Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Você, por exemplo. Eu nunca casaria com um homem como você.

― Sei.


― Só uma pessoa que adora beterraba casaria com um homem como você.

― Está certo.

― E, meu Deus! Acabei de me dar conta...

― O quê?

― Deve ter outra pessoa vivendo a minha vida.

― Sei.


― Pense só. Neste exato momento, tem uma pessoa no mundo vivendo a minha vida enquanto eu vivo a dela. Uma pessoa com os meu gostos, com a minha biografia certa, com o marido que eu escolheria. E ela deve ter a mesma sensação de estranheza, de...

― Meu bem...

― O quê?

Ele indicou a televisão com as duas mãos e disse:

― Precisa ser durante o Jornal Nacional?

Ela saiu da sala pisando forte, furiosa. Pensando: na sua vida de verdade aquilo nunca aconteceria.


O crítico


Ele escrevia sobre gastronomia com um pseudônimo e fazia questão de se manter incógnito. Era um homem sério e escrupuloso que preferia não ser reconhecido, ou constranger ninguém, nos restaurantes que visitava para comentar depois. Tão sério e escrupuloso que adquiriu uma boa reputação como o crítico de restaurantes que todo o mundo lia para saber onde ir ou o que evitar, pois seus critérios eram justos e confiáveis. Assim como elogiava o que era bom, não perdoava o menor deslize, na comida ou no serviço. E acabou tornando-se uma celebridade, contra a vontade. Sua foto apareceu em revistas e colunas sociais. Ele passou a ser identificado e a receber tratamento especial nos restaurantes onde ia, apesar dos seus protestos. E decidiu usar disfarces.

Óculos, bigode e barba postiços, tudo para continuar anônimo e parecer um cliente qualquer. E, tomado de uma certa psicose do desmascaramento, desconfiado de que mesmo dissimulado era reconhecido, começou a recorrer a disfarces cada vez mais elaborados. Turbantes. Enchimentos na roupa, para parecer mais gordo.

Uma vez, até um tailleurzinho preto e uma peruca loira. Na sua obsessão em não ser notado, tornava-se cada vez mais conspícuo. E um dia, antes da sua primeira visita a um restaurante recém-inaugurado do qual diziam maravilhas, procurou um maquiador profissional de teatro e pediu que lhe fizesse outra cara. Uma cara que assegurasse o seu anonimato absoluto. A cara com que sentou à mesa do restaurante novo, e comeu com crescente entusiasmo, tanto entusiasmo que, ao se debruçar para repetir uma colherada do magnífico "gateau au chocolat" com molho quente da sobremesa, seu nariz, amolecido pelo calor do molho, caiu no prato, para horror dos circundantes. Dias depois, na crítica que escreveu do restaurante, declarou, com sua costumeira criteriosa isenção que a comida era mesmo de grande classe, mas que não podia dizer o mesmo do serviço. O maître e os garçons claramente não estavam preparados para lidar com emergências e mostravam uma lamentável insensibilidade com clientes portadores de doenças degenerativas, a julgar pela insólita cena que assistira enquanto jantava no restaurante, incógnito, e cujos detalhes pouparia ao leitor. Sua nota era sete.

Palavra X Imagem

Leonard Shlain é um cirurgião americano que combinou seus conhecimentos profissionais do cérebro humano com seu interesse em História e antropologia e bolou uma tese, a de que o nosso cérebro dividido tem um lado feminino ― o direito, que lida com imagens e sentimentos, e um lado masculino, o esquerdo, que trata de palavras e abstrações ― e que o predomínio do lado masculino, que determinou o patriarcalismo, a submissão da mulher e a misoginia que caracterizam todas as civilizações depois das mais primitivas é o resultado da invenção da escrita.

Os hemisférios são "masculino" e "feminino" porque regem o comportamento e as percepções diferentes dos dois sexos. Os dois são simétricos e trabalham em conjunto, mas o lado direito, não verbal, mais ligado aos instintos, é mais antigo, está quase plenamente desenvolvido no feto humano quando o lado esquerdo começa a crescer. O lado feminino é holístico, o lado masculino é linear. E a especulação do Leonard Shlain é a seguinte: foi a invenção do alfabeto e o conseqüente valorização funcional do hemisfério esquerdo que trouxe o desequilíbrio entre os sexos e a prevalência dos princípios masculinos na história do mundo. O desenvolvimento da escrita coincidiu, segundo Shlain, como o fim de todos os mitos de poder feminino, cuja origem mais simples era a constatação de que a mulher dava a vida. O título do seu livro é The Alphabet Versus the Goddess, o alfabeto contra a deusa, e o subtítulo é o conflito entre palavra e imagem. Para Shlain, o começo do declínio da deusa e dos tempos difíceis para as mulheres datam da primeira vez que um sumeriano fez uma fila de ideogramas com a ponta de um pau num tablete de barro. Depois o alfabeto mudaria a percepção humana da realidade. A própria idéia de uma história linear não existiria sem a escrita seqüencial. Para não falar das leis codificadas, da sucessão patrilinear e das religiões organizadas que sacralizam a irrelevância feminina.

As três principais religiões do mundo têm no centro do seu dogma um só Deus, uma abstração masculina que se revela pela palavra e é santificado na escrita. Shlain escreve um capítulo fascinante sobre o caráter quase clandestino da adoração da Virgem Maria, a única deusa que sobreviveu no império do hemisfério esquerdo. A Virgem mal participa do relato bíblico, mas domina a iconografia cristã, o mundo das imagens, onde ela aparece muito mais vezes do que o Filho e o Pai. Todas as grandes religiões ou baniram ou, em algum momento, tentaram banir as imagens da sua liturgia. A imagem é feminina, o alfabeto é masculino. A foto-legenda, presumivelmente, é hermafrodita.

A conclusão de Shlain é que se o homem não tivesse aprendido a ler e a escrever o mundo ainda seria dominado pelas mulheres, como no tempo das deusas. E seria melhor. O domínio patriarcal é invariavelmente tirânico, um mundo em que prevalecesse os valores femininos seria egalitário. Ele começa o livro com uma citação de Sófocles, que disse que nada de vasto entra na vida dos mortais sem uma maldição. A invenção da escrita foi um vasto acontecimento na vida dos homens, a maldição foi tudo que ela trouxe. Shlain também diz que a televisão, que é imagem ― e, de certa forma, uma reprodução da fogueira comunitária em torno da qual se multiplicava a cultura oral, antes da escrita ― pode ser um começo de reconquista das deusas, da revanche contra o alfabeto. E assim, se não tivesse qualquer outra importância, a tese de Shlain tem esta: finalmente alguém encontrou uma justificativa intelectualmente respeitável para a televisão.


Palavras cruzadas


Vivia sozinho numa casa com dois gatos e seu passatempo era inventar palavras cruzadas, que mandava para um jornal por um pagamento simbólico.

Não precisava de dinheiro, o que quer dizer que não precisava dos outros.

Amava as palavras e os seus gatos, nesta ordem. Os gatos eram castrados e as palavras com que brincava também. Que mal poderiam fazer as palavras que estudava como se elas também tivessem raça e pedigree, e arranjava em diagramas e jogos inofensivos? Nem ele, nem seus gatos, nem suas palavras jamais machucariam alguém, pois jamais tocariam em alguém. Mas um dia um mendigo bateu em sua porta.

Mendigo. Pedinte, sete letras. Do latim "mendicus", cuja base é "menda", defeito físico, de onde também vem "emendar", correção de defeito ou erro.

Este mendigo não parecia ter qualquer defeito físico. Se não fossem a sujeira e as roupas esfarrapadas, poderia ser seu irmão. Poderia ser ele. E quando ele começou a fechar a porta, depois de dizer que não tinha nada para dar ao mendigo, ouviu deste as palavras:

― Cuidado com elas...

O mendigo estava apontando para um diagrama de palavras cruzadas pela metade que ele deixara ao lado da sua poltrona, quando fora abrir a porta.

― Cuidado com o quê?

― Com as palavras cruzadas. Elas arruinaram a minha vida.

― Você está louco. Palavras cruzadas são inofensivas. São um jogo, um passatempo, nada mais do que...

― Ah, é? Então ouça.

E o mendigo contou que nem sempre fora aquele miserável, sujo e esfarrapado.

Era um advogado. Tinha dinheiro, posição, família. E uma paixão: as palavras cruzadas. Orgulhava-se de jamais ter deixado uma grade de palavras cruzadas incompleta. E mais: de jamais ter consultado um dicionário. Nas palavras cruzadas, você joga contra você mesmo, contra a sua própria inteligência e informação. E consultar um dicionário é como roubar.

― Um dia, não consegui completar uma palavra. Pela primeira vez na minha vida, não consegui terminar umas palavras cruzadas.

― Em que jornal? ― perguntou o homem.

O mendigo disse o nome do jornal. O homem sentiu um aperto no coração, como um pressentimento. Era o jornal que publicava as suas palavras cruzadas. Que havia anos publicava as suas palavras cruzadas.

O mendigo continuou:

― Acertei a vertical. Pequena placa de metal ou outro material usada como enfeite. Dez letras. Lentejoula. Mas a horizontal não encaixava com a segunda letra. Era uma derrota. Passei quase duas semanas às voltas com aquilo. Levava o recorte do jornal para toda parte. Volta e meia, tirava o recorte do bolso e tentava de novo. Procurei outra palavra em vez de "lentejoula". Nenhuma dava certo. Procurei outra para a horizontal. Nenhuma encaixava com as verticais, com exceção do "e" de "lentejoula", como a que eu colocara. Fiquei obsecado. Não conseguia mais dormir. Não conseguia trabalhar. Me tornei um intratável. Brigava com a mulher e com as crianças por nada. E um dia, veio a desconfiança.

― Que desconfiança?

― Que só podia ser um erro do autor das palavras cruzadas.

― Impossível.

― Por que, impossível? Todo o mundo erra. E neste caso ficou provado que era um erro.

― Talvez um erro de impressão...

― Não, o erro era do autor. Só anos mais tarde me dei conta. Em vez de "lentejoula", ele usou "lantejoula". Se fosse "lantejoula", a horizontal encaixava, tudo encaixava. Mas o certo é "lentejoula". Eu estava certo, o autor estava errado.

― Mas o certo é "lantejoula".

― O certo é "lentejoula". Mas isso eu só descobri depois que a minha vida tinha desmoronado, a mulher e os filhos já tinham me deixado e eu já fechara o escritório, porque não podia me concentrar em mais nada. Eu rasgara as palavras cruzadas incompletas e as atirara no lixo, mas a obsessão continuava. Eu finha fracassado. E então, um dia, decidi. Já que eu era um ser abjeto, levaria minha degradação ao máximo. E consultei um dicionário.

― O quê?

― Eu sei, eu sei. Mas eu não tinha mais amor próprio, não tinha mais nada.

Só aquela dúvida me roendo por dentro como um câncer. Abri um dicionário. E descobri que eu estava certo e o autor das palavras cruzadas estava errado.

É "lentejoula".

― Não é.

― É.


― Não é.

― O certo é "lentejoula".

― É "lantejoula"!

― Por que você insiste? É "lentejoula". Eu estava certo. Pensei em escrever para o jornal, em descobrir o autor das palavras cruzadas e acusá-lo por tudo que me acontecera. Mas do que adiantaria? Eu só conseguiria lhe dar remorso. Minha mulher e meus filhos não voltariam a viver com um obsessivo.

Eu não recuperaria a minha posição. O que eu poderia fazer com o autor?

Matá-lo? Fora um erro, apenas. Todo o mundo erra.

O homem deu uma nota de cem ao mendigo e fechou a porta. Sentia remorso, mas não muito. Afinal, o outro também não fora honesto. Consultara um dicionário. E não havia mesmo jeito de emendar, no sentido latino, a situação.

Palavras, palavras


"Problema", obviamente, é uma palavra errada. Pode ser correta, mas não é certa. Não adianta argumentar que os estrangeiros dizem palavras parecidas sem errar ― "problem" em inglês, "probleme" em francês, "rauschbaungüdenproblemisch" em alemão. "Problema" simplesmente não pegou em português, ou, mais especificamente, em brasileiro. Mesmo as pessoas que cuidam para dizê-la corretamente o fazem com um vago sentimento de estranheza, como se duvidando da própria articulação. Será que é isso mesmo? "Pro-ble-ma"... Não soa certo. Quanto mais se diz, mais estranho fica. É uma palavra antinatural. E, se tantos erram ao pronunciá-la, se ela causa tantos (vamos lá) pro-ble-mas para todos, a conclusão é que errados não estão todos, errada está a palavra.

Já é tempo de se fazer algo a respeito. Mudar a palavra oficialmente. Não sei quem seria o encarregado de uma reforma ortográfica desse alcance. A Academia Brasileira de Letras tem poderes para mudar o vocabulário como o Congresso tem para mudar a Constituição? A justeza da palavra teria que ser discutida na Justiça? Os editores de dicionários formariam um lobby para protestar contra a medida ou, ao contrário, o fato de todos os dicionários e guias ortográficos existentes no País se tornarem obsoletos da noite para o dia ajudaria a indústria?

E o principal (ai, ai, ai) pro-ble-ma: como deve ser a palavra certa? "Plobrema", no meu entender, não resolve. Haveria apenas um remanejamento das sílabas plobre... problemáticas, e a palavra continuaria encontrando resistência. "Pobrema", "plobema" ou "probema" seriam alternativas possíveis, mas neste caso a palavra seria não apenas alterada como diminuída, como se não bastasse a entrega do nosso parque industrial ao capital estrangeiro. Se poderia pensar num plebiscito nacional para escolher a nova forma de dizer (de novo) "pro-ble-ma", no qual se aproveitaria para escolher outra forma de dizer "plebiscito" também.

Enfim, é um, é um... Você sabe.

Algumas palavras se mantêm mesmo depois da sua falsidade ser provada, como alguns governantes. O hábito e a preguiça de mudar também lhes conferem uma espécie de imunidade. "Meteorologia" há muito que deixou de ser apenas o estudo de meteoros, por exemplo, mas continua em uso. E "ventríloquo"? Vem do tempo em que se acreditava que os ventríloquos falavam pela barriga. As barrigas produzem sons, como sabe quem já ouviu a sua se manifestar entre desconhecidos justamente num momento de silêncio e, pior, o desconhecido ao seu lado dizer "Como?", mas não falam, ou não dizem nada aproveitável. O truque do ventríloquo é falar sem mexer com a boca, ou mexendo só com a boca do boneco. Tanto que o máximo de destreza de um ventríloquo é falar não só sem mover os lábios, mas tomando um copo d'água, o que geralmente espanta até o boneco. "Destreza", no caso, é usada no sentido agregado de habilidade geral em vez do sentido secundário de habilidade com as mãos, que por sua vez vem do sentido original de usar qualquer mão como se fosse a destra, até a sinistra. A esquerda é "sinistra", com as mesmas conotações do termo, em várias línguas é até a "gauche" francesa vem de "gauchir", dar voltas, se evadir, ir para o lado errado. Mas "sinister" em latim queria dizer de bom agouro. Isso porque os sacerdotes romanos, quando procuravam no céu indícios das intenções dos deuses, viravam-se para o sul. Assim o nascente, o lado de onde vinha o Sol e os bons presságios, ficava à sua esquerda. Mas os sacerdotes gregos faziam a mesma coisa ao contrário, virados para o norte, e assim tudo de bom vinha da sua direita. Como os poetas romanos gostavam de imitar os gregos, ignoraram seus próprios cientistas e adotaram o sentido grego de "sinistro". Foi a primeira divergência conhecida entre tecnocratas e humanistas, com a vitória destes, já que foi a visão grega dos poetas que perdurou na História. Mas desde então a esquerda é "sinistra" no mau sentido e o Primeiro Mundo vive de costas para o sul. Onde é que eu estava? No ventríloquo. Como deveria se chamar quem diz tudo sem falar, ao contrário de quem fala, fala e não diz nada? Antipolítico eu acho que não pega.

Em quase todas as línguas a oposição de direita e esquerda tem a mesma conotação de direito e errado, bom ou mau, reto e torto. A mão esquerda no inglês arcaico era a "wrong hand". O verbo "to wring", espremer, torcer, vem de "wrong", que também queria dizer curvo, vergado. "Wrong" era o nome antigo da verga numa armação de barco, da costela do barco. A costela é o osso curvo do corpo. Especula-se que vem daí a história da criação de Eva de uma costela de Adão. Do seu osso torto só podia nascer a perdição do Homem, a longa história da misoginia judaico-cristã começa no seu mito inaugural, antes mesmo da Queda. Mas a misoginia não é só da Bíblia. Os gregos achavam que os homens nasciam de sêmen do testículo direito, o lado bom, as mulheres de sêmen do testítulo esquerdo. No dualismo chinês do yang ou do yin, as coisas são classificadas como masculinas e boas ou femininas e ruins. Não sei bem qual é a saudação de ativistas feministas, mas, se for um punho esquerdo desafiadoramente erguido, acho justo. Vamos acabar com essa história.

"Porblema." Talvez seja a solução. Pode-se prolongar o "por" enquanto se prepara o "blema", o que asseguraria a pronúncia perfeita em nove entre dez tentativas. E estaria resolvido o... Ele.

Papagaio
Junto com os índios tupinambás levados do Brasil para uma festa em homenagem a Henrique II, em Rouen, em 1550, havia macacos, papagaios e outros bichos tropicais, que ficaram na França e se reproduziram. E assim como hoje existem na Europa descendentes diretos dos índios que participaram do grande desfile, existe um papagaio em Paris que traça sua ascendência a um dos papagaios de Rouen. Seu nome é Didier. Foi comprado de um antropólogo francês, que o comprou de um fonólogo francês, que o comprou de um ornitólogo francês, por um pesquisador brasileiro, que está gravando o seu depoimento para uma planejada história de brasileiros em Paris e como o Brasil é visto na França desde o século 16.

Didier não tem as cores vivas dos seus primeiros antepassados. Sua plumagem é de variações do cinza desbotado, uma cor que ele mesmo descreve como "ciel de Paris". Como tem convivido muito com brasileiros, que se divertem com sua voz ― a natural rouquidão dos papagaios é agravada pelos "Gaulois" que fuma sem parar ―, ele fala um português razoável, mas com um pronunciado acento francês, entrecortado de expressões como "zut alors", "ulalá" e "merde". Em vez de lhe fazer perguntas, o pesquisador deixa o gravador ligado perto da sua gaiola durante boa parte do dia, para Didier falar o que quiser, quando quiser. Didier já disse que a gaiola é desnecessária, já que, na sua idade, não pretende mais ir a parte alguma. E que o gravador o atrapalha, pois preferia ficar ouvindo seus discos de Boulez, Edith Piaf, Thelonious Monk e Chico Buarque. Mas não se recusa a colaborar com a ciência.

Didier começou seu depoimento com um preâmbulo filosófico. Através da regressão conseguira recuperar a memória herdada de toda a sua linhagem, e, de olhos fechados, não apenas se via na cerimônia de apresentação em Rouen, recém-chegado à França ― "Ah, oui... Le roi... Le voilá" ― como se via antes, muito antes, voando em formação com outros papagaios pela floresta brasileira ainda virgem. Ouvindo os sons da floresta e o som dos seus companheiros, o alegre alarido de pássaros selvagens numa terra ainda não descoberta, antes da sua captura, ou a captura do antepassado cuja memória acessara. E a questão filosófica que Didier colocava era a seguinte: gerações e gerações de papagaio tinham vivido sem saber que podiam falar. Durante anos, os papagaios só tinham imitado o som deles mesmos ou os sons de outros bichos. Séculos de talento desperdiçado, de loquacidade ociosa, de auto-ignorância voadora. Só quando ouvira sua primeira palavra, dita, provavelmente, por um índio, o papagaio se conhecera completamente. Zut alors, je parle! Ou je imite, o que é a mesme chose. E, claro, só quando ouvira sua primeira palavra numa língua européia o papagaio se descobrira capaz de raciocínio e da auto-reflexão. Se entendera, qua.

"L'homme" ― diz Didier ― fala devido a uma degeneração da laringe. Ele é o único animal que se engasga, e por isso mesmo é o único que fala. O que impede os outros animais de se engasgar é o que permite ao homem falar. Deve haver um simbolismo aí, em algum lugar. Mas o principal é que mostra como o homem quis falar, fez tudo para falar, até se expôs ao vexame e ao desastre social para poder falar. Já o papagaio não dependeu de nenhum tipo de evolução para ter a mesma habilidade. Sempre pôde falar ― apenas não sabia. Il ne savait pas! E o papagaio fala e não se engasga.

Para Didier, o encontro do papagaio brasileiro com a palavra do descobridor foi uma metáfora para a chegada da civilização ao Novo Mundo, da luz do conhecimento às trevas da inconsciência selvagem. Pois do que adiantava aquela vasta maravilha, aqueles rios gigantes torrentosos, aquelas plantas do tamanho de condados suíços, aqueles bandos de papagaios coloridos cacarejando sem sentido, se a maravilha não se sabia maravilha? Tínhamos o dom da palavra, mas não tínhamos a palavra, tínhamos o paraíso, mas não tínhamos o seu nome. E o necessário distanciamento crítico, claro. Segundo Didier, não foi por nada que trocamos nossa terra por espelhinhos. Era exatamente isso que os europeus nos traziam: a possibilidade de nos vermos como os outros nos viam. Trocamos tudo por um espaço nos seus mapas, demos um continente pela sua representação. O que são madeira e ouro comparados a um lugar certo no mundo, um nome cristão e a consideração da corte? E uma língua de mil poetas em vez dos ganidos da floresta? Durante séculos, tivemos o ar e a laringe adequada, mas não tivemos a retórica. Foi a linguagem que nos conquistou e não a espada e o canhão, como dizem os revisionistas. O nosso começo também foi o verbo.

― Felizmente ― diz Didier ― "hereusement", meus antepassados foram trazidos para a França, e não para Portugal, a Inglaterra ou, "mon Dieu", a Holanda. Aqui se fala a única língua capaz de explicar o mundo ― para os outros franceses, "bien sur". Quem não é francês tem que se contentar com um mundo para sempre misterioso. E é a única língua para se conhecer o Brasil também. Os portugueses fatalmente ficam sentimentais e perdem a objetividade quando falam de nós. Os ingleses tem uma certa dificuldade em enxergar os outros. Ser inglês é uma forma de miopia. E quem entende o holandês? Já o francês, que tem um som para cada sentimento e uma palavra para tudo, tem uma definição e um conceito pronto para qualquer coisa brasileira. Eu mesmo fui tão estudado pelos meus donos franceses que perdi a cor. Eles nos deduzem do detalhe. Meu último dono, por exemplo, estava fazendo um estudo aprofundado do que ele considera a principal manifestação cultural brasileira do século, a lambada, e chegando a conclusões surpreendentes, que não posso repetir porque não as acompanhei até o fim. Já que só o que eu faço é repetir o que eu ouço, e imitar o conceito dos outros. Não sei se é coisa de papagaio (tosse, tosse, ah estes "Gaulois" ou de brasileiros.


Paradoxos

Numa reflexão sobre a Revolução Francesa, Goethe disse que preferia a injustiça à desordem. A frase foi repetida num discurso por um ministro brasileiro da época dos generais-presidentes e continua aí, não dita mas implícita, ou não latida mas latente, na posição dos conservadores, até hoje. Goethe se desencantou com as conseqüências da revolução no espírito europeu e, com uma frase, absolveu a antiga ordem, que, fosse o que fosse, era ordem. Goya foi outro que mudou de idéia. Um entusiasta da primeira hora de Napoleão, horrorizou-se com as atrocidades da invasão napoleônica da Espanha, que retratou com asco e ácido na sua série de gravuras Desastres de la Guerra, e se desencantou também. Só que, no seu caso, com a humanidade inteira.


* * *
O artista vive um conflito à parte dos conflitos maiores da História. A mesma sensibilidade que o faz deplorar a injustiça o faz valorizar a ordem.

A mesma acuidade com que enxerga a precariedade de uma ordem baseada na injustiça o faz saber que o clamor por justiça pode trazer injustiças de outra ordem. E ele sabe melhor do que ninguém que algum tipo de ordem é necessária para que a sensibilidade sobreviva, pois quando os demônios da retribuição estão soltos ela pode ser a primeira vítima. Quando os plebeus revoltados com a morte de Julio Cesar, na peça de Shakespeare, não encontram razão política para matar o poeta Cinna, matam-no pelos seus maus versos.




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