Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Notas


  1. BORNHEIM, Gerd. O sentido e a máscara. Porto Alegre: UFRGS, 1965.

  2. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Videiras de cristal. Porto Alegre: mercado Aberto, 1990.

  3. LESKY, Albin. A tragédia grega. São Paulo: perspectiva, 1971.

  4. FERSTUGIERE, A.J. La esencia de la tragédia griega. Barcelona: Ariel, 1986.

  5. Op. Cit. 1, p.99.

  6. GENRO, Tarso. O puro cristal de Assis Brasil. Porto Alegre, Ver. Porto e Vírgula, 2, maio/jun. 1991. p.16

  7. “Se a tragédia, em estado puro. Já não é mais possívl, a experiência trágica, inerente ao humano como é, ainda se pode verificar”. In: BORNHEIM, Gerd. Op. Cit. 1.p.119.

  8. BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: L& PM, 1989.

  9. Id. Ibidem. P.18.

  10. In: LESKY, Albin. Op. Cit.3, p.33.

  11. GIRARD, Gilles & QUELLET, Réal. O universo do teatro. Coimbra: Almeida, 1980. p.178.

  12. Op. Cit. 1. p.118.

  13. Op.cit. 2, p.536.

  14. Id. Ibidem.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES, Poética. Porto Alegre: Globo, 1966.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Videiras de cristal. Porto Alegre: mercado Aberto. 1990.

BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Porto Alegre: UFRGS. 1965.

GENRO, Tarso. O puro cristal de Assis Brasil. Ver. Porto e Vírgula, Porto Alegre, nº 2, maio/jun 1991.

GIRARD, Gilles & QUELLET. Real. O universo do teatro. Coimbra: Almedina, 1980.p.178.

FESTUGIERE, A.J. La esencia de la tragédia griega. Barcelona: Ariel, 1986.

LESKY, Albin. A tragédia grega. São Paulo: perspectiva, 1976.

In: MASINA, Léa. Percursos de leitura. Porto Alegre: Movimento, 1994, p.5.

NO LIMIAR DOS TEMPOS: A REVOLTA DOS

MUCKER EM VIDEIRAS DE CRISTAL


Cibele de Lacerda Boeira

O romance Videiras de Cristal (1997), de Luiz Antonio de Assis Brasil, retrata a questão dos mucker e, de certa forma, dá continuidade à inacabada trilogia de Josué Guimarães, A Ferro e Fogo, publicada em 1982. Assis Brasil aborda a imagem do imigrante alemão de forma bastante elucidativa, retratando diversas de suas particularidades.

Em Videiras de Cristal é abordada a questão econômica dos imigrantes. Ao final de A Ferro e a Fogo a condição econômica do imigrante é vista em situação de progresso. Em contraponto a esta visão, Assis Brasil aborda em sua obra, as duas faces da colonização, ou seja, a pobreza dos recém – chegados e a riqueza dos que já estavam estabelecidos. Este aspecto é elucidado nas páginas 46 e 47 da obra, na carta que Christian Fischer escreve a seu tio:


E assim a colônia apresenta duas faces: de um lado a face boa, isto é, a dos imigrantes que, aqui chegados há quase cinquenta anos, adquiriram fortunas, vieram morar em São Leopoldo (...). Enriqueceram no comércio, intermediando as mercadorias do interior (...) E, como o dinheiro não pode estar em duas mãos ao mesmo tempo, fica de preferência nas mãos de quem já o tem. Revela-se assim outra face da colônia: a má, constituída por toda essa gente que se espalha nas margens do rio dos Sinos e forma pequenos núcleos de vida apagada (...) mas o fato é que há uma grande distância social e econômica em relação a seus patrícios de São Leopoldo.
Nesta questão econômica também encaixa-se a Revolta dos Muckers, já que, muitas vezes, o ódio aos fiéis é nutrido em virtude de os mesmos serem auto-suficientes e não dependerem da exploração de terceiros.

O doutor Hillebrand faz alusão aos primórdios da colonização, onde todos vivem em uma certa igualdade social relacionando a origem da desigualdade na Revolução de 1835 a 45:


Antes do término de 1835 a 1845 os colonos ainda viviam em uma relativa igualdade social, todos se ajudavam, compartilhando as mesmas dificuldades e tendo as mesmas esperanças. Com a revolução começaram as disparidades, muitos enriqueceram e passaram a explorar seus concidadãos. (Assis Brasil, 1997:49)
Essas diferenças justificam, de certa forma, o fanatismo, religioso da seita dos Muckers, pois a maioria de seus seguidores viviam em estado de miséria, buscando em Jacobina uma luz para seus sofrimentos já que a mesma estabelece uma ordem de igualdade. Portanto, Jacobina vai de encontro à ordem estabelecida.

Nesta obra se inserem fatos que dizem respeito à realidade histórica, aspecto central do enredo. Caracterizam o período, ataques mútuos e liberais e conservadores, que em muito se distanciavam da verdade imparcial. Os liberais, eram em sua grande maioria brasileiros e muitos dos imigrantes e seus descendentes eram conservadores, talvez porque, como Lúcio Schreiner apregoava, o imperador do Brasil certamente era conservador. Como fora ele quem trouxera os alemães, merecia o reconhecimento da população, muito embora fosse possível observar, a partir da pequena cena em que o imperador é retratado em seu meio, em distanciamento da realidade do povo. Importante, entretanto, se mostra na opinião da personagem Fischer, de que os alemães e seus filhos ainda se sentiam estrangeiros no Brasil e por conseguinte não se sentiam à vontade em manter oposição ao governo.

Portanto, pode-se constatar que abre-se ao leitor um enfoque amplo da questão dos Muckers. Vale ressaltar que todo este painel faz com que o leitor tenha uma visão da imigração como um todo, vislumbrando a vida na colônia, seus aspectos humanos, culturais e econômicos. Assis Brasil permite que o leitor, a partir de todos os dados fornecidos pela obra, tenha sua ótica sobre este importante episódio da imigração alemã, analisando-a sob múltiplos enfoques.
1. A Religiosidade na revolta dos Mucker
Ao se sentirem indivíduos escolhidos, os crentes precisam de um lugar em que possam se encontrar, a fim de compartilharem da mesma fé. A casa de Jacobina passa a ser o local onde eles se reúnem para ouvir suas pregações, sem demonstrar estranhamento em verem uma residência familiar transformar-se em um espaço de culto e de veneração. Isso talvez aconteça porque muitos já conhecem o local com a feição de um posto de saúde, na qual Herr Maurer pratica suas habilidades de curandeira. Dessa forma, para alguns fiéis, a casa nunca foi moradia de uma família, mas o lugar onde se busca e se encontra a ajuda para o corpo e/ou para a alma. Segundo Jacobina, em uma conversa com a avó Muller, sua casa é um teto que abriga a todos que dele se aproximam: “Qual é minha casa mãe? – disse Jacobina, procurando uma posição mais confortável na cadeira ao lado da cama. – Esta casa é a casa de todos. Aqui todos entram e saem a qualquer hora” (Assis Brasil, 1997:115)

A edificação do templo marca no meio dos Muckers uma nova era, porque toda a construção é um começo absoluto, isto é, tende a restaurar o instante inicial, a plenitude de um presente. Com o templo, os asseclas de Jacobina dão a si mesmos a certeza de estarem participando de um movimento que modifica suas vidas. Eles sabem que estão iniciando um novo período de suas existências, ansiando que, com ele, venha a igualdade – social e econômica – e a bem-aventurança a tanto tempo esperadas.

nesse lugar, onde se localiza a residência dos Maurer, uma ideia de reviver a criação do mundo; não daquele mundo europeu, que os germânicos abandonavam quando vieram para o Brasil, mas do universo idealizado pelos imigrantes quando chegaram à colônia alemã de São Leopoldo, em 1824. Quem explicitam isto são os colonos idosos, durante a etapa de construção do templo: “- Aqui é bem como o tempo antigo. Aqui não há ricos, todos são iguais. Louvo a Deus e a Jacobina por não morrer sem enxergar tudo isto acontecendo – diziam.” (Assis Brasil, 1997:123)

Desse modo, os fiéis avistam na nova casa a renovação das esperanças que os imigrantes germânicos tiveram ao chegar à colônia: uma vida sem sofrimento, uma existência feliz, uma terra onde as pessoas são iguais. As ocorrências no Ferrabrás vão ao encontro das expectativas dos habitantes, inspirando-lhes novos anseios ao lado daqueles já existentes nos primeiros momentos da colonização.

As atividades de leitura e explicação da Bíblia, feitas por Jacobina, bem como o seu contato com as divindades, fazem deste pedaço de terra um espaço abandonado. A residência da profetisa é comparada à casa de Deus – uma igreja – isto é, ao local onde os homens sentem-se mais próximos do Senhor. Jacó Fucks, quando chega aí, é recepcionado por um colono que o convida a entrar, lembrando-o que deve ter uma atitude respeitosa: “ – Mas tire o chapéu – ele (o colono) disse quando Jacó-Mula já estava a cinco passos da casa. Aqui também é a casa de Deus. Pode entrar. (Assis Brasil, 1997:129).

A certeza dos crentes de que este lugar é especial fica reforçado pelo nome da fazenda onde a Mutter tem sua casa: Padre Eterno. A profetisa não apenas estabelece uma comunicação com o Pai, mas vive nos domínios d’Ele. O nome da picada também é expressiva: Ferrabraz significa fanfarrão, bravateador, valentão. O tom depreciativo sugerido pelo vocábulo pode ter levado os participantes da seita a adotarem um comportamento que julgassem irrepreensível, a fim de não serem identificados pelos epítetos evocados pela região, uma vez que já carregam consigo a denominação Mucker, que significa santarrão.

A comunidade formada por Frau Maurer agrega diferentes pessoas, pertencentes a diversos níveis sociais – do mais pobre colono ao mais influente comerciante – com alguma ou nenhuma escolaridade, católicos e protestantes. Mas, segundo Jacobina, em conversa com a Omã Muller, todos assemelham-se pelas deficiências da alma, pois se tratam de miseráveis, doentes e fracos de espírito”. (Assis Brasil, 1997:130)

Para os seguidores, Frau Maurer possui autoridade absoluta, suas palavras são consideradas verdades e a maioria das suas ordens é acatada à risca pelos adeptos, ainda que não concordem com elas. Um exemplo disso é a sua determinação em enterrar todas as armas que estão na casa sob os cuidados do Tio Fuchs, enquanto um cunhado – o Mutilado – deseja utilizá-las contra o Inspetor de Quarteirão. Jacobina chamou os dois, mandou que Tio Fuchs abrisse o depósito e, à vista de todos os colonos, mandou cavar um grande fosso no quintal, onde mandou enterrar as armas. “- Que se enferrujem todas aí. Para que precisamos de pistolas e espingardas? Nossa casa é uma casa de paz. O assunto parecia encerrado. (Assis Brasil, 1997:133)

A comunidade só aceita os indivíduos que crêem piamente em sua líder, nos seus dons sobrenaturais e os que lhe tributam obediência. Aqueles que se afastam publicamente da crença, independente do motivo, e a difamam, são castigados pelos seguidores fiéis. Os Kassel são um exemplo disso, pelo menos, a colônia em peso fica contra os Muckers, acusando-os de terem assassinado a família. Um dos sobreviventes, Nicolau, enteado de Martinho Kassel, ao contar ao padrasto o episódio do massacre sofrido, denomina matadores de parentes dos Muckers.
eram muitos, uns cinco ou seis, chegaram quando era quase madrugada e entraram na casa com tochas e armados de facões e revólveres. Ele ainda tentou implorar que fossem embora, mas os muckers já entravam em todas as peças, botavam abaixo as portas com pontapés e já degolavam as crianças. Luísa ainda ajoelhou-se na frente de um deles e pediu piedade, mas o bandido riu-se dela e ali mesmo cravou-lhe uma faca no peito. (Assis Brasil, 1997:135)
Através dessa ocorrência, percebemos que Jacobina domina e dirige a vida dos fiéis e ex-fiéis. Pois mesmo que não houvesse ordenado a chacina da família Kassel, havia anunciado a morte deles, e isso ratifica seus dons proféticos. O controle exercido por Jacobina sobre a existência de todos os partidários provém da posição que ocupa dentro da organização interna do grupo, imposta por ela própria, e que provoca as diferenças entre os seus membros. Aglutinadora dos diferentes indivíduos num mesmo ambiente, é também a responsável pelas desigualdades entre eles. Na comunidade formada pelos Mucker, distinguimos uma hierarquia composta de três camadas sociais, dentro das quais os participantes do movimento se dividem, a saber: na primeira, corresponde ao vértice, Jacobina; na segunda, os fiéis que gozam da simpatia da profetisa; na terceira os demais seguidores.

Como um messias, Jacobina Maurer representa o ápice do poder na comunidade. É a líder adorada, a quem tem total domínio sobre os adeptos. Jacó-Mula é um dos quais sente o poder desta mulher:


Que paixão, que delírio entretanto o prendia à Mutter e o fazia esquecer de tudo o mais? Vivia apenas por aqueles instantes que a enxergava, era alimentado por aqueles beijos eternos. Quanto mais os fatos se deflagravam e a imagem do mundo se distorcia, mais ele precisava da Mutter (Assis Brasil, 1997:139)
Suas prédicas, que para os fiéis só revelam verdades, não deixam dúvidas sobre a legitimidade da crença que estão formando no Ferrabrás:
Estamos construindo a verdadeira religião, assim como quis Martin Luther. “Nós plantamos aqui no Ferrabrás a semente de uma fé nova, revigorada pelo novo batismo, uma fé que não precisa dos Padres e nem dos Pastores consagrados, e sim de um coração limpo e temente a Deus” (Assis Brasil, 1997:140)
Aos seguidores preferidos de Jacobina, esta denomina de “apóstolos”, procurando na Bíblia a sugestão para as indicações dos nomes e das características dos crentes: João Jorge passou por Ana Maria como se não a visse; Jacobina porém chamou-a e pôs-lhe o dedo indicador sobre os lábios. “- É meu apóstolo João, disse, (...) No outro dia, de coração leve, Jacobina chamava seu cunhado Carlos Einsfieldt de Judas Iscariotes, por seu grande apego ao dinheiro” (Assis Brasil, 1997:143)

A comunidade formada pela líder e seus adeptos não visa agredir as pessoas contrárias a ela. Em vários sermões e conselhos, Jacobina prega a paz, a luta pacífica, recusando-se a aceitar provocações. Ela exige dos seus um comportamento exemplar, pois só assim alcançarão a felicidade eterna:


A luta porém, era pacífica. Não levantassem um dedo, não erguessem a voz, deveriam manter-se mansos como foi Cristo até o último momento ante Pôncio Pilatos. Está no Sermão das Bem-Aventuranças que os mansos verão a Deus. (Assis Brasil, 1997:170)
Entretanto, apesar do desejo de viverem em paz, os participantes da seita são continuamente agredidos e, a cada vez, de forma mais violenta, conforme ilustra o trecho que segue: “A colônia ardia em retaliações: as casas dos Mucker, desde a Linha Nova até o Padre Eterno, eram incendiadas sem a menor piedade, e as mortes continuavam”. (Assis Brasil, 1997:171). Essa situação de agressividade contra os Mucker, que quase os impossibilita de praticarem sua fé, faz com que a própria Jacobina anuncie o momento de reagirem e de se vingarem dos ímpios: “- Meus filhos. A besta do Apocalipse está à solta. Chegou a hora de fazermos parar os ímpios, nem que seja pelo ferro e pelo fogo. Jacó [Mentz] está certo. A noite passada foi deles, mas a de hoje será nossa”. (Assis Brasil, 1997:172)

Os atos que praticam, a partir de então, mostram-se tão violentos quanto aqueles que os vitimam: incêndios e assassinatos tornam-se práticas comuns entre os discípulos de Frau Maurer. O terror que eles espalham pela colônia, fazendo com que o medo se estenda até São Leopoldo, é relatado pelo Delegado Lúcio Schreiner e pelo colono Pedro Serrano ao Chefe de Polícia Interino, o Doutor Abílio, que percebe aí um rastro de destruição e morte. Aos poucos, com as informações entrecortadas de um e de outro, o Doutor Abílio ia compondo um quadro de horrores: onze mortes, vários feridos, cinco ou seis incêndios, bestialidades de toda a ordem. Ao praticarem essas ações violentas, os fiéis não crêem apresentar uma conduta repreensível ou má, pois se julgam seres iluminados, abençoados pelo Espírito Natural, e escolhidos por Deus para serem os seus “agentes” na Terra. Eles não têm o objetivo de condenar os infiéis, já que o último julgamento será feito pelo Senhor, no dia do Juízo Final. Isso é dito pela Mutter ainda no tempo em que tentam viver pacificamente e buscam atrair mais partidários para a sua seita: “Se tratarem mal os nossos, o próprio Cristo responde: - Saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que o Dia do Juízo será mais tolerável para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Assis Brasil, 1197:175)

Para os partidários de Jacobina, o confronto também assume o caráter de provação divina, ou seja, é a batalha que torna os verdadeiros religiosos aptos a frequentarem, após a morte, o Reino dos Céus. A guerra propiciará aos vivos uma melhor existência, afinal acreditam que os ímpios serão afastados da comunidade em formação, na qual está estabelecida a igualdade entre todos os homens.

Como consequência da residência apresentada, infla-se a irritação dos opositores que mais retaliações promovem contra os Mucker, conforme cresce a divulgação da fama da profetisa e a brutalidade dos atos de vingança dos frequentadores da casa de Jacobina. Grande parte das atividades que intentam prejudicar os partidários de Frau Maurer, é estimulada pelos jornais da época que, paulatinamente, apresentam artigos mais ferozes contra esses colonos.

Até o momento em que se iniciam as perseguições, os Mucker mantêm relações cordiais com o restante da sociedade e aceitam suas normas. Como exemplo temos o Pastor Boeber confessando ao jesuíta que os luteranos simpáticos a Jacobina não deixam de procurá-lo para a realização dos sacramentos:
- Padre, eu poderia fazer-lhe uma lista com dezenas de nomes de meus paroquianos que se passaram para Jacobina. O senhor sabe que no Ferrabrás há muito mais luteranos do que católicos. O mais vergonhoso é que para os batizados, casamentos, mortes, ainda recorrem a mim. Eu entendo sempre, não posso faltar ao meu dever. (Assis Brasil, 1997:190)
Os rompimentos posteriores referem-se, sobretudo, às práticas religiosas como casarem e sepultarem seus membros dentro de rituais estabelecidos por Jacobina. A proibição da líder, que impede os seus partidários de frequentarem as escolas e as igrejas, se dá unicamente por não acreditar que em tais lugares seja ensinada a religião verdadeira. A reunião de todos os Mucker, na casa dos Maurer, com intenção de formar um grupo de resistência e isolado dos outros colonos, só ocorre quando Frau Maurer convoca a todos, para que não fiquem à mercê das atividades criminosas dos ímpios:
Convocados por um alerta que percorreu todos os caminhos e entrou em todas as casas, os fiéis continuavam a chegar com as famílias e eram alojadas no Templo, na casa de Jacobina e até na estrebaria, onde disputavam o espaço com as vacas e os cavalos. (Assis Brasil, 1997:191)

Através de todo o desenrolar da história percebe-se que os signatários da profetisa reúnem-se não para preparar um ataque, mas para se defenderem. Os atos de violência que praticam são uma consequência do sofrimento que lhes é causado pelos crimes que a sociedade global lhes inflige. De colonos pacatos, professantes de uma crença pacífica, tornam-se homens temidos, que lutam para poder sobreviver e praticar uma religião que acreditam verdadeira. A repressão que sofrem, ao invés de dispersá-los, reforça o sentimento de união existente na nova comunidade, levando seus integrantes a um atávico espírito de clã. Contudo, a separação do restante da sociedade não ocorre por um radicalismo sectário da parte dos Mucker, mas por um ideal cristão ecumênico proposto por Frau Maurer, enquanto messias, reforçado pelas insatisfações diante das dificuldades encontradas fora do grupo messiânico.

O fato de a maioria dos crentes não se intimidar com as lutas travadas contra a força militar mostra a sua disposição em tentar manter a congregação, que não os relega a uma situação de abandono. Na nova comunidade, os seguidores de Jacobina não se sentem seres confinados à própria sorte, esquecidos pelos poderes governamentais ou pelos próprios semelhantes que enriqueceram, mas julgam ter encontrado um lugar onde têm função religiosa e social a cumprir, o que lhes restitui o sentimento de auto-estima perdido ao longo da colonização.
2. Jacobina, a mulher no domínio
Abordando a questão da religiosidade, as pessoas primeiramente são atraídas pelo curandeirismo de João Jorge Maurer que incentiva os moradores da região do Ferrabrás a aceitarem Jacobina, sua esposa, como um ser superior provido de dons divinos como de sua capacidade de curar enfermos com o uso de ervas medicinais, como acreditam os moradores do Ferrabrás. Depois, passavam a ver Jacobina como uma espécie de enviada divina que tem o poder de transmitir a palavra de Deus.

Um ponto a destacar é o aspecto físico de Jacobina: uma mulher pálida e extremamente frágil, porém é isto que a torna dominante. Através das palavras esperançosas, dos gestos de docilidade, Jacobina consegue converter homens e mulheres ao Espírito Natural, que é aquele que estabelece a comunicação entre o divino e o terreno, e assim comanda seus passos e atitudes. Este é o seu diferencial, como observa o Doutor Fischer:


Jacobina é ainda moça e, em certo sentido, bela. Não se percebe à primeira vista que é uma colona, pois os traços conservam uma suavidade urbana. Poderia ser confundida com uma simples modista ou uma vendedora de flores. (Assis Brasil, 1997:202)
A profetisa Jacobina Maurer assume o papel de novo Cristo, comparando-se a este em seus discursos, pois para seus seguidores, ela possuía conhecimentos superiores referentes à Bíblia, já que incluía citações em suas falas naturalmente. Isto contribui para que aumentasse a confiança de seus seguidores, bem como para fortalecer a seita: “Breve teremos lugar [nosso Templo] onde vigorará somente a vontade de Deus e onde os ímpios não poderão chegar com seu dinheiro e com seus pastores. Passarão céus e terra, mas minhas palavras não passarão.” (Assis Brasil, 1997:152)

O maior poder de Jacobina era a palavra. Através dela, a profetisa enfeitiça uma legião de fiéis e abala a estrutura das igrejas católica e protestante. Com a habilidade de uma oradora consumada, ela transforma suas palavras em verdades absolutas, as quais ninguém interrompe ou questiona. O trecho a seguir mostra o poder das palavras da profetisa sobre todos que a cercam:


- O que nós estamos fazendo de mal. Tio Fucks? Na rua, negam cumprimento às pessoas que vêm aqui, debocham delas e jogam pedras. Onde você acha que vai acabar isso?... Onde você quiser, Jacobina. Sua voz é muito mais forte do que imagina. Esse povo que você vê aqui seguirá você para onde você mandar (Assis Brasil, 1997:131)
Sendo uma pessoa venerada por todos seus seguidores, Jacobina adquire maior confiança e aceitação quando expõe suas razões para não dedicar respeito aos sacerdotes. A profetiza alega que eles detêm o poder social e econômico e, por esta razão podem ser considerados aliados daqueles que exploram os moradores da colônia.

Frau Maurer, defendendo estas proposições, se torna apta a profetizar e suas pregações são ouvidas e colocadas em prática por seus discípulos, que ficam cientes de que terão que superar muitas controvérsias para manter a seita: “Os homens maus agora querem reduzir todos do Ferrabrás a um bando de indigentes e famintos, negando-lhes a comida. Pois bem, os crentes que se preparassem para dias difíceis”. A ideia de Fim dos Tempos é bastante abordada por Jacobina em seus discursos, ela associa o Apocalipse ao fim da seita. Para isso, ela se utiliza do texto bíblico para dar veracidade e legitimidade às suas profecias: “Quando virdes estas coisas acontecerem, sabereis que o Reino de Deus está próximo. Nada do que sucede agora não foi previsto pelo Espírito Natural. (Assis Brasil, 1997:257)

O nascimento da filha Leidard enfatiza a ideia de fim de mundo. Já que a profetisa ainda prevê o extermínio do grupo fazendo uma associação com o da própria criança. Para Jacobina, a menina representa a fé de todos na religião verdadeira que ela difundiu. Esta posição se evidencia no seguinte trecho da obra:

Esta criança, gerada e nascida em nossa fé, ela será o sinal. O seu destino será o nosso destino. Mas não tenhamos inquietações. Fomos vencedores, e devemos dar graças porque nenhum dos nossos foi ferido, nem na alma nem na carne. Leidard, com sua saúde e de sua beleza, é a imagem de nossa inocência e nossa verdade (Assis Brasil, 1997:384)


Jacobina consolida sua posição de líder religiosa e de divindade quando seus seguidores a vêem subir aos céus e escutam a voz de Deus anunciando-a como Sua filha:
Com um arrepio, Jacó-Mula percebeu que a mulher não pousava mais no piso, alçava-se num movimento suave e contínuo em direção ao teto estranhamente aberto, revelando o céu daquele final de tarde onde as nuvens douradas davam lugar a grandes claros de azul. E ela sorria, desejosa de abandonar de abandonar este mundo pecador e perverso. Os braços estiravam-se em todo o comprimento e o corpo alongava-se como uma seta apontando para o alto entre as nuvens então soou uma voz grave e antiga do Senhor, vinda desde a eternidade das eras: ESTA É MINHA FILHA MUITO AMADA, NELA EU PUS TODA MINHA BENEVOLÊNCIA (Assis Brasil, 1997:156)
Apesar de participarem de uma seita, nota-se que o comportamento demonstrado pelos participantes é o de uma grande família, onde a líder se apresenta como mãe, e os adeptos são seus filhos. O grupo é tido como uma irmandade onde quem governa é o messias. Jacobina é a principal personagem deste grupo messiânico, pois agrega a figura de profetisa e de líder e, para isso, muitas vezes, assume a personalidade de Cristo, tentando conduzir a salvação das almas de seus discípulos.

Um outro aspecto que mostra a determinação da personagem Jacobina é que, mesmo sabendo do trágico desfecho que teria o fanatismo dos Mucker, continuava perseguindo seu objetivo. Neste ponto a lucidez de Jacobina é bastante evidente, pois, em sua máxima “A paz será cinzas”, ela já de antemão tem uma noção bem real do que vai acontecer a seus seguidores. Note-se, porém, que ela, em momento algum, recuou.

Jacobina representou a carência do povo alemão ao chegar no Rio Grande do Sul pois os mesmos eram iludidos, tinham seus costumes modificados e acabavam se dividindo ao entrar em confronto com a cultura brasileira. Jacobina era como um refúgio, um conforto para quem estava desesperado e perdido nestas terras.

A profetisa representa, apesar de seu forte cunho religioso, um papel ideológico, social e político, pois se opõe à ordem instituída e abre novos caminhos para seus seguidores através de um estilo socialista, que considerava não somente as pessoas com bens materiais, mas também os pobres e esquecidos, sendo assim um foco de luz para os alemães aviltados em sua cultura e em seus sonhos de progresso.

Através de todo o panorama elucidado por Assis Brasil em Videiras de Cristal, seja ele histórico, econômico ou religioso notamos o papel representado pela seita de Jacobina foi decisivo para o contexto da imigração alemã no Rio Grande do Sul pois questionou a ordem vigente e colocou à mostra as falhas no processo imigratório gaúcho. Porém ao leitor cabe a missão de interpretar e interrogar a todo o momento se os Mucker foram culpados ou inocentes. Esta dúvida permite a análise direta dos fatos e busca iluminar este episódio tão obscuro da história de nosso estado. Vimos que Assis Brasil busca a fidelidade histórica porém não descuida da criação de um mundo ficcional onde proporciona ao leitor uma ótica universal da colônia alemã sem mistificar o episódio histórico. Videiras de Cristal é, portanto, um romance onde a literatura e a história caminham juntas porém sem que percam suas respectivas funções no contexto e na análise da obra.
BIBLIOGRAFIA
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Videiras de Cristal. 5 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

CULTURAS em movimento: a presença alemã no RS. Porto Alegre: Riocell, Timm&Timm. Ed., 1992.

GUIMARÃES, Josué. A Ferro e Fogo – Tempo de Guerra. 6 ed. Porto Alegre: L&PM, 1995.


In: Algumas páginas mais: ensaios sobre a literatura brasileira contemporânea. Carmem Riegel e Rildo Cosson (orgs.). Pelotas: UFPel;Fundasul. Fafopee, 2002.163p.

 

HISTÓRIA E LITERATURA EM VIDEIRAS DE CRISTAL


Vera Fátima Gobbi Cassol2

Professora no CE Dr. Dorvalino Luciano de Souza – Cerro Grande-RS. Trabalho apresentado na URI-FW,


A vasta temática e profundidade com que Luiz Antonio de Assis Brasil trabalha O Romance dos Muckers, implica um conhecimento histórico e literário contemporâneo e uma adequada contextualização na tentativa de estabelecer-se um paralelo entre essas duas ciências que se complementam, enriquecem e espelham, ao mesmo tempo de contribuem na construção da cultura brasileira. O duelo que se define entre o conservador, o tradicional, o abastado – como frutos de privilégios e favorecimentos escusos – e o subjugado, o novo, o carnavalizado e revolucionário, guia Videiras de Cristal para a crítica sócio-histórica tendo como veículo a rica literatura decorrente da abstração do real e da porção ficcional que impregna a obra.

O presente trabalho ocupa-se da ilustração de quatro atitudes que sintetizam a análise edificada no romance. Primeiro, a literatura busca apontar para o descaso com os imigrantes alemães que, jogados a sua própria sorte, facilmente se deixavam conduzir por “salvadores da pátria”, líderes que despontavam da mesma situação, brotando com confiança e entendimento da realidade. Jacobina surge nesse contexto e dessa forma se fortalece.

Num segundo auferimento se percebe a relação afetiva que advém da doutrina do Espírito Natural, marcando a necessidade física, corpórea dos seres humanos, estampada na vivência de Jacobina que a todos recebia com o ósculo da paz. A popularização dessa “doutrina”, exige que a Mutter se destaque nas funções e sobreponha-se ao seu próprio marido, marcando a superação do patriarcalismo, que quer, ao mesmo tempo, significar a derrocada da pobreza, do estado de miséria e injustiças que submetem os colonos alemães da região do Ferrabrás. Um sociedade que oprime e não satisfaz as necessidades báscias da população e encontra na sua gênese, o império do sexo masculino, portanto da intolerância, da técnica, do desrespeito.

Um quarto momento da ficção revela a facilidade com que surgem seitas, movimentos e crenças quando há distanciamento na satisfação das necessidades básicas dos seres humanos. Mesmo essa constação estabelece uma reflexão que vai além do horizonte da tradição e da obediência cega e da intolerância das instituições centralizadoras. Nisso consiste a liberdade de culto, de organização religiosa e da profissão de fé.

Abordando essas quatro temáticas, a pesquisa dividiu o trabalho em quatro capítulos que fazem, respectivamente, um resgate dos aspectos biográficos do escritor Assis Brasil, a contextualização da obra Videiras de Cristal, a compreensão da história e, por último, a relação com a literatura.
1. Aspectos biográficos de Luiz Antonio de Assis Brasil
Nascido em Porto Alegre em 1945, é bacharel em Direito e Doutor em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde coordena a Oficina de Criação Literária. De família ligada à formação do Estado, passa a infância e a adolescência em Estrela, zona de colonização germânica. Quando vai a Porto Alegre, estuda com os padres Jesuítas e orienta-se para o Direito. Seu talento artístico também foi expresso na música. Luiz Antonio de Assis Brasil foi violoncelista da OSPA.

A música, entretanto, foi substituída pela literatura e o direito, pelo exercício do magistério. Nos anos oitenta, exerceu diferentes cargos administrativos ligados à cultura: diretor do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre e diretor do Instituto Estadual do Livro e subsecretário de Cultura do Estado, presidente da Associação Gaúcha de Escritores no biênio de 88/90, entre outros cargos de destaque.

Doutor em Letras, atualmente é professor adjunto na PUC-RS do Rio Grande do Sul onde, no Curso de Pós-Graduação em Letras, coordena uma oficina de criação literária que já publicou várias antologias de contos. Sobre o autor em Videiras de Cristas e outras obras de cunho histórico, nota-se a preocupação em desmistificar os heróis da nossa História, apresentando-os em sua dimensão humana, com falhas, fraquezas, mas exaltando também os momentos de grandeza. Tendo a história como pano de fundo, Assis Brasil, vai desta forma, reconstituindo o passado do Rio Grande do Sul.

Obras: Um quarto de légua em quadro (1976), A prole do corvo (1978), Bacia das almas (1981), Manhã transfigurada (1982), As virtudes da casa (1985), O homem amoroso (1986), Cães da Província (1987), Videiras de cristal (1990), Perversas famílias (1992), Pedra da memória (1993), Os senhores do século (1994). Em 1998 publicou no jornal Diário do Sul o folhetim Breviário das Terras do Brasil.

Prêmios recebidos, sem inscrição prévia:


  • prêmio Ilha de Laytano (1977) por Um quarto de légua em quadro;

  • Prêmio Érico Veríssimo (1987) concedido pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre pelo conjunto de sua obra;

  • Prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (1988) por Cães da Província.



2. Contextualização da obra Videiras de Cristal
Categoria: Literatura Brasileira

Gênero: ROMANCE

Resenha: O livro Videiras de Cristal originou o filme A paixão de Jacobina.
A ação ocorre na colônia germânica do Padre Eterno entre os anos de 1872 e 1874. Reconstitui parte da história do nosso país: liderada por uma mulher frágil, Jacobina Maurer, uma legião de colonos alemães revoltam-se contra as instituições da época, enfrentando o próprio exército imperial. Personagem de lenda e verdade, Jacobina tinha sua imagem confundida com o próprio Cristo, fazendo previsões sobre o fim do mundo e confortando os deserdados com promessas de paraíso celeste. Até hoje o episódio dos Muckers desperta interesse e constrangimento, pois os descendentes de seus protagonistas ainda vivem na região conflagrada.

Videiras de Cristal (Mercado Aberto, 542 páginas) foi lançado em 1990, após uma pesquisa que durou dois anos e meio. A história dos muckers, Assis Brasil conhece desde a infância passada na cidade de Estrela, na zona de colonização alemã. “É um assunto que sempre volta, embora as pessoas não gostem de falar a respeito – muitas ainda associam os muckers a bandidos”, diz o autor.

A mística em torno de Jacobina, atração que ela exerceu sobre um contingente de deserdados e desvalidos e os componentes trágicos da história induzem a comparações com Canudos, embora alguns críticos afirmem que o movimento dos muckers não tinha cunho político, direcionava-se mais o religioso, ao messiânico.

Mas Assis Brasil não se furta às analogias – a começar pelas origens do que viria a se transformar em tragédia. “O comércio na região dos muckers foi desaparecendo por causa das fábricas de São Leopoldo. O empobrecimento, a falta de escolas e de assistência médica contribuiu para que toda essa população sem recursos e abandonada se voltasse para Jacobina”.

O escritor reconhece que a densidade política da Revolta dos Muckers era menor do que a de Canudos. “Não se tratava de um movimento contra o Império”, diz ele, “mas foi um movimento importante. Ocorreu antes de Canudos, mobilizou o Império a ponto de enviarem contra os muckers o que sobrou do exército imperial após a Guerra do Paraguai – aliás, uma fração considerável do exército brasileiro, que incluiu um regimento de infantaria e um de artilharia. Tudo isso para debelar uma revolta na qual só se falava alemão”. O aparato bélico enviado contras os rebeldes incluiu, segundo o escritor, algumas inovações tecnológicas, como os foguetes incendiários lançados de uma plataforma, os foguetes à congreve, além de morteiros e quatro canhões.

A obra trata da imigração alemã no RS. O autor parte de um acontecimento político - o episódio dos Muckers. A personagem principal é a própria Jacobina, que comandou a insurreição contra a ordem constituída em nome dos princípios religiosos, o fanatismo, o abandono espiritual e material a que foram relegados os alemães que se estabeleceram na região do RS - Vale dos Sinos - a partir de 1824. O cenário é o próprio morro do Ferrabrás, próximo a Nova Hartz, palco dos lamentáveis acontecimentos que mancharam a História do RS na metade do século XIX, por isso, claramente se constata o predomínio do romance histórico com estrutura neo-realista. A linguagem é tradicional concentrando uma visão crítica e desmistificadora do passado.

A noção de espaço é precisa, porque o autor utiliza-se do descritivismo. O local é o Rio Grande do Sul, área de colonização alemã - Padre Eterno - no morro Ferrabrás (atual Sapiranga), colônia com pouca infra-estrutura.

Entre 1872 e 1874, a época do Segundo Reinado e do processo de Industrialização com o princípio da fase de descrédito de D. Pedro II. O fato relatado pelo livro não foi um processo isolado e, sim, uma relação com a realidade política, econômica e social da época. Outras tantas revoltas surgiram no Brasil no final do século XIX e início do século XX. As mais expressivas do ponto de vista das causas e consequências são: a Revolução nativista pernambucana de 1817; a Confederação do Equador no Nordeste em 1824; a Revolta dos batalhões de mercenários no atual PDC em 1828; a Cabanagem no Pará 1831-40; a Guerra dos Cabanos de Pernambuco e Alagoas 1832-35; a Sabinada na Bahia 1837-38; a Balaiada no Maranhão 1838-40; as lutas internas no Reinado de D.Pedro II; a Revolução Liberal de São Paulo 1842; a Revolução Liberal de Minas Gerais 1842; a Revolução Farroupilha 1835-45 (Ou Guerra dos Farrapos); a Revolução Praieira em Pernambuco 1848-49 e a Revolta dos Muckers do Ferrabrás - São Leopoldo -RS 1873-74. Deve-se observar que são contemporâneas três guerras messiânicas ocorridas no Brasil, no século XIX: Muckers (RS), com Jacobina Maurer; Canudos (BA), com Antônio Conselheiro e Contestado (SC), com Antônio Maria.

Quanto a linguagem, constitui-se de uma narrativa fragmentada, ora feita em 1ª pessoa, ora em 3ª pessoa do singular (narrador onisciente e imparcial). Os personagens são apresentados individualmente e, aos poucos, incorporam-se à trama. Em algumas passagens, o narrador assume a "fala" de certos personagens para melhor externar seus sentimentos.

Entre os personagens, destacam-se, no conjunto da obra Videiras de Cristal, Jacobina Maurer, esposa de João Jorge Maurer, mulher frágil que liderou o movimento messiânico dos Muckers. Grande capacidade de persuasão, carisma, demonstrava equilíbrio emocional. Dizia ser o novo Cristo. Curava as pessoas pelo Espírito Natural; João Jorge Maurer, o "Wunderdocktor" (doutor maravilhoso), marido de Jacobina, no final do episódio é trocado por Rodolfo Sehn, abondona o movimento e enforca-se; Jacó-Mula, estereótipo do fanatismo do movimento. Ignorado pela família e pelos amigos, foi morar em Ferrabrás, integrando-se aos muckers. Tornando-se um dos mais fiéis amigos de Jacobina; Johann Georg Klein, nascido na Alemanha era um homem culto com desejo de ser pastor. No Brasil, casou-se com Carolina Mentz, irmã mais velha de Jacobina, sendo convidado por esta a exercer funções eclesiásticas entre os Muckers. Ele aceitou e tornou-se um dos membros mais importantes; Rodolfo Sehn, amante de Jacobina; Christian Fischer, psiquiatra alemão que acabou aderindo à causa dos muckers; Ana Maria Hofstäter, apaixonada por Halbert. Com o assassinato deste, passou a odiar Jacobina (para quem trabalhava como criada), porém, permaneceu servindo-lhe até o final da trama; Halbert, morava em Ferrabrás, era um mucker; porém, quando preso e, logo após absolvido, foi morar com seu tutor, que era católico. Começou a colaborar com a polícia, indicando nomes e suspeitos do atentado contra João Lehn. Foi assassinado; Tio Fuchs, o ruivo mucker que matou Halbert; Schreiner, Delegado da província de São Leopoldo; Splinder, subdelegado; João Lehn, Inspetor de Quarteirão do Ferrabrás; Mathias Munsch, padre da Companhia de Jesus. Preocupado em salvar as almas, foi morto antes do combate final; Boeber, pastor da Igreja Luterana do Padre Eterno, morreu queimado juntamente com sua casa; Coronel Genuíno Sampaio, comandou o primeiro ataque aos muckers; Capitão San Tiago Dantas, passa ao comando do segundo e definitivo ataque.

Na colônia germânica de Padre Eterno, aos pés do Morro Ferrabrás, nos anos de 1872 a 1874, dá-se um episódio fascinante da história do Rio Grande do Sul. Um grupo de colonos alemães liderados por uma frágil mulher, Jacobina Maurer, a qual se intitulava o "Cristo Feminino", revolta-se contra as instituições da época. Os "muckers" (santarrões, hipócritas, santos fingidos, em alemão) eram confortados por Jacobina com suas promessas do paraíso celeste, pois esta fazia previsões sobre o fim do mundo. Sendo vistos como fanáticos pelas autoridades e demais cidadãos, os muckers começaram a ser perseguidos. Ao contrário do que pensavam, o grupo começou a aumentar, tendo como apoio as palavras da Mutter (mãe), "a porta-voz do Espírito Natural". Com isso, uma verdadeira guerra se instaurou na colônia: de um lado os muckers, defendendo sua fé, e de outro os demais colonos, que defendiam a ordem.

Com o elevado número de mortes e incêndios, a situação chegou ao ponto de ser necessária a convocação do Exército Imperial para pôr fim à confusão. A essa altura, os muckers eram cerca de duzentas pessoas, capazes de morrer por Jacobina. Com a chegada do Exército Imperial, eles se reuniram na casa da Mutter, na busca de refúgio e proteção; porém, após alguma resistência, o lugar foi tomado pelo exército, que se constituía de mais ou menos quinhentos homens bem armados. Os muckers e sua cidadela foram arrasados. Jacobina, sua filha caçula ("a filha da fé") e mais umas vinte pessoas, entre elas os principais líderes, conseguiram fugir para um esconderijo no Morro Ferrabrás. No entanto, um dos sobreviventes, Andreas Luppa, que teve sua família morta, revoltou-se contra Jacobina, entregando-a às autoridades. Num segundo ataque, o Exército matou o restante, inclusive a líder Jacobina Maurer.

O livro Videiras de Cristal relata, com verossimilhança, os fatos ocorridos em tal acontecimento (Revolta Messiânica dos Muckers). Luís Antônio de Assis Brasil, com ajuda de pesquisas e um bom respaldo bibliográfico, conseguiu caracterizar com detalhes a vida dos personagens envolvidos na história. É, no entanto, um romance de ficção, tendo em vista a criação de vários personagens e suas vicissitudes. Apesar de o livro estar preso no tempo, consegue-se visualizar muito bem a história devido ao detalhismo. Assis Brasil usa um artifício muito peculiar para melhor caracterizar seus personagens que é a profunda análise psicológica. Assim, pode-se perceber os conflitos internos de cada um. O autor faz uma crítica sutil à estrutura do governo imperial, através dos liberais, mas não apresenta solução para os problemas. A história (religiosa) é atemporal, pois seitas como a dos Muckers surgem a toda hora. Outro ponto interessante a ser ressaltado é a mesquinhez, o individualismo e a ingenuidade das pessoas. Os adeptos da seita eram cegos de tão ingênuos e os outros personagens, com exceção do Padre Munsch, colocavam seus interesses em primeiro lugar (BONDAN, 2002).
3. A História
O episódio descrito romanceado por Assis Brasil em Videiras de Cristal também é conhecido como a Revolta dos Muckers do Ferrabraz, com início em “1872, talvez junho” (BRASIL, 1992, p. 11). Nos anos de 1873-74, sendo comandante das Armas do Rio Grande do Sul o pernambucano Mal. Vitorino Monteiro o Barão de São Borja, teve lugar em São Leopoldo, mais precisamente na “Colônia do Padre Eterno, às margens do rio dos Sinos, Província de São Pedro do Rio Grande do Sul” (idem, p. 19) o episódio conhecido como a Revolta dos Muckers do Ferrabraz, que terminou provocando a intervenção de forças do Exército locais para combatê-la. Ação militar que a própria população contrária a Jacobina, preconizava e até defendia: “- Um dia (...) a própria Guarda Nacional pode ser chamada a garantir as leis do Império no Ferrabrás” (BRASIL, 1992, p. 112).

O triste episódio de fanatismo religioso, aliado a intrigas de colonos e autoridades e falta ou deficiência de informações exatas, terminou por provocar uma tragédia social que melhor poderá ser avaliada politicamente pelo leitor e historiador interessado na leitura das seguintes obras, entre outras: - SHUPP, Ambrósio (padre jesuíta). Os Muckers (mais de uma edição); PETRY, Leopoldo. Episódio do Ferrabraz - Os Muckers; São Leopoldo: Ed. Rotermund. 1957; DOMINGUES, cel. Av. Moacyr, A Nova face dos Muckers. São Leopoldo: Ed. Rotermund, 1977.

O cenário da revolta foi a linha Ferrabraz, em Sapiranga, tendo envolvido as localidades atuais de Campo Bom, Lomba Grande, Novo Hamburgo e sob a liderança do casal João Jorge e Jacobina Maurer. A falta de habilidade policial, instigada por acusações exageradas, terminou por acirrar o ódio entre os colonos que seguiam o casal Maurer, contra a situação de vexame que lhes impunham autoridades e vizinhos.
Nuvens é que não faltavam: com insistência chegavam notícias de um grande movimento a ser desencadeado pelos Padres, Pastores e autoridades, com o objetivo de pôr um fim às reuniões do Ferrabrás. O Inspetor já ameaçara proibi-las, nem que para isso precisasse de soldados e armas, porque elas atentavam contra a segurança da população BRASIL, 1992, p. 150)
Os mucker sofriam toda a ordem de represálias, como narra Videiras de Cristal: “- Acabou o café. Acabou o sal. (...) o comerciante, à vista dos outros fregueses, dissera que para a gente do Ferrabrás não vendia mais” (p. 93). O conflito com os muckers foi se agravando ao ponto de o Presidente da Província, Dr. João Pedro Carvalho de Moraes, determinar ao seu Comando das Armas a intervenção na revolta “Naquela véspera do Segundo Domingo depois da Páscoa do ano de 1873 (BRASIL, 1992, p. 149). Sob o comando do cel. Genuíno Olímpio de Sampaio, heroida guerra do Paraguai, foi destacado um forte contigente de 500 homens de Infantaria, Cavalaria e Artilharia nucleado pelo 13ª BC de Porto Alegre. A intransigência dos governantes, fica expressa nas seguintes palavras do Presidente da Província:
(...) Nada mais nos resta do que a ação militar. Temos sido muito generosos com um movimento que ao princípio não parecia importante, mas que se avolumou com o correr do tempo e agora põe em risco não apena a colônia alemã e a cidade de São Leopoldo, mas a própria Província do Rio Grande do Sul (BRASIL, 1992, p, 367).
Ao escurecer de 28 junho 1873, o cel Genuíno ordenou um ataque sobre a casa dos Maurer, esperando obter sua prisão. Os muckers entrincheirados em troncos de árvores e depressões de terreno que conheciam muito bem, reagiram violentamente ao custo de 4 mortos e 30 feridos.

Sendo noite, o cel. Genuíno ordenou um retraimento para 10 km à retaguarda, em Campo Bom atual. Decorrido 21 dias, “(...) Em campanha no Morro do Ferrabrás, 19 julho 1874” (BRASIL, 1992, p. 494), o cel Genuíno com reforços recebidos, inclusive 150 colonos alemães voluntários, atacou novamente o reduto mucker na casa do casal Maurer. O ataque e reação foram violentos! Morreram 12 homens e 8 mulheres muckers. Foram presos 6 homens e 36 mulheres. O romance diz que “Os muckers foram trazidos um a um pelo Oficial de Justiça e postos de pé à frente da mesa das audiências, onde está o Chefe de Polícia, o escrivão e o Delegado (...) (1992, p. 197). Poucos conseguiram fugir. Cerca de 17 muckers se retiraram para outro reduto. Eles constituíam parte das lideranças mais expressivas. Para o cel. Genuíno pareceu que a vitória tinha sido completa. Ao amanhecer de 20 julho 1874, o acampamento legal foi atingindo por tiros de tocaia disparados do mato próximo. O cel. Genuíno teve cortada com um tiro uma artéria da coxa, vindo a perecer, após esvair-se, em sangue, sem o socorro do médico que deslocava-se para São Leopoldo com os feridos.

A tropa do Exército, após combater no dia 21, retraiu novamente para Campo Bom Assumiu o comando o cel. César Augusto. Em 21 de setembro de 1874, novo ataque ao reduto dos muckers foi repelido, deixando um saldo de 5 mortos e 6 feridos do Exército. Em 25, a força civil composta de colonos de Sapiranga, Taquara, Dois Irmãos e outras picadas, tentaram, sem êxito, um ataque ao reduto mucker. Foi aí que o cap. Francisco Clementino Santiago Dantas, que participara dos ataques iniciais ao lado do cel. Genuíno, se ofereceu ao Presidente da Província para comandar o ataque final. Em 2 de outubro, decorrido 35 dias do início das operações contra os muckers, o cap. Santiago Dantas atacou o último reduto dos fanáticos. No renhido combate pereceram 17 muckers, dos quais 13 homem e 4 mulheres.
(...) o delegado de São Leopoldo estava no Ferrabrás e amarrava os fiéis em cordas e amarrava essas cordas uns nos outros, tudo igual como os brasileiros fazem com os negros. E mandava que os soldados dessem pau e relho em todos os fiéis presos e prendia as mulheres dentro de casa, de onde não podiam sair(...) (BRASIL, 1992, p. 272).
Os muckers, presos antes e durante a luta, após processo em que foram condenados, apelaram e foram liberados em 1883. Os muckers sobreviventes, para fugir às perseguições dos habitantes do lugar, mudaram-se para a Terra dos Bastos, em Lageado. Lá, no Natal de 1898, foram atacados e chacinados por colonos da Picada de Maio que acreditavam ter sido eles os assassinos bárbaros da Sra. Shoreder, vítima, em verdade, de seu marido, que a matara para casar com outra. Verdade que só veio à luz depois do linchamento dos muckers remanescentes inocentes.

Participaram do combate aos muckers, o cel. Carlos Teles, que, mais tarde será sitiado por 46 dias em Bagé, e João Cezar Sampaio, que o libertou em 8 de janeiro de 1894 à frente da Divisão do Sul. O último era genro do cel. Genuíno, morto no Ferrabraz. Ambos, Carlos Teles e Sampaio, destacam-se por feitos heróico em Canudos. Nesse tempo, as tropas do Exército da guarnição do Rio Grande do Sul sentiam os maléficos efeitos do Regulamento de Ensino do Exército de 1874, de cunho bacharelesco.

No episódio do Ferrabraz, tropas do Exército, sem disporem de um desejável sistema de informações, foram lançadas numa operação sangrenta, fruto da inabilidade das autoridades de São Leopoldo e da Província. Em Canudos, isso se repetirá em maiores proporções. A lição deste episódio foi ignorada em Canudos e os abusos se repetiram. A resistência dos muckers contou com o concurso de colonos veteranos da Guerra do Paraguai.

Os muckers foram colonos que ocuparam o Ferrabraz no centro do triângulo balizado por Novo Hamburgo, Taquara e Gramado, povoado por imigrantes alemães agricultores. Estes colonos sem assistência médica, religiosa e educacional entraram num processo de decadência social e de empobrecimento. Nesse quadro de abandono despontaram as lideranças de João Jorge Maurer, um curandeiro a quem os colonos confiavam sua saúde. Sua esposa Jacobina, na falta de padres e pastores, passou a interpretar a Bíblia e assim a desfrutar grande credibilidade que aumentou com seus ataques epilépticos, atribuídos e explorados como encontros com Deus. “(...) uma personagem que se intitulava o novo Cristo” (BRASIL, 1992, p. 183). Essa situação caótica é descrita por Brasil (1992), da seguinte forma:


(...) a colônia apresenta duas faces: de um lado a face boa, isto é, a dos imigrantes que, aqui chegados há quase cinquenta anos, adquiriram fortuna e vieram morar em Sâo Leopoldo. Desfrutam de algumas vantagens do mundo civilizado e podem importar seus cristais da Boêmia (...) a , constituída por toda esta gente que se espalha nas duas margens do rio dos Sinos e forma pequenos núcleos de vida apagada: falam apenas alemão, vivem em pequenos lotes de terras(...) (p. 46)
Jorge Maurer, cuidando do corpo e sua esposa, do espírito de um povo abandonado nas matas e grotas, facilmente exerceram liderança que resultou no triste episódio de revolta que tantas vidas imolou. “(...) João Jorge explicava aos clientes que as receitas das poções não eram prescritas mais por ele, mas sim pelo Espírito Natural que falava por intermédio de Jácobina. A notícia de que Maurer contava com as faculdades sonambúlicas da esposa correu por toda a colônia do Padre Eterno, Hamburgerberg e até São Leopoldo” (BRASIL, 1992, p. 55). Os colonos, vindos para povoar a região, eram originários da região de Hueruch, no Sudoeste da Alemanha, onde, na época, havia grande miséria decorrente do arrasamento sofrido pelas tropas de Napoleão e, diante das necessidades vitais não satisfeitas, organizaram-se a seu modo sob a liderança dos Maurer: “- No Ferrabrás. Os Maurer constituem uma congregação em que tudo é de todos. Praticam um socialismo que ultrapassa em muito as ideias de Proudhon” (BRASIL, 1992, p. 112).

Duque de Caxias a esta época fora do governo vivia a angústia da doença e morte da duquesa de Caxias ocorrida em 1874. Somente em 22 de janeiro assumiria pela derradeira vez o Ministério da Guerra e a Chefia do Governo. Portanto nada pode fazer em benefício da pacificação dos muckers ocorrida sob a égide do Gabinete de Ministros que ele substituíra.


4. A Literatura

A obra Videiras de Cristal aborda uma temática de cunho histórico apresentando, com amparo real, discussão de vários conceitos que são apropriados pela Literatura na busca pela desmistificação das instituições tradicionais com vistas a construção de um movimento que supere o cotidiano. No dizer de Hohlfeldt, “Assis Brasil perseguiria a desmistificação, buscando demonstrar que, por trás das grandes sagas, remanescem sofrimentos profundos e a desagregação familiar” (1998, p. 66). Assis Brasil analisa, através da personagem principal de Jacobina, a necessidade da liberdade religiosa como enriquecimento cultural e razão de cooperação entre os seres humanos, ao mesmo tempo em que preocupa-se com os rumos que grupos religiosos que decorrem dessas situações místicas, sem profundidade, sem consciência de seus movimentos.

O médico, João Jorge Maurer e sua mulher, Jacobina, formam o casal que participou de um dos momentos mais sangrentos do Segundo Império da história brasileira. Em 1874, Jacobina, uma imigrante alemã, lidera uma seita dissidente do protestantismo e ocupa seu tempo com a leitura da Bíblia, a cura dos males do corpo e a salvação da alma. Ela prega que, no dia de Pentecostes (50º dia depois da Páscoa), quando brilhar uma luz no céu, o mundo vai ser consumido por chamas purificadoras. Videiras de Cristal ilustra os momentos de revelação com a passagem: “E a voz do Senhor, lenta e séria, fez-se mais uma vez ouvir: JACOBINA É ELEITA PERANTE MIM, EU A FIZ MINHA E DE TODOS VOCÊS. CONFIEM NELA NESTE MOMENTO DE ANGÚSTIA” (1992, P. 461).

A força com que diz suas palavras, além de seus míticos desmaios, considerados uma prova de mediunidade, transformam Jacobina em uma líder religiosa capaz de multiplicar a esperança daquela gente marginalizada, ao dizer “- E vocês, não percebem o oquanto a diença é uma forma de submissão? Venham para mim, que ofereço a saúde e a vida sem humilhá-los nem apregoar caridade” (BRASIL, 1992, p. 211). A população local, que vivia na região onde hoje está a cidade de Sapiranga, teme pelo crescimento de sua fama e passa a tratar seus seguidores de muckers (falsos beatos). Controla também cada passo daquela comunidade que, sob um estado crescente de transe espiritual, passa a viver sob regras pagãs, ou seja, com uma boa dose de liberdade sexual e social. “Em um meio comandado por preceitos rígidos, Jacobina busca tornar as pessoas mais livres e sensuais”, escreve Ubiratan Brasil (2002, p. 03). Continua, afirmando que “vivemos em uma época desprovida de interesse, em que a globalização minimiza a qualidade de vida. Afetivamente, a humanidade regrediu” (idem), por isso a necessidade de se discutir esses valores que a literatura apresenta e que refletem o cotidiano sócio-histórico da formação da sociedade gaúcha e brasileira como um todo. Inclusive no que diz respeito a discriminação e aos preconceitos que ficam claro na obra quando o narrador descreve situações em que o nome dos muckers é usado como símbolo de medo diante da educação das crianças pelos cidadãos dignos contrários às pregações de Jacobina, principalmente quando ocorria uma doença mental, quando as crianças não dormian , molhavam a cama à noite ou faziam travessuras: “Cuidado que a Jacobina te pega” (idem, 258).

Um sentido presente em Videiras de Cristal, que por muitas vezes é reafirmado como valor observado pelos muckers e, especialmente, pela líder Jacobina, é a afetividade. O zelo pelo corpo, pela sensualidade, que o mistério de seus profundos e prolongados sonos, dos quais ressurgia iluminada, conferem uma preocupação da protagonista com o resgate da beleza, da feminilidade, da paixão intensa e do amor que, mesmo parecendo libertino ao apresentar-se como um contra-valor no mundo burguês, capitalista, tece os elos e acende a chama ardente do prazer que brota do Espírito Natural. Por outro lado, revela um cuidado que busca apresentar a mulher como pura sensualidade e beleza necessárias ao sexo feminino, principalmente, porque “nenhuma mulher deve impor aos homens uma visão deprimente, ainda mais mulher jovem e solteira” (BRASIL, 1992, p. 209).

Sem se furtar a uma discussão social, Assis Brasil aborda a necessidade de organização, cooperação, solidariedade e de satisfação das necessidade básicas dos seres humanos como fundamento principal do movimento mucker, apontando para o descaso das instituições políticas. População que passou a ser liderada por Jacobina em todos os momentos das suas vidas. Até mesmo nas lutas quando “Apenas a Mutter os confortava. (...) percorria os postos de guarda como um anjo da esperança, só voltando para a choupana depois de encorajar com o ósculo da paz a cada um dos homens trespassados de frio” (BRASIL, 1992, p. 518). A situação de abandono a qual foram submetidos os colonos alemães imigrantes e o estado de miséria e esquecimento os forçaram a procurar alternativas de sobrevivência. Por outro lado se percebe o envolvimento das instituições eclesiásticas somente com as populações mais centrais, com a população economicamente promissora ou estável sendo representada na obra pelo distanciamento do pastor e do próprio padre.

Antonio Hohlfeldt tece um comentário a respeito do problema da grande diferença que ocorre na região de imigração alemã e conflituosa do Ferrabrás que analisa a situação “numa sociedade desigual, não apenas em relação às classes sociais quanto aos papéis sociais que cada indivíduo deve desempenhar, as frustrações ampliam-se em seus significados, ocupam todo o nosso ser e refletem, enfim, as questões do universo externo” (1998, p. 94). Uma tentativa de entendimento do messianismo mucker.

O primeiro incidente ocorre quando alguns habitantes, bêbados, invadem a propriedade de um dos seguidores de Jacobina. Por crueldade, matam alguns cavalos. Quando o mucker tenta intervir, é assassinado. A vingança torna-se inevitável, desencadeando uma série de crimes praticados pelos dois lados. Apesar da série de mortes, os responsáveis pela lei – o delegado John Lehn e o pastor Boeber – não conseguem descobrir nenhum culpado e decidem aguardar os acontecimentos em total impotência.

Por pressão da população, Jacobina é levada a São Leopoldo, cidade gaúcha onde é examinada por um médico, que recomenda sua internação na Santa Casa de Porto Alegre. A profecia, porém, concretiza-se e, no dia de Pentecostes, um meteoro cruza os céus e cai na terra dos muckers. É o suficiente para incitar o conflito armado, obrigando uma ação do Exército. Na primeira investida, os seguidores de Jacobina saem vitoriosos. No confronto seguinte, no entanto, os fanáticos são encurralados em suas terras e o massacre é inevitável. Jacobina é morta assim como todos os seus seguidores. Apenas Elizabeth Carolina, cunhada de Jacobina, consegue fugir, ajudada pelo delegado John Lehn. Durante a fuga, eles vislumbram, entre as grandes labaredas e em meio à fumaça, Jacobina levitando e se elevando aos céus. A luta de Jacobina, escreve Ubiratan Brasil (2002) é pela liberdade espiritual e, por isso, ela procura descobrir a poesia em meio ao caos.

Há 127 anos, esse episódio sangrento convulsionou a colônia alemã do Rio Grande do Sul. Reunidos em torno da figura enigmática de Jacobina – santa e profetiza para seus seguidores, promíscua e devassa para seus inimigos –, pobres e desvalidos deram início ao movimento que acabaria em tragédia: a Revolta dos Muckers. Na Literatura de Assis Brasil, ela levita, fala com Deus e tem o dom da profecia. Às vezes era vista com um vestido branco e flores na cabeça, profetizando após sair de um transe que poderia durar dias. Também diziam que se ouvia uma música “celestial” quando ela falava, e que não raro visitava o Criador em pessoa – ou espírito. Seus seguidores afirmavam que era Cristo em uma encarnação feminina. Uma mulher que tem o espírito ungido por uma missão ao mesmo tempo em que vive seu cotidiano de mãe e esposa. Seus detratores a chamavam de promíscua e lasciva. Mas nada afetava o fervor inabalável de seus seguidores, que poderiam facilmente morrer por ela. E de fato morreram, trucidados até que não restasse quase nenhum, num obscuro episódio da história conhecido como a Revolta dos Muckers – um dos maiores conflitos envolvendo imigrantes alemães já ocorrido em terras brasileiras. Esse acontecimento é explicado por Bondan (2002) quando diz que "as almas dos fiéis se assemelham a videiras de cristal: fecundas nos verões luminosos, mas frágeis e quebradiços quando cobertas pela geada do inverno" (p. 01).

Jacobina Maurer, em Videiras de Cristal, é líder de uma seita vagamente inspirada em movimentos religiosos radicais surgidos na Europa medieval. Alimentado pela miséria e pelo isolamento em que vivia boa parte dos colonos alemães no Rio Grande do Sul, o culto de Jacobina logo entrou em conflito com o poder estabelecido, numa radicalização que, a exemplo de Canudos e Contestado, só poderia terminar com a imolação dos “devotos”, conforme eles se chamavam, ou “fanáticos”, nas palavras de seus adversários. A seguinte passagem do romance faz a relação com a história, empregando o recurso literário da carnavalização, desconstrução e sacralização, comparando com o barbarismo de Canudos:
O que são estes vinte cadáveres de adultos e crianças que Genuíno vê , alinhados com regularidade decimétrica no chão do terreiro? O que significa esta meia centena de prisioneiros loiros, estas mulheres embrutecidas e de mãos grossas como as dos lenhadores, estas crianças mudas de pavor? E este cenário de Apocalipse, de escombros fumegantes que ainda sepultam restos humanos? (BRASIL, 1992, p. 493).

Os eventos que culminaram num confronto sangrento – para o qual foram deslocados soldados e canhões remanescentes da Guerra do Paraguai – tiveram como cenário a região do Vale do Rio dos Sinos, mais especificamente, a Leonerhof, ou fazenda Leão. Parte da colônia alemã de São Leopoldo, a fazenda ficava no atual município de Sapiranga, a 90 quilômetros de Porto Alegre. Sobre o final do movimento militar contra os muckers, a obra Videiras de Cristal escreve que “Os muckers lutaram como leões destemidos em degesa de seu covil atirando sempre, não hesitando em expor-se de peiro aberto às balas. Aos gritos de ‘Viva Jacobina’, iam sendo dizimados” (BRASIL, 1992, p. 531).

O Romance narra a união de um carpinteiro chamado João Jorge Maurer e de uma jovem de saúde frágil, sujeita a constantes ataques epiléticos, Jacobina Mentz. Figura enigmática, o carpinteiro aprendeu a lidar com poções e ervas, até que um dia anunciou que tinha sido “chamado por Deus” para se dedicar à cura, com essas palavras: “Não sou eu (...) quem você deve procurar! Olhe para sua frente, olhe para Jacobina! Ela é que sabe tudo, ela cura para depois da morte, ela é poderosa e superior a mim!” (p. 176). Mais adiante, o Wunderdoktor professa que existe “(...) para preparar o caminho para minha mulher. Não fui feito para brilhar, e sim para refletir a luz de alguém mais luminoso” (idem), referindo à Mutter. Na sua nova missão de curandeiro contou com o apoio da mulher, cuja epilepsia passou a ser vista como um transe no qual profetizava e recebia mensagens divinas. Adversos ao messianismo dos muckers, diziam que “Só quem vive nestas selvas pode entender como o Cristo de saias chegou ao ponto de nomear apóstolos” (idem, p. 197).

Outro tabu que se apresenta como uma discussão histórica e revela uma tentativa de desenvolvimento de situações mais igualitárias entre o homem e a mulher, aparece em Videiras de Cristal na condição de superação do centralismo masculino vivenciado por João Jorge Maurer diante do destaque que gradativamente a “mater” vai assumindo. Um desejo inconsciente de subverter a ordem social estratificado onde às mulheres nem era concedido o direito ao voto e a voz. Estrutura esta que os obrigava ao caos, a miséria, a falta de assistência médica, religiosa, econômica e os empurrava à margem da sociedade. A derrocada do patriarcalismo representado em dizeres “Como é que uma mulher pode ser chefe de alguma coisa?"”(BRASIL, 1992, p. 189), representa a alternativa, a possibilidade de vida digna, de existência feliz e realizada. Esse desejo se presentifica quando Jacobina diz que


- Toda mulher é forte. E às vezes passa toda a vida sem saber disso, acomodada nos confortos de um marido. A verdade só aparece quando se dá conta da fraqueza do homem com quem vive. Aí passsa a viver por si mesma (BRASIL, 1992, p. 208)
O templo erguido pelo casal no Morro do Ferrabraz logo atraiu uma legião de doentes em busca de cura e miseráveis atrás das promessas de redenção de Jacobina que logo se torna a figura central do culto. Sua pregação, não raro acompanhada de “efeitos especiais” (levitação e “desaparecimentos mágicos”) encontrou terreno fértil entre parte da colônia alemã que, privada de escolas e atendimento médico, levava uma vida de pobreza e embrutecimento.

Os seguidores de Jacobina ganharam um nome extraído do arcaico dialeto alemão falado pela colônia: muckers. A palavra significa vagabundo, santarrão na gíria deles. O termo pejorativo indica a repulsa que a seita provocava no restante da população. Jacobina era uma médium, uma paranormal que mergulhava num sono consciente e, quando acordava, transmitia mensagens de esperança para aquela gente.

As pessoas se sentiam ameaçadas porque o movimento não estava submetido aos poderes constituídos da época. Jacobina instigava seus seguidores a não frequentarem escolas ou igrejas e a serem auto-suficientes em vez de consumir os bens produzidos pelos “ímpios”. A população local ressentia-se da perda da mão-de-obra e de consumidores, ao mesmo tempo em que ultrajava-se com os costumes pouco convencionais instituídos por Jacobina, como a troca de casais. Todos esses ensinamentos eram recebidos diretamento do Espírito Natural que tinha no ósculo da paz o seu sinal de manifestação. Dizendo-se inspirada por Deus, ela declarou que todos poderiam renunciar ao casamento e unir-se novamente com quem bem entendessem. E deu o exemplo, trocando Maurer por Rodolfo Sehn, um de seus seguidores, e forçando Maria, mulher de Sehn, a ficar com Maurer. O movimento de Jacobina era pacifista, positivista e humanista, mas acabou se fanatizando (MAGGIO, 2002). Depois de uma longa série de atritos entre os muckers e a população, a animosidade descambou para a violência desenfreada. Até mesmo seu ex-marido João Jorge, abandona a causa. Mais por descontentamento com os ensinamentos de Jacobina que passara a pregar o amor livre, como evidencia o diálogo entre os dois
- Eu estou fora disto. – Todos se voltam pra João Jorge Maurer. – Para mim tudo termina aqui.

Jacobina vem para a frente, fita-o com um olhar que é um misto de desprezo e pena.

- Esperava isto de você. Mas não tão cedo. (BRASIL, 1992, p. 507)
Veterano da Guerra do Paraguai, o coronel Genuíno Olímpio de Sampaio entra em cena para pôr fim à resistência dos muckers. Subestimando o inimigo, ele e seus homens são derrotados e pedem reforços. De acordo com Luiz Antonio de Assis Brasil, autor de Videiras de Cristal, da segunda investida fizeram parte algo em torno de mil homens, entre soldados, membros da guarda nacional e civis armados, contra aproximadamente 600 ou 700 muckers, incluindo mulheres e crianças. O templo de Jacobina foi incendiado, o que provocou a morte de vários seguidores que não quiseram se render. O Romance conta que “ Nesta manhã chegaram ao cenário da hecatombe o Chefe de Polícia da Província, o Presidente da Câmara de São Leopoldo, o Doutor Lúcio Schreiner, o advogado Epifânio Fogaça e mais um povo irado que, mesmo sob ameaças, vilipendiou os cadáveres, desfigurando-os sob os tacões das botas” (BRASIL, 1992, p. 532). Mas a líder da seita e seus principais auxiliares conseguiram escapar.

Na caderneta de anotações de San Tiago Dantas, oficial da Força Imperial, se encontra a seguinte descrição:


‘O cenário do embate (...) apresenta-se doloroso como o Tártaro e horripilante como o Érebro; onde gnte honesta e laboriosa cultivava a terra – sua esperança de vida melhor no Mundo Novo – agora só há destroços ígneos. Difícil imaginar que tudo isso venha a florir um dia. A deusa Nike nos sorriu, mas abriga em seu manto uma legião de desgraçados!’ (BRASIL, 1992, p. 502s).
Jacobina, que se dizia Cristo, teve o seu traidor: morreu ao ter o esconderijo delatado, não sem antes ver ferido de morte o coronel Sampaio, atingido em emboscada armada pelos muckers. Desabando com ela a tentativa de estabelecer um nível de convivência fraterna, afetivo, amoroso onde todos pertencessem a todos sem a premência dos laços tradicionais que prendem um homem a uma mulher por toda a vida. Uma proposta revolucionária que revelava-se herética e diabólica para a conservadora sociedade alemã dos tempos do império, mas que tinha na amorosidade, no carinho, na felicidade, no prazer, sua forma de amenizar os sofrimentos, a miséria e a doença, alegrando a triste condição dos seus adeptos.
5. Referências Bibliográficas


  • BONDAN, Marcos Pertillo. Videiras de Cristal. Porto Alegre, 2001. Capturado da internet em 01.12.2002. Disponível no endereço www.bondan.pro.br/biblioteca/videiras_de_cristal.htm.

  • BRASIL, Luiz Antonio de Assis. Videiras de Cristal. 3 ed. Porto Alegre : Mercado Aberto, 1992.

  • BRASIL, Ubiratan. ‘A Paixão de Jacobina’ é a busca pela liberdade. São Paulo, 2001. Capturado da internet em 06.12.2002. Disponível no endereço www.estadao.com.br/notícias/99/05/23/d07.htm

  • COSTA, Rogério Haesbaert da. Espaço e sociedade no Rio Grande do Sul. 3 ed. Porto Alegre : Mercado Aberto, 1993.

  • FREITAS, Décio (Org). RS: cultura & ideologia. 2 ed. Porto Alegre : Mercado Aberto, 1996.

  • GALLAS, Daniel. A Paixão de Jcobina. São Paulo, 2001. Capturado da internet em 05.12.2002. Disponível no endereço www.terra.com.br/cinema/filme/ficha//0,2529,607,00.html

  • HOHLFELDT, Antonio. Literatura e vida social. 2 ed. Porto Alegre : UFRGS, 1998.

  • JORNAL DA TARDE, Editoria. Um Brasil que o Brasil desconhece. São Paulo, 2001. Capturado da internet em 06.12.2002. Disponível no endereço www.jt.estado.com.br

In ÁGORA, revista Eletr^nica. Ano I, número 1 p 19/34 2005. Universidade URI-FW


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