Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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A Copa de 86 foi a primeira que não aconteceu no meu aparelho de televisão, que eu vi sem intermediários. Fui cubri-la para a Playboy. No México, as pessoas olhavam o crachá que me identificava como correspondente da Playboy e imediatamente olhavam para a minha cara, perplexas com meu óbvio pouco jeito para descobrir os aspectos mais lúbricos da competição. Eu me esforçava para fazer uma cara que não desmentisse o crachá, mas acho que convenci poucos.

Fomos para o México cautelosamente vacinados contra o triunfalismo precoce, e com uma seleção cercada de controvérsias. Telê ganhara outra chance, mas a sua lista final de convocados causava tanta discussão que ele estava mais defensivo e desconfiado do que de costume e o ambiente entre a seleção e a imprensa era cordial, mas tenso. O Brasil que ficava em casa ― uma minoria, a julgar pelo volume de brasileiros em Guadalajara ― era o Brasil do Sarney do cruzado, do Sarney herói, lembra? Enfim, de outro milagre. Mas a seleção, ao contrário da de 70, não era uma geração no seu ponto ideal de equilíbrio entre experiência e capacidade. Viu-se depois que já era uma geração em declínio, com mais experiência do que pernas. Nova derrota, nova frustração, e uma leve suspeita de que continuávamos sendo os melhores do mundo, mas que já era tempo de provarmos isso na prática, senão o pessoal ia começar a desconfiar.

Em 90, na Itália, cheguei a ouvir uma tese suicida: era melhor o Brasil perder do que consagrar o feio esquema do Lazaroni. O ideal seria o Brasil ganhar, mas ganhar mal, ali, o que nos daria a satisfação da vitória sem o efeito colateral da redenção do Lazaroni. Não prevaleceram nem as teses suicidas nem as moderadas. O Brasil não ganhou nem bem nem mal e perdeu sem ser humilhado. E o que prevaleceu foi a tese do Lazaroni, tanto que ganhou em 94, nos Estados Unidos, aplicada pelo Parreira.

Mas o maior consolo da eliminação do Brasil em 90 foi que podemos ficar na Itália vendo futebol em vez de torcendo por teses. Nada contra as teses. A tese é o futebol dos sem-pernas e sem-fôlego, como poderíamos continuar jogando sem ela? Mas o descompromisso com as teses nos torna livres e foi para desfrutar ao máximo essa liberdade que passei a torcer pela Argentina, que Deus me perdoe. Se ganhasse a Argentina, a copa das teses seria vencida por um time que não redime nenhuma.

Ninguém poderia dizer, de uma vitória da Argentina, que vencera um sistema. Na Argentina dá certo tudo que não é esquema: carisma, coração, picardia, até mau-caráter, todas essas coisas que vêm antes, depois ou em vez da teoria.

O melhor adversário da Argentina para uma final antítese teria sido a Inglaterra, com seu futebol simples e esforçado. Argentina e Inglaterra foram os times que começaram pior na Copa de 90, uma final entre os dois não representaria nada além da sua capacidade de auto-superação.

Não provaria nada, não estabeleceria nada, não teria nenhuma sobrevida teórica. Mas deu a Alemanha na final contra a Argentina. A Alemanha representa algumas idéias bem definidas sobre futebol, e eu sonhava com a simetria perversa de uma final sem nenhuma idéia. Depois de tanta discussão, por puro enfaro, eu estava torcendo pela insensatez. Mas ganhou a Alemanha.

As gerações do nosso futebol depois de 70 seguiram a seqüência que alguém já identificou como um ciclo reincidente na História: da idade dos deuses para a idade dos heróis para a idade do homem comum. A seleção de 70 não tinha só deuses, é verdade. Não vamos esquecer que fomos campeões no México com Félix no gol e Brito à sua frente. Mas com o tempo eles também se transformaram em titãs, junto com Tostão, Gérson, Jairzinho e o resto da corte de Pelé.

A seleção de 74 tinha alguns deuses caídos e não agüentou a comparação contra a de 70. A de 78 foi um esboço da de 82, esta sim uma geração que inaugurava a idade dos heróis. Os heróis, como se sabe, é o deus democrático eleito pelos seus semelhantes, ao contrário do deus clássico que já nasceu deus, mas será sempre um deus menor. Nunca houve nenhum dúvida de que Pelé desceu do céu dentro de uma bola iluminada e já saiu chutando enquanto Zico, por exemplo, teve que conquistar seus poderes.

Mas a geração de Zico ― ele, Sócrates, Júnior, Falcão, etc. ― foi uma geração de grandes jogadores que não chegaram a deuses porque nasceram na parte errada do ciclo. Uma geração sem apoteose. A Copa de 86 foi uma elegia para a de 82, a triste despedida de uma geração que teve tudo, menos o que mais queria. E veio a idade do homem comum.

Ela começou na Itália em 90. O que parecia ser um medíocre time de transição, uma depressão passageira antes da vinda de novos titãs, era uma geração a caminho da sua apoteose, quatro anos depois. Aaron Copland, um compositor americano, escreveu, há anos, uma Fanfarra para o Homem Comum. Ela devia ter acompanhado a subida de Dunga e seus companheiros para receber a taça em Pasadena, em 1994. Seria o tema apropriado para o fim de uma epopéia improvável.




Recomendações

Sempre foi mais difícil para as mulheres. Nenhum homem jamais ouviu da sua mãe a recomendação de forrar a tampa da privada ― ou, mais seguro ainda, pairar como um helicóptero sobre a tampa da privada, sem tocá-la, quanto mais alto melhor ― ao fazer xixi num banheiro público. Havia, claro, o risco, catastrófico, de você precisar fazer cocô num banheiro público. Nesse caso a recomendação valia para os dois gêneros: não encosta! Mas um filho ter que fazer cocô longe de casa era uma possibilidade que as mães preferiam nem contemplar. Cocô se fazia perto da mãe. Em alguns casos, para ela poder examinar, e comentar, o que tinha sido feito.

Muitas das recomendações eram iguais, para filha ou filho. Não passar a mão em corrimão de escada, onde tantos outros passavam a mão. Lavar imediatamente a mão ― e em hipótese alguma botar a mão na boca ou nos olhos ― depois de mexer em dinheiro, que tinha passado por tantas outras mãos. O maior pavor de mãe era a mão dos outros.

Além de mãos com micróbios, os outros tinham más intenções, muitas vezes dissimuladas. Principalmente os outros na sua forma mais perigosa, que eram os Estranhos. Não se devia conversar com Estranhos. Não se devia aceitar nada de Estranhos, nem balas, ou acima de tudo balas. Nunca ficou claro qual seria a conseqüência de aceitar a bala de um Estranho, mas estava subentendido que seria terrível, que você poderia acabar num bando de crianças escravas em Macao ou em algum outro lugar igualmente longe da mãe, que a bala era uma isca da perdição. O melhor, já que o mundo estava cheio de Estranhos, era evitá-los de uma maneira geral. Havia Estranhos bem-intencionados, mas era difícil distingui-los.

Na puberdade as conversas com filha e filho ficavam diferentes. Mãe e filha desenvolviam um código só delas, sobre temas esotéricos: menstruação, primeiros soutiens ― nada que um irmão entenderia. O filho era mais ou menos liberado para encontrar seu caminho no mundo dos Estranhos e das suas artimanhas, só mantendo o cuidado com micróbios e outras formas de contágio.

Qualquer dúvida, ou comichão, pergunte ao seu pai. Já a filha continuava submetida aos terrores de antes. Só que agora as mãos dos outros e as balas dos Estranhos representavam outro perigo e tinham outra intenção. Agora até as tampas de privadas podiam engravidá-la, se ela não se cuidasse. Sempre foi mais difícil para as mulheres.

Mas as proibições e as recomendações foram mudando através dos anos.

De "Sair sozinha com o namorado, não senhora" a "Não esquece o diafragma".

De "Quero você de volta em casa às dez" a "Ele pode dormir aqui com você desde que não fique na cama até o meio-dia como aquele outro".

De "Minha filha, você dormiram juntos antes de casar?!" a "Minha filha, vocês já estão dormindo juntos, pra que casar?".

Antes:

― Minha filha, acho que já podemos ter esta conversa. Você, claro, sabe o que é sexo.



― Sexo, mamãe?

― É. O que um homem e uma mulher fazem na cama.

― Acho que não...

― Ora, minha filha. Você já viu os cachorros fazendo.

― Na cama?

― Não! Olha, acho que ainda é cedo para esta conversa. Esquece.

Hoje:

― Minha filha, você já ouviu falar num vibrador sonoro japonês que diz bandalheira em sete línguas?



― Eu tenho um, mamãe.

― Me empresta?

Antes:

― Podem fazer a festinha aqui, mas quero a luz acesa o tempo todo e nada de agarramento.



Hoje:

― Se precisarem de mais cabides podem pegar no meu quarto.

Enfim, mudaram os tempos e os costumes e as pessoas ficaram menos reprimidas e menos hipócritas. Mas algumas coisas continuaram as mesmas.

― Não aceitem balas de Extasy de Estranhos porque ouvi dizer que são frias!


Resistência


Já prevejo que seremos uma minoria, e que não adiantará tentar resistir. Nossas vozes serão abafadas e nossos protestos se perderão na gritaria. Pediremos ponderação e racionalidade e seremos vaiados. Se insistirmos, tentarão nos calar a força, e nem o balde de gelo sobre a cabeça está fora de cogitação. É possível que formemos uma seita de insubmissos e organizemos um ano-novo em separado, o réveillon dos dissidentes, e partamos para as montanhas. Prevejo cenas pungentes.

― Meu papai, logo a festa do fim do século, do fim do milênio, você passará longe de nós?!

― Desculpe, minha filha, mas é uma questão de princípios.

― É a passagem do século, papai. Do milênio!

― Aí é que está. Não é a passagem nem do século nem do milênio. O século 20 e o segundo milênio terminam no dia 31 de dezembro de 2000, não de 1999.

― Quem é que disse?

― Quem é que disse? Os calendários, os números, a lógica!

― Ora, papai, a lógica. O importante é a festa.

― A festa na hora certa.

― Mas todo mundo vai fazer a festa agora. O que custa você relaxar, aceitar e festejar como todo mundo?

― Minha filha, imagine se outros tivessem abandonado suas convicções com tanta facilidade, onde estaríamos hoje. Desculpe, não posso transigir. Somos poucos, mas somos decididos, e não nos entregaremos. A História nos fará justiça. Agora, tenho que ir.

― Oh, papai!

― Onde estivermos, na noite de ano bom, quando soar a meia-noite e abrirmos nossas modestas, mas corretas champanhas de campanha, pensaremos em vocês, aqui, prisioneiros de um festão equivocado, e nossa resolução será redobrada. Afinal, será por vocês que estaremos resistindo. Por um futuro em que a cronologia real significará alguma coisa, em que datas importantes não serão mais manipuladas irresponsavelmente por uma minoria precipitada, mal orientada por uma mídia desinformada, ou ruim em matemática, ou a serviço de interesses escusos. Hoje adiantam o final de um século, amanhã do que não serão capaz? Nenhuma efeméride merecerá mais confiança. Nenhuma data significará mais nada, das celebrações da pátria à validade do iogurte. Preciso ir. Me alcance a mochila.

― Papai, até o New York Times vai considerar o ano 2000 como começo do século 21.

― O quê?!

― Li em algum lugar. Eles declararam que vão começar a contar o próximo milênio de 1º de janeiro de 2000.

― Meu Deus! Isso significa que as forças do equívoco já cooptaram alguns pilares da sensatez ocidental. É mais grave do que eu pensava. Só não levo vocês junto para as montanhas porque precisamos manter o grupo ágil e móvel.

― Vocês pretendem fazer algum tipo de guerrilha?

― Não posso revelar nossos planos. Por enquanto; nosso objetivo principal é estabelecer um foco de resistência, onde prepararemos um ano-novo moderado, como qualquer outro, e repeliremos qualquer tentativa de invasão da euforia intempestiva dominante. Só usaremos a força se for preciso. Mas estamos dispostos a ir ao supremo sacrifício pela nossa convicção de que o fim do século não é agora, é no ano que vem.

― Oh, papai!

― Pense em mim como um mártir da conta certa, minha filha.

Rocambole


Ele ficou de pé na cama, nu, fez uma pose de espadachim e declarou:

― Je suis Rocambole!

Quando ela parou de rir, também ficou de pé na cama e preparou-se para enfrentá-lo num duelo de espadas imaginárias. Gritou:

― E je suis Marta Rochá!

Ele não entendeu.

― Por que Marta Rochá?

― Por que Rocambole?

― Rocambole. Personagem de romance de capa e espada francês. De onde vem "rocambolesco".

Ela desabou na cama e escondeu a cara no travesseiro.

― Que vergonha!

Ele deu uma risada e deitou-se ao lado dela. Estavam em lua-de― mel.

― Marta Rocha! Você pensou que fosse o doce!

Só então ele viu que ela estava chorando.

― O que é isso? Sua boba!

― Que vergonha!

Ele tentou fazê-la se virar, mas ela continuou com a cara enterrada no travesseiro.

― Vire para cá. Mas que bobagem!

― Eum suamuam cuam aumom llembm.

― Não entendi nada que você disse.

Ela livrou a boca só o suficiente para repetir.

― Eu sabia que não ia dar certo.

― O que não ia dar certo?

― Este casamento.

― Mas o que é isso?! Por quê?

― Eu sou uma burra e você sabe tudo.

― Burra, só porque não sabe quem foi o Rocambole? Ninguém sabe! Olha, se a gente sair batendo em cada porta deste hotel, aposto que ninguém vai saber quem era o Rocambole. Ou o que é "rocambolesco".

― Mas você sabe.

― E isso é razão para o nosso casamento não dar certo?

Ela pensou. Fungou.

― É.


Ele pôs-se de pé num salto e retornou à pose de espadachim.

― Olhe. Je suis Le Mousse au Chocolat! Para servi-la, mileidi.

Ela não olhou. Ele insistiu.

― Pavê. Jean-Luc Pavê, mosqueteiro do rei!

Ela continuava com a cara no travesseiro.

― Flan, o favorito da rainha.

Nada.

― Monsieur Le Crepe Suzette, aventureiro e filósofo.



Nada.

― Tarte Tatin, garoto prodígio.

Nenhuma reação.

― Creme Brulê, arqueólogo, violinista e espião internacional.

― Profiterole, a identidade secreta do rei Alberto.

― Cerises Flambê, líder revolucionário de Guadalupe.

― Fromage Blanc, o libertino libertário.

Ela nada.

― Baba au Rhum, o ladrão galante de Istambul.

Nada. Uma última tentativa:

― Apffelstrudel, o vingador da Baviera!

E, como ela continuasse com o rosto escondido no travesseiro, ele a cutucou com a ponta do pé e carregou no acento francês.

― Alors, Martá Rochá...

Aí ela virou-se e mordeu o dedão do pé dele. Ele gritou e pulou da cama. Ela correu para o banheiro. Quando saiu, ele estava sentado na beira da cama, vestido, olhando para a parede. Ela fez a sua mala, em silêncio. Quando terminou, disse:

― O quarto está alugado até o fim da semana...

Ele disse:

― Eu sei.

Ela:


― Se você quiser ficar...

― Fazendo o quê?

― Não, eu só pensei. Para não perder.

― Tudo bem.

― Você quer que eu faça a sua mala também?

― Não precisa.

― Então... desculpe.

― Tudo bem.

― Não ia dar certo.

― Tudo bem.

― Será que na portaria eles trocam as passagens?

― Acho que sim.

― Então... Tchau.

― Tchau.

Sangue espanhol

"É o meu sangue espanhol", dizia a Mercedes, depois de cada explosão. Mas assim como explodia, voltava à calma. E a Mercedes calma era um doce, era uma flor, era um encanto, era tudo que o Heitor queria numa mulher. Heitor, um homem de paz, que conhecera a Mercedes num dos seus remansos. Que só soubera do sangue espanhol da Mercedes na noite de núpcias, quando ela demolira o toucador do quarto do hotel com um pontapé.

― O que é isso? ― gritara Heitor, da cama, apavorado.

E Mercedes explicara que esbarrara no toucador, que perdera a paciência com o toucador, que não sabia por que tinham posto o toucador logo ali, no seu caminho do banheiro para a cama, onde o seu marido a esperava, nu, pronto para o amor, e agora de olhos arregalados. E acrescentara:

― É o meu sangue espanhol.

A noite de núpcias foi adiada porque Mercedes teve que ir para um hospital enfaixar o pé. Mas nas noites de lua e de mel que se seguiram Heitor pode provar como a Mercedes era um doce, era uma flor, era um encanto, era tudo que ela esperava, descontada a vez em que ela saíra correndo atrás da camareira, mesmo com o pé enfaixado, para cortá-la com uma tesourinha de unhas. Até se instalarem no seu apartamento de recém-casados e Mercedes tentar fazer seu primeiro jantar para o marido, que acabara com a cozinha parcialmente destruída e os dois no hospital, Mercedes com luxação no outro pé e Heitor com um ferimento na cabeça, onde recebera a fôrma com o assado queimado que Mercedes jogara longe.

Depois desta houve várias outras manifestações do sangue espanhol da Mercedes, mas mesmo assim o casamento durou dez anoss e só terminou depois da cena no restaurante, quando tiveram que chamar os bombeiros para tirar gente de baixo de escombros, tal a confusão criada por Mercedes porque não conseguiram corrigir o desnível de uma mesa. Heitor, um homem de paz, resolveu que não agüentava mais. Divorciaram-se. O divórcio foi amigável. Durante uma das reuniões par tratar da repartição dos bens a Mercedes jogou seu próprio advogado pela janela, mas estavam num segundo andar, não houve maiores conseqüências e chegaram a um acordo.

A Mercedes casou de novo. Com um baixinho que no outro dia apareceu puxando uma perna. Não se sabe o que a Mercedes faz com o baixinho. Já o Heitor tem tido várias namoradas, mas ainda não se decidiu a casar. Dizem que, sempre que o namoro fica sério, ele se lança numa investigação do passado da moça e faz pesquisas genealógicas tão minuciosas e demoradas que a moça perde o interesse, ou então se sente ofendida. Afinal, o que o Heitor quer saber a seu respeito? Que obsessão é essa com seus ascendentes e suas origens? Onde o Heitor quer chegar? E o Heitor só lamenta que um simples exame de sangue não dê a resposta que ele procura. Que o sangue não borbulhe, ameaçadoramente, na lâmina. Que não se ouçam castanholas, como um alarme.


Santa ignorância


Uma das causas da Reforma foi a prática desenvolvida pela Igreja de Roma de vender espaço no céu. Foi um comércio que prosperou durante anos baseado numa lógica inatacável: se os senhores da Igreja eram os únicos ― segundo sua própria propaganda ― representantes legítimos do céu na Terra, era a eles que as pessoas deveriam recorrer para assegurar um lugar na eternidade, um pouco como hoje as pessoas procuram agências de viagens pelos seus contatos com hotéis e transportadoras. Os padres e bispos, como os agentes de viagem, eram do ramo e sabiam os códigos.

Imagina-se que lugares no céu eram vendidos como, mais tarde, se alugariam quartos em hotéis de Veneza, por exemplo, com a proximidade de Deus e da Sua corte equivalendo a um quarto com vista para a grande lagoa e os outros espaços obedecendo a uma classificação decrescente: vista para um canal lateral, vista para um beco, para um pátio interno, para uma parede, para coisa nenhuma. Pobres preocupados em reservar um lugar para sua alma barganhariam pelo que pudessem conseguir e morreriam resignados a instalações modestas, como nichos sob a linha d'água ― mas no Paraíso, e para sempre.

Foi, aliás, um veneziano, chamado Brado Retumbantti ― não pobre mas rico, riquíssimo ― que um dia se dirigiu a Roma para providenciar um lugar para sua alma na vida eterna. Como era rico, riquíssimo, foi direto ao papa, que era inclusive meio primo da sua mulher. Por que perder tempo com agentes, quando o papa podia pedir uma reserva diretamente a Deus e talvez ainda lhe dar um desconto de parente?

― Giácomo! ― gritou Brado Retumbantti ao entrar no salão papal, abrindo os braços para abraçar o papa. Que apenas estendeu sua mão com o anel para ser beijado, mal escondendo sua irritação com a irreverência do outro. Brado beijou o anel do papa várias vezes e babou na sua mão.

― O que você quer? ― perguntou o papa, limpando a mão disfarçadamente nas suas vestes e sorrindo com dificuldade.

― Um lugar no céu ― disse Brado.

― Seja um bom cristão. Continue dando dinheiro para os pobres. Reze. Reze muito. E...

― Não, não. Giácomo ― interrompeu Brado. ― Quero ter certeza de um lugar no céu.

― Non capisco ― disse o papa, esforçando-se para manter o sorriso.

― Vim comprar um lugar no céu. Uma permanente, por assim dizer. O sorriso do papa desapareceu.

― Comprar?

― Não para mim ― explicou Brado. ― Não quero nada para mim. Para a minha alma. Poverina.

― Meu filho ― começou o papa, num tom pouco paternal. ― Você tem consciência do que está dizendo? E para quem está dizendo?

― Ora, Giácomo, todo o mundo sabe que...

― Que o quê?

― Que a Igreja vende lugares no céu.

― Todo o mundo menos eu.

Brado Retumbantti hesitou. O papa estaria falando sério? Ele realmente não sabia do que se passava à sua volta? Talvez não soubesse. Era preciso ter cautela.

― Desculpe, Giácomo. É que meu amigo Trabucco... Você conhece o Trabucco.

Ele é até meio seu parente. Rico. Riquíssimo.

― Sei, sei.

― O Trabucco me disse que tinha reservado um lugar para a alma dele no céu.

Disse que pagou caro, mas conseguiu um bom lugar. Com vista para...

― Pagou a quem? A mim?

― Bom. Não. A você não. A um certo cardeal.

― E um certo cardeal é a Igreja, Brado?

― Não, mas...

― Um cardeal, 100 cardeais, 2 arcebispos, 200 arcebispos, 4 bispos, 400 bispos, 8 padres, 800 padres...

Todos vendendo lugares no céu. Isto é a Igreja, Brado?

Brado não sabia o que responder. Perguntou:

― É?

― Não, Brado. Não é. A Igreja sou eu. E eu não vendo lugares no céu.



― Mas você tem de saber que...

― Não, Brado. Eu tenho de não saber. No dia em que eu souber, a Igreja acaba. A Igreja vira pó. Somos nós que mantemos a Igreja de pé, Brado. Eu e a minha ignorância. Santo homem, santa ignorância.

― Sei de muita gente que comprou lu...

― Não me conte, Brado. Eu não posso saber. Eu não quero saber.

Você não pode querer que eu saiba. A sua fé, a sua paz de espírito, até a sua sanidade mental, dependem de eu não saber o que se passa à minha volta.

No dia em que eu souber, você acaba, Brado. Acabam você, a Igreja e provavelmente o mundo.

― E a minha alma? --gritou Brado, quase aos prantos. ― Para onde irá minha alma, poverina?

O papa voltou a sorrir, desta vez com sinceridade.

― Não se desespere, Brado. Reserve um lugar para ela no céu.

― Mas... Como?

― Fale com um certo cardeal.

― Qual?


― Não sei. Qualquer um. Pergunte ao Trabucco. Qualquer um lhe dará os preços e as condições para alojar sua alma perto do Senhor. Seu erro foi vir direto a mim, pensando que eu era como qualquer um dos meus cardeais. Mas eu não sei de nada. Minha parte no esquema é não saber de nada. É ficar acima de tudo, longe de tudo, cada vez mais ignorante e mais santo. Entendeu?

Enquanto eu não souber de nada, a Igreja estará salva, todos estaremos salvos. E inocentes.

― Certo. Então vou procurar o...

― Ssssh. Não me conte.


O Sarrabulho


Os filhos tinham sido criados ouvindo que ninguém fazia um sarrabulho como a dona Lazinha. Todos os anos, a mãe comprava o peru, preparava-o para a ceia de Natal e, quando ele estava pronto para entrar no forno, saía e voltava com o sarrabulho da dona Lazinha numa travessa coberta com uma toalha molhada. E o sarrabulho era mesmo uma delícia. Quando alguém elogiava o recheio do peru de Natal, sempre havia alguém da família para dizer:

― É da dona Lazinha.

E era o mesmo que dizer que, sendo da dona Lazinha, não se podia esperar outra coisa.

Aquele era um dos estribilhos da casa, repetido com certeza dogmática, desde os primeiros Natais das crianças. Ninguém fazia um sarrabulho como a dona Lazinha.


* * *
Neste Natal a família se reuniu, como sempre, para comer o peru. O filho mais velho veio do Norte com sua família e o filho do meio trouxe a noiva. A filha mais moça era a única que continuava em casa. E foi ela que anunciou para a noiva do irmão, quando o peru chegou na mesa:

― Você vai conhecer o famoso sarrabulho da dona Lazinha.

― Não é da dona Lazinha ― disse a mãe.

Fez-se um silêncio de incompreensão, seguido de revolta generalizada, na mesa. Como, não era da dona Lazinha? Onde já se vira, um peru de Natal sem o recheio da dona Lazinha?

― A dona Lazinha morreu ― disse a mãe.
* * *
O filho mais velho chegou a comparar a morte da dona Lazinha à morte do John Lennon. O choque, o sentimento de perda e desorientação eram os mesmos. Para ele, aquilo significava o fim de uma era. Subitamente, todas as suas referências afetivas tinham desmoronado. Nem quis comer o peru, em sinal de protesto, e concentrou-se nas saladas. Todos ficaram abalados, e o sarrabulho da dona Lazinha dominou a conversa na mesa. Ninguém se lembrava de um Natal sem o sarrabulho da dona Lazinha recheando o peru. Até que o filho do meio resolveu perguntar:

― Quem era a dona Lazinha, afinal?

Durante todos aqueles anos, a dona Lazinha fora uma parte importante das suas vidas, e eles nunca a tinham visto. Não sabiam nada da dona Lazinha. Só o que conheciam da dona Lazinha era o sarrabulho.

― Era uma grande amiga minha ― disse a mãe.

― E por que ela nunca veio aqui em casa?

O pai e a mãe trocaram um rápido olhar.

― Vamos mudar de assunto? ― disse o pai.
* * *
Mas estava todo mundo curiosíssimo. O que significara aquele olhar entre o casal? Que mistério envolvia o nome da dona Lazinha? Nunca tinham se dado conta que por trás do sarrabulho havia um ser humano, uma história, talvez um drama... A mãe parecia prestes a chorar.

― Vamos mudar de assunto, gente ― insistiu o pai. ― É Natal!

A noiva do filho do meio decidiu se manifestar. Para evitar que o jantar desandasse numa tragédia.

― Eu achei este sarrabulho uma delícia. Foi a senhora mesmo que fez?

― Não ― disse a mãe, levantando-se da cadeira. ― Comprei pronto, no supermercado.

E saiu da mesa às pressas, chorando convulsivamente, depois de atirar o guardanapo contra o peito do marido.


* * *
Os filhos ficaram atônitos. Todos aqueles anos de segura domesticidade, de continuidade e valores estáveis simbolizados pelo sarrabulho da dona Lazinha, e agora descobriam que o sarrabulho da dona Lazinha significava outra coisa. Mas o quê? Fosse o que fosse, era algo de que nunca tinham desconfiado. E jamais saberiam. O pai se recusou a fazer qualquer comentário ou dar qualquer explicação, sobre a dona Lazinha ou sobre o comportamento da mulher. Disse apenas:

― Passa a rabanada.




Se vovó fosse uma fortaleza

Dona Inácia tinha uma enorme paciência com os netos. Não havia nada que gostasse mais do que ficar fazendo tricô ou croché na sua cadeira de balanço, com seu saco de lãs, linhas e agulhas no colo, e com as crianças brincando à sua volta. "Dá duro neles, mamãe", dizia sua filha Cláudia, mãe dos dois netos menores. Ora, dona Inácia dar duro nos netos... Não só não dava duro como fazia tudo que eles queriam. Dava balas, isso sim. Sempre tinha balas num bolso para as crianças. As balas eram um segredo, dela e dos netos. As mães não podiam saber. As mães brigariam se soubessem. "Você é muito mole com eles, mamãe." Dona Inácia adorava ser mole com os netos.

O melhor era quando se reuniam os cinco. Não havia nada que dona Inácia gostasse mais do que ficar fazendo seu tricô ou seu croché na cadeira de balanço com os cinco netos, o time completo, em volta. Às vezes ria sozinha com o que ouvia, com as conversas dos cinco. O mais velho, então, o Marco Antônio, o único do Alceu, filho da dona Inácia, dizia coisas surpreendentes. Era o líder do grupo e ídolo dos primos não apenas porque era o mais velho mas porque inventava os jogos e as brincadeiras e sabia tudo. Ou pelo menos tinha teorias sobre tudo. Foi o Marco Antônio que, em meio a um brinquedo de guerra, depois de planejar e liderar um bem-sucedido assalto ao sofá, teve a seguinte idéia:

― E se a vovó fosse uma fortaleza?

A idéia foi recebida com entusiasmo por todos e os dois menores já corriam para escalar a dona Inácia quando foram detidos pelo grito do estrategista:

― Epa! Epa! Epa! Não pode ser assim. Temos que planejar primeiro.

Conferência!

Fizeram a rodinha. Dona Inácia fingindo que não era com ela mas se esforçando para ouvir o que Marco Antônio dizia. A teoria do Marco Antônio era que a vovó não era um objetivo tão fácil quanto parecia. Só porque era a avó deles não queria dizer que não encontrariam resistência. Para começar, ela estava armada. Com o arsenal que tinha no seu saco de costura, entre agulhas de tricô e de croché, tesourinha e tesourona, ela poderia repelir sucessivos ataques. E não podiam esquecer o seu prendedor de cabelo, de metal, que também serviria como arma, além de dificultar o acesso de quem a escalasse por trás. E outra coisa: eles não sabiam o que, exatamente, a vovó tinha dentro daquele saco. Conheciam as agulhas de diferentes tamanhos, para serem usadas como lanças ou para o combate mano a mano, e a tesoura e a tesourinha, mas quem garantia que ela não escondia outras armas? Uma pistola, talvez um lançador de mísseis...

Gugu, o menor, foi escolhido para uma missão de espionagem. Deveria pedir colo à vovó, disfarçado de neto, e, uma vez dentro do seu perímetro de defesa aproveitar a primeira oportunidade para dar uma rápida busca no saco de costura. E fugir. Em hipótese alguma Gugu deveria aceitar uma bala da vovó, não só porque estaria confraternizando com o inimigo como poderia ser um truque: a vovó recorrendo à guerra bacteriológica e usando-o como portador de germes mortais que dizimariam as suas hostes antes mesmo do primeiro ataque.

Gugu saiu-se bem da missão e voltou com um relatório sucinto:

"Nada." Nenhuma arma de fogo ou lança-chamas, nada além de armas brancas no saco de costura da vovó. "Muito bem", disse Marco Antônio. E passou a esquematizar o ataque. Começaria com uma manobra diversionista, dois dos primos simulando uma briga para atrair a atenção da vovó enquanto um destacamento avançaria por trás e escalaria a face sul, depois que um comando suicida desativasse o prendedor de cabelo. Contariam com o fator surpresa. Em pouco tempo a vovó estaria dominada, a fortaleza seria deles.

Combinado? Combinado.

― Vamos lá!

Quando os pais correram para ver que gritaria era aquela na outra sala encontraram a dona Inácia caída de costas no chão, sob a cadeira de balanço emborcada, e netos espalhados para todos os lados. A princípio pensaram que dona Inácia estivesse tendo um troço mas depois descobriram que era riso.

Ela não conseguia parar de rir. Marco Antônio estava inconsolável. Não tinha pensado na cadeira de balanço. Claro que ela emborcaria com o ataque dos netos. Era o que dava, atacar sem reconhecimento prévio da estabilidade do terreno.

Mais tarde, os cinco, de castigo, no sofá, olhando para a vovó de novo sobre sua cadeira de balanço, Marco Antônio disse:

― E se a vovó fosse uma ilha deserta?

Eles sobreviveriam na vovó, se fossem náufragos. Para começar, não teriam problemas de comida. Sabiam em que caverna estavam as balas. E se faltassem balas, sempre haveriam os braços da vovó.

Os gordos e roliços braços da vovó os manteriam vivos e bem alimentados até chegar o socorro.

― Por que vocês estão me olhando desse jeito? ― quis saber a dona Inácia.


Ser ou não ser


Hamlet já foi feito de todos os jeitos, até com a Cláudia Abreu no papel principal (e muito bem). Mel Brooks, declamando o solilóquio mais famoso de Shakespeare num filme, fazia uma pausa dramática depois do "To be...", o ponto assoprava "... or not to be" e ele pisava na mão do ponto.

É comum ver-se o "serounãoser" representado com Hamlet segurando um crânio descarnado. Nada a ver, a cena com a caveira do pobre Yorick é outra, mas o equívoco se institucionalizou. Hamlet não está filosofando sobre a curta existência humana, está decidindo se vale a pena se matar ou não. Se é melhor ser ou não ser. Woody Allen disse que ser é melhor, embora, do ponto de vista fiscal, não ser tenha suas vantagens.

Hamlet já foi feito sem Hamlet. Na peça e no filme de Tom Stoppard Rosenkrantz e Guildenstern Estão Mortos, os dois do título, figurantes menores na trama original, são os personagens principais. A ação se passa nas bordas da peça de Shakespeare, da qual só se tem vislumbres, e o príncipe raramente aparece. John Updike escreveu um romance chamado Gertrude e Claudius cuja história termina quando a peça começa. Gertrude é a mãe de Hamlet, viúva do seu pai, casada com Claudius, irmão ― e assassino ― deste.

O casamento vai bem. Hamlet é apenas um adolescente problemático que ainda não começou a investigar a morte do pai, instigado pelo seu fantasma. Ele não aparece no livro, o casal só comenta o seu comportamento fora de cena.

Mas Claudius prevê que seu próprio reinado será longo e feliz, e que seu sobrinho e enteado Hamlet se casará com a doce Ofélia e eles terão muitos filhos que lhes darão muita alegria. Ou seja, que a deles será a história banal de apenas mais um rei da Dinamarca...

Pode-se tomar liberdades com as histórias de Shakespeare porque ele tomou liberdades com as histórias dos outros. A de Hamlet é baseada numa narrativa de François de Belleforest, que por sua vez se baseou num texto ― escrito em latim, no século 12 ― do dinamarquês Saxo Grammaticus, que por sua vez se baseou numa lenda do folclore escandinavo. Shakespeare só acrescentou alguns personagens e algumas reviravoltas do trama. E, claro, toda a poesia.

No fim o personagem mais trágico de todos, em Hamlet, é Laerte, irmão de Ofélia. Ele se libertou do ambiente decididamente pesado no castelo de Elsinore e está na França cuidando da sua vida, que seria certamente moderna e produtiva e o exato oposto da vida do seu amigo de infância, o assombrado Hamlet, mas é tragado de volta pelo drama familiar. Volta para vingar a morte do pai, Polonius, descobre que a irmã também está morta e acaba como uma das vítimas no banho de sangue final. Laerte é o protótipo de todos os que saem de casa e vão para a metrópole pensando que se livraram do passado e das suas danações domésticas, mas a província vai buscar. Você pode se livrar do passado e da casa, mas não escapa do sangue.

Eu também imaginei um Hamlet apócrifo, a história não de um príncipe melancólico, indeciso e incestuoso que vinga a morte do pai, mas de um golpe de Estado. Toda a trama, a partir do aparecimento do "fantasma" que pede para o filho vingá-lo ― um truque feito com espelhos ― e acaba com o rei usurpador, a rainha e o herdeiro do trono da Dinamarca mortos e o reinado em polvorosa, é montada por Fortinbras, príncipe da Noruega, que chega no fim para assumir o trono. Era tudo mentira, inclusive o assassinato do pai de Hamlet pelo seu irmão Claudius, e quando pensava que estava desafiando o seu trágico destino pessoal Hamlet estava servindo a um ardil político, como acontece muito. No fim, todas as grandes histórias podem ser contadas no mínimo de duas maneiras, como um drama pessoal ou um drama comunal, como uma nova história de paixão e remissão individuais ou como a mesma velha história da sucessão de gerações e de transmissão de poder ― a história de um herói ou a história da horda, a doença de um homem ou a doença do Estado.

E ninguém, que eu saiba, ainda teve a idéia de escrever uma peça chamada A Ratoeira, ou a Morte de Gonzago, que é a peça que trupe teatral encena em Elsinore, a pedido de Hamlet, e na qual se reproduz a cena do assassinato de Hamlet pai pelo traiçoeiro irmão, com veneno derramado no ouvido. Na peça apareceria uma trupe teatral que encenaria, claro, Hamlet, inclusive com a cena em que Hamlet pede para encenarem A Ratoeira, em que apareceria a trupe que encenaria Hamlet, em que Hamlet pede para encenarem A Ratoeira, e assim por diante até o infinito. Ou um fim apropriadamente borgiano.

Hamlet é o primeiro herói moderno porque é o primeiro a observar, com ironia e horror, sua própria obsessão, o primeiro a se envolver até a morte num ritual de expiação, pessoal ou comunal, e manter sua distância. O crítico Francis Fergusson escreveu que Hamlet repete Oedipus Rex, só que Hamlet encerra o que começou com os gregos, o teatro como ritual catártico. A partir de Hamlet, metade da tragédia do herói é ser, além de trágico, autoconsciente.


Síbaris
Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira) Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal ― uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida, mas pelo prazer de apalpar ― faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes da indústria e do comércio.

Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem tentasse subornar os Guardiões entrava por aclamação.

A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e eram conscienciosos e corretos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins de semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

Cada sibarita podia ter sete concubinas e sua mulher um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres, sinal de que já não enxergavam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. No caso de o infrator ser sadomasoquista, sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo grupal era qualquer ato envolvendo mais de 50 pessoas. A justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo exceções como o sexo com abelhas.

Era rei de Síbaris Flanfo, chamado o Sete Queixos, que vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, Flanfo recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. Flanfo, chamado o Sete Queixos, mastigando um pardal caramelado, perguntou que vantagens teria Síbaris juntando-se a Crotona.

― Traremos o nosso dinheiro ― disse o emissário.

― Nós já temos o vosso dinheiro ― disse Flanfo.

― Traremos a indústria, a ciência, a contabilidade e as armas.

E então Flanfo, porque estava na hora da sesta que tirava de meia em meia hora, fez um gesto desrespeitoso que o emissário tomou como uma negativa, e um insulto. E só depois de acordar da sesta, inalando o seu pó de papoulas, Flanfo foi informado que Crotona declarara guerra a Síbaris. Pensou durante dois dias e decidiu mandar chamar o seu primeiro-ministro, Badan, para saber o que fazer.

Badan foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito e convocado ao palácio, onde informou ao rei que Síbaris precisava se preparar para a guerra. Os homens deveriam se armar e erguer barricadas. As mulheres deveriam desfiar suas sedas caras e fazer ataduras. E o rei Flanfo deveria sair de sua banheira e fazer um pronunciamento ao povo, mobilizando-o para a defesa.

Com grande dificuldade, Flanfo foi até a ágora para conclamar o povo à guerra. Mas não havia ninguém na ágora. Estavam todos na praia. Quando parou de falar, o rei Flanfo só ouviu o silêncio, o borbulhar das fontes e os cachorros. Voltou para o palácio, porque estava na hora da sua sesta.

Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a.C. Não sobrou nenhum vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

Mas até hoje ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.




Sinais e ruídos

Confesso que tenho uma certa implicância com as pessoas que fazem aspas com os dedos. Você as conhece: quando querem mostrar que uma palavra da frase que estão dizendo deve ser entendida como sendo entre aspas, levantam as mãos e imitam o sinal gráfico com dois dedos de cada mão, um par de aspas gestuais em cada ponta da palavra dita, que paira, invisivelmente, à sua frente. Muitas vezes sacodem os dedos para enfatizar as aspas. As que sacodem os dedos são as piores. Mas já me disseram que o hábito é uma apropriação de sinais escritos pela fala que pode ser a precursora de outras formas de integração das duas linguagens. Por exemplo: três estocadas do dedo indicador no ar no fim de uma frase, significando reticências, ou uma rápida meia-lua com o dedo, talvez acompanhada de um ruído qualquer, como "suish", para mostrar onde entrou uma vírgula. Estocada e "suish", ponto e vírgula. Um golpe horizontal com a mão espalmada significaria travessão, o mesmo golpe mais curto significaria hífen e um decidido golpe de cima para baixo, na diagonal, acabaria com qualquer dúvida sobre se aquele "a" falado é com crase ou não. Além de gestos, as pessoas podem usar o tom de voz ou a postura do corpo para transmitir como seria a palavra se, em vez de dita, ela fosse escrita: um tom soturno denotaria uma palavra em negrito, uma inclinação do corpo indicaria que a palavra é em grifo, ou itálico.

Etcetera, etcetera.

Dizem que o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se vêem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa. O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem ― ou, mais provavelmente, a mulher ― sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala? Sabe-se que a vida surgiu na Terra porque a combinação de condições ― a nossa distância do Sol e a relação dos elementos na nossa sopa primeva ― eram as ideais para haver vida. Isto foi um acaso que só aconteceu aqui e todo o resto do Universo é apenas um bonito cenário de fundo para a nossa excepcionalidade, ou o acaso se repetiu em várias galáxias? O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos. O que, de certa maneira, redime as aspas com os dedos, pois as aspas seriam anteriores à fala e não uma irritante novidade. A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite! Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltavam. No século 17 um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Eden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês. Sempre a má vontade com os franceses. Na sua infância ― a palavra "infância", por sinal, vem do latim "incapacidade de falar" ― a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum. Foi chamada de "teoria bow wow", e o nome já a desmentia, pois "bow wow" é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem "au-au" e os japoneses, segundo os japoneses, "bau-bau".

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo e o mundo, ou pelo menos a diplomacia, estaria em melhor estado se tivéssemos desenvolvido a capacidade de nos expressar com eles. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão. Reuniões internacionais em que a comunicação se desse por meio dos nossos ruídos elementares certamente acabariam em entendimento e paz. E sem a necessidade de intérpretes.

Porque a verdade é que quando hoje se fala na linguagem humana como o que nos fez superiores aos animais e nos trouxe a civilização, esse "superior" e essa "civilização" são entre aspas.

Sketchs (2)


Mulher de banhista chega em casa e encontra o marido beijando outra mulher no sofá da sala.

― O que é isso?! ― pergunta.

― Respiração boca a boca, meu bem ― responde o marido.

― Quantas vezes eu já não lhe pedi pra não trazer trabalho pra casa?


* * *
Outro banhista salvou uma moça que estava se afogando e a reanimou com respiração boca a boca. A moça levou o banhista para casa, onde ele está até hoje, e explicou para a família que precisa tê-lo a seu lado por precaução:

― Eu posso ter uma recaída.

Sala de espera de médico. Duas pessoas sentadas, lendo revistas. Chega uma terceira, senta, e pede:

― Podia me passar uma revista, por favor?

― Qual a que você quer?

― O que é que tem?

― Deixa ver... Tem uma Cruzeiro de 1951... Uma Cigarra de 1949... Metade de uma Revista da Semana de 1948...

― Que mais?

― Uma National Geographic de 1940... Revista Fon Fon...

― Que ano?

― 1938. Uma Eu Sei Tudo de 37... Seleções de 33... Esta aqui eu não sei em que língua é...

― Deixa ver. Parece aramaico... O pergaminho está se esfarelando. Não será etrusco?

― Não, não. Acho que os etruscos não usavam pergaminho.

― Não tem nada mais velho?

― Bom, tem esta pedra com hieroglifos, mas eu não sei de que ano é.

― Vai essa mesmo.


* * *
Velório. Homem puxa a manga da mulher do morto.

― Titia...

― O quê?

― Ele está vivo.

― Quem?

― O tio.


― Que tio? Você quer dizer o...

― É.


― Ele não está vivo. Está morto. Já vão fechar o caixão.

― Posou uma mosca no nariz dele e ele mexeu o nariz.

― Você tem certeza?

― Eu vi. Agora mesmo.

― Ai, meu Deus.

― Não é melhor avisar o...

― Calma, calma. Vamos pensar com calma. Em primeiro lugar, tem a papelada.

― Que papelada?

― A burocracia toda. Atestado de óbito. INPS. Toda aquela chateação. Eu é que sei. Teria que desfazer tudo. Não, muito obrigada. Em segundo lugar, a funerária. Não sei se eles devolvem o dinheiro.

― Será que não fica como um adiantamento? Quando ele morrer mesmo, já está pago.

― Não. Eu conheço essa gente. Duvido que aceitem. Terceiro lugar: o escândalo. Sim, porque vai sair nos jornais. Já estou vendo as manchetes. Morto ressuscita. Lázaro de arrabalde assusta familiares e amigos. Não sei se eu estou preparada para aparecer no Jornal Nacional. E muito menos o seu tio, que sempre foi tão discreto.

Chega um funcionário da funerária.

― Senhora, podemos fechar o...

― Fecha! Fecha!




Gênios
Ainda não sei bem como funciona o fósforo, por isso encaro toda técnica avançada ― o isqueiro, por exemplo ― como uma afronta. A quem se propõe a me explicar o funcionamento da torneira respondo que ainda não entendi a tesoura. Não é burrice, ou não é só burrice. No fundo é humanismo. Desconfio de tudo que não tenha uma referência humana, ou não simule um ato humano. Felizmente não tive nenhuma influência na história da humanidade. Se dependesse de mim, teria vetado a roda por não se parecer nada com o pé.

Tive um amigo que resistiu, resistiu e finalmente comprou uma calculadora eletrônica. Não queria mais perder tempo fazendo contas. Semanas depois me contou que a calculadora eletrônica atrasara ainda mais sua vida. Agora perdia o dobro do tempo, primeiro usando a calculadora e depois fazendo as contas no papel para ter certeza que a calculadora estava certa. Mas nós, os resistentes, temos nossa serventia. Acho que é do Millôr a história do último homem do mundo que ainda sabia contar nos dedos. Tinha centenas de anos e era mantido artificialmente vivo por uma civilização high tech de supercomputadores, para a eventualidade de faltar luz.

Confesso que estou vibrando com a notícia de que a maior ameaça à humanidade, desde que uma guerra nuclear se tornou improvável, é a zeragem dos computadores no ano 2000. Como os computadores só usam os últimos dois dígitos do ano, todos os seus marcadores voltarão ao zero no dia 1º de janeiro de 2000 e isso ― não sei bem por que nem quero saber ― decretará o caos mundial. Não, não sou a favor do caos. Só gostei de descobrir que nenhum gênio da informática previu a chegada do ano 2000. Enquanto inventavam cada vez mais cibercoisas e maneiras de torná-las obsoletas em 15 minutos, esqueceram-se de olhar a folhinha da parede. Deviam ter-me consultado. Folhinha de parede eu sei como funciona.

Sketchs
Dois homens tramando um assalto.

― Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamo rendê o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo. Pra arejá.

― Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá.

― Tá com o berro aí?

― Tá na mão.

Aparece um guarda.

― Ih, sujou. Disfarça, disfarça...

O guarda passa por eles.

― Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach.

― Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18...

O guarda se afasta.

― O berro, tá recheado?

― Tá.


― Então vamlá!
* * *
Homem e mulher na cama.

― Foi bom?

― Foi.

― Muito bom ou só bom?



― Francamente, eu...

― Está bem, está bem. Me dá uma nota. De 0 a 10, que nota você me dá?

― 7.

― 7?!


― Você quer que eu minta, Ariovaldo? Estou sendo franca.

― Você me pediu uma...

― Peraí. Que foi que você disse?

― Eu disse que estava sendo franca.

― Não, antes. Você disse: "Você quer que eu minta, Ariovaldo?"

― É.


― O meu nome não é Ariovaldo!

― Não é?


― Grande. Você me confundiu com outro.

― Se você não é o Ariovaldo, então quem é?

― E eu vou dizer? Com nota 7, eu vou dizer quem eu sou?

― Mas...


― Vamos de novo. Apaga a luz. Vamos Lá! Pelo Ariovaldo!
* * *
― Meu bem... Você está deslumbrante!

― Tudo para você, querido.

― Esse penteado...

― Fui ao cabelereiro e pedi um corte novo para o meu maridinho me achar desejável. Fui ao maquiador e pedi que me deixasse bem bonita e sexy para atrair meu maridinho. Comprei esta camisola provocante para enlouquecer você.

― E conseguiu, meu amor. Você está...

― Não me toca, senão estraga tudo!


* * *
― Boa noite. O senhor estaria interessado em...

― Se é enciclopédia, não estou interessado.

― Não é enciclopédia. É uma coleção de livros sobre...

― Grandes vultos da História? Essa eu já tenho.

― O senhor quase acertou. É uma coleção sobre as grandes mulheres da História. As maiores mulheres de todos os tempos, desde os tempos bíblicos. Cleópatra, Catarina da Rússia, Madame Curie... A mãe do duque de Wellington, cuja participação na Batalha de Waterloo foi tão decisiva...

― Quem teve papel importante em Waterloo foi o duque, não a mãe dele.

― Mas, se não fosse a mãe, não existiria o duque, e a história da Europa teria sido outra. Anita Garibaldi, Eleonor Roosevelt, Marta Santos...

― Marta Santos?

― Sou eu. Como o senhor vê, a coleção traz tudo sobre as grandes mulheres. Aqui está. 1876, o ano em que a rainha Vitória foi proclamada imperatriz da Índia.

― E estes números aqui?

― São as minhas medidas. O senhor está interessado?

― Bem...


― Pode experimentar durante 20 dias, sem compromisso. Se no fim desse período não estiver completamente satisfeito...

― Você acha que eu vou gostar?

― Não temos tido muitas queixas.

― E se eu quiser ficar só com a Marta Santos?

― Só vendemos a coleção completa.

Sonho de ano-novo


Passagens de milênio são um pouco como velórios, boas ocasiões para se meditar sobre o Significado da Vida com maiúscula. A diferença é que, enquanto as oportunidades para filosofar em velórios se repetem, e podem até ser semanais em períodos particularmente mortais, passagens de milênio são experiências únicas na vida de qualquer um. Devemos aproveitá-las não apenas para reflexões sobre a precariedade da existência, pois para isso qualquer velório, ou caminhada na praia, serve, mas para mergulhos mais profundos.

Por isso tirei o dia 1º para fazer um inventário definitivo da condição humana, usando a sua amostra mais à mão, eu mesmo. Quem sou eu? Por que sou eu? Para o que sou eu? Por que misturei tanto champanhe e cerveja ontem à noite, o que me impossibilita de manter os olhos abertos, o que dirá ter uma resposta coerente para essas perguntas? Decidi fazer o inventário definitivo da condição humana no dia seguinte e tirar uma sesta até a hora de dormir.

Fechei os olhos, e sonhei.

Como se sabe, as pessoas são mais inteligentes dormindo do que acordadas.

Todas sonham, mesmo que não se lembrem depois, e seus sonhos são sofisticadas narrativas cifradas, de grande complexidade temática e riqueza simbólica. Meninos de rua sonham como Borges, engenheiros civis são surrealistas oníricos, debutantes vazias levam a arte da elipse visual a extremos de criatividade, quando dormem. O sonho não é apenas o grande nivelador ― qualquer cerzideira escreveria como a Clarice Lispector, se apenas pudesse botar a trama dos seus sonhos num papel ― também é o grande apagador de fronteiras: os sonhos da Carla Perez e do arcebispo estão plugados no mesmo provedor de signos e disfarces de desejos e medos, no mesmo fornecedor de todo o mundo. Os sonhos só não são a linguagem comum da espécie porque ainda não se chegou a um vocabulário comum para entendê-los.

As mensagens são as mesmas para todos nós, variam as nossas interpretações.

O que meu sonho de ano-novo estava querendo me dizer, por exemplo, eu só posso especular. Era um sonho inteligentíssimo, e claríssimo. Mas aí, danação, eu acordei, e não entendi mais nada.

O sonho era assim. Eu estava no meio do mar, mexendo braços e pernas para me manter à tona, e de alguma forma eu sabia que quilômetros abaixo dos meus pés estava a carcaça do Titanic. De acordo com a ortodoxia freudiana, sonhar com água tem alguma coisa a ver com sexo. Pensando bem, para a ortodoxia freudiana tudo tem alguma coisa a ver com sexo, água é só o mais óbvio. Mas já estou naquela idade em que nem a ortodoxia freudiana funciona como antes.

Interpretei minha situação como a continuação, no mundo cifrado, do pensamento que começara antes de dormir. Isso raramente funciona, como você sabe. Pouco adianta você pensar com força na Patrícia Pillar antes de dormir, ela não aparecerá no seu sonho. Pode aparecer um símbolo da Patrícia Pillar, mas isso você só saberá depois, na interpretação (aquele pássaro!), quando for tarde demais. Deduzi que eu estava sonhando o meu pensamento sobre a condição humana na passagem do milênio. O Oceano Atlântico era o Tempo. Eu, modestamente, era a Humanidade.

O que era a carcaça do Titanic no fundo do mar? Me lembrei de ter ficado impressionado na primeira vez em que vi uma reconstituição gráfica do Titanic no chão do oceano, depois que localizaram os destroços. Como era fundo o fundo! O Titanic estava no meu sonho como referência, portanto. A distância entre a superfície do mar e o chão onde repousava sua carcaça simbolizava o tempo transcorrido desde a criação do mundo, a minha ridícula altura representava o tempo da nosso existência no planeta. Contando todas as nossas formas pré-históricas desde o primeiro hominídeo somos uma espécie recentíssima. E mesmo na síntese histórica do meu corpo agitado, só a porção da testa para cima representava o homem agrícola-pastoril-industrial que começamos a ser anteontem, em termos relativos. Durante a maior parte, quase 90%, do nosso passado como gente fomos caçadores-catadores. Ainda temos os dentes caninos, e uma vaga inquietude de nômades, para nos lembrar desse tempo. Dizem até que éramos melhores então: comíamos mais proteínas e tínhamos uma dieta mais variada antes de descobrir a agricultura ― e fazíamos mais exercício. Com a agricultura e a domesticação de animais vieram as monoculturas, o sedentarismo e os primeiros grupos humanos a conviver com dejetos, os seus e os dos seus bichos. Nasciam, ao mesmo tempo, a civilização e a falta de higiene. Qual era, então, o meu significado, na superfície daquele oceano, a quilômetros do seu fundo e da origem da vida?

Acho que eu era um símbolo da megalomania humana, da nossa absurda pretensão que 10 mil anos de existência ereta nos dão um significado maior do que o da libélula, que vive só um dia. Em comparação com o tempo transcorrido desde que a primeira ameba se dividiu no miasma borbulhante, a espécie humana também viveu só um dia. E uma noite, para sonhar com ele. Me debatendo no meio do oceano simbólico, eu não passava de um mosquito na superfície de um caldeirão de melado, convencido que toda aquela doçura era em seu louvor. A síntese do meu sonho era que somos uns mosquitos pretensiosos.

Mas aí veio uma barcaça embandeirada com a Cleópatra e o dom Pedro II abraçados na popa, enquanto alguém na proa gritava na minha direção:

"Deleta! Deleta!", e o significado do sonho ficou obscuro. Champanhe e cerveja demais, champanhe e cerveja demais.


Sumido

Me disseram "Você anda sumido" e me dei conta de que era verdade. Eu também, fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo?

Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam que havia tempo não me viam. E faziam a pergunta: "Que fim você levou?" Eu não tinha a menor idéia. A última vez em que me vira fora, deixa ver... Eu não me lembrava!

Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem.

Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção.

Eu podia ter mudado de cidade. Era isso. Podia ter ido para outro lugar, podia estar em outro lugar naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem me despedir nem de mim? Sempre fomos muito ligados.

No outro dia fui a um lugar que eu costumava freqüentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei me descrever. Não foi difícil porque me usei como modelo. "Eu sou um cara, assim, como eu. Mesma altura, tudo." Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito?

Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer "Você, hein?" e eu ser obrigado a me dizer alguma coisa como "Vai ver se eu não estou lá na esquina". Mudei por completo de comportamento. Me tornei ― outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria.

Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: "Nem parece você."

Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro!

Passei a me exceder, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. Ou fora do outro. E um dia ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar "Você não se enxerga, não?"

Foi uma revelação. Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e não me vira.

Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Conclui que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos ter nos livrado de nós.

A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga.

A decisão A moça suspirou fundo, pensou em todas as maneiras como podia mudar a sua vida ― casar com um analista de sistemas ou um contrabaixista, entrar para uma ordem religiosa, cortar a carne vermelha e os derivados do leite ou até voltar para Faxinal do Soturno ― e finalmente decidiu mudar de nome.

― Vou me chamar Gwyneth.

Não era nada, não era nada, já era um começo.


Sumido
O amigo me disse: "Você anda sumido", e me dei conta que era verdade. Eu também fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo? Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam que havia tempo não me viam. E faziam a pergunta: "Que fim você levou?" Eu não tinha a menor idéia. A última vez em que me vira fora, deixa ver... Não me lembrava! Não lembrava a última vez em que me vira. Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem. Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção.

Eu podia ter mudado de cidade. Podia ter ido para o Rio, podia estar no Rio naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem despedir-me de mim? Sempre fomos muito ligados. No outro dia fui a um lugar que eu costumava freqüentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei descrever-me. Não foi difícil, porque me usei como modelo. "Eu sou um cara, assim, como eu, mesma altura, tudo." Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito?

Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer: "Você, hein?" e eu ser obrigado a me dizer alguma coisa como: "Vai ver se eu não estou lá na esquina." Mudei por completo de comportamento. Tornei-me ― outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria. Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: "Nem parece você." Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro! Passei a exceder-me, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. No caso, do outro. E, um dia, ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar: "Você não se enxerga, não?"

Foi uma revelação. Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e eu não me vira. Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Concluí que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos nos ter livrado de nós. A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga.

Mudança ― A moça suspirou, pensou em todas as maneiras de como podia mudar a sua vida ― casar com um analista de sistemas, entrar para uma ordem religiosa, cortar a carne vermelha ou até voltar para Faxinal ― e finalmente decidiu mudar de nome.

― Vou me chamar Gwyneth.

Não era nada, não era nada, era um começo.


Tea

Um salão na casa de lady Millicent em Mayfair, Londres. Lady Millicent recebe suas amigas Agatha, Pamela e Fiona para o chá. Um mordomo acaba de trazer uma bandeja com o bule, as xícaras, o açucareiro, leite, rodelas de limão, sanduíches finos de pepino, scones e creme. Lady Millicent levanta o bule e oferece.

Millicent ― Tea?

Todas ― Yes, oh yes, lovely, etc.

Millicent (servindo Agatha) ― E pensar que quase ficamos sem chá...

Agatha (assustando-se e quase derrubando a xícara) ― O quê?!

Millicent ― Vocês não souberam? Os plantadores de chá da Índia estiveram perto da falência.

Pamela ― O Times de hoje não deu nada!

Millicent ― Isso foi há muito tempo. Depois que destruímos a sua indústria de tecidos, a Índia teve que se dedicar exclusivamente à agricultura. Incentivamos os nativos a plantar chá, para nós, e ópio, para a China.

Fiona (tapando o riso malicioso com a ponta dos dedos) ― Se fosse o contrário, o que nós não estaríamos fazendo aqui hoje, em vez de tomar chá?

Agatha ― Cale-se, Fiona. Millicent, não nos deixe em suspense. O que aconteceu com os agricultores da Índia à beira da falência? Só a idéia de ficar sem chá...

Millicent ― Foram salvos pela coroa inglesa.

Fiona ― Mas Margaret Thatcher não era contra os subsídios que premiavam a ineficiência?

Agatha ― Fiona, acho que vamos ter que jogá-la pela janela. A coroa inglesa, na época, não era Margaret Thatcher. Era a rainha Victoria, ou alguém parecido. Continue, Millicent.

Millicent ― A agricultura da Índia quase faliu porque a China não queria comprar mais ópio.

Pamela ― Meu Deus, por quê?

Millicent ― Preconceito. Estavam morrendo chinesese demais, ou ninguém mais queria trabalhar na China. Ou alguma outra obscura razão oriental. O fato é que a coroa forçou a China a aceitar o ópio da Índia. Foi lá, matou alguns milhares de chineses e acabou com a brincadeira. Os chineses concordaram em continuar comprando ópio da Índia, que pode continuar produzindo o nosso chá. Como se sabe, não há nada para convencer as pessoas das vantagens do comércio livre como uma canhoneira, ou duas.

Agatha (hesitando, antes de dar o primeiro gole) ― Quantos chineses, Millicent?

Millicent ― Quantos chineses o quê?

Agatha ― Quantos chineses morreram, para podermos continuar a tomar nosso chá?

Millicent ― Cálculo que, entre os que morreram das canhoneiras e os que morreram do ópio, alguns poucos milhões. Por que, Agatha querida?

Agatha ― Quero ter certeza que não tem nenhum chinês morto na minha xícara.

Millicent ― Ora, Agatha. Com todos os goles de chá que os ingleses tomaram desde então, nossa conta de mortos na China foi saldada há muito. Não há mais chineses mortos em nosso chá.

Agatha (tomando o primeiro gole). ― Ainda bem. Sei que me fariam mal.

Millicent (para Pamela) ― Açúcar?

Pamela (aceitando) ― Obrigada. Não dispenso o açúcar. Não sei como as pessoas podiam viver sem açúcar.

Fiona ― Mas alguma vez não existiu açúcar?

Millicent ― Aqui mesmo, na Inglaterra, durante muito tempo, não existia o açúcar.

Fiona ― Nem para o chá?!

Millicent ― Principalmente para o chá. Foi para assegurar o suprimento de açúcar para o chá, depois que tomamos gosto, que a cultura da cana cresceu no Novo Mundo. E foi para a cultura da cana crescer que importaram trabalho escravo da África. Pode-se dizer que a escravatura se deve ao gosto por chá com açúcar.

Fiona ― De certa maneira, então, a escravatura é culpa da Pamela.

Agatha ― Por favor, Fiona. Quantos negros, Millicent?

Millicent ― Você quer dizer, quantos negros morreram na captura dos escravos, na travessia, de maus-tratos, doenças e trabalho nas plantações para que houvesse açúcar para o nosso chá? É difícil dizer. Milhões. Muitos milhões. Por que, Agatha querida?

Agatha (continuando a tomar seu chá) ― Por nada. Prefiro o meu sem açúcar.

Millicent (para Fiona) ― Scones?

Fiona (hesitando antes de pegar um scone) ― Você tem alguma história sobre os scones para contar, Millicent?

Millicent ― Nenhuma, Fiona.

Fiona ― Ninguém morreu para que existissem estes scones?

Millicent ― Que idéia, Fiona. Eu mesmo os fiz, e não há uma gota de sangue na minha cozinha.


Técnica e moral

A moral segue a técnica. O minigravador e o grampo telefônico fizeram mais pela virtude humana em poucos anos do que a pregação cristã em toda a sua história. As pessoas ficam cada vez mais cautelosas, ou cada vez mais reticentes. Corruptos e corruptores continuarão a existir, só não se telefonarão ou falarão tão livremente, o que deve no mínimo dificultar os negócios.

A técnica também mudou o registro histórico. Imagine como seria se na época em que Kennedy foi assassinado já existissem as ubíquas videocâmeras que hoje substituem as câmeras fotográficas até em aniversário de cachorro. Em vez daquele precário filme em 8 mm do atentado, estudado e reestudado quadro a quadro na busca de vestígios de uma conspiração, haveria teipes de todos os ângulos e com todas as respostas, como a cara, o nome e o CIC dos possíveis conspiradores. A proliferação das videocâmeras produziu um novo fenômeno, o de repórteres de tevê espontâneos, cujas imagens captadas por acaso podem render um bom dinheiro. E um novo dilema moral: largar a câmera para ajudar a vítima ou seguir gravando para lucrar com a cena?

Mas a técnica, ao mesmo tempo que desestimula a inconfidência, apóia a denúncia, desmancha o mistério e enriquece a notícia, pode empobrecer nossa percepção da história. As grandes batalhas e os grandes eventos da era pré-fotográfica foram registrados em quadros épicos em que o artista ordenava a cena em função do efeito, não do fato, ou não do fato exatamente.

A Primeira Guerra Mundial não foi mais terrível do que muitas guerras anteriores, só foi a primeira guerra filmada, a primeira com a imagem tremida e sem cor, por isso parece tão mais feia do que as guerras heroicamente pintadas. A guerra do Vietnã foi a primeira transmitida pela tevê, a primeira em que o sangue respingou no tapete da sala, por isso deu nojo. Os militares americanos aprenderam a lição e, anos depois, transformaram a guerra no Iraque num videogame, que ganharam literalmente brincando.

Remissão


Até surgir a possibilidade de ser tecnicamente denunciado, o político corrupto podia contar com a condescendência do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto a sua corrupção, havia sempre a suspeita de que não era bem assim ― e o político tinha o privilégio do artista, de ser um canalha em particular se sua obra o redimisse. Uma única gravura do Picasso absolve uma vida de mau caráter. A obra do marquês de Sade é estudada com a mesma isenção moral dedicada à obra de Santo Agostinho ― que nem sempre foi santo ― e ninguém quer saber se o escritor engana o fisco ou bate na mãe se seus livros são bons. Ou querer saber, queremos, mas só pelo valor de fuxico. A absolvição custa um pouco mais quando o pecado do artista é o da ideologia errada. Pois se se admitia no político a perversão privada do artista, a única inconveniência intolerável no artista era a incorreção política. Assim um Louis Ferdinad Celine e um Wilson Simonal tiveram que esperar a remissão que o tempo acabou dando a Kipling, Claudel, Nelson Rodrigues, Jean Genet, etc. Mas a receberam.

O político que declaradamente roubava mas fazia tinha um pouco dessa imunidade de artista. Sua obra justificava seus pecados, quando não era uma decorrência deles. Todo o sistema de conveniências e deixa-pra-laísmo que dominam o Congresso brasileiro e que está sendo julgado agora presume a mesma desconexão entre moral privada e moral aparente. A cultura do clientelismo, onde o suposto proveito político substitui a ética, está baseado nela. O que causou a atual revolta contra a roubalheira e a tolerância com a corrupção no Brasil, além das modernas técnicas para a sua averiguação, é a constatação de que aqui não se tinha nem a ética nem o proveito, roubava-se para poucos e não se fazia para a maioria. Em cleptocracias mais avançadas a obra dos artistas do desenvolvimento, todos bandidos, redimiu-os. Empresários corruptores e políticos corruptos fizeram dos Estados Unidos, por exemplo, o que eles são hoje. O capitalismo selvagem americano domou a si mesmo depois de construir um país, ou controlou-se razoavelmente, mas nos seus tempos desinibidos escandalizaria o Jader Barbalho. Aqui tem-se o crime mas ainda não se tem o país.

Mas é claro que ninguém sabe ainda se os eleitores de Jader, Maluf, etc. perdoarão ou não os artistas.


Tempo antigo

Até o nome era perfeito. Anastácia. A Helena só não disse para as amigas que ela tinha caído do céu porque imaginou a Anastácia, gorda daquele jeito, caindo em cima da sua casa e demolindo tudo. Mas que tinha sido um milagre encontrar uma cozinheira como aquela, como não se via mais, saída de um livro antigo, tinha. Os cabelos brancos, o sorriso permanente na grande cara preta, os peitos enormes, a simpatia. E dava para ver só pela cara que a sua comida era boa. Boa como também não se encontrava mais.

― Ela me pediu um tacho para fazer goiabada. Vocês acreditam? Vamos ter goiabada feita em casa!

As amigas tinham toda a razão para invejar a Helena. De onde saíra aquela maravilha?

― Ela se apresentou. Com credenciais e tudo. Pediu um pouco alto, mas dava para resistir? Com aquela cara? Contratei na hora.




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