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Novela IV: os mistérios da Fonte
Quem tem amor deve pagar um preço por esse amor. Assim diz Adolfo Casais Monteiro, citado na epígrafe da última novela. Portanto, as consequências da derrocada dAs virtudes da casa estão próximas e presentes.

Utilizando uma nova personagem. Gabriel de Simas um padre beberrão, vindo do Rio de Janeiro, o narrador traz para a estância da Fonte uma testemunha que também, há muito, rompera com as virtudes de outra casa: a da Igreja. Imbuído do desejo de conversão e penitência, Gabriel de Simas, ironicamente, procura encontrar na estância de Baltazar Antão, a inocência e a honradez, perdidas com a mulata Joaquina, na casa eclesiástica do Rio de Janeiro.

Micaela joga uma última cartada: a ida do francês para o Rio pardo e a sua fuga definitiva da estância. Mas a Senhora da Fonte, com todos os caminhos barrados, vê-se compelida a desistir de seu intento. O filho, incapaz de assumir pessoalmente tal ato, deixa aos ceifeiros a tarefa de, sem sutilezas ou preâmbulos, prender a Dona às terras sem fronteiras do estanceiro Antão.

Mesmo ciente de que não mais terá o francês Félicien e de que por ele foi abandonada sem pejo, Micaela se fortalece, imbuída de uma ideia fixa: a de não se deixar possuir pelo senhor seu marido.

Amedrontado com o que vê, Gabriel de Simas, vulgo o Beberrote, acompanha as reações da estranha família de Baltazar Antão e o fascínio que, apesar de tudo, a Dona ainda provoca.

Mantendo as aparências, para ocultar os mistérios da Fonte, seus membros se preparam para a festa que culminará com o assassinato de Baltazar Antão, enredado nos encantos da jovem esposa. Cúmplice no ato e no segredo, Isabel, juntamente com Jacinto, prefere o acobertamento do crime. Abolida a figura provocadora de todas as tensões, a família dos Rodrigues de Serpa alcança, aparentemente, a paz desejada.


O CONTEXTO
A ORGANIZAÇÃO SOCIAL E FAMILIAR NAS ESTÃNCIAS SUL-RIO-GRANDENSES
As estâncias, no período de formação do Rio Grande do Sul, apresentavam particularidades, por se encontrarem fora do alcance da lei e da autoridade. Nelas, impunham-se formas de vida peculiares, nas quais fazendeiros e peões estabeleciam relações amigáveis e autênticas atividades de trabalho. Unia-os a vida aventurosa e o regime de milícias rurais.

Sob regime escravista e servil, desenvolvia-se uma economia predominantemente natural, em que a produção visava mais o consumo interno do que a uma atividade lucrativa. Inquietos na defesa de suas fronteiras, necessitando para tanto de embrenhar-se em longínquos territórios, os fazendeiros buscavam obter da terra o que essa lhes dava, sem se preocuparem com uma riqueza determinada.

Não é de estranhar que, frente a essa realidade áspera, em que as oportunidades para uma tomada de consciência filosófica eram mínimas, florescessem as crendices e superstições, vinculadas pelos escravos, acentuando o espírito de religiosidade.

Dividido entre suas atividades pastoris e militares, o estanceiro, por muitas vezes, ausentava-se de sua propriedade, não tendo a maior preocupação pela qualidade da arquitetura de sua casa, acostumado que estava às dormidas em plena campanha. Era sua mulher quem permanecia na fazenda, administrando seus bens e dirigindo seus agregados.

A mulher gaúcha, solitária, acostumou-se à dureza do meio rural e à austeridade de sua vida. A falta de sensibilidade d homem sul-rio-grandense revelava-se no frio dos casarões, na pobreza do mobiliário e no trato sem delicadeza que dispensava à sua mulher.

A estanceira permanecia reclusa, e ordens severas impediam as moças da casa de manterem contatos com visitantes masculinos.


A INSTRUÇÃO NO RIO GRANDE DO SUL

Empenhado na sua sobrevivência e na defesa de suas fronteiras, o Rio Grande não teve, por parte do governo, incentivo para uma educação sistemática. Acrescenta-se o fato de que a colonização sul-rio-grandense foi tardia em relação ás demais povoações da Colônia e que os elementos nucLéares de sua população não apresentavam o grau de cultura dos demais povoadores das regiões do norte do Brasil. A distância da metrópole igualmente não contribuía para que educadores e letrados se deslocassem para esta região ainda despovoada.

A ação dos jesuítas, tão destacada em outros pontos da Colônia, atingiu apenas os indígenas das Missões. Outras ordens, como a dos franciscanos, ocasionalmente, também exerceram sua atividade apostólica, ministrando instrução primária aos guarani da Aldeia dos Anjos em 1770, caracterizando o primeiro recurso de origem oficial no intuito da assimilação dos índios.

Fora essa escola feminina, o ensino sempre esteve entregue a particulares. As escolas particulares que se estabeleciam, apesar de controladas pelo governo, eram pelo menos, uma fonte para o povo obter instrução. Apenas em 1820, contou o Rio Grande do Sul com escolas oficiais de ensino primário (Prado, 1964:228).

Era no clero que se encontravam os elementos mais cultos, nas estâncias, os padres das primeiras igrejas ministravam os fundamentos da leitura e da escrita aos familiares dos fazendeiros. Alguns proprietários mais ricos sabiam ler e outros contratavam mestres particulares, mas o povo, na sua maioria, não tinha acesso à instrução.

As mulheres, com raras exceções, limitavam-se às lides domésticas, porém demonstravam possuir maior discernimento que as demais das capitanias centrais, segundo relato da época:


Em todas as partes do Brasil, por mim percorridas até aqui, não existem escolas ou colégios para as meninas, criadas no meio de escravos e tendo sob suas vistas, desde a mais tenra idade, o exemplo de todos os vícios deles, adquirindo ao mesmo tempo o hábito de orgulho e da baixeza. Há uma grande quantidade que não aprende a ler e escrever. Apenas lhes ensinam algumas costuras e recitar causas que não entendem. Por isso as brasileiras são, em geral, desconhecedoras dos encantos da sociedade e dos prazeres da boa palestra. Todavia nesta região, onde as mulheres se escondem menos que as das capitanias do interior, elas t~em, há convir, vistas mais largas (Saint-Hilaire, 1974:57).
A IGREJA NO BRASIL
Se, para sermos justos, quiséssemos definir o espírito religioso do nosso povo, teríamos que confessar: religiosidade muita; religião, muito menos do que parece. Mas religiosidade e religião são coisas diferentes. Não é religião, está claro, esse sentimento inato, esse pendor natural pronunciado para coisas misteriosas, essa tendência evidenciada em nossa gente para o desconhecido, mas tudo inteiramente estéril e vão. A religião verdadeira importa num conhecimento esclarecido, numa consciência formada, numa prática inteligente de tudo que forma a verdadeira religião católica. Onde está esse conhecimento? Onde esta consciência formada e firmada? Onde esta prática fervorosa, constante, desassombrada e prudente do verdadeiro catolicismo?

(Cardeal da Silva, 1938).

O período colonial
Tendo recebido de Portugal o legado de padroado, a Igreja não gozou nunca do Brasil de independência e de autonomia. Mantinha o governo o monopólio dos negócios, tendo o direito de apresentação dos candidatos a ocupante de cargos de hierarquia, como o de bispos. Podia, igualmente, o rei aceitar recursos contra decisões de autoridades da Igreja e assumir a cobrança dos dízimos obtidos de legados particulares e de funções públicas. Tais “dízimo” visavam a atender às necessidades religiosas de manutenção e restauração das igrejas, serviços assistenciais e sustento dos sacerdotes (côngruas).

Recebiam bispos e padres, como funcionários do Estado, uma remuneração muitas vezes irrisória, pouco digna, o que levava alguns sacerdotes a buscar lucros ocasionais, através de profissões mais rendosas, ou retirada do povo, quando esse lhes solicitava os serviços religiosos.

Premidos pela solicitação financeira, os sacerdotes tornavam-se mercenários, esquecendo seus princípios religiosos e espirituais.

O relacionamento dos fiéis com os pastores reduzia-se a ocasiões especiais, geralmente no tumulto das grandes festas. Pode-se dizer que a Igreja era no brasil uma organização de leigos. Mais do que as paróquias, eram as irmandades e as ordens terceiras que constituíam o núcleo da prática religiosa organizada. (Hauck, 1985:13)

Não havia uma real preocupação com a doutrinação do povo. Ministravam-se os sacramentos, depois de uma catequese muito superficial. A cultura clerical consistia no conhecimento do latim, noções sobre teologia dogmática e moral e conhecimento do direito canônico, deixando a formação dos padres muito a desejar.

A religião oferecida no Brasil assumia caráter social, de um catolicismo barroco e festivo. Numa época em que as mulheres gozavam de uma liberdade muito restrita, uma das fontes de libertação era a assistência ás festas e cultos religiosos.

Criava-se, assim, uma religiosidade superficial, repetitiva e maquinal, expressa nas rezas dos oratórios e capelas.
Os primeiros passos da Igreja no Rio grande do Sul
Se a Igreja no país enfrentava os problemas do padroado e suas consequências, no Rio Grande do Sul as enormes distâncias entre as povoações acentuavam a dificuldade para se conseguirem os sacerdotes necessários.

A necessidade de locomover-se para entender seu rebanho impunha ao sacerdote o contato com o ambiente dissoluto das estalagens e com a liberdade de costumes que existia entre os escravos e índios das fazendas. Pelas circunstâncias da terra, via-se o vigário, não poucas vezes, obrigado a dispensar seus paroquianos de muitos preceitos religiosos, abrindo precedentes para que ele próprio fugisse de suas obrigações.

A Igreja, no Rio Grande do Sul, era também usada como forma de sustentar a moral e os costumes, negando os vigários a absolvição aos contrabandistas de gado e às pessoas que com eles negociavam. O governo tinha interesse na presença da Igreja, pois, através dela, se faziam os registros de nascimentos, casamentos e óbitos.

O sistema latifundiário e a escassez dos padres eram motivos. para que esses relegassem aos fazendeiros e pais a orientação religiosa. Essa, por motivos óbvios, era de pouca serventia, posto que nem fazendeiros nem pais conheciam os fundamentos da doutrina. Para acentuar o problema, o analfabetismo era geral.

A falta de instrumentação religiosa e a incredibilidade da honradez dos sacerdotes cria uma população cheia de superstições e de fraca vivência espiritual. O homem da campanha é um homem não dado á reza, vendo, nas cerimônias de culto, simples ato de rotina social e frequentando procissões e novenas sem o calor da fé.
O UNIVERSO FICCIONAL DE AS VIRTUDES DA CASA

ANÁLISE DOS PERSONAGENS


Aparentemente uma família feliz, OS Rodrigues de Serpa convivem na estância da Fonte com seus agregados, escravos e peões, vivendo numa comunidade onde impera a autoridade de Baltazar Antão. No decorrer da ação, os personagens vão revelando suas múltiplas faces e, passo a passo, é dado conhecer sua textura e caráter, através da ótica dos demais, criando uma visão polifônica de suas personalidades.
Baltazar Antão
Em síntese, pode-se dizer que Baltazar Antão é um homem

  • forte, peludo, corpo pesado e musculoso, viril, carnes rijas, vergonhas colimosas;

  • autoritário que detém em suas mãos a posse de tudo: pessoas e coisas..

Decide-lhes o destino, infunde-lhes coragem, determina-lhes a ação;

  • com valores claros, determinados e hierarquizados: os haveres, os filhos, as terras, a mulher;

  • bom, íntegro, brando, equilibrado, apaziguador das paixões, apesar de eventuais rompantes;

  • rude, inculto nas artes mais delicadas do amor, mas com uma sexualidade fortemente desenvolvida. Preocupa-se apenas com o próprio prazer.

Isabel



  • inocente, de fino trato, olhar dócil, vivendo à sombra de sua belíssima mãe, inferiorizada e tímida;

  • sensual, percebendo e desejando intensivamente os primeiros prazeres do corpo;

  • inquieta, fechada, inacessível, remoendo o amor oculto pelo pai e por isso negando sua efetividade à Micaela;

  • solitária e agressiva, assumindo o papel de guardiã da casa e de preservadora das virtudes da família, pronta a ir até às últimas consequências no cumprimento do dever.

Jacinto



  • manco, de corpo grosso e desajeitado, suíças negras;

  • cheio de remordimentos, envolto por uma paixão proibida;

  • modelo de castidade, inseguro, tentando fugir aos revezes da vida;

  • impotente no trato às demais mulheres e incapaz de escapar ao fascínio da mãe;




  • triste, acobertado pelo manto fúnebre de suas crenças religiosas, comvivendo com um forte sentimento de culpa em relação ao pai, a quem odeia e ama ao mesmo tempo.

Micaela



  • lida e vaidosa, exemplo de esposa e de mãe, uma Santa Mônica;

  • recatada, com trajes severos e travessas escuras;

  • insatisfeita nos seus apetites sexuais, lasciva e sensual, buscando a realização de suas fantasias;

  • dominadora, opressiva e odienta quando luta por seus desejos;

  • forte, lutadora, impulsionada por um sonho de liberdade;

  • derrotada só na aparência.

Félicien de Clavière




  • o homem mais lindo que já pusera os pés na estância da Fonte;

  • um vagamundos de olhar impenetrável e oculto;

  • o amante cheio de delicadezas e finezas de espírito;

  • um réptil viscoso cheio de luxúria;

  • o estrangeiro culto e requintado, que compartilha das belezas da estância da Fonte;

  • a imagem de Santo Antônio, com olhos azuis.

Gabriel de Simas




  • o beberrote execrado pela comunidade do Rio de Janeiro;

  • o amante do pecado de fornicação e da bebida, o gerador de um bastardo;

  • o homem cheio de remorsos, em permanente conflito, desejoso de expiar suas culpas;

  • o sacerdote corrupto, mas mesmo assim ainda um ministro de Deus.

Tia Almerinda




  • a beata catequista que divulga as noções religiosas na família;

  • a tia amante das regras e dos ritos;

  • a viúva portadora de uma fé rígida, de cunho punitivo.

Escravos, peões e agregados


Coabitando num mesmo cenário, mas nem por isso integrando-se à vida social que nele se desenvolve, os escravos, peões e agregados são os olhos atentos, as vozes lamentosas da comunidade que se angustia frente aos desatinos cometidos, testemunhas vivas que dão autenticidade aos atos dos Rodrigues de Serpa.
ANÁLISE DA IDEOLOGIA

No universo ficcional de As virtudes da casa, pode-se verificar, desde o início, que os habitantes da Fonte vivem num regime patriarcal, onde a obediência à autoridade, à ordem hierárquica e à sociedade deve ser mantida. Assim, a vinda de um botânico francês e o imperativo de acolher o ilustre visitante não podem ser contestado.

Os Rodrigues de Serpa são dignos representantes de uma classe dominante que deve manter o seu status quo, o filho numa obediência servil, aquiescendo às ordens do pai.

No contexto familiar, as mulheres apresentam papéis rígidos em que a modéstia e o recato são suas vestes diárias, criando uma falsa ideia de seres sem humores ou paixões. A mãe, como a guardiã zelosa, modelo da mulher contida e honesta, preserva a moralidade da família. A filha enfrenta o falatório, a castração, o destino de antemão traçado.

É incutida uma mentalidade de continência e castidade para as mulheres, visando ao adestramento da sexualidade ao matrimônio, visto que seria a família a célula a propagar a moral cristã e a fé católica.

A posição de senhora casada implica não apenas o amor compulsório ao marido e o desejo de querer o seu bem, mas é também demonstrada no ritual externo, no uso do traje que não deve mais incitar o desejo de outro homem, como uma marca de que, agora, seus limites são outros.

A execução dos deveres conjugais dá apenas ao homem o prazer. À esposa cabe a submissão, a ausência de paixão, a obediência. A relação extraconjugal é aceita como fraqueza humana, quando iniciativa do marido, e tem o beneplácito e o perdão sem reservas da Igreja.

A masculinidade está na valorização do guerreiro, do homem audaz e produtivo, livre. Por isso, jacinto sofre discriminação por parte do pai e da comunidade. Como ex-seminarista, Jacinto é visto como alguém de enfraquecida virilidade, embora a religião, segundo a ideia popular, lhe desse alguma vantagem por ser uma atividade ociosa e lucrativa.

A Igreja, detentora do saber e da cultura, exerce também conchavos, visando à obtenção de maior poder. Seus sacerdotes, alheios aos votos sagrados, rompem com o celibato clerical e dedicam-se a atividades lucrativas.

Como pano de fundo da estância da Fonte, vê-se uma sociedade em que a burguesia convive na hipocrisia e mesquinhez de sentimentos.

As relações com os escravos e índios são de dominação e menosprezo: os negros estão sob suspeição de não possuírem alma; os índios fugidos das Missões só recebem como paga o alimento, pertencendo à escala social mais baixa e mais sofrida. Nas guerras, o uso das índias como objeto sexual é corriqueiro.
Textos e personagens: estudos de literatura brasileira. In LOPES, Cícero Galeno,. Porto Alegre: Aagra-Luzato, 1995.


O Agamênon e As virtudes da casa

Janaína Cé Rossoni1



Este artigo visa identificar elementos caracterizadores da passagem trágica de Agamenon, de Ésquilo, na obra As virtudes da casa, de Luís Antonio de Assis Brasil, através de uma relação de identificação entre os personagens, a estrutura e os enredos das obras. Os textos suscitam novas discussões sobre o mito, sobre a tragédia humana, sobre o que rege as escolhas e os caminhos do homem.
Palavras-chave: Agamênon, mito, tragédia, literatura.
Sendo a literatura uma forma particular de comunicação e expressão, o texto literário carrega a marca da insuperabilidade, porque, assim como as pessoas, os textos literários são diferentes, portanto, não se superam. O traço da individualidade e a expressão diferenciada e singular de cada escritor fazem com que o texto literário desfrute da característica da diversidade, ou seja, que versam sobre o mesmo tema com enfoque diferente. Há renovação da palavra e, com isso, a reelaboração do tema. Os textos não se repetem; se completam. A tragédia grega de Ésquilo, Agamenon, escrita em 458 a.C., retorna à humanidade sob o novo enfoque, na obra ficcional As virtudes da casa de Luiz Antonio de Assis Brasil. Por ter relação com o mundo, o texto comunica ao indivíduo novas discussões sobre o mito, sobre a tragédia humana, sobre o que rege as escolhas e os caminhos do homem.
Em seu livro Literatura grega, Donaldo Schuler (1985, o.166) refere-se aos gregos desta forma: “[...] o homem grego rompe deliberadamente a ordem rígida do universo mítico em busca ousada de soluções livres para os problemas com que se defronta. Determinado a vencer fronteiras, provoca a emergência do ilimitado em tudo o que pensa e faz.” Em virtude disso, nasce a narrativa trágica de Ésquilo, que abrange as mais profundas aspirações do ser humano, tais como sua sede de absoluto, de transcendência e sua busca de plenitude. Essas aspirações, contudo, não pertencem apenas ao mundo grego ou à época antiga. Pertencem a todos os povos de todos os cantos do universo. A insatisfação e a inquietude estão presentes intrinsecamente no ser humano e o acompanham durante toda a sua vida.
Os comentários acima servem para justificar o estudo que será realizado nesta monografia, a qual objetiva cotejar elementos caracterizadores da passagem trágica de Agamenon, de Ésquilo, a através de pesquisa bibliográfica sobre a mitologia grega, sobre a obra Agamênon, de Ésquilo, e através da leitura, apreciação e análise do romance As virtudes da casa, de Luiz Antonio de Assis Brasil.
Nesse propósito, a monografia disporá de dois capítulos: o primeiro contribuíra com base teórica sobre o conceito de mito, o mito Agamenon na visão de alguns autores, especificamente, o mito de Agamenon na tragédia de Ésquilo; o segundo capítulo trará elementos que comprovam a presença do mito Agamenon em As virtudes da casa, através de comentários e citações que colocam em evidência as semelhanças existentes na tragédia e no romance. Pretende-se, portanto, analisar as obras e trazer à tona as coincidências que nelas se presentificam.
1 O QUE É MITO?
O vocábulo mito (do grego, mythos), sinônimo de fábula, enredo e narrativa, apresenta-se como um conceito não definido de modo preciso e unânime. Trata-se, contudo, de um aspecto antropológico fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo, como traduz o modo como um povo ou civilização entende ou interpreta a existência.
De acordo com Massaud Moisés, em Dicionário de termos literários, a antropologia e a filosofia consideram o mito como a palavra que designa um estágio do desenvolvimento humano anterior à História, à Lógica, à Arte, ou seja, é a narrativa do que os deuses ou seres divinos fizeram no começo dos tempos.

Segundo Bronislaw Malinowski (apud GRIMAL, 1922), omito realça a função social que as narrativas míticas desempenham na vida comunitária, fundamentalmente no que tange aos usos e as normas básicas do convívio, ou seja


O mito cumpre, na cultura primitiva, uma função indispensável: expressa, acentua e codifica a crença; protege e reforça a moral; vigia a eficiência do ritual e de certas regras práticas para a orientação do homem. O mito é, assim, um ingrediente vital da civilização humana; não é uma fábula vã, mas uma força criadora ativa; não é uma explicação intelectual ou uma imagem artística, mas é u, privilégio pragmático da fé primitiva e da sabedoria moral(MALINOWSKI apud GRIMAL, 1992, p.7).
Já a consciência mítica, na qual o existir se processa em obediência a seres que regem o curso dos eventos cósmicos e humanos, entende o mito como o princípio de realidade, que fala somente do que é plenamente manifesto, i.e., do que acontece realmente. Assim, omito encadeia-se ao sagrado, revela o profundo vínculo entre o biológico e o religioso e prescreve regras para as ações (como a navegação, a pesca, a guerra etc). O mito aparece como uma condição necessária à ordem do caos e às relações entre os seres. Colaborando com essa visão, temos os estudos de Mircea Eliade (apud GRIMAL, 1992) que define omito do seguinte modo:
[...] o mito conta uma história sagrada; relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial; no tempo fabuloso das origens. Por outras palavras, omito conta como, graças aos atos dos seres sobrenaturais, uma realidade teve existência, quer seja a realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É, pois, uma narrativa de uma criação: conta-se como qualquer coisa foi produzida, como começou a ser (ELIADE apud GRIMAL, 1992, p.13).
Para Aristóteles (apus MOISÉS, 1974, p.345), o mito corresponde à imitação de ações, que intrega toda a existência e, mesmo sob o aspecto de fábula, manifesta a possibilidade dos diversos comportamentos, pensamentos e linguagens do homem. Sendo forma de comunicação humana, omito, além de relacionar-se com questões de linguagem, refere-se à vida social do homem, uma vez que a narrativa dos mitos é própria de uma comunidade e de uma tradição comum. Dessa maneira, o mito é a parole, a palavra revelada, o dito que circunscreve um acontecimento antes de fixar-se como narrativa. É através das palavras que os mitos se transmitem e garantem sua permanência num determinado período de tempo.Como afirma Roland Barthes, citado por Grimal em Dicionário de mitologia grega e romana, omito não pode, consequentemente, “ser um objeto, conceito ou uma ideia: ele é um modo de significação, uma forma” (apud GRIMAL, 1992, p.19). Assim, não se há definir omito “pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere”. Conforme o mesmo autor, “é história que transforma o real e, discurso, é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica”.
É importante tal observação, pois nos alerta a perceber que omito só se constroino passar do tempo, e no contar e recontar de um fato. Segundo a sabedoria popular, quem conta um conto aumenta um ponto e é nesse aumentar de pontos que os elementos míticos vão se agregando e se constituindo como uma representação coletiva, através de várias gerações, relatando uma explicação do mundo. Por conseguinte, o verdadeiro objeto do mito não são os deuses nem os ancestrais, mas a apresentação de uma versão da história de Electra e, numa tragédia perdida de Sófocles, Aletes, era a personagem principal. Na famosa versão de Eurípedes é tratada como escrava, e Egisto obriga-a, alam disso, a se casar com um simples camponês para evitar que gerasse um filho nobre, capaz de vingar a morte de Agamenon.

Quando Orestes se torna homem, retorna secretamente a Argos em companhia de Pílades, filho de Estrófios. Em uma cena que os poetas tornaram famosa, Electra encontra-se com ele ao visitar o túmulo de Agamenon e o reconhece.

A seguir, por ordem de Apolo, com ajuda de Electra e de Pílades, e através de um estratagema, Orestes mata Egisto e a própria mãe, vingando finalmente o assassinato do pai. Na Electra de Eurípides, a irmã participa ativamente da morte de Clitemnestra. Após a vingança, Orestes é perseguido pelas Erínias por matar alguém de seu próprio sangue. Açoitado e relembrado de seu fúnebre feito, Orestes corre em busca de um refúgio. Encontra-o sob Apolo, que o abriga e o protege. Surge uma nova lei e com ela a invenção do tribunal. Orestes é julgado no Areópago. Dos seis juízes, três votam a favor do perdão do crime de Orestes; três votam a favor das Erínias. A deusa Atena é convocada. Seu voto decisivo pe fundamental para o desempate. Ela vota a favor de Orestes, afinal de contas, assim passaram a pensar, um rei é muito mais importante que uma rainha.
1.2 O mito de Agamênon na tragédia de Ésquilo
Ésquilo é o mais antigo dos poetas trágicos cuja obra chegou até nossos dias. Nasceu em 525 a.C. em Elêusis, perto de Atenas, e morreu em 456 a.C. na Sicília, em Gela. Apresentou-se pela primeira vez nos concursos trágicos em Atenas, em 499 a.C., com um drama cujo nome hoje desconhecemos; obtém vitória em 484 a.C. e depois se torna vitorioso mais doze vezes. Os testemunhos antigos atribuem-lhe cerca de noventa obras, entre tragédias e dramas satíricos. De todos os seus escritos somente sete tragédias sobrevivem, graças a uma antologia compilada na época do Imperador Adriano (76-138 a.C.).

As tragédias Agamênon, Coéforas e Eumênides, de 458 a.C., constituem uma trilogia da peça Oréstia. Os personagens principais são sombrios e dominados por uma única meta: a vingança. As ações humanas têm consequências inevitáveis, pois sempre são guiadas pela fatalidade, pelo destino, ou pela vontade dos deuses.

Interessa-nos, neste trabalho, analisar, em particular, Agamênon, a primeira tragédia e, sobretudo, a mais emocionante trilogia de Ésquilo, que conta a morte do rei logo depois da queda de Tróia.O mito, já referido anteriormente, renasce sob o olhar do poeta trágico, que habilidosamente torna os versos misteriosos, densos, ritmados e repletos de detalhes instigantes. A palavra transforma-se e traz vida ao herói, que morre apenas na história, mas continua vivo na linguagem literária.

A tragédia tem 1673 versos e constitui a primeira parte da Oréstia, premiada no concurso de 458 a.C., em Atenas. A trilogia começa nas trevas, no Palácio dos Atridas, e termina em plena luz, no Areópago de Atenas. Trevas e luto, em contraste com chama e luz, que enriquecem o texto da Oréstia, são índices preciosos que põem o leitor de sobreaviso para o grande conflito entre o matriarcado (Clitemnestra) e o patriarcado (Agamênon).

No intuito de identificar elementos caracterizadores da passagem trágica de Agamênon em As virtudes da casa, de Luiz Antonio de Assis Brasil, é indispensável, neste trabalho, conhecermos os personagens escritos por Ésquilo que representam o mito nesta primeira peça. Agamênon, filho de Atreu e rei de Argos e Micenas, é o comandante dos gregos na guerra de Tróia. Clitemnestra, filha de Tindareu e Leda, é irmã de Helena e esposa de Agamênon. Egisto, filho de Tiestes, primo e inimigo de Agamênon, torna-se amante de Clitemnestra. Cassandra, filha de Príamo, rei de Tróia, é trazida por Agamênon em sua comitiva como troféu de guerra. O vigia, o arauto, o coro, composto de doze anciãos argivos fiéis a Agamênon, e o corifeu, que exerce a função de principal representante do povo, estão presentes em grande parte das tragédias gregas.

Há, por outro lado, personagens apenas mencionados na peça (figurantes),mas que merecem distinta atenção: Menelau, irmão de Agamênon, é marido de Helena e rei de Esparta. Helena, filha de Zeus e Leda, é esposa de Menelau. O seu rapto por Páris causa a guerra de Tróia. Páris, filho de Príamo, é amante e raptor de Helena. Príamo, rei de Tróia, é pai de Páris e Cassandra. Electra representa a filha de Agamênon e Clitemnestra. Orestes também é filho de Agamênon e Clitemnestra e se encontra ausente de Argos por ocasião da volta e do assassinato de Agamênon. Mais tarde, Orestes retorna para matar Egisto e Clitemnestra, com cooperação de Electra, sua irmã. Ifigênia, irmã de Electra e Orestes, é sacrificada pelo pai. Calcas, profeta participante da expedição a Tróia, decifra as mensagens enviadas pelos deuses. Cabe salientar que os gregos são também chamados de aqueus, argivos ou helenos.

A ação do Agamênon inicia-se à noite, pouco antes do amanhecer. O vigia, que monta guarda no terraço do palácio dos Atridas, deseja ardentemente ver o sinal combinado, que anunciará a vitória aqueia sobre os troianos:
Espreito a todo instante o fogo sinaleiro/ que nos dará notícias da queda de Tróia;/ são ordens da mulher de ânimo viril,/rainha nossa, pertinaz na esperança (ÉSQUILO, 1964, p.01).
Ao lamento pela infindável fadiga, segue-se a alegria quando se acende o fogo que dá o sinal. Porém, logo o contentamento termina, por se saber o delito e o perigo que se acumulam no palácio. O anúncio da destruição de Tróia feito por Clitemnestra aos argivos não prova júbilo, pois, a vida adúltera que a rainha leva no palácio, em companhia de Egisto, não permite prever acolhida triunfal.

Tendo retornado vitorioso à pátria, Agamênon é recebido pela esposa, Clitemnestra, com falsas demonstrações de respeito e devoção. Cassandra, a princesa troiana que o acompanhava como despojo de guerra, prevê sua própria morte e a do rei. Ludibriado por Clitemnestra, Agamênon segue-lhe os passos, caminhando sobre um tapete de cor púrpura – signo do sangue que vai ser derramado – até o interior do palácio no qual, com ajuda de Egisto, ela o apunhala. O rei encontra a morte juntamente com Cassandra. Empunhando a arma assassina, Clitemnestra gloria-se do crime praticado, sem obter aprovação dos argivos, que, confiantes na justiça, aguardam novo golpe do destino.

Junito Brandão, em seu livro Teatro grego, refere-se aos personagens de Ésquilo da seguinte forma:
Suas personagens, sendo mais heróis que homens, seu drama é uma luta desesperada entre as trevas e a luz, entre a agonia e o terror, entre o Hades e o Olimpo, entre as Erínias e Apolo. Nessa luta de vida e morte, o grande trágico busca nervosa e desesperadamente uma conciliação entre o dike, o princípio da justiça e a Moira, o destino cego [...](BRANDÃO, 1985, p. 17).
O poeta grego não teme adaptar os mitos a seus interesses. Na versão de Homero, Egisto convida Agamênon para uma festa e o assassina, auxiliado por Clitemnestra. Ésquilo, com intenção de culpar a esposa atribui-lhe o papel principal no assassinato com a participação secundária de Egisto.

A leitura da tragédia familiar permite a compreensão de que o orgulho e atitudes desmesuradas são punidos e o castigo torna-se inevitável. Para o poeta, não há esperança nem promessa, o sofrimento é uma página de sabedoria. A moira, fatalidade cega, esmaga o homem que ultrapassa o métron, a medida humana. Nos dramas de Ésquilo é preciso sofrer para compreender, uma vez que a dor redime e concilia. Sendo assim, Ésquilo retira do heroia imagem do homem justo e de princípios. Donaldo Schuler, em Literatura grega, manifesta-se diante desse novo heroiquando diz:


Os heróis antigos já não são os modelos de virtude festejados na poesia lírica. Cobertos de crimes tornaram-se espelhos de almas divididas. Despidos da exemplaridade ética, convidam a refletir e não a serem imitados. Como aos filósofos, aos tragedistas interessa a verdade, acima do comportamento virtuoso (SCHULER, 1985, p. 98).
2 O MITO DE AGAMÊNON EM AS VIRTUDES DA CASA
Este capítulo visa a identificar elementos caracterizadores da passagem trágica de Agamênon, de Ésquilo, na obra As virtudes da casa, de Luiz Antonio de Assis Brasil, através de uma relação de identificação entre os personagens, a estrutura e o enredo das obras. Os textos não se repetem, se completam. A tragédia grega de Ésquilo, escrita em 458 a.C., retorna à humanidade, sob novo enfoque, na obra ficcional de Assis Brasil. Os textos suscitam novas discussões sobre o mito, sobre a tragédia humana, sobre o que rege as escolhas e os caminhos do homem.

2.1 Estrutura das obras


A peça Agamênon, composta por quatro partes, conforme Albin Lesky em História da literatura grega, traz a visão dos diversos personagens quando estes recebem a voz no diálogo. O coro e o corifeu exaltam o rei, suas conquistas e seu retorno ao palácio, Clitemnestra o amaldiçoa, justificando, no jogo de palavras que usa, seu crime, e Cassandra recebe um considerável espaço na narrativa quando profetisa sua morte e a do rei. A fala do sentinela corresponde à exposição que, em estágios anteriores, precedia o coro com a finalidade de ambientar o espectador. Ésquilo, ao inovar, tira o caráter puramente informativo do prólogo, tornando-o expressão dos conflitos de quem fala.

Em As virtudes da casa, também há um prólogo prenunciativo diante de cada uma das quatro novelas que compõem o romance. Esses prólogos correspondem a passagens de obras de escritores diversos, a fim de caracterizar os capítulos que seguem de maneira um tanto profética. Cada novela é narrada sob o olhar de uma personagem do enredo do romance. A primeira, intitulada Isabel, enfoca a visão de Isabel quanto pai, à mãe, à vida na estância e sobre o que ocorre após a chegada do francês. Na segunda, Mas os deuses estão vivos, é a vez de Jacinto contar e refletir sobre sua condição, seus problemas e seu amor pela mãe, que, sempre acolhedora, afasta-se do filho em virtude do francês. Micaela justifica seus atos e os conta com detalhe na terceira novela, As dores e os frutos. É possível perceber a discrepância comque os mesmos fatos narrados por seus filhos tomam novo enfoque em sua maneira de pensar e agir. A última novela, intitulada Os mistérios da fonte, é narrada sob a visão do padre Gabriel de Simas, que não conhece a estância, porém percebe que o clima não é próprio para uma boa estada local.


2.2 Personagens e enredos das obras
Agamênon, rei de Argos, revive na pacata estância da Fonte, em pleno pampa gaúcho, à luz das palavras de Luiz Antonio de Assis Brasil. O mito trágico ressurge na pessoa de Baltazar Antão, coronel e proprietário da estância da Fonte, que parte para a guerra contra os castelhanos, a serviço do rei. Também na tragédia esquiliana, conforme capítulo anterior, Agamênon parte para a guerra de Tróia, a fimde capturar Helena esposa de seu irmão Menelau.

O escritor gaúcho narra as vicissitudes da família de Baltazar Antão, coronel que parte para a guerra contra Artigas, mas que antes de partir reitera aos familiares o pedido de servir bem ao estrangeiro, o qual se instalará na estância. Micaela, sua esposa, e seus filhos, Isabel e Jacinto, não aceitam bem a partida do patriarca, nem mesmo esperam de bom grado a vinda do francês que não tarda a chegar.


O novo traz mudanças, e o clima saudosista da casa toma outros rumos. Sendo jovem, culto e atraente, o estrangeiro desalinha a ordem cultural vivida até então pelos membros da casa. Isabel e Jacinto encantam-se com as palavras e os modos do homem loiro. Cabe ressaltar neste momento um trecho que revela bem a magia de Félicien:
Os campos e os matos, antes tristes e sem encantos, tomavam novo sentido, sob o olhar de Félicien; desdobravam-se ondulantes, vivos, como animais ou feras que acordassem. Mortos que antes estavam, engastados em sua solidão sem serventia, agora passavam a vibrar, tornavam-se presentes, volumosos, com suas figuras, cheiros e cores. Assim era tudo em que Félicien punha os olhos. Sua mágica alcançava as coisas e elas se tornavam ouro, ou cobre, cintilações de prata (ASSIS BRASIL, 1993, p.42).

A mãe, Micaela, também deixa-se seduzir. Conhece a paixão, o prazer. O francês é luz, é vida. Mudam-se os conceitos, não há medo, vergonha, nem culpa. Tudo está justificado pela descoberta da felicidade e do amor. Micaela, portanto, representa Clitemnestra, esposa de Agamenon e irmã de Helena. Ambas são fortes, sensuais e traidoras. Na tragédia de Ésquilo, a rainha jura vingança ao marido ao saber que ele é obrigado a sacrificar a filha Ifigênia à deusa Ártemis para que o exército conseguisse embarcar. Clitemnestra, então, torna-se amante de Egisto, inimigo da família, e começa a conspirar contra o marido durante sua longa ausência. Assim, também, age Micaela ao trair o marido com o francês Félicien, que lhe oferece prazeres jamais sentidos enquanto a esposa de Baltazar Antão:


Espantava-se de estar com esses pensamentos, como se Baltazar Antão fosse um estranho, não seu marido, o homem a quem era obrigada a amar e desejar apenas o bem. Não sentia sua falta, até dava a impressão de que sempre fora solteira. Baltazar Antão era pouco mais que um nome. Talvez um nome e uma fala grossa, um semblante que se confundia com outros homens, um rosto com barba por fazer (ASSIS BRASIL, 1993, p.190).
Tanto a estância da Fonte quanto no palácio de Argos, a quietude, a paz e o sossego cedem lugar ao desespero. Enquanto Micaela saboreia sua vida adúltera, os filhos Isabel e Jacinto vivem momentos de tensão. Não aceitam a traição da mãe, e Isabel, principalmente, espera ansiosa o retorno do pai, que trará segurança e conforto à família, reestruturando a ordem da estância. Nesse ponto o drama, “A casa impregna-se com pestilências, com loucuras insondáveis como os abismos” (ASSIS BRASIL, 1993, p. 145). Isabel, então, filha de Baltazar Antão e Micaela, assemelha-se à Electra. Sofrem com o adultério e agem da mesma forma quando tomam atitudes frente aos irmãos, Jacinto e Orestes, respectivamente. Há concorrência com as mães jovens e bonitas, e intolerância quanto à desonra dos pais; por isso, o ciúme e, consequentemente, a raiva. Electra é maltratada pela mãe e pelo amante durante anos e Isabel obriga-se a submeter-se às ordens de Micaela, que assim procedia na estância da Fonte:
E Micaela Luzia, senhora de seus encantos, segura de sua força. Voltava a comandar, remoçada, os anos não tinham passado, ela se congelara no tempo, até sentir o toque do francês, que teve o dom de iluminar o mundo, deitando vida naquele corpo já morto, naquelas carnes adormecidas. E que novamente adquiriram sabor, mistérios, perigos. Falsidades e quebrantamentos (ASSIS BRASIL, 1993, p.118).
Devido ao fato de não poderem se expor e, de certa forma, guardarem segredo do que estava acontecendo em suas casas, a fim de manterem “as virtudes da casa”, Isabel e Electra relacionam-se com escravas, tornando-se confidentes e conselheiras. Donaldo Schuler manifesta-se, diante disso, nesta passagem em que cita Electra: “A luta pela liberdade mostra-se intensa em Electra, escravizada por quinze anos na casa da mãe assassina. A prolongada servidão não lhe dobrou o ânimo. Nos seus conflitos, aconselha-se com o coro, constituído também de escravas, identificadas com ela na revolta (SCHULER, 1985, p.99). Em As virtudes da casa, Isabel elege a escrava Florência que, em vários momentos, demonstra temor diante dos acontecimentos futuros. Entre tantas, cita-se, a seguir, a passagem em que Florência fala das previsões feitas por seu pai e aconselha Isabel:
Meu pai cego na senzala disse que se arma um grande mal na estância da Fonte, um mal horroroso, de pôr os cabelos em pé. Mas se vai acontecer, Florência, disse Isabel, se Deus já determinou, eu não posso fazer nada contra a vontade dEle. Lá isso é verdade, dona Isabel, mas às vezes os homens conseguem ter uma vontade que, se for bem forte, pode ir mesmo contra a vontade de Deus (ASSIS BRASIL, 1993, p.81).
Os irmãos recebem especial atenção nas narrativas. Para evitar a morte de Orestes, Electra o manda para a casa de Estrófios, rei casado com uma irmã de Agamenon. Encontra-o anos depois, para que possam dar desfecho ao crime da mãe. Jacinto, em As virtudes da casa, não suporta assistir ao comportamento de Micaela. Julga-se fraco, sendo aleijado de corpo e de “alma”, segundo Assis Brasil. Diante disso, o personagem deixa a estância e vai viver pelos campos, com os peões e os índios, com quem aprende a ter mais força e coragem. Isabel vai ao seu encontro compartilhar sentimentos e pedir ajuda. Mesmo demonstrando frieza ao receber a irmã, percebe-se nítida emoção em sua fala e em seus gestos. Nesta maneira de escrever, que explora cuidadosamente os sentimentos, Assis Brasil assemelha-se à Ésquilo. Conforme Donaldo Schuler, em Literatura grega, Ésquilo evitava sempre o encontro de pessoas que se querem, porém consentiu-o na reaproximação de Orestes e Electra, sem explorar reações sentimentais, concentrados exclusivamente no cumprimento do dever. O mesmo ocorre no encontro de Isabel e Jacinto, no qual os sentimentos não se afloram, apesar de serem quistos, devido ao incômodo familiar vivido por ambos.
O destino de Orestes é vingar a morte do pai e, dessa forma, honrar Agamenon, um rei tão forte na guerra e tão frágil no amor. Para tanto, o filho mata Egisto, o amante, e sua própria mãe, a rainha Clitemnestra, a quem tinha profundo amor. Semelhantemente, em As virtudes da casa, Jacinto consuma o mesmo ato em seus pensamentos, argumentando o feito e agindo como Orestes ao assassinar a mãe, Micaela:
De novo a ideia de morte, ele o instrumento, seria possível tanta desgraça? Uma faca, uma lâmina, um punhal enterrando-se naquela pelezinha branca, cortando os seios viciosos, o sangue denso e escuro escorrendo pelo ventre, os cheiros da carne desfibrada misturada aos perfumes de madeira. Os lindos bandos revolvidos pelos estertores da cabeça frenética, os gritos cortando o ar, um animal sacrificado (ASSIS BRASIL, 1993, p. 305).

O romance gaúcho, portanto, dialoga com a tragédia grega Agamenon. A maldição familiar presente na trilogia mais famosa de Ésquilo, repete-se no interior do Rio Grande do Sul, e o clímax dos enredos refere-se ao assassinato do rei Agamenon e ao assassinato do coronel Baltazar Antão. Quanto a este último, o prólogo da Novela IV, Os mistérios da fonte, é taxativo. Suas palavras referem-se tanto à esposa, Micaela (devido ao adultério, sua fuga sem sucesso ao encontro do francês e ao assassinato do marido), quanto ao próprio Baltazar Antão, em razão da destruição de uma cidade em ato de guerra e às decorrentes mortes assinaladas por ele. Faz-se importante citar o prólogo, cujo autor é Adolfo Casais Monteiro, do livro Poesias completas, de 1969. O trecho procura revelar o destino de quem tem algo em haver com sua própria consciência. Ao citá-lo, Assis Brasil rememora Ésquilo, a quem o destino foi profundamente salientado em Agamenon:


Tiveste o que pediste, não podes reclamar,

se veio juntamente um brinde inesperado.

Querias amor? Pois aí tens, ao amor!

Por que tiveste a inocência de julgar

que não havia nada a pagar?

(MONTEIRO apud ASSIS BRASIL, 1993, p.280).


O crime aos maridos é planejado antecipadamente pelas esposas. Cada uma com um plano vingativo em nome do amor. Clitemnestra antecipa em seu diálogo com o corifeu, de modo dissimulado, a morte de Agamenon nestas palavras:

A luta não termina com a vitória; falta

a volta, que é metade de um caminho longo.

Ainda que regressem todos de mãos limpas,

sem máculas de impiedades e excessos,

O ultraje aos muitos inimigos mortos

se não causou até agora dissabores

mais tarde pode provocar rancor divino.

Ouviste simples pensamentos de mulher (ÉSQUILO, 1964, P.14).


Micaela, resoluta em mudar sua vida, planeja a morte do marido aos poucos. Primeiro, assume seu amor por Félicien e não teme a volta de Baltazar, já que pensa estar morto na guerra:


Quem era Baltazar Antão, antes de presença tão viva e amedrontante? Quem era? Quem era Isabel, que a olhou frente à capela, os olhos acesos e atentos? No corredor, lá embaixo, não soavam os passos do marido; encontrava-se ele em outro mundo, para as bandas castelhanas, não voltava nunca, cruzado e varado por uma lança, adaga ou flecha. Ou por veneno traiçoeiro, ela pensou, lembrando-se do vidrinho que estava dentro daquela caixa (ASSIS BRASIL, 1993, p. 222).

Após ter notícias do retorno de Baltazar Antão vitorioso, planeja fugir da estância com o amante. Nesse ínterim, Micaela assume ares de Helena de Tróia, ao ousar o que jamais ninguém ousara naqueles campos: deixando a estância, rumo a Rio Pardo, a fim de encontrar com Félicien e partir mar a fora. O francês, então, parte um dia antes que ela para Rio Pardo, a fim de esperá-la. Os filhos, porém, percebendo o intento da mãe, resolvem impedir sua fuga para que, quando o pai chegasse, as virtudes da casa fossem mantidas e o ritual de espera, repleto de cerimônias, fosse cumprido. Micaela não consegue fugir. Retorna à casa decidida a assumir sua postura de mulher dona da casa:


A tormenta deixaria um traço inesquecível na fonte onde todos agora já deveriam estar comemorando a volta à sã razão. Mulher queriam-na, e ela seria mulher. Mas com tudo que uma fêmea pode representar: não só posição e feitura de vida, mas também capaz de grandes feitos, igual aos homens que podiam matar nas guerras e depois fazer o nome-do-padre ante Deus e os santos. A mulher também tem as suas guerras e suas mortes (ASSIS BRASIL, 1993, p. 360).

Tanto na tragédia grega, quanto na gaúcha, os patriarcas retornam com convidados. Baltazar Antão traz um padre, Gabriel de Simas, cuja conduta é questionável, e Agamenon, como troféu, traz Cassandra, filha do rei de Tróia. Os hóspedes percebem o clima fatídico, e ambos narram suas suspeitas e previsões quanto ao rumo dos acontecimentos.


Ao retornar vitorioso a Argos, Agamênon é recebido pela esposa, Clitemnestra, com falsas demonstrações de respeito e devoção; Cassandra, a princesa cativa de Tróia que o acompanhava, prevê a morte de ambos. Depois de entrar no palácio, com efeito, Cassandra é assassinada, e Agamenon, morto a punhaladas pela própria Clitemnestra, com a ajuda de Egisto. Cabe ressaltar os trechos que demonstram a percepção dos personagens alheios à família, quanto às tragédias irremediáveis. O primeiro refere-se à fala de Cassandra ao corifeu. O segundo trecho refere-se aos pensamentos do padre Gabriel de Simas ao observar com a família Baltazar Antão, conforme expõe o narrador:

Oh! Que visão é essa? A mortalha?

Não! Não! O véu fatal que antevejo

vem dela, companheira de seu leito

e cúmplice do crime. Vocifera

o bando furioso que persegue

ainda e sempre esta nobre raça;

com os gritos rituais festeja o feito

que só a mais severa pena pune!

(ÉSQUILO, 1964, p. 43).


Baltazar Antão continuava na mesma andadura, lentamente aproximavam-se, e Gabriel podia distinguir melhor os rostos, e o que via não melhorava o ânimo: estavam sérios. Não preocupados, nem alardeando dignidade, não. Sérios como de caso pensado, como gravemente envoltos em um segredo. As lanternas coloridas, que balançavam alegres nos galhos de grande árvore faziam nítida confrontação com a imagem das pessoas. Não era isto que o padre esperava encontrar na estância da Fonte (ASSIS BRASIL, 1993, p. 346).
Os vitoriosos retornam aos lares recebidos através dos rituais cerimoniosos. Nas duas obras, as matriarcas, Clitemnestra e Micaela, abençoam os maridos. Aquela dirige-se a Zeus, “Zeus perfeito”, e esta abençoa o coronel, que volta são e salvo à estância, em nome de Deus. Quanto ao sentido das cerimônias, o autor Assis Brasil, assim se manifesta no enredo:
As cerimônias e rituais são bons apaziguadores das emoções, disciplinam com método qualquer arroubo, e marcam o que se deve dizer e até pensar. Muito necessárias, as cerimônias, pois nada como uma boa disciplina para submeter os humores aquosos do organismo e, principalmente, subjugar os apetites (ASSIS BRASIL, 1993, p. 340).
Agamenon aparece no carro aberto puxado por soldados; atrás, em outro carro, está Cassandra. Quando param os carros, nos quais permanecem Agamênon e Cassandra, os anciãos do coro se curvam reverentemente para saudar o rei. Clitemnestra aparece, seguida de numerosas criadas, que trazem uma longa passadeira púrpura. A rainha ordena-as a atapetar o chão ao longo da via que percorrerá o rei. Agamênon pede às servas que soltem as sandálias de seus pés, para que caminhe com modéstia sobre o rico adorno cor de púrpura. Depois de apresentar Cassandra à rainha, o rei desce do carro, caminha sobre o tapete seguido por Clitemnestra e as criadas. As portas do palácio são fechadas e, em seguida, ouve-se um grito. O rei é morto a punhaladas, estirado no chão e coberto com panos. A rainha permanece de pé ao lado do corpo, dirigindo-se aos anciãos desta maneira:
Contemplo enfim o resultado favorável de planos pacientemente preparados.

Estou aqui exatamente no lugar em que seguida e firmemente o golpeei no cumprimento de missão apenas minha.

Os fatos foram estes, não irei negá-los: a fim de obstar qualquer defesa ou reação em tentativa de fugir ao seu destino emaranhei-o numa rede indestrutível igual à manejada pelos pescadores, vestindo-o com um manto fértil em desgraças (ÉSQUILO, 1964, p. 58).
A peça finaliza, portanto, tragicamente, com a última frase dita por Clitemnestra ao amante e cúmplice, Egisto: “Eu e tu, senhores do palácio, teremos o poder bastante para pôr em ordem tudo e todos” (ÉSQUILO, 1964, p. 70).
A morte de Baltazar Antão assemelha-se à de Agamênon. Ao regressar, o coronel é recebido com cerimônia usual do interior. Aproxima-se da Fonte a cavalo. Logo atrás, vem o padre Gabriel de Simas. Todos, familiares, escravos, ceifeiros, criados, permanecem em silêncio para ouvir as palavras do senhor da estância que retorna da guerra e aguardam seus cumprimentos à esposa e aos filhos. Dá-se início à festa. Convidados saúdam o dono da casa. Comidas e bebidas são servidas em abundância e todos esperam ansiosos a presença da esposa que deve fazer as honras da casa. Enquanto Baltazar dança com a filha, Micaela prepara o leito de morte. Veste-se com o vestido preto de cetim, arruma a cama com lençóis de linho bordado, esparrama água de cheiro, escolhe uma garrafa de vinho e dois copos. Dirige-se ao terreiro, dança com o marido, que se entrega à sedução da esposa, desconhecendo todo o horror que malsinara a Fonte durante sua ausência. Micaela o conduz em direção à casa e o leva ao quarto. Algum tempo depois, o povo recebe a notícia de que o coronel está morrendo. O padre Gabriel de Simas é conduzido ao quarto de Baltazar e o encontra
Estirado na cama, arroxeado, com a camisa aberta, o peito arfava em solavancos, a língua saía para fora em meio uma golfada de sangue” (ASSIS BRASIL, 1993, p. 377).
Baltazar Antão morre envenenado e apunhalado. Tudo é preto e triste. Apenas o que faísca à luz de uma vela é a gargantilha de rubi de Micaela, que brilha festivamente, “parecendo ser a única coisa com vida em meio àquele cenário fúnebre (ASSIS BRASIL, p. 379).

Assemelham-se o brilho do rubi de Micaela e a cor púrpura do tapete de Clitemnestra. Essas cores e adornos simbolizam o sangue e a vitória nas duas tragédias, previdentemente utilizados por elas.


Agamênon e Baltazar morrem sem saberem do adultério e do sofrimento dos filhos. Morrem após terem retornado vitoriosos de lutas cheias de sangue e morte. Morrem em seus próprios lares, vítimas de suas mulheres.
Ésquilo, ao abordar a religião e a ética em sua peça, investiga o problema do sofrimento humano, evidenciando a que a destruição da felicidade não se deve à inveja dos deuses, mas ao mal existente no homem. A presença dos deuses, como seres virtuosos, cheios de compaixão e justiça está em grande parte do Agamênon. Já no início, o sentinela pede aos deuses que o liberem da vigília cansativa devido ao ato de esperar por Agamênon e anunciar a queda de Tróia. O ancião, por sua vez, em versos que mais tarde se tornariam famosos, exalta a grandiosidade de Zeus:
Agora os mortais que reconhecem

Convictamente em Zeus o vencedor

Final

Desfrutam do conceito de mais sábios,



Pois foi o grande Zeus que conduziu

Os homens

Pelos caminhos da sabedoria

E decretou a regra para sempre certa:



O sofrimento é a melhor lição

(ÉSQUILO, 1964, p. 07).

Para o poeta, o sofrimento é uma página de sabedoria e “o dom supremo é o comedimento”. Em As virtudes da casa, também há a presença da religião. Seja na construção da capela por Baltazar Antão, nas orações de Isabel, seja na citação de deuses e heróis que explicam melhor as atitudes dos personagens. O título da segunda novela, Mas os deuses estão vivos, sugere que os deuses vigiam a todo instante os atos pecaminosos que ocorrem na estância da Fonte. As virtudes desaparecem lentamente nas ações adúlteras de Micaela e nos pensamentos incestuosos de Jacinto.
Sem virtudes, restam as misérias da vida e o perigo de sentimentos. Nessa parte da obra, Assis Brasil faz referências aos personagens da mitologia grega. Entre Hércules que, na voz de Jacinto, ganha vida, quando relembra o pai, Baltazar Antão:
E vinham outras lembranças, o pai desapontando de um remoto passado, agora o enxergava tomando banho na sanga, forte musculoso, as costas largas emergindo da água, rebrilhando ao sol. De repente mergulhava, para aparecer lá adiante, sacudindo a cabeça, esfregando os olhos. Um Hércules (viu depois a gravura no convento) quando saía da água, corpo brilhando, as carnes rijas, as vergonhas volumosas balançando ao léu, escuras e perdidas num tufo de pêlos (ASSIS BRASIL, 1993, p. 133).

As obras, portando, dialogam. As virtudes da casa devem ser mantidas, mesmo com o fim trágico do patriarca, assim como ocorre no palácio de Argos, pelos menos até a próxima tragédia, intitulada As Coéforas.


Ésquilo e Assis Brasil permitem ao leitor compreender um pouco mais sobre os homens e sobre o que rege suas vidas. Homens tão distantes no tempo, porém tão próximos nos valores.
O confronto do homem com seus limites costuma gerar grandes tragédias. Ao ultrapassar o métron, a medida humana de cada um, o homem encontra em si mesmo temores que apenas serão remediados com algum ato, que, geralmente, atinge proporções grandiosas. As atitudes medidas, a preservação da imagem, o cumprimento do que é exigido pelos outros, as virtudes e, até mesmo, a religião, tudo se consome quando há o despertar para novos caminhos, para uma nova existência. Esses novos caminhos, contudo, não possuem apenas o prazer da descoberta, que, aliás, se demonstram efêmeros, neles encontram-se também as misérias da vida e o perigo de sentimentos.
Ésquilo, ao colocar sua arte nas palavras, imortaliza o heroiAgamênon. Os versos surpreendentemente elaborados contam a sinuosa tragédia familiar vivida pelo rei de Argos, na luta vã contra o Destino ou contra a vontade dos deuses. Assis Brasil, muitos séculos após, realimenta o mito e o traz para a pacata estância da Fonte, em pleno pampa gaúcho.
Agamênon e Baltazar Antão partem para a guerra, afim de manterem a honra e serem leais: o comandante-chefe das forças gregas a move por seu irmão, e o coronel pelo rei. O vazio que deixam ao partirem é preenchido rapidamente por suas cônjuges que se tornam adúlteras. A rainha Clitemnestra une-se com Egiato, inimigo do marido, e Micaela trai Baltazar Antão ao apaixonar-se pelo francês Félicien, que se instala na estância, em virtude de suas pesquisas de cunho naturalista.
Os filhos do rei e do coronel agem de maneiras semelhantes. Sentem saudade dos pais e recriminam as atitudes das mães. Electra revive em Isabel. Orestes renasce em Jacinto. As virtudes do Palácio de Argos devem ser mantidas, assim como as da estância da Fonte. Os rumores e falatórios do povo são abafados pelas filhas, que temem o desgosto e a infelicidade de seus respectivos pais. A vontade de conter os atos impróprios das mães parte dos filhos, que, por tradição e exigência social, devem preservar a imagem e a honra dos patriarcas.
São épocas diferentes, mas os acontecimentos são semelhantes. O livre-arbítrio proporciona escolhas fatais. Dois homens presentes em uma tragédia. Rei e coronel são assassinados ao retornarem da guerra, vítimas de suas esposas. O porquê da vingança, do adultério e da morte planejada com antecedência e cuidado nunca foi revelado. Os heróis da guerra morrem sem saber por quais prazeres e sofrimentos seus familiares viveram durante suas ausências.
Através do estudo realizado nesta monografia, é possível concluir-se que o espectro do rei Agamênon está presente no coronel Baltazar Antão, devido às semelhanças entre suas trajetórias de vida e ao desfecho reservado para a mesma. As análises acompanhadas de citações, tanto das obras que geraram o trabalho, quanto de outras fontes valiosas, ajudam a comprovar a existência de elementos de identificação entre os textos, através dos personagens, dos enredos e da estrutura. Quanto aos personagens, é possível identificar as semelhanças entre os protagonistas, Agamênon e Baltazar Antão; entre as esposas, Clitemnestra e Micaela; entre as filhas, Electra e Isabel; entre os filhos, Orestes e Jacinto. Os patriarcas são homens fiéis à família e á sociedade. As esposas, insatisfeitas com os maridos e com a vida, tornam-se egoístas e vingativas. As filhas, ao contrário, mantêm-se confiantes em um desfecho favorável quando da chegada dos pais. Os filhos vivem atormentados e divididos entre o amor para com as mães e quanto à fidelidade aos pais. Com relação aos enredos, os patriarcas são mortos pelas esposas, que os traem durante o período em que estão na guerra. As filhas tentam contornar a situação vivida em casa, devido ao adultério das mães, aconselhando-se com escravas e torcendo pelo retorno dos pais. Os filhos sofrem com os acontecimentos, pois sabem que devem honrar os pais e, para isso, terão que enfrentar as mães. Com referência à estrutura, nota-se que os textos apresentam prólogos que prenunciam os acontecimentos. Na peça de Ésquilo, o prenúncio parte do sentinela, do coro, de Clitemnestra e de Cassandra. Em As virtudes da casa há um prólogo diante de cada novela do romance, que fornece dados prévios com relação ao desenrolar do enredo.
Além de contribuir com a base teórica sobre o mito, sobre a obra de Assis Brasil e sua relação com a peça de Ésquilo, este trabalho encerra um estudo sobre os valores e atitudes que regem a trajetória humana. Ante a dor e a morte, a alma do heroirevela-se em sua beleza comovedora, em sua grandeza trágica que toca, às vezes, o sublime e o inunda de uma luz inapagável. A história do mundo não é outra coisa senão a consagração do espírito pela dor. Sem ela, não pode haver virtude completa, nem glória imperecível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. As virtudes da casa. 3. Ed. Porto Alegre: Mercado

Aberto, 1993.


2 BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro grego: tragédia comédia. 3 ed. Petrópolis: Vozes,

1985
3 ÉSQUILO. Agamênon. Trad. por Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Civilização

Brasileira, 1964.
4 – .Oréstia . Trad. por Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
5 GRÉCIA ANTIGA: A literatura grega. Wilson A. Ribeiro Júnior, 2002. Disponível

em: http://warj.med.br/lit/lit05a-5.asp.Acesso em: 06 jul. 2002.


6. GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand

Brasil, 1992.


7 LESKY, Albin. História da literatura grega. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,

1995.
8 MOISÉS, MASSAUD. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.


9 SCHULER, Donaldo. Literatura grega. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.

La Salle- Canoas, RS, Revista de Educação Ciências e Cultura. V8. n2. p.7-22. jul.-dez. 2003.


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