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VIDEIRAS DE CRISTAL


VIDEIRAS DE CRISTAL: Os Muckers e o grande salto de Assis Brasil
Juremir machado da Silva
Qualquer analise rigorosa e fria, distanciada e sem medo, indicará que a literatura feita no Rio Grande do Sul tem bons livros e nomes, mais poucos excepcionais. Nada para assustar, pois a arte alimenta-se do jogo entre competência e exceção em toda parte do mundo. Há escritores que apresentam a cada obra sinais evidentes de amadurecimento. Sente-se a possibilidade do salto. Videiras de cristal (Mercado Aberto), de Luiz Antonio de Assis Brasil, é exatamente isso: o momento de explosão de um ficcionista competente, mas que persistia no limiar da grande realização.

O episódio messiânico dos Muckers, na segunda metade do século passado, na zona de colonização alemã de São Leopoldo, é transfigurado por Assis Brasil coma mesma forma narrativa de Mário Vargas Llosa em A Guerra do Fim do Mundo, sobre canudos. Videiras de cristal é um romance no estilo moderno (épico-moderno), vasto, abrangente e acadêmico quanto à forma, em 544 páginas. A riqueza está na profundidade psicológica dos personagens, na limpeza do texto, com raríssimos excessos, na plasticidade e na capacidade de produzir indignação no leitor em face na brutalidade, da injustiça e da miséria, sem jamais recorrer ao panfleto, que, é óbvio, determinaria efeito contrario.



Aos 45 anos, oito títulos publicados, entre os quais O homem amoroso e As virtudes da casa, Luiz Antonio de Assis Brasil salta para a primeiríssima fila no grid literário do Brasil. Videiras de cristal foi escrito em 25 meses, em rígido regime de trabalho de seis horas diárias e planejamento absoluto de cada cena.
FICÇÃOao abordar a temática dos Muckers, embasado em A Nova Face dos Muckers, do historiador Moacyr Domingues; Conflito Social no Brasil, de Janaína Amado; Os Muckers, do jesuíta Ambrósio Schupp; O Episódio do Ferrabrás, de Leopoldo Petry, e analises de Maria Isaura Pereira de Queirós sobre messianismo no território brasileiro, Assis Brasil não se limitou a um romance histórico. Videiras de cristal transita entre o plástico cinematográfico (a parição do padre Mathias Munsch à frente da tropa imperial que se prepara para marchar sobre o Ferrabrás, a puxar uma pequena carroça com um patético aleijado, beira ao desespero e ao realismo fantástico). Fundamental é que o realismo fantástico não gera situações absurdas. Mantém-se cruelmente no limite do real.
O antimaniqueísmo marca a narrativa. O autor traça o perfil do final do Império. Liberais e conservadores em discussões abstratas e em proveito próprio. A colônia alemã dividida entre os que enriqueceram rápido e a ampla parcela de marginalizados. A industrialização, perversa, é sombra sobre a atividade “artesanal”. O fabricante de túmulos, Kassel, sabe que será um rei enquanto não surgir uma fábrica em São Leopoldo para roubar-lhe a especialidade. Jacobina Maurer, “o novo Cristo”, Christian Fischer, o jovem psiquiatra recém-chegado da Alemanha, flaneur a examinar de modo crítico os acontecimentos, o ingênuo Jacó-Mula, a lúbrica e desatinada Elisabeth Carolina Mentz... figuras empregnadas de sonhos, excluídos, dispostos à vingança e à redenção. A crueldade espalhou-se. O escritor capta a fluência de ódio em todos os aspectos.
IGREJAVárias vezes é preciso perguntar: quem são os loucos? Os Muckers, fanatizados, fiéis ao espírito natural, seguidores cândidos de uma mulher delirante? Ou as autoridades ineptas, desconhecedoras da realidade social, prontas à estigmatização? Não há heróis nem bandidos. A morte surge, por exemplo, nas mãos doces de Ana Mariam a criada de Jacobina. Criatura frágil, impregna-se de desejo de sangue após a execução amado traidor, “o jovem Haubert”. Permanece ao lado de Jacobina, mas saboreia a chacina dos lideres Muckers. Por fim, assassina Leilard, a filha de mutter e seu amante, Rodolfo Shen.

Videiras de cristal é denúncia, resgate e decifração. O psiquiatra europeu, antes do nascimento da psicanálise, apreende o oficio na selva brasileira. O cristianismo de católicos e luteranos é desvelado, agente desleixado em relação ao rebanho, abandonado e incompreendido. A igreja ficou com dogmas e academicismo, longe das necessidades e da cultura cotidiana. Os preconceitos atrozes ceifam mulheres em busca de amor, homens sequiosos de paz, infelizes a pedir respeito, doentes a clamar por cura. A decadência humana é focalizada. Jacobina reúne em torno de si até alemães ricos. Indicação de que a riqueza não é imune ao messianismo. Mesmo assim, é na miséria que ele prolifera com adubo perfeito.

Os Muckers (santarrões...) foram derrotados em 1874 (pouco antes inaugurou-se a primeira linha de trem do Rio Grande do Sul, ligando Porto Alegre a São Leopoldo). A luta foi terrível, os massacres inimagináveis. Agora, o passado incendeia-se nas páginas de Videiras de cristal, com fúria, tristeza e dor, muita dor, San Thiago Dantas, o homem que destruiu a cidadela Mucker, com táticas de guerrilha, tem toda a razão: “Quando desaparecem os fatos, sobra apenas a literatura”. Cabe a ousadia: Videiras de cristal é um fato desconcertante, obra para figurar entre as mais importantes de todos os tempos na literatura gaúcha.



Zero Hora, Porto Alegre, Segundo Caderno, 20.12.1990.


Romance da intolerância
Sérgio Saraiva
Autor de um dos melhores romances publicados no Estado nos últimos tempos, Cães da Província, Luiz Antonio de Assis Brasil volta a garimpar na história do Rio Grande do Sul os referencias para mais uma obra de grande fôlego e qualidade. Desta vez, Assis Brasil encontra na saga e tragédia dos Muckers, seita formada por imigrantes alemães por volta de 1870, no que era então um distrito de São Leopoldo, elementos para uma instigante viagem à formação do Rio Grande do Sul, com toda sua violência e contradições.

Videiras de cristal (546 páginas, Editora Mercado Aberto) é dedicado, não por acaso, ao falecido escritor Josué Guimarães, autor que dedicou a trilogia “A Ferro e Fogo” aos imigrantes alemães. Mais do que isso, o fantástico e o absurdo das situações pesquisadas e criadas por Assis Brasil têm a dimensão de cenas de “Tempo de Solidão”, com a do pequeno fazendeiro que passa a viver dentro de um poço para se livrar das lutas de fronteira entre castelhanos e brasileiros, deixando para a mulher a tarefa de administrar as relações com os dois exércitos em conflitos.

Não se limitando ao naturalismo ou ao realismo do episódio pesquisado durante pelo menos quatro anos, Assis Brasil mostra toda à sua força de ficcionista ao criar e ou valorizar dois personagens secundários da trama, narradores dos momentos mais importantes do livro. Um, Jacó-Mula, é um homem “fraco da cabeça” que se transforma em um dos primeiros “discípulos” da “profetiza” Jacobina, líder da seita. É traves dos seus olhos que o autor narra os “milagres” e delírios da líder Mucker.

A visão de fora, com distanciamento crítico, fica por conta de um recém-formado médico psiquiatra alemão, Christian Fischer, romântico e letrado, que decide morar em São Leopoldo. Suas cartas ao tio que ainda vive na Alemanha fazem a crônica dos acontecimentos que vão redundar na autentica guerra civil que dividiu pobres e ricos imigrantes e causou a destruição física da maioria dos Muckers. De observador, Fischer acaba se transformando aos poucos num engajado crítico da intolerância e do sectarismo que tomou conta de toda a colônia, aliando-se no final aos Muckers, não por misticismo, mas por solidariedade social e política.

O titulo não ajuda e 546 páginas assustam aos potencias leitores, ,as quem começar a ler dificilmente vai descansar antes de chegar até as últimas páginas. A narrativa de Assis Brasil, com todos os recursos que ele é capaz de usar neste livro, ilumina este momento de violência e barbárie que ainda é muito pouco conhecido no Estado e no BrasiLuiz Antonio de Assis Brasilrevira a aldeia de pernas para o ar e constroiuma obra de valor universal.


Jornal do Comércio, Porto Alegre, 3.jan.1991.
Em sintonia com a História
Paulo Bentancur

A História pede romances, parece nos dizer, o tempo todo, Luiz Antonio de Assis Brasil. No posfácio a Videiras de cristal ele afirma não ter pretendido fazer um romance histórico e menos ainda uma “história romanceada”. Mas dois oito livros que publicou até agora, só um escapa a esse selo pelo jeito incomodo do autor. Videiras de cristal, tão em sintonia com a História ao ponto de confundir-se com a reportagem, impõe-se sobre tudo como peça de ficção, em favor da qual o escritor se mostra disposto a sacrificar o possível limite ou a direção dos fatos.

O pesadelo da História, de onde Joyce nos adverte ser inútil tentar escapar e para onde Rubem Fonseca, em Agosto, se encaminha, depois de uma obra consagrada que no entanto até então simulara evita-lo, é o tenebroso lugar em que Assis Brasil se movimenta. Ou melhor, se agita. Nesse espaço aparentemente cindido pelo tempo junta-se ao passado que o narrador se dirige e o presente de onde esse mesmo narrador inicia e conclui seu relato. Não há medo nessa reconstituição, e os séculos se movimentam na direção certa: na do homem de hoje que, vivo, precisa servir-se deles.

Gaúcho, era natural que o prolífico romancista (tanto Videiras de cristal quanto o livro anterior, As virtudes da casa, atestam fecundidade dramática) se voltasse para uma espécie de revisão histórica do Rio Grande do Sul (embora em um deles, Manhã transfigurada, a intenção se resuma a um sensualismo e religiosidade barrocos). E ele o fêz e, sete livros. Trabalhando personalidades e movimentos que marcaram, ou simplesmente reconstituindo ambientes e situações muitas vezes criados pelo ficcionista, que, sem o registro da crônica oficial, definem a trajetória e o caráter de uma terra e de um povo.

Nessas condições, é previsível que a literatura perca para a História e vice-versa. A legitimidade documental se impondo ainda quando a narração já perde a força ou a ficção em doses mal calculadas traindo a fonte de que se nutre. Claro que o desejo do autor, expresso, é a confluência de ambas as matrizes: aventura verbal e registro factual. E este terceiro resultado, detectável em raros trabalhos, como o de Vargas Llosa de A guerra do fim do mundo, é a marca predominante em Videiras de cristal.

O livro possui um subtítulo essencial para leitores familiarizados com o tema: O romance dos Muckers. Para os não informados, Mucker, em alemão, significa hipócrita, fingido, ou melhor santarrão. Uma região de colonos alemães reuniu-se em torno de uma mulher, Jacobina Maurer, elegendo-a profetisa, espécie de Cristo de saia, fanatizados pela auto-proclamação da frágil e mediúnica personagem. O fato deu-se na colônia germânica de Padre Eterno, sob o morro de Ferrabrás, perto do município de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O período que o romancista cobre é de apenas três anos, 1872 a 1874, tempo de ascensão e queda do reich religioso da família Maurer, movimento à margem das tradicionais fés católica e luterana.

“As almas dos fiéis se assemelham a Videiras de cristal: fecundas nos verões luminosos mas frágeis e quebradiças quando coberta pela geada do inverno. “É a forma que o autor encontra para sintetizar a dupla face dos crentes, daí o titulo do romance cuja síntese, além da alusão histórica ao episódio dos Muckers, seria a condição e os conflitos da religiosidade. Nesse contexto encontramos uma Igreja dilacerada que busca o apoio de um Império igualmente dilacerado (com a sombra da Republica crescendo). Dom Pedro II entra em cena, mas Assis Brasil não cai na caricatura. Sua opção é bem outra: Jacobina, por exemplo, surge mais sugerida do que pintada com as fortes tintas do adultério e da devassidão com que a História fixou seu retrato.

É exatamente na contramão desse fixar que o romancista transita. Sua liberdade com protagonistas e acontecimentos não fere necessariamente a cena e os atores. Primeiro, porque é a sua versão; e depois, a História que nos ficou também foi versão, só que precariamente elaborada. Retocando-a retomando-a, dá-nos prazer estético e organiza melhor os fatos.

A epopeia real ocorrida aos pés do fantasmagórico Ferrabrás ressuscita inteira no livro de Assis Brasil. No principio era só um curandeiro, o marido de Jacobina. Aos poucos a mulher, que tinha estranhos ataques, não diagnosticados pelo médico, usurpou-lhe o papel de milagreiro. Os clientes do agora superado wunder-doktor viraram fiéis, multiplicaram-se e cresceram em fervor da mesma proporção das exigências da matriarca mística. Logo romperam relações com a colônia, até mesmo tirando os filhos da escola regular. Jacobina parecia não ter corpo para os seus seguidores, era somente espírito, até o instante que trocou o marido por um chefe de família que largou tudo para servi-la. Diante de evidencias, muitos se decepcionaram, incapazes de conviver com um santo que fosse humano. Outros, cegos, só enxergavam os discursos de sua enviada, não suas ações.

De qualquer forma, quem reage primeiro são os padres, naturalmente, preocupados com a perda alarmante de fiéis. Progressivamente, a colônia toda revolta-se, escandalizada em seus costumes com a maneira nada ortodoxa dos cultos promovidos por Jacobina. Surgem rixas, brigas pequenas, a policia começa a ser envolvida a contragosto. Aparecem os primeiros rompimentos familiares.

Dissidência religiosa não é caso para ficar registro à esfera policial. A questão fatalmente atravessa a política. Aumenta a violência. Em um ano o quadro é de uma verdadeira insurreição, e o presidente da Província convoca um heroida Guerra do Paraguai para atacar os fiéis, residentes na casa da profetisa e num templo construído ao lado.

Muita selvageria, candentes questões teológicas, disputa política acirrada, é de se perguntar por que o sexo, tão presente na vida humana, resulte como grande ausente em um romance que inclusive chega a provocá-lo. Em Videiras de cristal nota-se uma certa iniciativa por parte das mulheres na questão afetiva. Aos homens, como Jacó-Mula, um dos personagens principais, cabe um papel lateral, o que historicamente não está certo. A costumeira agressividade masculina comparece, é verdade, através de um estupro, o que contribui ainda mais para essa importante ausência: homens tão apaixonados em estratégias de combate, em suas crenças, em seu trabalho, ao não se pronunciarem sobre o amor revela um falta – deles ou do autor?

Claro, Assis Brasil pode simplesmente ter escolhido um caminho mais ameno, ou mais especifico. As situações políticas, religiosas e culturais são tão marcadas que talvez o sexo tenha parecido uma dose excessiva capaz de desandar o romance pelo gigantismo. Mas faz falta.

Os “ímpios”, como os fiéis de Jacobina chamam aos que não aderiram à seita, tanto exigem das autoridades, que uma verdadeira guerra, até então impensada, se precipita. Enquanto no templo há pouco erguido uma avó distrai crianças com histórias, homens e mulheres combatem o cerco de um exército múltiplo; colonos vingadores e militares. Nesse momento o romancista sustenta-se basicamente das descrições. E daí? Poucas vezes em nossa literatura se viu batalha tão minuciosa e habilmente descrita.

A guerra não termina aí. Haverá uma segunda batalha, bem menos atroz do que esta primeira, onde o realismo não poupa o leitor do que os homens são capazes – foram – de fazer. O romance, nesses últimos momentos, tem o ritmo de um livro policial, onde todo um universo que o autor armou durante quinhentas páginas vai pouco a pouco se desinflando, perdendo peças,no inexorável caminho da extinção.

Será? Hoje não se fala do Muckers senão como referencia de um terrível episódio do passado. Mas, conforme o romancista, após as duas grandes batalhas, novos fatos foram surgindo, com o passar do tempo mais espaçados e menos significativos.


Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12.jan.1991, p. 8-9


Videiras de cristal
Léa Masina
O episodio dos Muckers, que ensanguentou a História Sul-rio-grandense durante o período da colonização alemã na região de São Leopoldo, constitui-se durante muitos anos num assunto interdito, mal digerido que foi pela consciência coletiva do povo.

Episódio instigante, ofereceu-se como matéria para a literatura, desafiando os escritores à abordagem ficcional.

Josué Guimarães pretendeu retomar esta vertente e completar com ela a trilogia iniciada com A Ferro e Fogo: Tempo de Solidão. Não houve tempo para que concretizasse seu projeto.

O dramaturgo Ivo Bender, recentemente, incluiu o episodio de Ferrabrás em sua Trilogia Perversa, explorando principalmente a dramaticidade interna de Jacobina que, num recorte de breve transe, exige o sacrifício de uma criança para – como Efigênia em Áulis – aplacar a ira dos deuses, encoberta pela vontade humana.

Coube, entretanto, ao romancista Luiz Antonio de Assis Brasil a tarefa de revitalizar em sua totalidade aquele universo lúgubre e dramático, trazendo a História novamente à cena como matriz de uma narrativa densa, em que a Tonica seria a harmonia entre os painéis coletivos e os dramas individuais que a narrativa destaca.

Inspirar-se em episódios históricos tem sido um dos procedimentos preferenciais do escritor. Desta feita, mais uma vez, debruça-se sobre documentos, informa-se sobre estratégias de guerra, estuda a História, pesquisa a Geografia local, enfim, contextualiza-se para criar uma obra em que a coerência serve de referencia à proposta literária. E o titulo é revelador. As Videiras de cristal funcionam como metáfora da leitura que o romancista propõe e que confronta o real e o imaginário, a narrativa naturalista versus o inusitado das situações apreendidas na perspectiva das próprias personagens. A imagem é bonita e sugestivamente plástica, a narrativa se apresenta como questionadora daquilo que a História registra com sua visão pasteurizada e maniqueísta, positivista por tradição ou tendenciosa porque prevalentemente ideológica. Será portanto real o que cada personagem vive, percebe, vê e sente? É real a narrativa que um hábil personegem-narrador ou mesmo um narrador em terceira pessoa encarrega-se de costurar? São reais os documentos pesquisados e transcritos, as notas de jornal, os bilhetes, as cartas? É real o que se documenta e registra ou aquilo que a imaginação e os sentimentos tecem e guardam em sua memória coletiva? Observe-se que a indagação permanece na esfera do literário e que são, portanto, múltiplas as possibilidades da leitura que se oferecem, ampliando o campo hermenêutico da obra.

Se o episódio dos Muckers já é atraente enquanto fato, a construção das figuras que compõem o quadro é trabalhado de fôlego que exige do escritor, além da competência usual, o trato rigoroso da linguagem, sobretudo enquanto recriação do tempo. O passado é apreendido num presente histórico, o verbo é manejado com precisão, transportando o leitor através da densidade narrativa e obrigando-o a viver intensamente o drama das personagens.

Lidar com temas como o fanatismo, o isolamento cultural, a impermeabilização gerada por uma situação de estressante ameaça, a absoluta incompreesão de todos os lados, os diferentes choques de interesses, individualmente, não é tarefa para qualquer um.

Erigir um painel que extrapola os costumes e sustenta personagens vivas, cuja dramaticidade relaciona-se intimamente, os conflitos da uma dando origem ou decorrendo dos alheios, requer maturidade ficcional. Só isso possibilita equacionar bem tantos deslocamentos, proceder às diversas escolhas, criar uma linguagem ao mesmo tempo unificadora e que marque as dissonâncias regionais não apenas atrevas do léxico, mas principalmente pelos aspectos semânticos.

E tudo isso Luiz Antonio de Assis Brasil alcança neste romance longo, trabalhoso, profundamente humano e que representa um importante acréscimo à sua ficção anterior.

Mantendo-se fiel aos dados históricos, o romancista procura recuperar emoções. Cria, a partir de então, em torno à figura mística de Jacobina Maurer, cujo brilho crescente eclipsaria o do Wunderdoktor, o marido, uma espécie de comparsaria afetiva.

Será pois pelos olhos das personagens secundárias, costuradas pela voz do narrador, ou através de estratégias ou técnicas múltiplas – como os relatórios militares, as noticias de jornal e as cartas – que os episódios do Ferrabrás se apresentam ao leitor. A multiplicidade de pontos de vista será um dos pontos mais altos da obra.

O leitor que acompanha o desenrolar dos acontecimentos desloca-se continuamente em sua solidariedade e compreensão: não há mocinhos nem bandidos. De um lado, um grupo de colonos alemães acossados pela indiferença religiosa e moral de padres e pastores, frustrados em seus anseios, em busca de uma fé, uma crença que os ampare e lhe permita sobreviver naquele maio inóspito, relegados ao abandono pelos governantes “brasileiros”. De outro, mais colonos alemães opondo-se à seita dos Muckers, que crescia em adeptos e violência. De um terceiro lado, as autoridades – alemães, brasileiras, distritais e imperiais – pressionadas a posicionarem-se ante a ameaça que representavam os seguidores de Jacobina, cuja aura de indestrutibilidade crescia de modo assustador.

Em Videiras de cristal, diferentemente do que ocorre em Os Sertões, de Euclides da Cunha, não há a apologia do homem corajoso, forte e resistente ao meio inóspito e hostil. Há o registro do mito em seu processo de surgimento e estratificação. E sob este aspecto, a presença do Doutor Christian Fischer, elo de ligação com a Alemanha e, portanto, o único capaz de perceber as transformações que se operavam a nível da consciência coletiva, torna-se necessária e elucidativa. É através do cristal de seus olhos, da lente grossa de seus óculos que o leitor vê a força da sobrevivência opondo-se brutalmente à ameaça de extinção, o fanatismo apossando-se das pessoas, a resistência tenaz e desesperada de ambos os lados e seu esmagamento questionado pelos próprios militares a quem coube a tarefa inglória de extinguir o Ferrabrás.

O surgimento de Jacobina – e nisto reside a atualidade do tema – ocorre em meio ao desespero, quando os doentes morrem ao abandono, quando a falência social é imediata, quando não existem recursos e falta a esperança. A loucura, o desvario encaixam-se nesse jogo de meras consequências (E serão outros, por acaso, os tempos em que vivemos?).

Mas o escritor é hábil e deixa que as personagens desvendem lentamente este processo. Por detrás da esperança de um mundo novo, com o que lhes acenava a Mutter ao som dos hinos, à luz das velas, no ambiente que Jacó-Mula apreende a narra, há paixão. As personagens oscilam entre a paixão, que ilude a cega, e a lucidez, que lhes mostra a falência e o fracasso. Não há saídas possíveis. E nesse universo trágico, os sentimentos humanos revelam-se plenamente: a luta desesperada dos Muckers contra os ímpios é a metáfora da sobrevivência dos homens em condições sociais tão adversas que se refugiam no sonho. Na verdade, será a constrição social e humana, o abandono que irá gerar essa resistência muda, essa violência surda e corajosa que termina por explodir, incendiar, destruir casas, lavouras, florestas e matas pessoas de lado a lado. Como diriam os pós-modernos, não há mais lugar para a utopia.

Assis Brasil esmera-se na criação de conflitos individuais. Nesse sentido, a grandeza da obra reside na maestria com que o autor cerca de atalhos o seu núcleo narrativo. Personagem como Wunderdoktor, cujo o declínio é proporcional à ascensão de Jacobina e que termina desistindo da luta e da vida, humilhado, degradado pela presença de Rodolfo Sehn, amante de sua mulher; Jacó Mutilado, com sua fúria guerreira e a experiência de soldado antigo; Jacó-Mula, cujo devotamento e paixão por Jacobina lembra Justin, de Flaubert, devotado a Emma até à morte; Robinson o Ruivo, figura quase lendária: o Luppa, Tio Fuchs, tantos outros; e a retomada dos vultos históricos, como o coronel Genuíno, As Tiago Dantas, o Imperador nos seus colóquios com Gaston, o Conde d’Eu, tudo contribuiu para resgatar a humanidade que escorre por detrás dos relatos históricos. E esta é, sem dúvida uma das funções preponderantes da boa literatura.

Cria-se, a partir de então, um jogo em que o leitor troca frequentemente de lado, escolhendo a verdade que lhe apraz: se a da personagem com que identifica, se a da História impressa nos relatos e documentos transcritos ao final da obra, se a da ambivalência sustentada pelas ações individuais e coletivas, ou se a do sonho que não se dissipa à literatura.

Será, mais uma vez, no desafio da paixão amorosa que Assis Brasil encontrará o seu caminho definitivo. Sensível para apreender os sentimentos humanos – dos homens e das mulheres – o romancista escolhe a paixão como motivo dominante. É com ela que se destroia utopia de um mundo melhor; é também com paixão que se destroia vida, eliminam-se seus ruídos, suas vozes, as plantas, os bichos, tudo aquilo que a representa.

Ao construir os pares amorosos, Assis Brasil preocupa-se a autenticidade: Elisabeth Carolina, ao atrair o marido e entregar-se ao Inspetor João Lehn, permite ao romancista criar alguns dos melhores momentos da obra. Sua ambivalência, sua coragem, seus dramas de consciência, seu arrependimento, a necessidade que demonstra de encontrar amparo na fé e perdão para suas culpas representa uma síntese do procedimento luterano-alemão transplantado para os confins do Ferrabrás. A personagem, comovente no seu desamparo, encontra no padre Mathias Munsch motivação para a vida e para a morte.

Chama atenção, do mesmo modo, do drama de Ana Maria Hofstäter, criada e espécie da companhia favorita de Jacobina. Seu amor pelo jovem Haubert, que a desperta para a vida, rompe com a servidão à Mutter e lhe aponta o caminho para a liberdade. Ensandecida pela morte do companheiro, um ódio cego passa a conduzi-la daí por diante. E Ana Maria devota cada momento de sua existência para, surdamente, vingar-se de Jacobina em tudo o que lhe for mais caro e rejubilar-se com sua desgraça.

Não resta dúvida que, neste romance, Assis Brasil, aprofunda a analise da loucura coletiva que assola uma comunidade fechada e sem saída, levando adiante um projeto já esboçado em seu romance anterior, Cães da Província. Há, em Videiras de cristal, cenas de fanatismo coletivo, quando Jacé-Mula vê a levitação de Jacobina como uma espécie de Nossa Senhora, cercada de estranhas luzes, subindo em direção aos céus; e há também as cenas de luta, de guerra, que se passam tanto no reduto dos colonos, quanto entre os soldados que, combatendo os Muckers sob o comando de Genuíno e de San Tiago Dantas, imiscuem-se nas florestas, em busca dos fanáticos.

A narrativa é densa, rica em detalhes, com imagens visuais inesquecíveis que atingem a dimensão da metáfora, como a cena em que o padre, erguendo alto o corpo aleijado do rapaz que acompanhava e conduzia, caminha em direção á tropa. Os cadáveres enlameados, ressequidos pelo barro serão três: junta-se a eles o de Elisabeht Carolina, que estende as mãos, na tentativa de reencontrar-se com aquele que, uma vez, pacificara-lhe a alma.

Há momentos de ternura, momentos de emoção, momentos de desvario e de suspense. Encontram-se, enfim, bem dispostos e bem dosados, aqueles ingredientes que fazem de um texto uma obra literária bem-sucedida. E que está a merecer uma abordagem crítica meticulosa e acurada.


Zero Hora, Porto Alegre, 12.jan.1991, Cultura, p. 7.

Deuses e homens na guerra anunciada
Sergio A. de Figueiredo
O que faz as guerras religiosas serem as mais ferozes? Talvez porque não sejam apenas religiosas. A única guerra exclusivamente religiosa de que se tem registro é a apocalíptica guerra dos anjos. As outras não. Há homens.

A de Tróia foi uma luta entre Apolo e Poseidon. E como os deuses mitológicos envolviam os homens com a mesma sem cerimônia que se estes envolviam o Olimpo nas suas desavenças, havia o componente material que era a conquista dos aqueus e sua dominação econômica na península. Isso sem esquecer o belo pretexto: Helena.

Nem as cruzadas se podem ter como exclusivamente religiosas. Elas foram também o refluxo das ondas mouras que dominaram países da Europa durante sete séculos e, na reconquista, foram recuadas e acuadas na Palestina com o estabelecimento dos reinos cristãos.

Se prestarmos atenção podemos chegar à conclusão de que há sempre um componente religioso em todas as guerras, que, afinal, são feitas pelos homens que, por sua vez, tem sempre, queiram ou não admitir, um componente religioso.

Chamaremos aqui, antão, de religiosas somente as guerras que o componente religioso predomina. Estas são as mais ferozes.

Quando prevalece o aspecto dominação, ou conquista, ou interesse econômico, é possível evitar um conflito pela negociação. Mas como negociar princípios religiosos?

Por isso foi difícil lidar com o Irã e, agora, com o Iraque. A motivação e consequente mobilização são feitas à base do Corão. Alá quer a guerra. E agora?

Levadas as coisas a estes pontos extremos, Saddam não tem como recuar sem abrir mão de toda a argumentação de cunho religioso que, nas teocracias, chegam não raro ao fanatismo. Sua situação é a de quem está montado num tigre. “Não pode apear”.

É claro que o objetivo do Iraque foi o dinheiro do Kuwait, o petróleo do Kuwait, a terra do Kuwait, mais o que anima as tropas e mobiliza o povo é a “guerra santa” pregada pelo profeta. Também o que movimentou os 600.000 acidentais à Arábia Saudita é o mesmo petróleo, o mesmo dinheiro, o mesmo controle das grandes empresas. Mas mesmo com a motivação dessacralizada, a ONU não consegue dialogo. Porque há faixas diferentes de difícil sintonia. O Ocidente não quer, ou não sabe, ou não consegue entender o componente religioso inexplicável do elenco de fatores que compõem complexo problema do Golfo.

Mas a motivação religiosa informando interesses terrenos não é exclusividade dos orientais. Na Irlanda Ocidental e civilizada há o terrorismo constante de católicos e protestantes. Ambos cristãos. E isso porque o fundador disse qual deveria ser o sinal distintivo de seus seguidores. Uma conduta, que fizesse os pagãos exclamar: “Vejam como se amam”.

A era moderna trouxe, com o racionalismo, uma revolução institucional. A Reforma. Desligada da autoridade papal, houve quem levasse o antiinstitucionalismo a limites extremados. Os anabatistas. Estes esperavam tirar proveito da guerra religiosa em que se debateu a Europa renascentista. Marguerite Yourcenar nos conta em “Obra em Negro”, no capitulo “Morte em Munster”, o epílogo da tomada da cidade pelos anabatistas ali instalando uma republica cujos lideres se comunicavam diretamente com Deus, mas viviam em devassidão enquanto não estavam rezando ou esperando o inevitável choque entre as tropas do bispo católico e as do príncipe luterano. Com o que não contavam os anabatistas é que o bispo e príncipe, católicos e luteranos, se uniriam e tomariam a cidade dizimando os anabatistas.

Coisa parecida, para não dizer igual, deu-se aqui no Ferrabrás. Jacobina Mentz, anabatista, arregimentou fiéis. Católicos e luteranos sentiram-se prejudicados. Uniram-se e dizimaram os Muckers. A última versão da Guerra dos Muckers está nas cores vivas e corajosas do nosso Luiz Antonio de Assis Brasil, no recém-lançado Videiras de cristal.

Lá e cá, na culta Alemanha, e na inculta colônia leopoldense do Padre Eterno, o mesmo motivo, o mesmo componente religioso, a mesma ferocidade, o mesmo ódio, a mesma morte.

Em Munster, mo Ferrabrás, em Belfast, em Tróia, em Bagdá, em Jerusalém, em todos os lugares e em todos os tempos, está o homem, anjo e besta, a optar por um destino de heroiou de vilão.

Enquanto nos deliciamos com Marguerite que nos conta a “Morte em Munster” e com Assis Brasil que nos narra a morte de Ferrabrás, acomodamonos na poltrona para assistir, ao vivo e em cores, à chacina anunciada.

Não está ausente, nesta guerra do Golfo, o componente religioso. Do lado de Saddam, a safada invocação da “guerra santa”. Do outro, apenas a substituição de divindades. Coloca-se o deus-dó-lar, o deus-petróleo, o deus-ego e todos os mitos contemporâneos no mesmo altar de onde se arrancou Aquele que é, essencialmente, Amor.


Zero Hora, Porto Alegre, 14.jan.1991.

Videiras de cristal
Osvaldo Lopes de Brito
Os Muckers (santarrões, hipócritas, em alemão) figuram na história do Brasil, episodio e de bravura e de exemplos da opressão (foram combatidos pelas forças imperiais), cada lado com suas motivações no jeito de entender o que é Pátria. O romancista narra o que houve, ora seguindo a realidade, ora a ficção. Daí saiu o fruto saboroso: este romance de volume imponente, mais de 550páginas que serão lidas rapidamente pelo leitor mais arejado. Romance histórico? Sem dúvida, mais muito bem bolado, com seus personagens manipulados sob literatura gostosa, atraente, que ensina e entretém. O século XIX revivido com engenho e arte, como se dizia antigamente, em relação aos Muckers, cujos descendentes, por sinal, numerosos ainda, também gostaram das relembranças reunidas nesta narrativa. Melhor: mestre e estudante de História encontrarão nestas longas mas fascinantes páginas, assunto para reflexões variadas.

Verifiquem.


O Diário-Livros, Belo Horizonte, 3.fev.1991, p. 13.

Videiras de cristal
Valesca de Assis

Ambiente na colônia germânica de Padre Eterno, aos pés do morro Ferrabrás, entre 1872 e 1874, Videiras de cristal reconstitui um episodio fascinante da história de nosso país: liderada por uma frágil mulher – Jacobina Maurer -, uma legião de colonos alemães revolta-se contra as instituições da época, enfrentando o próprio exército imperial. Personagem de lenda e verdade, Jacobina tinha sua imagem confundida com o próprio Cristo, fazendo previsões do fim do mundo e confortando os deserdados com promessas do paraíso celeste.

Os Muckers (santarrões, hipócritas, em alemão) viveram lances de epopeia e paixão; seus perseguidores desde logo descobriram que teriam a frente um inimigo que não apenas conhecia muito bem o terreno, mas era imbuído de um ideal messiânico que ultrapassava a compreensão dos estreitos limites do seu tempo. Até hoje o episodio desperta interesse e constrangimento, pois os descendentes de seus protagonistas ainda vivem na região conflagrada, onde o assunto é tratado a máxima reserva. Em Videiras de cristal – o romance dos Muckers, Luiz Antonio de Assis Brasil atinge a plenitude de sua forma e a capacidade máxima de criar personagens dilacerados por ódios e paixões, criaturas plenas de humanidade, vítimas de circunstâncias que as conduzem a situações-limite. Videiras de cristal: eis uma obra fadada a uma grande trajetória.
Gazeta Popular, Lagoa Vermelha, 09.fev.1991, p. 7.

Um episódio fascinante da história gaúcha

dentro de uma bela ficção literária
Um dos bons livros editados neste final de 1990 foi Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, um romance que aproveita como matéria literária o episódio dos Muckers, em torno do morro Ferrabrás, no hoje município de Sapiranga. No final do século passado, um grupo de imigrantes alemães reúne-se em torno de uma mulher, Jacobina Maurer, espécie de vidente e santa, e se torna uma ameaça para o estabelecido, para a Igreja, tanto católica quanto luterana, e para a sociedade bem comportada. A Policia e o Exército são mobilizados contra eles.

Assis Brasil, um escritor que vem construindo uma bela obra literária em, cima de fatos históricos rio-grandenses, mais uma vez mostra sua competência, seu talento e, especialmente, sua capacidade de escrever de uma forma atraente. Uma das características do autor que ressalta neste livro é exatamente esta: Assis Brasil escreve bem, com fluidez e com elegância. Além disso, ele não faz história faz ficção. E aí reside a atração principal de Videiras de cristal. Os leitores poderão informar-se sobre um episódio fascinante da História do Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, deliciar-se com uma bela ficção. Lançamento da Editora Mercado Aberto.


Zero Hora, Porto Alegre, 20.dez.1991.


A guerra dos Muckers
Décio Freitas
A modernidade podia esperar tudo, menos a ressurreição dos conflitos étnicos e religiosos. Estas arcaicas irracionalidades, presumia-se, seriam variadas pelas modernas racionalidades. Mais viu-se a religião irromper com belicosa força política e as etnias contraporem um recidivo tribalismo ao Estado-Nação. Nada surpreendente em sociedades tradicionais excluídas da modernidade; mas ocorre também em sociedades emblemáticas da modernidade. A inaptidão para explicar o fenômeno se inscreve entre as grandes humilhações que a ciência social está tendo que engolir.

Nosso grande Euclides da Cunha seria um dos pensadores e escritores literalmente desconcertados. Escreveu uma obra-prima literária sobre o movimento messiânico dos jagunços de Canudos, atribuindo-o à degradação de uma “sub-raça mestiça” e concluindo afinal que a mestiçagem produz este tipo de “diáteses sociais”.

Na verdade, não seria só hoje que Euclides veria sua explicação desacreditada. Mais ou menos três décadas antes de Canudos, poderia encontrar, entre 1868 e 1874, na colônia germânica de São Leopoldo, um caso de messianismo tão desesperadamente fanático quanto o de Canudos – o dos Muckers, de Jacobina Maurer. Não houve entre os protagonistas do movimento Mucker um único mestiço (negro mestiço ou índio-mestiço) – apenas camponeses e artesãos alemães, na maioria nascidos na Alemanha.

As insurgências negras e indígenas no Brasil nunca se tingiram de messianismo; pois produto da cultura religiosa judaico-cristão, era estranho às culturas africana e indígena. O Messiah hebreu (transformado no Bristo grego), designava o ungido do Senhor, o filho de Deus, o salvador e consolador para os desesperançados da Terra. Houve movimentos messiânicos onde quer que tenha vicejado a cultura judaico-cristão. E, em toda parte, o mesmo padrão.

Comunidades rurais empobrecidas, marginalizadas e isoladas que não vêem suas demandas religiosas atendidas pelas instituições eclesiais, suscitam “ungidos do Senhor”. Daí, uma nova relação com o sagrado, dissociada da religiosidade de inspiração institucional. Busca-se a restauração da verdade religiosa traída pelos “infiéis” ou “ímpios” da hierarquia das igrejas. Invocando poderes mágicos, o ungido passa ser o único interprete da doutrina e da comunicação com Deus. Inútil “politizar” os messianismos ou ver neles formas arcaicas de protesto social. Não se processam na sociedade civil ou política, mas num tipo especifico de sociedade – a sociedade religiosa. Afirmam o primado do espiritual sobre o social e político, a supremacia da religião sobre as potestades terrenas. Negam a sociedade civil ou política, seus valores e suas instituições (propriedade, casamento, hierarquia, classes, Estado): são os mais subversivos movimentos coletivos. Uma vez que não querem fazer mudanças senão na esfera religiosa, o Estado de inicio não lhes dá importância. Só intervêm quando são atacados os valores maiores da propriedade e da vida. O que acaba acontecendo, pois os messiânicos, demonizando sistematicamente os “infiéis” e “ímpios”, organizam exércitos para combatê-los em “guerras santas”.

O messianismo Mucker apresentou uma originalidade. As personalidades messiânicas sempre foram masculinas; o ungido é o “filho do homem”. No movimento Mucker, o messianismo se encarnou numa mulher – Jacobina Maurer.

Canudos é o mais conhecido movimento messiânico do Brasil porque um grande escritor escreveu sobre ele. Agora, o romance Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, tira o messianismo Mucker do restrito campo a historiografia para o da literatura. A competência literária de Assis Brasil se mostra em toda sua mestria e o romance já nasce como um clássico sobre os “muckre”. Mestre da língua, o escritor possui a clareza que Voltaire considerava a “boa-fé do escritor”. Mas Assis Brasil também é competente como historiador. O romance se alicerça em sólida erudição, que entretanto não inibe a criatividade. Não se engaja, guardando uma objetividade nem sempre obtida por historiadores. Há a compreensão de que o messianismo escapa à racionalidade e é irredutível a categorias sociológicas.

Sempre corre sangue nos conflitos étnicos e religiosos. Os Mucker praticaram violência e assassinatos, mas, como em Canudos, a repressão – exigida pela comunidade alemã de São Leopoldo – foi brutalmente exagerada, mobilizando-se o exército para uma chacina inominável. Sem quebra da objetividade, o romance é repassado de compaixão e simpatia pelos Mucker. Não é dos menores méritos de Assis Brasil a coragem de desvendar uma tragédia que preconceitos timbraram tanto tempo em sonegar.


O Continente, Porto Alegre, abril/91. Ano II n°15, p. 23.
Messianismo e literatura

Volnyr Santos


Jacobina Maurer: a Mulher-Cristo
O movimento místico-religioso dos Muckers apareceu em 1872, no Rio Grande do Sul, entre os colonos alemães e seus descendentes. Na localização do Padre Eterno, hoje Sapiranga, proximidades de Porto Alegre, viviam os colonos que não recebiam assistência social ou financeira do governo. Entre eles, João Jorge Maurer, carpinteiro, lavrador e analfabeto, curandeiro depois de ter ouvido vozes que lhe deram esse dom, era auxiliado por Jacobina Maurer, sua mulher, que sofria de crises epiléticas a que se seguiam longos períodos de letargia, fato que gerou a crença de que ela possuía poderes extraordinários. Afirmando-se como encarnação de Cristo, Jacobina acaba atraindo para a casa dos Maurer a gente crédula que, aos poucos, começa a se constituir em um grupo expressivo. Organizando-se como um povo isolado, os Muckers se identificam pela motivação religiosa, provocam a reação da sociedade local, são agredidos, agridem, enfrentam o poder constituído e são exterminados pelas forças do Exército.

Da cidadela, ficaram apenas os alicerces e um tosco monumento de pedra, erguido em 1931, homenageando um soldado imperial.


Videiras de cristal O romance dos Muckers
O centro em torno do qual partem as ações do romance Videiras de cristal (1990), de Luiz Antonio de Assis Brasil, é, justamente, o movimento Mucker. Estruturado nos fatos históricos, sem no entanto, caracterizar-se como uma narrativa de pretensão histórica, o livro repete as acontecimentos que ocorrem no morro do Ferrabrás cuja trajetória Assis Brasil persegue desde o instante que Jacobina Maurer passa a levar uma vida mística até o momento em que, abraçada a Rodrigo Sehn, morre. Nesse percurso, movido talvez por uma busca de fidelidade hsitórica, o Autor esconde uma preocupação de ordem estilística que, ao cabo, é um dos elementos mais fortes do livro: um discurso marcado por um sujeito que organiza o propósito de não interferir nos fatos passados, mas que não abra mão de sua condição de criador de um mundo de ficção. Desse modo, Assis Brasil faz, antes de tudo, literatura.

Mas é preciso não esquecer que, embora se trate de um texto ficcional, não é estranho ao Autor o fato de que é no interior dos acontecimentos históricos que se dão sentidos particulares. Assim, a abrangência das praticas discursivas assumem aquilo que Louis Althusser afirmou tratarem-se de imagens, conceitos ou até mesmo estruturas impostas às pessoas sem passar antes pelas suas consciências. Como a literatura aponta para um conhecimento estético do mundo, a obra literária não está inserida na história, mas na leitura que dela podemos fazer. Ao propor fidelidade aos fatos passados, Assis Brasil acena com a possibilidade de elevar a consciência do leitor a um nível para o qual ele (o leitor) não estava espontaneamente orientado, mas a que não atingiria não fosse a mediação da individualidade criadora. Como exemplo, é esclarecedora a passagem em que o capitão San Tiago Dantas, ao rever as anotações que fizera acerca do conflito, dá-se conta dos excessos de sua escritura. Nesse momento, Assis Brasil intercala na narrativa a frase: “Mas como descrever uma tragédia sem excessivo?” Significativamente, Assis Brasil apela para a ambiguidade que esse recurso de estilo surge. Na sequência, o mesmo capitão San Tiago Dantas radicaliza o seu gesto, rasgando, agora, a caderneta de anotações. Ante o espanto do médico que o assistia, diz a sentença que, em certo sentido, recupera a realidade da narrativa, revelando o complexo processo humano que tem início no individuo e acaba na história, mas cujo sentido é encontrado na arte:

“- Tudo muito trágico, Doutor, para ser apenas literatura”.

No fundo, o que a literatura propõe é a efetivação, no plano imaginário, de uma coerência nunca ou raramente alcançada no plano da realidade. No caso especifico do movimento Mucker, o livro de Luiz Antonio de Assis Brasil mantém um permanente esforço no sentido de evitar mostrar o conflito sob a ótica do dominador, já que, nesse caso, a ideologia se impõe como uma forma de apreensão de toda a realidade. Como a ideologia, dando-se a conhecer, não pode senão representar os interesses da classe que a motiva, Videiras de cristal dá ao leitor a possibilidade de ver as contradições que se dão no interior dos interesses, possibilitando uma visão menos objetiva, porque literária, porém mais verdadeira, porque artística.

É talvez desnecessário referir que a seita organizada por Jacobina e João Jorge, não só pelo fato de congregar colonos alemães e seus descendentes e, portanto, grupo desajustado etnicamente, reuniu as pessoas mais pobres da região, propondo uma utopia. Como projeção do futuro, o pensamento utópico traz em si mesmo a ideia critica da ordem real existente, assim como uma proposta de construção de uma ordem alternativa que já se apresenta como irrealizável na sua plenitude. No caso da mulher-cristo, sabe-se que isso não interessava, porque a utopia não significava a confluência de todas as forças voltadas para a modificação social. Enquanto Jacobina rezava, acenando com uma vida num outro mundo, aqui neste mundo as forças contraditórias se uniam, dizimando os Muckers.
Uma leitura motivada
A representação ideológica, em Videiras de cristal, assume um caráter pragmático, já que é pela intermediação literária que se dá a prevalência de ideias que podem atuar no campo social. O que interessa ao autor do livro não é a mera atualização do dado histórico, mas o fato de sua reprodução no plano artístico adquiri conotações que justificam procedimentos que se cruzam no livro: de um lado, a expressão política de um momento da vida brasileira; de outro, o testemunho do escritor na organização de um discurso de modo a torna-lo coerente. Em ambas as circunstâncias, a prática literária funciona como espaço ideológico privilegiado.

Não deixa de ser relevante o fato de que Luiz Antonio de Assis Brasil ser um escritor que, ao longo de sua produção romanesca, vem (re)pensando a realidade social brasileira. É também significativo que, sem fugir às convenções, o romance dos Muckers estrutura-se de modo a desmotivar uma leitura referencial, propondo uma espécie de comunicação em que o juízo do narrador, a propósito da personagem Jacobina ou de uma situação especifica da história, pode sugerir uma situação de solidariedade ou de distanciamento. Como tais circunstâncias são sempre dotadas de uma eventual ressonância ideológica, também é ideológica a atitude subjetiva assumida para com elas.

Em Videiras de cristal, porque o argumento se sustenta no histórico, o Autor trabalha com personagens reais, exceção feita ao médico Christian Fischer. Como assistente privilegiado, o dr. Fischer não só apresenta um espécie de critico dos fatos, mas simboliza, no plano de uma Leitura profunda, a “Consciência possível” do movimento. É através dele que as informações sobre o conflito vão chegar à Europa:

“... consolou-se Hans Willibald ao ler as atrocidades... As noticias lhe chegavam aos pedaços, nunca pudera compor um quadro perfeito do movimento e, de certo modo, nem o queria”.

É, porém, na figura de Jacobina Maurer que Assis Brasil vai apoiar a narrativa, já que é em face dela que os acontecimentos ocorrem. Figura contraditória, Jacobina representa um poder que lhe é negado pela sociedade constituída, mas, apesar disso, sente-se plenamente consciente de sua humanidade. É ela, com seu misticismo em estado bruto, que propõe não só a salvação, mas o estabelecimento de uma ordem que o sistema social não propicia. O livro, nesse sentido, recria o clima que favorece certas práticas de religiosidade popular, fazendo de Jacobina uma espécie de “poder de espírito” de que fala Max Weber, instrumento suficiente para satisfazer as necessidades de colonos ignorantes e pecadores rudes, circunstancia que vai repetir-se, mais tarde, com Antônio Conselheiro, em Canudos, e José Maria de Castro Godinho, na “Questão do Contestado”.

Como a tendência ao misticismo costuma surgir entre as camadas despossuídas, Jacobina Maurer é paradigmática, tanto em relação aos Muckers, como numa leitura atualizada que se pode fazer de Videiras de cristal: o aumento assustador das camadas periféricas tende a produzir formas místicas de religiosidade, fazendo com que o episodio dos “santarrões” do morro do Ferrabrás se caracterize como uma forma de alerta para o problema que, hoje, afeta parcela da população brasileira.

Se a aproximação se faz sugere um sentido pratico para a leitura, também é verdade que o romance de Assis Brasil, em certo sentido, ao enfocar um tema que atravessa a sociedade brasileira 9também) de agora, faz verdadeira a ideia de que é pela via literária que se pode ver, muitas vezes, que os conteúdos ideológicos não estão isolados dos interesses materiais da sociedade. Cabe ao artista dar a esses conteúdos um valor maior que, no caso de Videiras de cristal, se faz de modo pleno. Como obra literária, o romance de Assis Brasil, sem abdicar de sua autonomia, como linguagem oficial e tácita, foi escrito de modo a não dizer, revelar ou traduzir a forma explicita – mesmo porque isso não compete à literatura -, mas sim para dar lugar à ausência de palavras sem a qual não teria nada dizer.

E, mais uma vez, é nas anotações que o capitão San Tiago Dantas faz do conflito que vêm o sentido humanista da narrativa e o vigor do discurso literário:

“O cenário do embate, por isso, apresenta-se doloroso como o Tártaro e horripilante como o Érebro; onde gente honesta e laboriosa cultivava a terra – suas esperanças de vida melhor ao Novo Mundo – agora só há destroços ígneos. A deusa Nike nos sorriu, mas abriga em seu manto uma legião de desgraçados!”.

“San Tiago fecha a caderneta de anotações, guarda-a no alforje de couro e bafeja as mãos. Será mesmo que de toda a tragédia ficaram apenas aquelas frases ornamentais, lidas pelos Barões da Corte do Rio de Janeiro entre um arroto e um palito de dente? Sente o cheiro acre da pólvora ainda pegada aos dedos: isso não é literatura”.



RGS-Letras, Porto Alegre, fevereiro/março 1991, p. 5.

O puro cristal de Assis Brasil
Tarso Genro
O longo romance de Assis Brasil, Videiras de cristal (542 páginas, Mercado Aberto, 1990), é ousado e arrogante. Sua ousadia é mostrar, a partir da história dos Muckers, o microcosmo colonial alemão segundo uma ótica universal. Ou seja, dizer que ali não se expressa somente um conflito local e religioso, mais um momento da condição humana – de classes, cultural, religiosa -, na sua essência (que não é vocacionada nem para o “bem” nem para o “mal”) como sujeito-objeto de um processo que ele – homem – instaura sem controlá-lo nas suas determinações e no seu futuro. É uma empreitada arrogante, como deve ser toda a obra literária que quer enfrentar um grande desafio e que qualquer modéstia tornaria isenta de dramaticidade.

A leitura de Videiras de cristal pode ser feita de diversos ângulos. Neste sentido é visível o tributo que o autor paga (e bem paga?) aos melhores romances da linhagem do realismo crítico tipo Thomas Mann e Martin du Gard. Sem ser um romance histórico, traça um quadro da época sem mistificá-lo. O livro, por inteiro, é uma ampla e generosa reflexão sobre esta destruição da casca da forma, de que nos falou Wallace Stevens, onde “mais nada se interpõe” e os homens se flagram como os donos do absoluto: o “bem” e o “mal” se tornam apenas visíveis segundo a legalidade vigente, que por si só passa a constituir os padrões valorativos de cada ação humana.

A obra opera em três grandes planos – ou melhor – apanha três grandes movimentos que, interligados, constituem a totalidade do romance. Primeiro, temos O processo geral de formação da seita “Muckre” e as representações ideológicas deste processo, no qual o elemento de unificação sectária é a pobreza colonial, em oposição ao mundo “rico e próspero” que avança em São Leopoldo. A ele se opõe o imaginário popular-colonial mais pobre, que supõe um retorno a um estilo de vida comunitário experimentado no inicio dos tempos coloniais,onde todos estavam unificados pela férrea necessidade de sobrevivência.

Em segundo lugar, o romance trabalha o mundo da política dominante, que se estratifica na oposição entre liberais e conservadores, cuja análise da realidade está tão distante do conflito, como está hoje, por exemplo, o mundo do Direito e do Estado, da realidade em que vivem milhões de marginalizados em nosso país, que realizam uma espécie de legalidade adjacente. No conflito Mucker este estranhamento é mais profundo, tendo em vista que a religião e a cultura da colônia não tem quaisquer elementos de identificação com a ideologia da classe dominante local na época do Império.

Finalmente, como romance, há o plano de um movimento próprio dos personagens que, pela sua tipicidade e originalidade (a contradição é proposital), explorando o espaço dos sujeitos individuais, com as suas mazelas, covardias e generosidades, e depõem sobre o homem concreto da época e do local, num conflito que, pela sua radicalidade e violência, exige o desvendamento completo de cada ser. Neste sentido, embora o dr. Christian Fischer, o pastor Boeber e o jesuíta Mathias Munsch não sejam personagens-eixo – como Jacobina Maurer, Jacó “Mula” e João Lehn – eles compõem a situação de tipicidade que estrutura o romance, à medida que fracionam a ética humanista-cristã nas suas mais extremas possibilidades.

Mas o que justifica um romance desta dimensão? A obra de Vargas Llosa sobre Canudos é uma denúncia brutal sobre a desumanidade, sobre a desigualdade e sobre a ignorância; revela-se, portanto, numa obra de partido, reivindicando para os miseráveis a grandeza de proceder – via religião e misticismo – o experimento da utopia. Os Muckers não tiveram a mesma densidade. Não chegaram a constituir um movimento de massas, no sentido clássico do termo, nem realizaram nas suas relações internas mais do que a elementar solidariedade recíproca dos ameaçados e excluídos. Qual, então, a sua importância para merecerem um romance que beira as seiscentas páginas?

Vejamos algumas das suas passagens:

“Phillip Sehn projetou para cima o queixo. – A questão se coloca de forma muito clara. Os Muckers são estranhos a nós. São fanáticos, intolerantes, começam a tirar os filhos das escolas e isso é bem uma prova da sua arrogância, desprezam aquilo que de melhor possuímos nós, alemães: a cultura e a ordem”. (p. 140).

“A nudez de Maria Sehn era ao mesmo tempo arredondada e rija, revelando sua carnação feita para a maternidade. Um corpo ainda indevassado, digno de ser possuído por um homem de bem” (p. 168).

“A colônia ingressa na civilização, depois do período da barbárie. Abra os olhos para a realidade. Não adianta você lutar contra a história. Jacobina representa o passado e o atraso. O presente está no progresso de São Leopoldo, nas indústrias que vão surgindo por todo o lado, na sadia acumulação de riquezas que trará o progresso para todos”. (p. 181).

A “cultura e a ordem”, o “homem de bem” e a “acumulação de riquezas”. Estas passagens, semelhantes a muitas outras do romance, traduzem uma visão de mundo determinada, de um momento histórico fundamental na formação do capitalismo, que aqui começa a dar seus primeiros passos de modernização. A “cultura e a ordem”, como elementos fundantes de um novo estilo de vida aos “homens de bem” (só eles são dignos de certos corpos), os quais estão dispostos a expelir e reprimir a dissidência e a marginalidade em nome de um processo que visa o bem comum, a saber, a acumulação de riquezas, que trará o progresso para todos.

O retorno à pureza da religião, que se justifica a si mesma como mera explicação do mundo e faz reverencia pura ao mistério divino, já não tem então mais lugar, pois expressa uma ausência mínima de racionalidade necessária para o desenvolvimento da acumulação capitalista.

A tragédia de Jacobina é que na mente humana majoritária Deus está é na história e agora. Ele serve a outros desígnios, que não a simples adoração de si mesmo: Deus sai do cristianismo agrário, arcaico, primitivo e se integra ao destino do capital, que exige cultura, mobilidade, progresso e acumulação. Esta é a tragédia dos Muckres, que se tornam tão bárbaros como aqueles que os agridem e os humilham. A dualidade do atraso alemão em relação ao resto da Europa no fim do século XIX (ao mesmo tempo a terra de Goethe e de Schiller, mas também da ascensão burguesa contornava a democracia) instala-se aqui no microcosmo semibárbaro do Ferrabrás.

Eis porque o romance de Assis Brasil não é mais um romance para ser simples e puro divertimento, mas é uma obra universal que apanha, daqui da frente dos nossos olhos, um fragmento que consegue ser um enlace com a história moderno e os conflitos que a caracterizam, como a disputa entre a razão e a intolerância. Afinal, não é esta a história do mundo? Lukács falou no conflito radical que perpassa a história da filosofia: racionalismo x irracionalismo. Talvez este século seja conhecido no futuro, em contraponto ao Século das Luzes como o século da irracionalidade, da Destruição do Homem. O Século da Mentira, quem sabe. O que dá mais importância para quem faz da arte e da vida uma defesa permanente da verdade e da razão.


Porto & Virgula, Porto Alegre, Maio/Junho 1991

A guerra dos miseráveis colonos alemães no Sul
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