Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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O totalitarismo tenta transformar as pessoas em números para melhor manejá-las. Os economistas transformam as pessoas em números para tentar entendê-las. Mas as pessoas resistem, e todos os projetos de engenharia social e ordenação econômica acabam num certo ressentimento com essa birra humana, esse egoísmo refratário. Os números são tão mais limpos e razoáveis que as pessoas e seus intestinos. Números não têm cheiro, nem opinião, nem apetite. Há um altruísmo básico nos números, sua única ambição individual é darem certo no fim. Ou seja, servirem seus mestres, resgatarem o grande plano, fecharem o grande balanço, acertarem as contas. Mas o inimigo não deixa.

O inimigo é essa coisa irredutível, em todos os sentidos, que não quer sacrificar nenhum dos seus caprichos individuais ― comer, viver, em alguns casos extremos até ser feliz ― para que os números dêem certo. O problema das pessoas é que elas levam tudo para o lado pessoal, e assim não dá. É impossível acertar as contas se as pessoas se recusam a ter o mesmo despreendimento dos números. E não se diga que os números são coisas neutras, sem paixão e sem vida. Os números têm sua majestade, têm seus mistérios, têm até sua metafísica (as taxas de juros). Só não têm fome e família. Por isso as pessoas e os números são incompatíveis.

E os números estão ganhando a briga. Pode-se definir este fim de século como o da redenção dos números: eles não têm mais nada a ver com as pessoas.

Estão livres da inconstância humana. O século que viu várias tentativas falidas de ordenar as pessoas como números finalmente desistiu da analogia.

São universos à parte, a convivência não podia dar certo, pior para as pessoas. Os números e seus mestres herdarão a Terra e reinarão no novo milênio. Partindo do zero.


O samurai da montanha


No Japão medieval uma casta de samurais desenvolveu uma técnica de combate chamada "shin pim-ba", ou "depois" (shin) "pimba!" (pim-ba), a arte do contragolpe. Ao enfrentar outro samurai, o mestre do "shin pim-ba" esperava que este fizesse o primeiro movimento, e o primeiro movimento determinava seu contragolpe, geralmente mortal. Os mestres do "shin pim-ba" eram invencíveis, tal a rapidez com que conseguiam que o segundo golpe chegasse antes do primeiro. Mas, quando dois mestres do "shin pim-ba" se enfrentavam, ninguém fazia o primeiro movimento. Os lutadores ficavam cara a cara durante horas, dias, às vezes semanas, sem mover um músculo. O menor movimento daria a vantagem ao adversário.

Com o tempo, desenvolveu-se uma arte paralela à arte do contragolpe, que era a arte do insulto. Um mestre do "shim pim-ba" provocava o outro com insultos, tentando forçá-lo a perder a cabeça e fazer o primeiro movimento. Como os dois eram treinados para agüentar tudo sem se mexer, desde referências a seus hábitos de higiene até especulações sobre a natureza do pai e a preferência sexual de mãe e irmãs, os insultos ficavam cada vez mais pesados e rebuscados. E, assim como haviam samurais famosos pela sua destreza com a espada, muitos ficaram famosos pela criatividade e contundência dos seus insultos, que faziam até veteranos do "shin pim-ba" tremerem com o esforço para se controlar.

Mas um dia apareceu um mestre do "shin pim-ba" chamado Ita-Maru, o Samurai da Montanha. Ele não insultava o adversário para provocar o primeiro movimento. Enquanto o adversário chamava-o de tudo, principalmente de chato, com irritação crescente, Ita-Maru limitava-se a dizer "Uai", a intervalos fixos. Só isso. "Uai", silêncio "uai", silêncio, etc. Sem mudar o tom da voz ou a expressão do rosto. O adversário raramente agüentava por mais de uma hora. Perdia o controle, dava o primeiro golpe... e Ita-Maru, pimba. Acertava o segundo primeiro e ganhava sempre. Tornou-se uma lenda entre os samurais e os chatos.

Mas isso foi no Japão, há muito tempo.


O sexo dos anjos


Costuma-se citar a controvérsia sobre o sexo dos anjos que tomou conta da Igreja durante um certo período como exemplo extremo do que não tem nada a ver com nada, do detalhismo inútil, da perda de tempo com o desimportante e com o supérfluo, da futilidade tratada com mais ciência do que merece ou da desconversa. Mas para os doutores da Igreja medieval reunidos em concílio o assunto era de grande importância. Nenhum deles estava desconversando ou entregando-se a um preciosismo vazio, estava definindo um artigo da sua fé. Não sei bem como terminou a controvérsia. Parece que concluíram que os anjos tinham dois sexos, como os humanos, mas que isso não devia preocupar porque os sexos não eram opostos. A tese vitoriosa teria sido um meio― termo entre a dos que defendiam que os anjos não tinham sexo algum e a de um certo cardeal rebelde, segundo a qual haviam anjos de 17 sexos diferentes, pois o que definia a natureza dos anjos era a sua independência de todas as restrições humanas, inclusive a da rígida dicotomia sexual.

A questão do sexo dos anjos se seguiu a outra, sobre o número exato de anjos que podiam dançar na cabeça de um alfinete. Também não era uma especulação pueril. Se os anjos eram entidades incorpóreas, um número infinito deles podia ocupar a cabeça do alfinete, para dançar ou fazer o que quisessem. Se os anjos tivessem corpo, a sua freqüência simultânea na hipotética cabeça diminuiria bastante, do infinito para talvez um par precariamente equilibrado. Presume-se que a decisão foi pelos anjos com corpo, pois logo em seguida passaram a especular sobre que sexo teriam estes corpos, na certa pensando nas possíveis conseqüências de dançar num lugar tão apertado.

Aproveitei uma experiência mística que tive na semana passada, quando meu anjo da guarda se materializou na minha frente, à mesa do café da manhã, para tirar qualquer dúvida. Ele ou ela ainda nem estava bem ali e eu já estava perguntando:

― Qual é o seu sexo?

― Sou seu anjo da guarda e estou aqui para lhe dizer que... O quê?

― Você tem sexo?

Ele ou ela não gostou.

― Tenho, mas deixei em casa ― respondeu, com rispidez.

― É só para resolver uma dúvida antiga.

― Tenho sexo, mas isso não interessa. Estou aqui para...

― Masculino ou feminino?

Ele ou ela suspirou.

― Você não quer saber por que eu estou me materializando na sua frente?

― Quero, quero. Mas antes me responda...

― Não respondo nada! Vim para lhe avisar que estamos em tempo de eleições e que você precisa cuidar do que escreve. Não pode fazer nenhum tipo de proselitismo político.

― Eu sei, eu sei.

― O melhor mesmo é não falar em política. Escolher outro assunto.

― Mas eu já escolhi outro assunto.

― Qual?

― O sexo dos anjos.

― Mas é uma obsessão!

O tímido no teatro



Nada aterroriza um tímido mais do que o teatro interativo. Dizem que nas formas primitivas de teatro sempre havia a participação do público. No teatro grego, não era raro alguém da platéia avisar, por exemplo, ao Édipo que ele estava namorando a mãe, forçando o ator a se fingir de surdo para não estragar a trama. No teatro elizabetano a platéia assistia às apresentações de pé, comendo e bebendo e interferindo na peça com palpites ou com empadões bem mirados. Contam que alguns vilões de Shakespeare chegavam a interromper suas falas para responder aos insultos mais pesados do público, embora não haja registro de nenhum que tenha usado sua espada para silenciar alguém. Em todos estes casos, no entanto, a interação era por iniciativa da platéia. Depois, com o "music hall", a participação do público começou a ser incentivada do palco, mas, a não ser por uma eventual corista no seu colo ou alguma piada dirigida pelo cômico à sua careca, o espectador das primeiras filas não tinha muito o que temer. Certamente nada parecido com o que viria com o teatro moderno, quando as primeiras filas se transformaram em áreas de exposição ao vexame, quando não a matéria orgânica. Quando, por assim dizer, o palco contra-atacou. Para um tímido, ir ao teatro virou uma tortura, e as primeiras filas um tormento. Ele nunca sabe o que espirrará nele, ou se a mulher nua que sentar no seu colo não começará a morder sua orelha, ou não será um homem. Ou se ele não será arrastado para o palco, despido à força e lambido por todo o elenco.
De certa forma, a experiência teatral de um espectador moderno repete toda a história do teatro, como o feto repete toda a história da espécie no ventre. Nada se parece mais com o teatro de antigamente do que o teatro infantil, onde também há tramas básicas, comédia ingênua, exageros trágicos e catarse. As crianças interferem na história como o público de antigamente, vaiando os vilões, incentivando os heróis, avisando aos berros que o lobo vai atacar e, não raro, subindo no palco para impedir o ataque. E, por mais que façam, não são punidos, continuam sendo "amiguinhos" e convidados a voltar por atores agradecidos, que muitas vezes precisam se controlar para não esgoelar o mais próximo, assim como eram toleradas as intromissões do público antigo. Quando fica adulto o espectador aceita os abusos do teatro adulto como uma forma de contrição: ele merece qualquer vexame, de tanto que chateou quando era um espectador infantil. A agressividade do teatro moderno com o público na verdade é vingança.
O tímido não tem nada a ver com tudo isto. Quando era pequeno, era dos poucos que ficava quieto no seu lugar do teatro, salvo por um outro sobressalto com o lobo. E, no entanto, hoje, muitas vezes é o escolhido para a interação, e para viver, sem merecer, o seu pior pesadelo. Para não se arriscar, pede um lugar nas últimas filas. Especifica: quer um lugar ruim, de preferência sem visão do palco, para também não ser visto do palco. Mesmo assim, fica nervoso. Quando batem no seu ombro ele grita "Eu não! Eu não!" até se dar conta que é apenas alguém querendo entrar na sua fila e que a peça ainda nem começou. Quando começa a peça, ele fica preparado. Ao menor sinal de interação, nem que seja um ator que se aproxime muito do proscênio ou olhe para a platéia de um modo suspeito, ele corre para a rua.


O tridente tatuado

Deu o que falar, na praia. Ele um homem maduro (ou "podre", como diria a mulher, quando pediu o divórcio), ela uma menininha. Mas como ele resistiria, se a primeira coisa que a menininha disse para ele foi:

― Posso arruinar a sua vida?

Não "quer me namorar?", ou "topas?" ou "tem horas aí, tio?", mas:

― Posso arruinar a sua vida?

Ele teve que pensar muito numa resposta, quase um minuto. No fim só disse:

― Arruinar, como?

E ela:


― A escolha é sua. Paramos por aqui, ou continuamos. Você diz "não" e eu vou embora, ou você diz sim e eu arruino a sua vida. Ele riu, tentando acertar o tom. Superior, condescendente, tipo "Quié isso, garota, eu podia ser o seu pai". Mas saiu forçado. Ela tinha o quê? Dezessete anos. Talvez menos. O biquíni era daqueles amarradinhos do lado.

― Arruina, como?

― Ruína completa. Escândalo. Você sai de casa. Nós vamos morar juntos. Em um mês ou dois eu provavelmente deixo você. Você vai atrás de mim, dá vexame.

Talvez até me mate. Ou eu mato você. Mas pense no que seriam esse mês, ou dois...

Ele pensou em dizer "isto é uma brincadeira?" Pensou em dizer "não faça isso com um velho". Pensou em dizer "por que eu?" Só não pensou em dizer "não", para ela não ir embora. Os olhos dela eram de um castanho esverdeado. Ela insistiu:

― E então?

― Começando quando?

― Quando você quiser. Por mim, já começou.

Começou no carro dele, àquela tarde mesmo. Foi quando ele notou a pequena tatuagem que ela tinha na parte de dentro da coxa. Um tridente. Perguntou o que era aquilo. Ela disse:

― Nós todas temos uma igual.

― "Nós" quem?

Ela apenas sorriu.

― Vocês são um clube? Uma irmandade? Uma seita? Ela só sorrindo.

― As menininhas que arruinam vidas, é isso?

Ela deu uma risada. Depois prendeu a cabeça dele entre suas coxas tostadas.

Era impossível ser discreto na praia, às 4 horas da tarde. Foram vistos.

Naquela noite a mulher dele já sabia. No dia seguinte toda a praia sabia.

Foi o escândalo da temporada. Voltaram para a cidade. A mulher pediu divórcio em seguida. Ele não se enxergava, não? A menina podia ser sua filha! Ele foi morar com a menina. Durou pouco mais de um mês. Ele largou o trabalho, largou tudo. Quando não estava com a menina no apartamento estava por perto, controlando a vida dela, louco de medo de ser traído, desconfiando até de entregador de pizza. No fim ela declarou que iria deixá-lo. Quando viu, ele estava no chão, agarrado aos pés dela, implorando para que ela não fosse embora. Ela foi. Pisou na cabeça dele antes de sair.

Hoje ele é uma ruína. Não trabalha, bebe, tem problemas circulatórios mas não tem dinheiro para se tratar, uma ruína. Tinha durado pouco mais de um mês. Mas que mês e pouco, pensa ele, às vezes, e sorri com a lembrança. Que mês e pouco. E até hoje ele não sabe o que significa aquele tridente que ela tinha tatuado na parte interior da coxa. Que todas elas têm.

Orquídeas dissimuladas Ficou combinado que ele apenas conversaria com o dr. Alécio, que além do mais era um amigo. Não seria uma consulta. Ninguém estava sugerindo que ele precisava falar com um psiquiatra. Apenas ter uma conversa com o dr. Alécio, um amigo que, por acaso, era psiquiatra.

O dr. Alécio começou dizendo que a mulher dele estava preocupada com ele e que... "E é para estar mesmo" interrompeu ele. E acrescentou: "Eu descobri o jogo delas."

― Que jogo? ― perguntou o dr. Alécio.

― Eu estava lendo um artigo sobre o mimetismo. Sobre a propriedade que têm certos animais e plantas de adquirirem a forma de outros animais e plantas.

Você sabia que existe um tipo de orquídea que toma a forma de um inseto, só para ser polinizada pelos outros insetos da mesma espécie, por engano?

Sabia?

― Não, eu...



― É um truque. É um estratagema da orquídea. Ela se aproveita do impulso sexual de outra espécie para reproduzir sua própria espécie. Entende?

― Sim, mas o que...

― E então olhei para a Olguinha e tive uma revelação. Como uma explosão na minha cabeça. Elas também não são o que parecem ser.

― Quem?


― As mulheres. São como orquídeas dissimuladas. Tomam a forma de mulher porque sabem que nós desejamos as mulheres, mas só querem o nosso pólen, o nosso sêmen, para reproduzir a sua espécie.

― Que espécie?

― Aí é que está. Nós não sabemos. Nós nunca saberemos. Só conhecemos a dissimulação.

― Toda mulher é outra coisa, imitando mulher?

― Por aí. Toda mulher é o estratagema da outra coisa. Um truque, para assegurar a sobrevivência de uma espécie secreta, com a nossa ajuda.

― Sei...

Quando ele saiu do consultório o dr. Alécio telefonou para a Olguinha, como tinham combinado. Disse que não parecia ser grave, um delírio passageiro com componente paranóico, talvez devido ao estresse, e que tinham acertado mais conversas.

Naquela noite, na mesa do jantar, a mulher do dr. Alécio disse:

― Alécio, por que você está me olhando desse jeito?

Último conto de verão


Ela não era bonita, mas era elegante e agradável, seus 30 e poucos anos, de terninho. Já nos conhecíamos de vista, era mesmo extraordinário como nos víamos. Nos cruzávamos nos lugares mais diferentes. Tanto que, mesmo sem sermos apresentados, passamos a nos cumprimentar. Mas só quando ela se fez anunciar, naquele dia, e entrou no meu escritório, de terninho, é que fiquei sabendo seu nome: Jandira. Uma mulher de negócios, pensei. Uma eficiente mulher de negócios.

Conversamos sobre banalidades, comentamos a comida do restaurante em que tínhamos nos visto pela última vez, e, finalmente, ela descruzou as pernas, mudou de posição na cadeira e limpou a garganta, sinal de que entraria no assunto que a trouxera ali, e disse, sorrindo:

― Espero que isto não o assuste, mas eu sou a sua morte.

Eu também sorri, e esperei alguns segundos antes de dizer:

― Como é que é?

― Eu sou a sua morte.

Perguntei se ela estava falando em sentido figurado, se era uma concorrente que pretendia acabar com o meu negócio e me matar metaforicamente, ou uma vendedora começando sua apresentação com uma frase de impacto, mas a todas essas alternativas ela respondeu com um "não" silencioso, e sorridente. Depois comentou que eu talvez estivesse estranhando a sua aparência, pois as pessoas costumam associar a morte a figuras lúgubres, esqueletos encapuzados carregando foices, etc., e não a jovens executivas. E explicou que podia tomar a forma que quisesse, e que não faria sentido andar por aí, durante 65 anos, carregando uma foice e assustando as pessoas.

― Sessenta e cinco anos? ― perguntei.

― Eu tenho a sua idade. Quando você nasceu, eu nasci junto.

― Mas eu sempre pensei que a Morte fosse velha como o mundo.

Seu sorriso aumentou. Ela não queria parecer condescendente com a minha ignorância.

― Não existe uma "Morte". Ela estaria sobrecarregada, se tivesse que fazer todo o serviço sozinha. O serviço é personalizado. Eu sou a sua morte e de mais ninguém. Cada pessoa tem a sua morte, que nasce com ela e fica esperando a hora de levá-la embora. Não é um mau trabalho. Temos muito tempo livre, e podemos fazer com ele o que quisermos. Eu, por exemplo, enchi bem o meu tempo enquanto esperava a ordem para vir buscá-lo. Viajei bastante, fiz aula de cerâmica e japonês, conheci pessoas interessantes... Uma vez quase casei.

― Quer dizer que qualquer pessoa que se vê por aí pode ser a nossa morte, ou a morte de outro, só esperando a hora de fazer o seu trabalho?

― É.


― Até alguém da nossa família?

― Por quê?

― Teve um cunhado meu que eu jurava que tinha vindo ao mundo só para provocar a minha morte.

― A morte é sempre mulher. Mesmo nos países que não têm o artigo de gênero.

― Ah. E, na verdade, o meu cunhando morreu antes, coitado.

― Eu sei. Conheci a morte dele.

― Vocês, mortes, se comunicam?

― Sim, sim. Convivemos bastante. Aquele grupo que estava comigo no restaurante, por exemplo...

― Notei que eram só mulheres.

― Todas mortes. Aliás, a morte da sua mulher estava junto.

― Mas eram todas moças. Você, mesmo, não parece ter mais de 30 anos. Como pode ter a minha idade?

O sorriso dela, agora, misturava faceirice e um certo orgulho da travessura.

― Até as mortes são vaidosas. Já que podemos fazer o que quisermos com o nosso tempo, escolhemos que ele passe mais devagar. A morte da sua mulher está com 25 anos. Eu estou com 32. E tinha uma no grupo que está esperando para levar seu cliente há 90 anos, e não parece ter mais de 40.

― Vocês nos chamam de "clientes"?

― Sim. Gostamos de pensar em nós mesmos como um serviço de "escort". E o serviço é o mesmo, para ricos e pobres. Tratamos todos como executivos, na hora de ir embora.

Ela consultou o relógio e disse:

― Falando nisso...

― Espera um pouquinho. Nós temos que ir... agora?

― Chegou a hora. Recebi as minhas ordens.

― Mas eu não tenho nem uma chance? Nenhum poder de barganha? Nós não vamos jogar xadrez pela minha vida? Você não vai me propor uma charada, nada?

Desta vez o seu sorriso foi menos tolerante. Ela suspirou.

― O que o folclore medieval fez com a nossa profissão... Não, meu caro. Não tem jogo nem charada. Somos mortes modernas. Fazemos nosso trabalho com objetividade e eficiência. Já lhe dei conversa demais. Vamos indo.

Debrucei-me sobre a mesa, para aproximar o meu rosto do dela. Falei:

― Jandira, me diz uma coisa. Se eu morro, você também morre. Você não estava gostando da vida? Viver não é formidável?

Ela não estava mais sorrindo.

― Sem sentimentalismo, por favor.

― Quem sabe você falsifica o seu relatório, diz que me levou e fica aqui comigo? A gente podia...

Ela já estava de pé, olhando o relógio.

― Vamos, vamos. Temos que pegar o funicular das 7.

― Não dá nem para esperar e ver como acaba a Terra Nostra?

― Não!

E morremos ali mesmo.


Onde estamos


De tanto repetirem que o Brasil não é a Rússia, comecei a desconfiar. Será que não é? Este governo tem se esforçado para nos convencer que o Brasil que a gente vê não é o Brasil de verdade, é outro país. E, se é outro país, por que não pode ser a Rússia? Agora, toda vez que eu saio de casa e dou com o Brasil que a propaganda do governo diz que não é o Brasil começo a prestar atenção. Se não é o Brasil, que país é este? Onde, afinal, nós estamos?

Não se vê nenhum sinal ostensivo de que estamos na Rússia. Os indícios, se existem, estão muito bem camuflados. Neva em alguns lugares do Sul do Brasil, no inverno, mas nada comparável à Rússia, onde neva em toda parte a toda hora. Mas quem nos assegura que o próprio clima tropical não faz parte da dissimulação? Se o Brasil é mesmo tão tropical assim, por que tem que fazer tanto calor com tanta freqüência, como se estivessem preocupados em enfatizar justamente a nossa diferença da Rússia? O mesmo pode ser dito da nossa paisagem, tão convenientemente o oposto das estepes russas. Conveniente demais.

Alguns cartazes que você vê na rua têm as letras invertidas como se sabe, russo é de trás para diante ― mas aí não é russo, é erro de português mesmo. Ou serão recaídas no alfabeto russo por dissimuladores distraídos? Há muita coisa escrita em inglês, o que também é suspeito. Durante muito tempo, Rússia e Estados Unidos foram arquiinimigos. Se você quisesse convencer alguém que o Brasil definitivamente não é a Rússia, não tem jeito de ser a Rússia, é até uma anti-Rússia, qual seria a melhor maneira de fazer isso? Convencendo-o que o Brasil é os Estados Unidos, claro. Quanto mais vejo apóstrofes, nomes em inglês, filmes americanos e mc-chickens, mais me convenço que estamos na Rússia.

Outra coisa: a imprensa. Tentam disfarçar, mas a imprensa brasileira cada vez mais se parece com a imprensa russa. A própria insistência com que nos dizem que o Brasil não é a Rússia reforça a desconfiança de que estamos na Rússia, pois a imprensa russa não fazia outra coisa senão tentar convencer os russos que o país que eles viam também não era a Rússia, que a Rússia de verdade era a da propaganda do governo. Quanto mais os jornais nos asseguram que o Brasil não é a Rússia mais desconfiamos de que estamos lendo versões do Pravda com as letras trocadas.

Há outras semelhanças que fazem pensar e desconfiar. Nós também saímos de um período de economia dirigida para um período de economia aberta que culmina com um período de economia mafiosa, com a única diferença que a máfia russa ― realizando um sonho das máfias de todo o mundo, que até agora não tinham passado da bazuca ― tem armas nucleares. No Brasil, como na Rússia, também há gangues organizadas brigando pelo espólio do estatismo enquanto o povo fica à parte, convencido pela propaganda do governo que o dele já vem. E tanto lá como aqui, se é que aqui não é lá, tudo se deve a uma rendição incondicional a um charlatão oxigenado chamado Mercado, que teria as respostas para tudo.

Sei não, numa dessas caem os disfarces e se revela que o Brasil é, sim, a Rússia. Como o inverno russo se aproxima, acho que vou comprar um gorro de pele. Pelo menos salvo as orelhas.


Ortodoxos tropicais


A economia americana está desafiando vários credos ao mesmo tempo. Primeiro, os das religiões estabelecidas, pois se ficar provado que Alan Greenspan, que preside o Federal Reserve Board, o Banco Central deles, é realmente Deus, todas terão que reavaliar radicalmente suas doutrinas. Deus é judeu-americano, está vivo, é mortal, é casado, mora num subúrbio de Washington e, mostrando reprovável bairrismo, mantém a economia dos Estados Unidos no alto através de repetidos milagres que nega ao resto da humanidade. Mas esta possibilidade é até preferível à sua alternativa, pois se Greenspan não é Deus, o sucesso americano ― pleno emprego, juros baixos, inflação mínima mesmo com o PIB crescendo ― é a desmoralização total de princípios econômicos até hoje considerados indiscutíveis. Uma teologia se adapta, ou o crente desiludido simplesmente se declara agnóstico e segue a sua vida. O que resta para o economista subitamente esvaziado de todas as suas certezas? O vazio, a ruína. Bem, talvez uma consultoria, mas num mundo sem sentido. Parafraseando Dostoievski, se Deus não é Greenspan, tudo é permitido.

Nos Estados Unidos não há economistas monetaristas e desenvolvimentistas, hoje há monetaristas mais ou menos perplexos. O que está acontecendo não podia estar acontecendo. Mas o curioso é que a sua perplexidade, ao contrário da sua ortodoxia, não chega no quintal. A nossa economia continua sendo gerida pelas presunções básicas do monetarismo, a mando deles. O FMI provavelmente recomendaria aperto, recessão e purgante para a economia americana. Já que não pode lá, receita em dobro aqui.




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