Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Emilia Soares de Souza

Quando se ouve falar de uma tese de doutoramento, a reação natural é sair de pero. Normalmente acontece assim: o doutorando, original e bem-orientado, seleciona um tema e o transforma em tese. Até ai, tudo certo. Recebe nota máxima, com a cumplicidade unânime da banca examinadora – que é formada por gente especializada no tema (tem cada especialização, cada tema!). Tudo bem! Depois a tese se transforma em livro e ninguém aguenta ler. Aí é que o tudo bem vale mais. Mas Luiz Antonio de Assis Brasil surpreende pela exceção.

Com sua tese, o romance Cães da Província, obteve a nota máxima, sim, e tornou-se doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em agosto deste ano. Lendo o livro editado pela Mercado Aberto, duvido que não se endosse a opinião da banca que o aprovou.

Assis Brasil escolheu um personagem central, extraído da realidade histórica gaúcha, José Joaquim de Campos Leão, que se auto-denominou Qorpo-Santo. Mas não é a história deste homem que o autor aborda. Inteligentemente, ele usa o personagem e seu tempo, encaixando de maneira viva, às vezes dramática, às vezes hilariante, o que quer contar: a vida na Porto Alegre do século 19, com seus crimes, adultérios, incestos e crueldades.

Para quem não sabe, Qorpo-Santo nasceu em 1829 em Vila do Triunfo e morreu em Porto Alegre, em 1883. Era foi considerado louco, escreveu 17 peças e criou o Teatro do Absurdo, muito antes de Ionesco, muito antes de Beckett. Diz dele o critico Cláudio PUC-RSRSci: “Olhando a cena brasileira, que nenhum pudor de madame é capaz de esconder, ninguém duvidaria que o absurdo, ao contrario de Deus, é brasileiro e não vive no exílio. Mas pouca gente suspeita que brasileiro, também, é o Teatro do Absurdo, geralmente associado a Ionesco, Beckett, Genet, Adamov, Arrabal, Pinter, Albee, Frish, ou Gunter Grass, todos os filhos da Patafisica, do antiteatro de nonsense de Alfred (‘Ubu Rei”) Jarry (1873-1907).

Brasileiro, gaúcho e nascido da pena de José Joaquim de Campos Leão, que morreu em Porto Alegre quando Jarry tinha dez anos, esse José, de Vila de Triunfo, à margem do Jacuí, mestre-escola, tipógrafo, subdelegado de policia, pai de quatros filhos, internado vários vezes como louco, monomaníaco, escreveu toda a sua obra teatral (17 peças, algumas incompletas) em apenas quatro meses e meio (oito em um mês), em 1866, assinado Jozé Joaquim de Qampos Leão (Qorpo-Santo) ou só Qorpo-Santo, pseudônimo que ele mesmo se deu. Isso mesmo: Jozé Joaquim de Qampos Leão, o Qorpo-Santo, que devia psicografar Glauber Rocha, embora desdenhasse o Y “inútil como o W”, e até xegou a propor um novo sistema ortográfico onde, entre outras qoisas, dispensava o C, poqe, qomo dizia, “para soar Q, temos esta; e, para soar S, temos também esta”.

Assis Brasil com este personagem rico, mas difícil, intrincado, faz correr um texto firme e completo. Com mistério e sangue (o casal de açougueiros matou tanta gente e a cidade apavorada acha que durante anos só comeu linguiça de defuntos), com ingenuidade (a presença do empregado de Qorpo-Santo, a quem ele chama de Inesperto), com poesia, com amor, com sexo. Eis como descreve o reencontro de Qorpo-Santo com sua mulher, Inácia: “Depois do amor suave como o dos pássaros, feroz como o dos tigres e urgente como o de duas feras no cio, Qorpo-Santo tem a mulher recostada em seu ombro, brincando com os bordados do travesseiro. Nunca Inácia transbordou de tanta paixão e o seu respirar lento traz às narinas do marido um perfume fresco de madeira recém-cortada”. Enfim um romance de peso.
Folha da Tarde, São Paulo, 19.dez.1987, p. 24.

Contradições da burguesia porto-alegrense no século passado
Laury Maciel
Luiz Antonio de Assis Brasil mostra-nos em Cães da Província uma Porto Alegre do século passado, agitada por acontecimentos que lhe desfazem a imagem de cidade pacata. Para tanto, transporta o leitor para a capital daqueles tempos, com suas casas de beirados, com o rio Guaíba lambendo a Rua da Praia, com a Santa Casa distribuindo misericórdia pela cidade. Ao reconstruir ambientes, falas e costumes, o escritor já revela seu talento. O impressionismo do primeiro capítulo, com efeito, é um convite a que o leitor não pode resistir e desde aí até as páginas finais do livro ele passa a fazer parte ativamente do romance.

A pretexto de abordar os famigerados crimes da Rua do Arvoredo e a trágica existência de José Joaquim de Campos Leão, o que o escritor na verdade faz é traçar um vigoroso painel, sem retoques, e, portanto, contundente, da sociedade porto-alegrense da época em que, nesta sim, os Cães da Província mostram seus agudos e anavalhados dentes. Como escritor maduro, Assis Brasil sabe quem, muito mais grave do que eventuais degolas individuais de seres humanos, que os exageros da ótica popular extrapolam, estão os desmandos dos poderosos que, para esconderem seus crimes contra a humanidade, estimulam tais exageros. Tanto é assim que o inquérito policial, para apurar a culpabilidade do açougueiro e sua mulher, se arrasta, não demonstrando o chefe de Policia empenho em concluí-lo, sabendo-se que, quando há interesse na elucidação dos delitos, a autoridade usa de todos os meios, legais e ilegais, para obter a confissão. É assim que, nesse mundo dominado por barões e bacharéis, o povo, como massa de manobra, ao mesmo tempo que protesta defronte a Delegacia é atirado contra um humilde mestre-escola, cujo o crime foi apontar, através de sue teatro, as mazelas dessa classe dominante. Assim, desde as primeiras páginas, os cães já vão mostrando seus afiados dentes, e, a partir daí, até o final, quando Qorpo-Santo, interditado, embarca para o Rio e Eusébio sepulta clandestinamente sua mulher por ele assassinada – ao contrário do primeiro “enterro” que foi às claras e acompanhado pela fina flor da burguesia local -, a cidade é abalada pelos crimes dessa burguesia, habilmente escamoteados, aparecendo em seu lugar, para deleite da massa, as degolas da Rua do Arvoredo e o delírio do dramaturgo.

Não é a primeira vez que Assis Brasil, como escritor comprometido que é, faz denúncias desse tipo. Em A prole do corvo, um fazendeiro, para evitar a requisição de mais cavalos, não hesita em entregar o filho às tropas de Bento Gonçalves. Entretanto, longe da denúncia pela denúncia, o comprometimento de Assis Brasil é, antes de tudo, com a Literatura, porque é só através dela que o escritor chega ao Homem. Logo, em Cães da Província, vemos personagens moverem-se vitimas, antes de mais nada, de suas paixões e remorsos e não presas a cordéis como se fossem manipuladas pelo narrador. É um romance, portanto, onde o leitor não se comporta passivamente; ao contrário, ele se vê obrigado a ocupar os espaços abertos, porque, senão o fizer, corre o risco de permanecer perdido, em falsas expectativas, na Rua do Arvoredo ou na frente da casa do mestre-escola. O que o romance não conta é o seu significado transcendente, isto é, aquilo que está escondido nos signos poéticos. E aí reside a grandeza desta obra, rica de imaginação. Quando a sociedade local, mata Lucrecia e a sepulta clandestinamente e interdita Qorpo Santo, imagina estar eliminando sua culposa concupiscência que simbolicamente enfeixa todos os seus vícios. E a burguesia porto-alegrense respira aliviada, porque não precisa mais usar o pretexto dos acontecimentos da Rua do Arvoredo, nem da loucura de José Joaquim de Campos Leão; e muito menos recorrer às forças do 14°, referidas vagamente, aqui e ali, pelo narrador, não havendo dúvidas de que as utilizaria se, na massa, as mensagens do dramaturgo houvessem adquirido caráter ideológico. Isso fica claro pela voz do narrador:

“Enfim, valeu a sanha com que a população se ergeu na exigência às autoridades policias para que concluíssem o inquérito com a maior presteza possível, tirando o chefe de Policia de um imobilismo que começava a despertar dúvidas. Foi um momento de ira apenas, um encrespamento da sensibilidade a que qualquer pessoa tem direito, seja em nome próprio, seja em nome coletivo, quando se sente agredia. E tanto se descarregaram as tensões acumuladas que os outros crimes menores não mereceram atenção, é como se não tivessem acontecido, mesmo bárbaros: pais matando filhos, filhos matando pais, cônjuges se matando reciprocamente, comerciantes falidos matando-se a si mesmo, estupros e roubos à mão armada. Nada disso é digno de atenção. É como se a cidade fosse amplamente absolvida de seus crimes passados, presentes e futuros. O pior, o terrível, já passou. E os eventuais atropelamentos da moral e da lei são recebidos com a simploriedade do inevitável e daquilo que deve ser debitado à má índole dos malfeitores individuais, para quem há as cadeias e o método regular dos processos”. (pgs. 224/225).



Cães da Província é um romance denso, revelador das contradições de uma classe presa a conceitos ultrapassados, simbolizados pelas ideias do doutor Landell e, portanto, receosa do pensamento arejado do doutor Joaquim Pedro. Para manter o status quo, o Juiz, para interditar Qorpo Santo (na verdade para impedir a abertura de caminhos rumo a uma sociedade mais justa), não tem outro remédio senão louvar-se no laudo reacionário do doutor Landell.
Zero Hora, Porto Alegre, 8.jan.1988, Cultura.
Vôo ao passado
Paulo César Coutinho
A província é uma camisa de força. A moral estreita amarra e imobiliza. Rebeldes e artistas, como prestidigitadores, conseguem às vezes libertar-se. A libertação ocorre no ato existencial de uma vida autêntica e/ou na explosão criadora. O gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, em Cães da Provincia, usa o talento literário para escrever um romance sobre seu conterrâneo José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo (1829-1883), gênio do teatro brasileiro. O Brasil, esta grande província, só recentemente vem descobrindo a dramaturgia de Qorpo Santo, precursor do teatro do absurdo, implacável crítico da hipocrisia provinciana.

Assis Brasil não procura a biografia, mas uma incursão do imaginário do dramaturgo. Dados da sua vida e de seu teatro são lançados ao jogo ficional, numa luta livre entre realidade e fantasia, tão suave como uma dança sob o vento minuano. Através de todo o romance as dualidades se entrelaçam: o delírio de Qorpo Santo e seu convívio com a cidade, as personagens delirantes que o visitam (Pedro I, Pedro II, Napoleão I, Napoleão II, Napoleão III), as personagens teatrais encarnadas em seus contemporâneos, os habitantes do burgo de Porto Alegre, o teatro romanceado, o romancista e seu personagem autor. O escritor trabalha sua identificação com o heroidando criticamente ao narrador voz e visão da época em que a história acontece. Estes contrapontos de imagens, constituídos com harmonia em um estilo delicioso, dão à obra o sabor de um prato longamente preparado.

Aos poucos, as tramas se entrecruzam e revelam. Na pacata vila as pessoas desaparecem misteriosamente. Descobre-se que o açougueiro José Ramos e sua mulher, a bela Pilsen, sensual alemã que incendiava as fantasias sexuais dos cidadãos de bem, assassinavam suas vitimas e as esquartejavam. Os piedosos cristãos da terra comiam carne humana sem saber. Acompanha-se a trajetória do comerciante Eusébio, bem posto em negócios, que faz da alegria de sua vida o casamento tardio como uma jovem mestiça órfã, criada por freiras. A geniosa Lucrécia, não contendo-se nos limites do casamento, acaba por fugir com um queijeiro, voltando a uma existência de pobreza e maus tratos. O marido esconde sua fuga, aproveitando as mortes causadas pelo açougueiro, e incluindo a esposa na chacina. O reaparecimento de Lucrecia coloca o comerciante em situação absurda. Recebe a mulher que deseja, mas não pode deixar que a população a veja. Fantasia e realidade misturam-se de novo. Assassinada em ficção, Lucrecia é condenada à morte em vida.

Excêntrico, estranho, visionário, Qorpo Santo escandaliza a sociedade. Após uma tentativa de assalto a sua casa, tranca todas as portas, e através de uma escada usa as janelas para entrar e sair. A fama de louco faz com que perca os alunos a quem ensinava letras, e ostenta em seu lar letreiro luminoso promovendo um “armazém” que não existe. Suas peças permanecem inéditas por quase um século. Onde a genialidade é rotulada de loucura, aí o encarceram. A mulher que o abandonara, incapaz de acompanhar seus vôos, pediu sua interdição á justiça. A psiquiatria, esta inquisição moderna, serve de braço legal e justificativa ideológica para a invalidação da diferença que ameaça a “normalidade”. Expropriada de seus bens, confiados à tutela do presidente da Câmera de Comércio, Qorpo Santo foi dado como louco, aprisionado, e enviado à casa de saúde do Dr. Eiras no Rio de Janeiro.

Os procedimentos médicos e jurídicos não diferem dos atuais. Sua obra permanece, como um grito de lucidez frente à loucura geral. Sua ambientação no extremo sul do pais é circunstancial. A cor local amplia-se em dimensão planetária. O romance de Assis Brasil já seria notável por reacender a memória de Qorpo Santo, discutindo o assassinato de artistas, por reclusão a hospícios, ou por sua eliminação física, como vêm ocorrendo atualmente. Mas é a forma como o faz, com pesquisa esmerada e estilo magnífico, que tornam este livro à altura do autor que o inspira.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10.jan.1988.
O Ionesco dos pampas, perigosamente lúcido.
Marisa Lajolo
Em meados do século XIX, uma personagem incomum, assombrava a pacata vida de Porto Alegre, dando pasto à boataria local. Cochichava-se que ele era louco, que ele era insano. E quase todos o temiam, julgando-o perigosíssimo. Tratava-se de José Joaquim de Campas Leão, figura insólita para a época.

Tão insólita quanto a grafia do cognome que tomou para si: Qorpo Santo, onomástico exemplar para quem, entre outras excentricidades, pregava uma grafia fonética, defendia o divórcio e denunciava a hipocrisia da burguesia provinciana.

Vivendo entre 1829 e 1883, Qorpo Santo, mais do que incompreendido, foi estigmatizado por seus contemporâneos, ficando sua obra teatral inédita e desconhecida.

Sua redescobreta e revalorização teve um marco decisivo em 1966, quando, cem anos depois de escritas, três peças suas foram encenadas em Porto Alegre: Mateus e Mateusa, Eu sou vida, eu não sou morte e As relações naturais. Aceleram-se, a partir daí, as baterias que revisitam Qorpo Santo, com destaque para o livro Os homens precários com que, em 1975, Flávio Aguiar esmiúça, com amor e competência, a obra deste Ionesco dos pampas, tópico a partir de então obrigatório para os que vasculham os avessos da história da cultura brasileira.

Pois foi esta fascinante figura de Qorpo Santo que Luiz Antonio de Assis Brasil reconstituiu no romance Cães da Província, lançamento recente da Mercado Aberto.

O romance é magnífico.

Aplaina, na mestria com que é narrado, o garimpo da pesquisa que reconstroia época, entrelaçando notícias de jornal e fantasias, inventando onde é preciso, fundindo Qorpo Santo na multidão de pessoas e eventos de seus tempo, numa geografia escrupulosamente retraçada e num ambiente que exala veracidade. Aliás, veracidade e verossimilhança, fruto exclusivo da competência com que o autor estrutura o resultado de sua pesquisa, é o que conta em projetos como esse.

A Porto Alegre de Qorpo Santo que Assis Brasil reconstroié de carne e osso. Os teatros, os armazéns, as novenas, os mexÉricos, o decoro, o senso político das autoridades são andaimes para contextualizar a loucura de Qorpo Santo que, imerso nesse tempo e nesse espaço tão concretos, se redimensiona.


Cães da Província é um romance que não se deixa largar.

Põe em cena misteriosos desaparecimentos, levanta suspeitas sinistras quanto ao açougue da rua do Arvoredo, detém-se na ambiguidade de Lucrecia, mulher do bem posto Eusébio, e faz os leitores, meio de esguelha, acompanharem os surtos e delírios de Qorpo Santo. Tudo isso num texto coeso e rigoroso, preciso no controle do narrador que orquestra, com seu distanciamento solitário, o envolvimento dos leitores.

Que, repito, não largam o romance e (o que é muito bom...) nem precisam saber nada de Corpo Santo para fluírem a história.

A excelência literária do texto, em outras circunstancias, dispensaria que se mencionasse que lê foi originalmente apresentado como tese de doutoramento à PUC-RS de Porto Alegre. Mas talvez vanha a pena mencionar esta gênese sua, em primeiro lugar, porque a aceitação de textos de criação como tese acadêmicas é um precedente auspicioso no caso de romancistas do quilate de Assis Brasil. Em segundo lugar, é preciso assinalar que a aproximação entre escritores e os centros de reflexão sobre o fazer literário é mutuamente enriquecedora. Se franqueia à universidade os bastidores da criação literária na convivência com pesquisadores, críticos e professores, o artista aprende que eles não mordem, e nem sequer rosnam. E que, aliás, estão todos – escritores, professores, pesquisadores e críticos – no mesmo barco e que, se remarem juntos, talvez cheguem a algum porto seguro.


Jornal da Tarde, São Paulo, 19.ja.1988, Livros/Critica

Cães da Província
Arnaldo Campos
O que recomenda a boa teoria literária: que a análise da forma preceda a análise do conteúdo, ou ao contrário? Eu vou misturando. O espaço aqui é pequeno e devo me limitar a impressões pessoais de um ficcionista que l~e outros ficcionistas, como Goethe recomendava. Evito o registro dos desgostos, nem tão pouco, aliás. Quando livros recentes provocam minha casmurrice retorno aos velhos companheiros.

Mas hoje quero falar de Cães da Província, um romance que fechou com chave de ouro o desprovido ano de 1987. Fácil? Não. Confesso que não estou achando fácil escrever sobre esta obra de Luiz Antonio de Assis Brasil. A grandeza do livro aumenta geometricamente a responsabilidade. A leitura, sim, foi fácil, porque boa. Precedentes vozes criticas dissecaram o texto, não faz sentindo estar repetindo. Eu poderia apenas proclamar que gostei, gostei muito. Conquistaria leitores com tal simplificação? Porque é o que pretendo com estas crônicas sobre literatura: ganhar leitores para os livros que me agradaram.

Então trato de justificar minha especulação inicial sobre forma e conteúdo. Em Cães da Província a separação desses elementos é impossível, a técnica e a linguagem nunca foram tão bem determinadas pelo tema. Uma sinfonia literária, que tem entre seus movimentos a missa em ré menor, de Haydn.

Fatos da história do Rio Grande do Sul fascinam Luiz Antonio de Assis Brasil. Em Cães da Província ele foi encontrar a genial figura de Qorpo Santo, um dramaturgo que na segunda metade do século dezenove desmitificou com seus escritos e seu comportamento a paz que se pretendia sob o sorriso da mui Léal e valorosa cidade de Porto Alegre. A linguagem de Luiz Antonio, sempre elegante e irônica, vê-se nessa obra acrescida de extraordinário vigor. Elegância, ironia, vigor: três elementos que só o talento sabe conjugar. Foi o que Luiz Antonio fez: conjugou. E a realidade do passado emergiu convincente e bela aos nossos olhos.

Outros destaques, a recriação de ambiente e da atmosfera do que deve ter sido Porto Alegre no século dezenove, “das luzes”. Cenas da paz geográfica, a possível contemplação do rio, a bruma de outono. Quando os autores Landell e Joaquim Pedro subiam a rua da Alegria, “amparados sob o mesmo guarda-chuva negro e enorme, erguendo as golas a uma branda lufada de vento gélido”, eu senti uma vontade danada de convida-los para um copo de vinho verde no Mascarello.

Terminada a leitura de Cães da Província, lamentei. Os bons livros não deveriam ter ponto final. Na certeza de uma releitura, tão logo o tempo permita, coloquei o volume ao lado das obras de Balzac, um autor com quem Luiz Antonio não simpatiza tanto quanto eu. E, ao acaso, repassei trechos de um artigo de Emille Faguet sobre o grande ficcionista francês. Faguet diz, tecendo considerações sobre personagens de Balzac, que “não somos, no fundo, nem inteiramente bons, nem inteiramente maus, mas parecemos todos piores em nossos atos de que somos em nosso íntimo”. Síntese perfeita para os personagens de Cães da Província. Eusébio não era assim? E Inácia? E o juiz? Só os Qorpos Santos são os mesmos na intimidade e fora dela. Porque se bastam. Porque são loucos e a única sociedade que reconhecem é a do seu próprio gênio.


RS, Porto Alegre, 30.jan.1988.
Qorpo-Santo e província
Deonísio da Silva
Porto Alegre, Século XIX. Um escritor genial incomoda a província gaúcha com sua genialidade, suas frases criativas, sua figura insólita e costumes destoantes no cotidiano. É dado por louco. Preso. Enfiado em hospício. Analisado por doutores analfabetos que procuram nele as provas de sua insanidade. Laudos divergentes se contrapõe, pois um dos médicos não se arrisca a atestar que o escritor é louco. Como provar que é normal? O escritor sabe que provar que é louco é mais fácil e que os médicos não terão dificuldade. Ele não visita os parentes, critica todo mundo em suas peças, não tem piedade da oligarquia inepta e soberba que reside a hipocrisia geral da sociedade riograndense. Tampouco se adequa aos rígidos cânones epocais. É um torto na vida.

Na Porto Alegre do século XIX, um pacato e normal açougueiro convida as pessoas a visitarem os fundos de sua loja de carne. Lá carneia os visitantes, faz linguiças e revendes todos eles aos habitantes, em forma de carne moída ensacada em tripas, cujo sabor é louvado. Nenhum deles é tido por louco. Nem os que comem, nem os que morrem. E muito menos o que mata. Mas Qorpo Santo é louco. Baseado na vida de Qorpo Santo, o romancista Luiz Antonio de Assis Brasil fez uma ficção de alta qualidade. Enfim, “onde termina a mentira começa o sonha; e onde este acaba, começa, a mentira”, como diz o narrador. É um dos melhores romances deste ano, ainda que o ano não tenha acabado.

O percurso deste escritor, gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 1945, revela um projeto literário sério e competente. Em meados dos anos 70, quando explodiam contistas do Oiapoque a Ijuí, Assis Brasil estreou com um romance cuja forte temática telúrica chamou a atenção pela singularidade do tema e da abordagem. Era Um quarto de légua em quadro, que trata das vicissitudes da ocupação territorial do Rio Grande do Sul pelos portugueses. Seguiu-se A prole do corvo, que deu outra versão da Guerra Farroupilha, ocorrida no período que vai fé 1835 a 1845, quando o Rio Grande do Sul estava independente do resto do Brasil (Santa Catarina também estava, mas lá ainda não surgiu um Assis Brasil para tratar do tema em ficção; a Republica Juliana, cuja capital era Laguna, durou pouco mais de cem dias, mas feitos épicos presidiram sua proclamação, entre os quais está a travessia que Garibaldi fez por terra, de navio).

O ponto alto da ficção de Luiz Antonio de Assis Brasil tinha sido até agora As virtudes da casa, mas Cães da Província o supera em muitos aspectos, sobretudo numa frase mais inventiva, um modo de narrar mais ousado. É saudável a busca de várias heresias narrativas, que rompem com certa ortodoxia ficcional à que ele parecera muito apegado antes, mais preocupado em preencher uma forma europeia – certo modelo de romance – com matéria desses trópicos. Agora já não há mais resquício daquele escritor ainda contido de A prole do corvo. Cresce um romancista dos melhores da nossa geração. Obs.: O romance foi apresentado como tese de doutoramento, na PUC-RS/RS.


1° Edição, Curitiba, jan.1988.

Luiz Antonio de Assis Brasil: a Literatura na História
Dileta Silveira Martins
Ao longo de sua criação literária, Assis Brasil tem nos legado textos fascinantes, não só apenas pela qualidade na composição dos artifícios ficcionais como pela maneira com que desvela, na história e pela História, o homem, repensando o mundo, sobre o tempo e no tempo.

Pode-se dizer que, desde Um quarto de légua em quadro, onde se debruça sobre as dificuldades encontradas pelos colonizadores açorianos, ante uma inesperada realidade, na ocupação da região Sul, no século XVIII, prosseguindo em A prole do corvo com a desmitificação de heróis consagrados como Bento Gonçalves, no episódio da Revolução Farroupilha, no século XIX até então alcançar, em Bacia das almas, acontecimentos de mais cara importância para a memória do Rio Grande como o foram os eventos da instituição do Estado Novo às pretensões integralistas de Plínio Salgado – tem-se que reconhecer que, nessas narrativas, se confundem a história e a ficção e delas se recria um novo espaço estético-ideológico.

Por outro lado, textos com Manhã transfigurada e As virtudes da casa buscam na palavra – por si mesma – um aprofundamento maior na psicologia de personagens como Camila e Micaela que se debatem entre a sua individualidade e as paixões humanas.

Em 1987, o autor, a partir de nota explicativa, inserida no romance “Cães de Província”, explicita que não pretendeu escrever uma biografia de Qorpo Santo, mas recria essa personagem tão controvertida na dramaturgia brasileira.

O que existe, no texto, de certa forma é uma intenção biográfica, na qual o questionamento e a investigação sobre o citado autor vêm à tona, assentado na realidade histórica, recomposta através de problemas de construção da personalidade desse dramaturgo.

E é aqui que o texto artístico se define, não só pelos elementos formais, mas também em nível de literatura, porque, na verdade, o que mais seduz, nesse discurso, é quando um narrador-cronista estabelece opiniões sobre pessoas reais – que existiram de fato, resgatando acontecimentos da maior importância e levando esse universo pensado e vivido ao leitor. Dessa forma, o narrado pode ser visto como biografia, quando aborda acontecimentos verídicos os quais vão se tornar matéria literária e, justamente, o que separa a linguagem da realidade da linguagem da criação literária é o que está subjacente: a tensão, a ironia, a ambiguidade que se instauram nos vazios do texto. Por esse motivo, Cães da Província é uma narrativa que se inscreve em dois níveis: pelos elementos formais e pela instância narrativa numa perfeita identidade entre autor (rela) e narrador (ficcional).

A visão do real é subjetiva e como tal se arquiteta um discurso opaco que se apóia num certo equilíbrio: verdade/não-verdade.

Quando, em certas passagens, há o acontecimento da história e se introduz o imaginário – o delírio de Qorpo Santo – ocorre uma transposição do mundo rela para um tempo e um espaço que não são os da vida cotidiana. É quando a narrativa se desliga da HISTÓRIA para a ALEGORIA e as personagens estão totalmente submissas às estruturas sociais, assumindo uma dimensão coletiva, imersas numa profunda sátira aos costumes e às instituições do século XIX.

O narrador – ou os narradores – passam então a traduzir o funcionamento de um grupo e transmite juízos, mergulhando o leitor no mistério e na perplexidade de histórias paralelas que afloram do inconsciente para a hipócrita sociedade onde “ladram” os Cães da Província.
RGS–Letras, Porto Alegre, 30.jun.1989, p. 4

Uma tomada da interioridade de um gênio
Ely Marciniak
Quem manuseia o livro Cães da Província de Luiz Antonio de Assis Brasil e observa os agradecimentos do autor pode, de saída, verificar que o trabalho assenta sobre uma pesquisa variada que envolve a história do Rio Grande do Sul e, mais precisamente, a da cidade de Porto Alegre.

Pois bem, sobre este patamar histórico ergue-se a trama dos elementos que compõem a narrativa. Surge a sociedade tranquila na Porto Alegre de fins de 1800 e o conjunto de forças que agem sobre as pessoas e que vêm desmentir essa pacatez.

O fulcro do livro é Qorpo-Santo, aquele que chamava seus contemporâneos de Cães da Província, prontos a farejar e comer carne humana”.

Cães da Província, sim! Como se não bastasse a mesquinhez e a falta de espírito, não admitem ninguém que lhes seja superior”. Não é uma biografia de Qorpo-Santo, mas uma tomada da interioridade do mesmo, de modo a resgatar-lhe a memória. Se durante a vida dele, por sua singularidade, foi desprezado pela sociedade, hospitalizado e interditado; hoje sua obra é estudada, avaliada e ele é tido como percursos do teatro do absurdo. Na ótica de seus contemporâneos era apenas louco e portanto sua obra devia ser louca também.



Cães da Província trata-se, pois, da magnífica, notável sensibilidade de Qorpo-Santo e de sua lucidez, hiperlucidez, frente ao caso da época. A singularidade desta narrativa está justamente em aproveitar, artisticamente, o horrível (crimes da rua do arvoredo), embutindo nesse universo de pavor, ficcionalmente, outro crime que se situa na confluência das pressões sociais ditadas pelo machismo, pelo sentimento de honra, pela posição de abastado comerciante desfrutada por Eusébio naquele meio social canhestro e sem grandeza como ele próprio. Na linha narrativa deste crime, na qual subjaz a denúncia, aparece a figura de Qorpo-Santo como amigo. Sua inventividade é ressaltada e sua genialidade deságua no texto de “O Homem que enganou a Província”.

O valor desta obra não está nos ingredientes, mas na maneira de tratá-los, no aproveitamento feliz das situações para atingir o objetivo artístico, no expurgo ao exagero, na acomodação que gerou equilíbrio,denotando a maturidade a que atingiu o escritor e que nos autorizam a chamá-la de invulgar e, portanto, singular.


Arte&Fatos, Cachoeira, jun.1989

QORPO SANTO: Uma dialética própria
Volnyr Santos
É a partir dos anos revolucionários que se desenvolve a psicologia soviética. Inicialmente, de caráter mecanicista, adquire, após 1930, um cunho de ordem dialética, decorrência natural das diretrizes políticas do partido comunista no desenvolvimento dos estados psicológicos. É nesse período que se insere o nome de Lev Vygotsky, psicólogo russo que irá desenvolver estudos no sentido de compatibilizar os procedimentos psicológicos num processo de ordem cultural.

As ideias de Vygotsky não foram, ainda, devidamente apreciadas na sua abrangência. Conhecido, só após o ano de 1962, quando, então, aparece em inglês o seu livro Pensamento e linguagem. É a partir desse fato que se terá notícia da existência de uma Psicologia Evolutiva Inovadora e sagaz, palavras com que Plaget saúda o aparecimento do livro e no qual escreve o epílogo.

Há em Vygotsky a preocupação de desenvolver uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano, tentando fazer com que o pensamento de Marx, no que respeitará a história e á sociedade, funcione como elemento primeiro para a explicação do comportamento humano. Desse modo, Vygotsky vai rpivilegiar o estudo dos fatos psicológicos, considerando a ação dos dados de caráter social no desenvolvimento individual. Para o psicólogo russo, o desenvolvimento psicológico não cessa nunca, prosseguindo até o fim da vida.

Isso significa, na linha do pensamento vygotskyano, que o desenvolvimento só pode ser explicado em face de um ruptura e de uma revolução, já que o processo de socialização e de individualização humana tem como pressuposto a permanente incorporação de cultura, pois está é algo que só se alcança através de um processo dinâmico. Daí que sua interiorização exige um corte com a evolução biológica, a fim de permitir uma nova forma de evolução, que é o desenvolvimento histórico. Compreende-se, com isso, que o trabalho e a linguagem da comunidade precisam ser incorporados ao organismo, para que se caracterize o individuo, o ser humano que se entrega à sociedade e à história.

É a linguagem, na teoria vygotskyana, o elemento fundamental na alteração dos sistemas funcionais que vão determinar a evolução do pensamento. Como um processo integrado de signos elaborados culturalmente, a linguagem, à medida que é internalizada, converte-se na estrutura básica do pensamento.

É tomado como Apolo essa ideias que se pretende enfocar a questão da literatura dialética. Considerações que, se não conduzem para uma melhor compreensão do fenômeno literário, possibilitam, no entanto, pensar nas relações entre a literatura e a psicologia. Antes, é preciso lembrar que, não raro, muitas vezes acentuam-se certas especificidades discursivas, enfatizando esse aspecto em detrimento do estritamente literário.

No plano de uma literatura dialética. As ideias de Vygotsky podem ser levadas na medida em que compõem uma relação entre o substrato material (aqui considerado na sua forma discursiva) e a cultura como produto da ação humana. Com esse sentido, avizinham-se duas circunstâncias que possibilitam uma interação: é através da aproximação entre o estudo natural do homem e o seu conhecimento pelo processo simbólico que se dá a compreensão da captação do mundo, conforme explica o psicólogo em A formação social da mente.

Vygotsky, ao pesquisar as relações entre o pensamento e a linguagem, demonstra que está é um processo extremamente pessoal e, ao mesmo tempo, uma operação profundamente social. Vendo a relação entre individuo e sociedade como um processo dialético, Vygotsky entende que, através da internalização do conhecimento, os aspectos individuais da existência social refletem-se na cognição humana; por isso, “um individuo tem a capacidade de expressar e compartilhar com outros membros de seu grupo social o entendimento que ele tem da experiência comum ao grupo”, diz ele.

Desse modo, se não há pensamento independente do contexto social, se todas as funções superiores se dão como relações entre seres humanos, então é preciso insistir no fato de que esse jogo dialético possibilita traduzir, de forma global, as relações entre o homem e o universo, dado que vem a ser, em última instância, o objetivo da literatura, levando em conta que, ao se imaginar essa possibilidade, se pense na tensão que o discurso literário propõe, sem o que não há literatura no seu mais lato sentido.

Cães da Província: um fragmento do individuo.

Publicado em 1987, o livro Cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil, vai abordar um tema que, a par de sua importância como criação romanesca, traz à cena um personagem sobre todos os todos curioso. Trata-se de José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo, teatrólogo que, praticamente desconhecido na sua época (século XIX), é considerado, hoje, precursor do teatro do absurdo, depois de uma avaliação feita a partir dos estudos de Aníbal Damasceno Ferreira e de Guilhermino César.

O romance de Assis Brasil possibilita retornar, sob a perspectiva do pensamento de Lev Vygotsky, a questão da literatura e suas relações com a psicologia naquilo que respeita à interação do homem com a natureza e a cultura. A aproximação torna-se relevante, não só pela importância que o livro traz em si mesmo, mas, sobretudo, pela contiguidade que se estabelece entre a ficção e o documento. Explica-se: embora tratado ficcionalmente, Qorpo-Santo é uma figura histórica, possuindo espaço como individuo. (Nasceu em Triunfo, em 1829, e morreu em Porto Alegre, em 1883).

O individual.

É ponto pacifico afirmar-se que é a partir de um processo de individualização que se deu o desenvolvimento histórico e cultural da humanidade. Não do homem abstrato, neutramente social, mas do homem concreto capaz de realizar abstrações e escolhas. É com ele que se chega, depois de um longo caminho, ao individuo, definido como portador de um destino social e que se assume com substancia em si mesmo e estabelece como norma sua própria autoconservação e seu próprio desenvolvimento, conforme explicam Adorno e Horkheimer.

Max Horkheimer define com precisão o individuo: é em face da consciência da individualidade de ser humano dotado de consciência que nasce o reconhecimento da própria identidade. Aliás, é preciso lembrar que a relação entre individuo e autonomia é uma constante no pensamento que vem desde Hegel e Marx. Compreende-se, assim, a razão por que não foi possível identificar o individuo, durante inteiras épocas históricas, não só quanto aos escravos, mas também entender a definição que a própria sociedade atribui aos indivíduos sem utilidade publica, os sem sujeito de que fala Adorno. Nessa definição, encontram-se o judeu, a mulher, o negro e o louco: seres ameaçadores para a estabilidade de uma sociedade integrada, condição, aliás, para a universalização do individuo.

Diz Marx que, do mesmo que a natureza não pode ser separada do homem, assim, também, o homem e suas produções espirituais jamais podem estar dissociados da natureza. Isso significa que, para Marx, a natureza se inscreve no trabalho, isto é, a natureza é ao mesmo tempo sujeito e objeto do trabalho.

No momento em que o sujeito se relaciona com uma sociedade diversa e do individuo, ocorre a humanização da natureza e a naturalização do homem dentro de um processo alienado. Nesse sentido, conforme já acentuou o próprio Marx, o servo da gleba é o acessório orgânico da terra, o operário se torna um apêndice da maquina, a mulher se transforma em instrumento do prazer ou do privado homem patriarcal, enquanto que o louco confirma a tranquilidade de uma normalidade.

É em face desses pressupostos que se pode inserir a questão proposta por Vygotsky. Se, para ele, os processos sociais impõem os processos cognitivos, esse jogo dialético entra em relação recíproca, de tal modo que o individuo não pode ser separado do contexto social em que se encontra, sob pena de se anularem os mecanismos de transformação dos processos mentais superiores, representados pela interação homem – natureza – cultura. Desse modo, torna-se aceitável a noção de que, no caso da arte, a representação estética não se desvincula do processo de evolução histórica e social. Dizendo de outro modo: é o social que impõem a produção estética, na medida em que, para Vygotsky, o social produz o individual.

Quem é “louco”?

Perpassa o romance Cães da Província, de Assis Brasil, um realismo acentuado. Não poderia ser diferente, pois o enredo se fixa num aspecto fundamental: a loucura e os valores mutilados da sociedade porto-alegrense do século XIX. Qorpo-Santo, na sua insanidade, traduz uma forma de consciência social que resulta na proposição de valores para os quais a própria sociedade não se achava preparada.

A consciência representada por Qorpo-Santo, porque integrada numa superestrutura, reflete todo um processo de desenvolvimento que lhe subjaz; daí resulta que, sendo a arte o índice exato do estado normal, do valor cultural do povo, essa circunstância mostra que a arte não afirma simples existências, mas, na realidade, dá-lhes qualificação.

Transpondo essa questão para o pensamento de Vygotsky, nota-se que a postura de Qorpo-Santo, com base na interação a que se iludiu anteriormente, atua de modo a mostrar que a cultura se converte em parte da natureza do individuo. Qorpo-Santo e, em certa medida, um elemento de referencia para avaliar o pensamento do homem oitocentista porto-alegrense e, ao mesmo tampo, constituir um paradigma de aferição da estética produzida na época.

Sem pretender adotar uma atitude reducionista no que se refere a teoria vygotskyana, parece importante dizer que a obra estética, no caso, a literatura, é espaço de revelação de domínios do conhecimento que transcende o particular dos fatos e das situações representadas. Porque oscilando entre um determinado conhecimento e uma forma de concepção estética, a obra literária se produz em face de motivações individuais. Porém, esse conhecimento e essa visão estética não são fruto unicamente do conflito cognitivo, mas, também, do conflito que se produz na interação social. Ora, Qorpo-Santo, com o seu talento, recebeu da sociedade porto-alegrense muito pouco: o escárnio. O conflito, portanto, se dá em face da incompreensão social. O individuo, como produto desse choque, está fadado a ser suprimido, o que, aliás, vai ocorrer. Numa passagem do romance de Assis Brasil, no momento em que os dois médicos, os drs. Landell e Joaquim Pedro, discutem sobre s sanidade de Qorpo-Santo, trava-se o seguinte dialogo:

“- Veja, Esquirol chega a enumerar as causas de desvios turbulentos da paixão: nos divertimos, como no teatro, em que a pessoa chega a imaginar que vive as situações dramáticas; na política, que torna os homens ambiciosos, nem sempre podendo realizar seus propósitos; na educação deformadora; nas profissões, que simulam a concorrência insana entre as pessoas. Tudo isso conduz a um estado de permanente excitação que pode levar à loucura.

Landell puxa o guarda-chuva mais para o seu lado. Diz:

- Esquirol esquece que os homens têm um cérebro. O doutor Joaquim Pedro titubeia, rebuscando alguma ideia de Esquirol que possa servir de resposta cabal. Não se lembra... Landell aproveita:

- Veja você que ocorre numa contradição. Como é que, sendo um homem moderno, como diz e vive, você está pronto a admitir que esta mesma civilização ocasione tantos estragos?

- Não há contradição. O que acontece é um mau uso do moderno, uma espécie de perversão social que acaba por provocar os delírios da paixão. O homem não está preparado para a época que ele próprio construiu”. (págs. 157 e 158).

Mais adiante:

“- Concordo – diz Joaquim Pedro, sentindo que o colega ganha terreno. Mas mesmo assim encontra resposta provisória:

- A civilização é uma espada de fios opostos. Se por um lado nos propicia melhores meios de conhecimento da alma, por outro lado contribui para as doenças mentais. – Teme ao dizer: qual o ponto de equilíbrio?

- Não há pinto de equilíbrio, nem é necessário que haja. Quer-se civilização? Que se tenha, afinal é ela que nos dá o bico de gás e o telegrafo, a maquina a vapor. A loucura e outra coisa, que parte do próprio homem. Quando muito, a civilização é responsável pelos acidentes nas estradas de ferro.

- Mas há pouco você mandava às favas a civilização.

Landell não se perturba:

- Na verdade, sou um homem que ainda não me decidi perfeitamente entre a aceitação ou a repulsa do moderno. Mas isso é outro assunto, que ainda não diz respeito ao nosso trabalho.” (págs. 158 e 159).

Se é possível, a partir daí fazer inferências, pode-se dizer que a indecisão do médico, no que toca às relações entre civilização e loucura, é a causa dos equívocos sociais. Não é por outra razão que Adorno entende que, na crise, entre individuo e sociedade, essa mesma sociedade se realiza em detrimento do individuo, sacrificando-o em nome do social, acrescentando que, enquanto o sacrifício implicar a antítese entre individuo e coletividade, o engano estará objetivamente implícito no sacrifício.

De fato, caso se pensar no que significa o pensamento de Qorpo-Santo para a época, é extremamente significativo o fato de que o romance Cães da Província, ao situar a vida do individuo José Joaquim de Campos Leão Qorpó-Santo no plano ficcional, transfere para a literatura, como uma forma de conhecimento diferenciado, o personagem Qorpo-Santo que se expande, como e próprio da arte, num espaço de liberdade.

Sabe-se que Qorpo-Santo, declarado inapto, por decisão judicial, para gerir sua pessoa e bens, refugiou-se na atividade literária. Diz Guilherme César, em As relações naturais e outras comédias, que, nessa fase, “é quando sua mente começa a trabalhar com a mais energia; é quando descobre em si mesmo, nos destroços morais do professor impossibilitado de ter alunos, um reformador social em germe. Premido, humilhado, quis romper cadeias, quebrar tabus, refundir a sociedade, instaurar a perfeita justiça, assegurar o integral cumprimento das leis”. (págs. 23 e 24). E a produção de Qorpo-Santo que, na época, foi desdenhada, é considerada, hoje, como fundadora de um gênero: o teatro non-sense, só descoberto pelos europeus depois de Jarry. É, por isso, expressiva a frase com que o dr. Joaquim Pedro, romance de Assis, define os escritos de Qorpo-Santo: “Talvez esteja aí a chave da questão: Qorpo-Santo diz tudo o que não queremos dizer uns aos outros”. (pág. 220).
Conclusão

Como resultado de uma atividade social, a linguagem atualiza-se no plano individual, traduzindo uma relação entre o homem e o mundo. Desse modo, quando se transpõe essa noção para a questão da produção artística, tem-se que a arte, no seu sentido maior, nunca pode deixar de expor um sistema de pensamento. Daí se conclui que esse processo dialético, porque produto de uma interação, está na base da produção de cultura.

Em linhas muito amplas, é assim que o psicólogo Lev Vygotsky vê a dinâmica da transmissão da cultura, entendida a cultura como uma parte da natureza humana do individuo. É com base, portanto, na perspectiva psicológica de Vygotsky, que se pode dizer que a literatura, como manifestação cultural, (a) nasce da necessidade de intercomunicação social; (b) é o resultado de um processo social que, por sua vez, se inscreve numa evolução histórica.

No caso de Cães da Província, é o caráter social da vida de uma Porto Alegre atrasada que vai possibilitar a emergência dos personagens Qorpo-Santo. A população da cidade, ao refutar a obra (e o individuo) Qorpo-Santo, nada mais faz do que corroborar a noção proposta pela vygotskyana, isto é, a condenação que vai pesar sobre o personagem irá revelar o índice exato do pensamento de um dado momento histórico. (Lembre-se de que a posteridade reconheceu os méritos do escritor Qorpo-Santo). Na realidade, o que ocorreu, em fase da riqueza da individualidade do homem (e personagem) Qorpo-Santo, foi ele que levou às últimas consequências uma perspectiva de mundo que se explicitou de modo precário na consciência do grupo social.


RS–Letras, Porto Alegre, 17.dez.1989.

A danação da província: Qorpo Santo revisitado por
Assis Brasil, sob as luzes de Bakhtin.


Marilu Martens de Oliveira

Cães da Província (1986), de Luiz Antonio de Assis Brasil é considerado Novo Romance Histórico e a narrativa ficcionaliza a vida e a obra de José Joaquim Campos Leão (1829-1883), autodenominado "Qorpo Santo", importante dramaturgo e poeta brasileiro, que viveu em Porto Alegre, no século XIX. O romance resgata, portanto, um interessante fragmento da história desse escritor, considerado o precursor mundial do teatro do absurdo, figura inquietante e irreverente, que, ao retratar satiricamente o cotidiano, perturbou a sociedade provinciana de sua época, sendo interditado por loucura. Mas, como Assis Brasil afirma, "o romance não é biográfico".

Sabendo-se que a obra é metaficcional, a discussão principal da narrativa gira em torno do cânone que, para Bloom (1994), tendo sua origem em vocábulo religioso, tornou-se opção entre textos que lutam pela sobrevivência, uns com os outros. Logo, é elitista, paradigmático, impondo limites e estabelecendo pontes entre precursores e epígonos. Nessa linha, Assis Brasil propõe a ruptura do cânone consagrado pelo eixo RIO/SÃO PAULO, ao buscar um autor de peças teatrais e poesias do século XIX, gaúcho, marginalizado pela sociedade da época, e que até hoje é pouco conhecido no meio acadêmico, e que também lutou por tal ruptura.

A estrutura do romance dialoga com a estrutura dos textos dramáticos: a narrativa é dividida em três partes, que representam três atos e também três fatos históricos. O primeiro aborda o episódio de se fazer linguiça com seres humanos; o segundo, o homem que mata a mulher e esconde o cadáver; e o terceiro, a própria história de Qorpo-Santo.

O núcleo temático da narrativa parte dos crimes na rua do Arvoredo, que serve de pretexto para discutir temas como sanidade/loucura, província/centro cosmopolita, relatividade e antropofagia, num enfoque paródico, que, somado à metaficção, leva à possibilidade de se dizer que Cães da Província é uma inteligente paródia dos romances policiais e dos romances de tese. Vale lembrar que a paródia não é mera imitação transgressora, mas também repetição com distância crítica, acentuando a diferença, num procedimento pós-moderno, paradoxal, já que incorpora desafiando o que parodia. Sendo ambivalente, renova sua relação com a morte (Bakhtin, 1997).

O jogo intertextual, no interior da narrativa, é muito sutil.E, como esclarece Barros(1999, p.4) "a intertextualidade na obra de Bakhtin é, antes de tudo, a intertextualidade interna, das vozes que falam e polemizam no texto, nele reproduzindo o diálogo com outros textos". O caso dos crimes da rua do Arvoredo é baseado em fatos verídicos, porém o leitor só saberá disso na última página do livro, no momento em que o autor faz os agradecimentos. Outro exemplo de intertexto diz respeito ao uso de monólogos e o resgate de determinados personagens do universo ficcional de Qorpo Santo: "... Qorpo-Santo volta-se para a comédia, cujos personagens já estão delineados. Sim, começara por um monólogo de Impertinente, esse vadio" (Brasil, 1986:47). Na peça Relações Naturais, Qorpo-Santo começa com um monólogo do personagem Impertinente. Inesperto é outro personagem que também aparece e faz parte da narrativa. Há, portanto, uma apropriação, por parte de Assis Brasil, de temas e personagens que transitam pela obra de Qorpo Santo e, dessa forma, ele revê, via ficção e história, o cânone na província, dialogando bakhtinianamente com outra época, outra obra e outro autor.


Referências bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski.Rio de Janeiro: Forense Universitária, l997.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de.Cães da Província.Porto Alegre: Mercado Aberto, l986.

BLOOM, Harold. O cânone ocidental: os livros e a escola do tempo. 2.ed.Rio de Janeiro:Objetiva,l995.

ASSIS BRASIL, L.A. Cães da Província. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.

BARROS, Diana L.P, de. Dialogismo, polifonia e enunciação. In: BARROS, D. L. P. , FIORIN, J. L. (orgs). Dialogismo, polifonia e intertextualidade: em torno de Bakhtin. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.p.1-1

Trabalho apresentado ao XI International Bahktin Conference, UFPR/CAPES, 2003




Qorpo Santo

Ivo Bender

José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, é o único personagem histórico aproveitado na ficção da série 20. Personagem da Literatura Gaúcha de Século 20. Nascido em Triunfo, Qorpo Santo deixou obra pequena, composta quase exclusivamente de textos reunidos em Ensiclopédia, uma coletânea de dramas, poemas, crônicas e artigos políticos. Chegou a sofrer processo de interdição por suposta insanidade mental. Em Cães da Província, o atormentado Qorpo Santo foi recriado por Luiz Antonio de Assis Brasil, com oito votos, o personagem foi o 17° mais votado pelos 40 intelectuais que compuseram a lista das 20 criaturas inesquecíveis da literatura rio-grandense do século.



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