Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Marcelo olhou para Ana Luiza. Ela estava falando com a Julinha. Perfil para ele. Ela não é feia, pensou Marcelo. Um pouco menos de papada e é até papável. Mas o que é que eu estou pensando? A mulher do Alemão! Nunca notara os seus seios. Mesmo na praia, nunca notara os seios altos e cheios da mulher do Alemão. Altos, cheios e juntos, como ele gostava. Cinco para uma em vez de quinze para as três, como os da Julinha. Tentou se lembrar das pernas da Ana Luiza. Eram curtas, tinha quase certeza que eram curtas. Ela não conseguiria alcançar sua perna com o pé. Não sem se esticar por baixo da mesa e causar espanto e consternação. Fora o gato. Estava resolvido. Fora o gato.

Mas examinemos a alternativa, pensou Marcelo. Ana Luiza acariciou minha perna com o seu pé. Não foi, eliminemos a hipocrisia, um gesto amigável. Gestos amigáveis são feitos com as mãos e por cima da mesa. Gestos amigáveis são os beijos que nos damos, eu e ela, a Julinha e o Alemão. Não há notícia de um gesto apenas amigável feito com o pé por baixo da mesa. Pé acariciando perna por baixo da mesa só quer dizer uma coisa. O que, exatamente?

A Ana Luiza está a fim. De uma hora para outra, depois de o quê? Doze, 15 anos de amizade. A Ana Luiza, que parecia me dar tanta atenção quanto eu dava aos seus seios altos e cheios, enfiou o pé por baixo da minha calça. Daqui a pouco ela me olhará e seus olhos completarão o que o pé começou a dizer. Que ela está a fim. Que, depois de todos estes anos, ela quer trocar a amizade por outra coisa, um caso, uma paixão. Que precisamos nos encontrar, longe do Alemão e da Julinha. Que nossas vidas mudarão por completo. Que, adeus, parceria no tênis. Que adeus temporadas na praia, quando as crianças se entendiam tão bem. Que adeus jantares alternados na casa de um e do outro casal, quando o Alemão cozinhava. Nunca mais as excursões de fim de semana. Nunca mais as noitadas de buraco e risadas. Meu Deus, nunca mais os churrascos do Alemão! A costela marinada do Alemão! O gato. Tinha de ser o gato.

Ela está se virando para mim. Agora. Tem de ser agora.

Falando nisso, que fim levou o Clodovil?

Clodovil era o nome do gato.

― Ficou maluco, Marcelo? ― disse Julinha. ― Ninguém estava falando em gato.

― É que eu não vi o Clodovil...

― Ele está no veterinário. Andava nervoso demais.

Pronto, pensou Marcelo. Resolvido. Não foi o gato. Foi o pé da Ana Luiza. E agora?

― As crianças deixam ele nervoso ― disse o Alemão.

― Ele precisa ser castrado ― disse Ana Luiza.

E agora? Não havia mais dúvida. A Ana Luiza estava olhando para Marcelo. A Ana Luiza ia falar. A Ana Luiza disse:

― Mais?

― Hein?


― Mais carne?

― Ah, quero. Você desta vez se superou, hein, Alemão? Esta costela está se desmanchando.

Eu posso simplesmente ignorar o pé da Ana Luiza, pensou Marcelo. Não acusar, fingir que não houve nada. O que pode acontecer? Ela desiste. Ou ela insiste, e eu insisto que não é comigo. Ela compreenderá que eu não quero, que eu não estou a fim. Que nossa amizade é mais valiosa do que o quê? Do que encontros furtivos, minha cabeça enterrada entre seus seios altos e cheios, suas pernas (como são suas pernas?) em volta da minha cintura, o que será que eu estou perdendo? Quem sabe... Quem sabe eu topo e nada muda? Ninguém fica sabendo que nós somos amantes, a amizade continua, os fins de semana, os jantares, tudo? Não. Eu não conseguiria enfrentar o Alemão. Meu jogo de tênis seria prejudicado, a culpa fatalmente afetaria o meu saque e o meu jogo de rede. Ele desconfiaria. A Julinha descobriria, as crianças... Não. Definitivamente, não.

Marcelo sentiu o pé da Ana Luiza acariciando sua perna outra vez. Chutou o pé na Ana Luiza.

― Alemão, Alemão ― disse Marcelo. ― Esta sua costela...


O presente

Não há o que os pais da Alicinha não façam por ela. No Natal passado, por exemplo, ela ganhou um carro. E neste Natal ganhou um homem. Ganhou outros presentes, claro, mas o homem empacotado era o que mais se sobressaía, embaixo da árvore. Pelo formato já dava para ver o que era mas mesmo assim, enquanto desfazia o embrulho, Alicinha não parava de dizer "Ai, meu Deus, o que será?". E os pais sorriam, contentes.

― É uma coisa que você sempre quis ― disse o pai.

― Uma coisa que você vivia pedindo ― disse a mãe.

Quando o homem apareceu, de terno e gravata, Alicinha deu um grito:

― Um homem!

― Um homem só, não ― disse o pai. ― Um executivo.

― Bem como você queria ― disse a mãe.

― Ele tem cartão de crédito internacional?

― Claro que tem ― disse o pai. ― Vários. E olhe só...

O pai tirou uma carteira do bolso de trás do homem e mostrou seu conteúdo.

Ele era sócio de diversos dos melhores clubes da cidade. Também tinha cartões de estacionamentos, cortesia para cinemas, etc. Além de uma boa quantia em dinheiro, inclusive reais.

― Oh, papai! ― exclamou Alicinha, abraçando o pai. ― Era tudo que eu queria!

Obrigada!

― Aqui está o manual ― disse o pai, retirando um folheto do bolso do casaco do homem. ― O nome dele é, deixa ver...

― Marcelo ― disse o homem, sorrindo.

Alicinha tapou a boca para não gritar outra vez de prazer.

― Que voz! ― disse. E depois: ― Que dentes!

O pai estava lendo o manual.

― Marcelo tem trinta e seis anos. Pratica tênis e natação. Não bebe mas não recusa um chopinho de vez em quando. Gosta de Marisa Monte, Kid Abelha...

― "Kid Abelha"?! ― interrompeu Alicinha, fazendo uma careta.

Marcelo mostrou os dentes de novo.

― Não sou fanático ― disse.

― Ele não é fanático, minha filha ― disse o pai. E continuou a leitura. ― Tem um pouco de rinite alérgica, gosta de jogar cartas e... Alicinha, você não está prestando atenção.

Alicinha estava abrindo outro pacote.

― Estou sim, papai. Só estou abrindo este outro... Ai, eu não acredito!

Mamãe, você me comprou aquela blusa!

O pai insistiu:

― Olha aqui, minha filha. O Marcelo já vem com relógio de pulso, daqueles grandões. Caneta, lapiseira, chaveiro, agenda eletrônica, celular...

Mas Alicinha estava mais interessada na blusa.

― Vai ficar ótima em mim.

Pai e mãe se entreolharam. Era sempre assim. O presente mais caro era o que Alicinha menos ligava. Desde pequena. Desde a vez em que ganhara uma boneca maravilhosa que caminhava e falava mas se interessara mais pela embalagem da boneca. Saíra a brincar com a caixa de papelão, deixando a boneca maravilhosa atirada. Fizera a mesma coisa com a bicicleta, com o computador... Agora saíra atrás de um espelho, para ver como ficava a blusa.

Marcelo continuava sorrindo. Perguntou:

― O que que eu faço?

A mãe suspirou. Disse:

― Acho que vamos botar você na garagem, junto com o carro. Que ela também nunca usa.


A aposta


Ela era fantástica. O homem que aproximou-se dela teria toda a razão de prostrar-se à sua frente, com a cara no chão. Isso: não era uma mulher, era um altar barroco. Mas o homem ficou de pé. E disse:

― Não leve a mal...

― O quê? ― disse ela, lá de cima.

― É que eu e meu amigo, ali, fizemos uma aposta...

― Que aposta?

― Que você me daria um beijo na boca. Um longo e apaixonado beijo na boca.

― O quê?!

― Espere, por favor. A aposta é de um milhão de reais.

― Um milhão?!

― Se você me ajudar a ganhar a aposta, metade do dinheiro é seu.

― Metade de um milhão para mim?

― É.


Ela pensou durante alguns segundos. Depois ergueu-se do banquinho do bar, abraçou o homem e lhe deu um longo e apaixonado beijo na boca. Ao fim do qual o homem sacudiu a cabeça e disse, desolado:

― Perdi.

― Como, perdeu?

― Eu apostei que você não daria.

A volta Da série Poesia numa Hora Dessas?!

... e depois dos anos de refrega e dos riscos de quem navega a entrega a suave mão que esfrega o colo que aconchega e a voz que diz: "Ulisses, agora vê se sossega."




O primeiro homem

Fizeram a aposta.

― O primeiro homem que entrar por aquela porta.

Mas a Helena pensou melhor e pediu:

― Péra um, pouquinho. Péra um pouquinho.

O primeiro homem, certo, mas com algumas condições. Não podia ser deficiente físico. Não podia ser conhecido delas. E não podia ser, assim, muito estranho.

― Define "estranho" ― pediu a Laura.

― Estranho. Muito doido. Cabelão, argola no nariz, coisas assim.

Naquele exato momento entrou no bar um com o cabelo espigado pintado de roxo e a Helena completou:

― Como aquele ali, por exemplo.

― E como é que você sabe que aquele ali não é um executivo excêntrico? Pode ser o melhor partido da cidade, disfarçado.

― Faça-me o favor, Laurinha.

― Está bom, cabelo roxo e argola, não.

― Sujo também não.

― Como a gente vai saber se ele é sujo ou não, daqui? Desta distância não se vê unha.

― Ah, é? Eu reconheço homem sujo de longe. Quem vê cara, vê cueca.

― Está bom. Sujo não. Que mais?

Helena fez um gesto, querendo dizer que aquelas eram as suas únicas exigências. O primeiro homem que entrasse pela porta do bar e não pertencesse a nenhuma das categorias citadas, ela...

― Olha lá ― disse Laura.

O homem que entrara no bar era maduro, bem-vestido, razoavelmente bonito, e parara logo após passar pela porta, como que dando tempo a Helena para examiná-lo bem.

― Laurinha do céu ― disse Helena ― é ele. É ele!

― Então ataca.

― Eu vou casar com esse homem, Laura!

― Então vai.

― Já me sinto grávida. Eu já estou grávida desse homem, Laura!

― Então...

O homem abanou para uma mulher que o esperava numa mesa de fundo e dirigiu-se para lá. O homem e a mulher se beijaram.

― Não era ele... ― disse Helena.

― Espera aí. Nós não dissemos nada sobre o homem ser casado ou comprometido.

Outra mulher não é empecilho. Ataca.

― Não com a outra de corpo presente, não é, Laura?

― Iiih... Não foi isso que nós combinamos...

― Olha o que entrou agora.

Laura olhou. Um moço de óculos. Cabelo comprido atrás.

― Você não disse que cabelão, não?

― Há cabelões e cabelões, minha querida. Esse é cabelão lavado, talvez escovado. Sinal de comportamento anticonvencional, mas moderado. E na moda.

Nenhuma argola à vista. Talvez seja um intelectual, mas isso tem cura. É esse.

― Então vai lá.

― Não. Ele vem aqui.

E Helena pôs-se de pé e abanou freneticamente para o moço, que depois de se certificar que os abanos eram para ele mesmo, aproximou-se da mesa, com uma expressão de dúvida no rosto e disse:

― Perdau, no estoy reconocendo...

Depois de Helena despachar o moço, dizendo que se enganara e ele não era quem ela estava pensando, as duas ficaram discutindo. Também não tinham combinado nada sobre nacionalidades, mas a Helena argumentou que deveria estar subentendido que argentino, não.

― Faça-me o favor, não é, Laurinha?

Depois entraram dois homens, mas de mãos dadas, depois um que elas já conheciam, depois um que a Helena garantiu que não trocava as meias há uma semana, finalmente um que a Helena disse "É esse". E atacou. A aposta era que em pouco tempo ela estaria casada com o primeiro homem que entrasse pela porta do bar. Fosse ele quem fosse, dentro de certos parâmetros. E Helena ganhou a aposta. Casou-se com Henrique (Riquinho), um bom homem, apesar da sua careca e de alguns hábitos que Helena só conheceria quando já estavam casados, os mesmos hábitos que tinham provocado a briga feia dele com a namorada em frente ao bar, e a declaração da namorada de que nenhuma mulher com miolos casaria com um homem como ele, e a resposta dele: Ah, é? Ah é?

Pois ela ia ver. Entraria naquele bar e casaria com a primeira mulher que lhe desse bola.

O que o papagaio cantava


O homem da cicatriz e o anão chinês não pediram nada. Foram direto ao assunto. O homem da cicatriz pegou o barman pela frente da camisa e o puxou até os dois ficarem nariz a nariz. O barman gritou de dor porque o homem da cicatriz tinha esquecido de tirar o charuto aceso da boca.

― Você é McDuff? ― perguntou o homem da cicatriz.

― Quem quer saber? ― perguntou o barman.

― Eu, moderadamente, mas ele muito mais ― disse o homem da cicatriz, apontando com o polegar para o anão chinês, que tinha tirado uma pistola quase maior do que ele de dentro do casaco e agora a apontava para a orelha do barman.

― Fale ― disse o anão chinês. ― Desta distância, mesmo se eu errar o tiro, você ficará surdo com o estampido. Você é McDuff ou não é?

― Sou.


― Você morou no mesmo prédio de Graminsky, na Antuérpia?

― Graminsky?

― Um homem enorme. Seis, sete vezes o meu tamanho. Cabelo vermelho, barba verde. Uma perna mecânica e um olho de vidro com uma paisagenzinha de inverno dentro. Pintava as unhas.

― Como se escreve "Graminsky"?

O anão chinês introduziu a ponta do cano da pistola no ouvido do barman.

― Agora você não precisa se preocupar ― disse o anão chinês. ― Estará morto antes de ouvir o estampido.

― Está bem! ― disse McDuff. ― Morei, sim, no mesmo prédio de Graminsky. Ele e seu maldito papagaio.

O homem da cicatriz e o anão chinês se entreolharam.

― Você se lembra do papagaio? ― perguntou o homem da cicatriz.

― Como poderia esquecer? Eu passava o dia inteiro gritando para ele calar a boca. Porque ele passava o dia inteiro dizendo a mesma coisa.

― O quê?

― O que o quê?

― O papagaio! Passava o dia inteiro dizendo o quê?

― Sei lá. Era uma canção. Um poema. "Seis odaliscas em um colchão, sete ministros só de calção..." Não, era "Quatro odaliscas só de calção, seis ministros em..." Espera um pouquinho. Eram sete odaliscas, seis ministros...

Não consigo me lembrar.

― Tente ― pediu o anão japonês, tirando outro revólver de cano longo de dentro do casaco e apontando-o para a testa de McDuff ― ou em dois segundos os seus miolos é que estarão fritando naquela grelha.

O homem da cicatriz fez uma careta. Ainda não tinha almoçado.

― Não consigo! ― disse McDuff. ― Faz muito tempo. O prédio já foi demolido.

Nem sei se a Antuérpia ainda continua lá.

― Tente! ― ordenou o anão chinês.

― Deixa ver... Seis odaliscas num colchão, quatro ministros de calção, dois cabritos do Dão, cinco bispos de São João... Não. Cinco odaliscas num colchão, dois bispos do Dão, sete cabritos de São João, dois ministros...

Não, não, não. Não consigo me lembrar!

O homem da cicatriz bateu com a mão espalmada no balcão e gritou:

― Maldição!

― Você era a nossa última esperança ― disse o anão chinês para McDuff, sentido.

― Me dá um uísque ― disse o homem da cicatriz ― e um hambúrguer.

― Por que vocês queriam saber o que o papagaio dizia? ― perguntou o barman servindo o uísque, aliviado porque as pistolas do anão chinês tinham voltado para dentro do seu casaco.

Foi o anão chinês quem respondeu.

― Porque as últimas palavras do maldito traidor Graminsky antes de morrer foram "o papagaio".

― Graminsky morreu?

― Está com quatro balas no corpo e embaixo da terra há seis meses. É uma dedução lógica ― disse o homem da cicatriz.

― A única pista que tínhamos do número da senha para retirar do banco o dinheiro que Graminsky nos roubou eram as últimas palavras dele ― prosseguiu o anão. ― "O papagaio."

― Fomos até o apartamento dele ― continuou o homem da cicatriz. ― Lá estava o papagaio, na sua gaiola. O papagaio não parava de falar. Ou de cantar, ou o que fosse. Não prestamos atenção no que ele dizia. Procurávamos números.

Revistamos o papagaio. Revistamos a gaiola. Procuramos nos jornais no fundo da gaiola. Demolimos a gaiola. E a todas essas o papagaio cantando. Foi aí que esse imbecil teve a idéia.

O imbecil era o anão chinês. Que defendeu-se:

― Você também não agüentava mais a cantoria do papagaio!

― Esse imbecil decidiu que os números estavam dentro do papagaio. E matou o bicho.

Silêncio. Depois, já com o hambúrguer na sua frente, o homem da cicatriz continuou:

― Depois de nos darmos conta que a senha não estava na barriga do papagaio, estava na sua canção, passamos estes últimos seis meses procurando os vizinhos do Graminsky naquele prédio da Antuérpia. Todos os que tinham ouvido o papagaio cantar e podiam se lembrar das palavras da canção. E, principalmente, dos números. Encontramos todos. Dois tinham morrido, mas localizamos os outros nove. Dez, com você. E nenhum conseguiu se lembrar com exatidão o que o papagaio cantava. Nem com a ameaça de perderem os miolos, ou coisa pior.

― Espere! A gorda do terceiro andar. A cartomante. Ela estava sempre com o gravador ligado. Gravava tudo no prédio. Deve ter gravado o que o papagaio cantava!

O homem da cicatriz e o anão chinês sacudiram a cabeça com tristeza.

― Ela nos mostrou as gravações. Não se ouve nada. Aliás, só se ouve você gritando para o papagaio calar a boca.

O anão chinês estava tirando as duas pistolas de dentro do casaco outra vez.

― Tente mais um pouco, McDuff.

― Deixa ver. Sete odaliscas num colchão, dois cabritos de calção... Não.

Quatro bispos do Dão, um ministro de São João... Não. Quatro odaliscas...

Não consigo!

― Continue tentando, McDuff. Não temos nada para fazer nos próximos seis meses.


O que realmente aconteceu


Para encerrar de uma vez por todas o assunto, eis o que realmente aconteceu no domingo, 12 de julho, antes de o Brasil entrar em campo para decidir a Copa do Mundo. Todas as outras versões dos fatos são incorretas ou fantasiosas.

11 horas ― Os jogadores acordam normalmente, como todos os dias. Dunga vai no quarto de cada um e o derruba da cama.

11h15 ― Zagallo convoca uma reunião para tratar da estratégia que usarão contra a Noruega. Ninguém lhe dá atenção. Zico lembra a Zagallo que o jogo será contra a França.

11h30 ― Café da manhã. Todos parecem descontraídos. Há a habitual guerra de coalhada, vencida por Roberto Carlos. Dunga pede voluntários para limpar uma clareira atrás da concentração de pedras e tocos de árvores, mas acaba indo sozinho. Ronaldinho recebe um telefonema da Adidas, dizendo que seqüestrou a Suzana Werner. Zagallo volta para a cama.

12 horas ― Almoço. Todos estranham a mudança do pessoal da cozinha, e do menu. As suspeitas crescem quando um dos escargots servidos ao Ronaldinho tenta fugir do prato, mas cai, com evidentes sinais de envenenamento, antes de chegar muito longe. O escargot é atendido pelo dr. Lídio, que diagnostica estresse e autoriza a sua volta para o prato de Ronaldinho.

13 horas ― Descanso. Os jogadores vão para os seus quartos, ignorando uma convocação do Zagallo para estudar teipes dos últimos jogos da Croácia, para não serem surpreendidos. Júnior Baiano pede um dos livros do Leonardo emprestado e pergunta se o Schopenhauer é com figurinha. Isto parece afetar estranhamente Ronaldinho, que tenta esgoelar Roberto Carlos. Ninguém intervém e alguns até o incentivam. Ronaldinho só pára com a chegada de Ricardo Teixeira com a notícia de que a Nike comprou a CBF, pretende redimensioná-la, investindo em outras áreas, e quer perder a Copa para sinalizar ao mercado que está abandonando o futebol.

14h23 ― No quarto, Roberto Carlos raspa a cabeça de Ronaldinho e nota um pequeno dardo espetado na sua nuca. Ronaldinho diz que pensou que fosse uma mordida de mosquito e os dois não dão maior atenção ao fato.

15h17 ― Roberto Carlos acorda da sesta e vê Ronaldinho caminhando no teto.

15h20 ― Depois de tentar, inutilmente, puxar Ronaldinho para o chão, Roberto Carlos vai procurar ajuda. Encontra Dunga no corredor, fazendo embaixada com uma escrivaninha. Os dois correm para o quarto e descobrem Ronaldinho de pé em cima da cama, coberto de pêlos, rosnando e com o chapéu do Napoleão na cabeça. Começam a gritar. Chegam correndo César Sampaio, Cafu, Altair e Júnior Baiano, mas nenhum deles consegue impedir que Zidane seja o primeiro a entrar no quarto.

15h42 ― Depois de examinar a situação, o dr. Lídio recomenda repouso e muito líquido e receita duas aspirinas e um calmante para Roberto Carlos.

16h05 ― Em pânico, César Sampaio enfia o dedo na boca e tenta desenrolar a língua de Zé Carlos, até ser convencido de que ele fala assim mesmo. Zagallo acorda da sesta e, ao ser informado do ocorrido, pergunta: "Que Ronaldinho?"

18h52 ― Ronaldinho é levado para um hospital francês, onde é substituído por um sósia.

20h30 ― O sósia de Ronaldinho assegura à comissão técnica de que pode jogar. Intrigada com o fato de o jogador estar falando com um forte sotaque francês, a comissão ouve dos médicos a explicação de que aquilo é comum em casos como o do Ronaldinho, seja ele qual for.

20h50 ― A seleção entra em campo com o sósia do Ronaldinho, que não joga nada. O Brasil perde o jogo e a Copa.


O ronco básico


Na medida em que lida com os apetites humanos e suas conseqüências, a economia poderia ser um ramo de gastroenterologia. Ela tenta entender e regular o metabolismo social e impedir o desarranjo e nem é preciso evocar a equação freudiana de dinheiro com excremento para defender a analogia. Os economistas determinaram que tipos de fome devem ser saciadas ou inibidas e, como os médicos, prescrevem suas receitas em linguagem cifrada. A economia e a gastroenterologia são as ciências das necessidades básicas e do seu manejo possível.

Existe um tipo de economista que pratica o que equivaleria a uma nova ciência: a gastroenterologia sem vísceras. Imagine-se gastroenterologistas que declarassem o sistema digestivo irrelevante e se dedicassem a gastroenterologia como puro exercício intelectual. Os movimentos peristálticos reduzidos a fórmulas matemáticas que independem do intestino, os sucos gástricos isolados da sua origem e função e discutidos como categorias filosóficas. A gastroenterologia sem gases, sem cheiro e sem gente.

Os economistas que vivem e teorizam num plano assim, inalcansável pela miséria humana, não são, necessariamente, desumanos. Diziam que Keynes salvara o capitalismo da sua própria selvageria porque era um homem sensível, um esteta e um comensal do grupo de Bloomsbury. Assim como Dante, na Divina Comédia, dispensara cicerones tradicionais como os arcanjos Rafael ou Gabriel e escolhera Virgílio como seu guia no além, a economia também precisava de alguém com outra sensibilidade, um poeta, para entender a si mesma.

No Brasil a economia vem sendo dirigida por pessoas (exemplos: Roberto Campos e Delfim Netto) que não fariam feio numa mesa com a Virginia Woolf, embora talvez se negassem a acompanhar Dante no inferno, por precaução.

Nenhum dos nossos últimos presidentes e comandantes econômicos foi um ogro.

Alguns chegaram perto da santidade, como o Funaro e o Ricupero, e todos eram pessoas sensíveis. O Ciro Gomes estava até aprendendo a tocar saxofone! Mas nossa política econômica continuou sendo de descaso pela emergência social.

Pelo ronco básico na barriga.

Com a eleição de um social-democrata que dizia todas as coisas certas imaginou-se que finalmente fosse transformado em política prioritária de governo o que antes era apenas caridade organizada, matéria para a primeira-dama, coisa de mulher. Mas só o que mudou é que melhorou a primeira-dama. O Malan é outro que nos representaria bem em qualquer salão inteligente e elegante do mundo, mas também é outro que se dedica à gastroenterologia teórica. Que reduz o sacrifício humano e equações e trata gente como números.

Pessoas e números representam coisas simetricamente opostas. Os números são, ao mesmo tempo, constantes e infinitos, exatos e abstratos ― ou seja, tudo que um ser humano não é. Pode-se mesmo definir o humano como aquilo que resiste à matemática.




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