Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página40/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44

― Sei lá.

E como tinha sido Cancún?

― Que Cancún?

Finalmente, Délio apareceu. No começo, não quis falar. Disse apenas uma palavra: "Deslealdade." Não entrou em detalhes. Estava deprimido. Só com o tempo e a insistência dos outros foi contando o que tinha acontecido. Desta vez, a vítima fora ele. Sim, acreditassem se quisessem. Ele, que todos chamavam de cafajeste, tinha encontrado alguém mais sem caráter do que ele.

E, ainda por cima, desleal.

― Quem, Délio?

― O Davi.

O Davi?! O afilhado do Bonato? Com aquela cara de sonso?

Exatamente, disse Délio. Com aquela cara dissimulada. Pelo menos ele, Délio, não disfarçava sua cafajestice. Ao contrário do Davi, que escondia a sua sob uma márcara de sacristão e um jeito de bobo. Davi, o que mais chorava no enterro do padrinho, embora já fosse amante de Léinha. Davi, que chantageara Léinha, ameaçando deixá-la depois da morte do Bonato. Fora para segurar Davi que Léinha lhe dera os pijamas de seda do Bonato, com o "B" transformado, com tanta arte, em "D".

― Ela só queira a minha cerzideira! ― queixou-se Délio, arrasado.

Em condições iguais, Délio não fugiria de uma disputa com Davi por Léinha e seu dote, inclusive os pijamas de seda. Mas era preciso haver um mínimo de lealdade. Tudo às claras, na cara, e que vencesse o pior.


Pilhagem
"Pagar a dívida social" é uma daquelas frases de palanque que nunca passam da retórica para a prática. Como a reforma agrária, que todo mundo apóia desde que ela não seja feita, o resgate da dívida social é uma figura de discurso que perde muito na tradução para fato.


Somos, teoricamente, a sociedade mais bem-intencionada do mundo. A tal de prática é que nos atrapalha. O empresariado brasileiro, por exemplo, fica teoricamente cada vez mais moderno e esclarecido e continua não reconhecendo seu papel nem na acumulação da dívida social nem na sua quitação.

A construção simultânea da oitava economia e da sociedade mais desigual do planeta só pode ser vista como um processo de pilhagem. O Brasil é pilhado pela sua elite econômica há gerações. Por mais justas que sejam as queixas contra os absurdos que atrapalham o empreendimento brasileiro, existe um custo empresa que o Brasil paga há anos muito mais escandaloso do que o custo Brasil de que reclamam os empresários. Não é só o sumidouro do mercado financeiro e a sonegação de impostos, é tudo o que a economia brasileira produziu enquanto conquistava seu ranking e foi negado ao País pela subtributação e o privilégio fiscal. Apesar da gritaria, o empresário brasileiro é dos menos exigidos do mundo na hora de passar parte do seu resultado para a sociedade que o cerca. E quando se inclui no execrado custo Brasil os benefícios sociais que mal compensam a precariedade da assistência oferecida pelo poder público, justamente por culpa da sonegação legal, estamos muito perto do escárnio. Não faz muito, com a discussão da tributação das terras improdutivas, ficou-se sabendo o que pagavam de impostos os grandes proprietários rurais pelos grandes nacos de Brasil que são deles. Quase nada. E de cara feia. Usando a ameaça do desemprego em massa como argumento de chantagem, o governo dos patrões fez passar pelo Congresso medidas de "flexibilização" do mercado de trabalho que não deram certo em nenhum outro lugar, cujo verdadeiro motivo, depois de varrida a retórica bem-intencionada, era diminuir a responsabilidade social do capital e aumentar o lucro.

As estatísticas atuais sobre educação e saúde pública mostram o que já se sabia, que a pilhagem continua. A dar atenção à emergência social brasileira preferiram a empáfia do gradualismo, tudo no seu devido tempo, enquanto bebês morrem em berçários superlotados e crianças são mal preparadas por professores mal pagos para maus empregos, quando encontram. O neoliberalismo diz que o Estado é o vilão, um Estado abstrato, de ninguém, o que é uma forma de inocentar os que o usaram até agora como instrumento de rapina. Como privilegia os mesmos privilegiados de sempre, com a bênção adicional do dogma neoliberal triunfante, nosso governo pseudo-social-democrata apenas tornou a pilhagem mais respeitável. E simpática.

Declaração

Da série "Poesia numa hora destas?!"
Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho.

Mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho

e, pensando bem, um berçário não é o melhor lugar.

Nós dois de fraldas, lado a lado

Cada um recém-chegado.

Você sem poder ouvir, eu sem saber falar.

Tentei de novo, lembro bem, na escola.

Com um P.S. num pedido de cola

Interceptado pela professora feito gavião.

Eu fui parar na diretoria

Enquanto você, desalmada, ria

― curta é a vida, longa é a paixão.

Numa festinha, ah suas festinhas, disse tudo:

"Te adoro, te venero, na tua frente fico mudo."

E você tomando goles de um silencioso Hi-Fi.

Só mais tarde eu atinei:

Cheio de cuba e amor, me enganei.

Tinha dito tudo para o senhor seu pai.

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.

O teu nome e o meu, flechas, palpitações.

No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.

Resultado: sou pessoa pouco grata

Corrido aos gritos de "Mata"!

Por ambientalistas e afins.

Recorri, desesperado, a um gesto obsoleto:

"Se não me seguram faço um soneto!"

E não é que fiz, e até com boas rimas?

Mas você nem ficou sabendo.

Ele continua inédito, por você plangendo

― mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever, com pincel e piche

Em muros brancos, o asseio que se lixe

Todo o meu amor para a sua ciência.

Fui preso aos socos e fichado.

Dias e mais dias interrogado.

Era PC, PC do B ou outra dissidência?

Te escrevi com lágrimas, suor e mel

(você devia ver o estado do papel)

Uma carta longa, linda e passional.

Como resposta nem uma cartinha

Nem um cartão, nem uma linha!

Vá se confiar no Correio nacional...

Com uma serenata, sim, uma serenata

Como as do tempo da Cabocla ingrata

Me declararia respeitando a métrica.

Ardor, tenor, calçada enluarada

Havia tudo sob a sua sacada

Menos tomada pra guitarra elétrica.

Decidi, então, botar a maior banca

E escrever no céu com fumaça branca:

"Te amo, assinado..." e meu nome bem legível.

Já tinha avião, coragem, brevê

Tudo para impressionar você...

Veio a crise do petróleo e faltou o combustível.

Ontem finalmente cheguei ao seu ouvido

e, na discoteca, em meio ao alarido

Despejei o meu pobre coração.

Falei da devoção há anos entalada

E você disse "Com essa música, não escuto nada!"

Curta é a vida, longa é a paixão.

Na velhice, num asilo, lado a lado

Em meio a um silêncio abençoado

Te direi tudo o que eu queria, meu bem.

Meu único medo é que então

Empinando a orelha com a mão

Você me responda... "Hein?"


Ponto e vírgula

Como lia muito em inglês havia uma séria dúvida de que eu soubesse escrever em português. Comecei no jornalismo trabalhando como copidesque ― uma função que já deve ter sido substituída por uma tecla de computador ― na Zero Hora. Naquele tempo você podia começar como estagiário, sem diploma. Quanto tempo faz isso? Basta dizer que a manchete da Zero Hora no dia seguinte ao da minha estréia foi "Castello hesita em cassar Lacerda". E a manchete saiu com um terrível erro de ortografia. "Exista" em vez de "hesita". Na minha casa, duas certezas conflitantes ― a de que eu era analfabeto e a de que já começaria no jornalismo fazendo as manchetes da primeira página ― se chocaram, criando o pânico. Mas eu era inocente. E tenho conseguido me manter inocente de grandes pecados ortográficos e gramaticais desde então, pelo menos se você não for um fanático sintático. Vez que outra um leitor escandalizado me chama a atenção por alguma barbaridade que eu prefiro chamar de informalidade, para não chamar de distração ou ignorância mesmo. Afinal se a gente não pode tomar liberdades com a própria língua... E nenhum pronome fora do lugar justifica a perda de civilidade.

Mas tenho um temor e uma frustração. Jamais usei ponto e vírgula. Já usei "outrossim", acho que já usei até "deveras" e vivo cometendo advérbios, mas nunca me animei a usar ponto e vírgula. Tenho um respeito reverencial por quem sabe usar ponto e vírgula e uma admiração ainda maior por quem não sabe e usa assim mesmo, sabendo que poucos terão autoridade suficiente para desafiá-lo. Além do conhecimento e audácia, me falta convicção: ainda não escrevi um texto que merecesse ponto e vírgula. Um dia o escreverei e então tirarei o ponto e vírgula do estojo com o maior cuidado e com a devida solenidade e colocarei, assim; provavelmente no lugar errado, mas quem se importará?

Idéia para um conto policial psicológico. Os contos policiais psicológicos são mais fáceis de escrever porque não precisam ter muita ação. Um homem chega em casa do trabalho e encontra a sua família toda morta. Mulher, filhos, sogra, empregada, cachorro. Todos assassinados. Não há sinais de arrombamento, nada na casa foi tocado. Salvo os mortos. À polícia, o homem diz que não tem idéia de quem possa ter cometido os crimes. Sua família era normal, não tinha inimigos. Levava uma vida normal. Ninguém tinha razão para matá-la. Ninguém.

― E o senhor? ― pergunta o inspetor.

― Eu?

― O senhor não tinha uma razão para matar a sua mulher? E matar os outros para disfarçar?



― Que razão?

― Digamos que ela descobriu que o senhor tem uma amante chamada Jaqueline, com quem pretende viver, e estava criando obstáculos para a separação.

― Mas eu não tenho uma amante chamada Jaqueline.

― Vanusa?

― Não.

― Linda Maura?



― Também não!

― Você preparou o crime, colocando fortes doses de sonífero no café da manhã de todo o mundo, inclusive do cachorro. Assim, quando chegou em casa, às 5h20 da tarde e não às 6 como declarou, encontrou todos inconscientes e pôde matá-los tranqüilamente, usando o pesado troféu que ganhou num torneio de golfe em Maracaibo, em 1974.

― Minha secretária testemunhará que eu saí do escritório às 5 e meia. E eu nunca estive em Maracaibo. Nunca estive fora do Brasil. Aliás, eu nem jogo golfe!

― Como é o nome da secretária?

― Jorgete.

― Arrá. Então é ela a amante. Além de garantir o álibi, ela esteve na casa com o senhor. Não participou do crime, mas ajudou o senhor a se livrar do pesado castiçal usado na matança, que está neste momento ornamentando a mesa do seu pequeno apartamento decorado em estilo oriental, na zona norte.

― Não! A dona Jorgete mora na zona sul.

― No apartamento que você montou para ela, com um bar na sala, uma mesa de centro na forma de um rim e quadros de odaliscas seminuas nas paredes. Foi lá que vocês planejaram o assassinato, bebendo gim-tônica e ouvindo um disco do Mantovani, aquele com a capa branca.

― Não!

― Ray Conniff?



― Não!

― Os Golden Boys.

― Também não! A dona Jorgete não é minha amante e eu não montei um apartamento para ela. A dona Jorgete mora com a mãe.

― Dona Valdemira. Chamada "Vavá". Viúva de um coronel, Octacílio ou Amoroso. Ela também é contra o casamento de vocês e corre sério risco de vida.

― A dona Jorgete tem quase 60 anos!

― Qual era o plano? Depois do assassinato, de se livrarem do ferro elétrico usado na chacina, de chamarem a polícia e darem depoimentos falsos e de enterrarem os mortos, você e Margarida, a ex-Miss Brotinho de Jaguarão que conheceu na sala de espera de um tarólogo no centro, iriam viver nas terras dela em...

Nisso entrou um policial para dizer que o crime estava solucionado. Tinham prendido um maluco que confessara tudo. Se irritara com o cachorro e o perseguira até dentro de casa, onde matara a família toda com um pau. O homem foi solto, com pedido de desculpas. E semanas depois telefonou para a delegacia. Queria fala com o inspetor. Disse:

― Só por curiosidade. Na sua hipótese.

― Sim?

― Qual era o meu plano?




Pracinha

― Você não me conhece...

― Sim?

― Mas eu tenho, por assim dizer, acompanhado a sua vida.



― Ah, sim?

― É. Desde pequeno.

― Mas você tem a minha idade.

― É. Nós fomos pequenos juntos. Brincávamos juntos. Na pracinha. Você não se lembra. Não pode se lembrar.

― Acho que...

― Não, não. Nem tente. Faz muitos anos. Eu me lembro porque fiquei muito impressionado quando a minha mãe me disse que você ia morrer.

― O quê?

― Minha mãe me disse que você era muito doente. Que não era para bater em você, nem fazer você correr muito. Eu tinha vontade de bater em você. Mas nunca bati.

― Eu era muito doente?

― Foi o que a minha mãe me disse. Que você não ia durar muito. Que era para eu cuidar de você. Por isso eu deixava você ganhar tudo. Fiquei muito impressionado.

― Mas...

― Eu não imaginava que uma criança do seu tamanho, do nosso tamanho, pudesse morrer assim. Sem ser atropelado, sem ficar de cama. Estar brincando numa pracinha e ao mesmo tempo estar morrendo. Aquilo me marcou. Acho que passei a infância esperando você morrer. A vida toda.

― E eu não morri.

― Não morreu. Vocês se mudaram. Nunca mais brincamos na pracinha. Mas eu continuei acompanhando a sua vida. Uma vez cheguei a ir na sua casa. Minha mãe foi entregar uma torta. Era o seu aniversário. Quinze anos. Eu disse "Oi" mas você nem me olhou.

― Você disse que tinha vontade de bater em mim? Na pracinha...

― Tinha.

― Por quê?

― Porque você era insuportável. Você era intragável. Mas eu não podia bater.

Em vez de bater em você, protegia você dos outros. Porque você ia morrer.

― Olha, eu...

― Você não sabe como aquilo me marcou. Pela vida toda. Fiquei amargo, fatalista.

Imagina: um fatalista de 10 anos. Achava que nada na vida valia a pena. Que sentido podia ter a vida, num mundo em que crianças morriam assim?

― Mas eu não morri.

― Eu sei. Mas aí o mal já estava feito.

― Eu nem sabia que estava doente!

― Vi o seu nome na lista dos aprovados no vestibular, no jornal. A sua foto se formando. As notícias das suas vitórias na vela. A participação do seu casamento. As fotos do seu casamento na coluna social. O seu lançamento como candidato a vereador. Até votei em você. Não sei por que, achava que ainda tinha que proteger você porque você ia morrer criança, embora já fosse adulto. Mas esperei, esperei, e nunca vi o convite para o seu enterro. Vi o da sua mãe, mas não o seu. Procurava a notícia da sua morte e via a notícia da sua candidatura a deputado. Procurava o convite para o seu enterro e via a notícia da sua escolha como secretário de Estado. Uma vez, nem tive que abrir o jornal. Estava lá, na capa, sua cara e a notícia dos milhões desviados na secretaria. Mas nunca a notícia da sua morte.

Desculpe, eu...

― Não, não. Tudo bem. Não é culpa sua.

― Se eu puder fazer alguma coisa por você... Só não posso morrer, claro.

― Claro. Ainda mais agora que vai para deputado federal. Aliás, com o meu voto.

― Obrigado.

― Oquei.

― O que é que você faz?

― Eu? Nada. Me viro. Tenho a pensão da mãe e vivo encostado. Invalidez.

― Invalidez?

― Problema psiquiátrico. Trauma de infância. E outras coisas. Acho que não duro muito.

― Mas você é moço. Tem a minha idade!

― É, mas...

― Escuta.

― O quê?

― Você quer me bater? Pode bater.

― O que é isso?

― Não. É o mínimo que eu posso fazer por você. Faz de conta que a gente está de volta na pracinha. Me bate. Vamos.

― Olha... Acho que eu não tenho mais força.




Preto e branco

"Escrevo peças porque escrever diálogos é a única maneira respeitável de você se contradizer." Tom Stoppard Um palco vazio. Entram dois homens, um vestido de preto e o outro vestido de branco. Eles representam os dois lados do Autor. Isso a platéia já sabe porque está escrito no programa. Pelo Autor. Ou por um dos lados do Autor, já que o outro era contra. O outro lado do Autor queria que o espectador deduzisse no transcorrer do diálogo que os dois atores representam a mesma pessoa, porque, na sua opinião, dar muitas explicações para a platéia subverte a relação de cumplicidade misturada com hostilidade que deve existir entre palco e público, e nada destrói este clima mais depressa do que o público descobrir que está entendendo tudo. Os dois lados do Autor discutiram muito sobre isto e prevaleceu o lado que queria ser perfeitamente claro, mesmo com o perigo de frustrar o público. Palco vazio. Dois homens, representando os dois lados do Autor. Um todo de preto, o outro todo de branco.

Homem de branco ― Preto.

Homem de preto ― Branco.

Branco ― Por que não cinza?

Preto ― Vem você com essa sua absurda mania de conciliação. Essa volúpia pelo entendimento. Essa tara pelo meio-termo!

Branco ― Se não fosse isso, nós não estaríamos aqui. Foi minha moderação que nos manteve longe de brigas. Foi minha ponderação que nos preservou. Se eu fosse atrás de você...

Preto ― Nós teríamos vivido! Pouco, mas com um brilho intenso. Teríamos dito tudo que nos viesse à cabeça. Distinguido o pão do queijo com audácia. Posto pingos destemidos em todos os "is". Dado nome completo a todos os bois!

Branco ― Em vez disso, fomos civilizados. Isto é, contidos e cordatos.

Preto ― E temos os tiques nervosos para provar.

Branco ― Você preferiria ter dito a piada que magoaria o amigo? A verdade que destruiria o amor? O insulto que nos levaria ao Pronto Socorro, setor de traumatismo?

Preto ― Preferiria. Para poder dizer que não me calei. Para poder dizer "Eu disse!"

Branco ― Ainda bem que não é você que manda em nós.

Preto ― Não, é você. Sempre fazemos o que você determina. Ou não fazemos. Não dizemos. Não vivemos! Estou dentro de você, fazendo, dizendo e vivendo só em pensamento. Se ao menos eu pudesse sair aos sábados...

Branco ― Para que, para nos matar? Pior, para nos envergonhar?

Preto ― Melhor se envergonhar pelo dito e o feito do que pelo não dito e o adiado. Você sabe que cada soco que um homem não dá encurta a sua vida em 17 dias? E cada vez que um homem pensa em sair dançando um bolero e se controla, seu fígado aumenta? E cada...

Branco ― Bobagem. Ainda bem que eu sou o verdadeiro nós.

Preto ― Não, eu sou o verdadeiro você.

Branco ― Você só é nós em pensamento. Você é a minha abstração.

Preto ― Sou tudo o que em nós é autêntico e não reprimido. Ou seja: você é a minha falsificação.

Branco ― Você não é uma pessoa, é uma impulsão.

Preto ― Você não é uma pessoa, é uma interrupção.

Branco ― Mas quem aparece sou eu.

Preto ― Então o que eu estou fazendo neste palco, e ainda por cima de malha justa?

Branco ― Você só está aqui como uma velha tradição teatral, o interlocutor. Um artifício cênico, para o Autor não falar sozinho. "Escrever diálogos é a única maneira respeitável de você se contradizer." Tom Stoppard.

Preto ― Quer dizer que eu só entrei em cena para dizer...

Branco ― Branco. E eu...

Preto ― Preto. Por quê?

Branco ― Para mostrar à platéia que todo homem é a soma, ou a mescla, das suas contradições. Que no fim o destino comum de todos, cremados ou não cremados, não é ser branco ou preto, é ser cinza.

Preto ― Mostrar a quem?

Branco ― À pla... Onde está a platéia?!

Preto ― Foram todos embora.

Branco ― Será porque não entenderam o diálogo?

Preto ― Acho que foi porque entenderam.


Preto-e-branco


PARIS ― Do fim do impressionismo ao começo do technicolor, Paris foi, por um longo tempo, preta-e-branca. Você não pode imaginar uma imagem de Paris daquele período colorida. As fotos e os filmes de Paris até a metade do século 20 eram de uma cidade com várias graduações de cinza e isso condicionou nosso pensamento a seu respeito e a respeito da época. Depois das cores vivas da "belle époque" captadas pelos seus artistas, Paris tornara-se cinzenta, a cor dos clichês da imprensa e dos jornais de cinema, a cor de um século sombrio. A história do século 20 era a história de uma degradação cromática, determinada pelo cinema e pelas novas artes do instantâneo. A última imagem pintada famosa de Paris colorida ― de quem mesmo, Utrillo? ― marcou o início da era da percepção cinzenta, mais adequada aos tempos. O fascismo nos chegou em preto-e― branco. A 2ª Guerra Mundial foi preta-e-branca. As terríveis fotos dos campos de concentração nazistas liberados só podiam ser em preto-e-branco, a cor no caso seria uma aberração. A liberação de Paris foi preta-e-branca. Lembro de como eu estranhei quando vi uma foto colorida de De Gaulle. De Gaulle era corado! Você não podia conceber qualquer personagem do século cinzento com as bochechas rosadas. Nem o Churchill.

Depois da guerra, por algum tempo ainda, Paris continuou sendo preta-e-branca. Jean-Paul Sartre também era corado, mas você só conseguia visualizá-lo e sua turma cinzentos numa Paris cinzenta. O "Quartier Latin" e o existencialismo eram impensáveis a cores. Cheguei a desenvolver uma fantasia: tudo em Paris era cinzento. As folhas das árvores, as flores, os passarinhos, os sinais luminosos. Até a bandeira tricolor era em três tons de cinza. No momento em que descia em Paris você também ficava cinza. Fora o que acontecera com a Jean Seberg, uma americana policromática que se deixara tragar pelo cinzento parisiense e pela "nouvelle vague", fora dirigida por Jean-Luc Goddard em Acossado, que era o mais longe que você podia ir dentro do preto-e-branco sem ser um parisiense nato ou o Eddie Constantine, e nunca mais fora a mesma, ou nunca mais fora americana. Como turista, você não se arriscava a tanto. Na saída de Paris, certamente, receberia suas cores de volta. Aí os americanos fizeram seu primeiro filme colorido em Paris e tudo mudou. Não demorou muito e os franceses também começaram a filmar sua capital a cores. Paris voltou a ser a Paris dos impressionistas. A fotografia, que roubara a cor da cidade, a devolveu com bonificações, até exagerando um pouco. Mas os impressionistas também não pintavam exatamente o que viam. E Paris merece todos os favores que os artistas lhe fazem.




Primeiras histórias de verão

Com o inverno se aproximando... Desculpe, a temperatura me confundiu. Com o verão se aproximando, é tempo para histórias de verão. Entre outras.Vamos lá.

Mulher de banhista chega em casa e encontra o marido beijando outra mulher no sofá da sala.

― O que é isso?! ― pergunta.

― Respiração boca a boca, meu bem ― responde o marido.

― Quantas vezes eu já lhe pedi pra não trazer trabalho pra casa?

Outro banhista salvou uma moça que estava se afogando e a reanimou com respiração boca a boca. A moça levou o banhista para casa, onde ele está até hoje, e explicou para a família que precisa tê-lo a seu lado por precaução:

― Eu posso ter uma recaída.

― Você tem medo de avião?

― Eu? Nenhum.

― Diga a verdade.

― Mas nenhum. Por que eu teria medo de avião?

― Você não fica nem um pouco nervoso com avião?

― Nada.


― Mesmo?

― Nada. Tranqüilo. Eu tenho medo é de viajar de avião.

Coquetel.

― Está gostando da festa?

― Mais ou menos. Os canapés são de anteontem.

― O quê?

― Eu deveria ter desconfiado. As azeitonas estavam me olhando meio de lado.

Acho que queriam me dizer alguma coisa.

― Mas os canapés são fresquíssimos!




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal