Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página43/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44
* * *
Além da goiabada, Anastácia fazia conservas, compotas, geléias e doces.

Muitos doces. Doces todos os dias. Com ovos e muito açúcar. Helena pediu para ela maneirar nos doces. O doutor não podia comer muito açúcar, ela mesma estava tentando perder peso, precisavam pensar nos dentes das crianças... Anastácia não entendeu.

― "Maneirar"?

― É. Quem sabe doce só nos fins de semana?

O sorriso da Anastácia era de quem continuava não entendendo. Os seus doces não estava agradando? Helena recuou.

― Tudo bem, Anastácia. Faça o que você quiser.

Dava para resistir àquela cara?
* * *
Outra coisa: Anastácia anunciou que não sabia trabalhar com aqueles óleos esquisitos que encontrara na cozinha. Só sabia cozinhar com banha de porco.

Comida gostosa tinha que ser com banha de porco.

― Banha de porco? ― assustou-se Helena. ― Nem sei se ainda se encontra isso no...

― Pode deixar que eu encontro, dona Helena.



A primeira refeição que Anastácia fez com a banha de porco que trouxe, em latas, do mercado foi um grande sucesso. O doutor chegou a dizer que não comia um feijão como aquele desde a sua infância. As crianças adoraram as batatas douradas. Qual era o segredo da Anastácia, por que a sua comida era tão mais gostosa do que a que eles estava acostumados? Helena não contou da banha de porco. Precisaria de tempo para convencer Anastácia a voltar aos óleos esquisitos mas saudáveis. E, afinal, que mal poderia fazer uma semana ou duas de banha de porco? E que a comida ficava mais saborosa, ficava.
* * *
Uma noite, depois do jantar, o doutor estranhou o silêncio. Onde estavam os meninos? Eles costumavam correr da mesa para os seus barulhentos videogames e ficar jogando até a hora de dormir, todas as noites. Mas a TV deles estava em silêncio. E os meninos estavam na cozinha, ouvindo a Anastácia contar uma história. Helena e o marido foram espiar e deram com aquele quadro que também parecia saído de um livro antigo. Anastácia mexendo alguma coisa no tacho, fazendo um dos seus doces irresistíveis, e os meninos sentados no chão, ouvindo, embevecidos, a história que ela contava. O que Helena e o marido não tinham conseguido nem com súplicas nem com ameaças, tirar os meninos da frente da TV, Anastácia conseguira com suas histórias. E daquela noite em diante, depois do jantar, os meninos mal podiam esperar Anastácia tirar a mesa e lavar os pratos antes de sentarem no chão da cozinha para ouvir outra história. O doutor passou a ler seu jornal em paz e Helena passou a ver sua novela sem precisar aumentar o volume para abafar a zoeira dos videogames. Pensando sempre: "Que maravilha. Essa Anastácia, que maravilha." Pensando: "É como se tivéssemos voltado ao tempo antigo." E pensando: "Isto é bom demais para durar."
* * *
Uma noite, o filho menor fez uma coisa que não fazia há muito tempo. Pediu para dormir na cama com o pai e a mãe. Disse que estava com medo da mula-sem-cabeça. Do quê?! O mais velho, que chegou logo em seguida e também pediu refúgio na cama, contou que a história da mula-sem-cabeça era uma das que a Anastácia contava. Ela também contava histórias do Tião Tesoura, que entrava no quarto de garotos que faziam xixi na cama e cortava os seus pintos. E do Preto Mamão, que pegava crianças desobedientes e levava para criar junto com os seus porcos, e quando elas ficavam bem gordinhas, assava vivas. O doutor argumentou que os videogames dos meninos também estavam cheios de monstros, e que nenhum tirava o sono deles. Os meninos responderam que os monstros dos videogames eram eletrônicos, de mentira, e, mesmo, podiam ser desintegrados com zapeadas certeiras. Já a mãe da Anastácia vira, pessoalmente, a mula-sem-cabeça. Anastácia conhecia gente que conhecia vítimas do Tião Tesoura. Uma tia dela só se livrara de ser assada viva porque conseguira fugir do chiqueiro do Preto Mamão. E...
* * *
Helena pediu para Anastácia maneirar nas histórias que contava para os meninos.

― "Maneirar"?

― Inventa umas mais, assim...

― Eu não invento nada, dona Helena. Tudo que eu conto aconteceu mesmo.

Naquela noite, custaram a convencer os meninos a não sentarem no chão da cozinha para ouvir a história da Anastácia e irem jogar videogame. Eles queriam ser aterrorizados. Helena decidiu que era melhor mandar a Anastácia embora. Além dos dentes, precisava pensar na formação psicológica das crianças. O doutor também começara a se queixar de problemas gástricos, e não ia demorar muito para a sua taxa de colesterol ir lá em cima.

"É melhor mandar ela embora', pensou Helena.

E pensou: "Era bom demais para durar..."


Teses
― O homem é naturalmente polígamo.

Foi a tese que o Oscar propôs no churrasco depois do Brasil e Chile, que todos foram ver na casa do Remi, que tinha tevê com tela grande. Os homens se cotizaram e levaram a carne e a cerveja, as mulheres levaram saladas e doces, o Remi assou. O Remi, por sinal, lançou um movimento de volta à salmoura na feitura do churrasco, sustentando que o sal grosso já cumpriu seu ciclo histórico. Mas isso não tem nada a ver com a história.

Depois das comemorações pela vitória, da carne e de muita cerveja, a conversa derivou da atuação do Ronaldinho para a Suzana Werner e daí para o sexo e o futebol, depois para o sexo em geral. E foi então que o Oscar disse a sua frase.

― O homem é naturalmente polígamo.

― Ah é, Oscar? ― disse Maria Helena, sua mulher.

Todos riram, alguém disse "Iiih", outro disse "sai dessa, Oscar", e o Oscar se apressou a explicar que estava falando em tese, não defendendo a poligamia legal, muito menos um presumível harém particular. Mas, de acordo com sua tese, todos os monógamos ali viviam em conflito com a natureza. A mulher era naturalmente monógama. O homem não.

― Rá! ― disse a Lucilene, mulher do Remi.

― Como, "rá"? ― perguntou o Oscar.

― Você acha, então, que o instinto sexual é o que determina o que é natural ou não?

As risadas tinham parado com o "rá". Agora estavam todos prestando atenção. Afinal, era uma questão científica. O Oscar pensou na resposta, girando a cerveja no copo como se isso ajudasse seu raciocínio. Depois de alguns segundos, disse:

― Acho.

― Natureza é sexo?

― Não, mas é a nossa natureza sexual que determina o nosso comportamento. Ou devia determinar. Nossa cultura monógama é antinatural.

A Lucilene tinha bebido demais. Se entusiasmara com os quatro gols do Brasil, exagerara um pouco. Normalmente, quase não falava. Agora estava de pé, nariz a nariz com o Oscar.

― O homem está no seu apogeu sexual aos 17 anos de idade, certo?

Oscar concedeu o ponto.

― Certo.

― A mulher, aos 35. Certo?

Oscar abanou a cabeça, querendo dizer sim, não, talvez, mas... Lucilene insistiu.

― Está provado. É científico. O macho aos 17, a fêmea aos 35. Segundo a sua tese, o único casal natural, o único casal de acordo com a natureza, seria um homem de 17 e uma mulher de 35.

Lucilene não disse "como eu", mas foi o que todo mundo ficou pensando. Lucilene estava com 35 e Remi estava mais perto dos 70 do que dos 17.

― Todos nós somos antinaturais, está entendendo? Todos os nossos casamentos estão errados!

Julinha decidiu intervir na conversa.

― Alguém quer mais rocambole?

Em casa, a Maria Helena cobrou do Oscar.

― Tinha que começar aquela conversa?

― Foi a Suzana Werner!

E todo mundo concordou que o Remi precisava pensar menos nos seus churrascos e mais no seu casamento com a Lucilene. O Remi colecionava espetos e os guardava em ordem, pelo tamanho. Aquilo não era natural.


Cara de...


A imprensa esportiva francesa varia do estilo literário de jornais como o Liberation e o Le Monde ao estilo mais solto dos jornais populares, mas na Itália até jornais como o La Repubblica, considerados "de classe", cobrem o futebol com descontração e bom humor.

Foi o La Repubblica que, comentando uma atuação apática do Edmundo antes da Copa, disse que ele parecia mais "Il vegetale" do que "Il animale". E há dias li no La Repubblica que o técnico Passarela, da Argentina, respondia às perguntas numa entrevista coletiva com a sua habitual cara de alguém que acabou de saber que arranharam sua Mercedes. Perfeito.




Tragédia
Entra o coro, caminhando lentamente e recitando.

Coro ― Os deuses criam os homens e o seu destino e as musas fazem deles deuses da sua própria criação. Mas o infeliz Sófocles descobrirá que seu deus e sua musa nada podem quando um poder mais alto canta e, entre Zeus e Melpômene, outra divindade se alevanta. Entra, Sófocles, e sofre.

Entra Sófocles, abatido.

Sófocles ― Eu, Sófocles de Atenas, laureado em todas as ilhas, o favorito de gregos e troianos, mesmo assim sou visitado por estranhas premonições, que causam apreensão e dor. Fui convocado pelo Adaptador... Mas que visão é essa que turva ainda mais minha mente inquieta?

Sófocles depara-se com a Esfinge.

Esfinge ― Decifra-me ou eu te devoro.

Coro ― Epa!

Esfinge ― Qual é o animal que de manhã está de quatro, durante o dia anda sobre três pernas e ao entardecer está de quatro outra vez?

Sófocles (irritado) ― É o Adaptador, que amanhece de quatro, durante o dia anda sobre três patas porque precisa de uma para mexer no meu texto e no fim do expediente está de quatro outra vez. Sei lá.

Coro ― Boa, boa.

Esfinge ― Acertou. Pode passar.

Sófocles ― Meu coração sem consolo indaga, qual a pior provação? O corpo jantado pela Esfinge ou a alma, por uma adaptação? Mas eis o Baixo Olimpo, onde, dia sim, dia não, um clássico é servido, em sacrifício, à popularização.

Sófocles encontra o Adaptador.

Adaptador ― Sua peça, Édipo Rei... Não sei não. O público vai ao teatro para se divertir e esquecer seus problemas com coisa rasa. Parricídio, incesto ― isso eles têm em casa! Sugiro algumas mudanças...

Sófocles ― Mudanças?

Adaptador ― Coisa pouca. Fica tudo como está ― a mesma trama, as mesmas situações, os mesmos personagens, coisa e tal ― só que agora é um musical.

Coro ― Ai, ai, ai...

Sófocles ― Um musical? Isso é um acinte!

Adaptador ― E se passa nos anos 20. Ouça, veja se não o seduz. Jocasta é a dona de um bar onde Édipo canta blues...

Sófocles ― Arkh!

Sófocles arranca os olhos.

Coro (em polvorosa) ― O que é isso? Meu Deus! Alguém, ajude! Que coisa!

O coro sai de cena, apavorado, cada um correndo para um lado.

Sófocles ― Não acredito. Onde estou?

Adaptador ― Shakespeare não reclamou...

Sófocles começa a rasgar a roupa.

Adaptador ― Está bem, está bem. Se você vai transformar isto numa tragédia grega...

Trissexual


As amigas se contavam tudo, tudo, do mais banal ao mais íntimo. Eram amigas desde pequenas e não passavam um dia sem se falarem. Quando não se encontravam, se telefonavam. Cada uma fazia um relatório do seu dia e do seu estado, e não escapava uma ida ao súper, um corrimento, uma indagação filosófica ou uma fofoca nova. Deus e todo o mundo, literalmente. Janice, Marília e Branca.

Branca era a mais nova, mas já casara e já enviuvara, o que despertara um certo pânico protetor nas outras duas. Tudo acontecia rápido demais para a Branquinha. Precisavam proteger a Branquinha da sua vida precipitada, da sua vida vertiginosa. Por isso, Janice telefonou para Marília quando soube que a Branquinha estava namorando um homem chamado Futre, Amado Futre, Rosimar Amado Futre, e que, como se não bastasse isto, ele declarara à Branquinha que era trissexual.

Marília não se surpreendeu porque já sabia. Já tinha falado com a Branquinha. As amigas se diziam tudo.

― Marília de Deus ― disse a Janice. ― O que é trissexual?!

― Bom... Bi eu sei.

― Bi eu também sei!

― Bi é quando transa com os dois sexos.

― Eu sei!

― Tri deve ser quando transa com dois sexos e com bicho.

― Com bicho?!

Janice teve uma visão da Branquinha na cama com Rosimar Amado Futre, o porteiro do prédio e uma cabra. Ou um cabrito?

― Bichos dos dois sexos?

― E eu vou saber?!, gritou a Marília.

Era preciso proteger a Branquinha, cujo marido morto, o Aderbal, já não tinha sido boa coisa. Cujo marido morto ― conforme relato detalhado da Branquinha ― só se excitava quando ela usava uma camiseta do Olaria por cima do corpo, na cama, e morrera de soluço. Algo no piloro. Mas proteger a Branquinha do que, exatamente?

― O que é trissexual? ― perguntou a Janice ao seu marido Rubião.

― Ahn? ― disse Rubião, acordando.

Rubião dominara o truque de segurar um jornal na frente do rosto e dormir sem que a mulher notasse, Janice não entendia como um homem que lia tanto jornal podia ser tão mal informado.

― O que é trissexual?

― É... é...

― Volta pro teu jornal, Rubião.

Apesar de ser a mais moça das três, Branquinha fora a primeira a perder a virgindade. Já fizera tudo que pode ser feito sobre uma cama. Ou, no caso dela, sobre uma mesa de jantar ou pingue-pongue, sobre um estrado, numa praia, no meio do campo, uma vez até no último banco de um ônibus intermunicipal, antes de conhecer o Aderbal ― e sempre contando tudo, tudo, às outras duas. Que também contavam tudo que lhes acontecia, só não tinham tanto para contar. A Janice, inclusive, depois de descrever como fora a sua primeira vez, com o Rubião, na noite de núpcias, pedira desculpa às amigas.

O que podia fazer? Só acontecera aquilo. Queriam que ela inventasse? A Marília, que ainda não se casara e namorava um dentista chamado João, inventava. Para as outras não pensarem que ela também não tinha uma vida sexual. Mas nem as invenções mais criativas da Marília se igualavam às experiências da Branquinha. E agora um trissexual chamado Amado Futre!

Branquinha talvez estivesse indo longe demais. Era preciso proteger a Branquinha.

Apesar de vários avisos ("Olhe lá, hein, Branquinha?"), a Branquinha concordou em passar um fim de semana na serra ("Onde tem cabrito", observou a Janice, nervosíssima) com o Rosimar Amado Futre. Ficou combinado que, na volta, contaria tudo para as amigas. Mesmo se voltasse tarde na noite de domingo, telefonaria para contar. Mas veio a noite de domingo, veio a segunda, veio a terça, e nada da Branquinha telefonar. Teria lhe acontecido alguma coisa? Ela estaria num hospital, com um deslocamento, depois do que o Futre lhe fizera? Mordida por algum animal, nos arroubos da paixão? Janice não se conteve e telefonou para a Branquinha. Que estava em casa.

― E aí? Como foi?

― Nem te conto.

E não contou. Apesar da insistência da Janice, e depois da Marília, e depois das duas que, desesperadas, invadiram seu apartamento e exigiram um relato completo do que tinha acontecido, e imploraram para saber o que era, afinal, um trissexual, Branquinha não contou nada. A verdade era que, com sua nova experiência, já não tinha o que conversar com as outras duas.

Marília resolveu perguntar ao namorado João, o dentista, o que era trissexual.

― Tri?!

― É. Tri em vez de bi.

― Bi?!

― Esquece, João.


Uma moça um pouco


Vizinhos de porta, ele o 41 e ela o 42.

Primeiro lance: ela. Bateu na porta dele e pediu açúcar emprestado para fazer um pudim.

Segundo lance: ela de novo. Bateu na porta dele e perguntou se ele não queria provar o pudim. Afinal, era co-autor.

Terceiro lance: ele. Hesitou, depois perguntou se ela não queria entrar. Ela entrou, equilibrando o prato do pudim longe do peito para não derramar a calda.

― Não repara a bagunça...

― O meu é pior.

― Você mora sozinha?

Sabia que ela morava sozinha. Perguntara ao porteiro logo depois de se mudar. A do 42? Dona Celinha? Mora sozinha. Morava com a mãe mas a mãe morreu. Boa moça. Um pouco... E o porteiro fizera um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a moça era. Fosse o que fosse, era só um pouco.

A conversa começou com apresentações e troca de informações ― "Nélio", "Celinha", "Capricórnio", "Leão", "Daqui mesmo", "Eu também" ― e continuou enquanto comiam todo o pudim, que estava ótimo. Mas quando ela disse "Como a gente se entendeu bem, né?", cobrindo a mão dele com a dela, ele decidiu dar um lance preventivo e declarou que não queria envolvimentos em sua vida. Queria ser um homem sem envolvimentos. Entende? Sua decisão de vida era não ter envolvimentos.

― Como, envolvimentos? ― perguntou ela.

― Envolvimentos ― explicou ele.

Antes de sair, com a cara amarrada, ela disse:

― Me empresta uma gilete?

― Gilete? Eu não uso gilete.

― Não faz mal, eu tenho em casa.

E saiu, pisando firme e sem olhar para trás.

Uma hora depois, bateu na porta.

― Esqueci o prato do pudim.

Ele viu que ela tinha cortado os pulsos. O sangue pingava nas lajes do corredor.

― O que é isso?!

E todo o tempo, enquanto ele estancava a sangueira da melhor maneira possível, e a colocava no seu carro, e a levava em disparada para o hospital, ela só repetia:

― Ué, não era você que não queria envolvimentos? Não era você?

Corta para um mês depois. Ele descendo no elevador com o Marçal, do 43. Nunca tinham passado do "Bom dia" e do "Calor, né?", antes, mas desta vez o Marçal puxa conversa.

― Você já conheceu a tia Vitória?

― Já. Como é que você sabe?

― A tia Vitória? A da alergia crônica? Muito andei com ela. Levei até em acupuntura. O Tuinho também. Fui eu que arranjei vaga na escola pra ele. O primo Alaor... Durante um ano, não fiz outra coisa senão cuidar da família da Celinha.

― Mas como...

― Ela pediu açúcar emprestado, não foi? Depois trouxe o pudim. Comigo foi a mesma coisa. Quando eu vi, estava envolvido com a vida dela. Estava servindo de enfermeiro, de motorista... Mas ela é uma boa moça. Só um pouco...

― É.

― Aceite um conselho. Jamais desconte um cheque do Alaor.



― Sei. Obrigado. Eu... já vou indo.

― Certo.

― Tenho que buscar o Tuinho e levar na aula de judô.

― Eu sei, é quarta-feira.




Vergonhas
O Brasil mantém vivos os mitos que faziam os europeus se lançarem ao mar em cascas de nozes na conquista do desconhecido. Eles vinham para este Outro Mundo para explorar, subjugar, catequisar e ― no caso dos portugueses ― porque era preciso, mas também vinham atrás de fantasias. Uma das mais chamativas era a fantasia erótica. A expansão do cristianismo se misturava com a expansão dos sentidos reprimidos na Europa da Reforma. Não é preciso ir além de Os Lusíadas para flagrar (como fez, num livro fascinante chamado The Book of Babel, o inglês Nigel Lewis) a confusão, nas almas navegadoras portuguesas, entre a Virgem Maria, padroeira de Portugal e protetora dos seus navios, e Vênus, a estrela do mar, guiando-as para a Ilha do Amor e outros prazeres pagãos em paraísos ainda não conquistados. A Virgem com ares de Vênus de Camões é um pouco a Vênus com cara de Virgem de Botticelli, saindo de dentro de um "coquille Saint Jacques", outra tentação marítima. A confusão é antiga. Maria vem de "mare". Afrodite, o outro nome de Vênus, quer dizer "nascida da espuma" ("aphrós", em grego). A espuma do mar tem conotação sexual e simboliza o esperma em vários mitos de origem ― e não vamos nem falar nas alusões sexuais de conchas e moluscos. A fantasia era poderosa, e os fatos muitas vezes a reforçavam, com simbolismo irresistível. A grande aventura atrás de lucro e conhecimento, mas insuflada pela testosterona, teve uma espécie de síntese casual na primeira viagem do capitão Cook, em 1769. A viagem era para fazer um estudo astronômico da trajetória de Vênus. Acabou na descoberta da Polinésia, um arquipélago do Amor, e das suas nativas desinibidas e dadas. Hoje, os turistas sexuais que desembarcam de aviões no Rio ou no nordeste brasileiro dispensam a estrela-guia sedutora. Navegam pela nossa reputação, mas perseguem a mesma fantasia. E o que os entusiasma nas nossas nativas pré-adolescentes devem ser as mesmas "vergonhas tão altas e tão cerradinhas, de a nós muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha" que entusiasmaram Pero Vaz de Caminha há 500 anos. Nada, na verdade, mudou.

Outro mito que o Brasil se encarregou de não deixar morrer é o de El Dorado, a fantasia da fortuna instantânea. El Dorado existe, e é aqui. Ou foi aqui, no mês de janeiro, quando alguns bancos lucraram de um dia para o outro o que provavelmente ninguém tinha lucrado de uma vez só, dentro da lei, em 500 anos. E não tivemos nenhuma vergonha.




Viagens no tempo

Nenhuma ficção sobre viagens no tempo, que eu saiba, foi sobre a que para mim, seria a mais fascinante ― e terrível: ser transportado para o mundo como ele era antes de aprendermos a fazer fogo. Imagine-se neste passado.

Esqueça o frio. Mesmo sem o fogo, já saberíamos como nos aquecer. E é provável que você tenha caído na África Equatorial, onde, dizem, tudo começou. Ou nós começamos. Não é isto.

Num mundo sem fogo, não existe luz. Pense nisto: depois que o sol se põe, não se enxerga mais nada. Até o sol reaparecer, não se enxergará mais nada.

Você estará numa escuridão total e irremediável. A luz das estrelas não o ajudará a saber se aquele escuro mais espesso que parece se mover é um parente, um amigo ou um leão. Uma lua cheia melhorará a sua percepção, mas não muito: cada sombra indefinida continuará a ser uma ameaça e um possível terror. Quando não houver estrelas ou lua, você só saberá o que acontece à sua volta pela audição, o olfato ou, meu Deus, o tato. Imagine a vida sem nem um pau de fósforo. Imagine uma noite inteira de ruídos estranhos dos quais você não pode fugir, pois como encontrará uma árvore no escuro?

Imagine-se aninhado numa árvore para passar a noite com segurança e descobrindo, ao amanhecer, que dormiu abraçado a uma jibóia! Eu sei que não tem jibóia na África Equatorial, é só um exemplo.

Quantos anos os pré-homens terão vivido assim, só conhecendo o fogo dos incêndios provocados na mata por relâmpagos e desesperados por algum meio de domesticá-los, os relâmpagos ou o fogo, para iluminar as suas noites? O sol seria adorado pelos primitivos porque era a fonte da vida e, afinal, qualquer bola incandescente daquele tamanho passando diariamente pelo céu fatalmente causaria admiração, mas desconfio que o que era adorado, acima de tudo, era a luz. Não a lâmpada mas a sua dádiva, o poder de enxergar. O fim do terror do invisível, ainda mais do invisível que roncava.

O sono é uma decorrência da mecânica do Universo. Dormimos porque a Terra gira em torno do seu eixo e uma das suas metades está sempre na sombra e seus habitantes não têm o que fazer no escuro a não ser dormir. Como continuamos a dormir como fazíamos na savana africana, ou pelo menos a ter sono a intervalos regulares, isto significa que o cérebro humano não tomou conhecimento nem da invenção da fogueira, quanto mais da lamparina, da lâmpada a gás e da luz elétrica. Para o nosso cérebro, a escuridão da noite continua total e irreversível. Ele ignora os avanços na nossa percepção do mundo, um pouco como a burocracia brasileira ignora a informática e continua presa a vias e carimbos pré-históricos. Temos sono porque o nosso cérebro ainda não sabe que enxergamos no escuro.

Viagens no tempo seriam mais atraentes e proveitosas se pudéssemos ir em busca dos nossos antepassados. Não dos conhecidos, mas dos mais remotos. Os da savana. Munidos de algum tipo de documento de identidade genética, e com algum meio de identificar geneticamente os outros, mesmo os outros primitivos, que substituísse o puro palpite ("Sei não, mas aquele hominídeo tem o nariz da tia Dulce"), sairíamos à cata de parentes na era pré-fogo, numa viagem sentimental às origens do nosso DNA. Uma excursão à nascente Sabemos algumas coisas com absoluta certeza sobre os nossos antepassados genéticos. Sabemos com absoluta certeza que todos viveram até a maturidade sexual, que todos tiveram pelo menos uma relação sexual na vida e que todos, sem exceção, eram férteis, o que reduz bastante o campo de pesquisa. Só teríamos que procurar entre fêmeas com filhos que nos ajudassem a localizar os pais das crianças e, entre estes, o que tivesse o DNA como o nosso.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   36   37   38   39   40   41   42   43   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal