Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Alguém já disse que o produto inescapável de qualquer processo de pensamento é o paradoxo. Um pensamento que não termine em paradoxo é porque ainda não chegou ao fim. Outro disse que a primeira condição para o pensamento é não aceitar qualquer tipo de absoluto. Uma precaução ignorada tanto pelos intelectuais brasileiros que abraçavam o comunismo sem fazer perguntas, anos atrás, quanto pelos que hoje aderem à retórica reducionista do anticomunismo simplista, no que, mais do que uma renúncia ao pensamento, é quase uma automutilação. O paradoxo não é uma invenção moderna mas foi com a Revolução Francesa, a primeira com uma literatura e um sistema de idéias na sua origem, tanto quanto uma tirania e uma revolta, que o intelectual o assumiu por inteiro. E tenta conviver com ele desde então. E só pode conviver com ele, denunciando a ordem opressora e lamentando o sacrifício da ordem, e muitas vezes pregando o que não tem estômago para fazer, se aceitar verdades absolutas.
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Se o intelectual tem de viver com o paradoxo de que precisa de ordem para pensar na subversão da ordem, e que no fundo, portanto, está sempre pensando na sua própria inutilidade, ou que assim como o fim ideal da História tanto para o marxismo ortodoxo quanto para o fundamentalismo neoliberal é a eliminação do Estado, o fim ideal do pensamento crítico é a sua própria extinção, isso não significa que sua única opção é entre ser hipócrita e não pensar, ou pensar pela metade ― ou ser um reacionário, o que é a mesma coisa. Qual é a outra opção possível? Ele pode concluir que ordem e injustiça não são necessariamente sinônimos, mas este é um argumento, ou um consolo, que serve tanto para o comunista quanto para o reacionário e até para o social-democrata. Outro paradoxo.
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Uma das coisas que a Revolução Francesa soltou pelo mundo foi a idéia da ação como filha comportada da retórica e, assim, do intelectual como revolucionário de fato. Se depois a Revolução escapou da teoria e aterrorizou até os poetas, isso não diminuiu o seu pedigree intelectual.

A idéia não prosperou muito, é verdade, tanto que hoje uma figura como Trotski, o protótipo de todos os pensadores guerreiros da Revolução Russa, causa um certo espanto retroativo. Mas se a Revolução Francesa foi determinada pelo que determina todas as revoluções, a necessidade, não a teoria, da justiça contra a ordem, ela nasceu de uma linguagem, de uma eloqüência. Somos todos descendentes desta retórica. Assim como os que até hoje acham que ela foi um péssimo exemplo para a humanidade, não são contra os seus excessos, são contra os seus preceitos. Para eles, subversivo mesmo foi o Iluminismo, foi a primeira sugestão de igualdade, e de que o pensamento humano não é concessão de nenhuma ordem, divina ou não.


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No fim, a opção recomendável é não desistir de pensar.

Playboy
Lembro da primeira vez em que a vi. Eu tinha 18 anos, ela era recém-nascida. Segurei-a nas mãos com alguma emoção. Não, não era a minha primeira vez. Eu já tinha tido revistas de mulher nua. Mas em encontros furtivos sem muito prazer. Eram geralmente vagabundas e malfeitas e a impressão era a pior possível. Algumas, é verdade, tinham um certo verniz de respeitabilidade. As de "naturalismo", por exemplo, em que famílias de nudistas brincavam ao Sol em pálidas praias nórdicas. Mas você precisava procurar muito para encontrar uma nádega firme ou um seio aproveitável e ainda cuidar para que, em vez de uma sueca, não fossem de um sueco mais redondo. A Playboy era outra coisa. Com toda a sua precariedade de primeiro número ― feito, segundo a lenda, por Hugh Heffner com uma tesoura, cuspe e peito, o dele e o da Marilyn Monroe ― foi a primeira revista de mulher nua com classe que possuí.

Lembro que comecei a folheá-la ali mesmo (acho que a capa plástica ainda não tinha sido inventada, às vezes duvido que já existisse petróleo), mas fui interrompido pelo dono da banca, que disse:

― Hey bud, you gonna take that?

Levei-a para casa. Morávamos em Washington, então a pacata capital dos Estados Unidos do presidente Eisenhower, no finzinho da idade da inocência. Não era tão difícil conseguir sexo, ou coisa parecida, em Washington, mesmo descontando a minha timidez e o fato de que a revolução sexual americana ainda estava agrupando suas forças para começar. Eu tinha chegado aos Estados Unidos com 16 anos. Já tinha experiência, portanto, e com um pouco de persistência e coragem ― e a ajuda inestimável do banco de trás do Chevrolet da família ― conseguia ter uma vida sexual razoavelmente ativa. Mas sexo era um problema nos Estados Unidos. Existia, mas não era reconhecido pela moral dominante. Pelo menos não era reconhecido como sendo americano. Beijo de língua, em americano, era "beijo francês", presumivelmente para distingui-lo de um correto beijo nacional. Cartões pornográficos eram "french postcards", mesmo que fossem feitos na gráfica do porão. Anos depois da liberação feminina iniciada na década de 20 e popularizada durante a 2ª Guerra Mundial, a mulher sexualmente disponível só era aceita em duas formas no imaginário, leia-se cinema, americano: como a mulher fatal cuja sexualidade arruinava os homens ou como a loira burra, com a sexualidade cômica e algo infantil da Marylin Monroe. Os decotes mostravam quase tudo, mas persistia a dúvida sobre o que as mulheres tinham, exatamente, na ponta dos seios. Mesmo em espetáculos de strip-tease, nos anos 50, os mamilos ficavam tapados. Já existiam revistas sofisticadas para homens, como a Esquire, mas a Esquire também não mostrava os mamilos, a não ser, esporadicamente, em relevo. A Playboy foi a primeira a mostrar o peito inteiro. E num contexto de bom gosto, não mais na prateleira dos fundos, com as revistinhas de sacanagem disfarçada, mas ali na frente, com a Life e a Look.

Hugh Heffner tinha pretensões intelectuais, a sexualidade aberta fazia parte de um novo ethos hedonista e consumista, e se ela também servia a onanistas perebentos estes eram um alvo secundário. O público idealizado por Heffner era de jovens urbanos que também seguravam a revista com uma mão só, mas porque a outra estava segurando um cachimbo. Com a Playboy, o sexo pulou a barreira do puritanismo e se naturalizou americano.

Não foi uma conquista fácil. Heffner precisou guerrear contra a reação de defensores da moral pública, contra processos e ameaças. Durante anos antes da Playboy, um fato sabido, mas nunca abertamente comentado, era que muita gente nos Estados Unidos comprava a revista National Geographic, entre outras coisas, para ver as nativas seminuas. A revista regularmente programava reportagens em que os mamilos de fora apareciam num contexto científico. Para serem ainda mais seguros, eram mamilos marrons e selvagens. Não por acaso, os primeiros pêlos pubianos que apareceram na Playboy foram os de uma negra. Era um recurso estratégico, as nativas da National Geographic postas mais uma vez a serviço da hipocrisia. Os pêlos pubianos numa afro-americana garantiam que a novidade chegava protegida pelo exotismo e só dois ou três números mais tarde começaram a aparecer os pêlos de mulheres brancas. A guerra era feita destas sutilezas.

Anos depois, as revistas masculinas brasileiras precisariam enfrentar a hipocrisia com um jogo de corpo, no caso de um jogo de seios, parecido. A censura não proibiu a mulher nua, mas decretou uma espécie de cota mamária: só um número determinado de peitos poderia aparecer em cada edição e nunca dois na mesma página. Imagino as discussões conceituais entre editores e censores. Uma mulher com os dois seios de fora esgotava a cota da página ou contava como uma única exposição, dando direito ao bônus de mais um seio, desde que não fosse muito grande? Os regimes autoritários costumam cair pelas suas contradições e sua ilegitimidade, mas o ridículo também ajuda. A edição brasileira (que faz aniversário este mês) mantinha a filosofia da Playboy de Heffner, mas com um tratamento brasileiro. Desde o começo publicou autores e artistas nacionais e em pouco tempo tinha uma personalidade própria que devia pouco ao modelo americano. Há quem diga que tudo isso ― a literatura, o bom acabamento gráfico, a "filosofia" de um estilo civilizado de vida ― é só pretexto. Que todo mundo sabe que bom mesmo é ver as peladas do mês.

Playboy não é só mulher pelada, mas vá convencer alguém. Uma vez a Playboy me mandou cobrir uma Copa do Mundo. A de 86, no México, aquela dos pênaltis perdidos. Fui, mas meu credenciamento não estava assegurado. Na chegada, o Juca Kfouri precisou argumentar bastante para convencer o mexicano certo que eu merecia uma credencial de imprensa, pois ele não entendia o que uma revista como a Playboy queria num campeonato de futebol. Com a credencial pendurada sobre o peito, tive de agüentar olhares de surpresa, sorrisos safados e perguntas impertinentes de todos que liam o nome do veículo que eu representava. Playboy, é? Onde estavam as mulheres? Eu ia fotografá-las em campo, entre os jogadores? Ou infiltrá-las, peladas, nas concentrações? Também foi difícil organizar uma cara que correspondesse à que eles imaginavam devia ter um correspondente da Playboy. Algo entre um sátiro e um manequim. Acho que não tive sucesso. Não adiantava dizer que a matéria da Copa seria na linha de outras reportagens sobre diversos assuntos da Playboy, que decididamente não era só uma revista de mulher nua. A reação certamente seria uma piscadela de cumplicidade. "Está bien, está bien... Pero, y mujeres?"


Paz sobre Sartre

Eu estava relendo uma antiga revista Dissent em que aparece uma tradução da entrevista que Jean-Paul Sartre deu a Benny Levy pouco antes de morrer, publicada originalmente no Nouvel Observateur, com um comentário de Octavio Paz sobre Sartre e a entrevista, e achei que valeria a pena transcrever de novo trechos do texto de Paz. Como uma homenagem aos dois mortos e porque as questões que os uniam e separavam, principalmente as da motivação política do intelectual e das origens da consciência moral, continuam vivas. E pelo simples prazer de um bom texto. Paz escreve para a Dissent, socialista, sobre suas discordâncias com Sartre, mas declara que admira a coragem do filósofo, inclusive a de terminar a vida com esperança, e tenta restabelecer num contexto cristão esta esperança que Sartre e Levy quase definem como uma secularização do messianismo judeu. Diz Paz:

"No fundo da personalidade de Sartre havia uma fundação moral atávica, formada mais pelo protestantismo da sua herança familiar do que pela dialética. Durante toda a sua vida, como se as práticas espirituais dos seus ancestrais Huguenotes ecoassem dentro dele, Sartre sujeitou sua consciência a um exame escrupuloso. Nietzsche disse que a grande contribuição do cristianismo para o nosso conhecimento da alma foi a invenção do auto-escrutínio e do seu corolário, o remorso, que é ao mesmo tempo autopunição e um exercício de introspecção. O trabalho de Sartre é mais uma confirmação desta verdade. Seja tratando da política americana ou das atitudes de Flaubert, o padrão intelectual e moral da sua crítica é a do cristão examinado sua consciência: começa com um despertar, um rasgar de véus e de máscaras, a busca não da nudez mas da ferida secreta, e termina inexoravelmente num julgamento. Para a consciência religiosa do protestantismo, conhecer o mundo é julgá-lo, e julgar é condenar.

"Por uma curiosa transposição filosófica, Sartre substituiu a predestinação e a liberdade da teologia protestante com a psicanálise e o marxismo. Mas todos os grandes temas que apaixonaram os pensadores da Reforma aparecem no seu trabalho. No centro do seu pensamento estava a oposição entre situação (predestinação) e liberdade: este era também o tema dos calvinistas e o ponto principal do seu debate com os jesuítas. Não falta nem Deus: a Situação (História) assume as suas funções, se não a sua fisionomia e a sua essência. Mas a Situação de Sartre é uma divindade que não tem rosto porque tem todos os rostos: é uma divindade abstrata. Ao contrário do Deus cristão, ele não é humanizado, nem é cúmplice do nosso destino. Nós somos os seus cúmplices e ele se realiza em nós. Do cristianismo Sartre herdou não a transcendência, a afirmação de outra realidade em outro mundo, mas a rejeição deste mundo e a abominação da nossa realidade terrena. Na raiz das suas análises e protestos e insultos à sociedade burguesa está a velha voz vingativa do cristianismo. O verdadeiro nome da sua crítica é remorso.

Acusando sua classe e seu mundo, Sartre está acusando a si mesmo com a violência de um penitente."

Depois de observar que os dois escritores franceses que tiveram maior influência no pensamento moral do século 20, Sartre e Gide, rebelaram-se contra seu protestantismo ― Gide, o esteta, rebelando-se em nome dos sentidos e da imaginação, Sartre mais evangélico e radical, desprezando a arte e a literatura com o furor de um patriarca da Igreja ― Paz diz que na entrevista do Nouvel Observateur a palavra "esperança", a velha virtude cristã, é explicitamente usada por Sartre pela primeira vez. Paz declara-se surpreso em saber que Sartre considera o judaísmo, "o menos universal dos três monoteísmos", a origem e o fundamento da sua esperança. "O judaísmo é uma fraternidade fechada. Por que ele (Sartre) mostrou-se outra vez surdo à voz da sua tradição? O sonho da fraternidade universal ― mais enfaticamente, a certeza esclarecida de que este é o estado a que toda a humanidade está naturalmente e sobrenaturalmente predestinada desde que recupere sua inocência original ― está no cristianismo primitivo." Para Paz, sem negar seu ateísmo e resignado com a morte, Sartre recuperou a parte melhor e mais pura da tradição religiosa, a sua visão da reconciliação humana.

A liberdade parafraseia Paz, são os outros.

Pequeno Macaco


Não ficamos sabendo nem da metade do bem e do mal que fazemos aos outros. Aquele homem em que você esbarrou sem querer na rua pode ter se virado para xingar você, desistido, guardado sua raiva e mais tarde chutado o cachorro do vizinho, que reagiu, começando a briga, que acabou com dois mortos e três feridos, sobre a qual você leu no jornal sem nem sonhar que a culpa era sua. Aquele amigo a quem você telefonou para perguntar qual era a música antiga que falava em "edredom vermelho", porque só ele saberia, e três dias depois telefonou para dizer que tinha encontrado a música... Quem sabe se na hora em que você telefonou ele não estava prestes a pular pela janela, convencido de que não servia para mais nada na vida? Você pode ter-lhe dado uma razão temporária para continuar vivo e, depois de cumprida sua missão, ele pode muito bem ter conhecido uma moça, com a qual casará e viverá feliz até os dois morrerem num incêndio causado por você, sem saber, quando jogar um cigarro pela janela do carro justamente no mato em que eles estão acampados.

A toda ação corresponde uma reação que provoca outras reações e você não pode ter absoluta certeza que um gesto seu, digamos, ao abrir bruscamente a porta da sua geladeira, não vá causar, depois de uma longa série de efeitos encadeados, uma avalanche no Himalaia. Qualquer biografia é, na verdade, o resultado do cruzamento de várias biografias que por sua vez são determinadas por várias outras biografias, e sempre que toma uma decisão sobre a sua vida ― como, por exemplo, sua decisão de cortar o sorvete, que pode ser a fração porcentual que faltava para a fábrica de sorvete decidir diminuir sua produção, desempregando várias pessoas, uma das quais, daqui a alguns meses, tomará a decisão de assaltar você ― você está decidindo a vida de outros. Agora mesmo você pode ter jogado no lixo a casca de banana que cairá do caminhão do lixo e na qual o carteiro escorregará ao atravessar a rua trazendo uma carta da Cameron Diaz (digamos) para mim que desaparecerá pelo buraco do esgoto, me deixando sem saber o que a Cameron poderia querer comigo e a minha vida igual ao que era antes, além da coitadinha sem resposta e o carteiro no chão.

Num jantar dado em Bruxelas pelo conde Roche-Petard para o embaixador de Bezabeba, o conde contou ao embaixador que o apelido da sua pequena neta, Annette, era Petite Singe, pois ela não ficava quieta um minuto. O embaixador achou aquilo encantador e, de volta ao seu país, contou ao imperador de Bezabeba que a pequena neta do conde Roche-Petard era chamada em casa de Pequeno Macaco, e o imperador riu muito, engasgando-se na tâmara que estava comendo e morrendo em seguida por falta de ar, o que desencadeou uma luta fratricida pela sua sucessão que durou várias semanas sangrentas e terminou com uma intervenção da ONU, Bezabeba dividida e um saldo de vários milhares de mortes. Em Bruxelas, o conde leu no jornal que o embaixador fora preso como suspeito de ter assassinado o imperador e seria executado, mas não leu mais porque a pequena Annette entrou na sala com a babá e exigiu sua atenção, correndo de um lado para o outro sem a menor idéia da desestabilização que causara no Oriente e depois pulando no seu colo. Parecia mesmo um macaquinho.

Perdidão


Perdido, perdidão mesmo, ficou o Rodrigo depois que a Taninha foi embora.

"Inconsolável", no caso dele, não era, como é que se diz? Força de expressão. Era impossível consolá-lo. Todos tentavam, ninguém conseguia.

Afinal, contando amizade, namoro e morar junto, aquilo com a Taninha durara dez anos. E uma noite ele contou que o que doía mais não era a briga, a separação, o abandono.

Era o desperdício.

― Entende? O desperdício. Eu sei tudo sobre a Taninha. A mãe dela não sabe o que eu sei sobre a Taninha. Conheço cada sinal do seu corpo, cada pêlo, cada marca. Alguém sabia que ela tinha uma cicatriz pequenininha aqui, embaixo do queixo? Pois é, não aparecia, mas eu sabia. Ela tinha uma pintinha numa dobrinha entre a nádega e a coxa que, aposto, nem a mãe conhecia. Nem ginecologista, ninguém. E o dedinho do pé virado para dentro, quase embaixo do outro? Era uma deformação, ninguém desconfiava. E eu sabia. E agora, o que que eu faço com tudo que sei da Taninha?

― Eu passava horas vendo a Taninha dormir. Barriga para baixo, cara enterrada no travesseiro, a boca às vezes aberta. Mas não roncava.

Às vezes ria. Um dia ela riu, acordou, me viu olhando para ela e disse "Você, hein?", depois dormiu de novo. Acho que, no sonho, eu tinha feito ela rir. Depois ela não se lembrava do sonho, disse que eu tinha inventado. O que que eu faço com isso? De que me adianta saber como a Taninha raspava a manteiga, cantava uma música no chuveiro que ela jurava que existia, "Olará-olarê, tou de bronca com você", que ninguém nunca tinha ouvido? E fechava um olho sempre que não gostava de alguma coisa, de uma sobremesa ou de uma opinião? Eu podia escrever um livro, Tudo sobre Tânia, mas quem ia comprar?

Não seria sobre ninguém importante. Não seria a biografia, com revelações surpreendentes, de uma figura histórica ou controvertida, só tudo o que eu sei sobre uma moça chamada Taninha, que me deixou, depois de anos de observação exclusiva. Taninha na cama, Taninha no banheiro, Taninha na cozinha, Taninha correndo do seu jeito particular, de nenhum interesse para a posteridade. Dez anos de estudos postos fora.

― Estudei a Taninha em todas as situações, em todos os ambientes, em todos os elementos possíveis. Taninha na praia. Taninha enrolada num cobertor, comendo iogurte com frutas e vendo televisão. Taninha suada, Taninha arrepiada. O estranho efeito de relâmpagos e trovoadas no cabelinho da nuca de Taninha. Querem os cheiros da Taninha? Tenho todos catalogados na memória. Taninha gripada.

Taninha distraída. Taninha contrariada, eufórica, rabugenta, com cólica e sem cólica.

Taninha roendo unha ou discutindo o Kubrick.

Não havia nada sobre a Taninha que eu não sabia, toda esta erudição sem serventia.

― O desperdício. Não posso oferecer tudo que sei sobre a Taninha para um inimigo. Dicas sobre os seus momentos de maior vulnerabilidade ― ouvindo o Chico ou errando o suflê. A Taninha, que eu saiba, não tem inimigos, certamente nenhuma potência estrangeira. Não posso oferecer meus conhecimentos da Taninha para a Ciência. Se ela ainda fosse um fóssil mumificado que eu desenterrei e passei dez anos examinando e cujas características ― suas pintinhas, seu dedinho torto, sua provável maneira de dançar qualquer música fazendo "sim" com a cabeça e de raspar a manteiga ― revolucionariam todas as teorias estabelecidas sobre o desenvolvimento humano...

Mas inventei uma ciência esotérica, de um praticante e um interessado só. Não posso nem dar um curso universitário, publicar teses, formar discípulos, participar de congressos sobre a Taninha. Sou doutor em nada.

Doutor em saudade. Entende? Desperdicei dez anos numa especialização inútil.

Não adianta tentar consolar o Rodrigo. Convencê-lo a esquecer a Taninha e se dedicar a outras. Ele diz que não está preparado para outras. Toda a sua formação é em Taninha. Namorando outras ― diz o Rodrigo ― ele se sentiria como essas pessoas com diploma em física nuclear ou engenharia eletrônica que acabam trabalhando de garçom.


Pijamas de Seda


O Délio era tão cafajeste, tão cafajeste que enternecia as pessoas.

Diziam "Flor de cafajeste" como se dissessem "Figuraça". E brincavam com ele, afetuosamente:

― Délio, é verdade que você venderia a própria mãe?

― O que é isso ― dizia o Délio, com modéstia.

Volta e meia alguém aparecia com "a última do Délio", que era devidamente festejada. Às vezes, alguém se apiedava da vítima.

― E como é que vai ficar a viúva, depenada pelo Délio?

― Pois é, coitada. Ele levou até os pijamas.

Mas logo aparecia um defensor do Délio.

― Ela não pode dizer que não sabia que ele era um cafajeste.

― Alguém avisou?

― Estava na cara!

A teoria era a seguinte: quem se envolvia com o Délio, com aquela cara de cafajeste, estava pedindo. Não podia alegar falta de aviso. Tudo que alguém precisava saber sobre o Délio estava na sua cara. Só se enganava quem queria. Só era enganada quem ignorava o aviso da cara. Ou achava que a cara estava mentindo, que ninguém podia ser tão cafajeste assim.

Foi justamente uma viúva a responsável pela queda do Délio, que tanto consternou os amigos. Uma viúva, e a fatal atração do Délio por pijamas. Ele tinha uma coleção de pijamas, muitos herdados de maridos mortos, presenteados pelas viúvas. Tinha pijamas para dormir, pijamas para andar em casa, pijamas para passear na calçada. Pijamas de todos os tipos, e em profusão. Gabava-se de poder passar um trimestre sem repetir um pijama. E foi a obsessão por pijamas que abateu o Délio.

Um dia um grupo foi visitar o Bonato no seu leito de morte. O Délio e mais uns três ou quatro. Na saída do quarto do Bonato, estavam todos impressionados com a cena do Bonato nas últimas, mal podendo respirar, e sua mulher, a Léinha, segurando sua mão, e seu afilhado Davi, com sua cara de sonso, mal contendo o choro. O Délio comentou:

― Viram só?

― Pois é. Pobre do Bonato. Está nas últimas.

― Não, não ― disse o Délio. O pijama dele. De seda pura! E outra coisa: com monograma. Seria facílimo transformar o "B" de "Bonato" em "D" de Délio. O Délio tinha uma cerzideira especialista em alterar monogramas.

Durante semanas depois da morte do Bonato, fizeram apostas no grupo. A Léinha, que afinal era uma mulher inteligente, e já conhecia o Délio, sucumbiria ao cafajeste? O namoro começou, discretamente, três meses depois do enterro. E três meses depois, ao ser perguntado, de longe, como ia o seu assédio à Léinha e aos pijamas de seda do falecido, Délio limitou-se a dar tapinhas alegres embaixo do próprio queixo. Querendo dizer que estavam no papo.

Na última vez em que o grupo viu Délio, antes da derrocada, ele estava levando os pijamas de seda do Bonato para sua cerzideira alterar os monogramas. Depois, Délio desapareceu. Segundo as primeiras versões, ele e Léinha estariam em lua-de-mel, em Cancún, onde ele exibia seus pijamas para um público internacional. Quando Léinha foi avistada sem o Délio, surgiram rumores de que o cafajeste já dera seu golpe, deixando Léinha desesperada e sem um tostão, amaldiçoando-se por achar que seria uma exceção na vida dele, que com ela ele se regeneraria. Regenerar-se, com aquela cara! Mas Léinha não parecia desesperada. E, quando perguntaram a ela sobre o Délio, disse só:




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