Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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UM TRECHO

“Forma-se um silêncio imobilizador. O juiz, por um breve instante, parece perdido; mas como se a mão do dever o impulsionasse, endireita-se na cadeira, aspira fundo e pela primeira vez olha para o homem.



  • Diga seu nome.

A sala inteira ouve uma voz clara e cortante.

  • José Joaquim de Campos Leão, Qorpo Santo.

  • Diga apenas o seu nome verdadeiro. O resto é fantasia do senhor.

  • Qorpo Santo me parece mais apropriado. Adotei-o quando me decidi a romper com as relações carnais, depois de muito refletir. E como as coisas escolhidas são as mais verdadeiras, considero meu autentico nome este: Qorpo Santo. O resto é para assinar papeis e notas promissórias, que por acaso são muitas. Ou o senhor doutor juiz está contente em ter sido batizado de Empédocles? Não gostaria de usar outro nome?”

Sempre é instigante voltar a Qorpo Santo. Podemos revistá-lo enquanto homem hostilizado por toda uma cidade e, nesse caso, há que confiar nos poucos documentos disponíveis. Outra possibilidade é vê-lo de uma perspectiva literária, por meio da pesquisa até aqui produzida ou enquanto figura da ficção brasileira recente. Luiz Antonio de Assis Brasil, em Cães da Província, contribui, de modo efetivo, para retirar novamente da penumbra esse dramaturgo impulsivo.

É numa primitiva Porto Alegre, sonolenta e mesquinha, que Assis Brasil faz transitar as personagens de seu romance: o comerciante Eusébio e sua jovem mulher apenas saída da adolescência, o Dr. Landell e Dona Inácia, entre outras, são as figuras que no romance cruzam o caminho de Qorpo Santo. Pinçadas do cenário que cercava o escritor, as personagens, meio ficção e meio verdade, conferem um perturbador realismo à história. Esse é o caso de Catarina Palsen e de João Ramos, os amantes homicidas. Já o Dr. Calado, chefe de policia encarregado de deslindar o caso do desaparecimento de alguns cidadãos, surpreende por sua irrefreável sensualidade. O criado Inesperto, espécie de anjo-da-guarda de Qorpo Santo, sai da comédia As Relações Naturais para garantir uma certa ordem em meio ao caos que domina a vida de seu patrão. E acima de todo, paira aquele que é o centro do romance: José Joaquim de Qampos Leão – o Qorpo Santo.

Sendo o personagem em torno do qual se organizam as ações, o Qorpo Santo de Assis Brasil reafirma e a dramaticidade que o Qorpo Santo real imprimiu a sua vida. Em Cães da Província, acompanhamos a turbulenta relação do dramaturgo com sua mulher, os lances especulares de seu cotidiano, sua interdição e, naturalmente, sua dramaturgia. Seus textos teatrais, que resultam, de fato, tanto de uma escritura compulsiva quando de um talento irrequieto, aparecem no romance pelo interesse que despertam no jovem médico Joaquim Pedro.

No entanto, o leitor de hoje, mesmo não sendo versado nas questões de recepção, sabe da impossibilidade de serem encenadas essas comédias e, muito menos, apreciadas naquela sombria Porto Alegre, cenário da narrativa. De resto, o próprio Qorpo Santo intui que seus textos terão de esperar um outro público e diferentes poéticas para serem devidamente aceitos. Em outras palavras, è isso que ele diz ao médico que o visita, ao encontrar-se sob custódia na Santa Casa de Misericórdia. É que, nessa cidade acanhada e maldizente, as transgressões, quando flagradas, são punidas com exemplar rigor. Porto Alegre, que no início do romance se apresenta plácida e acolhedora, aos poucos revela uma insuspeitada face. Onipresente com seu abraço constritor, ela se reserva o papel de juiz absoluto e, como tal, transforma-se em um personagem a mais.

Por fim, a cidadezinha mostra-se como a grande adversária do dramaturgo. Seus intensos crepúsculos e lânguidos outonos apenas encobrem o rosto de uma mãe severa e punitiva. Aí daqueles filhos que ousam entregar-se aos prazeres não-convencionais: serão castigados por seus próprios sedutores e, depois de mortos, esquartejados e vendidos em postas sobre o ensanguentado balcão de um açougue. As adulteras, como a infeliz Lucrécia, ao retornar ao lar são aprisionadas entre as quatro paredes da alcova, amordaçadas, conduzidas à loucura e, por fim, eliminadas. Quanto aos escritores que pautam sua criação pelo descompromisso com os padrões literários em voga e que, portanto, escapam à crítica fácil, esses autores recebem uma dupla punição: além de terem sua obra ignorada, ainda são vítimas do escárnio. Nesse sentido, Qorpo Santo cumpre perfeitamente a pena que a cidade lha prescreve: à época, suas peças sequer são lidas, e a sanidade metal do autor é posta em dúvida.

A criação de comedias que não seguem nenhum conhecido fecha os palcos para Qorpo Santo. Ante a indiferença generalizada, resta-lhe refugiar-se dentro de limites por ele próprio construídos: José Joaquim de Campos de Leão penetra em seu mundo cênico e faz aparições na própria trama das comédias. Se antes ele vinha construindo um alter-ego, agora ele vira personagem de si mesmo. E é como simples personagem que tenta cobrar certa divida do Estado em Um Credor da Fazenda Nacional. O homem, cidadão mas já irreversivelmente personagem, terá de buscar alhures as provas de que tem pleno domínio das faculdades mentais. Cães da Província fecha-se, então, com a viajem de Qorpo Santo ao Rio de Janeiro. No tombadilho do navio, ele sofre violenta alucinação em que delírio, memória e desejo se misturam. De fato, dizem os documentos históricos que ele volta meses depois trazendo consigo um atestado de boa saúde mental. Assim como, a partir de seu redescobrimento, ele ressurge para ocupar seu lugar no palco e no romance e, desse modo, virar o milênio.
Zero Hora, Porto Alegre, 19.jun.1999, Cultura, p.central
O grotesco e a ardileza da narrativa policial em Cães da Província

Maria Helena de Moura Arias


De acordo com Fernando Aínsa, uma das características mais interessantes do discurso ficcional dos anos oitenta é o renovado interesse pela novela histórica e acrescenta que os escritores latino-americanos "necesitaram profundizar en su propia historia, incorporando el imaginario individual y colectivo del pasado a la ficción". (Aínsa, 1991:82).

E é exatamente no período indicado por Aínsa que o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, publicou Cães da Província. O Romance foi escrito em 1987 e apresentado inicialmente como Tese de Doutorado pelo autor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e retrata a história do dramaturgo Qorpo-Santo e toda a sua manifestada loucura. Assis Brasil é também autor de Romances Históricos como O pintor de retratos; A margem imóvel do rio; O Breviário das Terras do Brasil, entre outros.

Nota-se, portanto, neste período, uma explosão de romances históricos, caracterizados pela releitura da história e de personagens históricos. Este subgênero vai romper com o modelo tradicional de Romance-Histórico, fazendo com que personagens históricos sejam deslocados ou, ao seu tempo histórico, ou a qualquer outro tempo dentro de uma quase absurda proposta de reinvenção e consequente sobreposição deste mesmo tempo. Portanto, ao alterar os alicerces temporais, o novo romance histórico vai eliminar também o espaço que deverá perder-se entre o discurso do narrador e a indicação do personagem. Essencialmente, o novo romance histórico tem por função trazer à tona a multiplicidade de fatos, já que não existe uma verdade absoluta. Além disso, estes Romances identificados como pós-modernos, vão "confrontar paradoxos de representação ficção/história, explorando os dois lados sem anular nenhum deles."(Hutcheon, 1991:142).

Por esta razão, é possível considerar que estes Romances reiteram com mais agressividade o que anuncia Humberto Eco:

Parece que a ficcionalidade se revela por meio da insistência em detalhes inverificáveis e intrusões introspectivas, pois nenhum relato histórico pode suportar tais efeitos de realidade. (Eco, 1994:128).

Em Cães da Província, fatos históricos inseridos no cotidiano de Porto Alegre das últimas décadas do século XIX, surgem envolvidos em uma atmosfera policial que, assim como neste Romance, ronda as narrativas contemporâneas. No entanto, em Assis Brasil, esta proposta vem alinhavada ao grotesco. Há, em Cães da Província, o choque e o estranhamento causados por esta característica. A história do amigo de Qorpo-Santo, o personagem Euzébio, caminha paralela à história do dramaturgo. Mas, enquanto Qorpo-Santo assusta a provinciana Porto Alegre com seus desatinos, Euzébio, pelo contrário, é um comerciante bem sucedido que tem a preocupação de manter as aparências de acordo com o que é conveniente para a sociedade da época. Mas o casamento de Euzébio com Lucrécia vai dar início a um processo de desmonte desta intocável conveniência. Ou seja, seu desejo de tornar-se próspero e respeitado vai encontrar resistência no comportamento da bela Lucrécia que, de esposa invejada pela sua dedicação à igreja, encontra um amante e foge com ele.

Além disso, há em curso uma investigação policial que tenta desvendar o mistério do desaparecimento de alguns moradores. Justificando assim, a opção do narrador pelas veredas do grotesco, aspecto verificado quando este vai moldando o episódio policial com as desventuras de Euzébio. Assim, o personagem é envolvido, pois passa de cidadão respeitável a assassino cruel. Mas, em vista de seu medo e de sua posição social, é absolvido de forma velada pelo delegado que apenas desconfia, mas não se manifesta.

Sob o véu da noite


A noite encobrindo tudo: a retirada do corpo, o esconder da carroça, o caminho até o túmulo, o escavar pausado até que a pá ressoou no tampo do caixão da outra. A astúcia e a noite são irmãs: ambas seduzem e cobrem a verdade."(Brasil, 1996:244/245)
Os episódios constantes da história de Euzébio e Lucrécia, são marcados pela penumbra e pelo silêncio. Permeiam o Romance, acrescentando a este um surpreendente sabor de náusea e espanto. Mas é necessário, antes de mais nada, citar o que diz Vitor Hugo sobre a necessidade do grotesco:
Esta beleza universal que a Antiguidade derramava solenemente sobre tudo não deixava de ser monótona; a mesma impressão, sempre repetida, pode fatigar com o tempo. O sublime sobre o sublime dificilmente produz o contraste. O que chamamos de feio, ao contrário é um pormenor de um grande conjunto que nos escapa, e que se harmoniza, não com o homem, mas com toda a criação (Hugo,1999:31/320).
O retorno silencioso de Lucrécia, ocorreu no meio da noite. Ninguém a viu. Adentrou o quarto como um fantasma e ali deverá permanecer até sua morte derradeira. Esta foi uma inexplicável surpresa para Euzébio. Jamais imaginara que sua esposa poderia retornar. Principalmente agora que estava morta e enterrada.

Ou seja, no Romance, o personagem Euzébio, juntamente com seu amigo Qorpo-Santo, reconheceram um corpo feminino como sendo de Lucrécia. Mas tudo não passava de uma farsa. Os corpos foram encontrados em estado de decomposição nos fundos da casa do açougueiro. Por isso estavam desaparecidos. O açougueiro foi acusado pela população, de fazer linguiças com carne humana. Em meio a multidão de curiosos, entre os policiais e o delegado, apareceu Qorpo-Santo, responsável pela farsa. Para salvar a honra de Euzébio, nada como uma história inventada dando conta do desaparecimento da esposa. O corpo feminino com a cabeça decepada surgiu oportunamente. Para Qorpo-Santo, aquele episódio teria um caráter trágico se não fosse tão cômico, já que "o drama é o grotesco com o sublime, a alma sob o corpo, é uma tragédia sob uma comédia" (Hugo, 199:84).

Por sua vez, Euzébio velou e enterrou sua esposa. Assumiu uma suposta viuvez e, para que ninguém jamais desconfiasse, mandou rezar muitas missas. No entanto, para seu desespero, a farsa que parecia enterrada com Lucrécia, estava apenas começando. A Lucrécia verdadeira que não estava morta, voltou para casa arrependida e a cidade jamais poderia saber.

A vida aparentemente tão acima de qualquer suspeita, o afastamento temporário do ciclo social, a intensidade de seu luto, fizeram com que Euzébio acreditasse em sua própria mentira. A presença física de Lucrécia poderia por em risco toda a sua honradez. Seu nome poderia ser motivo de chacota. Mais ainda, todos poderiam descobrir e ele seria julgado e condenado por um crime inexplicável.

Em Cães da Província, o narrador vai modular a experiência sádica do personagem. Euzébio recebe Lucrécia de volta, mas não permite que ela deixe o quarto. Ele a manterá prisioneira, até que a loucura tome conta da mulher.

Assim, sob o ardil inexorável da manutenção de sua honra, Euzébio vai dar início ao processo de destruição daquela que foi sua esposa, mas que o traiu, fugindo com o entregador de queijos. A consciência enlouquecida do personagem o instiga a dar cabo da vida de Lucrécia: "Julgava-se enlouquecer junto com a mulher: abandonava o quarto, jogava-se no pequeno catre do quarto de hóspede..." (Brasil, 1996:237). No entanto, o pavor de si mesmo, transforma seus dias e suas noites em um pesadelo tenebroso e ele tenciona matar a esposa aos poucos: "imaginava morcegos esvoaçantes no teto e aranhas que subiam pelos pés da cama, e isso até a madrugada, quando os galos quebravam a noite." (Brasil, 1996: 237); "[...] só a morte, pensava, só a morte poderá por fim a tudo isso" (Brasil, 1996:196). O processo de definhamento e morte de Lucrécia aterroriza por sua frieza e crueldade:


De mais a mais quando pensava com vagar, pesquisando o lodaçal da alma, descobria que, a par da ansiedade em manter Lucrécia presa, nutria o sentimento perverso de que a estava punindo com aquelas trevas perpétuas como se faz com os condenados à Greena, onde só há choro e ranger de dentes. Voltou ao quarto do casal, traçou pausadamente o nome-do-padre na testa febril de Lucrécia, tomou com delicadeza a cabeça, ergueu-a do travesseiro, passou o pano pelo pescoço, deu uma volta e ainda olhou para as vistas perdidas no tempo. Vagarosamente, como última carícia, ele foi apertando o laço.(Brasil, 1996:195/241).

Conclusão


As narrativas referentes ao caso que envolve uma investigação policial e as desventuras de Euzébio funcionam no Romance como narrativas paralelas, as quais entrecortam a narrativa principal, protagonizada por Qorpo-Santo. Estas são caracterizadas por elementos que comprovam a interferência de indicadores do grotesco: " - Um crânio-Anote aí: um crânio- dita o doutor Calado ao escrivão, mal acreditando que todas suas suspeitas se confirmam, desenterram tíbias, úmeros, costelas e espinhaços...(Brasil, 1996:68). Além de : " Agora, isto! Corpos saem do porão como de sepulturas. O poço já deu seus mórbidos frutos..." (Brasil, 1996:71).

Esta marca preponderante na construção, funciona como guia à trama. Sendo o livro voltado à história de Qorpo-Santo, era necessário viabilizar algo que tivesse como função sustentar a estrutura. Assim, as narrativas paralelas que se iniciam de modo independente, encontram-se no desvendamento do mistério dos moradores desaparecidos e consequente localização dos corpos. Separando-se posteriormente.

Ou seja, a história de Euzébio, avança além da história dos assassinatos. As quais encerram-se anteriormente à história de Qorpo-Santo. A conclusão das mesmas, no entanto, orientam o leitor a buscar o final de tudo. Ou seja, o que aconteceu a Qorpo-Santo?

É necessário esclarecer que a farsa do reconhecimento do corpo de Lucrécia, foi tramada por Qorpo-Santo, como uma espécie de vingança contra aquela sociedade opressora e mesquinha. Ora, ninguém jamais descobriu absolutamente nada. No seu íntimo, o Delegado suspeitava de Euzébio, exatamente porque ele estava acompanhado do louco da cidade, no momento do reconhecimento do corpo. No entanto, jamais ousou investigar. Euzébio era o oposto de Qorpo-Santo. Enquanto um era respeitado como comerciante discreto e bem sucedido, o outro era discriminado por seu temperamento explosivo que levava todos a tratá-lo como um louco. As narrativas paralelas sugerem uma inversão de papéis pois, embora aparentemente equilibrado, é Euzébio quem tortura e assassina.

Além disso, a inserção de um narrador que justifica ao mesmo tempo que condena a atitude de Euzébio, por meio do fluxo de consciência e monólogo interior, dá lugar a uma rede de conflitos: " Mas o que fazer de sua vida? Uma primeira ideia, absurda e louca: despachar a mulher porta afora, admitir de público que se enganara no reconhecimento do corpo mutilado. Afasta a tentação, impossível expor-se ao escândalo que certamente o arruinaria..."(Brasil, 1996:175). O narrador vai modulando e orientando a tecedura desta rede: " Está só, sem ninguém que possa ouvi-lo, abafado num abismo em que seu grito de desespero se escoa nas trevas." (Brasil: 1996:175); " Mas descobrirão tudo, a burla ensandecida, sua vida será esquadrinhada e cuspida com nojo, como sempre deveria ter sido".(Brasil, 1996:176).

No Romance, é frequente o cruzamento entre narrativas. São pontas que se tocam, entrelaçam-se, para depois se separarem e novamente se encontrarem. Isto faz com que se estabeleça um movimento preciso que, ora aproxima-se de um desfecho policial, ora afasta-se para abranger um apontamento relacionado a psicanálise; afastando-se novamente para causar asco com as tomadas de cunho grotesco. E, principalmente, discutindo o contexto referente a existência de Qorpo-Santo, enquanto artista sem reconhecimento.

Este aspecto vem de encontro ao que propõe Calvino em seu livro "Seis Propostas para o Próximo Milênio", quando destaca que a literatura tem a obrigação de conter ao que ele denomina "excessiva ambição de propósitos". Vai além ao dizer que mesmo que a ciência desconfie das explicações gerais "o grande desafio da literatura é o de saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo".(Calvino, 1999:127). A esta característica Calvino denomina multiplicidade. E é a mesma multiplicidade abordada por Fernando Aínsa no caso específico do novo Romance Histórico: " La multiplicidad de perspectivas asegura la impossibilidad de lograr al accesa a la una sola verdad del hecho historico..." (Aínsa, 1991:83).

Infere-se, portanto, que o Romance em questão oferece inúmeras possibilidades de abordagem. Assim, não ficará sufocado com o apontamento grotesco ou com as investigações policiais. Isto pelo simples fato de que estas indicações foram cultivadas no vastíssimo e fértil terreno da metaficção. Ou seja, todos os acontecimentos narrados tiveram uma finalidade específica que era a da invenção de uma história fabulosa. Algo assim, mais ou menos inacreditável que colocasse em xeque os sagrados preceitos daquela sociedade provinciana.


Referências

AÍNSA, Fernando. La Nueva Novela Histórica Latino Americana. Plural, 240, p.82-85, 1991.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Cães da Província . 6ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996.

CALVINO, Italo. Seis Propostas para o Próximo Milênio. 2ª ed. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ECO, Humberto. Seis Passeios pelo Bosque da Ficção. Tradução Hildegard Feist. São Paulo: Companhia da Letras, 1994.

HUGO, Vitor. Do Grotesco e do Sublime. Tradução do Prefácio de Cromwell, por Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 1999.

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Tradução Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

A autora é aluna do Curso de Doutorado em Letras na UNESP-Assis/SP, sob orientação do Prof. Dr. Antonio Roberto Esteves.


Trabalho apresentado ao 52º Seminário do GEL - UNICAMP - Campinas,  2004.
Assis Brasil reinventa trama em Qorpo Santo

José Antônio Silva


Espécie de ponto de luz – e de sombras – na colonial e provinciana Porto Alegre do século passado, a figura do dramaturgo. Qorpo Santo quebrou a mesmice de então, com suas opiniões avançadas, sua polêmica “insanidade”. Misto de gênio e louco, da estripe dos malditos, sofreu internação em sanatório e, em sua época, praticamente só imcompreensão e deboche. Exatamente este homem – o mestre-escola Joaquim José de Campos Leão, auto-dominado Qorpo Santo – inspirou a trama central do mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil. Cães da Província, sétima obra do escritor, tem 252 páginas, custa Cz$ 507,50 o exemplar e será lançado pela Editora Mercado Aberto em sua própria livraria da rua Riachuelo, 1291, com coquetel e autógrafos a partir ds 17h30 de hoje.

“Mas Qorpo Santo não é o único foco dramático do livro”, esclarece Assis Brasil, um porto- alegrense de 42 anos que divide metodicamente seu tempo entre o trabalho literário, o cargo de advogado da Sphan e as aulas que ministra no curso de Letras da PUC-RS. “Cães da Província não trabalha só sobre a figura de Qorpo Santo”, reafirma o escritor, “Como contraponto à sua ‘loucura’, mostro a comoção na cidade com os famosos Crimes da Rua do Arvoredo, o mais famoso caso policial que Porto Alegre conheceu, e que passou-se no mesmo momento histórico em que Qorpo Santo escreveu sua obra”.


IMAGINÁRIO
Os crimes – sete assassinatos que ficaram insolúveis por vários meses – foram cometidos por um casal que tinha um açougue na então Rua do Arvoredo (atualmente Fernando Machado). Em consequência, correu pela cidade o boato de que as linguiças que o estabelecimento vendia eram feitas com carne humana... Mas há ainda um terceiro pólo dramático no novo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil: uma história passional

XXXXX


Brasil, divide com o autor confessadas passagens biográficas. Afinal, o próprio escritor foi por 12 anos, violoncelista da OSPA. Como pano de fundo, o pior período da ditadura no Brasil. O livro mostra um fato real: o governo militar colocando todos os músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre num avião, num sete de setembro, e levando-os à Brasília para tocar para o corpo diplomático no Itamarati – independente da vontade de cada instrumentista ou mesmo da direção da orquestra.
Ambientação literária que refaz o passado sem perder de vista os limites da ficção
Assis Brasil diz que não se trata de sua próproa história, mas reconhece que esse livro, “no plano pessoal, é uma reflexão sobre a minha passagem pela marca dos 40 anos de idade”. Acres- xxxx narrativos e chega à fixação dos tempos verbais que pretende usar. Geralmente termina escrevendo seus livros na 3ª pessoa do singular: as exceções ficam por conta de Um quarto de légua em quadro e o O homem amoroso, em que utilizou-se da 1º pessoa. Influências, autores que admira? “Tenho meus ídolos”, diz tranquilo. “com eça de Queiros aprendi muito sobre estruturação de um romance, ele teve mesmo um papel decisivo na minha decisão de me tornar um escritor”.

Assis Brasil gosta igualmente de Maupassant e Flaubert, e garante que relê Mme. Bovary uma vez por ano. Quanto ao seu ícone Eça de Queirós, lê toda sua obra de cinco em cinco anos. Tem também certa preferência pela literatura norte-americana deste século. “Faulkner é genial como criador de estruturas e na multiplicidade de focos narrativos, John dos Passos é um narrador impecável, e também gosto do Hemingway”. Ele esquiva-se em citar autores gaúchos (“por uma questão de ética”), mas em termos de escritores brasileiros xxx pessoais, mais é impossível descolar de sua folha de prestados ao Rio Grande do Sul os 11 anos em que dirigiu vários órgãos estaduais ligados à Cultura. Entre outros cargos, foi subsecretário estadual da Cultura e diretor do Instituto Estadual do Livro (IEL). Neste período, apesar do processo de “abertura” já estar em andamento, o Brasil ainda não tinha saído totalmente do regime autoritário que instalou-se, manu militari, no poder em 64. em consequência, não faltaram cobranças acerca da postura de Assis Brasil. “Quando me colocavam diretamente a questão de ocupar um cargo naquele regime, eu respondia simplesmente: - Se você pudesse escolher, preferiria que nesse lugar estivesse eu ou um coronel?”

DEVER
Hoje, garantir que se sente com a sensação de um dever – “auto-imposto” – cumprido. “Quis dar uma mão, ajudar no tratamento das coisas da Cultura do estado, em especial deter a decadência em que estava em- xxxx “Basta ver a porcentagem do orçamento do estado que é dedicada à cultura, para um ano inteiro: 0,034%. Isso corresponde, em termos financeiros, ao custo de 800 metros de estrada asfaltada – menos de um quilômetro...”. Assis Brasil lembra que a Unesco recomenda que sejam repassados de 1 a 2% dos orçamentos públicos para o trato das coisas culturais.

O ex-diretor do Instituto Estadual do livro também diz que, evidentemente, o estado não pode se envolver na criação cultural e artística. Mas tem a obrigação de amparar, estimular e proteger a circulação dos bens da cultura. E afirma: “A lei Sarney não é a panaceia para a questão cultural. O estado tem que investir mais e diretamente, para que a circulação dos bens culturais seja mais barata, mais rápida e a mais eficaz possível”.


O NOME
Porto-alegrense com origens na mais tradicional aristocracia rural do estado, ele carrega o peso xxx artificial “ufanismo que está cristalizado nos CTGs”.

Nesse sentido, como lembra o também romancista Tabajara Ruas. As virtudes da casa, que Assis Brasil lançou em 1985, pleno ano do sequincentenário da Revolução Farroupilha, pode ser considerado o outro lado da épica rio-grandense, num clima feminino e recluso, com ciúmesa, incesto e outros temas menos prestigiados pelos apologistas da glória gauchesca. Assis Brasil admite que as Virtudes poderia realmente ter servido para dar inicio a um debate sobre a realidade e o sentido mais profundo da história e da formação do Rio Grande, mas que os ufanistas não entenderam assim o livro:

“Eles só entenderiam um desafio muito mais direto. Continuam aferrados a uma visão falsa e doentia do passado”.
Zero Hora, Porto Alegre, 19.out. 1987, Cultura.
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL NA PROVÍNCIA MACABRA

Nádia Maria Baptista Borges de Vargas

Através da obra Cães da Província, Luiz Antonio de Assis Brasil recebe o grau de Doutor em Letras pela Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do Sul em 1987. Em 1988, o livro é lançado e no enredo personagens históricos, como Qorpo-Santo, confrontam-se com as personagens ficcionais, retratando assim a pequenez de uma sociedade hipócrita e criminosa. O narrador apresenta o romance dentro de um recorte sociológico, onde as personagens estão ligadas à engrenagem social sobre a qual se debatem.

A obra Cães da Província utiliza o fato histórico como um pano de fundo para que ocorra a ficção. Mostra também que o romance histórico clássico, modalidade à qual pode-se filiar esta obra, reconstitui a história, preenchendo as lacunas, criando diálogos, mostrando as relações existentes entre o fazer literário e a História. Desta forma o romance histórico levanta hábitos e práticas culturais de um povo, fazendo o leitor mergulhar no imaginário histórico de uma época.



Cães da Província mostra a Província completamente convulsionada pelos infortúnios do final do século. É neste contexto que a obra busca esteticamente reiterar esses momentos vividos pelo povo da Província, trazendo nela um inesgotável universo de relações humanas repletas de contradições. A cidade de Porto Alegre é onde ocorre a ação romanesca, num clima de conflitos entre grupos rivais, numa geografia que desnuda as diferenças sociais. O cenário se transforma em local significativo dos problemas vividos pelos personagens.

É notável o ritmo requintado da obra, na qual o narrador, após apresentar uma imagem impressionista da cidade, vem através das personagens históricas ou ficcionais desencadear seus dramas. O narrador descreve a cidade num tom irônico, mostrando o panorama econômico e social ao lado de sua configuração topográfica. No decorrer da descrição ele ironiza a sociedade heterogênea que esta cidade abriga. Nela impera um desregramento geral, a criminalidade ronda as pessoas de bem, o adultério é prática cotidiana, os filhos concebidos imoralmente são abandonados ou mortos em nome da honradez familiar, enquanto os homens vivem de aparências.

Considerando o teor de denúncia e apreciação crítica da realidade que a obra apresenta, desde o título, ela abre-nos pelo menos três leituras: A primeira estrutura-se ao redor da palavra “Cães” enquanto alusão ao caso macabro do canibalismo. A segunda, ao redor da mesma palavra, entendida como matilha, no caso de políticos em luta pelo poder. A última e mais importante, também gira ao redor da palavra “Cães” agora revelando a mesquinhez dos hábitos de vida escondidos sob o véu das aparências, todas relacionadas à pequena história.

A loucura é apontada na obra como um processo de confronto com a realidade, possibilitando à pessoa dita louca comportamentos que discordam dos valores pré estabelecidos pela sociedade vigente. De modo que “a máscara de louco é um instrumento indispensável para a manutenção do status quo social, sobretudo da instituição familiar.” (Souza, 1998:12)

A presença feminina é vista como desestruturadora do tecido social. Embora a mulher abale a estrutura moral e social do patriarcado, ela acaba sendo vítima nesse contexto. No entanto, ela não deixa de estabelecer conflitos e lutas com o universo masculino, reclamando seus direitos, conquistando seu espaço e seu amor, como faz Inácia, mulher do dramaturgo Qorpo-Santo, ao pedir seu espaço e seu amor, ao pedir a interdição do marido às autoridades da Província.

Cães da Província apresenta a vida privada de Eusébio para mostrar a hipocrisia que reinava na sociedade provinciana do século XIX. O romance traz à tona alguns fatos históricos, como os crimes da Rua do Arvoredo e história de Qorpo-Santo, apenas para cumprir o enredo e compor a vida da personagem ficcional de Eusébio.

Na história desta personagem, intenta-se versar sobre a criminalidade como consequência do estado de desestrutura social da província no período pós-guerra. O principal acontecimento hediondo é o caso do crime praticado por Eusébio contra a sua esposa Lucrécia. Ela o traiu, e ele para manter as aparências e conservar a estável posição social e econômica que usufruiu como comerciante, comete o crime e fica impune porque não é descoberto por ninguém.

Eusébio conhece Lucrécia e casa-se com ela: comete sua primeira loucura. Ela é mestiça, o que contraria todas as convenções sociais para um comerciante que pertence à classe média alta. Lucrécia é mestiça, mas altiva, justamente o que falta para as atitudes da mulher contradizem os valores que essa sociedade cultiva. Aqui o narrador mostra o marido se questionando: “será que um dia o verdadeiro sangue não revela, aquele sangue bugre, castelhano?” (Assis Brasil, 1991:23)

Lucrécia em seguida trai Eusébio. Ela foge com um queijeiro de São Leopoldo, o que deixa o comerciante desconcertado. Este logo procura seu amigo Qorpo-Santo, por julgá-lo muito inteligente, para pedir-lhe conselhos sobre o que fazer com aquela situação que poderia levá-lo à falência. O fato é agravado pois ele era levado pelas convenções sociais.

Eusébio teme a falência acima de tudo, ele precisava então manter as aparências para que ninguém descobrisse a verdade. Qorpo-Santo, um dramaturgo irreverente, revolucionou a vida do português ao traçar um plano para ajudar o amigo. Qorpo-Santo comunica às autoridades da Província o desaparecimento de Lucrécia por estar louca. O marido reluta em aceitar a estratégia montada pelo amigo para ajudá-lo, mas a sua fortuna está em primeiro lugar. Mesmo assim, o português tem receios, pois a absurda petição que Qorpo-Santo redige ao delegado pode trazer-lhe mais problemas.

Depois são descobertos os crimes da Rua do Arvoredo. O açougueiro José Ramos e sua bela esposa Catarina Palsen assassinavam pessoas para fazer linguiças de sua carne. Ele conquistava as vítimas com bons argumentos, ela com sua beleza sedutora levava os homens para sua casa, onde com golpes de machado o casal assassinava as vítimas. Ao serem descobertos os crimes, o delegado vai em busca das provas e encontra vários corpos mutilados no porão da casa dos açougueiros. Isto serve de pretexto para que Qorpo-Santo arme outra estratégia que livre Eusébio definitivamente da mulher, protegendo assim sua fortuna e sua honra.

Palsen leva o delegado ao quarto para mostrar os sinais de sangue, pretensamente de galinha, e ele vê mais indícios dos assassinatos aqui:

há várias manchas de sangue no quarto, no corredor, mas seu olho experiente indica umas manchas mais novas, outras mais antigas. Vendo umas botas desparelhadas a um canto, pergunta a quem pertencem. – São minhas – atravessa-se José Ramos – Como suas, se têm sete números diferentes?... sua vista atrai-se para a cômoda, onde há quatro relógios de ouro e algumas moedas. (Assis Brasil, 1991:64)

O romance apresenta em Qorpo-Santo a figura do reformador, aquele que quebra os tabus da sociedade e as cadeias morais. O narrador aponta a loucura do dramaturgo como pretexto para revelar as mais variadas formas de contestação a uma sociedade em declínio, onde a criminalidade faz parte de todas as camadas sociais, e os crimes são silenciados em nome dos valores morais: sociais e religiosos da época.

Qorpo-Santo quer fazer da vida real uma peça de teatro, e aproveita-se do drama de Eusébio para isso. O dramaturgo convence o português a reconhecer um corpo mutilado de mulher encontrado no porão de José Ramos, como se fosse de Lucrécia. Então acontece o falso enterro da mulher, com todas as pompas que a sociedade exige de um homem na posição social de Eusébio. Enfim a mulher está morta e o português com sua honra e fortuna resguardadas. Qorpo-Santo, por sua vez, é considerado por todos como louco, pois já perdera quase tudo o que tinha, fora vereador, professor comerciante, restando-lhe apenas a profissão de literato, a qual não era reconhecida na Província.

A ingênua trama do desaparecimento de Lucrécia é na verdade um lance de gênio, de verdadeiro artista que reescreve a vida. O engano da Província não será apenas uma vingança contra a mediocridade geral, mas também uma soberba criação literária, e com atores cumprem o papel escrito por ele. (Assis Brasil, 1991:56)

A obra apresenta Inácia, mulher de Qorpo-Santo, como uma mulher decidida em suas atitudes e disposta a romper com a normalidade existente na sociedade patriarcal da época para buscar aquilo que lhe é mais precioso: o amor de seu marido. Para isso, Inácia utiliza-se de uma estratégia não muito usual na época. Ela tenta operar um nivelamento por baixo, dando um golpe no marido. Ela enfrenta-o com um pedido de interdição de seus bens na justiça da Província, alegando que ele estaria louco e não poderia administrá-los. Tudo isso para tentar se igualar a ele em inteligência e conhecimentos, acreditando que dessa forma ela teria o amor dele de igual para igual. Inácia ama Qorpo-Santo e não quer correr o risco de perdê-lo. O dinheiro é apenas pretexto para adquirir controle sobre o marido. Na verdade, Inácia se sentia abandonada por ele, que só queria saber dos livros:


Aprendi de tudo, meus olhos se queimavam em cima dos livros que ele deixava em cima da secretaria... No dia seguinte eu andava com vergonha e com raiva e ele já sabia mais do que eu... Conheço cada pedaço de pele dele, mas nunca consegui entrar naquela cabeça. E quando começou a falar com gente imaginária, foi demais... Não era mais meu. Não me olhava, não me via. (Assis Brasil, 1991:203)

Qorpo-Santo é examinado pelas autoridades médicas da Província e interditado como monomaníaco. O delegado convence o juiz a dar a curadoria dos bens de Qorpo-Santo a Felix da Cunha, homem de conhecida probidade, em uma hábil vingança contra Inácia, pois seus assédios contra ela foram rejeitados.

Inácia de certa forma atinge seu intento, pois o marido é interditado por praticar monomania. Ela, porém, continua inferiorizada, pois além de não obter nenhum de seus bens, ela ainda não consegue ter o marido, que é levado para o Rio de Janeiro, cada vez mais afetado pela doença. Ela afirma, ao final do romance, que “agora ele é mais meu do que nunca”. Então, se ela não se sente vitoriosa, ao menos ela se afirma como tal.

Qorpo-Santo, mesmo odiando Inácia, necessita dela ao seu lado e faria tudo para tê-la novamente. Mesmo que Inácia não esteja com ele, sente que finalmente a mulher o possui para sempre. Da mesma forma que Inácia o possui, ele também possui a ela através de seus sonhos e de suas alucinações. Isso ocorre até o momento em que o sonho acaba e a realidade começa a voltar; a vida toma seu ritmo normal; as pessoas são as mesmas, pois as ilusões se desfazem Qorpo-Santo, ao sentir isso, percebe então que a hipocrisia que reina entre os homens continua, e que a mentira torna-os marionetes do teatro da vida, o qual é dirigido por eles mesmos sob regras e princípios sociais.

Após o encenado enterro de Lucrécia, o português tenta de todas as formas manter as aparências de viúvo infeliz, indo ao cemitério depositar flores na falsa tumba e mandando colocar uma pedra no túmulo com o nome dela:
Quem o visse de longe imaginaria que estivesse rezando rosários inteiros pela finada, quando na verdade sua cabeça congestionava-se de pensamentos diluídos de ciúme, amor e desprezo. Se fosse Lucrécia! Com um desalento que amortecia o juízo e abrandava o vigor dos passos (Assis Brasil, 1991:136)

Eusébio ainda encomenda muitas missas para a alma da infeliz, como se cada uma delas diminuísse a sua culpa: “Foi a Matriz, onde encomendou ao vigário duzentas missas in memoriam, a serem rezadas três por semana. Uma estranha sensação, a de que toda aquela montanha de missas soterrava de vez a lembrança e memória da esposa, que, se morta não estivesse, ali morria”. (Assis Brasil, 1991:138)

Mas, Lucrécia não aguenta mais os maus tratos do amante e volta para Eusébio, exigindo ser reintegrada como esposa. O homem sente medo de revelar à sociedade a volta da mulher, pois o escândalo que isso traria, poderia desestruturar seu mundo de aparências, sem contar que ele poderia ir preso por falso reconhecimento de cadáver. A mulher volta aniquilada, após ser maltratada pelo amante:
É a mesma, mas outra, a pele como um metal nobre que tivesse adquirido o embaciado do tempo. Algo de vil se expande dos olhos, da boca, subitamente vulgar, até a voz perdeu o brilho urbano... Uma cicatriz circular gravara-se no pescoço e as mãos tornaram-se pesadas, as unhas sujas. Em suma retornou a sua ascendência minuana e de pai fascínora. (Assis Brasil, 1991:167)

O primeiro impulso de Eusébio é mandar Lucrécia embora. Mas ele pensa que se ela saísse dali, toda a farsa seria desfeita e ele estaria perdido. Então para manter as aparências, Eusébio encarcera a mulher, o que causa a ela a loucura e em última instância morte. Eusébio conclui que só há uma solução, a mulher precisa continuar morta. Agora o português se sente superior a ela, mas quando percebe que a altivez da mulher permanece, ele esmorece e conclui que ela só lhe dará paz através da morte:


Eis completa a cerimônia da desgraça e da morte. Porque para Eusébio flutua no ar uma fragrância de rosas fúnebres e cera de velas, e no torpor de um sonho instantâneo revive o morgue, os membros ensanguentados, o esquife negro, a procissão do povo atrás da grande farsa... (Assis Brasil, 1991:167)

Lucrécia já perdeu a liberdade, agora luta contra a morte e num momento de desespero bate com os punhos nas janelas, as quais Eusébio mantém sempre fechadas. A mulher quebra os vidros, que abrem-lhe enormes cortes nos punhos. Eusébio se preocupa em manter completo sigilo sobre o ataque da mulher à janela. Enquanto isso, Lucrecia parece uma morta-viva de braços abertos, amarrada na cama. Em consequência ela torna-se pré-suicida, avivando as feridas dos pulsos feitas pelos vidros das janelas.

O encanto de Lucrécia residia na altivez, portanto, quando Eusébio consegue dominá-la, ele se livra do encantamento. A partir daí, ele se torna capaz de matá-la; antes ele não conseguiria. Eusébio está condenado junto com Lucrecia a viver sob o véu da escuridão, da mentira e da hipocrisia, pior que todos os outros criminosos da Província. Então, guiado pelas convenções, Eusébio comete a segunda loucura. Ele escolhe um manto branco bordado e executa a mulher arroxeando-lhe o pescoço o qual já tinha uma cicatriz circular que era o prenúncio da morte. Por fim Lucrecia ocupa o lugar destinado a ela no campo santo. Pela segunda vez o ritual macabro de morte se repete, agora verdadeiro e sem formalidades pomposas do primeiro enterro que a sociedade presenciou.

Para Eusébio a vida começa agora com a morte de Lucrécia. Ele se considera um mero colaborador para um acontecimento já traçado e natural pela condição de pré-suicida em que se encontrava a mulher. Eusébio vai ao sabor dos acontecimentos, ele comete o crime por ser dominado pelas convenções e por levar em consideração as ideias absurdas de Qorpo-Santo. O comerciante, provavelmente, viverá muitos anos em paz e prosperidade sob o véu da hipocrisia. E todos aqueles que se propõem a viver sob as convenções e precisam manter as aparências a fim de defenderem o status quo, são iguais a Eusébio, ou seja, cães da província: “vestir uma máscara é a maneira que o sujeito encontra para não entrar em conflito com a sociedade” (Souza, 1998:01)

O caso de Eusébio, personagem ficcional, vem mostrar a sua ambição maquiavélica em nome das convenções sociais. Através do drama vivido por Lucrecia, percebe-se o quanto o homem é capaz de agir com maldade: primeiro através do falso enterro de Lucrecia; segundo por mantê-la em cárcere privado, e a seguir assassiná-la.

Percebe-se também o caso do personagem histórico de Qorpo-Santo, uma mistura de gênio e louco, que através de suas atitudes confronta-se com a hipocrisia reinante na Província. Inácia, mulher de Qorpo-Santo, entra em conflito com o marido ao dissolver a família, estabelecendo um contravalor para a sociedade da época.

O açougueiro José Ramos e sua esposa Palsen são presos e condenados pelos seus crimes. Episódio, no romance, que serve de pretexto para a falsa morte de Lucrecia. A contradição das autoridades médicas sobre a doença do dramaturgo Qorpo-Santo faz com que entrem em conflito. Mas a aparente ordem precisa ser mantida, então a sociedade provinciana lhes impõe o compromisso de restabelecer a paz tão almejada por todos. A obra revela uma estabilidade aparente na província, pois a paz provém da opressão, então é falsa, e sobrevive através das aparências e dos hábitos corriqueiros de vida que nivelam o homem por baixo.

Cães da Província é a conexão dialética entre o documento e o fazer literário, onde as ações humanas se encontram no enredo e são tecidas através de um viéz da história. O narrador faz um corte na sociedade porto-alegrense da época, ficcionalizando os fatos e mostrando as desigualdades sociais, a ambição, a mesquinhez e as injustiças cometidas em nome das convenções impostas pelo pacto social. Esta obra é uma mistura de sonho e realidade, que ilumina ora com um ora com outro. Assim como “o mar, adentrando nas sombras, guarda os mil segredos” (Assis Brasil, 1991:252) da natureza, a leitura guarda também um manancial inesgotável de interpretações multifacetadas. Ressaltando assim o poder que a leitura proporciona ao leitor, trazendo à tona uma realidade muito maior do que ela aparenta ter superficialmente.
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