Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Romance Açorita

Aldo Obino


Luiz Antonio de Assis Brasil nos é conhecido desde que foi nosso vizinho em edifício de apartamento e se iniciava no violoncelo. Hoje é figura do naipe dos celos da OSPA, e advogado e da assessoria artística da SMEC, e além da música é pesquisador de história e colabora no Caderno de Sábado e aqui está com um romance açoriano, tendo em vista as nossas raízes históricas. Ao lado do ensaísmo teuto, ítalo e de tantas etnias, oportunamente esse moço levanta um romance de fundo histórico, tendo em vista o núcleo plasmador da etnia rio-grandense, ao lado do contingente lagunense, bandeirante, além do quinhão índio, negro, ibérico e o influxo imigratório múltiplo.

A obra é da Editora Movimento, em convênio com o Instituto Estadual do Livro do DAC da SEC e é apresentada em suas orelhas por Antônio Hohlfeldt.

A estreia de Luiz Antonio de Assis Brasil tem no romance UM QUARTO DE LÉGUA EM QUADRO, a ficção em forma de Diário do Doutor Gaspar Frois, médico. Ele estudou a nossa história para urdir a sua estória, com a técnica literária de diário.

O que ele fixa melhor é o caráter do açoriano e o que ele projeta na plasmagem do homem rio-grandense em seu núcleo étnico constituirá o cerne configurador da Província de São Pedro do Rio Grande como centro integrador e unificador do mosaico histórico de nossas etnias assimiladas e abrasileiradas no caldeirão cultural e civilisatório do Continente do Extremenho do Brasil Meridional.

Se muito gosto de memórias, menos de diários, mas aqui é romance que emprega o artifício literário do processo de diário, com intriga, tipos, situações dos núcleos castiços que ficaram em áreas marginais, econômica e socialmente, como se notou em Santo Antonio da Patrulha, Gravataí, Viamão, Triunfo em volta de Porto Alegre o mesmo acontecendo com as estâncias sob o signo das sesmarias, em contraste com as áreas integradas pela imigração. Esse filho de pais açorianos tem a consciência dos problemas e até em P. Alegre notamos essas demarcações históricas. O romance se fixa em um ano e meio e versa a história da desagregação psíquica de seu protagonista, sem grandes lances ou rompantes e em seu torno há a ciranda dos personagens conjugados na intriga e entrechoque da vida com os personagens de sua trama. O romance se fixa nos idos de 1752-53. Conta o drama de milhares de ilhéus açorianos, que vieram povoar regiões longínquas do extremo-sul brasileiro e que foram jogados a esmo e destinados às Missões ainda não conquistadas. É romance dentro da história, a situação não sendo culpa de ninguém, mas sob o signo da História, em sua trama através do tempo, do espaço e dos acontecimentos nos conflitos dos povos sistemas e instituições.

Luiz Antonio de Assis Brasilestá noutra agora. Escreve sobre o final da Revolução Farroupilha, tendo por protagonista um personagem que nela está sem saber direito qual a razão, citando Stendhal em “O Vermelho e o Negro”.



Correio do Povo, Porto Alegre, 12.dez.1976, p.
Assis Brasil e Britto Velho: revisão e destruição
José Hildebrando Dacanal
O Pacto de Pedras Altas e a Revolução de 1930 estabelecem, simbolicamente, os marcos que delimitaram o espaço político histórico da oligarquia agrária e mercantil do Rio Grande do Sul ao atingir seu apogeu por volta da terceira década deste século. Ocupado totalmente há cerca de cem anos, o espaço da pecuária extensiva gaúcha estava então rigidamente circunscrito não só em termos geográficos como também econômicos, pois a concorrência platina, a liquidação do sistema escravista e a descoberta de novos processos de conservação da carne solapavam aos poucos a hegemonia do charque, base indiscutível do poder do patríciado rural da fronteira sudoeste.

O Pacto de Pedras Altas parece refletir a percepção da classe dirigente gaúcha de que levar adiante o conflito entre os interesses mercantil-capitalistas e centralizadores do porto e os do “liberalismo” da fronteira seria cavar sua própria sepultura num momento em que – como se não bastasse o terror bolchevique, que os súditos de Sua Majestade não perdiam tempo em divulgar por aqui! – o Exército Nacional parecia desagregar-se e as massas geradas pela urbanização ensaiavam suas primeira tímidas mas assim mesmo apavorantes manifestações.

É exatamente no breve período que vai do pacto – fruto, em grande parte, da privilegiada lucidez política de Assis Brasil – à Revolução de 30 que se situa o apogeu do patriciado rural do Rio Grande do Sul, apogeu que lhe forneceria as condições para, num momento de crise e transição, assumir a liderança daquela estrutura econômica e histórica ainda informe e que apenas na teoria – e na Constituição! – poderia ser qualificada de “nação”, pelo no sentido que se atribuiu à palavra no Ocidente pós-renascentista. Outubro de 1930 é o ato que coroa a obra de grupo cujo lento emergir histórico se estendera por quase um século e meio mas é também, e paradoxalmente, um atestado de óbito auto-passado.

Com efeito, é a partir de 1930 que se tentará equacionar as contradições nas quais o país – tal como então era entendido – se afundava cada vez mais. O quadro geral, interno e externo, no qual estas contradições se inseriam, não interessa aqui. O importante, o fundamental, é que a centralização político-administrativa em termos de Estado industrial moderno seria o caminho trilhado para enfrentar a situação. E esta centralização – lenta de inicio, mais rápida depois, cada vez mais rígida hoje – teria que levar de roldão, necessariamente, todos os grupos regionais de poder, a começar pelo da própria elite que o comandara em seus inícios.

Sob o signo da decadência do colonialismo britânico e da expansão acelerada da estrutura imperial norte-americana começava a historia daquilo que se poderia chamar, com certa impropriedade, de “Brasil moderno e industrial”. Começava também a historia das crises sucessivas e cada vez mais graves de uma nação periférica viável internamente como Estado industrial autônomo mas inviável externamente, submetida que se achava e se acha à ratio imperial da grande nação do norte e das burguesias centrais associadas da Europa decadente. Este, porém, é outro assunto.

O que nos interessa aqui é que o poder da oligarquia agrária e mercantil do extremo sul se dilui quase que instantaneamente a partir de 1930 no corpo maior da nação, agora realmente centralizada. Pode-se dizer que já na primeira metade da década de 50 dele nada mais restava. Vargas – como o demonstraram os dramáticos acontecimentos de agosto de 1954 – não só não era mais representante do patriciado rural da fronteira sudoeste, que o colocara no poder em 1930, como também não era mais do que um elemento estranho ao presente da nação cuja modernização ele liderara. Seu suicídio vinha demonstrar, se não sua incapacidade de intuir, pelo menos sua incapacidade de orientar um processo cujos primórdios se encontravam no movimento que o levara ao poder cerca de 25 anos antes.

1930 fora o ato que marcara a derrocada de uma estrutura gerada pela expansão do capitalismo anglo-francês, 1954 era o primeiro sinal dramático do impasse que se abatera sobre a nação como sua inserção na estrutura imperia norte-americana `a época do capital monopolista, impasse que ainda marcará o país pelas décadas futuras. Em pouco mais de 20 anos o Brasil se tornara irreconhecível e, na perspectiva de Vargas, ingovernável. Agosto de 1954 recordava brutalmente que muita coisa, há muito tempo, deixara a História e entrara para a eternidade: as velhas classes dirigentes nascidas no período de dominação britânica, a oligarquia gaúcha e o próprio Vargas, cujo gênio político soube compreender e desempenhar o único e ultimo papel que lhe restava: o de mártir e bandeira de uma causa cuja história nem de longe acabou. Talvez esteja apenas começando.
É curioso observar que apenas agora (1) surgiram alguns produtos culturais que parecem se referir, direta ou indiretamente, às peripécias da decadência vividas pelo grupo oligárquico-mercantil gaúcho nas ultimas décadas. Um deles é Um quarto de légua em quadro, de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Como se sabe, todo o grupo que toma o poder é obrigado a legitimar-se, seja pelo processo, mais ou menos radical, de destruição da velha ordem, considerada como a objetivação do mal, seja pelo método mais sutil de glorificação de seus antepassados (reais ou pretensos), o que serve de justificativa para a dominação exercida no presente. O primeiro acompanha, geralmente, as mudanças bruscas e violentas de regime. O segundo é característico de núcleos de poder que se firmaram através de uma lenta evolução.

O mito – no sentido lato do termo – dos “heróis casais açorianos” aqui aportados sempre foi um dos mais celebrados pelo establishment oligárquico do extremo sul, aparentemente com o objetivo de cooptar os elementos da pequena burguesia comercial urbana das cidades do litoral, em particular de Porto Alegre. Na verdade, os “pais da Pátria” da fronteira sudoeste não tinham qualquer razão para se considerarem seus descendentes, pelo menos em grande escala. Não que a verdade histórica fosse lá importante para eles mas era bem mais dignificante ter como um antepassado um oficial de Gomes Freire de Andrade ou um bandeirante de Piratininga em transe de caçar alguma princesa índia (coitada!) pelas coxilhas do sul. Assim, os “heróicos casais açorianos”, um tanto prosaicos, foram bem menos votados do que os “gaúchos indômitos”, que se orgulhavam de seu senso de liberdade e bravura herdados, sabe-se lá por que misteriosos caminhos, de algum índio sifilítico ou massacrado ou, fantasia insuperável, dos beduínos... Compreende-se que os açorianos tenham sido bem menos votados. Mas o foram. E o Viaduto é a prova. E que prova!...

Luiz Antonio de Assis Brasil em Um quarto de légua em quadro procede a uma radical e, para mim, um tanto inesperada destruição do mito açoriano. Seu romance é, sem dúvida alguma, não vou dizer a melhor mas, certamente, a mais significativa obra de ficção (2) aparecida no Rio Grande do Sul nos últimos 20 anos. Significativa não só na medida em que mostra uma maturidade técnica e cultural incomum para um estreante em sua idade mas principalmente na medida em que revela uma espantosa lucidez histórica, símbolo de possível lucidez política de um grupo que poderia, talvez, ser capaz de lançar fora as mitologias há muito imprestáveis de seus antepassados para tentar colocar-se novamente na vanguarda de significativas transformações, culturais ou outras, a se processarem no seio da sociedade brasileira.

Ao rever a historia, eliminando dela as teias de aranha, Luiz Antonio de Assis Brasil documenta, simbolicamente, de forma definitiva, o fim da vigência dos valores do grupo social que criara as mitologias em questão e deixa o futuro em aberto. Um futuro, é claro, que já não é mais só dele ou de seu grupo. Mas – e é isso que o livro prova inesperadamente – que pode sê-lo também.

É importante prever os caminhos futuros de Luiz Antonio de Assis Brasil. Mas uma coisa é certa: mesmo que nada mais produza – o que seria lamentável – ele pode ser considerado, no contexto da literatura do extremo sul, o herdeiro, tematicamente falando, de Érico Veríssimo. Já numa outra era, é claro. E de um outro ângulo.

É de destacar a primorosa edição da Movimento, que com Um quarto de légua em quadro atinge, em capa, revisão e diagramação, um nível técnico dificilmente superável, aqui ou em qualquer outro lugar.
Se Luiz Antonio de Assis Brasil parte em seu romance para o que se poderia chamar de revisão histórica ao sepultar para sempre mitologias caducas, Gabriel de Britto Velho em Um estudo-arqueologia fantástica provincial procede a destruição, pela sátira, de uma nova casta de letrados que pretendem herdar os postos ocupados por aqueles que no passado serviram às classes dirigentes na função de criadores e divulgadores de lendas que as justificavam.

A oligarquia agrária e mercantil do extremo sul soubera cercar-se de um grupo de letrados que se colocavam a seu serviço sempre que necessário, disposto a tudo para manterem seus postos de parasitas privilegiados, os únicos, aliás, a que podiam aspirar no interior de uma estrutura econômica muito pouco diferenciada e baseada fundamentalmente em atividades do setor primário e mercantil. Esta situação não era exclusiva do Rio Grande do Sul. Pelo contrário, se repetia, com nuances mais ou menos variadas, em todos os núcleos regionais de poder ao longo da costa.



Correio do Povo, Porto Alegre, 8.jan.1977. Caderno de Sábado, p. 14-15

Um liberal à deriva
Flávio Aguiar
Um quarto de légua em quadro é a história de um suicídio brando, de uma desistência. Gaspar Fróis, médico com alma de artista, vem da Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores para o Brasil, em meados do século XVIII, participar da “grande empresa” da colonização. Portugal celebrava o Tratado de Madrid com a Espanha (1750), pelo qual entregava a esta a Colônia do Sacramento, junto ao Rio da Prata, e recebia em troca o próspero Território das Missões, rico em gado solto, ervais e terras férteis. Para consolidar a manobra, estendia a colonização em direção ao sul: estenderam-se em linha, Desterro (hoje Florianópolis), Laguna, Porto do Rio Grande, e já varando a Lagoa dos Patos, para adentrar o então chamado Continente, Porto dos Casais (hoje Porto Alegre). Nesta trilha, cujo objetivo era penetrar a terra até as distantes e legendárias Missões, vem Gaspar de Fróis, para se desencantar com tal projeto e consigo mesmo, por se ver conivente com o que qualifica de “atrocidades” cometidas contra os colonos.

O romance é seu diário, escrito até o ponto em que desaparece do mapa, tomando destino ignorado. Seus cadernos, são, a seguir, editados por “contemporâneos” seus. Como encarar o gesto do médico de sensibilidade fina e fidalga – como ele mesmo a quer ter? Como uma “desistência” passível de “criticas”? Mas no terreno do literário – do romanesco, no caso particular – nem tudo pode ser tomado rigorosamente ao pé da letra, nem os julgamentos morais podem ter exclusividade no comando do juízo crítico. Gaspar de Fróis se afasta da sua história para nos deixar, em contrapartida, uma vigorosa denúncia da reificação humana. Esse gesto de “distanciamento” é acentuado pela grafia do livro. O diário do médico é escrito em grafia moderna, enquanto as notas dos “contemporâneos” que lhe são apensas vêm em grafia daquela época, dos mil setecentos e tantos. O contraste acentua o livre jogo do discurso literário ao longo do tempo histórico: qualquer analogia com o presente fica por conta do leitor, mas não é mera coincidência.

O que se pode dizer é que o ato de narrar serve de catarse para um drama sem resposta: o da consciência individual, aguda mas impotente enquanto individual, diante da tragédia coletiva. Gaspar de Fróis revela mais de um parentesco com o pensamento liberal – não no terreno econômico propriamente, que o médico não chega a discutir – mas sim no fato de se aferrar, como única coisa segura e certa no oceano de contradições, em seus princípios pessoais, em sua crença implícita num Estado coerente que organizasse, quem sabe um dia, aquela “confusão” em que se metera. Essa crença vai sendo golpeada sem dó nem piedade; seu diário é o diário de um dilaceramento; o narrador se divide em dois, um que procura pensar a ordem na confusão e outro que se manifesta continuamente, debaixo do discurso do primeiro, a desordem diabólica de tudo.

O primeiro é o fidalgo que olha com repugnância o quadro das misérias alheias e se escandaliza com elas, manifestando suas preocupações diante das autoridades constituídas. O segundo revela sempre capítulos insuspeitos dessa tragédia toda, manifestando não mais a fidalga repugnância, mas sim o declarado horror diante dos fatos como a descoberta de que os fogos fátuos que corriam a noite em volta de uma certa casa de fazenda das redondezas eram provenientes da putrefação de vinte e três índios ali massacrados. O escritor não reclama diante das autoridades constituídas: ali mesmo vomita o café da manhã. Essa cisão do narrador e da narração – quando não manifesta fragmentação – (não confundir com a fragmentação do discurso literário em flashes, instantâneos ou seja lá o que for) aponta para uma profunda crise do e no romance brasileiro. Uma das pontas desta crise se mostra neste Um quarto de légua em quadro: a crise da consciência liberal diante de uma progressiva “deformação” da realidade.



Os invasores Internos
O epicentro deste drama, no caso do romance de que ora se trata, está na historia da formação da propriedade da terra no sul do país. É uma historia de ocupação de terras, e de uma ocupação conflituada. Os conflitos medram não apenas contra os inimigos externos – o espanhol, o índio em bandos ou organizado das missões. Eles medram internamente (e isso é que balança mais o coreto da consciência de Gaspar de Fróis) entre os destinados à pequena e a grande propriedade.

A ocupação das terras abria frente para dois tipos de proprietário. Primeiro o grande, em geral um militar português transformado em estancieiro, dono de terras, escravos, gado e comandante de homens meio peões, meio soldados. Segundo o pequeno proprietário – que vinha dos Açores em busca do seu prometido “quarto de légua em quadro” e da sua sobrevivência. Era menos poderoso do que o primeiro, mais igualmente necessário á ocupação da terra. Entre esses dois fogos a Coroa de Portugal tratava de exercitar a “demarcação” – vale dizer, fixar as fronteiras com a Espanha e expulsar os índios do território missioneiro. No jogo de empurra-empurra entre aqueles dois tipos de proprietários, dá para adivinhar quem ficava com as piores terras, levando chumbo se invadia a vastidão alheia. Este processo, e seu papel nele, é que leva o doutor Gaspar ao desespero (1).

Os conflitos internos do médico-narrador possuem duas frentes básicas: sua relação com o poder e a sua impossibilidade de uma relação amorosa consequente (primeiro) e de qualquer relação amorosa (depois). A convivência com o poder se dá em dois planos: na análise a um tempo apaixonada e desapiedada que Gaspar faz de Gomes Freire de Andrade, personagem histórico, comandante da demarcação, a mais alta autoridade portuguesa naquelas paragens ermas e geladas dos confins de um país que ainda não havia. Veja-se o diálogo: “...Mas não foi só isso, general. Me amargurava vendo os colonos padecendo.

- E daí? Que poderia o senhor fazer? Deixe esse assunto para nós, administradores. Tudo obedece a uma larga idealização, que, com o tempo, dará os frutos desejáveis. Uma ou outra morte ocasional não modificará os planos. É como uma grande obra, em cujo cimento deve entrar um pouco de sangue, para ser mais sólida.

Intrigante homem. Contraditório, humano, desumano, tal como provavelmente deve ser um homem”.

Segundo, na constante desmistificação que faz do discurso deste mesmo poder – seja através do recolhimento das palavras submissas ou candentes dos colonos, seja na descrição de fatos paralelos, como a mascarada que os soldados portugueses organizam quando de um dos encontros entre Gomes Freire e os demarcadores espanhóis, que termina valendo como uma verdadeira “outra face” daquele poder, “as caras esfarinha das sustentavam olhos exageradamente pronunciados, saindo das órbitas, os dentes faltando (...)”.

Mas como medico Gaspar de Fróis participa do poder, ainda que suas condições concretas de trabalho sejam intoleráveis para a razão. De que lhe serve a formação intelectual? Ele mesmo dá a pista, durante aquela mascarada: “Quem me assegura que, se não tivesse o poder de controlar-me que me foi ensinado, não estaria também participando daquela fantasmagoria, encenando alguém que não sou, apenas para ter, por uns momentos, a ilusão de não estar com os pés na terra?”

Gaspar aprende a se controlar na vida real e se extravasar no papel. Introjeta a seu modo e elaborado em contradições de ordem psicológica, o conflito que presencia e de que é, no mínimo, espectador privilegiado, senão dos principais atores. O médico fica sem condições de expressá-lo por inteiro, mesmo que seja em palavras, pois sua linguagem se distancia da ação. Ele o corroipor dentro e acaba por tornar-lhe qualquer vida sentimental impossível. O sentimento adquire as cores do poder – portanto, para esse eu dividido, de coisa a exigir mandonismos, de coisa culposa e culpável. Assim se esvai a única oportunidade amorosa que tem, o desejo de e por Dona Maria das Graças, a mulher do tenente Covas, da guarnição do Porto do Rio Grande, e que depois de se entregar a ele por uma noite quer conversar sobre os motivos que a levaram a isso. Resposta do medico fidalgo, cortando o diálogo.

“Ora, conversar! Se quisesse ir para a cama, que viesse! Nada de conversa!

Entrei no presídio a galope solto. Rilhando os dentes”.



Um quarto de légua em quadro é um romance de estreia – de merecida estreia. Basicamente porque nos fala daquela “outra historia”, sempre escondida por trás dos panegíricos e apologias dos manuais oficiosos. E o faz com sobriedade e ironia, qualidades em geral raras numa estreia.


  1. Convém ressaltar o valor de reconstituição histórica que o livro tem, buscando compilar não apenas as grandiloquências, mas o quotidiano da vida passada. Por exemplo: estamos acostumados a uma visão hollywoodiana do tempo das caravelas, onde estas mais se parecem a apartamentos de Beverly Hills do que aos reais navios d’el rei. Estes eram sujos, pequenos, perigosos, verdadeiros focos de doenças, de cubículos e porões infectos que às vezes faziam de hospital (!). Era frequente a falta d’água; uma chuvarada poderia ser uma benção para a sede ou uma desgraça para o navio. Um “camarote” – coisas reservadas para altos dignatários – era um cubículo de pouco mais de metro quadrado. No convés às vezes era necessário dormir junto da futura alimentação – galinhas, porcos. E ressalte-se que o horror dos porões só atingiu seu pleno desenvolvimento durante o trafico negreiro. Consulta obrigatória para quem quiser saber o que era uma viagem dessas: Viagem às missões, do Pe. Antonio Sepp, editado pela universidade de São Paulo e Livraria Martins Editora.

Jornal Movimento, São Paulo, 14.fev.1977.


A PROLE DO CORVO


A prole do corvo
Sergius Gonzaga

O segundo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, A prole do corvo, publicado recentemente (1), confirma uma das mais sólidas afirmações de romancistas, que apareceram na província, nos últimos tempos.

Ao contrário de outros jovens narradores, perdidos nos labirintos de uma subjetividade exacerbada, Assis Brasil sabe que o romance é, ao mesmo tempo, biografia e crônica da vida social. E que só assim o gênero se qualifica. Seja no modelo real/naturalista europeu (Balzac, Stendhal, Zola, etc.), seja no chamado “realismo mágico” latino-americano (Garcia Merques, Scorza, Rulfo, Guimarães Rosa e outros), seja num novo tipo de realismo, fragmentário e elíptico (Semprum, Cortázar, Vargas Llosa e outros).

É exatamente essa ausência de perspectiva sociológica e histórica que tem limitado a força de nossos ficcionistas. Falta-lhes a intuição ou a consciência dos mecanismos que movimentam e regulam os vários segmentos sociais.

Às vezes, um que outro autor intenta uma aproximação mais direta da estrutura produtiva ou da História. O resultado: o texto fica no mero documento ou vira em caos. Ainda no ano passado, Moacyr Scliar tentou situar O mês de cães danados no inicio da década de sessenta, nos acontecimentos da chamada “Legalidade”. O relato decepciona na medida em que não estabelece as relações dialéticas entre as personagens e o contexto. Passa-se em 61 como poderia transcorrer em 68 ou em 55, pois o drama individual não é ocasionado pelo quadro histórico.

Assis Brasil, contudo, possui uma visão lúcida dessas forças – nem sempre evidentes – e que acabam determinando a trajetória humana. Por isso mesmo, talvez, haja escolhido um tipo de narrativa onde o arcabouço social precisa ser mais evidente: a narrativa com bases históricas. Trata-se de um projeto literário ousado, levando-se em conta o despreparo teórico e ideológico de boa parte dos nossos criadores de símbolos, ainda mais quando comparados aos seus colegas da América hispânica.

Pode-se dizer a favor de Assis Brasil que o seu projeto realiza-se, dentro de alguns limites, nesse A prole do corvo. Na trilha de Cyro Martins e Aureliano Pinto de Figueiredo, opera uma revisão da ideologia imposta pelo antigo patriciado rural. E ao situar o seu relato num espaço histórico tornado mitológico (a Revolução Farroupilha) por interesses evidentes daquele patriciado, Assis Brasil evitou a celebração épica do gaúcho – auto-imagem e elogiosa da oligarquia rio-grandense, tão comum em textos artísticos e historiográficos.

Num certo sentido, o jovem romancista quis nos dar uma outra versão da História, quis mostra-la sobre outra ótica. Ao invés de cantar os heróis, deteve-se no universo dos que servem de “carne de canhão”, dos que partem para o sacrifício sem saber para quem estão lutando, dos que vão iludidos pela ideologia do grupo dominante ou simplesmente daqueles que são levados à força para os campos de batalha.



A prole do corvo é uma ode às avessas. Filhinho, o protagonista central, funciona como um anti-herói. O pai estancieiro, ante a iminência de ter requisitado mais cavalos pelos revolucionários, prefere alista-lo como “voluntário”. É melhor arriscar o filho do que os animais. E Filhinho vai para a guerra, deixando atrás de si um amor incestuoso pela irmã Laurita. Nada daquela luta lhe diz respeito. Tampouco diz aos soldados que combatem a seu lado. Todos combatem a são feridos e morrem por palavras que lhe soam abstratas. Filhinho sobrevive. E volta para casa. Para a possibilidade de Laurita. Volta como partira: sem entender o que estava acontecendo.

Assis Brasil soube resguardar-se de um perigo: que Filhinho fosse dado como atípico da situação farroupilha. Afinal, e os comandantes, os oficiais, os “farrapos” autênticos? O tenente republicano Diogo Ferraz – cunhado de Filhinho – é o único oficial examinado com atenção pelo autor. Mas também ele trai os seus ideias por um cargo de tesoureiro na Câmera de Aguaclara. Nada escapa ao olhar corrosivo do romancista.

Claro: A prole do corvo tem inúmeros defeitos como romance. As personagens poderiam ser desenhadas com maior clareza psicológica. O canário histórico carece de certas informações, quase não tem relevo. E além disso, Filhinho é uma figura muito plana, sua inocência confunde-se com mais absoluta mediocridade. E em sua tessitura pessoal falta um conjunto de conflitos realmente expressivos, isso é, dramático. A incompreensão do sentido real das coisas, que demonstra no transcorrer da obra, transforma-o num ser passivo. E é muito difícil narrar a passividade. De resto, o estilo do livro, embora correto, tenda ao monocórdico, numa dicção sem nuances e sem brilho.

Mas, os problemas são os problemas de qualquer escritor jovem. Assim, sobram qualidades em A prole do corvo. A narrativa instaura, sobremodo, um novo discurso ideológico. Um discurso que esfacela a linguagem oficial, institucionalizada, a linguagem dos donos do poder.

Assis Brasil passa a integrar a galeria dos intelectuais que revisam os valores há tanto tempo introjectados em nossa visão de mundo.

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  1. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. A prole do corvo. Porto Alegre: Movimento/ Instituto Estadual do Livro, 1978.



Correio do Povo, Porto Alegre, 13.mai.1978. Caderno de Sábado, p. 11
A prole do corvo de Assis Brasil

Tarso Genro

O novo livro de Assis Brasil (A prole do corvo – Movimento - 1978) aponta-o como um regionalista de fôlego e justifica-o como escritor. À semelhança do Um quarto de légua... Luiz Antonio trabalha sobre o movimento histórico real, através de suas situações típicas. Se no “Um quarto de légua...” o conjunto ficcional existia sobre situações particulares de grupos humanos e o personagem principal, dr. Gaspar, tinha atrás de si uma imensa aquarela quase épica, nesse romance os personagens são mais intensos do que as situações histórica típica, assimilando-as e tornando livro, por isso, menos história e mais romance.

A síntese que encerra os personagens é apurada socialmente, isto é, o livro tem critérios de classe como nenhum outro de nossa literatura regional. A formação do latifúndio é vista muito mais em suas entranhas do que em seus gestos retóricos e a guerra, no caso da Revolução Farroupilha, se relativamente clara para as elites conflitadas – que cedo ou tarde se ajustam na Santa Paz do Ponche Verde – é um desígnio insondável para o ser miserável e explorado que as mistificações “folcóricas” não cansam de enevoar, como o alegre e irresponsável gaúcho.

Existe um enorme repositório de tradição para servir de matéria-prima a uma literatura regional verdadeiramente criadora. Esta veia já foi tomada por Simões Lopes Neto, Ciro Martins e outros, tão, ou menos importantes. Se Simões Lopes Neto coligiu toda a linguagem gauchesca e Ciro abriu uma outra perspectiva de classe, com o “gaúcho a pé”, não é possível negar que falta um acabamento da literatura regional rio-grandense. Falta uma postura sólida para informar uma verdadeira visão crítica do latifúndio que (na sua fase e face positiva) já foi relatada por Érico nos seus primeiros volumes dO tempo e o vento”. Lá está o depoimento da formação latifundiária como primeiro e historicamente necessário período dentro de uma formação social em movimento.

Luiz Antonio, ao que parece, tem todas as condições para iniciar a revisão. “Não se entende a guerra, se briga nela” (pág. 122) é a trágica conclusão de um soldado, dita ao filho do latifundiário (cedido pelo pai às forças revolucionárias de Bento Gonçalves, em troca da não desapropriações de seus cavalos). Nessa postura, que derruba as ilusões dos liberais de hoje, que costumam construir a história sobre convenientes mitos morais, está expressa a visão do mundo do escritor: aprofundar-se no processo real, com arte, para extrair dele um pedaço reconstituído do mundo dos homens. Mas, de homens que pertencem a classes sociais e que fazem as suas perplexidades e os seus terrores como dominados ou como dominadores.

Não é preciso dizer que nenhuma compreensão das delicadas divergências formais entre os adeptos do Império Central e os defensores da República do Piratini, tinham, de ambos os lados, os verdadeiros guerreiros. Obscurecida toda a racionalidade, no calor da luta, esta se dá, ao nível da equívoca compreensão das massas, entre os “bons” e os “maus”. E os maus sempre são “eles”, os “malditos”, os que estupraram e mataram como simples bandidos sem lei e sem pátria. Mas, no fim, restam os ódios aparentemente inexplicáveis que vão adquirir até mesmo força independente na história; ódios que vão ser sempre explorados miticamente – coragem bravura, rigidez nas divergências entre as oligarquias que seguirão ao longo de um século e que se seguem sob novas formas.

O tecido delicado das relações familiares de onde é extraído Filhinho, personagem mais importante de romance, não é negligenciado. Quadro psicológico do latifúndio em decadência, acossado por outro latifúndio maior ainda (cujo tom principal é dado, no fundo, pelo velho fazendeiro cansado e alienado na sua condição de opressor) não é um quadro naturalista. Brotam nas neuroses e nas relações incestuosas entre Filhinho e sua irmã, ao mesmo tempo a glória dos dominadores e as perversões de uma humanidade bloqueada pelo espaço social que a historia lhe reservou.

A guerra é o elemento purificador de relações não estáveis, não só relações de propriedade como também relações entre pessoas. E quando se diz “purificador” não se usa esta expressão com qualquer conotação teológica e sim no sentido de que ela apressa as formações sociais em direção à sua forma histórica acabada.

Na loucura de uma velha, porém, eis a desalienação que se gesta num lento processo tecido na bárbara existência: (pág. 182)

“Dizem que a guerra acabou, moço. Sabe me dizer? Todos me deixaram aqui, disseram que eu não podia caminhar até a vila. Eu conheço mais que todos as guerras! Nesse dois peitos já sugaram muitos que morreram varados de lança. Mas chorar é coisa que não faço nem me alegrar é coisa que me alegro, por que isso que hoje parece o fim pode ser o começo de outra guerra. Pelo sim, pelo não, fico quieta no meu canto”.

Mas é preciso exigir muito mais dessa nova perspectiva, mormente quando ela se abre num belo livro que é uma grande promessa de um jovem escritor. De um escritor que, na sua clareza textual e na sua honestidade estética sequer faz mínimas concessões fatichistas aos “voyeurs” da literatura modernosa. Trata o incesto por exemplo – dentro do quadro social que ele se insere – com uma dignidade só encontrada na literatura burguesa em sua fase ascensional e revolucionaria. Exigir mais para impregnar a constituição da nova literatura de uma nova época, também, como uma linguagem definitiva como aquela alcançada por Mann, em “Tonio Kruger”, ou por Konrad, em “Lord Jim”. As bases estão aí, de Simões Lopes Neto a Ciro Martins (que “Estrada Nova” já registra para sempre). E não é exigir demais de Luiz Antonio, pois o principal sintoma está evidente: Um quarto de légua em quadro é um excelente romance e A prole do corvo é ainda melhor.


Correio do Povo, Porto Alegre, 3.jun.1978. Caderno de Sábado, p. 11
Rodrigo e Filhinho: apogeu e crise do mito do gaúcho
Cássia Corintha Pinto Camargo

1 – O mito do gaúcho: implicações históricas e sociais
Tradicionalmente vincula-se o Rio Grande do Sul e os seus habitantes ao ideal do homem bravo, honrado, viril, generoso, capaz de enfrentar guerras sangrentas com o espírito alegre e divertido. Ainda hoje constata-se a existência de afirmações do tipo: “os gaúchos são guerreiros por educação e por índole” (1), “os gaúchos são machos e honrados, às vezes rudes, porém generosos” etc. A verdade é que o gaúcho assim concebido é um mito. Fatores sociais, históricos e culturais contribuíram para o seu surgimento perpetuação no tempo. A evolução do termo “gaúcho” dá-se no sentido da própria evolução da sociedade e da historia rio-grandense.

Assim, nos primórdios o termo designava ladrão, nômade, vagabundo (2). O gaúcho era, enfim, um bandoleiro cuja subsistência dependia, frequentemente de roubos e mortes. No século XIX, com o aparecimento das estâncias na região da Campanha, e a consequente fixação desses homens no trabalho, o termo passa por uma alteração, significando, a partir deste momento, vaqueiro ou “homem livre”, que vagueia pelos pampas. Na verdade, este “homem livre” nada mais é do que um desempregado sem horizontes, visto que sofre os efeitos de uma estrutura escravagista. Por outro lado, trata-se de um soldado em potencial que, em troca de um soldo ridículo, defende a vida, a propriedade e a ideologia do fazendeiro-caudilho.

Em meados do século XIX, a pecuária passa a ter um papel extremamente importante na economia do Brasil. Resulta daí a consagração da estância como pólo produtor e gerador de riquezas para a Província. Em torno da pecuária cria-se toda uma estrutura econômica e social. Quando a estância atinge o auge como sistema econômico-produtivo o gaúcho passa por um processo de mitificação. A partir desse momento não é mais aquele elemento perigoso, semibárbaro, ameaçador, inclusive. Passa a ser útil, ou seja, mão-de-obra barata abundante e produtiva. Com o preço aviltante do seu trabalho contribuiu para a acumulação de riquezas destinadas a sustentar uma oligarquia cada vez mais poderosa. Esta oligarquia trata de cultivar a fazer evoluir o mito sempre de acordo com jogo político-econômico por ela comandado.

Certas sociedades geram e cultivam mitos vinculados, justamente, aos seus setores mais explorados e oprimidos. Louvam feitos heróicos, enquanto, de outro lado, tratam de usufruir ao máximo o potencial de riqueza e trabalho que as massas marginalizadas podem oferecer. Analisando-se o fenômeno, mesmo superficialmente, pode-se verificar que esse é um jogo que os espoliadores propõem aos seus espoliados: enquanto tu me dás teu trabalho (ou tuas riquezas), eu trato de te glorificar. Evidencia-se aí a função que assume o mito de justificar estruturas de dominação e aniquilamento. No caso do gaúcho, os fatos não ocorreram de maneira diferente.

O mito encontra ressonância no seio dessas populações, uma vez que ele exerce um papel compensador no sentido de outorgar-lhes uma pretensa superioridade em relação aos seus exploradores. Vítimas de um desvalimento econômico, social e cultural crêem no mito e esta crença atenua a dura realidade de suas vidas. Enquanto o gaúcho é cantado em versos e em prosa, as classes dominantes prosseguem fortalecendo suas posições e aumentando seu poderio.

A Revolução Farroupilha é o momento que assinala o auge desse processo de mitificação. A luta tem origem no confronto de forças econômicas. O poder central, concentrado no Imperador, recheia seus cofres com o produto de pesados impostos provenientes das províncias produtoras. Este dinheiro não só sustenta o fausto de uma corte parasitária, como, também faz aumentar o poder econômico e político do Império.

Na Província, o patriciado rural paga taxas cada vez mais elevadas pelo charque que exporta para o centro do País e teme a perda de seus privilégios. Além do poder econômico, e mesmo para garanti-lo e obter maiores vantagens, faz-se necessário conquistar poder político.

As causas reais da dissensões entre a Província e o Império são acorbetadas por uma bem articulada campanha de cunho liberal-republicano, que tem por objetivo mobilizar a população a favor dos fazendeiros e contra o poder central. O “gaúcho guerreiro” (3) é a tônica dessa campanha. Uma vez consagrado, o gaúcho guerreiro serve à ideologia das classes que disputam o poder central (inclusive na Revolução de 30).

Basicamente são estas as condições que propiciam a criação do mito do gaúcho. Outros fatores, também econômicos, político-ideológicos, sociais e culturais, contribuem para que o mito se mantenha vivo por um largo período de tempo, servindo sempre às classes dominantes ora em disputa pelo poder, ora exercendo-o e, também, como uma forma de “autojustificação da hegemonia exercida e como meio de preservação da mesma diante das ameaças que começavam a se desenhar levemente no horizonte – lá pelo final do séc. XIX (...)” (4).

Á época da Revolução de 30 corresponde o último grande momento do gaúcho. Firma-se o mito do “gaúcho-herói” (5) que serve à campanha desencadeada pela Aliança Liberal, comprometida com a projeção da classe patricial rio-grandense no cenário nacional. Muitos fatores contribuem para a formação de um ambiente favorável à Revolução, tanto externa quanto internamente. Internamente, as fraudes verificadas nas eleições de 1929 funcionam como o estopim da revolta, que tem seus focos principais no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba (6). O gaúcho é utilizado no sentido de conclamar adeptos para a Revolução. Reveste-se de uma feição heróica, apresenta-se como autentico “salvador da Pátria”, capaz de promover a redenção das forças espúrias que agem no momento.

A Revolução de 30 marca o término de uma etapa da evolução da sociedade brasileira, iniciada em 1890 e que corresponde, em linhas gerais, a uma estrutura republicana (7). A transição para uma nova fase torna ultrapassados os ideais da oligarquia sulina. Uma nova parcela da elite assenhora-se do poder, há formação de um proletariado urbano, que aos poucos tenta impor-se, expande-se a classe média, também detentora de uma parte do poder, e adota-se um modelo industrial. Enfim, a sociedade sofre um processo de modernização, que não é compatível com o mito.
II – Capitão Rodrigo: a síntese do mito
O tempo e o vento narra a historia da família Terra-Cambará, desde as suas remotas origens datadas do século XVIII até o ano de 1946. A obra possui elementos suficientes para que se afirme que os Terra-Cambará representam os patriarcado rural rio-grandense. E vem a público no momento em que a modernização da sociedade brasileira, iniciada com a Revolução de 30, torna ultrapassados os ideais daquela classe. O episódio “Um certo capitão Rodrigo” pode ser encarado como a apologia do gaúcho a partir da ótica do patriciado rural que vive, na metade deste século seus últimos momentos de grandeza e domínio no cenário político nacional. De inicio pode-se dizer que o Capitão Rodrigo é a síntese da mitologia autojustificadora criada e utilizada pelas classes dominantes para servir à causa da sua hegemonia.

O episódio tem inicio com a chegada de Rodrigo `a Santa Fé. Até então a vila era um universo, um microcosmos fechada em si mesmo; de caráter mítico e estável. O contato com o exterior dava-se eventualmente a razões de sobrevivência, ou por ocasião das guerras em que a Província se envolvia. Rodrigo é o elemento que abre as portas da vila para o mundo. É o agente “modernizador” daquela sociedade voltada exclusivamente para si mesma. Ele teve a capacidade de romper a aura mítica que revestia Santa Fé. Com isso logrou integrá-la ao resto do mundo, livrando-a do isolamento que poderia ser-lhe fatal. Tem-se aí uma evidencia da feição heróica de que se reveste o personagem. Estes fatos demonstram que Rodrigo é, no mínimo, um homem diferente dos demais.

Uma característica essencial do personagem é o telurismo. Ao surgir em Santa Fé não traz consigo uma origem familiar. “Me criei guaxo. Não conheci mãe. Com doze anos já trabalhava no campo com a peonada bem como um homem feito (8). O personagem não possui uma genealogia definida, sua origem deve ser buscada na própria terra”. E é sobre este aspecto – o telurismo – que se fundamenta não apenas o personagem em questão, mas todo o mito do gaúcho (9). Advém desta ligação do heroicom a terra uma serie de qualidades que o tornam superior. Da terra vêm-lhe atributos com a virilidade, valentia, honradez, Léaldade, bondade, franqueza, pureza e desprendimento (10). Enquanto elogio do gaúcho ideal, Rodrigo detém todas essas qualidades. É o homem natural, de impulsos desenfreados ou a custo contidos. Está a meio caminho entre a natureza e a civilização. É dotado de um exacerbado sentido de liberdade individual. Nada está acima da vontade do homem, e este é totalmente livre para decidir seu destino. Rodrigo é alegre, folgazão, divertido e valente. Sempre que se apresente uma oportunidade ele demonstra suas virtudes.

A mulher é vista sob dois ângulos que correspondem à visão da sociedade patriarcal. Sob o primeiro é vista como a fêmea do “bicho homem”. É o instrumento que lhe permite exercitar a masculinidade. Neste caso não há critérios, qualquer uma serve. Sob o segundo é vista como a matriz que deve gerar novos heróis em tudo semelhantes ao pai: machos, valentes, idealistas. O casamento com Bibiana cumpre a função de proporcionar-lhe uma descendência que lhe herdará o “nome e a espada”.

A guerra é a verdadeira paixão de Rodrigo. É na guerra que o homem deve realizar-se plenamente. A guerra é o “remédio para tudo”. Ao irromper a Revolução Farroupilha apresenta-se a tão esperada oportunidade de romper as amarras que se lhe afiguram o trabalho da venda, a mulher, os filhos e Santa Fé, pequena demais para conter tanto ímpeto. A guerra é a única atividade digna para um homem. Qualquer outro trabalho é útil apenas na medida em que permite ao heroiretemperar suas forças entre uma batalha e outra. A guerra é um divertimento e não espera que o chamem. Parte para guerra como se fosse para uma festa.

A oportunidade que se apresenta para Rodrigo defender os ideais nobres em que acredita é a Revolução Farroupilha. Contudo a obra não deixa claro os motivos e os objetivos da revolta que também foi mitificada. Para contentar a “gregos e troianos”, firmou-se a ideia de que a guerra “entre irmãos” teve, de ambos os lados, verdadeiros heróis que souberam lutar com extrema dignidade por seus ideais.


III – Filhinho: o mito em crise
A prole do corvo é um retrato da classe dominante rio-grandense alicerçada na posse da terra, e revela as contradições em que se debatem os representantes da elite fundiária. A partir de uma situação particular, um drama familiar, abarca a problemática econômica, social e política de meados do século XIX do Rio Grande do Sul. Filhinho é o porta-voz dessas contradições e, por isso, seu comportamento difere radicalmente daquele do Capitão Rodrigo na obra de Érico Veríssimo.
O personagem situa-se num contexto sócio-econômico-cultural bem definido – o patriarcado rural. É filho de um estancieiro inconformado com a decadência econômica resultante da guerra entre a Província e o Império. A inconformidade, contudo, é aplacada pelo compromisso assumido com a facção revoltosa. O Coronel Chicão Paiva é um dos fazendeiros empenhados em patrocinar a Revolução da qual resulta sua ruína econômica. Filhinho não compreende o que se passa. Vive em função do cotidiano da estância. Ignora outros horizontes que não sejam os da fazenda do pai e da cidade de Águaclara. Seu mundo é limitado e não aspira conhecer outras paragens. Satisfaz-se com a rotina na qual se inscreve. Filhinho é o adolescente no pleno sentido da palavra: brincalhão, imaturo, inconsequente, isto é, sem as condições necessárias para substituir o pai no comando dos negócios da família e levar adiante os ideais da sua classe. Certamente não abdica de algumas características dos representantes da classe social a que pertence. Por exemplo, na relação entre Filhinho e Siá Dona fica evidenciado um certo “senso de classe” da parte do personagem. Siá Dona representa um tipo de mulher, aliás frequente naquele meio social àquela época. Ao chegar a uma certa idade o varão tinha ao seu dispor uma criada que deveria iniciá-lo sexualmente. Apesar de procurar os favores da criada, ele distingue perfeitamente que ela não é a mulher ideal, ou seja, não corresponde a certos cânones aprovados pelo meio em que vive. “Siá Dona tem seus encantos (...) mas se um dia casar será diferente”. “Um dia que casar, vou casar com uma assim, bonita, branca”. (Laurita) (11). Dado o meio em que se desenrola a ação fica subentendido que uma mulher “branca” é, em última analise, uma mulher que pertence ao mesmo nível social.

O Coronel Chicão Paiva encarna o patriarca falido e decadente. Depois de ver seu patrimônio dilapidado por causa da guerra, teme uma derrocada ainda maior e cede o filho aos revolucionários no lugar dos cavalos requisitados. Sua doença e morte correspondem ao acaso dos homens da sua classe. Ao terminar a guerra, outros passaram a ter o poder. São justamente aqueles que enriquecem e engordam às custas da guerra, de qualquer guerra, e instauram um novo ciclo de dominação. São homens como Emerenciano Gamacho: “Quanto mais guerra tiver, mais rico ele fica” (12).

O relacionamento mais profundo é aquele que envolve Laurita e Filhinho e que beira o incesto. Este fato parece ser uma tentativa de manter a união da oligarquia em crise, um tentativa de coesão no sentido da autopreservação.

A guerra pouco representa para Filhinho. Limitado ao universo de Santa Flora e apegado à figura da irmã não tem noção dos nexos da guerra que acaba por transformar sua vida. Não entende o jogo econômico e político que movimenta homens e exércitos. A única certeza que tem é a de ter sido “trocado por cavalos”. Esta certeza fere-o profundamente e o adolescente transforma-se num adulto confuso e, em certos momentos, revoltado. A guerra devora-o, destroiseu caráter e arrasa seus valores mais caros. Debate-se entre a lembrança de Laurita e de seus dias em Santa Flora, e entre a realidade dos campos de batalha, dos acampamentos onde a sede, a fome e a carência quase absoluta bestializam os homens. Revoltar-se não adianta. A punição que recebe por ter-se rebelado serve apenas para demonstrar que o “inimigo” abriga em suas fileiras homens como ele, que são todos iguais, servem a uma causa que não lhe diz respeito – à causa dos realmente poderosos.


IV – Dois homens vão para a guerra
Quase trinta anos separam a publicação de O tempo e o vento (1949) da publicação de A prole do corvo (1978). Entre uma data e outra a historia tem a relatar grandes transformações.

Em 1949 está em pleno andamento a transição para uma civilização urbano-industrial em oposição à civilização agrária. Até aproximadamente a I Guerra Mundial a hegemonia política, decorrente do poder econômico, é exercida pelas oligarquias rurais. Estes grupos vivem da produção de alimentos que são exportados para as cidades da costa ou para o exterior. A recessão mundial, iniciada em 1929, prova a inviabilidade de um modelo econômico exclusivamente agrário-exportador. Com a Revolução de 30 acelera-se a decadência das oligarquias vinculadas àquela estrutura agrário exportadora. A elite proprietária recua ante o avanço da burguesia industrial. A industrialização processa-se de forma inexorável e, com ela, a urbanização com isto formam-se um proletariado urbano e uma classe média que se expandem rapidamente. Politicamente representam um eleitorado a ser capitalizado. Economicamente assumem importância primordial, uma vez que foram um mercado consumidor a ser conquistado. A burguesia industria e a classe média ditam as normas do jogo político em escala nacional pois mantêm entre si uma relação de inter-dependência: uma produz o que a outra consome. A classe média sustenta o capitalismo incipiente, e deve, portanto ver satisfeitas certas condições, dentre as quais, naturalmente, deter uma parcela do poder. Com esta aliança – burguesia industrial/classe média – reduz-se a níveis praticamente insignificantes a influência dos grupos oligárquico-rurais. E se representantes destes grupos assumem o poder em 1930 é tão somente em virtude da ausência de lideres vinculados à burguesia capitalista.

Há uma lógica no fato de uma obra que conta a historia de um grupo ser criada, justamente no momento da falência deste grupo. A literatura, neste caso, transforma “a mentira histórica (factual) na verdade artística que, em última instância, é também verdade histórica (cultural) em relação ao presente (1920-1960) do grupo e não em relação ao passado (...)” (13). Rodrigo, conforme já foi dito, é a síntese de uma tradição cultivada por este grupo. No contexto da obra ele é um dos “pais da Pátria”. Rodrigo confere ao grupo uma origem digna. É criado na plena aceitação dos valores culturais, éticos e ideológicos dominantes no grupo. Não propõe uma visão critica da sua situação, é uma tentativa de manter vivos os ideais da classe; é um passado que perde terreno para o novo, par o moderno.

Ao ser publicada A prole do corvo o panorama é bastante distinto daquele de 1949. A industrialização e a urbanização são fatos consumados. A sociedade, aos poucos, desperta de um largo período de letargia e a palavra de ordem é “crise”. E a crise envolve a todos: a um sistema pleno de contradições insolúveis, a uma classe média em pânico que, cada vez mais, se proletariza; a uma burguesia industrial que sofre a concorrência de oligopólios tentaculares. É numa situação de crise que se revisam valores, ideologias e a própria História com a preocupação de entender melhor o que está à volta. Num momento de crise não há lugar para milagres. Descobrem-se as tramas e para o homem comum resta a amarga certeza de ter sido enganado, espoliado, usado.



Analisando-se a obra pode-se verificar que estes elementos ali estão presentes. O contexto externo influi na obra literária e A prole do corvo é, antes de tudo, revisão e consciência critica. Por isso Filhinho não é um herói. Filhinho é o homem comum no meio da crise – é trocado por cavalos e envolvido numa guerra que não lhe diz nada. Filhinho não tem ideologia porque é vítima de uma estrutura autoritária (o pai e, depois, o exército). E as vítimas não têm ideologia.
A prole do corvo não exalta o passado. Lança-lhe um olhar distante e desapaixonado. Reencontra a verdade histórica ao lado da literatura. A Revolução Farroupilha, pano de fundo dos acontecimentos narrados na obra, em nada se identifica com a visão mitificada que a tradição louva com uma autêntica manifestação do espírito guerreiro e libertário dos gaúchos. “A Revolução Farroupilha, se relativamente clara para as elites conflitadas – que cedo ou tarde se ajustam na Santa Paz do Ponche Verde – é um desígnio insondável para o ser miserável e explorado que as mistificações folclóricas não cansam de enevoar como o alegre e irresponsável gaúcho” (14).
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) LOVE, Joseph L. O regionalismo gaúcho e as origens da Revolução de 30 Trad. Adalberto Marson. São Paulo, Perspectiva, 975. p.4

  1. LEITE, Lígia C. Moraes. Regionalismo e modernismo (o “caso” gaúcho). São Paulo. Ática, 1978. p. 148

  2. Idem. ibdem. P. 153

  3. DACANAL, José Hildebrando. Érico Veríssimo: notas para uma interpretação sociológica. In: Revista do Unificado. Porto Alegre, Curso pré-vestibular Unificado Ltda, 1 p. 14:17 nov. 1978.

  4. LEITE, Lígia c. Mooraes. Op. Cit. P.167.

  5. SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Getulio Vargas a Castelo Branco. Trad. Ismênia Tunes Dantas, coord. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975. p. 23.

  6. Idem. ibidem. P. 26

  7. VERÍSSIMO, Érico Lopes. O tempo e o vento. 7 ed. Porto Alegre, Globo, 1956. p.11.

  8. LEITE, Lígia C. Moraes. Op. Cit. P.57.

  9. Idem, ibidem. P. 57.

  10. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. A prole do corvo. Porto Alegre, Movimento. Instituto Estadual do Livro, 1978. p. 19.

  11. Idem, ibidem. P. 105.

  12. DACANAL, José Hildebrando. Op. Cit. P.17.

  13. GENRO, Tarso Fernando. A prole do corvo de Assis Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, 3 de jun. 1978. Caderno de Sábado. P. 11.



Correio do Povo, Porto Alegre, 2.jul.1979. Caderno de Sábado, p. 8.


O apocalipse do latifúndio
Antônio Hohlfeldt
O segundo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, A prole do corvo (1), dá continuidade, de certa forma, a uma ideia básica de desmistificação da história sul-rio-grandense que o escritor iniciou com o seu livro de estreia Um quarto de légua em quadro. Se no primeiro contestava-se a versão épica da viagem e instalação dos açorianos no Rio Grande do Sul, embora o escritor sequer tenha chegado a tocar na conflituosa questão dos interesses indígenas violados pelas coroas de Portugal e Espanha, como hoje em dia se violam os mesmos direitos em nome de interesses mais escusos ainda, neste segundo livro ele toca em outro tema difícil e considerado de maneira relativamente “sagrada” pelos defensores das tradições gauchescas, como é o caso da Revolução Farroupilha, irrompida de 1835 a 1845 no Rio Grande do Sul, e seu líder, Bento Gonçalves.
Pode-se considerar tanto a Um quarto de légua em quadro quanto a este novo livro como verdadeiras antiepopeias, o que, por si só, já diz da importância deste escritor, que contesta na base formal da estrutura estética, as tradições mais arraigadas e reacionárias. Mas se um “Quarto de Légua em Quadro” criava-se uma narrativa em torno da finalização de um universo colocado fora da geografia rio-grandense, que daquele herdaria apenas seus aspectos mais negativos e doentes (através do drama do médico cuja paixão o destrói), aqui temos também os conflitos finais de um universo em extinção, com a diferença de que este encontra-se situado dentro da geografia gauchesca, e refere-se diretamente à primeira grande derrota que o latifúndio sul-rio-grandense sofre, em sua historia, através da figura do Duque de Caxias. Mais do que isso, porém, Luiz Antonio mostra que a derrota se encontra dentro da própria estirpe dos caudilhos sul-rio-grandeses, com seus incestos, suas covardias transformadas em pseudo-lance de coragem e cavalheirismo, seus soldados de aluguel e tudo o mais. Por isso mesmo, não é de surpreender a ninguém que A prole do corvo construa-se em oito capítulos, sendo que, pelo título do último deles, a referência imediata que se tenha seja a da narrativa de São João, do Apocalipse. Efetivamente estamos ante uma historia apocalíptica, no sentido de que ele narra destruição de um mundo e de seus valores, simbolizada sobre tudo no incesto das relações fraternas de Filhinho com Laurita, à medida em que o marido desta, Diogo, desaparece, tragado pela guerra, o Coronel Chicão perde sua autoridade e sua força, após entregar o filho ao exército rebelde em troca da poupança de uns poucos cavalos (tal e qual, na Guerra do Paraguai, substituir-se-ão os filhos dos latifundiários por escravos que, caso regressem vivos, terão sua alforria). Diogo por seu lado, entrará para a política, ao final da narrativa, constituindo a nova classe de mandatários que, após a Revolução, assumirão os destinos da Província, e que serão os responsáveis pela criação das primeiras cercas e da delimitação concreta das primeiras propriedades, criando sérios problemas sociais, conforme observa acuradamente Carlos Dante de Moraes. Filhinho, por seu lado, destruído totalmente cederá o lugar de sua carniça para Bento, o filho mais moço, da mesma forma que num ciclo metafórico de substituições a violentação da louca, efetivada por Cássio, com a não intervenção – mas também sem a salvação de Filhinho – configura o seu sentimento de culpa quanto ao desejo que a irmã lhe inspira, e que aliás, também não se encontra longe dos desejos da Laurita o verdadeiro “homem” da casa. Neste sentido, devemos lembrar que Luiz Assis Brasil não contradiz a tese desenvolvida ao longo de todos os livros de “O tempo e o vento”, Por Érico Veríssimo com a diferença de que, em Assis Brasil as mulheres não são assim tão idealizadas nem tão virgens e puras quanto Érico as pintou, em certo momento, putrefazendo-se, ao contrario, na voragem das ações que se desencadeiam em seu redor. É de observar também que no caso romances de Assis Brasil a paisagem atua como um reflexo da degradação dos próprios personagens, e não é por nada que o romance, alternativamente nos capítulos impares, sempre traz respetitivamente, o nome da fazenda do Coronel Chicão, Santa Flora em nome de cuja salvação ele destroio próprio filho.

A prole do corvo permite uma dupla leitura: de um lado, a transformação e a destruição psicológica que ocorre em torno de Filhinho, chegando ao final inteiramente desestruturado, animalizado insensibilizado. A outra leitura possível é aquela que transparece através de dezenas de cenas cruamente narradas, ou de pequena observações do narrador ou dos personagens que representam a ideologia do autor, em que surge claramente sua condenação, não apenas a guerra em si, como a toda e qualquer violência. Curiosa – e significativa – literatura esta que através de seus mais importantes autores Érico Veríssimo, Cyro Martins, Josué Guimarães, Luiz Antonio de Assis Brasil, condena exatamente aquele elemento que pretensamente melhor caracterizou a vida da província, ao menos, segundo os estudos de Oliveira Viana, que foi o espírito guerreiro e a disponibilidade para a luta de nossos habitantes e construtores provinciais.

Sucessivamente, como principais episódios, temos:

capitulo 1 – a noticia da guerra, a recusa do marido à esposa, a partida para a guerra de Filhinho;

capitulo 2 – a integração do exército, apesar da ojeriza à violência e ao sangue. A morte de seu primeiro soldado;

capitulo 3 – a saída e abandono definitivos de Diogo à Laurita;

capitulo 4 – o encontro com Esperança (o nome da personagem louca, é fundamental para a inteligência do romance):

capitulo 5 – a missa que o sacerdote recusa rezar por um dos lados;

capitulo 6 – a violentação da mulher e a vitória;

capitulo 7 – a morte do Coronel Chicão e a assumição dos destinos da fazenda (propriedade) por parte de Laurita;

capitulo 8 – a prisão de Filhinho e o final da guerra.


Se seguirmos a mesma sequência dos sete selos do Apocalipse, teremos:

primeiro selo – a visão do cavalo branco e seu cavaleiro com o arco; a doação de uma coroa e a saída para a luta;

segundo selo – a saída do cavalo vermelho (morte), sendo dado ao cavaleiro o poder de tirar a paz do mundo e matar os homens;

terceiro selo – a saída do cavalo preto e seu cavaleiro com uma balança na mão, trocando objetos;

quarto selo – a saída do cavalo amarelo que espalha a fome, e que, evidentemente, significa também a loucura;

quinto selo – os mortos recebem vestes brancas e devem aguardar até que o número dos que devem morrer se complete (da mesma forma que o sacerdote rezará apenas se for por todos os mortos e não apenas pelos de um dos lados);

sexto selo – o terremoto derruba as estrelas do céu e tudo é movido na fase da terra, chegando o grande dia da destruição (na medida em que Filhinho, de maneira definitiva, rompe com seu passado, ao participar ou sentir-se responsável pela violentação da mulher);

sétimo selo – os anjos descem à terra, e através de suas trombetas anunciam a nova ordem (tal e qual a passagem da fazenda para as mãos de Laurita significa um novo destino para a propriedade).

O paralelismo entre uma e outra narrativa é possível, ocorra ela consciente ou inconscientemente ao escritor. Mais do que isso, porém, o Bambaquereré, Bento Gonçalves da Silva, surge como o destruidor de sua própria estirpe. É ele uma espécie de deus terrível – que cobra a sangue a manutenção da ordem latifundiária, terminando por destruir, pela esterilidade, pela violentação ou pela importência ou as relações cortadas, toda e qualquer continuidade possível da estirpe feudal que domina a terra rio-grandense. Por isso, e porque historicamente se sabe que Bento Gonçalves praticamente não ganhou uma única batalha durante os dez anos de rebelião, seus soldados constituem a ‘prole do corvo’, bicho negro, maldito, que semeia a morte por onde passa. O ‘bambaquereré’, que na linguagem negra designa um instrumento musical e um baile negro do período, tem sua historia também intimamente ligada à desordem, porque tais festanças normalmente acabavam em pagode, tal e qual as guerras do período degeneravam em matanças, como todos conhecemos das narrativas históricas.

Ao denunciar claramente a falsidade de profundas diferenças ideológicas entre os dois partidos (p. 153 e 154), na medida em que os dois grupos valorizavam a propriedade e as rendas (pode-se ver, a respeito, o livro de Moacyr Flores sobre o projeto político dos Farrapos). Luiz Assis Brasil desenha, em seu romance, também, decadência daquela estrutura social que repousava sobre o dinheiro e as rendas (2). Isso fica tanto mais claro quanto as contínuas indagações que Filhinho faz sobre quem afinal tem razão, “nós, os republicanos, ou os caramurus, esses desgraçados” (p. 32 e 34), jamais encontrando resposta satisfatória, nem mesmo do sacerdote a quem ele consulta.

Se, porém, Filhinho surge como personagem efeminado, e portanto deslocado no ambiente da fazenda, ante o machismo do pai, e mais deslocado ainda sentir-se-á nos primeiros tempos da guerra, aos poucos encontrará ele “seu” caminho, por certo não o melhor, mas ao menos um caminho, esquecendo-se de suas mãos esbranquiçadas, que num primeiro momento dão-lhe vergonha (p. 51), para adequar-se à violência e à desumanidade que o rodeia, quando se mata, apesar de tudo, para diminuir o sofrimento do soldado ferido (p. 60) ou apenas para poder livrar a própria pele (p. 70), embora tal situação lhe cause sempre um mal-estar e um sentimento de culpa contínuo: “E estou sentindo, matei o índio, não me conformo. Já imaginou, João Inácio, se ele tem uma irmã, que tá esperando ele, olhando todo o dia para cima da coxilha, com vontade que ele apareça com cavalo?” (p. 123).

Aos poucos, porém, Filhinho se transforma. Agora já é capaz de reconhecer suas próprias dimensões, e o romancista traduz esta evolução através da apreensão de cheiros e aspectos físicos de que a personagem se dá conta: “A seus pés um lugar seco – aqui dormi, esta é a marca do meu corpo. Está espantado, nunca pensou que ocupava lugar no espaço, uma vez até disse para Laurita que se achava feito de pano, e não de carne”. (p. 142).

Soldado e demônio apocalíptico, também ele, para sobreviver, não tem como escapar à sina de violência contra si e os que o rodeiam, e a conclusão é só uma: “As tralhas. Enfia dentro de um saco de lona uma bonbacha rasgada no fundilho, um par de esporas e o rebenque. Percebe que não tem mais nada de Santa Flora. Tudo é novo, tudo é da guerra, nada é seu. (...) Força a ideia, quer lembrar-se da mulher que o fita com desespero e esperança. Nada. A fisionomia é muito vaga, só um rosto perdido, de grandes olhos” (p. 143). Depois da experiência da mudança, sua consciência: “A guerra muda as criaturas. Logo depois da incorporação, faz um ano e meio, te via assustado, cheio de espanto, procurando imitar o que os outros faziam” (p. 164), e a partir daí, o encontro consigo próprio é também o encontro com um outro Filhinho, “lá vamos nós atrás dos imperiais, vale dizer, eu vou atrás de mim mesmo, não é engraçado?” (p. 167), culminado na loucura final, quando Filhinho descobre que será substituído pelo irmão mais moço, Bento. Note-se que alguns dos momentos mais significativos da literatura brasileira têm tido a loucura como enfoque básico: Machado de Assis é o primeiro deles, e este enfoque reduz-se a uma dedução bem objetiva: a importância da personagem ante o conflito social que a envolve, e que a destroiindividualmente. Neste sentido, a obra de Luiz Antonio de Assis Brasil aprofunda um rico veio da ficção brasileira, que a crítica ainda pouco explorou, mas que, talvez mais do que muitos outros, reflete com maturidade e experiência nacional de importância histórica em que temos estado mergulhados desde 1500.

Amando a vida como um animal (p. 15), Filhinho é condenado à morte em nome da defesa da propriedade, que ele próprio, em última análise não mais poderá gozar, como o seu próprio pai não o conseguiu, e certamente nem mesmo o outro irmão o poderá. Como demonstra com clarividência Leôncio Basbaum, a propriedade destroiseu proprietário (3), e nada há que se possa fazer para impedi-lo.




  1. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de – A prole do corvo, Editora Movimento, Porto Alegre .1978

  2. Flores, Moacyr – O Modelo político dos Farrapos, Editora Mercado Aberto. Porto Alegre. 1979

  3. BASBAUM, Leôncio – Alienação e Humanismo, Editora Símbolo. São Paulo. 1977

Correio do Povo, Porto Alegre, 2.ago.1980. Caderno de Sábado, p. 5.

Luiz Antonio de Assis Brasil
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