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Um contador de História à moda gaúcha

Regina Dalcastagnè*


Há dois anos o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil reerguia, com suas próprias ferramentas, um castelo que um antepassado seu havia construído em meio ao pampa do século passado. Dentro dele, confinou amarguras, medos e desejos. Para representar o drama, convocou grandes personagens, deu vida e mistério a cada uma delas, fez com que o leitor se apaixonasse pela sua história aristocrática e sofisticada, ao mesmo tempo em que triste e mesquinha. Perversas famílias foi o que de mais significativo se produziu na literatura brasileira em 1992. Ao terminar o romance, ficava a expectativa, alimentada pela promessa do autor, de que a história do Dr. Olímpio e sua família iria progredir. Agora, finalmente, os temos de volta.

Pedra da memória, segundo volume da trilogia Um castelo no pampa, é um convite à bisbilhotice. Não há como resistir à sensação de querer saber mais sobre os habitantes do castelo quando suas portas se mostram escandalosamente abertas.

Nesse romance que, como o outro, é composto por várias linhas narrativas cronologicamente embaralhadas, vivem, basicamente, as mesmas personagens. Estão ali o jovem, depois o velho republicano gaúcho, sua esposa (um condessa austríaca), seus três filhos, o irmão bastardo e bêbado, e o pequeno neto que vai crescendo  um olhar novo e irrequieto sobre aquilo que se transforma na decadente aristocracia do Rio Grande do Sul. São os mesmos, mas já não são os mesmos. Em Perversas famílias, eles eram circunspectos, infelizes, soberbos e misteriosos. Desfilavam suas emoções com uma grandeza operística. Luiz Antonio de Assis Brasil os amesquinhou neste último romance. Não transformou suas personalidades, nem seu jeito de ver o mundo ou sonhá-lo. Apenas nos fez chegar mais perto deles, de sua vidinha ordinária, seu cotidiano indigesto. Em suma, os fez desgraçadamente humanos, destruindo-lhes a máscara do mistério. Assim Pedra da memória não possui a grandeza do livro que o antecede, mas, de uma nova maneira, é irresistível.

Narrador  Luiz Antonio de Assis Brasil é um narrador como poucos no País. Com perfeito domínio da palavra, não faz estilo, conta histórias. Segue o exemplo de um mestre, o conterrâneo Erico Verissimo, que guardou dentro de sua obra um pouco da história e da alma do povo gaúcho. Assis Brasil desenvolve essa linha com independência e originalidade. Esses volumes iniciais de sua trilogia (que na verdade é um romance em três tomos, uma vez que dificilmente se poderia ler Pedra da memória sem ter lido antes Perversas famílias), o aproximam desde já de nomes como João Ubaldo Ribeiro e Autran Dourado, autores que produziram obras-primas graças à arte do bem narrar e que também encontraram na História do Brasil o alimento para suas tramas. Sem malabarismos estilísticos, o texto do romancista gaúcho tem graça e sabor, equilibra bem a ironia e o referencial histórico, possui elegância, enfim.

Pedra da memória tem os mesmos ingredientes de Perversas famílias, mas numa dosagem diferente  o que dá nova envergadura às personagens. Um dos pontos altos do livro é o momento em que o Dr. Olímpio e a Condessa recebem em seu suntuoso castelo um líder revolucionário e seus homens, todos sujos e maltrapilhos. O contraste entre os móveis e modos luxuosos  e importados  dos proprietários e os gestos grosseiros dos combatentes dá conta de uma diferença ainda maior: ali, frente a frente, se encontravam duas mentalidades opostas. Assis Brasil mostra justamente isso em seus dois romances  a convivência de um rio Grande do Sul sangrento e rude, com o outro, muito fino e sofisticado, onde se discutia arte em francês e se recebia com todas as pompas da aristocracia europeia. E mostra, também, o quanto esse Rio Grande dependia do primeiro.

Biografia  entendendo-se essa relação, cresce ainda mais a a personagem Dr. Olímpio  que, se no primeiro livro aparece como um homem constrangido pela sua própria grandeza e no segundo deixa-se entrever como um sujeito mesquinho e oportunista, no cômputo geral surge como um homem dividido, que pauta sua existência por sua biografia futura. Preso desde cedo, e por opção própria à posteridade, só lhe resta arcar com sua escolha e passar o resto da vida pronunciando frases ensaiadas e exibindo gestos grandiloquentes. Seja diante dos colegas republicanos, seja frente à esposa  que combina tão bem com o castelo  junto aos filhos ao à amante, sua postura é sempre a do grande homem, preocupado com o destino nacional e com o ideal de liberdade.

A contrapartida a esse discurso vai aparecendo aos poucos, nos corredores do castelo, nos quartos, no universo privado que contamina o livro e lhe dá densidade. É ali, nos pequenos dramas individuais, na dor cotidiana, que a vida se esconde, se camufla, até o momento em que o espaço acaba e surge então a tragédia. Fraquezas, vícios, medos, tudo toma proporções gigantescas dentro do grande teatro que é o castelo, e acaba por minar suas estruturas. O observador final desse processo é Páris  neto do Dr. Olímpio e dono de uma linha narrativa própria, na primeira pessoa, feita com um humor cáustico e uma ironia hilariante. Na verdade, é a partir dele, da sua curiosidade de menino e adolescente que a vida vai aflorando, se fazendo de novo em meio às paredes de pedras do castelo. Páris é mesmo símbolo e representação da vida junto àquilo que, como encenação, não passava de uma impostura.

Escola de medicina  Como em Perversas famílias, Pedra da memória mistura a suas personagens, vez ou outra, personalidades políticas do Rio Grande do Sul e do Brasil. Nem sempre a integração desses com o elenco restante do livro se dá de forma totalmente satisfatória. Alguns de seus diálogos são duros, empostados demais, marcando uma diferença significativa entre a ficção e a história. O autor parece mais à vontade quando manipula nomes menores, chefes revolucionários de importância local do que quando põe em cena figurões como Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos ou Rui Barbosa. Mas isso não chega a comprometer o prazer da leitura, que se renova a cada página virada.

Além de Páris e do Dr. Olímpio, evidentes protagonistas da trama, Proteu  o filho do Doutor  vive seu momento alto em Pedra da memória. No livro anterior ele aparecia como o menino amargurado e o adulto suicida, uma figura envolvida pela tragédia e pela dor. Aqui, seus dramas se delinearam e oferecem um dos mais belos episódios do romance: sua passagem pela escola de Medicina, com o malogrado affair romântico com uma colega. Se Proteu é só sofrimento e conflitos, Páris é seu contraponto, Possui toda a resolução e humor que faltavam ao tio e, com isso, segue vivendo como uma das mais encantadoras personagens da literatura brasileira.


Correio Braziliense, Brasília, 04.mai.1994. p. 5
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*Regina Dalcastagnè é Doutora em Literatura Brasileira e Professora da Universidade de Brasília.



De tempos, ventos e castelos
Volnyr Santos

UM MODO DE VER – Há uma famosa frase de Jacques Lacan na qual ele diz que “quando, no amor, peço um olhar, jamais me olhas lá de onde te vejo... o que eu olho não é jamais o que eu penso ver”. Se a citação não é pertinente, a ideia que dela se extraí o é, pois é a partir do modo de ver as coisas que interessa discutir alguns aspectos que envolvem a literatura produzida no Rio Grande do Sul, localizadamente, em face da obra maior de Érico Veríssimo, o imenso painel representado por O tempo e o vento, enfocando a formação histórica do Rio Grande do Sul, num paralelo com Um castelo no pampa, de Luiz Antonio de Assis Brasil, que retrata, a seu modo, as contradições histórico - políticas do homem rio-grandense-do-sul.



Um modo de ver, eis o problema que torna espinhosa a representação dos fatos, quando se trata de estabelecer procedimentos narrativos, na medida em que esse modo de ver é que define não só o espaço que condiciona os eventos narrados, mas também dá qualidade à perspectiva ideológica do texto, acrescentando-lhe aspectos valorativos.

A QUESTÃO HISTÓRICA NA LITERATURA – No século XIX, Walter Scott deu vida ao romance histórico, querendo isso significar o aproveitamento da História como elemento da narrativa. A noção de passado, no entanto, embora não perca de vista a textualização de uma memória que põe frente a frente o homem e seu tempo, possibilita a representação da realidade sob outro prisma, circunstancia que dá ao escritor as condições de manipulação do acontecimento histórico com o fim de transformá-lo em matéria ficcional. Com esse objetivo, a História tem servido como dado para a recriação da realidade, o que vale dizer que o escritor processa a elaboração de uma supra-realidade e, ao contrario da História, registra os acontecimentos metaforicamente.

O problema da questão histórica na literatura é antigo. Daniel Defoe, no século XVII, ao referir-se a Homero, diz que esse autor grego foi um grande transgressor, já que suas obras são documentos históricos insubstituíveis. Sem ele, nada saberíamos sobre o cerco de Tróia; no entanto, diz Defoe que não conhecemos com segurança os fatos, podendo tudo não passar de histórias inventadas pelos cantadores de baladas.

Para evidenciar a complexidade do tema em pauta, lembremos a passagem em que Érico Veríssimo, manifestando-se sobre a história do Rio Grande do Sul, diz, em Solo de clarineta, que “a verdade sobre o passado do Rio Grande do Sul devia ser mais viva e mais bela do que a sua mitologia”. Lendo-se O tempo e o vento, especialmente no volume O continente, percebe-se uma tentativa de desmistificação que se revela contraditória: o capitão Rodrigo tipifica, mais do que tudo, a tradição de macheza do homem sulino naquilo que ela presumivelmente tem de heróica, isto é, um misto de coragem, violência e uma dose relativa de moral, qualidades já apontada pelo crítico Flávio Loureiro Chaves.

A TRADIÇÃO GAÚCHA – A literatura que se produz no Rio Grande do Sul, em face do caráter particular que assume no contexto histórico (colonização parcial, o passado mítico, condicionamentos fronteiriços), não pode ficar isenta das questões ligadas à tradição. Desse modo, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e Um castelo no pampa, de Luiz Antonio de Assis Brasil, são narrativas que, embora distanciadas quanto ao tempo de publicação, tratam do problema histórico sob perspectiva semelhante. Simplificando essa analogia, pode-se dizer que (a) os dois autores lidam com o presente em contraposição ao passado; (b) a narrativa é parcelada em três volumes, a fim de abarcar adequadamente o lapso de tempo narrado; (c) em ambos os livros, duas noções temporais convivem: a da narrativa e a da narração; (d) nos dois casos, há uma preocupação com a (i) legitimidade da História.

O que importa ressaltar, no entanto, é o fato de que, tratando de questões literárias de natureza semelhante (o que leva muitas vezes a generalizações inadequadas), esses dois escritores gaúchos apresentam procedimentos distintos não só quanto à matéria histórica e a sua transformação ficcional, mas, basicamente, quanto ao modo de ver os fatos, isto é, a posição em que se situa o narrador com a consequente focalização que o texto, por isso mesmo, revela, seja no aspecto psicológico, ético ou ideológico.

É em razão da perspectiva narrativa que se propõem questões significativas do texto, na medida em que o escritor, porque pretende apresentar aspectos diferenciados da história, atualiza várias “vozes” no texto, segundo o caráter de personagens ou mesmo o interesse que esse mesmo personagem pode suscitar.

Nesse dado parece residir um ponto essencial de diferenciação da obra dos autores citados. Enquanto Érico Veríssimo constroiuma narrativa na qual os personagens, enquadrados numa perspectiva dramática, são mostrados na sua horizontalidade telúrica (o que ocorre especialmente no volume O continente), o texto de Luiz Antonio de Assis Brasil revela-se justamente pela diversidade com que enriquece o discurso narrativo, apresentando uma complexidade tal, que o crítico Wilson Martins, ao analisar o conjunto da obra desse escritor, afirma que ele “tornou mais difícil a arte do romance entre nós – e a arte da leitura, porque, para saber lê-lo, é preciso dispor da correspondente complexidade intelectual que, em primeiro lugar, lhe permitiu escrevê-los...”.

Noutras palavras, os romances abordados apresentam perspectivas diferenciadas, de tal modo que é possível avançar uma ideia: o texto de Luiz Antonio de Assis Brasil parece indicar uma preocupação maior com o narrador, esse “ser de papel”, segundo Roland Barthes. Acrescente-se que é o narrador uma exigência estética capaz de dar ao escritor as condições ideais para a expressão de sua visão de mundo.

PLURIDISCURSIVIDADE – O romance Um castelo no pampa não é uma narrativa que se dá facilmente à leitura. Escrito em função de um projeto que se vai fazendo na exata proporção em que consolida não só a questão geográfica (o castelo está edificado no pampa gaúcho e é em razão dele e sua localização que os fatos se dão), a configuração da problemática humana, assim como a sutil definição dos dramas que, em função disso, irão desenvolver-se. Ora, para que esses elementos possam ser concretizados, o Autor necessita manipular um espectro muito amplo da sociedade, circunstância a que os recursos clássicos do romance parecem não responder. É, por isso, pelo assedio e outras soluções de técnica e de linguagem que Assis Brasil vai reorganizar o mundo narrado.

Esse quadro de grandes dimensões antropossociais só pode ser visualizado se o narrador, prismaticamente, deslocar o foco de seu olhar para variados discursos, objetivando a harmonização do texto. Essa postura narrativa pode ser entendida a partir das reflexões do teórico M. Bakhtin que afirma que “em cada momento preciso de sua existência histórica, a linguagem é totalmente pluridiscursiva”, isto é, a língua traz sempre, em sua concepção, a voz do outro, a intenção e o ponto de vista do outro, indicando, portanto, que a língua jamais é única.

No romance Um castelo no pampa, a discursividade surge como um modo de tratar o personagem, o espaço e o narrador. Disso resulta que o texto, visto sob essa perspectiva, encaminha não só sua compreensão, mas, igualmente, sua apreensão estética para um plano em que, diferentemente do chamado romance convencional, no qual à concepção horizontal da trama corresponde uma linguagem e um estilo conformes com os padrões consagrados, Assis Brasil dá-se o direito de posse da linguagem distanciando-se dela, ainda que encoberto por ela.

A HISTÓRIA COMO PROBLEMA – É possível dizer que, em relação a Érico Veríssimo e Luiz Antonio de Assis Brasil, nos respectivos romances, remetem a leitura para uma perspectiva da História, a qual, embora contida no tempo e no espaço, transforma-se em discurso (entenda-se: discurso no sentido literário), envolvendo pessoas e acontecimentos que não deixam de lado a possibilidade de uma interpretação – digamos – heróica.

Nesse aspecto, o romance de Érico Veríssimo, em razão do modo como constroio discurso, alcança talvez maior dimensão épica, fato que, se lhe dá, por um lado, certa destinação estilística, retira-lhe, por outro, a intensidade da linguagem como instrumento de criação estética.

O crítico Antônio Olinto, ao analisar O tempo e o vento, enfatiza a circunstância de Érico Veríssimo haver usado, como técnica narrativa, o contraponto, recurso que assume às vezes a terceira pessoa e outras vezes a primeira pessoa. Lembra, ainda, o citado crítico o fato de ser essa técnica um recurso facilitador nas narrativas de grande extensão, como é o caso desse romance marcado por grande número de personagens, de planos e de acontecimentos.

Se o uso do contraponto resolve o problema da ação de personagens, dificulta, no entanto, o problema da focalização, na medida em que, ao privilegiar essa disposição literária, o narrador não pode fugir de uma atitude demiúrgica, agindo soberanamente em relação aos eventos, aos personagens, ao tempo e as situações relatadas.

Se o raciocínio é correto e se, na perspectiva narrativa se assenta a ideia de que é por ela que passa a questão ideológica (leia-se: os sistemas de pensamento uma situação de confronto), acrescenta-se, então, que o texto de Veríssimo, de certo modo, reproduz a questão do passado sobre o ponto de vista épico, o que fatalmente reforça uma tradição que não se sustenta historicamente.

Com Assis Brasil, o problema é inverso. Um castelo no pampa, alegoricamente, recupera um Rio Grande do Sul histórico, é verdade; na realidade, porém, o que permanece é a contradição que o mundo alegórico realça cuja representação se dá pelo confronto das linguagens.

MATÉRIA PARA REFLEXÃO – Sabe-se que o conflito é um processo endêmico em qualquer estrutura social e, necessariamente, não se apresenta de modo violento. No entanto, em face do precário nível de desenvolvimento e de participação da sociedade brasileira, têm-se gerado situações em que a violência se mostra como um único recurso na superação de conflitos os quais, resolvidos, buscam alcançar garantias de legitimação do poder.

No Brasil republicano, momento em que, teoricamente, o equilíbrio social se faz à imagem do equilíbrio individual, o Rio Grande do Sul parece não acompanhar esse processo. Contrariando, de certo modo, o racionalismo e o avanço que o momento histórico enseja, manifesta-se profundo desrespeito pela condição humana através da instituição da degola, processo no qual a punição pela derrota1(!) é ter a própria garganta cortada. (Analisando a aberração dos campos de extermínio nazista, diz T. Adorno que esse momento absolutamente irracional da condição humana se deve, antes de tudo, ao progresso e não, como poderia se pensar, à ausência de desenvolvimento, já que, no espaço da cultura ocidental, razão, ciência e tecnologia traíram o homem).

O absurdo que a degola representa vai merecer, em Pedra da memória, segundo volume da série, um extraordinário tratamento estético. Metamorfoseando o fato político pelo adequado simbolismo da linguagem, Assis Brasil reitera, de certa maneira, a afirmação de Goethe de que a arte não surge do nada; ela irrompe do caos. Com esse sentido, o romance reconstroiuma grotesca alegoria sobre a violência na qual o lado trágico da vida aparece de forma reflexa: o terror é a impiedade funcionam como contraponto do deboche e do riso.

OUTRAS VOZES – Se o ambiente em que transitam os habitantes de Um castelo no pampa é refinado e revelador do poder de que se reveste aqueles que, em certo sentido, “falam” pelas demais vozes que ressoam na vida social cotidiana; se algumas vozes são dos que ocupam lugares historicamente privilegiados, também é verdade que há “outras vozes” que participam do jogo da linguagem.

Entre os vários serviçais que “falam” no romance, o jardineiro Jones é modelar. No trajeto de degolador a jardineiro, Jones possibilita a emergência de duas leituras: aquela que trata, mais uma vez, da violência, mostrando que esse exercício não é privilégio dos que têm o poder político; numa segunda relação, o personagem sugere aquilatar a importância da “fala” nesse confronto da linguagem de que fala Bakhtin.

Não é estranho que o jardineiro se chame Jones, aliás, Joaquim Eleutério da Silva, e engrole algumas poucas palavras em inglês; o que se nota é o fato de que o personagem está submetido às intenções secretas do Autor que, oculto nesse discurso do ‘outro”, pode falar ele próprio, pela palavra alheia, numa espécie de tácita solidariedade. Assim, são modelares duas situações: de passagem pela estância, um comerciante estrangeiro ouve o jardineiro falar em inglês. Disso o Autor faz o seguinte comentário: “... tornando-se um desses viajantes que escreveram livros a falarem da cultura dos gaúchos” (pág. 194), dado que evidencia uma perspectiva debochada sobre aquilo que sempre se disse sobre o gaúcho. Num outro momento, o parágrafo que encerra o capitulo, dedicado ao “jardineiro inglês” realça a decepção da Condessa: Jones morre sem nunca ter conseguido pronunciar a frase: “I’m Jones, the gardener”, (pág. 190).

CONCLUSÃO – O que se pode concluir no do que se foi exposto é que se trata de dois autores que, na criação de suas obras, obedecem a procedimentos aparentemente semelhantes os quais se revelam distintos, na medida em que suas motivações e seus objetivos estéticos são também diferentes.

Érico Veríssimo, ao criar o universo da formação histórica e social do Rio Grande do Sul, optou por fazer da linguagem um instrumento para contar, marcando assim sua perspectiva estética. Dentro da tradição do chamado romance de 30, O tempo e o vento reproduz, em maior ou menor grau, as características narrativas daquele momento histórico, entre as quais, no plano técnico, se situa a concomitância entre os fatos narrados e o tempo em que eles se dão, o que é uma forma de linearidade; tematicamente apresenta uma visão de mundo que pode ser chamada de ingênua, típica, aliás, das obras do período.

Já Luiz Antonio de Assis Brasil encaminha a questão narrativa para aspectos que a linguagem funciona como modulações diferentes, impondo ao texto perspectivas narrativas nas quais as referencias históricas são mostradas, antes de tudo pelo lado oposto, problematizando questões em que a linguagem, como técnica e jogo da elaboração literária, extrapola da pura possibilidade imaginaria para o plano das verdades universais, numa evidencia das contradições que se deram (e se dão) no contexto gaúcho.

Se Érico vê um Rio Grande (ainda) heróico, com Assis Brasil os heróis (já) morreram. Essa é a diferença.


1No Rio Grande do Sul, o processo de degola consistia em cortar a garganta do prisioneiro de orelha a orelha e não decapitá-lo.
Blau, Porto Alegre, Nº 05, ago. 1995, pág.8 e 9
Destino de mulher

Cecília Zokner


Perversas famílias, lançado em 1992, é o primeiro romance de uma anunciada trilogia  Um castelo no pampa  cujo autor, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, entre o ano de 1976 e o ano passado, já publicou: A prole do corvo, Bacia das almas, Manhã transfigurada, As virtudes da casa, O homem amoroso, Cães da Província e Videiras de cristal.

Apresentado pela Editora Mercado Aberto de Porto Alegre como um romance que “resgata um outro Rio Grande e um outro Brasil", suas quatrocentas páginas tem por eixo narrativo uma abastada família do extremo sul do país. Revelando seus dramas, situando-a em exatos momentos econômicos e políticos do Rio Grande do Sul, Luiz Antonio de Assis Brasil, entrelaçando ficção e realidade, alcança a síntese sedutora que permite descobrir aspectos de um abrangente itinerário nacional através de uma sugestiva fabulação.

Conduzindo uma narrativa de múltiplas vozes  como já o fizeram tantos autores do Continente  que se situam no tempo e no espaço em níveis distintos, o romancista instaura nela uma expressiva vivacidade que, no entanto, sabiamente se ameniza quando se detém em Plácida.

Como Camila de Manhã transfigurada, ou como Micaela de As virtudes da casa, Plácida é a remarcável criação de um inusual universo feminino.

Em idas eras, numa cidade provinciana, mulher rica e de frágil, saúde, ela aceita esse mundo ao qual pertence, o suficiente para se casar com aquele que a pretende, para ignorar o sítio onde passa a morar, "o estabelecimento charqueador", maculado por ossadas e odores fétidos, para ceder à vontade do marido e aceitar viver numa longínqua estância.

E, refugiada na música, na leitura dos românticos franceses, nos bordados, nas lembranças da adolescência, nos seus deveres feminis, deixa-se viver. Rodeada de luxo e de atenções, ela vive, como se a vida mal a tocasse e sem entender que a moléstia que a persegue nada mais é do que a linguagem que outrora fora abafada na sua sincera espontaneidade pelas pesadas normas sociais. As mesmas que mais tarde a devem prender, intocada, nos seus trajes de viuvez e que, então, ela irá infringir para obedecer a seu corpo que as carências fazem desfalecer em crises de dispneia. Infração, cujo ônus será em demasia: não se vê a salvo das sufocações; não é invadida pela felicidade; o que recebe das noites amorosas não anulam seus anseios.

As teias em que se enredou, em que foi enredada, foram implacáveis. Num caixão de ouro Plácida desce à terra, porque, transgressora, na terra não mais havia lugar para ela.

Na galeria feminina do romancista gaúcho, também é imagem poderosa. Mas infeliz e vencida.



O Estado do Paraná, Curitiba, Literatura do Continente.. 17Jan1993
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