Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Foi o dia em que ele saiu de casa e não apareceu mais.

E a mulher começa a chorar. O homem a abraça. Diz "Pronto, pronto." Ela encosta a cabeça no seu peito. Ele afaga a sua cabeça. Apesar do seu aspecto sofrido, pensa o homem, ela é uma mulher atraente. "Pronto, pronto", repete.

Entre soluços, ela pergunta:

― O senhor não quer entrar?

Ele entra.

Os dois tornam-se amantes. O homem passa a sustentar a viúva do outro, que não sabe que é viúva, que pensa que o marido apenas a abandonou. Ela não quer falar no marido. Mas ele insiste. Precisa saber mais sobre o homem que salvou a sua vida, ou comprou a sua morte. Aos poucos, ela conta. Era um homem comum, um homem como qualquer outro. Carinhoso, apesar de um pouco fechado. Corretor de imóveis, como ele sabia.

― Eu sei?

― Você não tinha um encontro de negócios com ele?

― Ah, é.

O casamento ia bem, apesar de ele pouco se abrir com ela. Raramente brigavam. Não havia motivo para ele desaparecer daquele jeito. Estavam casados há dez anos, levavam uma vida normal. Apesar das visões...

― Visões?

― Ele tinha visões. As visões falavam com ele.

― Como, falavam?

― Não sei. Falavam. No dia em que ele desapareceu, por exemplo. Saiu de casa dizendo que tinha recebido uma missão. Que uma visão tinha lhe dado uma missão.

― Que missão?

― Não lembro bem. Algo sobre salvar alguém.

― Salvar? Quem?

― Ele não disse.

Não sei o que significa esta história. Eu só a inventei, não preciso entendê-la. Sei que o homem está até hoje sem dormir, tentando organizar algum sentimento sobre o que aconteceu. Sua mulher acha que ele deve se tratar, que é tudo trauma do acidente. Sua amante não entende por que ele mudou tanto, depois que ela lhe falou das visões do outro. E o homem passa as noites pensando.

Ele salvou a minha vida, comprou a minha morte e me legou a sua mulher, pensa. Talvez seja essa a vigarice. Não, que idéia. Mas por que eu? É a pergunta que ele se faz a noite inteira e todo o dia. Por que eu fui salvo?

Para quê? Que engrenagem misteriosa se movimenta para me proteger, qual é o compromisso que eu preciso cumprir, para que encontro eu fui poupado, onde, quando, com quem, contra quem? Qual é a minha missão? E por que eu?

Por que eu?

P.S. ― Estou, como se vê, precisando de férias. Vou dar uma parada. Mas em um mês eu volto, não adianta trocarem as fechaduras.


O Evangelho segundo...


"RINGO": Pô, eu primeiro? Logo o palhaço? Tá bom. Não sei onde o "John" nasceu. A mãe, o pai, não sei nada. Ele era como nós, assim, média baixa. Meu pai, por exemplo, era da PM, tocava tarol na banda da PM. Aprendi bateria batucando no tarol dele, depois que ele teve o troço nos nervos e se aposentou. O velho sempre nos deu a maior força, tirava o Fusca da garagem pra gente ensaiar. Também, era a única chance que ele tinha pra dirigir o Fusca, a mãe não deixava mais depois do troço nos nervos. Tirava o Fusca da garagem e ficava vendo os ensaios, dizia que não gostava da música, daquela loucurada, e não entendia o nome da banda, "Os Bíteus", mas dava a maior força, e foi ele que conseguiu a nossa primeira apresentação, um faixa dele da banda da PM que tocava sax num conjunto e nos apresentou prum cara que conhecia outro cara, manja? Chegamos a tocar até em rádio, naquele programa de auditório que tinha na rádio cumé mesmo? Faz tanto tempo. Foi o "Paul" quem trouxe o "John" pra banda. Era colega de escola dele. O "Paul" disse que só sabia quatro acordes e o "John" sabia outros quatro e os dois juntos dava oito, e foram eles que tiraram todas as músicas dos "Beatles", só de ouvido porque ninguém lia bulhufas. Só no ouvidão, e a gente tocava igual, nota por nota. E cantava sem entender uma palavra, a não ser "l love you". E fazia o maior sucesso. Quer dizer, enquanto a banda durou, né? Na época boa. Ano e pouco. Ninguém ganhava nada, mas a gente se divertia paca e a banda tava começando a ficar falada, já tinha guria nos seguindo, e aí deu no que deu, né? O "John" brigou com a Cileide e começou a namorar a maluca da Beatriz, que ninguém gostava, que começou a botar minhoca na cabeça dele, e dizer que ele era um predestinado e não sei mais o quê, e deu no que deu. Ainda lembro do churrasco no quintal lá de casa, que o velho assou, quando o "John" disse que ia sair da banda. Foi a última vez que eu vi ele. Depois só vi no enterro. Nem vi, a cara tava tapada, disseram que a bala tinha sido na cara. Sei lá por que mataram o "John". Ele entrou numa muito doida, a Beatriz era de outro mundo, ouvi dizer que tinha droga no meio, era outro mundo. Eu? Eu larguei tudo. A banda já tinha acabado, mas depois da morte do "John" sabe o que foi que eu pensei? Que não é pra dar em nada mesmo. A vida, essas coisas. Eu era o palhaço. Sabe aquele cara em que todo mundo se deita? Era eu e eu gostava. Mas quando "Os Bíteus" acabaram, e o "John" morreu, eu pensei: vou ficar na minha. Chega de palhaçada. Não era pra dar em nada mesmo. Nunca entendi bem o que aconteceu, só sei que tenho uma saudade danada da turma, e daquele tempo. Sou almoxarife da prefeitura. Quer dizer, era. Me aposentei. Nervos.

"PAUL": O "bonitinho" do grupo era eu, mas quem fazia sucesso com as meninas era o "John". O "Ringo" disse que eu só sabia quatro acordes? Brincadeira, o "Ringo" sempre foi muito brincalhão. Na verdade eu era o único do grupo que conhecia música. Nós tínhamos um piano em casa. Era uma casa modesta, mas tinha um piano, minha mãe tocava. Aliás, a mãe do "Ringo" costurava para a minha mãe. E eu tive aulas, de piano, de solfejo, depois de violão. O "John" não sabia nada, mas tinha um bom ouvido. O pouco que ele sabia de música aprendeu comigo. Nos conhecíamos desde o primário, mas o que nos aproximou mesmo foi a música. E os "Beatles". Eu já tinha começado a tocar com o "Ringo", que sempre foi um péssimo baterista, mas era um cara divertido, e com o "George", que vivia nas nuvens, mas tocava direitinho, e tive a idéia de trazer o "John" para o grupo e começar "Os Bíteus". Fizemos sucesso, sim. Bom, estávamos começando a fazer sucesso, um pouco. Aí surgiu a Beatriz na vida do "John"... Mas é sempre assim, não é? Há sempre uma mulher para separar os amigos, para desmanchar o bando, para pôr fim à nossa juventude. E é bom que seja assim, senão seríamos garotos pela eternidade, "turminha" para sempre, ridículos. Até a morte do "John" foi simbólica. Acho que ele morreu por nós, sim, mas não como um Cristo, não esse negócio místico do "George". Morreu porque foi ele que rompeu o encanto e trocou o bando de amigos pela mulher fatídica. Foi o primeiro dos "Bíteus" a ficar mortal, por isso foi o primeiro a morrer. Para nos ensinar, entende? Pois é, o profundo, segundo a Beatriz, era o "John", eu era só o bonitinho, mas tenho pensado muito nessas coisas. Por que mataram o "John"? Não interessa. Para a nossa história, não interessa. Fui ao enterro. Fui o único a tirar o lenço do seu rosto. Mais do que ninguém, eu precisava ver seu rosto furado. Ele morreu mesmo por mim. Afinal, nos conhecíamos desde o primário. Abracei a Cileide, mas nem falei com a Beatriz. Abraçar a Beatriz seria como abraçar a morte. Larguei a música, sim. O que que eu faço? Na verdade, não faço nada. Me recolhi à minha mediocridade. Minha mulher é sócia num curtume. Eu bebo, quer saber? Eu bebo, e penso muito.

"GEORGE": A Beatriz tinha razão, o "John" era um predestinado. Vi isso na primeira vez em que nos encontramos, na garagem da casa do "Ringo". Ele não era do nosso mundo, a Cileide não era para ele, "Os Bíteus" não era para ele, nem ele era para ele. O "Paul" entendeu tudo errado. Pensa que o "John" morreu por ele, que o "John" morreu para deixar ele filosofando sobre a vida. O "Paul" sempre foi um egocêntrico, acho até que era meio veado. O "John" ia nos mostrar o caminho para outro tipo de vida, outro tipo de consciência, ele ia nos salvar vivendo. Se ele tivesse vivido, não sei o que nós seríamos hoje, mas seríamos melhores. Mas houve aquela ciumeira com a Beatriz, o "Paul" nunca aceitou a Beatriz, e o "John" teve de se afastar de nós. O "Ringo" contou do último churrasco, do que o "John" disse no último churrasco? Ele olhou bem pra mim e disse uma frase que eu nunca vou esquecer. Disse: "Não vai haver outra vez." Assim, sem mais nem menos, olhando pra mim, com o copo de cerveja erguido. E não houve outra vez mesmo. Nunca mais. Nada parecido. Deixamos passar uma oportunidade. Não sei se de ser ou fazer o que, acho que nem ele sabia, só sabia que deixamos passar. Não sinto que a banda tenha acabado, não. Sem o "John" seríamos um grupo de malditos. Pelo menos assim cada um é maldito pro seu lado. Tenho esta barraca, vou me virando, minha mulher diz que nós estamos quebrados, não sei não. Pelo menos é bom saber que alguém ainda se lembra dos "Bíteus". Vai um mel puro?


O Farley

Até morrer, a única coisa ridícula no Farley era o nome. Vinha de Farley Granger, um ator americano que sua mãe adorava. Farley era uma pessoa comum, a quem nunca tinha acontecido nada. Até que um dia aconteceu: Farley foi atropelado por uma bicicleta. Caiu, bateu com a cabeça no meio-fio, e morreu.

No velório do Farley ― tão moço, tão pacato, morrer daquele jeito ― correu a versão de que sua morte não estava bem explicada. Teria sido uma motocicleta. Um entregador de pizza numa moto, que fugira do local. Ou talvez um carro. Um carro pequeno. No fim do velório estava estabelecido que Farley fora mesmo atropelado por um carro. Um carro grande. Uma Mercedes.

A viúva não precisara nem pedir. Todos tinham se conscientizado de que era necessário proteger o pobre do Farley dos detalhes da sua morte. Já que em vida ele não fora grande coisa, que pelo menos morto não fosse ridículo. E a família também precisava se proteger do constrangimento de dizer a verdade, cada vez que perguntassem como o Farley morrera. Atropelamento por bicicleta, por mais doloroso que fosse, seria sempre um desafio à seriedade.

A família precisava de outra morte urgentemente. Uma Mercedes. Era isso. Uma Mercedes com motorista. E outra coisa: o atropelamento podia não ter sido acidental. Quem ia querer matar o Farley, o pobre do Farley? Nunca se sabe, nunca se sabe.

Uma semana depois, tinha-se outra versão da tragédia. Fora uma jamanta.

Farley morrera salvando uma criança de ser atropelada por uma jamanta. A jamanta não parara depois de passar por cima do Farley e a criança fugira, assustada. Estavam tentando descobrir a sua identidade.

Com o tempo, a legenda do Farley cresceu, com versões cada vez mais elaboradas e nobres para a sua morte sendo empilhadas em cima da singela verdade, para que esta nunca aparecesse. Mas desenvolveu-se, entre os mais jovens da família, uma espécie de contracorrente. Como sabiam, por inconfidências dos mais velhos, que a morte do tio Farley tinha sido ridícula, mas não sabiam como, cresceu entre eles outra legenda: a das possíveis mortes insólitas do Farley.

Farley resvalara num cocô de cachorro ― não, numa clássica casca de banana! ― e quebrara a cabeça. Abrira a boca num bocejo, entrara um besouro na sua boca e ele morrera engasgado. Sabe aquele maluco americano que vive tentando dar a volta ao mundo num balão? Os jornais não deram, mas numa das vezes em que ele caiu, caiu em cima do Farley. Farley resolvera examinar a ponta de um foguete aceso que estava custando a disparar. Farley fora atacado por uma matilha de pequineses. Inventaram até que o Farley tinha sido atropelado por uma bicicleta!

No outro dia, no meio de uma solenidade, um dos jovens da família perguntou para a mãe se era verdade que o tio Farley morrera porque ficara preso numa porta giratória com uma senhora muito gorda e...

― Ssshh! ― fez a mãe, porque as pessoas em volta podiam ouvir. E porque a banda ia começar a tocar.

A solenidade era de inauguração da estátua de bronze do Farley, com uma inscrição no pedestal: "A pátria agradecida." A versão final para a sua morte era que, apesar de estar envolta em mistério, ela salvara a vida de milhares de pessoas e protegera a própria nação de um destino inominável.


O flagrante


José olha fundo nos olhos de Roberto. Os dois levantam suas taças.

― A nós.


― A nós.

Bebem, olhos nos olhos. Nisso, a porta do apartamento se abre e entra uma mulher.

― Sueli! ― exclama José.

― Arrá! ― diz Sueli. Te peguei!

― O que você está fazendo aqui?

― Me enganando. E com outro homem!

― Sueli, em primeiro lugar, você não me "pegou", porque nós não estávamos fazendo nada. Em segundo lugar, mesmo que estivéssemos fazendo alguma coisa, eu não estaria "enganando" você pela simples razão de que nós não somos mais casados. Nos divorciamos há muito tempo e eu não devo mais satisfação a você. Se você tem medo de ser enganada, preocupe― se com seu atual marido e...

― Você quer ficar quieto, José? ― interrompe Sueli. Não estou falando com você. Estou falando com ele.

José aponta para Roberto.

― Com ele?

― É. Meu atual marido.

― Seu marido?!

Roberto está quieto. José, para Roberto:

― Você não me disse que era casado!

― Cala a boca, José ― ordena Sueli. Depois se dirige a Roberto.

― E então, o que você me diz? Dois meses de casado e você já anda com um qualquer. Seu pilantra!

― Um qualquer, não ― protesta José. Lembre-se de que eu já fui seu marido.

Sueli começa a chorar. Roberto se aproxima dela.

― O que é isso, Sueli. Fique calma. Nem parece você. Vamos, Suelizinha...

― Não chama de Suelizinha que ela não gosta ― instrui José. Tarde demais.

― Não me chama de Suelizinha!

― Deixa que eu sei fazer ― diz José, afastando Roberto e abraçando Sueli. ― Vamos, Su. Que bobagem.

José beija a orelha de Sueli e mostra para o outro.

― A orelha é importante. Ó.

― Morde ou só beija?

― Pode dar uma mordidinha.

― Deixa eu tentar.

Roberto afasta José e abraça Sueli. Começa a mordiscar sua orelha. Dá resultado. Sueli se acalma. Mas agora José está enciumado.

― Que foi? ― pergunta Roberto, notando a cara de José.

― Nada.


― Nada, não. Você está chateado.

― Não é nada.

― Faz cafuné nele ― diz Sueli.

― O quê?


― Faz cafuné que ele gosta. Em cima da cabeça.

Roberto começa a fazer cafuné em José. Ao mesmo tempo, mordisca a orelha de Sueli. Nisso a porta se abre e entra outra mulher.

― Anita! ― exclama José.

― Eu sabia. Segui você até aqui porque sabia que ia encontrar uma cena assim. Você não tem vergonha? Depois de todas as juras que fizemos?

― Anita, não é nada do que você está pensando ― diz José. Eu...

― Quer ficar quieto, José? Eu estou falando com ela.

José aponta para Sueli.

― Com ela?!

― Anita ― diz Sueli, vem cá.

Anita se junta ao grupo. Sueli a abraça.

― Pronto, pronto ― diz Sueli.

― Roça a nuca dela com o queixo ― instrui José.

― Assim?

― É.


Ficam os quatro de pé no meio da sala, Roberto mordiscando a orelha de Sueli, que roça a nunca de Anita com o queixo, e, fazendo cafuné em José, que, sem ter o que fazer, pergunta:

― O caso de vocês duas começou antes ou depois do nosso casamento?

― Não é a hora, José ― diz Sueli.

O Galhardo


Aconteceu que o grupo ficou hospedado num hotel de Paris em que as paredes eram finas e podia-se ouvir um suspiro no quarto ao lado, quanto mais os gemidos e outros ruídos associados ao sexo. Como os daquele casal, que sempre acabavam com a mulher gritando "Ai, Galhardo! Ai, Galhardo!" na hora do orgasmo. O grupo tinha sido organizado por uma agência de turismo para assistir aos jogos finais da Copa. Ninguém se conhecia e durante a viagem não houve qualquer tipo de aproximação entre os seus componentes. Só no terceiro ou quarto dia depois da chegada a Paris é que começou a confraternização. Por iniciativa do Marçal e da Marília, que ocupavam o quarto ao lado do casal barulhento.

Num café da manhã no hotel, Marçal apresentou-se e contou o que fazia. Marília acrescentou os detalhes familiares: casa, filhos etc., e, em pouco tempo, todos do grupo tinham feito rápidos resumos de suas vidas. Alguns descobrindo afinidades como parentes, amigos ou fornecedores em comum, essas coisas. Ficou faltando justamente o casal do quarto vizinho ao de Marçal e Marília, um homem retaco e sorridente e uma mulher loira, mais alta do que ele, que usava bermudas apertadas e a camisa 9 do Ronaldo amarrada na frente, deixando o umbigo à mostra.

Marçal virou-se para o homem e disse:

― E você, Galhardo?

O homem não parou de sorrir. Disse:

― Galhardo?

Marçal sentiu que tinha feito uma bobagem, mas era tarde para recuar.

― Seu nome não é Galhardo?

― Portinho.

― Portinho. Desculpe. Não sei de onde eu tirei o Galhardo...

― E o meu nome é Sandra ― disse a mulher.

Depois da vitória do Brasil sobre o Chile, Sandra parecia ainda mais entusiasmada durante o orgasmo.

― Ai, Galhardo! Ai, Galhardo!

No quarto ao lado, sem poder dormir, Marçal e Marília discutiam as alternativas.

― É adjetivo ― propôs Marçal.

― Não é ― disse Marília. É outro homem.

― Outro homem?

― Tem outro homem com eles no quarto. Chamado Galhardo.

― Mas como? Trouxeram o outro homem na mala? Um anão bom de cama? Um amante portátil?

― Sei lá.

― Deve ser adjetivo.

No dia do jogo final, durante o café da manhã no hotel, Marília não se conteve. Estavam só ela e Sandra, Marçal e Portinho ainda não tinham descido.

― Eu sei por que o Marçal chamou o seu marido de Galhardo ― disse Marília. É que ele se parece muito com um amigo nosso, chamado Galhardo. Talvez vocês conheçam... Sandra ainda estava com sono. Olhava a ponta de um croissant como se tentasse decidir se ele merecia ser mordido por ela ou não. Disse:

― Eu conheci um Galhardo, uma vez.

E depois de morder a ponta do croissant:

― Mas ele não era nada parecido com o Portinho.

Durante o jogo, Marília disse a Marçal:

― Desvendei o mistério do Galhardo.

― O quê?

― É evocação.

Mas o Zidane tinha feito o segundo gol e Marçal não queria nem saber.

O gênio
Eu estava lendo o que a imprensa européia escreve sobre o futebol do Brasil e comparando com o que a gente escreve ― a fascinação deles em contraste com o nosso ceticismo crítico e nosso pessimismo crônico, mesmo nas vitórias ― e me lembrei da história do Albert Einstein e do bar do Kurt.

Contam que no tempo em que era um simples funcionário público em Berna, na Suíça (na verdade não sei se foi em Berna, se o dono do bar se chamava Kurt nem se a história se passou mesmo com o Einstein, mas agora já é tarde para recuar), Albert Einstein costumava freqüentar um bar perto do seu escritório. Saía do trabalho e ia tomar umas cervejas no bar do Kurt, onde, com o tempo, se formou uma turma de bebedores assíduos, com nada em comum além do fato de sentarem-se à mesma mesa na mesma hora e tomarem cerveja juntos. Durante dois, três anos, a turma se reuniu no bar do Kurt. Conheciam-se apenas pelo primeiro nome e pelas poucas confidências que se faziam ― geralmente quando já tinham bebido demais, o que significava que no dia seguinte as confidências estavam esquecidas e todos voltavam a se desconhecer intimamente.

Um dia Einstein não apareceu para sua cerveja de todos os dias. No dia seguinte também não. E quando, no fim de uma semana, Einstein não chegou na hora de sempre, seus co-bebedores simplesmente decidiram não guardar mais seu lugar. Albert, o simpático Albert, que falava pouco, mas conhecia algumas histórias engraçadas, e que às vezes se distraía e ficava rabiscando números e letras na toalha da mesa sem ouvir o que os outros diziam, provavelmente se mudara. Como era um funcionário público, talvez tivesse sido transferido para outro posto. Ou talvez morrera atropelado.

Os outros perguntaram, mas Kurt não sabia o que acontecera a Albert. Só sabia que, na manhã do dia em que deixara de aparecer pela primeira vez, passara pelo bar e perguntara a Kurt onde estavam as toalhas sujas do dia anterior. Precisava levar uma das toalhas, com seus rabiscos. Devolveria em seguida. Devolveria àquela tarde mesmo, quando viesse para a sua cerveja de todos os dias. E não aparecera para a cerveja. Não aparecera nunca mais.

Anos depois, um repórter e um fotógrafo chegaram no bar do Kurt para fazer uma reportagem sobre a vida de Einstein antes da fama. Seus hábitos. Sua rotina. O bar em Berna onde, um dia, rabiscando uma toalha, tivera a idéia que o consagrara.

― Einstein? ― disse Kurt.

― Nunca ouvi falar.

Na mesa dos velhos freqüentadores, ninguém se lembrava de Einstein.

― A fotografia dele esteve em todos os jornais ― disse o repórter.

Ninguém ali lia muito jornais, além do esporte e uma ou outra história policial. Aquele tal de Einstein fizera alguma coisa ligada a esporte? Ou quem sabe matara alguém?

― A Teoria da Relatividade ― disse o repórter.

― Foi ele que bolou, e rabiscou numa toalha deste bar. Um dos homens mais famosos do mundo. Um gênio. Albert Einstein.

― Albert?

Albert! O funcionário público! Claro, todos se lembravam de Albert. O simpático Albert, que falava pouco, mas conhecia histórias engraçadas. Um gênio, quem diria.

― E nunca nos disse nada!

Pensando bem, Albert nunca dissera nada muito inteligente na mesa. Ou porque não tivesse nada muito inteligente para dizer, mesmo, ou porque não considerasse o grupo à sua altura, intelectualmente. Devia desprezá-los, era isso. Sempre que alguém da mesa tentava levar a conversa para um nível mais profundo ― o sentido da existência, essas coisas ―, Albert vinha com uma das suas histórias engraçadas. Que nem eram tão engraçadas. Histórias bobas, isso. As únicas histórias à altura de bobos bebedores de cerveja, que não tinham capacidade para conversar com um gênio como Albert. Que, pensando bem, nem era tão simpático assim.

Quando saíram do bar do Kurt, o repórter e o fotógrafo deixaram atrás de si um clima de revolta entre os ex-companheiros de Einstein, divididos entre os que o acusavam de arrogância intelectual e os que o acusavam de ser um blefe, um gênio só para quem não o conhecia bem, como eles.

E antes de sair ainda ouviram o Kurt gritar:

― E outra coisa: ladrão de toalha!




O homem que caiu do céu

O homem atravessou o telhado e caiu na cama ao lado da Denilda, que acordou com o estrondo, deu um grito, pulou da cama, correu do quarto e só voltou quando os bombeiros já tinham examinado os estragos no teto, a polícia já revistara o homem para descobrir sua identidade, o homem já tinha sido levado para o hospital, inconsciente, e ela já tinha sido acalmada pela mãe e por vizinhos.

De onde viera aquele homem? Não havia nenhum prédio mais alto do que a casa de Denilda nas redondezas, nenhuma estrutura de onde ele poderia ter caído ou sido jogado. Ele teria caído de um avião? Estava de terno e gravata, tinha um aspecto respeitável apesar dos estragos que sofrera ao atravessar o telhado e o forro da casa de Denilda, podia, sim, ser um passageiro de avião, até da classe executiva, mas como alguém cai de um avião sem ninguém notar? Nenhuma companhia aérea tinha dado falta de qualquer passageiro.

O terno, a gravata e o aspecto também eliminavam a possibilidade de o homem ter sido disparado de um canhão, e, de certa maneira, de ser um ladrão que andava pelo telhado e se dera mal. E, mesmo, o estrago no telhado era muito grande para ter sido causado apenas por um ladrão sem sorte. O estrago só poderia ter sido feito por alguém caindo de uma grande altura.

O homem não tinha nada nos bolsos que o identificasse. Suas roupas não tinham qualquer etiqueta. Dois dias depois da queda ele recuperou os sentidos, no hospital, mas não se lembrava de nada. Nem do próprio nome, muito menos de onde caíra sobre o telhado da Denilda. Que foi visitá-lo no hospital, junto com a mãe. Quando viu Denilda, o homem sorriu e disse "Oi".




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