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O HOMEM AMOROSO


A vida de uma orquestra num romance bem-acabado
Antônio Hohlfeldt
Independentemente de qualquer outro mérito, o novo trabalho do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil traz um grande interesse do leitor brasileiro. É o primeiro texto que toma, como motivo central, a vida de uma orquestra sinfônica. É evidente que em países ditos desenvolvidos, onde o convívio com tais agrupamentos musicais toma-se cotidiano, inúmeras são as obras das outras artes que eventualmente dirigem seus olhares e atenções para tal tema. No caso brasileiro, contudo, as orquestras sinfônicas são raras, os desafios de sua sobrevivência extremos, e assim as observações às vezes irônicas, outras mordazes e quase sempre criticas e até tristes, sobre o que seja a orquestra, a composição e as contradições de seus músicos, a convivência entre eles e a infra-estrutura que a permite existir e funcionar, surgem como verdadeira documentação, que talvez pouca gente conheça, em torno deste assunto, revelando o que se esconde por trás do concerto a que vamos eventualmente assistir.

O caso de Assis Brasil é inclusive exemplar, eis que antes de dedicar-se à literatura, ele integrou a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre no naipe das cordas. Conviveu, pois, com este universo que agora revela a seus leitores, aliás, trazendo-o muito perto – talvez demasiadamente perto do mundo real, o que bem atesto por ter convivido, como jornalista, ao longo de mais de uma década, com tal instituição. Em consequência, esta leitura tem dois enfoques: o primeiro, menos importante e extensível apenas aquelas outras pessoas que conviveram com a OSPA, é jogar com o escritor na identificação dos tipos. Saber que a Sala Nobre é o Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com os belos plátanos da Av. Paulo Gama. Saber que o velho teatro é o São Pedro, hoje recuperado. Saber que o Velho Urso, o maestro, é o falecido Pablo Komlós, idealizador da OSPA. Saber que cada um dos músicos citados na verdade existe e é praticamente assim mesmo, ao menos em seu aspecto mais exterior. Conheci-os todos, alguns ainda integram a orquestra, e não deixa de ser uma arriscada decisão a de Assis Brasil em revela-los por inteiro assim em sua obra.

O segundo e mais importante aspecto é a leitura da obra literária em si. Diga-se, pois, que O homem amoroso na verdade seria muito mais uma narrativa em torno da descoberta de si mesmo, da consciência e da rebelião – contra uma situação acomodável, por um ser acomodável (p. 5), conforme a autodescrição de Luciano, a personagem central e narrador. Assis Brasil é rigoroso, como sempre, na composição da peça literária, pequena em dimensões, concentrada no tempo (vai de uma segunda-feira ao sábado) e no tema, a separação de um casal. Mas o assunto central apenas surge por meio das imagens colaterais, e assim como ela, outros temas são revelados indiretamente, como o paralelismo entre as pequeninas drosófilas e a vida, o mistério dos animais e a auto-descoberta, a sobrevivência às vezes até mesquinha, porque humana, dos músicos, e o seu papel de reveladores do chamado belo musical.

Assis Brasil, maduro no domínio do material literário, apesar de trabalhar com uma situação que é apenas esboçada em largos traços, é capaz de dar-lhe densidade, porque escolhe os traços essenciais e os reúne num conjunto contundente, capaz de convencer ao leitor, criando o efeito de verossimilhança tão fundamental à obra de arte, e alias destacado desde a “Poética” de Aristóteles.

Luciano, pois, está chegando aos 40 anos, e é em torno do dia de seu aniversario que as coisas se concentram e decidem. A separação do casal, a possibilidade de reencontro com uma nova realidade, o rompimento com a acomodação – que se dá tanto ao nível musical quanto da vida particular – centralizam a narrativa. Mas ao mesmo tempo, Assis Brasil joga um peso enorme na figura do maestro da orquestra, a tal ponto que o episodio que o coloca doente é simultâneo com o desfecho da novela. É na ponte entre os dois temas, as observações sutis, jogadas ao acaso, mas que dão a consistência de seres vivos às figuras que formam o movimento da trama. O racista francês Jean, o preto Bráulio, o bêbado Paco, o idealista Miguel, a pobre harpista Nêmora, o frustrado do alemão Kari-Heins e assim por diante. Do concerto na fabrica de talheres ao concerto dos embaixadores em Brasília, há o jogo de interesses, a ironia sobre o Terceiro Mundo, as reflexões sobre o processo social. O homem amoroso consegue esta façanha. Sem ter a profundidade do livro anterior, não desmerece a obra de Assis Brasil e, pelo contrario, acrescenta-lhe um ponto no assunto e na maneira de encaminhamento da narrativa.


Gazeta Mercantil, Porto Alegre, 5-7.abr.1986. Cultura e Lazer, p. 6

Um “Urso Velho” com músicos intrigantes
Renato Lemos Dalto
Formada por um número de músicos que varia entre 66 e 120 especialistas em instrumentos de cordas, madeira, metais e percussão, uma orquestra sinfônica é uma ideia viva de harmonia. As aparências, porém, podem ser enganosas. Uma obra de ficção, o livro O homem amoroso de Luiz Antonio de Assis Brasil – violoncelista da OSPA de 1966 a 1982 – conta em detalhes histórias, intrigas e contradições dos músicos regidos pelo “Urso Velho”, uma cópia autenticada do fundador da Sinfônica de Porto Alegre, o maestro polonês Pablo Kómlos. “Uma orquestra sinfônica reproduz, em tamanho reduzido, a estrutura de poder de uma nação”, diz Assis Brasil.

Sua sinfônica toca em palácios nos quais os músicos são revistados na saída.a época, com suas desconfianças e sizudez, abrange dois governos autoritários, dos generais Emílio Médici e Ernesto Geisel. A orquestra tem também seu general: o “Urso Velho”. Na vida real, Assis Brasil define Kómlos como “um centralizador ingênuo, que perseguia obsessivamente o ideal de fazer uma grande orquestra”. Por trás dele, uma estrutura de governo sustenta hábitos de autoridade ferrenha.

“A função do músico é apenas executar o que o regente está pensando”, afirma o atual maestro da OSPA, ELéazar de Carvalho. Respaldando o maestro, o “spalla” (o violinista que matem a ordem interna do corpo musical e cuida da afinação dos instrumentos), Telmo Jaconi, diz que “tem que haver uma hierarquia, que pressupõe a obediência a um superior”.

O maestro ELéazar enumera as funções de um músico, como as de “chegar na hora exata no ensaio, tocar afinado, com articulação perfeita com o fraseado possível e a pontuação exigida”. Quem discorda dessa ordem só tem um caminho: a porta de saída.

A parte esses episódios, um a reunião dos músicos para discutir seus problemas é uma possibilidade remota. “Músicos não são metalúrgicos; assembleia de músico é no palco, tocando”, sentencia o maestro ELéazar, escudado no fato de que, em geral, as orquestras sempre obedecem essa rigidez. “Isso é uma estrutura conservadora, que surgiu em 1830 devido a uma necessidade de organização e que se hipertrofia”, argumenta Assis Brasil, lembrando que a figura do maestro cresceu muito, se sobrepondo muitas vezes à própria orquestra. E vai mais longe, afirmando que as sinfônicas brasileiras praticamente não executam os compositores de vanguarda.

Com a OSPA, porém, a situação é um pouco diferente. “Nós tocamos de tudo, do barroco ao eletrônico”, revela ELéazar de Carvalho. O escritor Assis Brasil, porém, faz questão de enfatizar que a maioria de suas histórias são ficção pura. Real, para ele, é o espírito que norteia as orquestras do Terceiro Mundo, com hierarquia rígida, maus salários – um instrumentista da OSPA tem como vencimento básico seis salários mínimos – e relações de poder que se exercem intensamente nos bastidores a cada vez que o concerto termina e as cortinas se fecham.


Gazeta Mercantil Sul, Porto Alegre, 12-14.abr.1986, p. 8
Uma obra carregada de vivências
Cláudio Zerbo
Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, em 1945 e com esta novela, chega ao sexto titulo publicado: Um quarto de légua em quadro 4.a edição; A prole do corvo, 4.a edição; Bacia das almas, 2.a edição, Manhã transfigurada em 2.a edição e As virtudes da casa em 2.a edição. O homem amoroso. Abre-se o pano, o Maestro surge dos bastidores, coloca-se ante a orquestra, curva-se aos aplausos e voltando para os músicos, faz um movimento de concentração e baixa a batuta. A plateia, feliz, relaxa, daí por diante é fruição e fantasia. O publico muitas vezes desconhece, porém, que uma orquestra sinfônica compõe-se de pessoas que também sofrem e tem seus conflitos, dos quais o maior seja talvez conciliar sua vocação com as circunstâncias especialíssimas em que a música sinfônica é realizada num país de Terceiro Mundo, ainda às voltas com a miséria e incompreensões de toda ordem. Cada concerto levado a termo é uma verdadeira façanha.

O Autor, para quem não sabe, pertenceu à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, como violoncelista. O período em que trabalhou na OSPA coincidiu com o “milagre brasileiro” e o neo ufanismo mas também com o de uma extrema verticalização de poder, a qual se refletia inclusive nas relações entre administração da Orquestra e seus músicos.

Assis Brasil insiste em que está é uma obra de ficção, e como tal quer que seja entendida; entretanto, é carregada de vivências. Algumas figuras são inteiras. Outras, ainda sugeridas antes símbolos do que seres de carne e osso.
Cidade de Rio Claro, Rio Claro, SP, 4.mai.1986, p. 4.


Tensão equilibrada na pauta e na linguagem: a rebeldia de um músico
Aloísio G. Branco
Livro de ficção, mas insinuantemente confessional, com toques autobiográficos, O homem amoroso mostra no autor um artista perito na construção serena do texto: cada frase, cada palavra parece estar no lugar exato, insubstituível, como cada nota se mostra na pauta com precisão matemática, em obras musicais competentemente elaboradas. Aliás a música perpassa toda esta novela. O narrador-protagonista é (como o autor) músico profissional e a história revela, com pormenores mais ou menos requintados, o dia-a-dia e os bastidores de uma orquestra sinfônica, ressaltando-se a figura do maestro – patética, nítida, veraz.

Dado à contemplação, esse músico, o violoncelista Luciano, expressa sensibilidade ampla, um tanto refratária à disciplina dos ensaios instrumentais, principalmente se ensaios coletivos. Sua rebeldia mental não se afina com certa placidez harmônica, aparentemente encontradiça na classe a que pertence. Procura racionalizar os seus sentimentos difusos, tanto em relação à vida quanto, de modo especial, em relação à mulher cientista e à filha, ainda muito jovem, ambas subitamente apartadas, mas logo a seguir de novo interessadas no destino do protagonista.

A ação – se se pode falar em ação – se passa numa semana, de segunda-feira a sábado, e se reporta a uma crise conjugal cheia de reticências e com desfecho que não chega a ser surpreendente.

O homem amoroso constitui tão belo achado como o titulo que a partir dele próprio – o titulo – a novela pode se mostrar algo frustrante. Atingida a maturidade, cabe ao homem dito amoroso revoltar-se contra essa condição ou essa etiqueta? O homem amoroso, ou que se entende como tal, é o sujeito passivo, suscetível de amargar injustas rejeições, joguete eventual de voluntarismo alheio?

Seja como for, não é pequeno o saldo positivo deste livrinho de 118 páginas. Mais do que as interrogações subjacentes ou a fabulação, sobresaí no entanto a linguagem apresentada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Um escritor com firme consciência do que faz, consciência aqui não corresponde a prudência nem a falta de ousadia. Significa contenção: uma tensão em constante equilíbrio como se estivesse atuando nas cordas retesadas de um plangente violoncelo.


O Globo, Rio de Janeiro, 18/05/1986. Segundo Caderno, p. 9
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O homem amoroso

Wilson Chagas


O homem amoroso é uma novela onde Luiz Antonio de Assis Brasil põe a sua experiência de músico, pois foi violoncelista da OSPA de 1965 a 1977. Luciano, o personagem-narrador, também é violoncelista da OSPA. Faz um relato, de segunda a sábado, das suas vicissitudes de marido que a mulher, Ceres, abandonou no domingo (anterior à narrativa). E, naturalmente, do seu dia-a-dia de ensaios na Sala Nobre da Orquestra Sinfônica, até o concerto, anunciado desde o início, numa fabrica de talheres, que se realiza no sábado, e com o qual, portanto, culmina a novela.

O maestro adoece antes do concerto, que por isso será regida pelo spalla (No glossário, no final do volume, é explicado que spalla é “o líder dos primeiros violinos em uma orquestra sinfônica e, por extensão, o responsável por todo o conjunto.

É quem tem a seu encargo a ordem interna entre os músicos e também a afinação da orquestra, antes dos ensaios e concertos”). Nesse meio tempo, há também a ida da orquestra à Capital Federal, onde toca na recepção que o Governo oferece ao Corpo Diplomático, na quinta-feira – dia em que Luciano completa 40 anos.

A narrativa avança numa sucessão de pequenos registros (nem todos: alguns se estendem por várias páginas). Esparsas recordações da vida em comum com Ceres povoam esses registros, assim como a visão dos plátanos nas ruas, com seus ramos ainda secos, à espera dos primeiros brotos anunciadores da primavera. Luciano é apresentado como um sujeito egoísta: recusa-se a auxiliar Nêmora, só porque anda com a vida atrapalhada, quando lhe bastaria um pouco de boa vontade para atender o pedido da colega. Mas a esposa, que vai vê-lo no concerto de sábado, chama-o de “um homem amoroso”, e explica por que.


É uma novela desimportante, sem significação maior na carreira de Luiz Antonio de Assis Brasil. Exercício de virtuosismo literário, para não desafinar o estilo. Os bastidores de uma orquestra, cada músico com seus problemas particulares; como funciona uma orquestra por dentro, não do lado de fora, para o publico: é o que ele terá intentado mostrar. É mais um divertissement do novelista, fruto das suas reminiscências como violoncelista da OSPA. Neste sentido, O homem amoroso é uma novela-testemunho. Ensina-nos o que são os copistas qual o seu trabalho junto a uma Orquestra Sinfônica. Explica-nos que toda orquestra tem um Presidente da Fundação, que é quem consegue os recursos para o seu funcionamento (e não se confunde com a figura do Administrador). Outra lição que se aprende neste livro de Assis Brasil: o músico, tocando só para uma orquestra sinfônica, perde a afinação. “A gente não se ouve a si mesmo, é um caldeirão de notas, e tanto faz tocar bem como tocar mal”. O que não acontece quando também faz parte de um quarteto, porque aí ele apura o ouvido.

A novela não termina com a recomposição do lar desfeito. Tudo indica que Luciano optou por viajar, aceitando um lugar de violoncelista noutra orquestra. Nas últimas linhas vemo-lo descer de um táxi diante de um aeroporto (o que é apenas insinuado) e não diante da casa de seu colega Miguel, para ensaiar em um novo quarteto, conforme este o convidara: para aquele sábado, às 7 horas. Pelo menos o final é ambíguo, permitindo a interpretação de que Luciano decidiu, por sua vez, sair de casa – não aceitando, portanto, a volta da esposa, nem a continuação na Orquestra Sinfônica, onde estivera a pique de ser despedido. Sim, tudo indica que ele decidiu partir. Iniciar uma nova vida, sozinho. Ele e o seu violoncelo. Ou estarei enganado?



Universitário, Porto Alegre, jun.1986, p. 10

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