centavos.

― Centavos, reais, dólares... Mas sempre os últimos. Os da cômoda. Os primeiros eles perderam na atual conjuntura, que não é da minha responsabilidade.

― Você roubava o que sobrava, depois que o governo acabava com eles.

― Sim, dr. Pinto.

― Além da roupa e do mise-en-scène para o suicídio, você fornece o motivo.

― Acho que um bom "valet de chambre" deve cuidar de tudo.

― Você é bom, Simão. Muito bom. Eu não poderia ter vivido nestes últimos tempos sem você. Nós nos completávamos, você não acha?

― Perfeitamente, dr. Pinto. Eu preenchia a sua necessidade de ter um "valet de chambre", o senhor preenchia a minha necessidade de servi-lo e roubá-lo.

― Mas não era só isso. Havia uma... uma... comunhão. Não é mesmo?

― Sem dúvida, dr. Pinto. Sempre há uma comunhão entre um bom "valet de chambre" e seu patrão. Um bom "valet de chambre" substitui o espelho do patrão. Ele é quem mostra o que fica bem e não fica bem no patrão, o que ele deve vestir e como deve usar a gravata, o cabelo e o chapéu, e alertá-lo para qualquer imperfeição na sua imagem. Exatamente como um espelho. Com a vantagem de ser um espelho que não apenas mostra o defeito como sugere a correção, e ainda vai buscá-la. Se não pode ter a cara do patrão, o "valet de chambre" deve ter o seu ar e a sua elegância. Além disso, quando um "valet de chambre" borrifa seu patrão com perfume, borrifa a si mesmo e estabelece a maior comunhão de todas.

― Qual?

― Os dois cheiram igual.

― E com tudo isso você está me levando ao suicídio.

― Perdão, dr. Pinto. O senhor está se levando ao suicídio. Eu só estou aqui para assessorá-lo.

― Que tipo de suicídio você sugere?

― Qualquer coisa menos cortar os pulsos e botar a cabeça dentro do fogão. Nada combina com pulsos cortados, e não há maneira elegante de morrer com a cabeça dentro de um fogão.

― O que seria de mim sem você, Simão?

― Obrigado, dr. Pinto.

― E o que será de você sem mim, Simão?

― Como assim, dr. Pinto?

― Não vai ser fácil você arranjar emprego como "valet de chambre". Não há mais ninguém em condições de ter um "valet de chambre" no Brasil, com essa política do Governo de acabar com o empresariado nacional. O Raimundo se foi, o Guedes se foi, o Adriano se foi... Aliás, foram com a sua ajuda. Você, sem saber, estava acabando com o seu próprio futuro, Simão. Sem patrão, não existe "valet de chambre". Não existe mais comunhão.

― É verdade...

― É do seu interesse que eu continue vivo, Simão.

― Mas, sem dinheiro...

― Por que você não me empresta dinheiro, Simão? Pode ser o que você roubou da cômoda. Eu recomeçaria. Em pouco tempo lhe pagaria tudo que você tirou de mim, mais os juros.

― É uma boa idéia. O senhor continuaria vivo e eu continuaria "valet de chambre". O que o senhor me daria como garantia para o empréstimo?

― Garantia?

― Sim. Imóveis. Negócios. Títulos...

― Mas, Simão, como meu espelho, você sabe melhor que ninguém que eu não tenho mais nada. É por isso que eu preciso do seu empréstimo.

― Nesse caso, dr. Pinto, sinto muito.

― Simão, você estava na profissão errada. Sua vocação não era "valet de chambre". Era outra.

― Qual, dr. Pinto?

― Banqueiro.

― É mesmo, dr. Pinto? Que alívio. Isso significa que o senhor pode morrer sem que eu morra também. Não preciso mais ser "valet de chambre". Vou ser banqueiro!

― Mas como banqueiro você também precisa que eu viva, Simão. Empresa e banco são como o patrão e seu "valet de chambre". A comunhão é a mesma!

― Ridículo, dr. Pinto. Meu banco não quer negócio com quem não tem nada. Sugiro que o senhor se suicide com pílulas para dormir. Assim poderemos vestir o nosso robe de seda e o senhor será encontrado na cama numa posição contemplativa de extremo bom gosto.

― Simão... Nós cheiramos igual, Simão!

― Por favor, dr. Pinto. Sem sentimentalismos.


O apagador de pirâmides


Descobriram que o cérebro do Einstein tinha uma anomalia. Uma deformação justamente na área que a gente usa para pensar no Universo e fazer cálculos abstratos, e que nele era maior do que o comum. De modo que você não precisa mais se sentir humilhado com os feitos mentais do homem que não apenas deduziu as leis da matéria como "sacou", no sentido de tirar do nada, teorias que só agora estão sendo comprovadas. Da próxima vez que mencionarem o gênio de Einstein na sua presença você pode dizer: "Também, com aquele cérebro, até eu."

Mas o tamanho do cérebro não determina, necessariamente, o tamanho da inteligência. O homem de Neandertal, que até pouco tempo era considerado nosso antepassado (hoje se especula que é o antepassado só de jogadores de rúgbi, aqueles cujo capacete protetor é o próprio crânio, e do Jair Bolsonaro) tinha um cérebro maior do que o nosso, além de uma estrutura óssea e muscular mais desenvolvida, mas não conseguia nem falar e deu em nada como espécie. Há uma tese segundo a qual, como o seu tempo de gestação era mais longo, o homem de Neandertal já nascia pronto e não precisava daquele período em que a gente depende totalmente da mãe, com o pai fazendo papel de palhaço do lado e a vovó atrás dando palpite, que é quando se forma a cultura humana. E com todo o seu tamanho o cérebro do homem de Neandertal não tinha nenhum dispositivo para a fala. Sem uma linguagem, ele foi um fracasso. A espécie durou 80 mil anos e desapareceu sem deixar um vaso, um palito, um chaveirinho. Só os seus grandes ossos.

Outra tese é que em todo embrião humano, até um certo estágio, o cérebro cresce como o de um embrião de Neandertal. Se não fosse a interferência de um novo código genético que cancela o primeiro, nasceríamos com o mesmo tipo de cérebro e ainda estaríamos nos comunicando às tacapeadas. As novas instruções são para o cérebro sofrer uma espécie de depuração, em que ele é, para todos os efeitos, editado. Fica um cérebro menor, mais compacto, mais ágil e, o que é o principal, com espera para a fala. Há nisso uma lição da biologia para os autores muito prolixos: cortem, cortem. O cérebro humano é o exemplo mais bem acabado que existe das virtudes de uma boa revisão. E a predisposição para a síntese está nas nossas células.

Uma área fascinante da neurologia que não recebe a atenção merecida, ou recebe e eu é que não sei, é a da somatização. Da doença imaginária que o corpo, por assim dizer, encampa e desenvolve. Muito da história do mundo ― certamente da história da religião ― pode ser explicado pelo fenômeno da somatização, que não deixa de ser uma forma de milagre. Numa gravidez histérica a menstruação é interrompida, a barriga cresce durante nove meses e sua única diferença de uma gravidez real é que o bebê não está no ventre, mas no cérebro da mulher. Se o cérebro tem esse poder, então quem tem poder sobre o cérebro pode tudo, inclusive curar a doença imaginada e somatizada. Aí a diferença entre o charlatão e o facultativo ― ou o santo ― fica difusa. Tão difusa quanto a diferença entre o mal que existe mesmo e o mal que está só no cérebro do "doente". Ou o mal que paralisa ou faz ferida é menos mal por ser imaginado? A questão é definir o significado de "existe mesmo". Uma alucinação é tão real quanto o que "existe mesmo", para o alucinado.

Num espetáculo de hipnose a admiração das pessoas é geralmente dirigida para o lado errado. Não há nada de incomum no hipnotizador, que pode ser qualquer um. Você hipnotiza quem quiser, desde que o outro esteja convencido de que você pode. Pegue alguém na rua, introduza-o num grupo como Salam, o Mago Hipnotizador, com ou sem turbante, e imediatamente metade do grupo estará pronta para dormir, virar tábua, imitar uma galinha ou fazer qualquer outra coisa que ele mandar. O extraordinário na hipnose é essa vulnerabilidade da mente humana, esta avidez inconsciente pelo auto-abandono e pelo controle por outra. Nem o ceticismo e a racionalização garantem sua defesa: você pode saber que o Salam é falso e não tem poder mágico algum, mas o seu cérebro ― ou aquela parte do seu cérebro que você não conhece, e que nem lhe pertence ― pode ter outra idéia, e se entregar. O seu cérebro pode estar apenas esperando uma voz de comando. Qualquer voz de comando.

O terrível não é que a gente nunca sabe o que os outros têm na cabeça. O terrível é que não sabemos o que nós temos na cabeça. Apenas portamos as mensagens, que não abrimos, que estão sob a nossa guarda, mas não são para o nosso conhecimento. Nossa sina na Terra é a mesma dos carteiros honestos.

O último paradoxo é que o cérebro humano é uma coisa tão complexa que nem o cérebro humano consegue entendê-lo.

E chegamos a Jorge Luis. Ninguém como o Borges descreveu como todo o mundo está no nosso cérebro, ou como o nosso cérebro é todo o mundo. Tem um poema em que ele diz que, com a sua morte, apagará as pirâmides, nem uma estrela restará na noite e nem a noite sobrará, e que com ele morrerá o peso do Universo. E que o seu legado será o Nada, para ninguém.


O botãozinho


O ministro leva um susto.

― Como você entrou aqui? Quem é você?




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