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Sob o signo da transgressão


Todo documento de cultura é, também, documento de barbárie”.

Walter Benjamin
Volnyr Santos
As palavras podem não ser as mesmas, mas a ideia é de Adorno: a arte autentica mostra vivas e inteligíveis as contradições do real. A propriedade da afirmativa não evita a sequência natural do pensamento: o estilo carrega uma certa forma de rebeldia que revela, no fundo, o anticonformismo da própria arte.

O romance Um castelo no pampa, de Luiz Antonio de Assis Brasil (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992), cujo volume Perversas famílias é o primeiro de uma série, traz como proposta de discussão o acordo impossível entre arte e realidade, tematizando a história do Rio Grande do Sul a partir do anacronismo de um castelo em território gaúcho, incongruência que reforça a necessidade de repensar a identidade cultural deste rincão do Brasil. Ao enfatizar esse aspecto, o livro de Assis Brasil não se resume à expressão de um certo idealismo, mas à evidenciação de um procedimento artístico em que a verdade factual é ultrapassada, acenando com uma analogia que, necessariamente, não define uma identidade, mas que se abre às possibilidades que somente o trabalho meticuloso da linguagem pode compor.

Em tempos de pós-modernidade, pode-se dizer que a importância de O Castelo no pampa não se dá pela atualização que se faz do mundo tematizado, mas pelas rupturas que a obra, na sua perspectiva narrativa, sugere, circunstâncias formais que vão desde as inusitadas soluções relacionadas com a processo narrativo em si mesmo (a crítica ao Positivismo aflorando na discreta procura de uma falida identidade) até ao dialogismo das vozes narrativas, reveladoras da preocupação estética do Autor, chamando à cena várias “vozes” como expressão de um mundo que se recusa dizer, mundo que resiste, inutilmente, contra a falta de sentido da realidade.

Essa ideia parece ficar robustecida numa outra subversão estética, caso se pense numa certa tradição de nomes de personagens gaúchos. O espaço de Ana Terra e Capitão Rodrigo é, agora, assumido por Arquelau, Selene, Proteu, Astor, Aquiles, Páris, personagens que buscam, no plano ideológico da narrativa, a reminiscência de si mesmo, já que a memória dos fatos está para além deles. Os nomes (as palavras) são sinais que não identificam as vozes do mundo.

Ao contrario de uma arte dita pós-moderna, na qual a literatura talvez seja a manifestação por onde passam os modismos mais evidentes, e onde a mimese, por toda uma insistância de representação de um mundo em desconstrução sistemática, praticamente não é mais possível, a história das “famílias perversas” permite uma reflexão sobre o passado gaúcho naquilo que ele tem de mais tradicional: o desvelamento do comportamento da elite dirigente, incapaz, por um lado, de encontrar soluções para os seus dramas pessoais, e, por outro, de esconder o modo como se preservam os privilégios de classe, com os reflexos na estrutura social que não pode deixar de sofrer a dinâmica dessas implicações.

As modernas teorias do conhecimento ensinam que os conteúdos formais da verdade emergem dos conflitos. Em relação a Um castelo no pampa, é justamente o choque de um deslocado castelo que vem afirmar as relações de impossibilidade de uma identidade (gaúcha? Brasileira?) sem antes a identificação e o reconhecimento de nossos próprios caracteres. Não é sem razão que os personagens do livro não só estão situados dentro de um tempo real, segundo a linearidade de uma temporalidade possível, mas, basicamente, definem a existência de sujeitos concretos que, ao contrario do contexto desreferencializado e des-historicizado pós-moderno, se identificam num dado momento cultural, apesar, talvez, ou por causa dos incomuns nomes com que se reconhecem. E de todas as contradições consequentes.

Se é um outro Rio Grande que emerge da leitura, provocando talvez um desfocamento no olhar tradicional, o artista, porque livre, transgride uma ordem; na transgressão é possível assumir a essência da liberdade, bem como o seu sentido. A extensão dessa ideia – parece – recompõe o sentimento de que a obra de arte é tanto maior e verdadeira quando enfoca o lado negativo da sociedade. Para frasenado Adorno, diz-se que é nas falhas que a verdade da cultura se concentra e que a sociedade, na sua aparente ordem, esconde os reais valores humanos.

Enquanto o substrato simbólico de contos e lendas medievais relaciona o castelo a valores ora positivos, ora negativos, a noção de família, independente de qualquer fato, implica sempre a ideia de fundamento, na medida em que é ela o núcleo de qualquer forma social e de cuja compreensão evolutiva se extraem os atuais conceitos de relações de produção, de propriedade e de Estado.

É, pois, desse vinculo que o romance de Assis Brasil enseja a ruptura com uma tradição de signos, circunstancia materializada pela insuficiência do signo linguístico, como é o caso do caráter onomático do romance em que os personagens apresentam não só significantes vazios, mas também suas vidas não têm significado existencial, seja pelo apelo a uma estrutura romanesca em que a família se apresenta com distúrbios no processo de identificação, originando daí conflitos onde se acha presente a perversidade e suas implicações no processo político, seja, ainda, pela alusão à simbologia do castelo, representando a anacronia de uma situação que, em se tratando da topografia gaúcha, sempre pode ser negada. Ou transgredida.
Porto & Virgula/POA, Ano II N° 11 – Dez/Jan 1992-1993

Perversas famílias
Simone Saueressig
O que mais marca na obra de Assis Brasil é a qualidade literária dos textos, o profundo respeito com que ele trata a história e os personagens. Em Perversas famílias, livro que abre a trilogia Um castelo no pampa, ele não só demonstra o talento e o resultado de anos de aprimoramento, como dá-se ao luxo de desenvolver uma forma de texto que caracterize cada um dos personagens. Da pretensão apaixonada de João Felício, à pretensão política de Olímpio, cada um dos que passam pelas mãos do autor, recebem uma marca textual que os identifica sutilmente, lhes confere força, volume, vida própria. Páris, em sua neurose pseudo-homicida, será, provavelmente, motivo para pergunta de leitores e eventuais entrevistas, “mas ele de fato matou todas aquelas pessoas?” Figura difícil, envolta nas brumas da própria mentira, Páris é um personagem que busca-fugindo a própria história. Páris é uma mentira. Saber de sua história o tomará real e poderá destruí-lo. Ele, menino-homem, sabe disso.

Selene é outra personagem marcante, sob o manto onipresente da figura do Doutor Olímpio. É a lua, que se enche, daltônica, e se mingua depois do parto, tornando-se nova, novamente. É a Liberdade, louca, que se desnuda ao seu cantador que, chocado, não a vê. Vê a filha, que até então não via. A Genebrina, Dona Plácida, é um retrato amargo e cruel de mulher, sem perder o rebuscamento romântico do texto que a identifica. O próprio Castelo, que é pano de fundo, aparece como uma personagem já no primeiro capitulo, estabelecendo um jogo com o leitor: um quebre-cabeças que conta a lamentável história de uma família, cuja perversidade maior é o egoísmo de cada personagem. A narrativa decorre como um pêndulo, oscilando através dos anos, das gerações, sem nunca traçar, contudo, o mesmo caminho. Subliminar, o livro toca na perversidade humana que há em todos nós.

Autor de outros livros de sucesso e igual qualidade, como Videiras de cristal, e Cães da Província, Assis Brasil estará em Novo Hamburgo, no Novo Shopping, dia 15 (sábado), às 15 horas, para uma sessão de autógrafos.
NH, Novo Hamburgo, 10.mai.1993 – p. 45

Assis Brasil constroiseu Castelo no pampa
Airton Tomazzoni
Nestes tempos de crise, o lançamento de um novo livro é um fato animador no panorama literário gaúcho. Quando se trata de Luiz Antonio de Assis Brasil torna-se um agradável e estimulante acontecimento. O autor de Virtudes da casa”, O homem amoroso e Cães da Província, entre outros, acaba de lançar o romance Perversas famílias que é o primeiro da série: Um castelo no pampa.

O livro acompanha a trajetória de uma família da aristocracia rural rio-grandense durante um período de 90 anos (de 1870 a 1964). A narrativa, contudo, não se desenvolve de forma linear e as épocas se intercalam sem uma rígida sequência cronológica. Assis Brasil imprimiu um ritmo particular à trama, numa sutil rede de relações familiares.

A primeira figura desta obra é Olímpio, o Doutor, propagandista da República e partidário da Abolição. Casado com uma condessa austríaca, ele é homem que decide construir Um castelo no pampa. O autor joga com esta dicotomia. De um lado uma obra arquitetônica que carrega toda uma carga opressora, medieval e europeia. De outro, os campos sem fim, um terreno de liberdade no novo mundo.

Com a habilidade narrativa própria do autor que possui um domínio técnico invejável, Assis Brasil mergulha no imaginário de um Rio Grande passado. As nuances históricas surgem apenas para o trabalho com uma realidade possível, o que interessa é traduzir de forma quase mítica esse universo humano. O autor garimpa com destreza a identidade cultural que ainda parece estranha nos dias de hoje.

Depois de dois romances nos quais os personagens tinham um referencial histórico definido como: Qorpo Santo (Cães da Provincia) e Jacobina Muller (Videiras de cristal), o autor admite estar mais livre. Perversas famílias abre espaço para o mundo ficcional e o rico universo de Assis Brasil.

A ironia é outro aspecto que se mostra presente na obra. A política e as relações de poder são vistas por uma ótica cáustica. O ambiente luxuoso esconde seus segredos. Os campos abrigaram avestruzes que não colocam ovos comuns, “mas talvez aquele que continha o germe do pecado”.



Perversas famílias é o 9° livro do autor que já vendeu cerca de 10.500 exemplares de seu romance anterior, Videiras de cristal. Com 403 páginas, a obra foi editada pela Mercado Aberto e custa Cr$ 144.000,00 em promoção de lançamento que vai até o Natal.
Gazeta de Porto Alegre, Porto Alegre, 18.dez.1992, p. 16.

Obra-prima romanesca
Wilson Martins
As chaves para a leitura de Perversas famílias, que se anuncia como o primeiro painel de uma trilogia (Um castelo no pampa, I Porto Alegre Mercado Aberto, 1992), estão no nome do autor e no adjetivo do titulo. De fato, Luiz Antonio de Assis Brasil tomou as “semelhanças” propostas pelo caráter de seu legendário antepassado e pela história republicana do Rio Grande do Sul para reconstruí-las nas perspectivas mitológicas sem as quais não há grande romance e que, na verdade, são o ingrediente indispensável do realismo narrativo. O que pode parecer simples paradoxo gratuito é o segredo da arte romanesca. O papel do romancista consiste em aproveitar o que há de imaginário na realidade e transformá-lo no que deve ser a realidade da imaginação criadora. Esse trabalho, realizou-o Assis Brasil com soberba competência e até algum coquetismo de autor, chamando a atenção seja para o que, no livro, são as perfeitas “cenas de romance”, seja para os paralelos que não resiste à vaidade de apontar e que podem, ter, creio eu, o valor simultâneo e ambivalente de engrandecê-lo e diminui-lo: é melhor ser o Assis Brasil, do que a Eça de Queirós de Porto Alegre, embora o próprio Eça de Queirós tampouco resistisse à tentação de ser o Flaubert de Lisboa.

Isso é tanto mais verdadeiro quanto Perversas famílias se situa inegavelmente ao nível dos Maias, o que não é dizer pouco, e muito além do Primo Basílio (da mesma forma por que, nos Maias, Eça de Queirós foi além de Flaubert, mesmo o Flaubert da Educação sentimental). Contudo, a legitima satisfação de haver escrito uma bela “cena” levou-o a acentuar o que, no fundo, tinha de menos meritório: “Uma cena que tem seu chique, não? Aqui falta a competência de Eça (...)” – mas não o seu vocabulário, pois o adjetivo que a qualifica vem diretamente das páginas queirosianas. Assis Brasil já foi elogiado por isso, mas é elogio ambíguo, semelhantes aos que o secretario Zagalo fazia ao Conde de Abranhos. Acusado de francesismo, Eça de Queirós não teria escrito “ganhado” por “ganho”, da mesma forma, ao sair de Alegrete, os figurantes deixavam-na, mas não a enxergavam pelas costas. Em alguns casos, percebe-se que Assis Brasil cita expressões francesas de memória, caindo em armadilhas ortográficas; em outro, é a topografia urbana que o trai, como quando supõe que o personagem, hospedado na Rua das Marrecas, podia ouvir “o rumorejar da Rua do Ouvidor”, ou quando, tendo almoçado no Café de la Paix, em companhia da Condessa, os amigos resolveram ir a pé até a casa de Augusto Comte, que era ali pertinho. Pobre Condessa.

São verrugas, que talvez enfeiem, mas pode até dar autenticidade a uma obra-prima de arte romanesca, trabalho, como todos eles nessa categoria, de celebração e vingança psicanalítica, perfeito no desenho e na construção psicológica e no qual, para citar só o maior exemplo, o protagonista se projeta todo inteiro, na sua autêntica grandeza de idealista e mesquinhez de Caráter, visionário do futuro e retardatário moral, pregador político e sincero da Liberdade (com maiúscula algo retórica) e, ao mesmo tempo, tirano doméstico, mais limitado intelectualmente do que se suponha, intolerante e generoso, bravo e intransigente, envolto em muitas tragédias de família de que foi responsável direto, e assim por diante.

Percebe-se que o retrato traçado por Luiz Antonio é mais “verossímil” do que o Assis Brasil da vida real, ainda que as velhas divisões clânicas da política riograndense mostrem a ponta da orelha nas duas ou três anotações sobre Borges de Medeiros (aliás justas e que, segundo penso, vão se multiplicar nos volumes seguintes). Assis Brasil, o modelo, tal como surge destas páginas, era hipócrita e fanático, moralista arcaico e mais “gaúcho” (no perfil convencional) do que desejaria fazer crer, libertando os escravos que lhe pertenciam, mas escandalizado pela eventualidade de ver os descendentes de imigrantes exercendo papeis de importância na política local. Aos cinquenta anos, “era um homem belo, bela cabeça, belos cabelos grisalhos e vastos, bigode meio viking. Era a própria imagem de um antepassado, e os muitos anos que o separavam da Condessa (sua mulher) pareciam ser vinte, trinta, e o receio exílio argentino deixara-o mais antigo”.

Em matéria de “cenas de romance” e ao contrário do que ele mesmo parece acreditar (se é que acredita...), Assis Brasil nada fica devendo a Eça de Queirós ou qualquer outro. Basta lembrar, entre tantas outras, a paixão de Plácida, já viúva, pelo professor Félix del Arroyo, episódio conduzido com mão de mestre até ao trágico desfecho que, nem por ser inevitável e previsível, deixa de ser fascinante e surpreendente. Resta o enigmático Páris, grande crime moral do Doutor, e que só chegaremos a conhecer em sua “real realidade” (para usar uma expressão eciana...) nos volumes seguintes. É, por enquanto, o olho implacável projetado sobre a família e suas misérias; não está excluído que, mais tarde, e apesar da misteriosa sedução que sobre ele exerce a figura do Doutor (já falecido), venha a ser o executor inclemente da divida moral a que deve sua própria existência. Seu nome, determinado pelo Doutor, era do heroi“que morreu em Tróia com uma flecha no peito” – correspondente simétrico e simbólico de cicatriz que o Doutor trazia em consequência do absurdo acidente premonitório de que foi vitima na pia batismal. Era um homem marcado e marcado igualmente foi o neto maldito com quem se reconciliou, tarde demais, na hora da morte. Assim se traçaram as linhas do destino e o tecido de um grande romance.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22.mai.1993.
Mestre do romance
Wilson Martins*

Luiz Antonio de Assis Brasil é um mestre do romance histórico  mas, para sê-lo, era preciso era preciso que fosse, antes de mais nada, um grande romancista. Ele tornou mais difícil a arte do romance entre nós  e a arte da leitura, porque, para saber lê-lo, é preciso dispor da correspondente complexidade intelectual que, em primeiro lugar, lhe permitiu escrevê-los, desde Um quarto de légua em quadro (1976), a Videiras de cristal (3ª ed. 1990), passando por duas tentativas de novelas psicológica (O homem amoroso e Manhã transfigurada  em que foi apenas um bom ficcionista  e também por essas indiscutíveis obras-primas que se chamam Cães da Província, As virtudes da casa e Bacia das almas, tudo culminando no grande painel de Um castelo no pampa (Perversas famílias, Pedra da memória e Os senhores do século. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992/1994.

É escritor para quem a literatura existe, exigindo leitores para os quais a literatura exista, quero dizer, o vasto mundo ao mesmo tempo nebuloso e nítido criado pela tradição que se constituiu através das obras de literatura que testemunham inquietação espiritual em que a realidade só adquire sentido quando transposta, por paradoxo, para os domínios da imaginação. No caso do romance, o segredo da grande literatura está em encarar a realidade como ficção, e a ficção como realidade  acrescendo-se, no romance histórico, a necessidade de atribuir ficcionalidade às pessoas da vida real, e realidade (mais do que “realismo”) aos personagens fictícios. É o que Assis Brasil sabe fazer com a mão de mestre, embora muitas vezes as mãos dos mestres apareçam na parede de seu gabinete de trabalho como sinais ominosos num festim de Baltasar literário.

Ele não resiste à “citação” literal, como a qualificar o protagonista como o “príncipe da grã-ventura”, ou dar a outro o nome do Gonçalo Mendes Ramires: “não estou mentindo, este era mesmo o nome dele”  o que deveria sugerir um nome diferente. Às vezes, ele acrescenta alguma coisa: se Machado de Assis, no esplendor de sua ambiguidades narrativas escreveu “Missa do Galo”, Assis Brasil dele se apropria na cena de turvas conotações entre Páris e Beatriz  mas, sendo impermeável à ambiguidade, resolve “completá-lo” muitos capítulos e um volume depois com a efetiva união amorosa entre os dois figurantes. Há numerosas alusões literárias que o leitor, digamos, comum, certamente perderá. Assim, quando Antonello Corsi chega faminto ao Castelo, fugindo da polícia, não come um tigre  o que seria apenas um acalcanhado lugar-comum  mas como um “triste tigre”.

São pequenas notações exemplificativas de técnicas narrativas num romancista que resolveu com extraordinária habilidade problemas muito mais temerosos, entre outros a complexa estrutura cronológica. É nisso, antes de mais nada, qu esse reconhece o grande romancista  e em que poderá reconhecer-se o leitor privilegiado que estiver à sua altura. Se, nos livros anteriores, ele optou pela cronologia linear e sucessiva  que é a mais espontânea e também a mais banal no romance histórico , em Um castelo no pampa impunha-se a cronologia psicológica (se essa for a palavra exata) para transmitir a ideia do turbilhão e desordem que é a vida. O Castelo, em sua imobilidade extratemporal, forma contraste, seja com os coronéis das estâncias imemoriais, primitivos da vida política e social do Rio Grande do Sul nos anos tumultuosos em que conviveram, com J.F. de Assis Brasil, Borges de Medeiros ou Getúlio Vargas, seja com a ideia de uma civilização desconhecida naquelas paragens rústicas (metaforizada nas louças finas, nas toalhas e cristais, nos vinhos aristocráticos, nas maneiras de mesa e nos tapetes, para nada dizer dos 25 mil livros de uma biblioteca que sugeria universos diferentes, diferentes idades mentais, inclusive na nota irônica dos textos fesceninos encadernados como severas obras de literatura.

Tudo bem considerado, uma biblioteca no pampa era coisa ainda mais estranha do que Um castelo no pampa... Olímpio foi, ao mesmo tempo, um personagem paradigmático das coxilhas gaúchas e um corpo estranho no seu organismo político e social. Os filhos, na excentricidade de casa um (entre eles o anti-gaúcho por excelência que era o homossexual) marcaram fisicamente a passagem de um estágio de civilização para outro, enquanto o próprio Olímpio não conseguiu transpor o limiar que as separava. Faltava-lhe a “autenticidade” impenetrável a anacrônica de um Borges de Medeiros, igualmente sensível, por exemplo, em Zeca Neto e Honório Lemes na reunião do Castelo, soberba “cena de romance” em que a arte do romancista se manifesta de forma incomparável: “Logo após, os dois comandantes entram na Biblioteca: Honório Lemes veste-se à gaúcha, de bombachas, botas de fole e um grande lenço vermelho ao pescoço (...). Zeca Neto estaria de terno completo, não fossem o mesmo lenço vermelho e as botas de couro marrom (...)”

Foi isso em 1923. O romance termina reconduzindo-nos à cena inicial, com a morte de Olímpio em 1938. É o momento em Câncio Barbosa, sem saber o que estava ocorrendo no castelo, entrega aos impressores a biografia em que vinha trabalhando ao longo da vida. Encerrava-se, com isso, o seu próprio destino: “Não, naõ escreverá mais nada até o final de sua vida. Seria uma deselegância, uma verdadeira traição à memória de Olímpio. E será seu gesto Léal, com o qual ele, Câncio, buscará a eternidade.”

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8.abr.1995, Ideias, p. 4.
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* Wilson Martins, é Doutor em Letras, ex-professor universitário nos Estados Unidos, ensaísta e crítico literário.



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