Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Quem abriu a porta do número 79 da Rua Kapras foi um homem mal-encarado.

"Quem é você?", perguntou o homem, como se pedisse uma razão mínima para Anastaso Malbaf existir. Por cima do seu ombro Anastaso Malbaf viu uma mulher sair da cozinha com uma expressão de esperança e medo no rosto, seguida por um garoto e por outro homem mal-encarado. Anastaso Malbaf se identificou e disse que estava ali para pegar o mapa circular do mundo de origem catalã que comprara do dono da casa. "Por quanto?", quis saber o mal-encarado. Um milhão de dólares, disse Anastaso Malbaf. "Ro-ro!", disse o mal-encarado. "Onde está Gregor?", perguntou a mulher. "Ele não está aqui?", perguntou Anastaso Malbaf. Dei-lhe o cheque há seis meses, ele disse que estaria aqui para me entregar o mapa. Entre, disse o homem mal-encarado.

Não! Gritou a mulher. Eles são da Amaloi! Mas Anastaso Malbaf, que não tinha como saber que a Amaloi é a máfia checa que ficara com a família de Gregor como refém enquanto ele fora a Paris tentar vender seu tesouro, o terceiro mapa circular do mundo de origem catalã, entrou.

Anastaso Malbaf está na casa de Gregor, acompanhado da sua mulher e do seu filho, e dos dois homens da Amaloi. Não adiantou ele dizer que também fora enganado por Gregor, que Gregor fugira com seu dinheiro sem se importar com a sua família e, pior, sem lhe entregar o mapa. Os homens mal-encarados da Amaloi não deixam ele sair da casa. Concordaram em esperar por Gregor uma semana, não mais do que uma semana, pois já esperaram seis meses. Se em uma semana Gregor não aparecer com o milhão de dólares, sua mulher, seu filho e Anastaso Malbaf serão acorrentados à cama de ferro do quarto do casal e a casa será incendiada. Anastaso Malbaf passa o tempo respondendo às perguntas do filho de Gregor sobre Paris, mostrando num mapa de Paris onde fica a sua casa, o Trocadero, o Canal Saint Martin, a Rue de Rivoli... E, às vezes, Anastaso Malbaf pede para ver o terceiro mapa circular do mundo de origem catalã, que a mulher de Gregor guarda numa cômoda de pernas arqueadas. Fica olhando o mapa, com um meio sorriso triste nos lábios. E o sorriso fica mais triste quando o seu dedo, depois de percorrer carinhosamente todo o mundo conhecido do século 15, chega ao Paraíso.


O meu canivete

A humanidade se divide em duas categorias: a dos que dividem a humanidade em duas categorias e a dos que não dividem a humanidade em duas categorias. Os que dividem a humanidade em duas categorias a dividem de acordo com critérios variados: entre os que raspam a manteiga e os que tiram pedaços, entre os que abotoam a camisa de baixo para cima e os que abotoam de cima para baixo, etc. Eu divido a humanidade em duas categorias gerais, homens e mulheres, e, entre os homens, os que têm ― ou tiveram, em algum momento da vida ― um bom canivete, e os que não têm ou nunca tiveram um bom canivete.

É importantíssimo um bom canivete na vida de um homem. Sei, porque nunca tive um, e sempre senti isso como uma lacuna, no bolso e na vida. Um homem deve ter um bom canivete. Não precisa ser daqueles completos, que incluem até fio de aço para o caso de alpinismo de emergência. Apenas um bom e volumoso canivete que encha a sua mão e lhe dê a sensação de estar pronto para qualquer eventualidade, de abrir a lata de sardinha encontrada no meio do deserto que pode salvar a sua vida a limpar a unha suja. E eu nunca tive um bom canivete.

E um dia, ganhei um. Está bem, não era, assim, um canivete para levar para o mato ou intimidar desafetos. Na verdade, ganhei de brinde, junto com nem me lembro mais o quê. Um canivetinho para pendurar no chaveiro. Mas eu finalmente carregava várias lâminas no bolso ― ou, vá lá, no bolsinho dos trocados ― para as minhas necessidades básicas de homem.

O abridor não servia para deslocar nenhum tamanho conhecido de tampa de garrafa, esqueça a lata de sardinha no deserto. Não importa. Eu tinha um quase canivete e era um homem mais completo. Experimentava a mesma sensação de autonomia pessoal e disponibilidade para a aventura que acompanhava o homem primitivo ao se afastar da horda, armado com o mínimo do que precisava, além da astúcia, para sobreviver sozinho. Era de novo um catador/caçador como meu antepassado mais remoto. E se o maior desafio para o meu solitário antepassado e seu pré-canivete na savana era o tigre com dentes de sabre enquanto o meu era abrir o celofane de CDs, isso não diminuía a minha identificação com ele e com sua arma simples. Estávamos ambos prontos para tudo. Só mudara o tudo.

Pois com o tempo modificam-se as necessidades básicas de um homem. O inventor do canivete nunca imaginou que um modelo moderno do seu instrumento incluiria um cortador de pêlos do nariz. É que é grande a nossa distância das savanas.

Aeroporto de Cingapura, há algumas semanas. Não me pergunte quantas, de tanto mudar de fuso horário já não tenho bem idéia nem do ano. Estamos no meio do caminho entre Londres e Sydney. Temos tempo para perambular pelo aeroporto, examinar as vitrines com os produtos típicos do lugar ― roupas da Gap, cosméticos da Lacombe, etc. ― e esticar as pernas. Para voltar para o avião temos de passar por aparelhos de detenção outra vez. Só que os aparelhos de detenção de Cingapura detectam mais do que os outros. O portal que denuncia metal na gente faz piiii quando eu passo. É a primeira vez que eu faço piiii na viagem. O guarda me pede para abrir os braços e me investiga mais de perto com seu bastão eletrônico. Ouve-se um piii mais estridente. Mostro a caixinha de remédio que carrego no bolsinho. É de metal, e a óbvia culpada da minha estridência. Faço cara de doente para o guarda, e de um doente que não agüentará muitas passadas mais de bastão eletrônico e pode morrer em suas mãos. Mas ele continua a inspecção.

Retirada a caixinha, continuo a apitar. É o meu canivete. Relutantemente, retiro-o do bolsinho e mostro para o guarda. Olha que coisa mais pequenininha e inofensiva. Ele pega o canivete e dá para outro guarda, junto com o meu cartão de reembarque. O outro guarda toma nota do meu nome. Boa, penso. Vão me devolver o canivetinho na chegada. Nada disso. "Confiscated" diz o segundo guarda. Sou, de novo, um homem sem canivete.

No avião fiquei pensando: está certo. Os aviões de 11/9 foram seqüestrados com cortadores de papel. Qualquer arma é arma, todas as precauções se justificam. Nas refeições que servem a bordo as facas agora são de plástico.

É verdade que na maioria dos casos bastaria ameaçar a tripulação com a ingestão forçada da comida que servem para dominá-la. Mas têm razão em não deixar nada minimamente cortante ao alcance dos passageiros. Há cartazes anunciando a proibição em todos os aeroportos, eu apenas não imaginei que meu canivetinho pudesse ser enquadrado nas ameaças à segurança. Agora imagino a cena.

― Isto é um seqüestro. Sou da Al Dente, uma facção que luta contra o espaguete mole em todo o mundo, e estou disposto a tudo pela causa. Leve-me à cabine de comando ou eu a cortarei com este canivete.

― Que canivete?

― Como, que canivete? Este que tenho na minha mão.

― Isso é um canivete?

― Você deve estar brincando. É um canivete, sim, e tem 17 funções diferentes, além de cortar aeromoças difíceis. Você deveria ver o que ele faz com plásticos de CDs. Agora chega de conversa e me leve à cabine de comando.

― Cavalheiro, por favor. Deixe de brincadeira e sente-se.

― Você não me ouviu? Leve-me à cabine de comando ou eu... Epa.

― Que foi?

― Deixei cair o canivete. Ninguém se mova! Alguém pode pisar nele sem ver.

― Está bem, está bem. Agora sente-se, por favor. Vamos começar a servir a comida.

― Represália, não!

Pensando bem, fiquei com um certo orgulho do meu canivetinho. Sempre poderei dizer que um tive um canivete que, se não servia para abrir garrafas, foi considerado capaz de seqüestrar um Boeing. E confiscado. Só não entendi bem por que tomaram nota do meu nome em Cingapura. A esta altura devo estar em algum relatório difundido entre todas as companhias de aviação do mundo.

"Atenção: tentou entrar com arma dissimulada em avião. Potencialmente perigoso. Mantenham-no sob controle e diminuam a sua porção de Coca Diet”.


O mulherão

Mulherão. O Lineu já nem reagia mais quando chamavam a sua nova mulher assim. Às vezes até ajudava.

― Lineu, essa sua mulher é...

― Eu sei. Um mulherão.

― Não, eu ia só dizer que ela é muito...

― Pode dizer. Mulherão. É o que todos dizem.

E o mulherão... Desculpe, a nova mulher do Lineu, era realmente muito bonita. Grande e bonita. Tão grande e tão bonita que logo se instalou o debate: ela não seria grande e bonita demais para o Lineu? Não era uma questão de duvidar da capacidade do Lineu de, assim, administrar tudo aquilo. Nem se discutia o direito do Lineu, apesar do seu tipo franzino, de ter uma mulher daquelas dimensões. A questão, no fundo, era de justiça. A Valda ― o nome dela era Valda, como as pastilhas, mas a semelhança terminava aí ― era mulher demais para um homem só, fosse quem fosse o homem ou que físico tivesse. Monopolizando uma mulher como aquela o Lineu a estava, por assim dizer, sonegando. Alguma coisa ― por justiça ― tinha que sobrar para os outros. Aquilo era até uma metáfora perfeita para concentração de renda no País, não havia como não se revoltar. Onde estava a solidariedade?

Restava saber como a mulher do Lineu reagiria a uma proposta distributivista.

Fez-se uma rápida enquete no grupo, no fim da qual foi escolhido o Romualdo para testar a receptividade da Valda. Romualdo, o Mualdão, era simpático e bem falante, além de ser casado com a Titina, que já estava acostumada com a sua fama de conquistador, e até fazia pouco dele, dizendo "Esse galo é só de cocoricó", ao que o Mualdão respondia "Vou te mostrar o cocoricó em casa", e todos riam. Todos no grupo eram casados. O último a casar fora o Lineu.

E é preciso dizer que os homens do grupo respeitavam as mulheres do grupo.

Ou, como dizia o Mualdão: "Mulher de amigo, pra mim, é homem feio." Mas também é preciso dizer que nenhuma das mulheres do grupo era um mulherão como a Valda.

Sem as mulheres saberem, é claro, o Romualdo foi escalado para uma missão de reconhecinmento. Sua tarefa era descobrir, com jeito, se a Valda era, ao menos, cantável. Uma vez estabelecido isso, pensariam nos passos seguintes.

Era necessário avançar com cuidado. Ninguém queria magoar o Lineu, logo o Lineu. Mas quem mandara ele casar com um monumento?

O Mualdão pediu algumas semanas para estudar o terreno e fazer sua aproximação. Contou depois que agira cientificamente, cuidando para não espantar a presa nem alertar o Lineu, e que finalmente conseguira ter com a Valda o que chamou de uma conversa franca, os dois sozinhos num bar, cartas na mesa, corações abertos, pessoas adultas e modernas, sim ou não?

― E então? ― quis saber o Mariano, quase babando.

Os outros apertaram o círculo em torno do Mualdão. Estavam reunidos como num conselho de guerra. E então? Mualdão sacudiu a cabeça. Nada feito. Valda lhe confessara que era uma mulher com um apetite sexual equivalente ao seu tamanho, e que já tivera alguma experiência na vida, mas nada comparável ao que encontrara com o Lineu. O Lineu a satisfazia plenamente. O Lineu era o homem da sua vida. O homem definitivo. Não podia nem pensar em outro. Nada pessoal, dissera a Valda. Simpatizava muito com todos. Mas tudo o que precisava, tinha com o Lineu.

O grupo se dispersou, arrasado.

Naquela noite, quando o Mualdão chegou em casa foi recebido pela Titina com o pé batendo no parquet, sempre um mau sinal. Tinha sido visto no bar com a Valda. O que tinha a dizer? E Mualdão foi obrigado a contar tudo. Sua missão de testar a Valda. E o que a Valda dissera sobre o Lineu. Resultado: sem os homens saberem, as mulheres do grupo iniciaram um assédio organizado ao Lineu para descobrirem o que, nele, satisfaz tanto a Valda, um mulherão como a Valda. O Lineu não sabe mais o que fazer com os olhares e as indiretas e os bilhetes que recebe. Na outra noite, num jantar com todo o grupo, sentiu até a mão da Titina por baixo da mesa, numa missão de reconhecimento.




O Murilinho

De tanto ouvir falar do Murilinho ― que era um gênio, que era um chato, que era um crânio, que era um bobo ― a Angela não se conteve e, no dia em que foi apresentada a ele, exclamou:

― Então você é o Murilinho?

E ele, abrindo os braços:

― Alguém tem que ser.
* * *
O Murilinho tinha umas boas tiradas, mas também podia ser grosseiro. Na primeira vez em que convidou o Murilinho para ir na sua casa (contra os conselhos de muitos, que diziam que ela ia se arrepender), a Angela se arrependeu. Falava-se em idades e alguém perguntou ao dr. Feitosa, um velho amigo da família que raramente os visitava e estava lá com a sua senhora:

― Dr. Feitosa, quando é que o senhor faz 69?

E o Murilinho, rapidamente, respondera por ele.

― Aos sábados!

E caíra na gargalhada, enquanto todos em volta congelavam.

Depois que os convidados foram embora, o pai da Angela pediu:

― Por favor, minha filha. Não traga mais esse moço aqui.

― Pode deixar, papai.

Angela tinha decidido não só nunca mais convidar o Murilinho para a sua casa como jamais vê-lo de novo.
* * *
Semanas depois, tomando um chope com o Murilinho, Angela levou um susto quando ele se levantou de repente, derrubando a cadeira, e gritou:

― Quer parar com isso?

Angela, aterrorizada:

― Mas eu não...

― Você não tem vergonha não?

― Eu, eu...

E então ele olhou em volta, como se recém tivesse dado conta de que havia outras pessoas no bar, e explicou:

― Não é o que vocês estão pensando, pessoal. Ela estava alisando a minha carteira.

Angela precisou se controlar para não atirar um copo na cabeça do Murilinho.

Pediu que ele a levasse para casa imediatamente. Nem deu boa noite. Cortara, definitivamente, o Murilinho da sua vida.

Quando soube que a Angela e o Murilinho estavam namorando, a turma se dividiu em dois campos. O dos que achavam que o Murilinho era brilhante, divertidíssimo, uma figura, e por isso mesmo a Angela não o agüentaria por muito tempo, e o dos que achavam que o Murilinho era instável, complicadíssimo, um louco, e por isso a Angela não o agüentaria por muito tempo. Mas a própria Angela garantiu que as duas facções estavam erradas. O Murilinho mudara muito. Desde que começara o namoro era um homem normal. Pacato. Até o pai da Angela concordara em recebê-lo outra vez em casa.

― Vocês vão ver. O Murilinho é outro.

Naquele exato momento apareceu o Murilinho ― vestido de mulher. Vestindo um tailleurzinho jeitoso, salto alto e um chapéu de aba larga. Quando recuperou a respiração, a Angela gritou:

― Murilinho, o que é isso?!

― Eu sei. É o chapéu. Não se usa mais, não é?

A Angela saiu correndo, aos prantos. Pronto. Acabara. O Murilinho, nunca mais.


* * *
Foi o próprio Murilinho quem insistiu numa festa de noivado. Não adiantou a Angela dizer que ninguém mais casava, quanto mais noivava. O Murilinho queria tudo bem tradicional. Uma festa na casa da Angela, com toda a família dela reunida, e os amigos da família, e toda a turma. Que cansara de avisar à Angela que ela iria se arrepender e foi à festa só para ver o que o Murilinho aprontaria desta vez. Mas o Murilinho estava sério. Com uma gravata sóbria, e não a que todos conheciam, que tinha uma mulher nua com penugem de verdade no púbis, usada em ocasiões formais. Passou todo o tempo conversando gravemente com o pai da Angela e com os mais velhos, inclusive o dr. Feitosa, já recuperado, só interrompendo a conversa para assoprar beijos carinhosos na direção da noiva. Quando pediu para fazer um discurso, Murilinho declarou que, apesar do que alguns poderiam pensar dele, era um homem à antiga, um homem convencional. Gostava dos velhos costumes e dos velhos valores, hoje tão esquecidos. Era tão antigo, disse, olhando para o pai da Angela, que queria confessar uma coisa. Ele e Angela ainda não tinham feito sexo. Dava para acreditar?

Ouviram-se alguns risos nervosos mas o pai da Angela continuou a sorrir. Estava gostando da sinceridade do quase genro. E gostara da sua confidência. E então o Murilinho procurou Angela com um olhar inquisidor e disse:

― A não ser que aquele negócio com o desentupidor de pia e o gato seja sexo...

Grande confusão. O pai da Angela tentou avançar no Murilinho e foi contido mas a Angela conseguiu acertá-lo com uma cadeira. A senhora do dr. Feitosa teve que ser carregada para casa. O noivado foi desfeito e o casamento cancelado. E o Murilinho ameaçado de tudo se aparecesse outra vez na frente da Angela.


* * *
No casamento, a família não foi. Foi a turma, antecipando que alguma o Murilinho faria. Sairia dançando com o padre, alguma coisa assim. Mas, fora fingir que queria arrancar as roupas da Angela ali mesmo no altar, depois da cerimônia, o Murilinho se comportou bem. Correu para pegar o buquê da noiva, mas tudo bem. E você acredita que vivem felizes até hoje? Bom. "Felizes" talvez não seja a palavra exata. "Feliz" nunca é a palavra exata. Mas continuam juntos. Como? A Angela não ajuda. Quando perguntam para ela como é ser a mulher do Murilinho, ela dá de ombros e responde:

― Alguém tem que ser.




O Nono e o Nino

Alguns da família dizem que tudo começou quando o Nono se debruçou para ver de perto o Nino, recém-nascido e pelado em cima de uma cama, e o Nino fez xixi na sua lapela. Na lapela! O xixi do Nino descreveu um arco e acertou a lapela da fatiota que o Nono vestira especialmente para visitar a filha caçula e conhecer o décimo neto. Na ocasião o Nono teria exclamado "Mascalzone!" e dado uma risada, mas todos tinham notado que a risada era forçada. A coisa começara ali.

Outros da família dizem que isto é bobagem. Que o Nono esqueceu o xixi na lapela e sempre tratou o Nino como tratava os outros netos: um pouco distante, mas com carinho. Inclusive ria muito das macaquices do Nino, que era o neto mais novo e, longe, o mais agitado de todos. Segundo esta facção, tudo começou no tal almoço da comparação. O fatídico almoço da comparação.
* * *
O Nono era um avô italiano clássico. Nada lhe dava mais prazer do que reunir "la famiglia" em casa para os almoços de domingo. E o Nono dominava a mesa, aos domingos. Dava ordens, dirigia a conversa, fazia perguntas sobre a vida de todos e não ouvia as respostas, propunha brindes, mandava servir vinho para as crianças ― si, si, vino, Coca Cola fura o estômago ― e sempre terminava os almoços puxando uma canção italiana, que todos tinham que cantar, sob pena de receberem um pedaço de pão na cabeça. Depois da sobremesa e antes do café, todos tinham que cantar junto com o Nono.
* * *
No tal almoço fatídico, Giovanna ― a neta que vivia bajulando o Nono, a única que ele deixava brincar com a sua papada ― quis saber o que era "pasta asciutta". Ela sabia o que era "pasta asciuta", mas também sabia que o Nono gostava quando lhe faziam consultas daquele tipo, e não perdia oportunidade de agradar ao Nono. O assunto preferido do Nono era qualquer coisa que tivesse a ver com a Itália, e principalmente com comida italiana. Tanto que ele só começou a falar depois que a Giovanna, aos gritos, conseguiu silenciar o resto da mesa. Inclusive o Nino, que improvisara um jogo de futebol com uma ervilha desgarrada e narrava o jogo com grande entusiasmo. O Nino estava, então, com 10 anos.
* * *
― Ssshhhh, o Nono vai falar. O Nono vai falar!

O Nono esperou até ter a atenção de todos, e começou.

― É cosi, bela. Existe "pasta asciutta" e "pasta in brodo". "Pasta asciutta" é a pasta como nós comemos hoje. "Pasta in brodo" é quando a pasta vem num caldo.

Capisci? A pasta pode ser "asciutta", seca, ou "in brodo", molhada.

― Como meleca ― disse o Nino.

Por um instante o silêncio pairou sobre a mesa como uma locomotiva escolhendo o lugar para cair. Então o Nono falou.

― Quê?

― Como meleca. Do nariz. Meleca também pode ser molhada ou seca.



O Nono olhou para a mãe do Nino. Sua filha, sua filha caçula. Ela era a responsável por aquilo. Ela gerara aquele monstro e aquela comparação sacrílega.

― Liga não, papai... ― disse a filha.

― Ele é um humorista ― tentou justificar o pai do monstro.

― Mas é verdade! ― insistiu Nino.

― A meleca dura é mais fácil de...

― Chega! ― gritou sua mãe.

Naquele domingo o almoço não terminou em canção. O Nono saiu da mesa antes do cafezinho. A Giovanna foi atrás para consolá-lo. Na mesa, Nino recebeu um peteleco em cada lado da cabeça. Mãe e pai, numa operação conjunta.
* * *
Daquele almoço fatídico em diante, nos anos que se seguiram, o Nono sempre se referiu ao Nino como "O Humorista".

― O Humorista não quer mais polenta?

― Vejo que O Humorista está com cabeleira de veado.

― O Humorista não vem hoje? Está estudando para o vestibular? De quê?

Humorismo?

― O Humorista nunca mais veio aqui. Eu não me importo. A Nona dele, si, símporta. Ma io...

Tentavam aplacar o velho.

No domingo que vem ele vem, papai.

― Por mim...
* * *
E houve outro domingo fatídico. O domingo em que o Nino anunciou ao Nono, na mesa do almoço, que usara a cozinha italiana como exemplo na sua tese de formatura.

― Exemplo de quê? ― perguntou o Nono, desconfiado.

― Do imanente e do aparente como categorias filosóficas.

― Quê?!


O pai e mãe do Nino tentaram detê-lo com sinais, sem sucesso. Nino continuou.

― Na cozinha italiana, o imanente é a massa, que é sempre igual. O aparente é a forma que toma a massa, fettuccine, capelete, tortellini, orecchiette, farfalli, que dá uma ilusão de variedade, assim como a individualidade humana parece negar a essência imanente única do ser enquanto...

― Illusione? Illusione?

O Nono já estava de pé.

― É, Nono. A cozinha italiana é uma falcatrua. A massa é sempre a mesma, feita da mesma maneira. Só o que muda é...

― A comida italiana é a mais variada do mundo!

― Não é, Nono. A forma da massa não altera o sabor. A variedade é ilusória, como...

― Saia desta mesa. Agora! E não volte nunca mais.

― Mas Nono...

― Agora!

E quando o Nino se retirava, o Nono gritou:

― Mijon! Mijon!

Dando razão à facção que sustentava que, na sua alma calabresa, o Nono nunca perdoara o xixi na lapela.

O pé da Ana Luiza


Estavam jantando e o Marcelo sentiu alguma coisa acariciar a sua perna. Lentamente, do calcanhar até a batata. Ou a `batata" é tudo, do calcanhar até o vão atrás do joelho? Não importa. Alguma coisa acariciou a perna de Marcelo por trás. Lentamente.

Se lhe pedissem uma definição rápida e lógica para o que tinha acabado de acontecer, Marcelo diria: foi o pé da Ana Luiza. Só podia ser. Ana Luiza estava sentada do seu lado esquerdo (o lado da perna acariciada). Só ela podia alcançar a sua perna com seu pé sem se esticar. E Marcelo não tinha dúvida. Sua perna esquerda fora acariciada, lentamente, por um pé. Isso era definitivo: um pé. De quem? Se tivesse que responder ali, na batata (falando em batatas), Marcelo diria: o da Ana Luiza. Ele (o pé) entrara por baixo da sua calça, subira até a dobra da perna, depois descera. Lentamente. Para fazer isso a Julinha, sentada à sua frente, teria de estender a perna a ponto de quase desaparecer debaixo da mesa, causando espanto e consternação. E, mesmo, a Julinha era sua mulher. Por que ela faria aquilo? Também não podia ser o pé do Alemão. Ora, o Alemão. Fora a Ana Luiza. Se lhe perguntassem ali, naquele instante, ele não hesitaria. O pé da Ana Luiza. Nenhuma dúvida.

Mas, se não fosse? Podia ter sido, sei lá, o gato. O rabo do gato. Difícil confundir um rabo de gato com um pé subindo por baixo da sua calça, mas a alternativa era aceitar que a Ana Luiza, logo a Ana Luiza, estava acariciando a sua perna. O gato era preferível, o gato seria um alívio. A Ana Luiza acariciando a sua perna, depois de todos aqueles anos, inauguraria tanta coisa diferente e surpreendente na vida deles todos, dele, da Julinha, do Alemão, marido da Ana Luiza, seu companheiro no tênis, que precisava ser o gato. O gato, rezou Marcelo, em silêncio. Por favor, o gato. Não o pé da Ana Luiza. Não o pé da mulher do Alemão, seu melhor amigo, seu companheiro no tênis. Qualquer coisa menos o pé da Ana Luiza. Um fantasma e não o pé da Ana Luiza!




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