Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página37/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   33   34   35   36   37   38   39   40   ...   44

Antigamente os do Primeiro Mundo vinham aos trópicos para se soltar. Aqui as regras eram outras, a moral era relativa, nenhum comportamento ortodoxo resistia muito tempo ao calor, aos tambores e às muchachas. Pode não estar longe o dia em que economistas estressados venham ao Sul justamente atrás de regras estabelecidas, conceitos rígidos, certezas antigas e ortodoxia, muita ortodoxia, beibe. E encontrarão aqui tudo que não têm em casa.


Os convidados do Binho

Tinha o grupo que ia sempre. Todos os dias. Chamavam-se de "os Pés da Mesa" e eram, adequadamente, quatro. Esses nunca faltavam. Além dos Pés havia os Irregulares, os Eventuais, os Acidentais e os convidados. O Binho, que era dos Irregulares, vivia trazendo convidados para a mesa. Ou prometendo que traria. Um dia anunciou:

― Vou trazer o governador aqui.

― E você conhece o governador, Binho?

― Se eu conheço o governador? Ora, faça-me o favor.

Era o seu jeito de não responder. A pergunta era ultrajante. Durante dias, Binho preparou a mesa para a ida do governador. Era um grande praça. Em pouco tempo estaria enturmado, poderia muito bem até se tornar um Irregular, eles veriam. Grande praça. Mas passaram-se os dias e o governador não apareceu. Nem o Binho. Finalmente, numa quinta ― dia, tradicionalmente, de quórum alto na mesa ― o Binho chegou acompanhado de um desconhecido.

― Sabem quem é este? ― perguntou o Binho, antecipando a comoção que causaria. ― O segundo homem da Secretaria de Transportes!

Durante semanas, depois, o Binho teve que ouvir a gozação dos outros, sempre insistindo que prometera levar alguém do alto escalão do governo sem especificar o cargo. O segundo homem da Secretaria de Transportes, ainda por cima, passara o tempo todo olhando o relógio, impaciente para se livrar do compromisso com o Binho, que assumira só porque a sua mulher era companheira de academia de uma irmã de um cunhado de não sei quem, e ainda mandara de volta um chope sem pressão.

Mas o Binho não se regenerava. Outra vez, insinuou que traria a Giselle Bündchen para a mesa, era só acertarem um detalhe na agenda dela ("Amanhã, se ela não estiver em Milão, estará aqui"). E volta e meia aparecia com personalidades secretas.

― Sabem quem é este aqui? Ninguém sabia.

― O inventor do transistor.

E o inventor do transistor sentara-se, em meio à incredulidade geral da mesa, enquanto o Binho fazia a sua exegese. Pois é, ninguém sabia que o inventor do transistor era um brasileiro. Mais uma injustiça com o gênio nacional. E perguntassem para ele se ele recebia algum róialti pelo seu invento. Nada. Tinha sido descaradamente roubado pelo capital internacional.

Quando alguém observou que o transistor, afinal, já existia há algum tempo e o homem não parecia ter idade suficiente para ser o seu inventor, o Binho se animou ainda mais:

― Está aí. Além de tudo, menino prodígio!

Os Pés da Mesa deram um ultimato. O Binho não podia continuar trazendo gente para beber de graça ― porque "convidado meu não paga", dizia o Binho, antes de decretar que toda a mesa pagaria por ele ― a não ser que merecesse. O governador, a Giselle Bündchen, um inventor ou outro talento comprovado que só a injustiça dos homens impedia que fosse reconhecido, tudo bem. Mas nunca mais o segundo homem da Secretaria de Transportes, ou equivalente. "Está bem, está bem", disse o Binho, impaciente. Mas dois dias depois apareceu com outro convidado. E uma cara triunfante. Desta vez eles iam ver. Eles iam só ver.

― Quem é esse?

― Você já vão saber.

O homem que o Binho fez sentar ao seu lado tinha seus 60 anos. Olhos injetados, a barba crescida, mas, fora isso, com um bom aspecto. Terno, gravata, cabelos pintados. Usava cigarreira de metal, o que causou alguma sensação no grupo. Cigarreira, há quanto tempo! Curiosa com a falta de informação do Binho, que permanecia em silêncio e sorrindo com superioridade, a mesa fez perguntas ao desconhecido. Ele era dali mesmo mas viajara muito. Ultimamente, menos. Problemas de próstata e de dinheiro. Mas não podia se queixar, tivera uma vida movimentada. Vivia de poucas rendas e muitas lembranças. Boas lembranças. E então o Binho ordenou:

― Mostra.

― Agora?

― Agora.

E o homem tirou a carteira do bolso de dentro do paletó, abriu a carteira e do seu interior pinçou um fio de cabelo. Obviamente, um cabelo pubiano.

― Diz de quem é ― instruiu o Binho.

― Marlene Dietrich.

O olhar do Binho percorria os rostos da mesa como um farol inquisidor.

― Hein? Hein?

O homem contou que tivera um caso com a Marlene Dietrich. Em Paris. O pêlo pubiano era uma lembrança dela, um souvenir amoroso. E contou todo o caso enquanto limpava a travessa de queijinhos e mandava vir mais lingüicinha para acompanhar o chope. Mas na hora em que o Binho disse que ele era um convidado e não precisaria pagar, surgiram os protestos. Alguém disse que, pelo que se sabia, a Marlene Dietrich não gostava muito de homem. E como saber se o fio de cabelo era autêntico? Só com DNA, disse outro. O convidado do Binho teria que pagar a sua parte até que as dúvidas se resolvessem.

― Um mínimo de boa vontade! ― clamava o Binho, revoltado com o grau de ceticismo do mundo moderno. Sem resultado.




Os dois Ulisses

O Ulisses de Homero e o Ulisses de Dante se encontram no Ulisses de James Joyce. Se encontram mas não se fundem, transformam-se em dois personagens:

Leopold Bloom, o Ulisses de Homero segundo Joyce, cuja aventura é uma volta para casa, e Stephen Dedalus, o Ulisses de Dante segundo Joyce, cujo exílio é uma aventura sem volta.

No texto de Ulysses Joyce descreve Dedalus como um "partidor centrifugal" e Bloom como um "ficador centripedal". Na odisséia de um dia só que compartilham, os dois andam pelas margens da sociedade de Dublin como dois exilados na sua própria terra. Mas Bloom é um cidadão atrás de uma reintegração com sua sociedade e seu lar, Stephen é um poeta atrás de uma missão poética, a de criar a consciência da sua raça, como confessou em outro livro, quanto mais longe de Dublin melhor.

Bloom, como o Ulisses de Homero, reencontra sua casa e sua Penélope no fim.

O fim de Dedalus é desconhecido, mas seu destino provável é um desastre, como o do Ulisses que Dante viu no Inferno. Mas, dos dois, o único que poderia escrever Ulysses seria Dedalus. Pelo menos o Ulysses de Joyce.

Os ulisses se dividem entre os que partem e os que ficam, ou entre os que voltam e os que seguem no exílio. O velho do Restelo, de Camões, não entende os que partem, e buscam o mundo quando já tem Portugal. Os que querem, inexplicavelmente, trocar a paz pela descoberta, a família pela aventura, a sabedoria pelo conhecimento. Enfim, o Tejo pelo mar. A origem do nome "Lisboa", por sinal (divagação tipo nada a ver) é "cidade de Ulisses".

Joyce escolheu ser um "partidor". O centro da sua ficção "centrifugal" foi sempre Dublin mas uma Dublin vista de longe, reconstruída na memória como metáfora ― como a Florença que expulsou Dante, e que ele continuou a habitar em pensamento e verso pelo resto da vida. Ou até voltar, velho, quando a reintegração é apenas uma fatalidade física, tipo todo morto volta para casa, não uma escolha consciente, ou literária.

De longe, Dedalus e Dante podem transformar a cidade que abandonaram em mito e poesia, cantar sua universalidade e lamentar sua corrupção sem serem distraídos pela realidade. De mais longe ainda, em Finnegans Wake, sua biografia cifrada da humanidade, Joyce pode usar Dublin com a metáfora definitiva, uma metáfora de tudo. De longe pedra e gente viram linguagem e qualquer cidade vira literatura.

Todas as grandes narrativas religiosas têm uma cidade no seu centro, tornada mítica pela distância. As pedras de Jerusalém são nada comparadas com a Jerusalém do Livro, com a promessa e a lamentação da promessa perdida, na linguagem poética do exílio. Meca é o centro de outro sistema simbólico, ou de outra literatura sobre uma integridade perdida e ansiada, construída não em cima de uma pedra mas em cima de uma distância. Os dois Ulisses representam, no fim, duas formas de distância do nosso centro, do que nos reintegra ou do que nos revela. A casa ou a descoberta, a sabedoria ou o autoconhecimento. Eles são dois tipos de exilados, o que volta, como o Ulisses de Homero, ou o que segue, como o Ulisses de Dante. O Ulisses bipartido de Joyce volta e segue.

Leopold Bloom (que Joyce fez judeu) tem a sua Jerusalém à mão, não precisa mais do que voltar para o número 7 da Eccles Street e os braços de Molly para sair do exílio. Stephen Dedalus prefere continuar a aventura. Partirá de Dublin, escreverá Ulysses e Finnegans Wake e se não "fabricar a consciência ainda irrealizada da sua raça na forja da sua alma" como era sua intenção pelo menos causará algum efeito na linguagem da sua espécie.

Reduzindo tudo, que remédio, às dimensões da nossa alma portuguesa, ele deixará o Tejo e escolherá o mar. Escolherá a distância.

Ficar, de certa maneira, é renunciar ao conhecimento, talvez a forma mais perfeita de sabedoria. Nenhuma revelação, nenhuma epifania, nenhuma literatura, apenas uma entrega à sua cidade e às suas circunstâncias e às inevitabilidades da casa. No fim, na morte, todos os ulisses voltam, não importa de que exílio.

Os monstros


Uma casa perto do lago de Genebra. Verão de 1816, um verão chuvoso. O poeta Percy Shelley e sua amante Mary Wollstonecraft, o poeta lord Byron e seu amigo John Polidori, na falta do que fazer, inventam um concurso de histórias de horror para passar o tempo. Não se sabe o que aconteceu com as histórias de Byron e de Shelley, mas as dos dois talentos menores, Mary e Polidori, continuam sendo contadas até hoje, em várias versões.

Mary inventou a história do dr. Frankenstein e a publicou quando já era casada com Shelley. Polidori baseou-se na história verdadeira de Vlad, o príncipe empalador da Transilvânia, e inventou o conde vampiro. Mais tarde Bram Stoker aproveitou a idéia e escreveu o seu Drácula, mas a história de Polidori, chamado The Vampyre, saiu antes, numa coleção de contos, em 1819. Polidori tem sido esquecido nos sucessivos reerguimentos de Drácula dos mortos.

Ninguém sabe se as duas histórias nasceram na mesma noite, com as sombras projetadas pelas mesmas velas ondulando nas paredes da Villa Chapuis, nem quem dormiu com quem naquela noite, se é que alguém conseguiu dormir. Mas duas matrizes de horror tinham sido inauguradas. Duas histórias arquetipais que já nasciam com a autoridade de mitos. Mitos contrários, os mitos opostos do século 19.

Em 1816, Napoleão estava exilado na Ilha de Santa Helena, onde morreria pouco depois, e a Europa tratava de restaurar a ordem dos velhos regimes. Mas a sacudida que a revolução francesa e as guerras napoleônicas tinham dado na velha estrutura e, principalmente, na imaginação européia, abrira as fendas por onde surgiriam os monstros. O grande pavor do século 19 era a conseqüência de tantas revoluções ao mesmo tempo: a burguesa, a tecnológica, a de expectativas sociais. Que forças terríveis e antinaturais não estariam sendo criadas? O dr. Frankenstein de Mary Shelley representaria a ciência que desafia a ordem natural, e sua criatura ― feita de partes de camponeses, do refugo humano do mundo feudal ― representaria o proletariado recém-insuflado de vida, o produto mais temível da recente revolução industrial. O capitalismo e seu algoz nascendo juntos.

O dr. Frankenstein teme que seu monstro inaugure uma "nova raça", incontrolável. O monstro diz ao seu criador, num inglês improvavelmente formal, que era benevolente e bom, mas a miséria o transformara em demônio. "Me faça feliz, e eu serei outra vez virtuoso." Anos antes, Saint-Just, falando da promessa que a revolução francesa trazia para o homem comum, dissera que a felicidade era uma idéia nova na Europa. A restauração do velho regime era impossível depois do advento da criatura nova. A divisão se instalara no mundo e nada mais juntaria as partes. Mesmo que o monstro reivindicador acabasse não feliz, mas morto.

O conde vampiro representaria o poder monstruoso do senhor feudal, a perversão da nobreza, a velha ordem proprietária corroída por vícios antigos e destruída por dentro. Na versão de Bram Stoker, Drácula não é mais o aristocrata provinciano de Polidori que chupa o sangue de camponeses para viver, numa versão apenas um pouco mais extrema da espoliação feudal. Na Londres vitoriana, Drácula é um empreendedor capitalista moderno. É outra força terrível que a Revolução Industrial liberou no mundo e, como o monstro de Frankenstein, também ameaça se multiplicar e corromper a humanidade toda. O dr. Frankenstein se horroriza com seu próprio projeto de criar um homem novo, mas não consegue largá-lo. Um pouco como o dr. Oppenheimer horrorizando-se depois que a bomba que ajudara a construir já tinha sido lançada em Hiroshima. A ciência é amoral, condenada a subverter a natureza sempre, é a sua danação. Drácula é prisioneiro de uma compulsão parecida. Morde pescoços para possuir e usar as pessoas, mas é sempre um aristocrata de cabelo engomado dominado por uma maldição. Como a mão invisível do mercado de Adam Smith que impulsiona o empreendedor a empreender, independente dos pruridos que o cercam. A moral burguesa e o empreendimento amoral também nasceram juntos.

Nunca saberemos exatamente o que se passou naqueles dias de chuva na Villa Chapuis. Se Mary também tinha que cuidar do chá e das torradas enquanto enfrentava o desafio intelectual dos homens. E que fim levou esse John Polidori, de quem pouco se ouviu falar depois. Ele acompanhava Byron, com quem tinha uma possível ligação homossexual ― o apelido dele no grupo era Rolly Polly ― e seu vampiro talvez tenha um pouco do fascínio demoníaco do poeta. Certamente nem Polidori nem Mary imaginavam que estavam criando dois protótipos que levantariam dali e caminhariam com suas próprias pernas, até hoje, juntando novos significados pelo caminho. E, pensando bem, não se sabe quem ganhou o concurso (Extraído do livro Comédias da Vida pública).

E já estamos perto do fim de abril, que fica perto do meio do ano, que é o penúltimo ano do milênio ― ou o último, se você é dos que não agüentam esperar mais um ano para fazer a festa. Estou convencido que a frase "como o tempo tem passado depressa, ultimamente" não é um contra-senso, o tempo realmente passava mais devagar anos atrás. Não sei se os dias estão com menos horas, as horas com menos minutos ou se o vazamento é nos minutos, mas que estamos perdendo tempo, estamos. Não adianta o consolo que assim o governo Éfe Agá passa mais rápido. Quero todo o tempo a que tenho direito nos anos que me sobram. Tempo integral, como no tempo em que eu era criança. Não sei se reclamo no Procon ou no Instituto de Pesos e Medidas, mas o fato é que nada mais tem a duração que tinha antigamente. (Fora os domingos, que eu acho que espicharam.).




Os sapatos do próximo

E assim se vai o ano de 2001, pisando em sapatos explosivos. Sim, foi o ano que terminou nos obrigando a desconfiar até dos sapatos do próximo. Os sapatos, que pareciam nos terem trazido a tão sonhada comunhão humana, mesmo ao custo da padronização e do enriquecimento de três ou quatro grifes internacionais, já que homens que divergiam sobre a justiça das suas causas, o lugar da mulher no seu mundo e o nome verdadeiro de Deus pelo menos concordavam nas marcas do seu tênis, sim, os sapatos voltaram a nos separar.

Acabou o último espaço do entendimento possível no mundo, que era entre o chão e o tornozelo. Foram-se os últimos centímetros de esperança de que a paz começaria pelos pés.

Houve um tempo em que os sapatos dos outros só nos agrediam pela sua estranheza. Não havia o perigo de explodirem. Especulava-se sobre as razões ― sem falar no estado dos pés ― de povos que usavam sapatos de madeira, de seda, com a ponta retorcida, etc., mas se estava apenas refletindo sobre a variedade da espécie. E não precisávamos ir muito longe para ver sapatos esquisitos. Também usávamos absurdos sapatos de festa e constritores sapatos formais, também éramos muito estranhos. Mas se os sapatos podiam simbolizar o máximo de frivolidade e sacrifício social, sua troca por algo mais confortável representava, para todos os povos, uma volta à sensatez, a uma racionalidade comum. Todo o mundo era igual no alívio, ou em cima dos seus chinelos, ou na maneira como abanava seus dedos do pé finalmente livres. Era de se esperar que as diferenças humanas fossem vencidas por uma uniformização dos sapatos. Que, afinal, são o que nós todos temos de mais pé no chão.

Mas hoje nossa desconfiança com o outro tem que começar pelos sapatos. A sola de borracha do próximo pode ser na verdade feita de um plástico que mandará ele, você e quem mais estiver por perto pelos ares à menor faísca.

"Lingueta" adquiriu um novo e ominoso sentido, cadarço pode ser pavio. E teremos que reformular todo o nosso conceito de chulé.

― Gostei desse seu tênis...

― Obrigado.

― É daqueles que têm mola na sola?

― Não, detonador.

― Detonador?!

― A gente pula muito mais longe.

Chegaremos ao ponto de andar de sandálias o tempo todo, como medida de segurança. O Guel Arraes pode ter sido um precursor da moda nos tempos de terror. Usaremos simples sandálias de couro, com sola fina, ou sola sem lugar para explosivos, ou pelo menos explosivos suficientes para fazer muito estrago. O dedão à mostra será um emblema de intenções pacíficas. As pessoas se mostrarão os pés ao se encontrar, pela mesma razão que, antigamente, se apertavam as mãos: para mostrar que estão desarmadas. Mulheres com sapatos de salto muito alto ouvirão assovios em toda parte, de especialistas em desativação de bombas mandando-as parar. A Carmem Miranda, hoje, não chegaria nem perto do aeroporto.

Olho os meus sapatos. Há anos eles são exatamente iguais. Pretos, nenhum adorno. Comprados sempre no mesmo lugar. Não querem atenção, não buscam nenhum tipo de notoriedade, só fazem o seu serviço e pedem que os deixem em paz. E acho que falo pelos meus sapatos, e todos os sapatos discretos e pacatos como eles do mundo, quando protesto contra essa súbita ascensão dos seus pares, por assim dizer, às manchetes. Eles não têm nada a ver com essa loucura, não explodem, não ameaçam ninguém e lamentam o tratamento que certamente passarão a receber nos embarques, como ter que desfilar sozinhos na esteira do raio X, não estando preparados para o estrelato.




Os sem netos

O escritor Moacyr Scliar lançou o Movimento dos Sem Netos, no qual a Lúcia e eu assinaremos ficha assim que ficarem esclarecidas algumas dúvidas. Conhecendo o Moacyr, sei que ― apesar de ter só um filho, portanto um terço das possibilidades de conseguir netos por meios pacíficos que nós temos ― ele é favorável à negociação e ao gradualismo, enquanto a Lúcia e eu estamos prontos para a radicalização. Não descartamos nem a invasão de propriedades para seqüestrar os netos dos outros. Não dá mais para contemporizar. O governo do Éfe Agá, um notório latiavô, nada fez para acabar com a injusta distribuição de netos no País, e os candidatos à sua sucessão têm dado pouca atenção ao assunto. O caminho é a luta. Enquanto não chegamos a um acordo sobre métodos, no entanto, concordamos em colaborar com o movimento do Moacyr. Proponho que a bandeira tenha as letras MSN em destaque e, no fundo, uma fralda vazia.

Salsinha

Outra guerra, a da salsinha, divide famílias. O Roberto D'Ávila é um anti-salsista de primeira hora e já causou espanto e revolta num restaurante de Paris ao perguntar se o "jambon persillé" poderia vir sem o "persile". Já o seu irmão, o cineasta Antônio D'Avila, é um ferrenho persilista. Com a arrogância típica dos que defendem a salsinha em qualquer circunstância ou prato, independentemente de você querer ou não, o Antônio me mandou um e-mail de Paris, onde mora, sugerindo que a tal ilha Perejil ("salsinha" em espanhol) no estreito de Gibraltar, que quase causou uma guerra entre Espanha e Marrocos, tem uma história nobre ― em vez de ser uma coisa insignificante, sem uso ou justificativa, que só está ali para incomodar.

Como, aliás, a salsinha. Segundo o Antônio, Perejil é a ilha em que Calypso aprisionou Ulisses durante sete anos com seus sortilégios, atrasando a volta do herói para casa. Tanto que um dos nomes da ilha é "Calypso".

Era de se esperar que os persilistas apelassem para o mito e a erudição duvidosa em defesa do indefensável. A ilha de "Perejil" é apenas um símbolo do nada dignificado pela prepotência. Razão têm os marroquinos que, incapazes de enfrentar o poder salsista representado pela intransigência espanhola, recorreram ao banalismo, também simbólico. Nem Perejil nem Calypso: chamam a ilha de Leila.

Entender de futebol

Se o Pelé entende ou não entende de futebol, não sei. Acho que o problema dele é mais de expressão do que de observação. Mas a crítica do Felipão a Pelé traz de volta a velha questão da importância relativa da prática para quem ensina: grandes concertistas de piano não são necessariamente bons professores de piano, grandes atores não são necessariamente bons diretores, poucos grandes jogadores de futebol deram bons treinadores. E não consigo me lembrar de nenhum atacante que tenha dado certo como técnico. Tele e Zagalo seriam duas exceções, mas, não por acaso, eram ponteiros ― lembra ponteiros? ― que jogavam recuados, com uma função tática definida, e não improvisadores como costumam ser os atacantes natos. Uma certa mediocridade, e uma vivência na defesa, onde organização e método são mais importantes do que criatividade e inspiração, parecem ser os requisitos para o jogador virar técnico de sucesso. Agora, entender de e enxergar futebol são duas coisas diferentes. Ninguém entendia o que fazer com uma bola de futebol como o Pelé, o que não significa que hoje ele enxergue o que está acontecendo em campo. Esse distanciamento pode ser levado a extremos. Uma vez entrevistamos o Claudiomiro, do Internacional, que já tinha encerrado sua carreira de centroavante, um dos melhores que vi jogar. Depois de responder vagamente às nossas perguntas sobre tática, companheiros, adversários, reminiscências, etc., ele nos confessou: "Sabe, eu não gosto muito de futebol...". O futebol tinha sido a sua profissão mas não era o seu esporte. Não acompanhava. O Pelé, claro, acompanha e gosta. Mas pode muito bem ter o mesmo discernimento do jogo que tinha o Claudiomiro.


Hoje


(Da série "Poesia numa hora destas?")
Ele: Eu já quis mudar o mundo e entender a vida. Hoje só quero que nenhum dos dois revida.

Ela: Eu já quis o êxtase mas mudei de tom. Hoje, em vez de uma visão quero um vison.

Ele: Eu acreditava em tudo tinha a alma escancarada. Hoje só acredito em nada.

Ela: Eu já fiz inglês, ponto de cruz, balê. Hoje durmo até tarde e vejo tevê.

Os dois: O que me fez ficar assim?

Foi o tempo ou...

Não olha pra mim!


Outra vida

Ela disse:

― Fiz uma descoberta terrível.

Ele disse:

― Ahn?

Ela disse:



― Descobri que a vida que eu vivi não era a minha. Ele, sem desviar os olhos da televisão:

― Como assim?

― Minha vida, entende? A vida que eu vivi até hoje. Não era a minha. Ele olhou para ela:

― Em que sentido?

― Eu simplesmente vivi a vida de outra pessoa. Sempre tive esta estranheza com as coisas que me aconteciam. Com os meus gostos, por exemplo.

Nunca entendi o meu gosto por, sei lá, fígado. Beterraba. Quem é que gosta de beterraba? Tem loucura por beterraba? Eu tenho. Mas agora entendo. Não era eu. Eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Meus gostos são de outra pessoa. Minhas decisões, minhas opiniões, tudo o que me aconteceu até agora... Ele examinou o rosto da mulher por algum tempo, depois voltou os olhos para a televisão. Talvez fosse melhor deixar ela esgotar aquela idéia sozinha. Ela continuou:




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   33   34   35   36   37   38   39   40   ...   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal