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LUIS FERNANDO

VERÍSSIMO
ED MORT E OUTRAS HISTÓRIAS

Luis Fernando Veríssimo, 1979.

A armadilha

Meu nome é Mort. Ed Mort. Sou detetive particular. Pelo menos isso é o que está escrito numa plaqueta na minha porta. Estava sem trabalho há meses. Meu último caso tinha sido um flagrante de adultério. Fotografias e tudo. Quando não me pagaram, vendi as fotografias. Eu sou assim. Duro. Em todos os sentidos. O aluguel da minha sala ― o apelido que eu dou para este cubículo que ocupo, entre uma escola de cabeleireiros e uma pastelaria em alguma galeria de Copacabana ― estava atrasado. Meu 38 estava empenhado. Minha gata me deixara por um delegado. A sala estava cheia de baratas. E o pior é que elas se reuniam num canto para rir de mim. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Eu tinha saído para ver se a plaqueta ainda estava no lugar. Nesta galeria roubam tudo. Abriram uma firma de vigilância particular do lado da boutique de bolsas e nós pensamos que a coisa ia melhorar. A firma foi assaltada sete vezes e se mudou. Voltei para dentro da sala e me preparei para ler o jornal de novo. Era uma quinta e o jornal era de terça. De 73.

Havia uma chance de o telefone tocar. Muito remota, porque ele estava desligado há dois meses. Falta de pagamento. As baratas, pelo menos, se divertiam. Foi quando ela entrou na sala.

Entrou em etapas. Primeiro a frente. Cinco minutos depois chegou o resto. Ela já tinha começado a falar há meia hora, quando consegui levantar os olhos para o seu rosto. Linda. Tentei acompanhar a sua história. Algo sobre um marido desaparecido. Pensei em perguntar se ela tinha procurado bem dentro da blusa, mas ela podia não entender. Era uma cliente. Ofereci a minha cadeira para ela sentar e sentei na mesa. Primeiro, para poder olhar o decote de cima. Segundo, porque não tinha outra cadeira. Ela continuava a falar.

O marido tinha desaparecido. Ela não queria avisar a polícia para não causar um escândalo. De olho na sua blusa, perguntei:

― O que vocês querem que eu faça?

― Vocês?


― Você. A senhora.

Ela queria que eu investigasse o desaparecimento. Me deu uma fotografia do marido. Nomes. Endereços. Amigos dele. O lugar onde ele trabalhava. Alguma pergunta?

― Preciso ser indiscreto. Pense em mim como um padre.

Ela fez um esforço, mas acho que não conseguiu. Mas me mandou continuar.

― Vocês se davam bem? Não tinham brigado?

Ela baixou os olhos. Por alguns minutos, ficamos os dois olhando para a mesma coisa. Aí ela confessou que o marido não a queria mais. Tinha hábitos estranhos. Gostava de coisas exóticas.

― Sexualmente falando, entende? ― disse ela, falando sexualmente.

Pensei em dizer que, se ela aceitasse um similar, não precisava procurar mais. Eu estava ali, e a queria. Mas precisava do dinheiro. Não daria essa alegria às baratas. Comecei a investigação. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.

Não foi difícil descobrir que o marido a enganava regularmente. Todos os amigos dele tinham histórias para contar. E todos terminavam a história sacudindo a cabeça e dizendo a mesma coisa: “E isso com o mulherão que ele tem em casa...” Me contaram que ele tinha começado a freqüentar massagistas.

― Massagistas?

― Você sabe. Essas que anunciam nos jornais...

Era uma pista. Empenhei minha coleção de Bic e comprei um jornal do dia. Comecei com “Tânia, faço de tudo” e terminei com “Jussimar, banhos de óleo e fricção musical”. Duas semanas de investigação diária. Me fingia de cliente. Pagava tudo. Como Linda ― minha cliente se chamava Linda ― não me deu nenhum adiantamento, tive que vender tudo. A mesa. A cadeira. Tudo. Finalmente assaltei a pastelaria. Eu sou assim. Quando pego um caso vou até o fim.

Só faltava um nome na minha lista de massagistas. “Satisfação garantida. Técnicas turcas e orientais. Sandrinha Dengue-Dengue.” Era uma casa. Na frente, um vestíbulo e uma recepcionista. Entrei arrastando os pés. As duas semanas de investigação tinham exigido muito de mim. (Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.) A recepcionista perguntou se eu estava ali para a massagem. Pensei em responder que não; que estava ali para rearmamento moral. Mas respondi que sim. Que espécie de massagem?

― Tudo o que eu tenho direito. Técnicas turcas e orientais. Um completo. A Sandrinha saberá o que fazer.

A recepcionista sorriu, apertou um botão na sua mesa, e um alçapão se abriu sob os meus pés. Cai num porão infecto. Em cima de alguém, que desmaiou. O porão estava cheio. Depois de me acostumar com a escuridão, olhei em volta. Só havia homens. O que era aquilo? Em resposta, só ouvi gemidos. Finalmente, alguém se animou a falar. Todos tinham vindo àquele endereço atrás da Sandrinha Dengue-Dengue. E todos tinham caído pelo alçapão.

― Mas por quê?

― Não sei ― respondeu um dos homens, que pela barba e o desânimo já estava ali há dias. ― Mas de hora em hora, toca uma marcha e uma mulher começa a nos xingar pelo alto-falante. Nos chama de machistas, de porcos chovinistas, de exploradores de mulheres, de sexistas.

― Já sei. É uma armadilha feminista!

Os outros concordaram com gemidos. Era uma armadilha perfeita. Quem vinha ver a Sandrinha Dengue-Dengue não dizia nada para ninguém. Desaparecia e ninguém saberia onde procurar. Perguntei pelo marido da Linda. Chamei seu nome. Nada. Alguém lembrou que podia ser o cara que estava embaixo de mim, desmaiado. Eu o acordei. Era ele mesmo. Dei-lhe um soco que o fez dormir de novo. O safado me fizera cair na armadilha. E com o mulherão que tinha em casa!

Passei uma semana no porão, sentado na cabeça do safado. Eu sou assim. Sem comer nada, mas já estava acostumado. E sendo catequizado de hora em hora. No fim de uma semana nos soltaram, com ordens de nunca mais procurar massagistas e não dizer nada para ninguém, senão nossos nomes seriam publicados, mulheres e filhos ficariam sabendo. Que nos servisse de lição.

Devolvi o marido para Linda. Na despedida ainda lhe dei um tapa na orelha. Linda me olhou feio. As baratas apontam para mim e rolam de tanto rir. Linda não me pagou. Na minha sala agora só tem o telefone e o jornal de 73, no chão. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta. E roubaram a plaqueta.
Por pouco

Eu estava a ponto de escrever alguma coisa sobre as pessoas que estão a ponto de tomar uma atitude definitiva e recuam ― e recuei. Ia escrever sobre os que um dia, por pouco, quase, ali-ali, estiveram prestes a mudar sua vida mas não deram o passo crucial, mas não vou. Pena e comiseração para os que não deram o passo crucial.

Pena e comiseração para os que preferiram o pássaro na mão. Para os que não foram ser os legionários dos seus primeiros sonhos. Para os que hesitaram na hora de pular. Para os que pensaram duas vezes. Pena e comiseração para os que envelheceram tentando decidir o que iam ser quando crescessem. E para os que decidiram, mas na hora não foram.

Alguns passam a vida acompanhados pelo que podiam ter sido. Por fantasmas do irrealizado. Um cortejo de ressentimentos. Este aqui sou eu se tivesse decidido fazer aquele curso em Paris. Este outro sou eu se tivesse chegado um minuto antes no vestibular...

Olha que bom aspecto eu teria se tivesse aceito aquela nomeação. Veja o bigode. O corte decidido do cabelo. O olhar de quem é firme, mas justo com subalternos. A cintura ajustada. As mãos que não tremem. Elas me seguem por toda a parte, as minhas alternativas.

Você conhece muitos assim. Gente que cultiva suas oportunidades perdidas como outros guardam o próprio apêndice num vidrinho. E não perdem oportunidade de contar como foi a oportunidade perdida.

― Foi num jogo de pôquer. Tinha dois pares e não joguei. Quem ganhou tinha só um. A melhor mesa da noite. Milhões. Eu, hoje, seria outro.

― Fiz uma ponta naquele filme do Tarzã, mas cortaram a minha parte. Se tivessem me visto em Hollywood...

― Se eu tivesse dito sim...

― Se eu tivesse dito não...

― Se mamãe não tivesse interferido...

― Uma vez fui fazer um teste no Fluminense. Abafei. Mas a família foi contra. Insistiu com a contabilidade. Eu, hoje, seria outro.

― Já tive a minha época de escritor, tá sabendo? Uns contos até razoáveis. Mas nunca me mexi. Hoje eles estão numa gaveta, sei lá.

― Você sabe que só não me elegi deputado, porque não quis?

― Eu, hoje, podia ser até primeiro-violino.

― Tudo porque eu não saí daqui quando devia. Pena e comiseração para os que não saíram daqui quando deviam. Há quem diga que o passo crucial só pode ser dado uma vez e nunca mais. Tem a sua hora certa, e ela não volta. Bobagem, claro. Mas não para os que tiveram a sua hora e não aproveitaram. Os mártires do por pouco.

― Sei exatamente quando foi que eu tomei a decisão errada. Foi numa noite de Ano-Bom.

Você já ouviu a história várias vezes. Mas não pode impedi-lo de falar. O único divertimento que lhe resta é o que ele poderia ter sido. Os que não deram o passo crucial quando deviam estão condenados ao condicional. E têm a volúpia da própria frustração.

― Se eu tivesse aproveitado... Ela estava gamada. Gamadona. Filha da segunda fortuna do Brasil.

Da última vez que você ouviu a história, era a terceira fortuna do Brasil, mas tudo bem.

― Bobeei e babaus. Hoje, quando eu penso...

Você tenta ajudar.

― Podia não ter dado certo. O pai dela não ia deixar. Um morto-de-fome como você...

― Morto-de-fome, porque eu não dei o passo crucial na hora que me ofereceram aquele negócio no Mato Grosso. Ia dar um dinheirão.

― Mas se você fosse para o Mato Grosso, não teria conhecido a menina na noite de Ano-Bom.

― Pois é. Agora é tarde. Sei lá.

Agora é tarde. As decisões erradas são irrecorríveis. Você o imagina cercado das suas alternativas. De um lado, casado com a, vá lá, primeira fortuna do Brasil. O último homem do Rio a usar echarpe de seda. Grisalho, mas ainda em forma com aquele tom de pele que só se consegue passando o dia na piscina do Copa, mas na sombra. Do outro lado, o próspero fazendeiro do Mato Grosso que pilota o seu próprio avião e tem rugas em torno dos olhos de tanto procurar o fim das suas terras no horizonte, ou de tanto rir dos pobres. E no meio, ele, a ponto de lhe pedir dinheiro emprestado outra vez. Triste, triste. Eu ia escrever uma boa crônica sobre tudo isso. Mas o assunto me fugiu, perdi a hora certa. Agora é tarde.

A aposta do barão

Quem dentre vós nunca sonhou em criar o seu próprio agente secreto inglês que atire o primeiro James Bond. Certa vez, pensei em inventar um superagente brasileiro, Jaime Alguma Coisa, e escrever suas aventuras no mundo da intriga internacional, mas não deu certo. Por alguma razão, sempre que eu começava a descrevê-lo, saía um tipo magro, baixo, orelhudo, de bigodinho, o único no departamento a torcer pelo América, e que enjoava em avião. Sua classificação de 00664853 barra 7 lhe permitia andar armado, virar a gola do seu impermeável para cima e fazer um lanche por dia à custa do departamento, com comprovante. Na primeira página da primeira aventura que imaginei para ele, o chefe da espionagem, seu superior, examina o dossiê de um caso dificílimo que tem à sua frente, morde a haste do cachimbo e decide: “Este é um caso para o Jaimito”. Parei aí mesmo. Nada de muito sério ― e certamente não aquele caso de espionagem atômica, envolvendo a própria sobrevivência do país, além de 17 anões iugoslavos e uma falsa condessa ― podia ser confiado ao Jaimito. Além disso, a sua arma secreta, um isqueiro com 64 utilidades diferentes, todas mortíferas, falhava até para acender cigarro. Desisti do Jaimito. Agente secreto inglês tem que ser inglês. Como este que acabei de criar.

Peter Vest-Pocket encurtou a Segunda Guerra Mundial em oito meses (“e três dias”, acrescenta ele, com característica atenção ao detalhe), quando decifrou para os Aliados os códigos do Alto-Comando alemão ― embora tivesse só cinco anos incompletos na ocasião. Seu sorriso enigmático foi responsável por 10 tentativas de suicídio em todo o mundo, nove mulheres e um bailarino russo que engoliu a própria sapatilha. É a maior autoridade mundial em peixes tropicais, manuscritos medievais da Europa Central e a vida de Mae West. Suplementa o seu salário do governo jogando pôquer, no qual desenvolveu um método infalível para ganhar sempre: trapaceia.

Foi no famoso salão cor-de-vômito, o Puke Room do Harbinger’s em Londres, onde você só entra apresentando ao porteiro uma nota assinada pelo Secretário do Tesouro da Inglaterra, de preferência de mil libras, que Vest-Pocket viu-se, certa noite, frente a frente com o único homem no mundo que temia: o Barão Guy de la Recherche. Na mesa, estavam ainda um gordo ex-ministro venezuelano que suava muito, um Emir árabe com óculos tão escuros que precisava de um secretário para lhe dizer que cartas tinha na mão e o rei das batatas chips dos Estados Unidos. Mas Vest-Pocket os ignorou. Seu adversário era de la Recherche.

Recostado na cadeira com a mão direita erguida ao lado do rosto, segurando um dos charutos que Fidel lhe mandava semanalmente com aborrecidos bilhetes cheios de admiração juvenil, Vest-Pocket jogava displicentemente com a mão esquerda. Só variava a posição quando dava as cartas e aí prendia o charuto entre os dentes e usava as duas mãos para embaralhar, servir a mesa e tirar cartas da manga quando a situação o exigisse. Periodicamente, levava à boca um copo de aguardente feito especialmente para ele, na Bolívia, com a saliva de jovens índias que mascavam a raiz sagrada do Peote ― e duas gotas de Beneditino.

Às quatro horas da madrugada, tendo mantido o jogo razoavelmente equilibrado até ali para não espantar ninguém, Vest-Pocket viu a sua chance. O Barão, que sempre passava um dedo pelo seu afilado nariz quando tinha um bom jogo nas mãos, esfregava o nariz como nunca. E o secretário que lia as cartas para o Emir acabara de segredar alguma coisa no ouvido do seu mestre que o fizera sorrir, quase imperceptivelmente. O venezuelano e o americano estavam de fora. Chegara a hora. Tudo dependia daquela jogada. Vest-Pocket dava as cartas.

O Barão não quis cartas. O Emir pediu uma, que obviamente o agradou. Peter descartou duas e tirou da manga as duas que faltavam para o seu Royal Street Flush.

O Emir não tinha fichas suficientes para apostar e colocou na mesa um cheque de 100 mil libras.

“Suas 100”, disse o Barão, tirando um livro de cheques do bolso, “e mais 100.”

“As suas 200”, disse Peter, “e mais 400,”

“As suas 600”, disse o Emir, “e mais o número da minha conta na Suíça e uma autorização para sacar tudo ...

― “Não aceitamos hipóteses, queremos cifras”, disse Peter, com tamanha autoridade que o Emir não disse outra palavra. “Barão?”

“As suas 600...” começou o Barão, “e o que você quiser, meu amigo. Minha propriedade no Loire? A minha ilha nas Caraíbas? Meus cavalos na Argentina? Diga você.”

“Quero a sua receita de mousse de salmão.”

“O quê? Impossível. É um segredo de família. Ninguém mais a conhece. O meu prato supremo.”

Exatamente, pensou Peter Vest-Pocket. Enquanto o Barão de la Recherche detivesse o segredo daquela mousse de salmão, ele, Peter, não podia se considerar o melhor cozinheiro amador do mundo. Com a receita da mousse de salmão, ele seria imbatível. Não precisaria mais temer a reputação de ninguém. Sem tirar os olhos dos olhos do Barão, Peter falou:

“Aumente a parada, pague para ver ou silencie para sempre. Se eu ganhar, quero a receita da mousse dentro de 48 horas, pois pretendo receber algumas pessoas para jantar.”

(Ao leitor decepcionado com a falta de ação, violência e intriga internacional explico que esta é só a primeira cena. Os 17 anões iugoslavos e seus exóticos métodos de matar o inimigo a cócegas entram depois.)
Caso de divórcio (I)

O divórcio é necessário. Todos conhecem dezenas de casos que convenceriam até um arcebispo. Eu mesmo conheço meia dúzia. Vou contar uns três ou quatro.

O nome dele é Morgadinho. Baixo, retaco, careca precoce. Você conhece o tipo. No carnaval se fantasia de legionário romano e no futebol de praia dá pau que não é fácil. Freqüenta o clube e foi lá que conheceu sua mulher, mais alta do que ele, morena, linda, as unhas do pé pintadas de roxo. Na noite de núpcias, ele lhe declarou.

― Se você algum dia me enganar, eu te esgoelo.

― Ora, Morgadinho...

Ela se chama Fátima Araci. Ou é Mara Sirlei? Não, Fátima Araci. Não é que ela não goste do Morgadinho, é que nunca prestou muita atenção no marido. Na cerimônia do casamento já dava para notar. O olhar dela passava dois centímetros acima da careca do Morgadinho. Ela estava maravilhada com o próprio casamento e o Morgadinho era um simples acessório daquele dia inesquecível. Como um castiçal ou um coroinha. No álbum de fotografias do casamento que ela guardou junto com a grinalda, há esta constatação terrível: o Morgadinho não aparece. Aparece o coroinha mas não aparece o Morgadinho.

Um ou dois meses depois do casamento, o Morgadinho sugeriu que ela lhe desse um apelido. Um nome secreto, carinhoso, para ser usado na intimidade, algo que os unisse ainda mais, sei lá. Ela prometeu que ia pensar no assunto. O Morgadinho insistiu.

― Eu te chamo de Fafá e você me chama de qualquer coisa.

― Vamos ver.

Uma semana depois, Morgadinho voltou ao assunto.

― Já pensaste num apelido para mim, Fafá?

― Ainda não.

Três semanas depois, ele mesmo deu um palpite.

― Quem sabe Momo?

― Não.

― Gagá? Fofura? ― Tomou coragem e, rindo meio sem jeito, arriscou:



― Tigre?

Ela nem riu. Pediu que ele tivesse paciência. Estava lendo o Sétimo Céu. Tinha tempo.

O Morgadinho não desistiu. Às vezes, chegava em casa com uma novidade.

― Que tal este: "Barrilzinho"?

― Não gosto.

Outra vez, os dois estavam passando por um quintal e ouviram uma criança chamando um cachorro.

― Pitoco. Vem, Pitoco.

Morgadinho virou-se para a mulher, cheio de esperança, mas ela fez que não com a cabeça.

Finalmente (passava um ano do casamento e nada de apelido), Morgadinho perdeu a paciência. Estavam os dois na cama. Ela pintava as unhas do pé.

― Você não me ama.

― Ora, Morgadinho...

― Até hoje não pensou num apelido para mim.

― Está bem, sabe o que tu és? Um xaropão. Taí teu apelido. Xaropão.

O Morgadinho já tinha enfrentado várias levas de policiais a tapa. Uma vez desmontara um bar depois de um malentendido e saíra para a rua dando cadeiradas em meio mundo. Homens, mulheres e crianças. Mas naquela noite virou-se para o lado e chorou no travesseiro.

Aí a mulher, com cuidado para não estragar o esmalte, chegou perto do seu ouvido e disse, rindo:

― Xaropãozinho... ― Rindo. Rindo!


O mundo restaurado

O pai ganha os presentes que um pai costuma ganhar. Camisas, lenços, uma gravata muito parecida com a que deu para alguém no ano passado, meias. Alguns livros, alguns vinhos. Mas fica de olho nos presentes das crianças. Com o ar condescendente de quem tem um saudável interesse nas atividades dos filhos. Mas louco de inveja.

― Meu filho. Um Autorama!

― É, pai.

― Vamos armar agora mesmo!

― Agora não, pai. Amanhã, a gente arma.

― Amanhã, nada. Agora! Arreda essa papelada pra lá. Aqui na sala mesmo tem lugar.

A mãe intervém.

― Você está louco? Armar esse negócio no meio da sala, no meio da festa?! E as crianças precisam ir dormir. Foi excitação demais para um dia só.

O pai fica olhando com ressentimento o Autorama que desaparece da sala embaixo do braço do guri. Pensa, vagamente, em seguir o filho e propor uma barganha. Escuta, a mãe não está nos ouvindo. Eu te dou todos os meus lenços e tu deixa eu armar o Autorama aqui no teu quarto, com a porta fechada. Mas não. Os convidados, o que pensariam dele? Na certa que estaria bêbado, como no ano passado.

Ele examina o livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restaurado, de Henry Kissinger. O cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um grave interesse nos problemas contemporâneos. Vive lhe mandando recortes de jornal com trechos sublinhados e pontos de exclamação na margem. Às vezes, telefona, com recados cifrados.

― Lembra aquela nossa conversa?

― Qual?

― Veja na terceira página do Correio de hoje. Um pequeno tópico no canto inferior direito. É a prova de tudo aquilo que nós discutíamos no outro dia, lembra?



― Não.

― A crise é irreversível, meu filho. Um abração.

Ele só ganha presente de homem sério. De homem preocupado com os problemas contemporâneos. Lenços brancos, camisas sóbrias, meias pretas e marrons. No ano passado, deu para um primo taciturno uma gravata cinza-escura com manchas pretas e estrias roxas, como hematomas. Com um cartão gozando a seriedade do primo. Este ano recebeu de volta a mesma gravata. Sem cartão. As pessoas, pensa, me confundem com um adulto. Vê a filha mais velha que passa equilibrando várias caixas de presentes.

― Te desafio para uma partida de damas.

Não é uma proposta carinhosa. É um desafio mesmo. Posso derrotar qualquer criança nesta sala! Dama, moinho, bola de gude, palavra-cruzada... A filha o ignora e também vai para o quarto.

Decidiram, ele e a mulher, não dar nenhuma arma de brinquedo no Natal. Nem arco e flecha. Os psicólogos não aconselham. Mas ele agora tem uma lembrança que lhe sobe até a garganta e fica atravessada: aos doze anos ganhou uma metralhadora de latão que cuspia fogo. Tinha uma manivela do lado que a gente girava e a metralhadora cuspia fogo! O cunhado senta ao seu lado, com um copo de uísque na mão. Aponta para o livro.

― Isso aí explica muita coisa. Lembras daquela minha tese?...

Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.


O encontro

Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar, mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.

― Você está morando por aqui?

― Na casa do papai.

Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho ― enlatados, bolachas, muitas garrafas ― tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado.

Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!” Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que ele lhe dissera. E ela lhe chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.

― E você? ― perguntou ela, ainda sorrindo. Continuava bonita...

― Tenho um apartamento aqui perto.

Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro reencontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que é que ela estaria fazendo ali àquela hora?

― Você sempre faz compras de madrugada?

Meu Deus, pensou, será que ela vai tomar a pergunta como ironia?

Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.

― Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.

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