Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Um mergulho

Sergius Gonzaga


Talvez nenhuma obra de Assis Brasil tenha sido tão pessoal. Pela primeira vez o escritor mexe diretamente com seus fantasmas e o resultado traduz em sua densidade e pungência a exposição da interioridade, Novela intimista em sua dicção, mas sem perder jamais os referênciais do mundo objetivo. O homem amoroso acrescenta à carreira do autor um traço de modernidade temática e psicológica, que os romances anteriores – presos à reconstrução histórica – obviamente não possuíam.

Assis Brasil desce aos infernos do grande drama existencial dos tempos contemporâneos: a fugacidade amorosa que, unida à alienação de um trabalho artístico degradado pelo autoritarismo e por sua utilização burguesa, carrega o personagem para a exasperação. Porém se trata de uma exasperação contida: a linguagem neutra, lenta, quase monocórdica intensifica o desespero aos olhos do leitor.



Luciano, o personagem-narrador, violoncelista da Orquestra Sinfônica vaga pelo outono (ou será o inverno?) de Porto Alegre. O outono chegou também a sua vida. Um casamento medíocre, a carreira medíocre, os afetos e as mais nobres inspirações abastardados na infelicidade miúda do cotidiano. Tudo isso é muito banal, mas com esta matéria prosaica construiu-se um texto a partir de agora fundamental na prosa urbana porto-alegrense. Tanto por sua escrita, intencionalmente áspera e fria, quanto pelo registro das contradições de uma orquestra no período ditatorial e, sobremodo, por incorporar em seu eixo semântico os motivos do amor e do desamor, da solidão e da incomunicabilidade dos seres na grande cidade e por fim, a luta dos mesmos para alcançar a felicidade pessoal.
, Porto Alegre, jun.1986, p. 23

Um solo bem afinado
Ubiratan Teixeira
A série Novelas, criada pela Editora gaúcha Mercado Aberto, tem mantido com muita dignidade o nível editorial do seu programa, cumprindo uma trajetória brilhante de colocar nas mãos do leitor brasileiro de classe média, uma literatura acessível, sem fugir dos padrões de arte da escrita ficcional. Escritores como Glauco Rodrigues Corrêa, que criou um “policial” brasileiro de linguagem muito nossa e Charles Kiefer, que se apodera do leitor e o conduz com talento e garra ao inconsciente político e social do e do sistema, estão frequentemente na lista dos editados daquela Editora que sem cair na banalidade usual nos países industrializados do livro de bolso, banal e vulgar, imprimiu uma seriedade comedida na sua linha. No momento a magnífica presença estar por conta de Luiz Antonio de Assis Brasil, que monta um primoroso baixo relevo do músico de erudição brasileira, ligado a uma Sinfônica de cidade interiorana. E com muito propriedade e arte ele constroe personagens carinhosamente conhecido do nosso dia-a-dia, que lentamente vão sendo incorporados aos interesses do sistema absorvido, sugados, sem que percam a ilusão de que podem resistir mais que normalmente terminam na UTI, de um hospital do INAMPS. O HOMEM AMOROSO reflete uma dessas partidas disputadas por uma Orquestra Sinfônica onde disputas paralelas e pequenas jogadas são ensaiadas. No todo, se formos, comparar a uma peça musical, a história tem a urdidura de uma sinfonia clássica, onde os quatro movimentos básicos estão bem definidos: a Orquestra como instrumento político, as disputas internas, a trajetória do “homem amoroso” que pode ser caracterizar como um adágio, e o “gran finale”. Luiz Antonio de Assis Brasil compõe sua peça orquestrando com muita habilidade os instrumentos de sua própria arte. A condição de pertencido à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e ser precisamente o violoncelista da mesma, como o personagem-narrador, sou tentato a indagar se O HOME AMOROSO não acabaria sendo uma projeção ficcional do próprio narrador.
O Estado do Maranhão, São Luiz, 01.jun.1986, p.13

CÃES DA PROVÍNCIA


Assis Brasil lança Cães da Província
Danilo Ucha
Uma personagem curiosa e polêmica da vida literária rio-grandense no século passado, José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), redescoberto há pouco mais de 20 anos, quando começaram a ser encenadas suas peças e aprofundados estudos sobre sua vida e sua arte, agora, em Luiz Antonio de Assis Brasil, o romancista de sua vida. Desafiando os limites entre a ficção e o documento, Assis Brasil, que já mostrou seu talento numa série de romances que também recuperaram períodos do passado rio-grandense, escreveu agora Cães da Província, ficção na qual tenta recompor o que deveria passar-se na alma de Qorpo Santo, figura invulgar num cenário certamente estranho e pouco receptivo para sua personalidade incomum: em pleno século XIX, no interior do interior do mundo, no Rio Grande do Sul, “a obscurecida genialidade de um dramaturgo perturba a discreta ordem da mediocridade provinciana com rasgos da mais delirante lucidez”, como observam os editores.

Cães da Província, que nasceu como tese de doutoramento em Letras na PUC-RS/RS, em agosto deste ano, foi publicado pela Editora Mercado Aberto e será lançado hoje, a partir das 17h30min, nas Livrarias Mercado Aberto (Rua Riachuelo, 12910. De acordo com os editores, trata-se de um romance exemplar: “Primeiro, por razões de ordem técnica: Assis Brasil, um habilíssimo artífice da palavra, trabalha com a precisão de um lapidador cada uma das paginas que compõem o seu romance. Esta habilidade permite-lhe ir ao limite das possibilidades narrativas, sem experimentalismos e sem deslizes: o tempo, em Cães da Província, fragmentado em breves retrospectivas, converge sempre oportunamente para o seu eixo original; os cenários se alternam equilibradamente; e uma galeria de curiosos personagens gravita em torno do inesquecível protagonista”.

“Por outro lado – continuam – sendo profundo conhecedor do homem rio-grandense do século XIX – que já demonstrado em As virtudes da casa – Assis Brasil reconstitui, com o interesse fotográfico de um cronista, o cotidiano da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, a Porto Alegre do século passado, isolada ao sul do grande Império. E, perturbar a miséria provinciana, recria a memória de um personagem contraditório, ambivalente e deslocado de seu tempo: Joaquim José de Campos Leão, o Qorpo Santo. Difícil saber até onde vai a História e onde começa a ficção. Costuma-se dizer que as duas, no mais das vezes, andam confundidas. Em Cães da Província não é diferente: a recriação de episódios verídicos e as belas páginas da intenção metaliterária refletem, ao gosto da modernidade, a insuficiência da criação diante da perturbadora irregularidade da vida”.

O próprio Assis Brasil ressalta que não se trata de uma biografia de Qorpo Santo, dramaturgo que chegou a ser considerado, por mais de um estudioso, precursor do teatro do absurdo que floresceria com Samuel Beckett, Ionesco a Alfred Jarry neste século. Assis Brasil diz que “é o imaginário deste personagem contraditório da literatura dramática brasileira”. Vivendo na Porto Alegre do século XIX, Qorpo Santo ultrapassou os limites de seu tempo, criando um universo ficcional que recém-agora está sendo descoberto e valorizado pela critica e pelo publico, mais de 100 anos após seu melhor período de criação. Vitima de um processo de interdição por loucura, foi um homem cuja superioridade intelectual não foi entendida por seus contemporâneos.

“Ao mesmo tempo em que trata deste genial criador – concluem os editores – Luiz Antonio de Assis Brasil desvela um mundo que, sob a aparência de um burgo tranquilo, encerrava as mais fantásticas históricas de crimes, adultérios, incestos e crueldades”.


Zero Hora, Porto Alegre, 19.out.1987. Segundo Caderno, p. 3
Ladrares do Rio Grande

Tau Golin


“Cães”. A palavra, um juízo de valor sobre os rio-grandenses. O dramaturgo, o louco escrevinhador, professor de primeiras letras e comerciante, era um lançador de impropérios sobre as indignadas figuras da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Qorpo Santo! Em seu tempo causou tanto estardalhaço quanto a descoberta, décadas depois, de ter sido um dos precursores do teatro de absurdo. Mas isso só entrou para a história das artes, também, tardiamente. “Ressonem, seus porcos”! “Preparem-se, chegou o dia da ira!”. Qorpo-Santo lançava seu solilóquio de maldição do auto da janela de seu falido armazém. E como os loucos geniais travava a sua guerra com a cidade no Palco da secretária, tendo como elementos de cena a pena e o papel. Escrachá-la, desnuda-la, lapidar suas hipocrisias e mediocridade.
Cães da Província (Ed. Mercado Aberto). O livro de Luiz Antonio de Assis Brasil é uma obra que traz o universo de Qorpo Santo. Como ressalva, não é exatamente a sua biografia – a história de José Joaquim de Campos Leão. Com mais essa criação, Assis Brasil demonstra, mais uma vez, a sua evolução como escritor. Qorpo-Santo é o ponto de partida para a reflexão de uma época. Cães da Província pode ser lido como fruto de uma tradição balzaquiana, ao se constituir numa obra que permite ao leitor uma visão real do mundo tratado. Em apanhado além da loucura e da mediocridade, palavras que são apenas indicativos, em se tratando da Qorpo-Santo e Porto Alegre. “Os Cães da Província”, esconjura lançada à alma da cidade, são palavras afiadas e criticamente dilacerantes da sociedade da mesmice monárquica, esforçada em repetir salamaleques e tradições do salão da Corte. A reprodução menor – por isso, provincial – pois não sendo possível acompanhar a matriz – uma incomparável lei histórica – se alimenta das escolhas dos caminhos singulares inspirados nos elementos pequenos, degradantes hipócritas, de um mundo que despenca historicamente (as proféticas palavras de Qorpo-Santo), mas que a urbe esforça-se em manter e, inclusive, reconstruir. Léal e valorosa Porto dos Casais.
Todavia, a cidade não é a única matéria-prima, o objeto sobre o qual o autor se debruça. Aliado á tecedura do açougueiro assassino e sua bela e insinuante mulher, cujos crimes fizeram com que a população acusasse os sintomas de comedora de linguiças de carne humana; mesclado com o dilema do comerciante “corno” que identificou a esposa adúltera entre as vitimas do açougueiro, passando ao desempenho do papel de viúvo, enquanto a mulher traçava amores e disabores na casa do queijeiro; cientificado do embate das teorias medicas nas divergências dos doutores Landell e Joaquim Pedro; inquirido pelas contradições do juiz e do delegado; “enredo” local onde o leitor é situado de forma conflitiva e tecnicamente projetado para o universal. E o instrumento desses cortes é justamente Qorpo-Santo a sua “insanidade”. Ele “incorpora” uma abordagem mais ampla do Rio Grande ao se situar como epicentro duma degradante e bêbado general David Canabarro. A comicidade de D. Pedro I (com seu bando de paparicadores) e a erudição de D. Pedro II (admiração da personagem central) trazem o Brasil para dentro da obra.

Assis Brasil busca a universalidade na criação de uma estreita amizade entre Qorpo-Santo e Napoleão III. O primeiro, como representante provincial, figura como personagem sensível (em seus loucos devaneios) que reflete em si uma metamorfose muito singular, potencializando os elementos contraditórios do mundo em que vive. O moralista amoral, o reacionário ou progressita passadista, pois o seu mundo idealizado é uma pregação essencialmente de passado-futuro. Qorpo-Santo, o inadaptado, o homem da profana santidade, cuja personalidade e perspicácia mostram o nu do corpo provincial.


É o louco da desbragada ironia. O incapaz interditado de seus bens, que pergunta aos seus julgadores: “Como um louco pode construir patrimônio?” O conselheiro de Napoleão III, prometendo reescrever a história do império francês: o que significa dar nova versão ao mundo, uma demência a que demonstra a contradição da Província com os principais acontecimentos da terra. Bismark vence Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana; Marx escreve os manifestos da Associação Internacional dos Trabalhadores; na França derrotada insurgem-se os trabalhadores em armas e proclamam a Comuna de Paris; Marx e Engels indicam: olhem a cara da ditadura do proletariado. Mas, em Porto Alegre, se persegue um louco que escreve poemas, dramas e comédias, porque se inspira na sociedade em que vive.
Diário do Sul, Porto Alegre, 3.dez.1987, p. 4.
Cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil
Vicente Martins

Os grandes romances de todas as épocas, seguindo a tradição secular que remonta á epopeia, narraram e muito provavelmente narrarão a ação do homem sobre a História. Se isto é ponto é pacifico, resta perguntar, diante dos monumentos literários que chegaram até nós, de onde provém a curiosidade renovada com que folheamos as primeiras páginas de um novo romance. A resposta, obviamente, vamos encontra-la precisamente ali.



Cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil, é, neste sentido, um romance exemplar. Primeiro por razões e ordem técnica: Assis Brasil, um habilíssimo artífice da palavra, trabalha com a precisão de um lapidador cada uma das páginas que compõem o seu romance. Esta habilidade permite-lhe ir ao limite das possibilidades narrativas, sem experimentalismo e sem deslizes: o tempo, em Cães da Província, fragmentado em breves retrospectivas, converge sempre oportunamente para o seu eixo original; os cenários se alternam equilibradamente; e uma galeria de curiosos personagens gravita em torno do inesquecível protagonista.

Por outro lado, sendo profundo conhecedor do homem rio-grandense do séc. XIX – o que já havia demonstrado em As virtudes da casa-, Assis Brasil reconstitui, com o interesse fotográfico de um cronista, o cotidiano da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul a Porto Alegre do século passado, isolada ao sul do grande império. E, para perturbar a miséria provinciana, recria a memória de um personagem contraditório, ambivalente e deslocado de seu tempo. Joaquim José de Campos Leão, o Corpo Santo.

Difícil saber até onde vai a História e onde começa a ficção; costuma-se dizer que as duas, no mais das vezes, andam confundidas. Em Cães da Província não é diferente: a recriação de episódios verídicos e as belas paginas de intenção metaliterária refletem, ao gosto da modernidade, a insuficiência da criação diante da perturbadora irregularidade da vida. 256 p. Cr$ 507,50.
O Estado, Fortaleza – Letras e Ideias –/CE

08/09/nov. 1987



Irônica e adequada ficção faz um confronto de ideias
Antônio Hohlfeldt
Conquanto aparentemente voltado para a biografia de José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, o novo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Cães da Província, é de uma fidelidade admirável a sua própria obra e as suas próprias preocupações. O que ocorre é que Assis Brasil teve uma perfeita e exemplar apreensão dos temas centrais da produção literária de Qorpo Santo, com a que se identificou, tomando-a para si e desenvolvendo-a segundo seus próprios interesses.

Assim, pode-se ler Cães da Província como um romance de costume, ferino na ironia apropriada de Qorpo Santo e que já era conhecida de Assis Brasil, mas deve-se juntar, obrigatoriamente, a essa perspectiva, uma outra, mais ampla, que lhe serve de base, que é a política. Só assim, se pode entender toda a terceira parte da obra, quando surge a figura de Napoleão III a dialogar, primeiro ambígua e depois claramente, com o dramaturgo, até a antológica cena final da batalha naval, um dos grandes momentos da literatura de Assis Brasil.

Aprendendo com perfeição as teses e o clima da obra Qorpo Santo, Assis Brasil buscou aqueles elementos que lhe interessavam e, ao mesmo tempo, criou e desenvolveu personagens que, ao mesmo tempo, exemplificassem e praticassem as teses de Qorpo Santo. Assim é que se forma estruturalmente uma espécie de triângulos de pares sobre os quais se assenta a trama romanesca através da qual se desenvolve a narrativa. A tese central encontra-se no conceito das “relações naturais”, aquelas desenvolvidas entre os casais, nas suas relações sexuais, e nada alem delas. Na pratica, Assis Brasil demonstra a possibilidade da tese no casal formado pelo psiquiatra Joaquim Pedro e sua companheira Luísa. Mas, ao mesmo tempo, parece dizer que eles são a exceção, pois os dois outros pares contradizem frontalmente a teoria: Eusébio e Lucrecia chegam à situação-limite do assassinato da mulher e suicídio do homem, enquanto que o próprio Qorpo Santo e Drácia disputam-se entre si quando a mulher, considerando-o louco, pretende a interdição da administração de seus bens.

Em ambos os casos, existe não um equilíbrio, mas o domínio da mulher sobre o homem, chegando-se, num caso e noutro, à eliminação e destruição do parceiro, justamente aquele que seja capaz de afrontar a convenção da regra, para construir seu próprio caminho, por parte de quem se submete a Léa. É o caso de Eusébio, que não admite a traição de Lucrécia, e de Inácia, que não aceita a superioridade intelectual de Qorpo Santo. Os superiores, Lucrecia e Qorpo Santo, ainda que sob formas diferentes, devem ser eliminados, resgatando-se a lei geral, que é ditada pelas elites, mas praticada, cobrada e fiscalizada pela plebe. Numa duplicação da situação, a população volta-se contra Qorpo Santo quando os crimes praticados pelo casal José Ramos e Palsen, na medida em que eles desvelam aquilo que todos acobertavam, isto é, eventuais adultérios na cidade, julgamento que é verbalizado e clarificado por Qorpo Santo, que acompanha com desdém, mas não sem interesse, o desenlace de toda a situação. Aliás, a passagem, igualmente antológica (p. 124 e 125), dá exatamente titulo à obra, o que bem diz do pensamento do escritor.

De qualquer forma, os acontecimentos acima desenvolvidos terminam, por um modus operandi contraditórios, por reafirmar e confirmar as teses de Qorpo Santo, com as que se identifica Assis Brasil, advindo daí a sua denuncia fundamental: existe uma violência institucionalizada através do que Foucault já denominou de “aparelhos ideológicos de Estado”, isto é, a família, a religião, as regras institucionais, e que permitem, aos regimes, um controle sobre seus cidadãos. A função eminentemente subversiva do intelectual é denunciar este jogo arbitrário, subvertendo a situação, rompendo-a teórica e praticamente, como o faz Qorpo Santo, não apenas por sua vida e sua obra, como na ampla dialogação que mantém com Napoleão III, levando-o mesmo a observar que “vocês, intelectuais, sempre saúdam a revolução como panaceia para os males do povo, sem sedarem contra de que as revoluções exterminam em primeiro lugar com os intelectuais. Saturno devora seus próprios filhos”, ao que responde Qorpo Santo: “Mas nós, intelectuais, não nos preocupamos com nosso destino individual e sim com a vida dos povos” (p.216).

O mais rigoroso romance já escrito por Assis Brasil, em sua estrutura, Cães da Província dá seguimento a uma obra e estas alturas já maior deste escritor gaúcho, que pouco a pouco firma-se no cenário literário brasileiro: tem o que dizer e sabe encontrar a melhor forma de fazê-lo.


Diário do Sul, Porto Alegre, 25.nov.1987

Cães da Província
Aldo Obino
Qorpo Santo prossegue em foco, graças à redescoberta, publicação, representação, ensaios e teses sobre sua vida e obras convertidas, avaliadas e em revalorização. Após o livro de Guilherme César, de 1969, e a obra “Os Homem Precários”, de Flávio Aguiar, intermez-20 de 1973, tivemos a pesquisa, aqui, do universitário ianque Frank Hines sobre a obra de Joaquim José de Campos Leão, com o seu pseudônimo de Qorpo Santo.

De viajem à Europa, vimos na imprensa a noticia de nova versão carioca de uma obra do mesmo em técnica de Kabuti, como de Guimarães Rosa vemos um excelente filme em estilização japonesa. Voltando da trilha pelo Velho Mundo, seguimos entrevista na TVE que Tânia fez com Luiz Antonio de Assis Brasil, o nosso caro ex-violoncelista da OSPA, por doze anos e que também foi nosso vizinho de apartamento, o qual se transformou, além de professor de direito, num romancista fecundo, agora com meia dúzia de prole literária alem de humana.

O romancista açorita de Um quarto de légua em quadro, que fomos o primeiro a lhe fazer registro critico, soube acertar o gosto e conhecimento da histografia gaúcha com o élan literário disso numa boa evolução em sua ficção, como verificamos entre o mais, em seu romance As virtudes da casa, sobre o que lhe escrevemos.

Agora fomos aguçados por Cães da Província, que é a biografia romanceada ou romance veraz de tese pessoalmente muito bem bolada em torno da personalidade vida e obra de uma genialidade em transe existencial, mostrada com singular empatia, num painel sensível, inteligente e de técnica literária de boa fatura e de padrão inspirado não só em Eça de Queiroz e Flaubert, mas também ao natural Machado de Assis em “Braz Cubas” e “Quincas Borda”, pelo élan sarcástico com que (?) a cachorrice provinciana.

É um temário dramático, patético e trágico temperado pela visão polarizada entre a caricatura sarcástica e os lances tensos da intriga de fundo real e num desfecho melancólico. Como Gladstone Marsisco, Josué Guimarães e outros ficcionistas gaúchos, o nosso apreciado romancista forjou uma (Dora?) de justiça reparadora, numa evocação psicológica, biográfica e literária, de recôndita musicalidade e humor satírico de boa têmpora.
Jornal do Comércio, Porto Alegre, 3.dez.1987.

Relato de uma insanidade
Francisco Maciel Silveira
O porto-alegrense Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista de inegáveis méritos, reaparece me Cães da Província, lançado pela Mercado Aberto. Pena que o livro não reedite o nível dos trabalhos anteriores, ao transpor para a ficção a vida de José Joaquim de Campos Leão, autodenominado Qorpo-Santo. Quem foi Qorpo-Santo? Um gaúcho que, nascido em 19-4-1829 (Vila do Triunfo) e vitimado por uma tísica pulmonar em 1-5-1883 (Porto Alegre), padeceu, com intermitências, das faculdades afetivas e/ou mentais (monomaníaco? Maníaco-depressivo?), sofrendo por isso um processo de interdição judicial movido pela esposa com o intuito de declara-lo inapto para gerir sua pessoa ou bens.

Presença perturbadora na pás,aceira da província rio-grandense e do romantismo brasileiro, o homem, em seus momentos de meia lucidez ( ou meio desequilíbrio?), desandava a escrever, chegando, inclusive, mestre-escola que também foi, a propor uma confusa reforma ortográfica de cunho fonético, exemplificada, no pseudônimo e nos textos que nos legou: “Pensamentos em 110 pájinas”, dezessete peças teatrais (ou esboços de), além de escritos vários, reunidos em três volumes (os conhecidos) sob o titulo Ensiqlopédia: ou seis mezes de huma enferimidade. Aí sua biografia espiritual e mental, a que Assis Brasil, com lupa de critico, deveria ter concedido maior atenção para nos dar um Qorpo-Santo de alma inteira.


Clichê e panegírico – Romance travestido em tese (ou vice-versa), já que apresentado à PUC-RS/RS para obtenção do grau de doutor de Letras, era de esperar que a interpretação romanesca de Assis Brasil, partindo necessariamente do universo dramático de Qorpo-Santo, nos trouxesse achegas originais para o deslinde e compreensão do autor. Contudo, limitou-se Assis Brasil, na efabulação, a um episodio da vida de Qorpo-Santo, o da interdição judicial. Quanto á obra, pincelou-a, transcrevendo um e outro pensamento do dramaturgo ou dando o argumento de algumas peças: noticias vinculadas através do fácil recurso ao dialogo. Restrito à ótica de um só narrador, o relato perde a perspectiva. Por que não ceder o foco narrativo também a Qorpo-Santo, aproveitando-lhe inclusive a pessoalíssima ortográfica?

Além do clichê, pondo a loucura de seu protagonista em dialogo com Napoleão, o III, o romance assume o tom de panegírico oficial, a decretar a genialidade do biografado. O que, vamos e não venhamos, é um exagero provinciano. Compondo uma peça por dia, sem revê-la (tarefa a que explicitamente convidou seus possíveis leitores e encenadores), o dramaturgo escreveu-as por compulsão compensatória. No todo da carpintaria dramática, falta-lhes exatamente o equilíbrio, sintoma do desajuste mental do criador. De que, aliás, Qorpo-Santo tinha consciência – dado mal aproveitado por Assis Brasil, que, ao fim, não consegui biografar a alma torturada de quem viveu o tormento de uma intermitente insanidade.


Visão, São Paulo, 16. 12.1987, pág. 55.

Uma tese que virou romance

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