Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página41/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44

― Sei não. É a primeira vez que vejo canapé com chulé. E o uísque...

― Que que tem o uísque? É da Escócia.

― Só se o Paraguai mudou de nome. Quando se sacode o gelo, só falta tocar Índia.

― Quem é o senhor, afinal? Deve ser um penetra. É a primeira vez que vejo o senhor numa festa minha.

― Primeira e última.

A moça tinha um séquito. Chegava na praia todos os dias com um séquito.

"Séquito: conjunto de pessoas que acompanham outra por obrigação ou cortesia; comitiva, acompanhamento, cortejo", diz o Aurélio. O séquito da moça era por obrigação ou cortesia? Era comitiva, acompanhamento ou cortejo?

Ninguém sabia. A moça tirava a sua saída de praia e ficava só de biquíni e o séquito em volta, olhando. A moça estendia a esteira na areia e deitava para tomar sol e o séquito ficava ao seu redor, só cuidando para não tapar o sol.

Alguns sentavam na areia, outros ficavam de pé. Era um séquito de sete.

Quando a moça saía para caminhar na praia o séquito ia atrás. Todos homens, de idades variadas. Quando a moça entrava no mar o séquito ficava na beira.

Às vezes se inquietavam, quando a moça desaparecia entre as ondas, ou demorava a sair da água. Quando ela saía da água, a rodeavam. Quando ela saía da praia, iam atrás.

Um dia alguém perguntou para a moça:

― Quem são?

― Quem?

― O seu séquito.

― E eu sei?

― Você não conhece nenhum deles?

― Eu não. Eles vão aparecendo e vão ficando.

E a moça contou que quando saía de casa pela manhã o séquito a estava esperando. Não sabia o que o séquito fazia à noite. Ou quando chovia.

― E eles nunca lhe dizem nada? Não falam entre si?

― Não, não. Acho que eles nem se conhecem.

― E ter um séquito assim não a incomoda, não?

― Olha: acho simpático.

E a moça completou:

― Só não gosto quando eles suspiram muito.


Puxa-puxa


Vá entender. Depois de cinco meses em Paris, Nora descobriu que não podia viver sem goiabada. Chegou a chorar no telefone para a mãe preocupada. Não agüentava a saudade da goiabada.

― Mas, minha filha, aqui você nem comia goiabada!

― Eu sei! ― soluçou a moça. Eu sei! Mas estou morrendo de saudade. Me manda uma goiabada!

E não podia ser goiabada boa. Tinha de ser goiabada em lata, daquelas que, segundo dizem, nem levam goiaba. E outra coisa: queijo.

― Mas aí tem uns queijos ótimos, minha filha!

Tinha, mas não serviam. Precisava ser queijo brasileiro.

― Está bem, minha filha. Vou mandar pela Dirce.

Deve ser dito que Nora viajara para Paris para fazer um curso de história da arte, mas principalmente para esquecer o Jorjão, cuja união com Nora fora vetada pela família, principalmente porque Jorjão já tinha uma mulher, Almeri, e dois filhos, Rita e Renan.

Nora parecia estar feliz em Paris, apesar de ter viajado com o coração partido. Até surgir a saudade fulminante da goiabada em lata.

Felizmente, a Dirce e o Manfredo iam para Paris. Como a encomenda chegou em cima da hora, Dirce botou a goiabada e o pacote de queijo numa sacola de mão e, na hora do embarque, o raio X do aeroporto identificou a lata.

Tiveram de abrir a sacola, o Manfredo, brigão como só ele, se desentendeu com o fiscal, quase foi preso, no fim nem eles nem a goiabada viajaram.

Quando a mãe da Nora telefonou para avisar a filha que a goiabada não chegaria, ouviu dela a notícia de que sua compulsão louca por goiabada passara.

Ela agora precisava ter balas de coco. Sonhava com balas de coco. Se não recebesse balas de coco, daquelas que se desmanchavam contra o céu da boca e só existiam no Brasil, se mataria.

― Mas, minha filha...

― Me mato, mamãe!

― Acho que a Jurema ainda não viajou.

A Jurema e o Renato estavam num grupo que ia para a Copa do Mundo e foram mobilizados pela mãe da Nora. Contrafeitos, botaram as balas de coco na bagagem. Que se perdeu e foi parar em Copenhague, onde a mala com as balas se abriu por acidente. As balas não eram daquelas que se desmancham contra o céu da boca. Estavam secas e esfareladas, lembrando cocaína. Em vez da mala de volta, Jurema e Renato receberam uma intimação da Interpol e perderam o primeiro jogo do Brasil. Quando a mãe da Nora avisou a filha que as balas de coco não chegariam, ouviu dela a notícia de que não queria mais bala de coco, enlouqueceria se não recebesse puxa-puxa.

― Puxa-puxa, minha filha?!

― Aquele tipo de rapadura mole que...

― Eu sei o que é, mas você não come puxa-puxa desde garota!

― Eu não penso em outra coisa, mamãe. Acho que vou enlouquecer!

A mãe teve um trabalhão para encontrar puxa-puxa e outro portador para Paris. Acabou descobrindo que o filho da dona Alicinha, o Régis, estava para embarcar. Nada a ver com a Copa, um estágio num hospital, dermatologia.

Régis podia levar o puxa-puxa até no bolso, desde que não lhe acontecesse nada no caminho. Não aconteceu nada, o Régis se encontrou com a Nora em Paris, o dois saíram juntos, e ontem, quando a mãe telefonou para saber se ela tinha recebido o puxa-puxa, Nora disse que estava ótima, ótima mesmo, e puxa-puxa? Que puxa-puxa?

― Ah, sim, recebi, obrigada mamãe. Mas não precisava.

E a família compreendeu que Nora tinha finalmente esquecido Jorjão.

Quando eu era invisível


Quando eu descobri que podia ficar invisível tinha 13 anos e a primeira coisa que fiz foi entrar no vestiário das mulheres, no clube. Durante algum tempo só usei meu poder para coisas assim. Ver mulher pelada, mudar as coisas de lugar para assustar as pessoas, dizer coisas no ouvido delas quando elas pensavam que estavam sozinhas, ficar atrás do goleiro do meu time para chutar as bolas que ele deixava passar e evitar o gol, coisas assim. Muito jogo importante da época fui eu que decidi, defendendo em cima da linha, e ninguém ficou sabendo, ou pelo menos ninguém acreditou quando eu contei. Também entrava em cinemas sem pagar e ainda cutucava a barriga do porteiro, só por farra. Vi todos os filmes proibidos até 18 anos que ninguém mais da minha geração viu. O único perigo, nos cinemas, era alguém, vendo a minha poltrona vazia, sentar no meu colo. Como eu invariavelmente estava com uma ereção, havia sempre a possibilidade de uma catástrofe.

Aos 16 anos me apaixonei por uma menina de 15, a Beloni, e um dia fiquei invisível e a segui até sua casa. Queria ver como era o seu quarto e a sua vida, queria vê-la tomando banho, mas não queria ver o que vi, uma briga feia dela com a mãe, depois ela trancada no quarto, chorando, eu sem saber se afagava sua cabeça e a matava de susto ou o quê. No fim quase fiquei preso no apartamento porque todos foram dormir e trancaram as portas, tive que simular batidas na porta da frente para o pai da Beloni vir abrir e me deixar escapar, depois tive que explicar em casa por que ficara na rua até aquela hora, só quando já estava na cama me dei conta que perdera a viagem porque a Beloni, de tão amargurada, nem tomara banho e dormira vestida. Voltei à casa dela no dia seguinte, atraído não apenas pela possibilidade de vê-la nua como a de alguma forma interferir no seu drama doméstico, ajudá-la, mudar seu destino, em último caso empurrar sua mãe pela janela. Desta vez peguei uma briga da mãe com o pai da Beloni. Fiquei achatado contra uma parede, apavorado. Era terrível, como as pessoas se comportavam quando achavam que não estavam sendo observadas. E era terrível não poder fazer nada. Era terrível ser invisível, ter aquele poder ― e nenhum outro. Eu não podia mudar a vida da minha amada Beloni como podia mudar o resultado de um jogo. Podia andar pela sua casa sem ser visto e sentir o cheiro doce da sua nuca, tendo apenas o cuidado de não encostar o nariz, mas não podia salvá-la.

Acho que foi então que me convenci que a invisibilidade era, na verdade, um poder trágico. Depois da minha imersão na vida privada da família da Beloni ― que eu revi outro dia e me contou que está bem, que se casou com um astrônomo belga que tem até uma estrela com o nome dele, que ela não se lembrava como era, está claro que enlouqueceu ― nunca mais consegui me divertir com minha invisibilidade. Não entro mais em vestiários femininos, pois que graça há na mulher nua se ela não está nua para você, se ela nem sabe que você a está vendo, e aquele hálito na sua nuca é o seu? Não entro mais em campo, pois que graça há no seu time ganhar com a sua participação anti-regulamentar, e sem que você ganhe sequer uma medalha, uma linha no jornal? E já tenho idade suficiente, mais do que suficiente, para entrar em filmes proibidos à vista do porteiro. Pensando bem, hoje só fico invisível quando quero estar sozinho ou, vez que outra, quando estou dirigindo, para ver as caras de espanto dos outros motoristas. Mas nem isso me diverte mais. A invisibilidade é para os jovens.

Troquei meu poder pelo ofício de Flaubert, que dizia que todo escritor é um fantasma percorrendo as próprias entrelinhas, ou coisa parecida. Abandonei a vida real por ficções como esta, em que controlo tudo e posso mudar a vida das pessoas e dispor do seu destino, e fornecer os seus diálogos, e matá-las ou salvá-las como me apetecer. E em que apareço e desapareço quando quero. E posso não só sentir o cheiro doce da nuca das mulheres que invento como roçar nela o meu nariz. E até fazer "Nham!", se quiser, sem nenhum perigo.


Clarão
A revolta dos escravos liderada pelo gladiador Espártaco foi um episódio menor na história de Roma. Não deu ibope. Ou ibopus, como diziam os romanos. O pouco que se sabe dela vem de alusões esparsas e menções passageiras. Do relato do único historiador da época que lhe deu alguma importância só sobraram fragmentos. A campanha para dominá-la foi chamada de Terceira Guerra dos Servos, o que significa que nem original ela foi. Sabe-se que os revoltosos chegaram a ser 90 mil, que Espártaco derrotou o exército romano por duas vezes, até que as oito legiões de um novo comandante, Licinius Crassus (Lawrence Olivier no filme do Kubrick com roteiro do Dalton Trumbo baseado em Howard Fast), acabaram com ele. Tudo terminou em dois anos e seu único efeito na história do império foi o prestígio que deu a Crassus. Seu efeito na servidão de então foi nenhum. Espártaco teve melhor sorte como analogia, invocada por mais de um movimento de emancipação através da História, e na imaginação romântica da esquerda. Socialistas como Rosa Luxemburgo deram seu nome ao partido radical que depois se transformou no partido comunista alemão. O Spartacus de Kubrick e Trumbo é o melhor filme político jamais feito.

Um dos fragmentos que sobraram de comentários da época fala do clarão das fogueiras dos acampamentos rebeldes, que podia ser visto no horizonte, de Roma, e a inquietação que provocava. Não era medo de um ataque iminente. Espártaco nunca chegou muito perto de Roma. O terror era do exemplo. Os escravos da metrópole também podiam ver o clarão das fogueiras. O clarão desmentia o noticiário dos grandes papiros da época de que tudo estava bem. O clarão dizia que, além do horizonte, havia escravos que tinham se organizado para a sua própria liberdade e nenhuma servidão era uma fatalidade. Que havia uma alternativa para a submissão dos sem-nada, a suprema ameaça para a razão dos senhores.

Espártaco foi uma nota de pé de página na biografia oficial de Crassus e deu-se melhor na literatura do que na realidade. Já o clarão das suas fogueiras no horizonte de Roma teve uma longa posteridade e inquieta até hoje.


Quase Poemas


Linguagem A língua humana tem entre 8 e 10 mil corpúsculos gustativos, e cada corpúsculo tem de 50 a 75 receptores químicos de sabor.

Estes receptores têm uma vida extremamente curta e são substituídos a, aproximadamente, cada dez dias, meu amor.

O que significa que de dez em dez dias nossas línguas têm entre 400 e 750 mil novas células que nunca provaram um bife acebolado um arroz com camarão uma massa álho e óleo ou um bacalhau na brasa sem falar em papo-de-anjo e licor.

São neófitas em feijoadas, virgens de pão francês.

E de dez em dez dias, querida, os nossos beijos de língua são como a primeira vez!

As Hordas Está provado que as mulheres têm o papel decisivo no processo de seleção que assegura a sobrevivência da espécie humana e que por trás de toda cena que fazem quando nos elogiam por matar um leão, acertar o suflê ou ganhar na Bolsa americana está a imagem barbuda ― como a de Marx inspirando suas hostes ― de Darwin, esse sacana.


Quem sabe?


Diz a mecânica quântica que as partículas atômicas se comportam de um jeito quando são observadas e de outro quando estão sós (como, aliás, todos nós).

E quem nos assegura que o Universo que está aí não é como aí está quando ninguém está olhando?

E que quando os astrônomos se viram do telescópio para a prancheta o Universo não faz uma careta?

Milagre "Cristos Pantocrator" era a imagem nas moedas vênetas de um Cristo entronizado.

Os sarracenos gostavam da moeda mas a chamavam de "mauthaban" ou apenas "rei sentado".

"Mauthaban" deu em "matapanus" um imposto de importação que depois deu em percentagem ou qualquer tributação.

Ficou o nome de caixinha onde guardavam o dinheirinho, depois de qualquer caixinha para quardar docinho e no fim "Marei panis", ou "Pão de São Marquinho".

Para os saxões "marchpane" E os alemões "marzipã".

E foi assim que o corpo de Cristo pelos milagres do comércio da etimologia e da transubstanciação, virou marzipão.

Compensação Tem alguma coisa a ver com a posição da laringe, ou algum órgão vizinho.

O fato é que o homem é o único animal que fala com os outros e se engasga sozinho.

Quermesse


Conheceram-se numa quermesse, no tempo em que havia quermesses. Ele estava com dois amigos tentando acertar uma argola no gargalo de uma garrafa de Conhaque Amigão quando ouviu o alto-falante anunciar que o Reginaldo Santos estava na cadeia, no centro do parque da quermesse, esperando que alguém o soltasse. Engraçado, pensou. Reginaldo Santos. O meu nome. Em seguida o alto-falante anunciou: "De uma admiradora secreta para o rapaz da camisa amarela e do boné azul..." e o nome da música. Ele estava de camisa amarela e boné azul. Os amigos o arrastaram para o estande do som e no fim da música dedicada a ele os alto-falantes espalharam pelos ares que o rapaz de camisa amarela e boné azul estava esperando sua admiradora secreta no estande do cachorro-quente. E ela foi. E ele pensou em fugir, mas não fugiu. Apertaram-se as mãos e ele perguntou o nome dela. Ercília. De quê? Não precisa saber. Ah, é segredo, é? É, por que, te incomoda? Ué, por mim. Ele perguntou se ela queria um cachorro-quente.

― Não, obrigada, me dá gases.

Ela não era feia. Uns 16 anos, cabelo loiro, vestido branco, as tiras do sutiã aparecendo.

― Moras por aqui?

― Não precisa saber.

― Ah, é segredo, é?

― É, por que, te incomoda?

― Ué, por mim.

Chegaram os amigos querendo saber quando era o casamento. Ele riu, mas ela continuou séria e de repente, para surpresa dele e grande divertimento dos amigos, passou a mão pelo seu braço e ficou segurando. Os amigos se afastaram, às gargalhadas. Eles ficaram parados, em silêncio, de braços dados. Então ela disse:

― A minha vida daria uma fotonovela.

E ele:

― Eu acho que vou andando.



― Pode ir.

Mas ela continuou agarrada no seu braço.

― Tás aqui sozinha?

― Tou com meu irmão.

Ela dizia "ermão". O cabelo dela tinha um cheiro doce. Saíram a caminhar pelo parque da igreja, de braços dados. Passaram pela cadeia e ele viu um homem sorridente de uns 30 anos atrás das grades. Ninguém ainda viera tirar o Reginaldo Santos da cadeia.

― Qué pipoca?

― Não, obrigada. Me resseca a garganta.

Depois ela perguntou como era o sobrenome dele. Não o nome, o sobrenome. Ele disse "Santos" e depois ficou vendo os lábios dela se movendo e formando as palavras "Ercília Santos, Ercília Santos".

Pensou outra vez em fugir, mas não fugiu. O cabelo dela tinha um cheiro doce. Arrancaram o "ermão" à força da Roda da Sorte. Ele tinha 7 anos e ganhara três maços de Hollywood.

― Me espera amanhã na saída da missa ― foi a última coisa que ela disse. Era uma ordem.

Apertaram-se as mãos e ela saiu, arrastando o irmão. Ele quis gritar que amanhã não dava, tinha futebol, mas não gritou. Também pensou em gritar que não podia, que ia fazer um curso de mecânica, que estava pensando na Aeronáutica, mas não gritou. Ficou pensando: "O meu nome, ela nem sabe o meu nome." Na fotonovela, que nome será que eu vou ter? Só o rapaz da camisa amarela e do boné azul?

Olhou o homem dentro da cadeia, no centro do parque da quermesse. O sistema de som falhara, estava fora do ar. O Reginaldo Santos, de uns 30 anos, continuava preso. Não estava mais sorrindo.


Recapitulando


Como o personagem do poema de T. S. Eliot que podia medir sua vida em colherinhas de café, podemos medir nossos últimos 28 anos em copas do mundo. Foram sete, cada uma correspondendo a uma etapa no nosso relacionamento com o futebol, ou com a seleção, que é o futebol depurado das suas circunstâncias menores, e portanto com o País.

Em 70, João Saldanha simbolizava, de certa maneira, nossa ambigüidade com relação à seleção. O país que ela representaria no México, o "Brasil Grande" do Médici e do milagre, certamente não era o país do Saldanha, nem o nosso. Vivíamos numa espécie de clandestinidade clandestina, na medida em que a clandestinidade oficial era a guerrilha. Mas, que diabo, a seleção também era do outro Brasil, da nação sofrida tanto quanto do Estado mentiroso, e assim como o Saldanha aceitou ser o técnico e disse de cara quais eram as 11 feras titulares, nós também nos empolgamos. Pra frente apesar de tudo Brasil.

O Saldanha acabou tendo que sair, segundo a melhor versão, porque o Médici quis impor o Dario de centroavante, mas duvido que algum opositor do regime, mesmo sabendo o que a vitória no México renderia politicamente para o governo, deixou de levantar da cadeira cada vez que o Jairzinho pegava a bola ou gemer quando o Banks defendeu aquela cabeceada do Pelé. Assim, a Copa de 70 ficou como a copa da ambigüidade. Nunca foi tão difícil e nunca foi tão fácil torcer pelo Brasil. Difícil porque torcer era uma forma de colaboracionismo, fácil porque o time era de entusiasmar qualquer um.

E a de 70 foi, claro, a copa do Pelé. Ele estava no ponto exato de equilíbrio entre maturidade e potência: já sabia tudo e ainda podia tudo. E estava decidido a transformar a copa num triunfo pessoal, num fecho simétrico para o que começara em 58, na Suécia, e não conseguira completar em 62, no Chile, nem em 66, na Inglaterra. O México foi a desforra de Pelé, um lance da sua biografia que ele gentilmente compartilhou com o Brasil.

Na Copa de 74 o Brasil ainda vivia sob um regime militar, mas tínhamos uma forte razão sentimental para torcer pela seleção: era uma seleção tão medíocre que inspirava a caridade. Torceríamos não por entusiasmo, mas por espírito cristão.

Médici tinha sido substituído por Geisel e neste caso a mediocridade era um estágio acima, mas, em relação à seleção de 70, a de 74 era um retorno à Pré-História, quando a bola era de pedra. Zagalo, que naquele tempo só tinha um ele, chegou a resumir nossa estratégia numa patética confissão de incapacidade: o negócio, na copa da Alemanha, era cavar faltas perto da área adversária e confiar nos nossos batedores. Nenhum outro comentário sobre a incrível falta de talento para o manejo da bola que se seguiu à grande geração de 70 é mais loquaz do que este. Nossa esperança era a bola parada, nosso terror era a bola em movimento.

Hoje, lembrando aquele tempo e aquela seleção, concluímos que nenhum dos dois era tão ruim assim. Os dois tinham a virtude do realismo. Depois da euforia da seleção de Pelé, e da falsa euforia do milagre econômico de Médici, resignação e cabeça no lugar. O Geisel, como o Zagalo, sabia que a prioridade era administrar a ressaca.

Enquanto isso, a grande sensação da copa era a Holanda de Cruyff e do carrossel. (Em Porto Alegre, o centroavante Claudiomiro declarou que não via nenhuma novidade no estilo "holandiano", era o mesmo que o seu Minelli usava no Internacional. A Holanda perdeu a copa para a Alemanha em 74, mas em 75 e 76 Minelli e seus holandianos foram bicampeões do Brasil.) O carrossel revolucionaria o futebol. Dizia-se que depois de 74 e da Holanda o futebol nunca mais seria jogado da mesma maneira. Depois de inventar o capitalismo, o colonialismo e o iogurte, os holandeses tinham reinventado o futebol.

Mas em 78 nem os holandeses eram mais tão holandeses.

Copa da Argentina, 1978. Com Cláudio Coutinho, dizia-se, o espírito renovador que começara a tomar forma na seleção de 70 ― preparo físico europeu, a teoria substituindo, em parte, o empiricismo e o vamos-lá-que-brasileiro-já-nasce-sabendo-tudo ― chegava ao comando do nosso time. Era a tecnocracia no poder.

Fazia-se pouco da erudição e do jargão pretensioso do Coutinho, mas ao mesmo tempo desconfiava-se que com ele o futebol brasileiro ficava mais adulto. Ninguém mais acreditava que todo jogador europeu tinha cintura dura e bastava deixar o brasileiro exercer seu talento natural para tudo dar certo. Com Zagalo, em 74, a reclamação era que sua cautela constrangera a criatividade brasileira. Injustiça. Zagalo sabia que tinha um time fraco. Aquilo não era cautela, aquilo era pânico. Em 78, o time era melhor. Com Coutinho, a esperança era que o Brasil voltasse à sua alegria, mas com método.

No fim, nem a alegria se materializou nem o método deu certo. Mas não houve a desmoralização completa do nosso estudioso capitão, que pôde reivindicar pelo menos o campeonato moral. A copa foi da Argentina, ganha, dizem, tanto pela mobilização do seu governo quanto pelo mérito dos seus jogadores, mas não a ponto de podermos chamá-los de campeões imorais.

E o que você estava fazendo enquanto o goleiro do Peru tomava os seis gols que a Argentina precisava para se classificar? Eu me lembro de ficar prostrado na frente da TV, meditando sobre a cupidez humana e a gratuidade de todas as coisas. Mas como o Coutinho não tinha levado o Falcão, e levado em seu lugar o Chicão, meu pensamento final sobre a Copa de 78 foi "bem feito".

A tecnocracia não merecia sobreviver às suas bobagens. Nem na seleção, nem no governo.

O que eu lembro com mais nitidez da Copa de 82 na Espanha não é nenhum lance ou jogo. É um teipe promocional da Globo feito com o jogador Éder em que ele aparecia correndo por um campo florido, simbolizando, sei lá, seu espírito livre ou o ímpeto irreprimível da nossa juventude. Não vou dizer que tive um pressentimento de derrota ao ver o teipe, mas tive, sim, a consciência de estar vendo um exagero, alguma coisa excessiva da qual ainda íamos nos arrepender.

Há quem diga que o triunfalismo das televisões brasileiras foi responsável, se não pela derrota em 82 então pela frustração arrasadora que veio depois, quase igual à de 50. Mas tanto o triunfalismo quanto a frustração se justificavam, esperava-se muito daquele time do Telê. A entressafra de bons jogadores parecia ter acabado, outra geração de exceção chegava ao seu equilíbrio perfeito numa copa, desta vez tinha que dar. Até que ponto o triunfalismo influiu no time, e o fez continuar atacando para as câmeras quando um empate contra a Itália servia, é difícil dizer. O fato é que, como num folhetim antigo, fomos derrotados pela soberba. E a mais brilhante geração de jogadores brasileiros depois dos anos 60 ficou sem sua apoteose merecida.

Hoje, claro, o carnaval publicitário feito em torno dos jogadores é muito maior do que há 16 anos. Com mais dinheiro envolvido e filmes promocionais mais espetaculares, o triunfalismo hoje parece maior. Mas depois de 82 as pessoas não se entregam a ele com a mesma facilidade. O ceticismo precavido com este time ainda é um reflexo do choque de 82.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal