Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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O homem sorri com seus dentes pontudos. Tem os cabelos engomados e dois caroços na testa que podem ser chifres. Pede calma. Afasta o rabo e senta na cadeira em frente do ministro.

― Sou um admirador seu ― diz.

― Que cheiro horrível é esse? ― pergunta o ministro.

O homem suspira.

― Eu sei, eu sei. Não consigo disfarçá-lo. Já usei todas as loções masculinas. "Brut", "Animal", "Eau de Troglodyte". Nada adianta.

― O que você quer?

― Vim lhe fazer uma proposta.

― Uísque? ― oferece o ministro.

― Obrigado. Não bebo.

― Pensei que você tivesse todos os vícios.

― Engano. Nunca provo da minha própria mercadoria.

― Eu bebo moderadamente ― diz o ministro.

― Ah, a moderação. O pior dos hábitos humanos, do meu ponto de vista.

― Um cafezinho? Uma água?

― Talvez uma água.

― Com gás?

― Por que não? Não sou um asceta completo.

― O que eu queria lhe propor... começa o visitante.

― Já sei. A minha alma, em troca dos seus favores.

― Não faço mais negócio com almas.

― Por quê não?

― Bem, você sabe. O conceito de alma, hoje, está um pouco difuso. Estes não são tempos metafísicos. Místicos, talvez, mas não metafísicos.

― Qual é a diferença?

― O misticismo é a metafísica dos simples e dos assustados, não a dos filósofos. Não há mais futuro no tráfico de almas. O produto é perecível. Há muita falsificação.

― Muita alma paraguaia...

― Exatamente.

― Olha a sua água.

― Obrigado.

― Qual é a proposta, então?

O homem inclina-se para a frente para ter acesso ao bolso de onde tira uma caixinha, que coloca sobre a mesa do ministro. Abre a caixinha. Dentro há um botãozinho.

― O que é isso?

― Uma invenção minha. Você faz um pedido, aperta este botãozinho e pronto.

Seu pedido é atendido.

― Só aperto o botãozinho? Nada mais?

― Só aperta o botãozinho. Sem compromisso, sem condições, sem cláusula oculta, sem mais nada. Você faz o pedido e aperta o botãozinho...

― E pronto.

― E pronto. Seu pedido é atendido.

― Que tipo de pedido?

― Depende de você. O que você mais quer, neste momento?

― A inflação sob controle, a economia estabilizada, o bom nome do País com os investidores estrangeiros e, claro, a aprovação do FMI.

― Fácil! É só apertar o botãozinho.

― Deixa eu ver se entendi. Eu aperto o botãozinho...

― Morrem 1 milhão de pessoas e seu desejo se realiza.

― Morrem 1 milhão de pessoas?!

― Eu não tinha mencionado isso? Morrem 1 milhão de pessoas, mas tudo que você pediu acontece.

― Que pessoas são essas?

― Você não conhece.

― São deste país?

― Sim, mas você nunca as vê. Você não notará a diferença. Pensando bem, do jeito que elas vivem, nem elas notarão a diferença.

― Mas são seres humanos!

― Você está encarando isto da maneira errada. Não pense em 1 milhão de pessoas como seres humanos, pense nelas como um detalhe. Pense nelas como um botãozinho.

― Mas...

― Você estará sacrificando 1 milhão hoje, mas beneficiando muitos milhões que virão. Pode apertar o botãozinho várias vezes. Matará mais alguns milhões, mas também beneficiará mais muitos milhões em menos tempo. Tudo isto se...

― Se?


― Se está mesmo convencido que o caminho é este. Que os sacrifícios de hoje valerão a pena. Que os sacrificados de hoje não terão se sacrificado em vão, por uma hipótese. Você está ou não está convencido que o caminho é este e não há outro?

― Estou.

― Então aperta o botãozinho. O que é uma maldade com poucos para o bem de muitos. E lhe asseguro que nenhum dos que morrerão é seu parente.

― Vamos fazer o seguinte: eu faço o pedido, você aperta o botãozinho.

O homem recostou-se na cadeira com um sorriso decepcionado ― Você não entendeu nada, não é? Eu não faço maldades. Fazer ou não fazer maldade é uma questão de opção. Eu sou o próprio Mal, eu não tenho opção.

O ministro estava olhando fixo para o botãozinho. Se apertasse várias vezes o botãozinho, sacrificaria vários milhões ao mesmo tempo, mas apressaria a chegada do futuro.

― Vamos ― disse o visitante. ― Se você está convencido que o caminho é este, aperte o botãozinho e garanta o seu sucesso.

O ministro suspirou.

― Por que você está fazendo isso comigo? ― perguntou.

― Curiosidade intelectual. Digamos que eu sou um estudioso do comportamento humano.

Neste instante o ministro acordou, olhou em volta e respirou aliviado.

Felizmente, fora tudo um sonho. Ele precisava parar com aquelas sestas em cima da mesa de trabalho depois de almoços pesados. Tinha muito o que fazer.

E apertou o botãozinho.

O Cicatriz


A coisa não anda? A coisa não vai? Sua vida enguiçou? Chame o Cicatriz.

Você foi despedido? Quer matar o seu chefe? Nada mais fãcil...

Chame o Cicatriz.

Seu negócio vai mal, você tem que despedir 117 pessoas, mas não sabe como dizer pra elas?

Chame o Cicatriz.

O Cicatriz diz.

O Cicatriz tem cara pra tudo.

O Cicatriz vai lá, o Cicatriz enfrenta, o Cicatriz resolve.

E o Cicatriz não cobra nada!

Ele não é um justiceiro. Justiça, nem sabe o que é. Também não é bandido. A cicatriz que atravessa a sua cara como um raio é só pra impressionar.

Problemas de amor?

Deixe com o Cicatriz.

O Cicatriz sabe exatamente o que fazer para acabar com um caso ― ou sumir com ele, se for o caso. Se é só para dizer umas verdades, aquelas verdades que você não conseguiria dizer sem gaguejar, aquele insulto na medida, o Cicatriz é o homem certo. O Cicatriz tem a palavra exata. Ninguém sabe arrasar os outros como o Cicatriz, ninguém ganha do Cicatriz numa discussão.

E o Cicatriz nunca gagueja.

O Cicatriz não garante que não haverá sofrimento, corações partidos ou crises de nervos quando disser as suas verdades, mas aí o culpado não será você, será o Cicatriz. Se você preferir, o Cicatriz nem contará como foi.

O Cicatriz é isso ― a sua cara, sem você estar lá.

Inimigos que precisam ser jogados de um lugar alto para meditarem, na queda, sobre o que fizeram a você?

O Cicatriz conhece o precipício perfeito.

Credores? Você não pode pagá-los, não tem mais desculpas para não pagar e não sabe o que fazer?

Um trabalho típico para o Cicatriz.

Primeiro o Cicatriz tentará anular a sua dívida. Depois o Cicatriz tentará renegociar a sua dívida. Depois o Cicatriz eliminará o credor, que afinal teve duas oportunidades para ficar vivo e não as aproveitou, e o dissolverá em ácido. Enquanto isso, você estará em viagem, estabelecendo o seu álibi, com dinheiro que teve a cara-de-pau ― ou a cara ameaçadora do Cicatriz ― de conseguir de outro credor. Que receberá uma visita do Cicatriz quando chegar a hora de pagar.

Não há o menor perigo de ligarem o Cicatriz a você. Se o pegarem ― hipótese improvável, já que o Cicatriz, também, sempre tem um álibi ― ele jamais entregará você. O Cicatriz é fiel. O Cicatriz é de fé. O Cicatriz, por exemplo, jamais usaria tudo o que sabe sobre você e o destino terrível dos seus desafetos e atravancadores para chantageá-lo. O Cicatriz é perfeito.

Sabendo que você pode chamar o Cicatriz, ninguém mais o incomodará.

Com o Cicatriz, você se livrará de todos os seus problemas.

Com o Cicatriz, você atingirá a felicidade completa.

Chame o Cicatriz!

Onde encontrar o Cicatriz? Aí é que está. Ninguém sabe. Ainda não se descobriu como fazer contato com o Cicatriz. Deixar recados em lugares que ele supostamente freqüentaria não tem dado certo. O Cicatriz, aparentemente, nunca vai a estes lugares, ou vai disfarçado. Já tentaram botar anúncios nos jornais. "Cicatriz, tenho um serviço para você. Telefone para..." Sem resultado. Há muita gente à procura do Cicatriz. Muitos o procuram desde criança, quando precisavam de alguém para protegê-los no pátio da escola ou dar uma lição no professor de matemática. Alguns pensam que já o viram, e identificaram pela cicatriz que atravessa a sua cara como um raio, mas não têm certeza. Pouco se sabe da sua biografia, dos seus hábitos, dos seus motivos para fazer o que faz. Só o que se sabe é que ele é implacável, é infalível, é tudo que a gente não é e tudo que a gente quer. Mas, por mais que se procure, não se encontra o Cicatriz.

É o seu único defeito.


O congresso


O1º Congresso Mundial de Hipocondríacos começa com um coquetel em que ninguém toca nas bebidas ou nos canapés, com medo de que façam mal. Comentários ouvidos:

― Isso não faria bem pra minha gastrite.

― Isso não passaria pela minha laringe.

― Isso não pararia no meu estômago.

― Câncer?

― Terminal. Tenho desde criança.

― Garçom, não se consegue uma canjinha, não?
* * *
Como em qualquer congresso, novas amizades são feitas, e às vezes mais do que amizades. Como aquele casal que se conhece no coquetel e na mesma noite já está num quarto do hotel.

― Aí, aí, oh, sim, aí.

― Aqui?

― Aí, aí. Não tem um caroço?



― Não estou sentindo...

― Mas tem. Procura bem que tem.


* * *
Conhecidos se encontram.

― Ô, rapaz. Mas você está péssimo!

― Obrigado. Você também está com um aspecto doentio.

― Você acha? Gentileza sua.

― A última vez que nos encontramos foi, foi...

― Naquela clínica de check― up.

― Claro!

― Não tenho visto você por lá.

― Mudei de clínica. Naquela eles nunca encontravam nada!
* * *
E, como em todos os congressos, há os discursos.

― Senhores congressistas, sua atenção por favor. Acho que todos concordam que o nosso Congresso de Hipocondríacos foi um sucesso. E este foi apenas o primeiro. Outros virão. Infelizmente, muitos dos que estão aqui hoje não participarão do congresso do ano que vem... Eu mesmo acordei esta manhã com umas pontadas do lado e acho que não passo deste mês. Mas outros tomarão nosso lugar, na defesa desta causa tão incompreendida. Sim, fazem pouco de nós. Riem-se das nossas queixas. Não acreditam nas nossas doenças. Mas estamos dispostos a morrer para provar que estamos com a razão, e com alguma coisa. Mas deixa isso pra lá. Esta é uma ocasião festiva. Quero propor um brinde com este antiácido efervescente. À nossa pouca saúde.

― À nossa pouca saúde!

― E agora vamos ao sorteio de brindes, gentilmente oferecidos pelos patrocinadores do nosso encontro. Dois kits de primeiros socorros! Um jogo de máscaras cirúrgicas descartáveis de diversas cores, para serem usadas em qualquer ocasião social! Um gravador portátil para levar no bolso e ter a quem se queixar quando se está sozinho! Chapas grátis durante um ano na clínica radiológica "Raio-X. Mancha Azul". Um ano de hemogramas com desconto no Laboratório Yes! E, o grande prêmio, uma semana com tudo pago na Suíte Havaí do novo Hospital Santa Genoveva, com soro cortesia na chegada!


No salão
O companheiro de página João Ubaldo já escreveu sobre o Salão do Livro que nos levou a Paris. Tome estas observações como anotações na margem do João Ubaldo.

Nosso avião, com a dona Ruth, o Weffort, o Jorge Amado e a Zélia na primeira classe e nós atrás não era exatamente um microcosmo do Brasil, mas mesmo assim nossa chegada foi simbólica. Os franceses dizem "il fait gris" quando o dia é cinzento e estava fazendo cinza havia dias em Paris quando nosso avião tocou o chão do Aeroporto Charles De Gaulle e o sol apareceu. A marca do 18º Salon du Livre que este ano homenageou o Brasil era um tucano colorido, certamente apartidário, segurando livros no seu bico verde-e-amarelo. O sol na chegada foi uma deferência dos organizadores aos escritores, críticos e metidos que recheavam o avião. Simbolicamente, o inverno entregava a cidade aos trópicos.

Enquanto o avião taxiava na pista depois da aterrissagem, a Cora Rónai, do banco de trás, nos informava que, ao contrário de outros aeroportos do mundo, o grande perigo no Charles de Gaulle não são as aves, mas os coelhos, que se multiplicam no terreno e fazem túneis sob as pistas, ameaçando a segurança dos aviões em movimento no chão. Um pouco como o prestígio do Paulo Coelho na França obrigaria a delegação a cuidar onde pisava nas suas opiniões e respostas aos nativos. Ninguém queria ser descortês com o entusiasmo alheio. Na recepção que teríamos, no dia seguinte, na prefeitura de Paris ― café da manhã num salão tão rico e ornamentado que você esperava para qualquer momento a notícia da queda da Bastilha e uma debandada geral ―, o prefeito citou dois nomes como exemplos de literatura brasileira bem recebida na França, e a referência a Paulo Coelho foi maior do que a referência a Jorge Amado.

Na noite de inauguração do Salão, quando a comitiva do Chirac se aproximava do estande do Brasil precedida por seguranças truculentos, o Ziraldo gritou: "Ô, Chirac, c'est par ici!" Havia o temor generalizado de que Chirac se enganasse de novo e fosse para o estande do México. Não sei se a orientação do Ziraldo foi providencial, mas Chirac, com dona Ruth ao seu lado, acertou o estande e tudo correu bem e sem gafes. O Salão valeu pelos encontros e pelo enorme espaço que conquistou para a literatura brasileira na imprensa francesa, mais do que pelos negócios. O Carlos Heitor Cony contou que ele, o Gabeira e o Moniz Sodré entraram num táxi e, quando o motorista os identificou como brasileiros, exclamou: "Mais vous etes des artistes!" Os três já iam começar a congratular pelo alcance inesperado da sua fama quando o motorista passou a citar os artistas que inspiravam sua generalização entusiasmada: Ronaldinho, Romário... O Salão deu ao escritor brasileiro um pouco da atenção que os franceses normalmente reservam ao nosso futebol e à nossa música. Todos os principais jornais parisienses abriram páginas para o Brasil literário, alguns com o mesmo entusiasmo do motorista. Nós éramos, afinal, "des artistes", dignos da admiração européia. Nem que fosse só por uns dias.

Todos os convidados brasileiros participaram de debates e leituras, alguns contrafeitos. Eu sempre prefaciava minha participação pedindo desculpa por falar português e explicando que, toda vez que eu falo francês, Racine morre mais um pouco. A piada deve perder um pouco na tradução porque ninguém ria. Não assisti a uma conversa no Caffé Litteraire da FNAC (uma grande rede de livrarias e lojas de discos), montado ao lado do estande do Brasil, entre o Chico Buarque e o Raduan Nassar. Me contaram que o Raduan falou tão pouco que o Chico ficou loquaz! Enfim, os lacônicos do Brasil também estavam representados. Acho que nos comportamos dignamente. Eu, pelo menos, não deixei de usar gravata em nenhuma ocasião.




O crime da rua tal

Idéia para uma história. Um homem entra numa delegacia de polícia e diz que quer se entregar. É um assassino. Matou um homem. Onde? Como? Quando? Na minha casa, responde o homem. Rua tal, número tal. Com um espeto de churrasco. Há dez anos.

Há dez anos?! É, diz o homem. Fugi do local do crime, passei dez anos foragido. Mas não agüentei mais. Vivi dez anos com a minha culpa, e não agüentei mais. Por isso vim me entregar. Me prendam. Sou um assassino. Fui eu que matei o Steiner.

Quem? Flávio Steiner. Ou Fábio, não me lembro mais. Um agiota. Ele foi me cobrar um empréstimo que eu não podia pagar. Brigamos, eu estava com o espeto na mão... Para azar do Steiner, foi no dia em que eu fazia um churrasco para uns amigos. Me descontrolei, espetei o Flávio Steiner. Ou Fábio. Várias vezes. Vocês devem se lembrar do crime. Há dez anos. Rua tal, número tal. Ninguém se lembra. Vão até a rua tal, número tal, seguindo as direções do homem. No carro, o homem conta que era a casa onde ele morava, sozinho, depois de se separar da mulher. Saí correndo e nunca mais voltei, conta o homem. Fui para o interior. Mudei de nome. Passei dez anos longe de tudo, não me arriscando a aparecer na cidade. No fim, o sentimento de culpa foi maior. Não agüentei mais a culpa. Preciso pagar pelo que fiz.

A casa da rua tal, número tal, não existe. Ou existe, mas agora é um videoshop. Ninguém sabe dizer quem era o dono anterior. Parece que a casa estava abandonada. Ou era alugada e o inquilino desapareceu. Qualquer coisa assim. Um crime na casa? Ninguém sabe de crime nenhum.

Não há qualquer registro de ocorrência envolvendo um Flávio ou Fábio Steiner nos arquivos da polícia. Um Fúlvio Steiner foi preso uma vez, por agiotagem e vigarice. Fúlvio! É esse, diz o homem. Mas não há mais nada sobre Fúlvio Steiner. Nada sobre a sua morte. Nada sobre ele ter sido espetado, várias vezes, na rua tal, número tal.

Descobrem um endereço que pode ter sido o de Steiner. Aquele vagabundo? diz a mulher que os recebe. Nunca mais vi, graças a Deus. Um dia saiu, dizendo que ia dar uma prensa em alguém, e nunca mais voltou. Quando? Uns nove ou dez anos. Se ele está morto? Espero que sim. Aquilo não prestava. Aquilo era uma peste. Se alguém matou, fez um bem para a humanidade. O que ele era meu?

Nada. Vivíamos juntos. Nós nos amávamos! Mas o cachorro tinha outra família.

Mulher e filha. Rua tal, número tal.

No outro endereço, outra mulher. A Maria Alice tinha 3 anos quando ele desapareceu, conta a mulher. Hoje está com 13. O Fúlvio era um bom homem.

Não nos dávamos bem, ele vivia com outra, mas nunca deixou que faltasse nada para a Alicinha. Um bom homem. Vocês têm notícia dele?

Notícia. Claro. Os jornais! Os jornais devem ter noticiado o crime. O homem se lembrava da data exata? Claro. Como podia esquecer? Consultam os jornais da época. Os jornais do dia seguinte, das semanas seguintes, dos meses seguintes. Não há nada, em qualquer microfilme, sobre um crime na rua tal.

Já sei! grita o homem. O Pinto e o Aparício! Quem? O Pinto e o Aparício!

Eles estavam na minha casa quando o Steiner chegou. Eles viram tudo. Até tentaram me segurar, quando eu espetei o Steiner. Vamos procurar o Pinto e o Aparício! Quem sabe a gente esquece de tudo, sugere a polícia. Como, esquece? Eu não posso esquecer. Passei dez anos tentando esquecer e não consegui. Eu preciso pagar pelo que fiz!

Dona Sueli se surpreende ao ver o homem. Há quanto tempo! Você esteve fora, não esteve? Estranhei, porque você não apareceu no enterro do Pinto. Você não sabia? Coração. Há quatro anos. Obrigada. O Aparício? Acho que também morreu.

Aliás, tenho certeza. Vi o convite pra enterro no jornal. Mas aquele, também, era um esquisitão. Só você e o Pinto para agüentarem o Aparício.

Pobre do Pinto. Não, dona Sueli não se lembra de ouvir o Pinto comentar nada sobre um churrasco, dez anos antes. Nada fora do comum. Vocês não faziam um churrasco todas as semanas?

Pronto. Um assassinato sem registro, sem corpo e sem testemunha. Um crime cuja única evidência é o criminoso. O melhor é esquecer de tudo, repete a polícia. Mas o homem reage. Está claro o que aconteceu: o Pinto e o Aparício esconderam o corpo. Talvez na própria casa da rua tal, número tal no quintal! A polícia tem de procurar o corpo de Fúlvio Steiner no quintal.

Esquece, esquece, diz a polícia, alegando que não tem tempo, não tem equipamento... Mas eu preciso me entregar, protesta o homem. Eu preciso pagar pelo que fiz! Esquece, esquece. Faz de conta que nunca aconteceu. E a minha culpa? Pergunta o homem. O que que eu faço com a minha culpa?!

Na loja de vídeos não querem nem conversa quando o homem aparece com uma pá, pedindo para escavar o quintal. De jeito nenhum. E, mesmo, não existe mais o quintal. Fizeram um adendo na casa, para a seção de fitas eróticas.




O encontro

Idéia para uma história. Um homem dirige-se para o "check-in" de um vôo qualquer e é interpelado por outro, que propõe comprar o seu lugar no avião.

Como é? O outro diz que o vôo está lotado, mas que ele precisa viajar naquele avião. Paga qualquer coisa pela passagem do homem.

― Desculpe mas...

― Eu preciso pegar esse avião, entende? Tenho um encontro a que não posso faltar.

― Eu também tenho compromissos que...

― Escute! Pago o que você quiser. O dobro. Você me vende sua passagem, compra outra para outro horário, viaja de graça e ainda sai lucrando.

― Mas como é que...

― Eles não pedem a identidade no "check-in". Viajo com o seu nome. Ninguém vai saber. Qual é o problema?

― Sei não...

― É absolutamente necessário que eu esteja nesse avião, entende? É importantíssimo. Uma questão de vida ou morte. Pago o triplo.

O homem examina o outro. Sua aflição parece real. Seu compromisso deve, mesmo, ser muito importante. A expressão no seu rosto é a de alguém possuído. Não parece um vigarista. E, afinal, que tipo de vigarice poderia ser aquela?

― Como você me pagaria?

― Cheque.

― Deixa ver o talão. E sua identidade.

O outro mostra. O talão é de cheque especial, a identidade confere.

― Feito.

A transação é rápida. O outro preenche o cheque, troca o cheque pela passagem e dirige-se rapidamente para o "check-in" sem dizer mais nada. Ele não tem bagagem.

O homem compra outra passagem para outro vôo com o mesmo destino. Terá que esperar duas horas no aeroporto. Está olhando a vitrine de uma loja de souvenirs quando ouve o estrondo. Depois vem a correria, os gritos, as informações desencontradas. O avião caiu segundos depois de decolar. O avião explodiu ainda na pista. O avião se espatifou no chão quando voltava por causa de um problema técnico. Só não há dúvida quanto ao vôo. É o que o outro tomara, com a sua passagem. Com o seu nome.

O homem corre para um telefone, depois de ver o avião despedaçado na pista e se convencer que ninguém pode ter sobrevivido ao acidente. Precisa ligar para casa antes que liberem a lista de passageiros. Precisa avisar que está vivo, que não era ele no avião. A mulher não entende quando ele grita no telefone "Eu estou vivo!"

― O quê?!

― Meu avião caiu, mas eu continuo vivo!

― Meu Deus! Você está muito machucado?

― Eu não estava no avião!

Ele não conta à companhia aérea que vendeu sua passagem, para tirarem seu nome da lista das vítimas. Prefere passar semanas explicando a parentes desesperados e amigos compungidos que quem morreu no desastre não foi ele, pois viajaria em outro vôo, mas um homônimo. Um estranho homônimo: de todas as vítimas carbonizadas junto com seus documentos é a única sem parentes, ou sequer conhecidos, localizáveis. Na investigação sobre o acidente, perguntam ao homem se ele tem certeza que não conhece o outro, já que os nomes são idênticos.

― Eu nem sabia que ele existia. Parente não é.

― E duas pessoas com o mesmo nome voarem no mesmo dia...

― Coincidência, não é?

O encarregado da investigação suspira, resignado.

― Enfim. Que tragédia.

― Terrível.

― Ainda bem que o avião não estava lotado, senão...

― O avião não estava lotado?

― Não. Tinha uns 30 lugares sobrando.

Finalmente, depois de meses, o homem decide procurar a família do outro. Só há um nome igual ao do cheque na lista telefônica. O endereço é de uma casa num bairro de classe média. Quem abre a porta é uma mulher de uns 30 anos cujos últimos meses obviamente não foram bons. Ele pergunta se o outro está em casa. "Não", diz a mulher secamente. Ela sabe onde ele está? "Não." Ele é o seu marido? "É." O homem arrisca. Diz que tinha um encontro com o outro, meses antes. Negócios. Dá a data do acidente. Como o outro não apareceu...

― Não sei nada sobre os negócios dele ― diz a mulher.

― Sei. Bom. Deve ser outra pessoa. Obrigado.

O homem começa a se afastar da porta, mas a mulher o detém.

― Espere.

― Sim?


― Que dia o senhor falou?

O homem repete a data e pergunta:

― Por quê?




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