Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Denilda não sabia se brigava com ele pelo susto que lhe dera (onde já se vira, cair assim sobre a casa de alguém!) e exigia que ele pagasse os consertos do telhado, ou se perguntava como ele estava. Ele continuava sorrindo para Denilda.

― Como você está?

― Bem, bem.

E, milagrosamente, estava bem. Fora alguns rasgões na roupa, estava inteiro.

Nada quebrado. Um milagre. Ele falava um português engraçado. Sem sotaque, mas cuidadoso, como se recém tivesse aprendido a língua. Se tinha família, e algum lugar para onde ir quando saísse do hospital, não sabia. Dinheiro?

Também não se lembrava.

Denilda decidiu levá-lo para casa. Até ele recuperar a memória. A mãe não gostou mas acabou concordando. Afinal, era Denilda que trabalhava e mantinha a casa. Denilda, que estava se aproximando dos 40 e nunca se casara. Que dizia que homem como ela queria não se encontrava em qualquer lugar. Que já tinha desistindo de encontrar um homem como ela queria, em qualquer lugar.

Na saída do hospital, tiveram que enfrentar a imprensa. A notícia do misterioso bólido humano tinha chegado aos jornais. Denilda respondeu as perguntas dos repórteres. Disse que se responsabilizaria por ele, até que aparecesse algum familiar, ou alguém com informações sobre seu passado e as circunstâncias dele ter caído sobre o seu telhado. O homem só sorria.

O homem nunca recuperou a memória, e, aos poucos, Denilda foi aceitando a conclusão de que ele não tinha memórias para recuperar. As amigas que vão visitá-la ficam encantadas com o Vando ― ela decidiu chamá-lo Vando ― e mais de uma começou a dizer, ao ver Vando ajudando a Denilda em casa e sendo tão carinhoso com ela, "Mas esse homem caiu do..." antes de se controlar. A própria Denilda tenta não pensar na forma como Vando despencou na sua vida.

Não, não é que ela não se sinta à vontade com a metafísica e não queira especular sobre preces atendidas, e o que ela fez para merecer aquela dádiva do céu.

As perguntas de Denilda são outras. Que mérito há em ter o homem que se pediu a Deus se ele cai, literalmente, na sua cama, sem nenhum mérito seu?

Se você não o conquistou, apenas o encomendou? ― Onde é que fica o meu amor próprio? ― foi o que ela perguntou ao Vando, na cama, na outra noite.

Ele apenas sorriu, beijou o seu ombro e perguntou "Vamos outra vez?" Aí ela o empurrou, irritada, reclamou que era impossível ter uma conversa séria com ele e ameaçou jogá-lo pela janela.




O homem que sabia perder no pôquer

O melhor jogo de pôquer de Las Vegas não é em nenhum dos grande hotéis ou cassinos, é o do Manny, que durante o dia é salva-vidas na piscina do MGM Grand e de noite recebe os grandes jogadores em sua casa. Os jogos duram a noite inteira. Manny nunca dorme. Os banhistas do MGM Grand não sabem o perigo que correm. Na roda que se reúne na casa do Manny para jogar, não há dúvidas de que no dia em que mergulhar na piscina para salvar alguém, Manny não voltará à tona. Meu nome, por sinal, é Jack, Jack o Charuto, porque ninguém nunca me viu sem um charuto na boca, salvo quando me tiraram da barriga da minha mãe, e mesmo assim o obstetra não tem certeza. Sou, obviamente, um personagem fictício do Verissimo. Sempre que estou em Las Vegas vou jogar na casa do Manny. Qualquer um pode entrar na casa do Manny, basta saber a senha ("É aqui?") e/ou pagar US$ 500. Mas não recomendo que você entre no jogo se não tiver dinheiro, muito dinheiro. Poços de petróleo e/ou tias ricas ajudam. E/ou muita coragem. Já vi gente sair carregada da mesa do Manny, depois de perder toda a sua fortuna na perigosa presunção de que a sua trinca era imbatível. A trinca, qualquer jogador de pôquer lhe dirá, é a mais cruel das mãos. Já matou muita gente, do coração ou de causas menos convencionais como tiro na testa. Nos casos de enfarte, o Manny tem um amigo médico de plantão para testar se o cara não está fingindo. Às vezes o cara morre do teste.

Não preciso dizer que o pôquer do Manny é freqüentado por alguns tipos estranhos. Como o maior ganhador da roda, o Fred. Lucky Fred. Fred Sortudo.

Nunca vi ninguém tão sortudo, e tão triste. Fred Sortudo não é apenas triste. É um amargurado. Quanto mais ganha, mais triste e amargurado fica. E certa manhã, depois que todos os outros jogadores já tinham ido embora e o Manny se preparava para fechar a casa e ir trabalhar na piscina do hotel, o Fred Sortudo me contou a razão da sua amargura. Tinha sido o maior ganhador da noite, outra vez, e eu perguntei se ele tinha idéia de quantas rodadas ganhara. De quantas vezes arrastara as fichas da mesa para a sua pilha, com aquela expressão de sofrimento no rosto. Que porcentagem? Trinta, 40, 60% das vezes? Ele me olhou durante algum tempo, como se quisesse chegar a alguma conclusão a meu respeito, e decidiu que podia me confiar seu segredo.

Era a primeira vez que o contaria para alguém. Talvez concluíra que, sendo fictício, eu era de confiança. Perguntou: Sabe quantas vezes eu tive a melhor mão da mesa? E ele mesmo respondeu: todas. Como, todas? perguntei.

Todas. Cem por cento das vezes. Sabe aquele seu full-hand? Eu poderia ter batido aquilo. Tinha um straight flush. E por que não bateu? perguntei, tirando o charuto da boca, coisa que só faço nas refeições, para beber o bourbon, e em casos extremos de espanto. Aí é que está, disse ele, as bochechas caídas como as de um cachorro. As bochechas mais tristes que eu conheço. Aí é que está. Você se dá conta do que aconteceria se eu ganhasse todas as rodadas, 100% das rodadas, sempre? Você estaria milionário, disse eu. Não! gritou o Fred Sortudo. Você não vê? Eu não entraria mais em nenhuma roda de pôquer, neste ou em qualquer outro hemisfério. Ninguém ia querer jogar comigo. Por isso eu preciso perder de vez em quando. Sei que tenho o jogo melhor, mas não aposto. Passo. Não sei quantas vezes atirei um royal straight flush com ás na ponta no bagaço e disse "Estou fora". Ou desmanchei um four de reis e pedi três cartas, só para não ganhar. Porque eu sempre tenho a melhor mão. Desde que comecei a jogar tem sido assim. Sempre. É terrível.

Foi a minha vez de ficar olhando para o Fred Sortudo, tentando decidir se ele estava me gozando ou não. Aquelas bochechas trágicas não pareciam ser as de um gozador. Ninguém tem sorte assim, disse eu, finalmente. Isso não é normal. Exato! Gritou ele. Não é normal. É um sinal de alguma coisa que eu não identifico. Uma bênção que eu não sei de onde vem, e o que eu fiz para merecer. É um mistério, uma anomalia, uma danação. Entende? Ter sorte assim é pior do que ter azar! Se eu não ganhasse nunca ou ganhasse pouco seria igual a milhares de outros, igual ao resto da humanidade. Porque ter azar é normal. Ganhar sempre me coloca em outro plano ― que eu não sei qual é. Só sei que não é normal. Perco de propósito para parecer normal. Para recusar essa dádiva que eu não quero e não entendo, entende? Perguntei se ele tinha a mesma sorte em outros tipos de jogo. Não, só no pôquer. Sentia que tinha uma missão na vida que ainda não lhe fora revelada, que fora abençoado por alguma razão. Mas fosse qual fosse sua missão, certamente não era a de ganhar sempre no pôquer. Mas o negócio dele era o pôquer. Vivia do pôquer. E para continuar ganhando no pôquer, não podia ter sorte demais. Para poder viver do pôquer, precisava perder no pôquer. E também havia a questão do orgulho profissional. Receber sempre as melhores cartas significa que eu não sei se sou bom no pôquer ou não, disse Fred. Minha única habilidade provada no pôquer não é saber ganhar, é saber fingir que perdi.
* * *
Naquela noite, teve uma rodada em que ficamos, outra vez, só eu contra o Fred Sortudo. Eu com um full-hand, par e trinca, sabendo que, se a história que me contara naquela manhã fosse verdadeira, o Fred tinha um jogo mais alto na mão. Sempre tinha um jogo mais alto na mão. A questão era o que pretendia fazer com ele. Arrisquei e apostei todas as minhas fichas. Fred Sortudo não sorriu, exatamente, mas fez uma boa tentativa. Atirou suas cartas na mesa e disse "Leva". Não resisti. Me debrucei por cima da mesa para virar as cartas dele e descobrir se o seu jogo era mesmo melhor do que o meu e se a sua história era verdadeira. Mas ele tapou as cinco cartas com a mão e me impediu de vê-las. Nunca saberei se a história de Fred Sortudo era verdadeira. Sua tristeza era. Aparecem uns tipos bem estranhos no pôquer do Manny.

O irritante

Ele contou que tinha recebido um nome impossível dos pais. Fulgêncio, veja você. Como é que largam uma criança no mundo chamada Fulgêncio? Contou que assim que pode, mudou de nome, para algo mais sensato. Passou a se chamar Arrébis.

Como recém o tínhamos conhecido, não fizemos o comentário óbvio: "Arrébis" ponto de interrogação, ponto de exclamação. Tinha mudado de Fulgêncio para Arrébis?! Que nome era aquele, Arrébis?

Para não sermos injustos, procuramos o professor Carmim, que sabe tudo. O professor Carmim fechou os olhos e espremeu as têmporas.

― Arrébis, Arrébis... Já me vem...

O professor Carmim nunca diz que não sabe. Pode não se lembrar na hora, mas isso apenas significa que ele um dia soube.

― Arrébis, Arrébis...

Já lhe vinha, já lhe vinha. Mas finalmente sacudiu a cabeça e desistiu. Disse:

― Sei apenas que tem a ver com a Pérsia.

Naquela noite, na casa da Val, que todas as quintas cozinha para nós e depois bota as cartas, a Miriam comentou com ele:

― O seu nome é persa, não é?

― Não, é Arrébis.

― Sim. Não. Arrébis não tem a ver com a Pérsia?

― Hein?

Ficou um clima meio assim. Alguém disse:

― A Pérsia hoje é o Irã.

― Não é o Iraque?

― Não, é o Irã. Ou será o Iraque?

Felizmente a Val trouxe vatapá e o Arrébis se descontraiu, e meia hora depois se ofereceu para ser o primeiro quando a Val começou a botar as cartas, e a Val disse que a vida dele era regida por cheiros, perfumes, que ele tinha uma sensibilidade olfativa muito desenvolvida, e ele disse ahn-ahn, não sentia cheiro nenhum, a troca de nome coincidira com uma crise de sinusite que o deixara sem olfato e sem paladar, que ele não sabia nem que gosto tinha o vatapá da Val (que eu, parênteses, chamo de valtapá, piada que ninguém mais no grupo agüenta), e a Val ficou invocada, porque podiam fazer pouco das suas cartas, mas ela não admitia que fizessem pouco do seu vatapá, e quando ele foi embora perguntou quem era, afinal, aquele sujeito irritante, e depois:

― Arrébis? Que nome é esse, Arrébis?

Fosse o que fosse, não queria mais vê-lo nos seus vatapás das quintas.

Nós devíamos ter adivinhado. O episódio das cartas devia ter nos alertado. Dois dias depois o Alvarinho anunciou que ainda ia dar uma bolacha no Arrébis. Quem trouxera aquele cara irritante para o grupo? O Pedro Paulo disse que tinha sido ele, que o Arrébis começara a trabalhar com ele na firma, que parecia um cara legal... Legal? Legal? Legal um cacete! E que nome era aquele, Arrébis? O Pedro Paulo e o Alvarinho acabaram se estranhando e até hoje não se falam.

Na outra quinta, sem ser convidado por ninguém, o Arrébis apareceu no valtapá. A Val ameaçou não deixá-lo entrar, mas a Maria Alice, grande coração, disse que não ficava bem, coitado. Mal o conheciam, ele podia ser uma ótima pessoa, só estava constrangido no grupo novo. Ela mesmo se encarregou de fazê-lo ficar à vontade. Sentou-se do seu lado e eles conversaram a noite inteira enquanto a Val botava as cartas e o Maneco tocava violão e cantava o seu repertório de sempre, que ninguém mais agüentava, e no fim da noite a Maria Alice queria bater no Arrébis, o Maneco teve de proteger seu violão senão a Maria Alice o quebraria na cabeça do Arrébis. A Maria Alice, que nunca fez mal a ninguém, que chora em largada de rali! No fim, convenceram o Arrébis a ir embora, mas a Val não perdoou a Maria Alice pelos copos e pratos quebrados na perseguição e as duas também não se falam até hoje. Aliás, os valtapás das quintas estão suspensos.

Não tem mais ninguém falando com ninguém no grupo. Até a separação da Miriam e do Alcyr, de alguma maneira, deve ter sido culpa do Arrébis. Cheguei a perguntar ao professor Carmim se Arrébis não era o nome de algum deus da discórdia da antiguidade e ele ficou de puxar pela memória. Sobrou para o Pedro Paulo, que tem de aguentar o Arrébis no trabalho, e no outro dia perguntou para ele se, quando ele se chamava Fulgêncio, também era assim.

― Assim, como? ― perguntou o Arrébis, agressivo.

E o Pedro Paulo deixou para lá. Não disse "irritante" para não piorar o clima na firma, que está irrespirável desde que o Arrébis chegou. Arrébis, Arrébis, que nome era aquele O nome já era irritante. Só o nome já teria acabado com a turma. Se bem que o consenso geral era que a turma não se agüentava mais e estava para acabar, mesmo. Arrébis fôra apenas um agente catalisador, posto no nosso meio para apressar o destino, por alguma entidade demiúrgica, como diria o professor Carmim, talvez persa.


O maior momento

Rodrigo disse que foi um elefante de argila. Tinha 7 ou 8 anos, estava numa aula de Trabalhos Manuais ― lembra Trabalhos Manuais? ― e ele e um grupo foram encarregados de fazer um elefante de argila. Passaram várias aulas fazendo o elefante de argila. O grupo começou com oito, depois de dois dias tinha cinco, no fim da semana tinha só dois, e quem terminou o elefante de argila foi o Rodrigo, sozinho. Ficou bom, diz o Rodrigo. Feito de memória, até que ficou muito bom. E eu não desisti. Fui até o fim. É, disse o Rodrigo, acho que é a coisa de que me orgulho mais. Nada na vida me deixou tão contente. Aquele elefante de argila.

A Bela disse que foi a primeira vez que acertou um pudim. A mãe vivia dizendo que ela não acertava o pudim porque era muito nervosa. Fazia tudo certo, não errava nos ingredientes, não errava na mistura, mas de alguma maneira seu nervosismo se transmitia ao pudim e o pudim desandava. O pudim também ficava nervoso. No dia em que acertei o pudim ― contou a Bella sorrindo ― tive uma crise de choro. Saí da cozinha para não influenciar o pudim, que poderia ter uma recaída. Mas na mesa, quando a mãe disse "O pudim é da Bela" e todo o mundo aplaudiu, meu Deus do céu. Nunca mais senti a mesma coisa. Nem quando nasceram os gêmeos. Nunca mais.

Já a Rosa disse que nada se igualou a ter o primeiro filho. Olha aí, até hoje não posso contar que me emociono. E o engraçado é que foi um sentimento extremamente egoísta. Me enterneci por mim mesma. Eu olhava aquela coisinha, tão bem-feitinha, e me achava formidável, até ficava com ciúmes quando só elogiavam o bebê. Eu é que queria festa. Queria dizer "fui eu, fui eu, ele é apenas o produto da minha genialidade". Ele podia ser o teu elefante, Rodrigo. Uma coisa que eu terminei sozinha, sem ajuda de ninguém. No Xavier, coitado, eu nem pensava. O Xavier não tinha nada a ver com aquilo. E eu não deixei ele acompanhar o parto. Sempre considerei pai acompanhando parto uma espécie de penetra. Alguém querendo participar de uma glória que não merece, como prefeito inaugurando obra da administração anterior. A glória era só minha. Aliás, em todo o processo de procriação, parto, essas coisas, o homem é um penetra. Sem duplo sentido, claro. O primeiro filho. Sem dúvida nenhuma, o primeiro filho. Elefante, não. Catedral. Fiquei satisfeita como se tivesse construído uma catedral sozinha. Depois o desgraçado cresceu e foi aquilo que todo o mundo sabe.

O Marcinho disse que, com ele, foi a formatura. Ele nem sabia que era capaz de tanta solenidade. Vocês me conhecem. E naquela idade eu era ainda pior, não levava nada a sério. Mas recebi o canudo, voltei para o meu lugar, sentei e pensei: putaquiuspariu! Consegui me formar. Contra todos os prognósticos, inclusive os meus. Pela primeira vez na vida senti que tinha conseguido fazer uma coisa importante. Sabe aqueles momentos em que a gente pensa "eu não sou pouca coisa não, a coisa é pra valer e eu estou à altura da coisa"? Seja o que for a coisa? Fiquei sentado, de olho vidrado, uma colega até perguntou se eu estava me sentindo mal. Todo o mundo estranhou.

Meu apelido na turma era Micromico, porque era baixinho e não parava quieto.

E de repente estava ali, sério. Um mico solene. Eu tinha me dado conta, ao mesmo tempo, da importância da coisa, e da minha capacidade de enfrentar a coisa. E sabia que nunca mais esqueceria aquele momento, e aquela sensação.

De, sei lá. Poder. Não poder no sentido de "poder", mas de poder poder, entende? De poder com a coisa. E nunca esqueci mesmo. E olha, eu teria dado um grande arquiteto.

Para o Raul Pedro, foi a vez em que ele acertou uma bicicleta. Nunca tinha tentado uma bicicleta antes, mas do jeito que a bola chegou nele não havia alternativa. Fechou os olhos e fez o que tinha visto outros fazerem.

Atirou-se para trás, pedalou no ar, sentiu o segundo pé acertar a bola, e quando levantou-se do chão viu que a bola tinha entrado no ângulo. Bem, no ângulo não, porque era uma goleira improvisada de praia. No que seria o ângulo numa goleira regulamentar. Não havia platéia para aplaudi-lo. O goleiro adversário, ressentido, só disse "Sorte". Seus companheiros de time também não se entusiasmaram muito com o lance. Não os conhecia, tinha sido escalado porque estava passando e faltava jogador. Ele já se resignara à comemoração solitária do seu feito, pelo resto da vida, quando viu o garoto que vendia picolé na praia olhando para ele e sorrindo. O garoto estava sentado na sua caixa de isopor e quando viu que Raul Pedro o avistara levantou o dedão num sinal de positivo. Sua bicicleta tinha sido positiva. A única posteridade do meu lance, disse Raul Pedro, é um vendedor de picolé, que já deve ter esquecido. Mas eu não esqueci. Nunca me orgulhei tanto de alguma coisa como daquela bicicleta. Bem no ângulo.

A Gelsi contou que o seu momento foi há poucas semanas, algo sobre um parecer dela que deu numa condenação de milhões de reais, uma punição exemplar, da qual ela se orgulhava muito, embora, claro, ainda coubessem recursos e era pouco provável que os condenados pagassem um centavo, o Brasil sendo o Brasil. Mas foi o seu momento, foi o seu grande momento. Eu hesitei um pouco, mas acabei escolhendo um certo entardecer no Arpoador, uma certa luz no rosto de alguém, o sentimento de que eu não merecia aquilo e, justamente porque sentia que não merecia, merecia. O meu maior momento. Mas em seguida foi a vez da Thaís, e a Thaís nos arrasou. Contou como foi a sua apoteose. A justificativa da sua existência, o prêmio final por todo o seu empenho em viver com bom gosto e gastar o dinheiro do Gegê com inteligência.

Foi a vez em que ela entrou no café do Hotel Carlyle, de Nova York, no meio do show do Bobby Short, acompanhada por uns brasileiros que nunca tinham conseguido entrar no lugar, e quando a viu o Bobby exclamou "Thaís"!

E para completar nossa humilhação, Thaís contou que Bobby Short pronuncia o "agá" do seu nome. Ficou todo o mundo meio deprimido.

O mapa circular do mundo


Anastaso Malbaf, colecionador de mapas antigos, foi abordado numa livraria da Rue de Rivoli, entre a Rue de L'Echelle e a Place des Pyramides no mapa de Paris, por um homem mal vestido e malcuidado que lhe ofereceu um mapa circular do mundo, de origem catalã, do século 15. Anastaso Malbaf disse que só existiam dois mapas circulares do mundo de origem catalã e que ele sabia onde estavam os dois. Existe um terceiro, disse o homem, e eu o tenho na minha casa. É um mapa estranho, disse o homem, o meu tesouro, pois além de trazer informações práticas para viajantes e navegadores e mostrar o mundo conhecido na época, nele também aparece a localização do Paraíso ― que, por sinal, fica na África Oriental. Esforçando-se para que o entusiasmo não aparecesse na sua cara, pois um terceiro mapa circular do mundo de origem catalã seria um achado extraordinário, e valiosíssimo, Anastaso Malbaf perguntou se poderia examinar o mapa para se certificar da sua autenticidade e o homem disse que lhe daria seu endereço. Pediu papel e caneta a um funcionário da livraria e começou a fazer um mapa, dizendo que sua casa ficava "na cidade velha". Desenhou quatro ruas tortuosas que se cruzavam, colocou o nome de cada rua, a localização da sua casa numa das esquinas, o número da casa, 79, e quando ia dizer o nome da cidade. "Fica em..." ― subitamente arregalou os olhos, levou a mão ao peito e caiu. O próprio Anastaso Malbaf acompanhou o homem na ambulância ― Rue de Rivoli, Rue des Pyramids, Rue St. Honoré, Rue des Halles, Boulevard Sebastopol, Place du Chatelet, depois a ponte até o Hôtel-Dieu na Ile de la Cité ―, mas nada pôde ser feito por ele. O homem morreu no hospital. Coração. Teve um único momento de lucidez antes de morrer, quando disse a palavra "Amaloi", e que Anastaso Malbaf achou melhor não aproveitar para perguntar em que cidade do mundo ficava a sua casa. O homem não tinha documentos. Passaporte, nada.

Nem carteira. Anastaso Malbaf ficou com o mapa que o homem segurava na mão quando caiu.

Na livraria, não sabiam nada sobre o homem. Ele nunca tinha sido visto ali, antes. Seu sotaque era difícil de localizar, talvez Europa Central. Alguém conhecia as ruas que ele desenhara no papel? Sua casa ficava na esquina da Krapas com a Movale. Mas onde ficavam a Krapas e a Movale? Ninguém sabia.

Anastaso Malbaf recorreu a todos os seus amigos, de diversas nacionalidades.

Os nomes "Krapas" e "Movale" significavam alguma coisa para eles? "Movale" não é o nome daquele poeta da... Não, não, aquele é Novalis. Ninguém conseguia localizar as ruas do mapa. "Fica na cidade velha", dissera o homem. Mas quase todas as grandes cidades do mundo têm a sua cidade velha. E quem garantia que a casa do homem ficava numa cidade grande? Podia ser na parte velha de uma cidade pequena. Mas qual? Em que país? Em que hemisfério?

O homem reconhecera Anastaso Malbaf na livraria. Logo, tinha alguma ligação com o mundo dos colecionadores de mapas antigos, ou se informara sobre Anastaso Malbaf no mundo dos colecionadores. Mas uma descrição do homem entre os colecionadores de Paris só provocou perplexidade. Um sotaque da Europa Central era comum entre colecionadores, mas ninguém reconheceu seu aspecto físico, sua roupa puída, seu ar de indigente. E, afinal ― perguntaram a Anastaso Malbaf ―, o que era mesmo que ele estava vendendo?

Anastaso Malbaf não disse. O terceiro mapa circular do mundo de origem catalã seria dele, só dele, nem que ele tivesse que arrombar a casa de número 79 na esquina da Krapas com Movale para consegui-lo ― depois de descobrir onde ficava a esquina da Krapas com Movale, no mundo. Localizar o terceiro mapa circular do mundo de origem catalã passou a ser uma obsessão para Anastaso Malbaf. Ele esqueceu seus mapas antigos e começou a colecionar, furiosamente, mapas atuais das cidades do mundo, que examinava minuciosamente, tentando encontrar a esquina abençoada, o endereço da sua felicidade, o Paraíso. Mas foi folheando casualmente uma revista sobre agrimensura na sala de espera de seu dentista que Anastaso Malbaf viu o nome "Kapras" e quase teve um desfalecimento. Kapras, engenheiro checo, inventor de um mecanismo qualquer usado na medição de terras. Não foi fácil conseguir mais informações sobre Kapras. Ele não era conhecido nem entre os checos de Paris, nem entre os agrimensores. Mas Anastaso Malbaf persistiu na sua investigação e, exatamente seis meses depois do seu encontro com o misterioso estranho na livraria da Rue de Rivoli, desceu de um trem na estação de Kladna, a poucos quilômetros de Praga, entrou num táxi e disse para o motorista: "Krapas com Movale!" Quando o motorista disse que não conhecia a rua que homenageava um dos filhos mais ilustres de Kladna, provavelmente o único filho ilustre de Kladna? Era na cidade velha. Toca para a cidade velha, ordenou Anastaso Malbaf, que já sentia o cheiro do terceiro mapa circular do mundo de origem catalã, ao motorista. E quando o motorista desdobrou um mapa para consultar e pediu desculpas porque o mapa era antigo e talvez não tivesse os nomes novos das ruas da cidade velha, Anastaso Malbaf explodiu outra vez, sem se dar conta do que dizia. Malditos mapas antigos! O motorista finalmente encontrou a rua Kapras, mas nenhuma rua Movale fazia esquina com a Kapras. Apoplético, Anastaso Malbaf mostrou ao motorista o mapa feito pelo estranho na livraria, com o nome de quatro ruas. O motorista encontrou as outras duas ruas no seu mapa obsoleto e descobriu porque não encontrara a Movale: no mapa ela ainda se chamava Lenine. Começou a descrever o trajeto que fariam, traçando-o com o dedo no mapa ― vou pela Avenida Kennedy até a ... mas foi interrompido pelo impaciente Anastaso Malbaf. Não interessa! Vamos! Vamos!




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