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Menina Nini
Cecilia Zokner
Nos seis capítulos que constroem o que Luiz Antonio de Assis Brasil chama “o romance”, entremeados pelo monólogo que Páris continua sua história, iniciada em Perversas famílias (1992) e Pedra da memória (1994) os dois primeiros volumes da trilogia Um castelo no pampa, o Doutor Olímpio caminha para o declínio. Parlamentara, discutira, negociara, tergiversara, buscando conduzir a história do país. Universo masculino feito de ambições, jogo de poder e de palavras no qual a mulher permanece alheia. Assim, ou ela se enclausura nos seus princípios e infelicidades ou se deixa prender no exercício da religião. Se desabrocha é porque assim lhe é permitido: “Ah... tudo é bem organizado, neste mundo: um homem admirável tem mulheres espantosas. Ele dá a elas a possibilidade de desenvolverem até o mais alto grau todas as potencialidades nobres de seu sexo, as quais perante um bronco qualquer ficariam esquecidas”, conclui o Doutor Olímpio, talvez com sabedoria nesse espaço e nesse momento em que vive.

Menina Nini, filha de conde, submetida ao casamento, como todas. E como todas ficou até o instante em que entendeu, muito além da patriarcal ordem estabelecida, que a vida poderia oferecer muito mais. Foi quando “teve uma iluminação tão repentina e forte que a estonteou por sua verdade: um dia aquele homem seria seu”.

Assim como soube que, mais dia, menos dia, seria pedida em casamento e que aceitaria o pedido, mais tarde compreendeu que o homem que desejava era outro. E se dispôs a uma espera alimentada de pequenos nadas enquanto ela, filha de uma devota e de um nobre, conhecedora de todos os rituais de sua classe, foi se preparando para ser, apenas, feliz. Nesse lavrar de seu destino, a ignorar sempre os outros mundos que lhe estavam próximos, lento e espontâneo se faz um esplêndido tipo feminino, fremente de vida. E, assim, irrompe entre as páginas de Os senhores do século para dar vida a essas outras que mornas e descoloridas dão conta de conchavos e de homens dominados pela retórica e pela ânsia de domínio.
O Estado do Paraná, Curitiba, 12.nov.1995.


Os pardais (I)
Cecilia Zokner
A república havia apenas se instalado e o Dr. Olímpio, Embaixador do Brasil em Viena, sob a neve de um mês de março, diz de suas intenções de levar pardais para o Rio Grande do Sul: “Os pardais vienenses dão um chique à paisagem, um requinte...”. E sob o som da Valsa dos Patinadores, toma chá e degusta uma fatia da torta Sacher num ritual diferente daquele que sempre havia sido o seu lá nas suas terras do sul do país o que parecia imperdoável para Silva Jardim. Também personagem de Luiz Antonio de Assis Brasil, neste Pedra da memória (Mercado Aberto, 1994), ele observa, impiedoso: “E agora você bebe chá e come torta... Você, um gaúcho macho”.

O Dr. Olímpio considera que o amigo está um tanto quanto “amargo” mas, certamente, isto de “carimbar passaportes e frequentar bailes”, o entedia. E, saber que no Brasil, se luta pelos “despojos da República” o faz decidir-se a voltar.

Enquanto sua mulher dá ordens para que sejam engradados os móveis e empacotada a baixela, a louça e a roupa de cama, ele manda fazer uma gaiola de dois metros por dois, cúbica, para conter uma centena de pardais. Com o imprevisto de ter um dono, eles fazem a longa viagem por terra e por mar até a liberdade dos campos que irão invadir e povoar, sem contudo, modificar-lhes os contornos em revoadas pelos campos, em ninhos pelas praças.

O narrador de Pedra da memória diz que alegravam as cidades “com seu canto altamente europeu”. Presença que seu personagem quer transplantar para que aqueles índios “habitantes dos pampas se tornem mais civilizados”.

Porque, na confeitaria iluminada, onde se misturam os sons da música de Strauss e o tilintar das porcelanas, ele pode se permitir divagações: “quando comparo isto com a selvageria dos nossos hábitos, com a ausência dos pardais, com os nossos barbudos revolucionários gaúchos, com as degolas, com os combates nas coxilhas empapadas de sangue...”

Mas os pequenos pássaros migrados não foram para os da terra, tão inocentes e eles não souberam ver neles as propaladas qualidades. Assim, houve quem tentasse matá-los a tiros de chumbo, alegando que destruíam as colheitas e houve quem dissesse serem uma praga, “a praga dos pardais”.

Mas, dono de muitas terras e de todos esses direitos e poderes que a riqueza outorga, o Dr. Olimpio podia, também atribuir-se razões: “Um dia me agradecerão de joelhos, ao comparar os pardais com essas rudes aves do pampa...".

Foi cognominado, ele um republicano, o Rei dos pardais.


O Estado do Paraná, Curitiba, 24.dez.1995.

Pequenas - grandes vidas
Cecília Zokner
“Morreu trinta anos depois, sem filhos e sem homem (...)”. Zulmira Pacheco, a cozinheira.

No romance Pedra da memória, um capítulo lhe é dedicado.

Viera para um cabaré-restaurante do porto de Rio Grande e lá exercia a mais antiga das profissões. Por não aceitar excentricidades de um comandante holandês foi, de co­mum acordo com o patrão, para a cozinha fritar peixe. O co­meço de um aperfeiçoamento que a levou, primeiro para a cozi­nha do melhor hotel da cidade e daí para o Castelo da Con­dessa. O Castelo que dá título à trilogia de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um castelo no pampa, da qual a Mercado Aberto de Porto Alegre já publicou, em 1992, Perversas famílias e, neste ano, Pedra da memória, título originado em Vitorino Ne­mésio e Carlos Drummond de Andrade, cujos versos são citados em epígrafe.

Na primeira página é narrada a vinda do Dou­tor Olímpio a um Rio de Janeiro recém republicano. Nas de­mais, a sua trajetória política no Rio Grande do Sul, divi­dido entre republicanos e federalistas.

Interrompem, muitas vezes, o narrador, as me­mórias de Proteu, a voz de Astor que se dirige a dois inter­locutores para contar-lhes suas múltiplas aventuras e, tam­bém, a de Páris no registro de momentos de sua vida.

Entremeadas a essas narrativas, as que tratam do que o Editor chama de “pequenas-grandes vidas dos servi­çais do Castelo”: a da copeira, a do jardineiro, a da gover­nanta, a da cozinheira.

Pequenas vidas somente justificadas por vive­rem a serviço das outras, “as grandes”, assim tidas porque amparadas em imensas fortunas latifundiárias. Daí o constar nesses esboços de biografia, essencialmente, o aprendizado útil que, partindo de circuns­tâncias eventuais, vai se concretizando.

Atingem apreciáveis qualidades. A copeira até a dizer “Mesdames et messieurs, le diner est servi”; o jardi­neiro a adaptar tulipas ao clima do país; a cozinheira apren­dendo por si mesma “a fazer massa folhada, essa coisa temerá­ria e improvável, apenas acessível a quem atinge os píncaros da ciência culinária”. Aptos, portanto, a repetirem os rituais euro­peus, introduzidos pela Condessa austríaca nesse pedaço do país onde veio parar.

No ritmo do romance, são capítulos que se constituem em pausas entre esses episódios que, sem obedecer or­dens cronológicas, os narradores vão acrescentando cada um a seu modo e que, embora na aparência independentes uns dos ou­tros, refazem, no mundo ficcional, uma interpretação da His­tória do Rio Grande do Sul.

Pedra da memória é, assim, um interrogar-se sobre o passado rio-grandense, um questionar-se sobre a elite que o conduziu, um permitir-se notar essas vidas menores de imprescindível presença; também, uma procura estrutural na multifacetada voz que, em meandros, conduz a narrativa.

Luiz Antonio de Assis Brasil inscreve este seu romance num Rio Grande do Sul que ainda se apresenta tão instigador como já o fora há décadas passadas para um Erico Verissimo de O tempo e o vento, ou para um Cyro Martins de Porteira fechada, reconhecidos antecessores, se assim consi­derada for, a homenagem que, em meio à narrativa, lhes é prestada.

E, tanto na sua obra de ficcionista como na Literatura do Rio Grande do Sul Pedra da memória é o conti­nuar de uma trajetória.
O Estado do Paraná, Curitiba, 16jan1994.

O menino Páris
Cecília Zokner

Introduzido por um longo título, o monólogo de Páris. Adulto, contrastando com suas atitudes perversas e de perplexidade infantil.

Menino expulso do colégio, ele chega na fazenda do avô, neto espúrio e visto pela primeira vez. Não sabe quem é, nem quem são os seus pais e tenta descobrir o mistério que lhe envolve as origens.

Um narrador onisciente relata essa chegada e seu olhar de espanto diante da vida que transcorre na casa que mal sabe também ser sua.

Depois, são os capítulos que na primeira pessoa, relatam o que ele pensa ou faz. Também um certo aprendizado diante do que vê e do que percebe e que lhe transmite uma visão sórdida da família e dos ambientes que irá descobrindo.

Relatos onde o anedótico apresenta muitas faces e do qual faz parte o folhetinesco, o drama, o tragicômico, o jocoso, o fantástico, o lírico.

É a busca de uma verdade escamoteada em nome das convenções que ele procura decifrar “nos entremeios das conversas”; é o olhar dominado pela imaginação, criando esdrúxulas situações; é a morte deixando vazios; é o conhecimento intempestivo e prematuro dos jogos sexuais; é o faceto exame dos animais no quartel; é esse aparecer dos mortos a conversar com os que ainda fazem parte dos vivos; e é esse sentir de menino criado sem pai nem mãe.

Ao todo, em Perversas famílias, primeiro volume da série Um castelo no pampa de Luiz Antonio de Assis Brasil (Mercado Aberto, Porto Alegre) são sete monólogos intercalados aos demais capítulos feitos de outros monólogos e de narrativas em segunda e em terceira pessoa.

O último que tem por título “Como um açougueiro entrou na minha consciência” é constituído de episódios tragicômicos cujo relato de criança se aproxima da crítica sarcástica às instituições. E de um extremo lirismo quando expressa a angústia de Páris diante do segredo, verdadeira muralha, que o impede de conhecer a própria história.

Diante do obstinado silêncio da tia Beatriz que dele se ocupa, a agride, grita e foge: “saí correndo porta a fora como se viesse perseguido por um enxame de marimbondos” diz no seu monólogo ao qual se insere, então, um narrador onisciente que toma a palavra “e Páris corria e chegava ao pátio e olhava para os lados, não tinha ideias, tinha, foi ao portão e galgou desesperado o portão de ferro e galgou e atingiu um leão e montado na fera secular”, voz substituída pela primeira pessoa do monólogo que, sem transição, retoma o relato: “bradei para todas as esquinas e praças de Pelotas que era um menino e que apenas procurava saber quem eu era e assim aos gritos fui chamando a atenção de todos e veio também Beatriz que coitada dizia o meu nome,”. Novamente, se interpõe o narrador onisciente: “e Páris então impôs condições para descer e Beatriz concordou sim” e outra vez o relato é retomado na primeira pessoa para dizer de seu sofrimento ao se dar conta de que todos, na cidade, já conheciam o que ele tanto queria saber e de seu desejo, súbito, de jamais chegar ao chão porque nunca mais seria o mesmo.

Importante, na construção do personagem cuja trajetória aventureira e rebelde irá continuar em Pedra da memória e em Os senhores do século, volumes que se seguem à Perversas famílias, o episódio que se impõe pelo dinamismo a ele conferido nessa intercalação de narradores e pela quebra da emoção contida na voz do menino quando interrompida pelo contar do narrador onisciente.

A esse recurso narrativo (que aparecerá, também, em outro monólogo de Páris que faz parte de Pedra da memória) irão se aliar, muitas vezes, a maestria do dizer, a força de algum personagem, o sábio entrelaçar das histórias. O bastante para fazer de Um castelo no pampa um romance cuja criatividade formal o torna não somente uma deleitosa leitura mas uma obra instigante e sedutora.


O Estado do Paraná, Curitiba, 30. jun. 1996

O doutor e o Coronel

Cecília Zokner

Talvez ou, quem sabe, certamente, outras pa­lavras e intenções possam ser lidas nas últimas linhas de Pedra da memória: ”...na cozinha, a governanta dá ordens para a próxima refeição: além das gaúchas costelas de ovelha, ela manda incluir, por determinação do Doutor, vários pratos da culinária do Brasil. De agora em diante farão parte de todas as mesas, banquetes, jantares do Castelo no Pampa”.

Republicano, ao voltar da Europa para um Bra­sil que se tornara republica às pressas, se vê marginalizado pelo Poder: ”O amigo deve voltar para o Rio Grande. Lá é o seu chão. A Republica precisará muito de seu formidável ta­lento...”, ordena um dos recentes ministros.

E, volta o Doutor Olímpio para recusar o go­verno do município que os novos administradores lhe oferecem sabendo, porém que seu destino é outro, maior, um destino na­cional.

No romance da trilogia Um castelo no pampa de Luiz Antonio de Assis Brasil (Mercado Aberto de Porto Ale­gre), esse destino não se concretiza.

Tampouco no Rio Grande ele encontra o seu lu­gar, opondo-se à política dos dirigentes e justifica-se, ar­gumentando que ajuda o país ao introduzir práticas modernas de criação de gado nas suas terras.

E, é em nome do progresso que irá deitar abaixo a velha casa da fazenda para construir o castelo, um estranho enclave que procura a civilização para abrigar uma verdadeira condessa austríaca.

Charlotte von Spiegel-Herb chega ao Porto de Rio Grande e após uma viagem de trem, finalmente à fazenda onde a esperam, além das homenagens com as cores da Áustria, uma fileira de empregadas com impecáveis uniformes brancos e ramos de rosas.

Mas a sua convicta certeza, ao se sentar à mesa para jantar de que “a arte da civilização prova-se no campo”, choca-se com a insolência da cozinheira que, explo­rando sua ignorância em coisas da terra, serve-lhe durante três dias, espinhaço duro de ovelha com pirão.

E foi, então, substituída por Zulmira Pacheco que se iniciara nas lides da cozinha num obscuro cabaré-restau­rante de Rio Grande e foi se aperfeiçoando até chegar à cozi­nheira do melhor hotel da cidade.

Hospedava estancieiros e políticos, exporta­dores de “charque, sebo e crina” e comandantes de navios es­trangeiros. O salão de refeições tinha espelho no teto e lus­tres de cristal. E Zulmira, na cozinha toda branca, passou a reinar no preparo dos peixes e frutos do mar, aprendendo no­vas receitas ora com os fregueses, ora inventando receitas próprias, aprendendo em livros ingleses e franceses que al­guém lia para ela e até, pagando a cozinheira mais velha para aprender a fazer massas.

No Castelo, onde chegou numa tarde de calor, se enterneceu ao ver a cozinha de azulejos portugueses e du­rante trinta anos nela pontificou “tão sábia que a lenda da Condessa por vezes confundia-se com a lenda de sua mesa”.

Os ensopados de ovelha que eram servidos ao Doutor haviam ficado para trás. Na mesa do Castelo passam a se mostrar guardanapos de linho, os pratos de porcelana, os cálices, os finger bowls. E o Doutor Olimpio e sua mulher jantavam, vestidos a rigor, na grande mesa.

Quando o coronel Nicácio Fagundes, com seus homens e seu estado maior solicita pouso é recebido por um Doutor Olímpio de fraque, cartola e luvas que não se ame­dronta com os quase dois metros de altura do outro vestido com poncho de lã e que reluta em se acomodar na biblioteca onde os tapetes e as porcelanas pertencem a outro universo. E quando o faz, suas botas embarradas “esmagam os delicados mo­tivos persas” e suas mãos se pousam no croché branquíssimo que protege os braços das poltronas.

Na mesa de jantar, o Coronel recomenda a seus homens “cuidado com a louça” e elogia “Muito bonito isso tudo”. Mas, quando chega a carne, eles dispensam os talheres e com as mãos a levam aos dentes.

A condessa os imita e com a ponta dos dedos leva um fiapo de carne à boca, vencida pelos costumes da terra.

“São selvagens mas pitorescos” lhe dissera o marido ao convidá-la para os conhecer. Foi o melhor que soube dizer sobre o Coronel que, pouco antes, recusando um vinho do Porto que lhe era oferecido pelo anfitrião, explicava: “Não posso beber quando meus homens estão lá fora passando frio.”

O Doutor talvez não tenha compreendido a frase embora ao passear a cavalo, pelas suas propriedades, com a mulher, sempre se vestisse como os gaúchos. Embora to­masse mate e reafirmasse sempre o seu amor pelo Rio Grande.

Mas, com certeza, um Rio Grande feito a sua medida e para lhe pertencer.


O Estado do Paraná, Curitiba, 4.set.1994.
A condessa

Cecilia Zokner

Olímpio Borges da Fonseca e Menezes era um republicano ferrenho, más, em pleno campo riograndense construiu um castelo medieval, “perigosamente rondando o mau gosto”. E casou com uma condessa austríaca.

No que o autor, Luiz Antonio de Assis Brasil chama uma série, Um castelo no pampa, composta de três romances (Perversas famílias, Pedra da memória, e Os senhores do século) é contada a sua história desde o dia em que nasceu até o momento de sua morte. Naturalmente, a ela se agregam muitas outras entre as quais a história da condessa: Charlotte von Spiegel-Herb, órfã, herdeira de propriedades nos arredores de Engelharststeten, perto da Hungria que visita, em Paris, a Exposição Universal.

Olímpio arrebata-se por ela e seu pedido de casamento é aceito com tal rapidez que o faz presumir tratar-se de uma condessa com as finanças arruinadas e na expectativa de um bom casamento. E o casamento se realiza – o noivo era rico pelos dois – e a traz para o Brasil onde sua vida acompanhará a de Olímpio, latifundiário e político e ela será uma presença nos três romances que formam Um castelo no pampa. Presença que se instala a partir de uma banal informação do narrador ou de um personagem (volta sozinha da Europa; não frequenta a sua casa na cidade; aperta a campainha para chamar a empregada; responde a alguém com uma ou duas palavras, por vezes definitivas; dá alguma ordem ou se presume que a tenha dado). Ou, a partir de um episódio complexo como o da visita da amante a seu marido no castelo ou aquele em que é relatada a sua morte. Mas, salvo o uso de um ou dois verbos pensou (“que logo teremos o outono”), decidiu (que ficaria no banho até o anoitecer), é um personagem perfeitamente construído do exterior, somente pelo olhar dos demais personagens ou muito breves referências do narrador.

Para Olímpio, quando a conhece em Paris, “sua magreza não é agressiva, antes diáfana”. Mais tarde a verá “bela”, “aristocrática”.

Para os frequentadores do Clube Comercial de Pelotas, ela é “seca, mais alta do que o marido”. O cunhado no teatro a enxerga “tesa, muito branca e magra” e para o filho Proteu a sua gravidez não chega a “dobrar a nobre verticalidade de um ser acostumado às elegâncias do espírito e do corpo”. E, assim, a encontra o marido ao voltar de uma de suas ausências: “ereta em sua dignidade, emoldurada pela buganvília”. E, assim a vê o neto Páris “vertical”, “tesa” e “magra” e assim, “esguia, pálida” a vê Antonia, a copeira. As mulheres observam-lhe os trajes no dia 1º de janeiro de 1900 quando se exibe em cetim “pesado e azul” e tules e rendas e bordados em ouro e gargantilha de pérolas e diamantes. A mãe de sua futura empregada a presume rica com seu colar de pérolas e para o pequeno cunhado é uma “jovem dama perfumada”. Impassível, sarcástica, preconceituosa, ela inquire, determina, ordena, se ocupa de seus bordados, seus pincéis, seus jogos de carta, reza, escuta rádio, coordena a legião de empregadas.

Poucas vezes é apanhada em uma emoção. Se indignada, fecha os olhos e comprime os lábios numa cólera surda. Sabe-se de sua “mágoa” pela incapacidade demonstrada pelo jardineiro em dizer, em inglês, após muitos anos de serviço “eu sou Jonas, o jardineiro”. Mas, se discute com o filho, se lhe escreve uma carta com queixas e reprimendas, se conversa com a cunhada sobre a filha doente, tudo isso ficará ausente da narrativa. Como também seus afetos. Ignora o cunhado, recebe os norte-americanos à distância e à distância permanece de sua única filha: “quando, quando, mamãe você me enxergará?” indaga Selene numa pergunta não formulada. Com o passar do tempo, se transformará. Os cabelos embranquecem, as mãos se cobrem de manchas escuras, as articulações enrijecem. Emagrece mais um pouco, passa a ler com óculos. E seu “adorável sotaque” se acentua. Bebe conhaque e fuma cigarrilhas cubanas. Já não corrige as empregadas, não adverte, não aconselha. Fascinada por Hitler, depois da derrota da Alemanha na Segunda Guerra, ela não mais sairá da Biblioteca.

Toda essa gama de informações sobre ela ao longo dos três romances não a deixa, porém, menos distante. Porque personagem talhado a partir de uma focalização externa, dela tudo se presume e muito se ignora.

Por algo de sua aparência, eventualmente por seu traje, por um hábito ou gesto ou expressão é que ela é dada a conhecer.

Nas páginas dos três romances, é uma figura esmaecida e guardando o mistério de suas motivações interiores. No entanto, é ricamente plena de significados que ultrapassam as simples funções e os simples perfis romanescos.

O Estado do Paraná, Curitiba, 12. jan.1997.

Dois mundos

Cecília Zokner


Houve um momento, na década de 70, em que a busca de um novo instrumento para o estudo do texto literário levou à análise semântica aplicada à descrição da sociedade.

No seu trabalho publicado na revista Littérature (Paris, 1971), “La description littéraire des structures sociales: essai d’une approche sémantique”, Ulrich Ricken mostra como o código de classificação social não se reduz às palavras como “pobre”, “rico”, “burguês” mas é feito, também, de expressões como “bem vestido”, “maltrapilho”, “faminto”, “o que janta bem”, etc.

Num conjunto vocabular assim constituído, os termos referentes aos diversos critérios de classificação social formam sub-códigos que, respectivamente, cobrem zonas equivalentes de diferenciação sócio-hierárquicas.

No seu romance Perversas famílias (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1992), Luiz Antonio de Assis Brasil narra as conflitantes relações de uma abastada família do sul do Brasil.

No castelo, um cenário de luxo e de requinte, instauram-se os rituais e entre eles o da mesa.

Como era de uso na corte austríaca (se assim for autorizado dizer a partir dos filmes que historiam a vida da Imperatriz Elizabete da Baviera), no castelo do pampa o cardápio mudava de acordo com o idioma permitido nesse dia. Nas terças e sextas feiras, porém, era dada a licença para falar português à mesa e não sendo desdenhada a cultura popular, eram servidos os “gordurosos quartos de ovelha” e o guisado com abóbora, alternando-se com os vol au vent e com os puddings.

Igualmente, só era permitido apresentar-se com um traje adequado e, assim, Páris, o neto recém chegado, primeiro teve que passar pelas mãos do alfaiate para, então, poder jantar com a família.

Recluído no seu quarto, levam-lhe arroz com feijão e um peito de frango numa simplicidade alheia ao que era servido para a família, mas encontrada na fazenda distante onde se comia pirão com um molho graxento ou rabada com batatas. Ou, num hotel de cidade pequena em que o cardápio era composto de carne assada, aipim duro e feijão com charque.

Uma dicotomia que se delineia com clareza: no castelo ou no palacete da cidade servem chocolate, torradas, leite com bolachinha Maria, bolo de milho e arroz doce, docinhos em travessa de porcelana, compotas, fios de ovos, ambrosias, bem casados, refrescos, café, vinho do porto.

Baixelas são usadas e cristais e guardanapos com monogramas presos em argolas de prata, candelabros e um serviço inglês – Wood & Sons Ltd, Burslem – para o cotidiano em que rosas pequenas e margaridas brancas e uma borda fininha e negra marcavam cada peça: a sopeira, as legumeiras, as travessas.

Aos domingos, o almoço era servido numa louça da Companhia das Índias onde borboletas “adejavam, coloridas, num campo rouge de fer sobre dourado” perto do brasão da família a que a louça pertencera antes de ser vendida, num leilão, em Lisboa, para esse brasileiro rico que se rodeava de luxo estrangeiro: do lustre aos tapetes.

Um requinte ou um pseudo requinte que é estendido à mesa. Antes de abandonar São Paulo, onde se formara em Direito, oferece aos colegas um banquete cujo cardápio por ele escolhido era constituído de “hors d’oeuvre”, “potages”, “poisson”, “entrée”, “gibier”, “glasses”, “dessert”, “vins, “café”, “liqueurs”. “Montmorency”, “Hungaroises”, “Truite aux épinardas”, “Suprême de volaille rôtie”, “Canard à republicain”, “Filets mignons à dorée”, “Cochon sauvage à Aurora paulista” eram as iguarias.

Na cozinha, no pátio da escola pública, num vagão de trem, come-se mortadela com pão, “mata-fome”, galinha com farofa. É o cocheiro, a menina pobre, os que viajam nos vagões comuns do trem.

Mundo do latifúndio, das comodidades, da fortuna, convivendo com o outro, do trabalho, da pobreza.

A relação das expressões relacionadas com a mesa seria suficiente para delinear as fronteiras existentes entre os dois.

Na verdade, no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil não se trata de desigualdades sociais ou de confrontos de classe. Apenas, uma efêmera presença que as expressões “mortadela com pão”, “mata-fome”, “galinha com farofa” definem, ajudando a compor o quadro desse mundo de opulência e de ostentação.


O Estado do Paraná, Curitiba, 22dez1996.

O intruso
Cecília Zokner

A Senhora veste de luto, tem os cabelos presos e o “coração perdido entre acentos de exaltação e angústias”.

Move-se “num cenário antigo”: móveis escuros, relógios de pêndulo, bibelôs, quadros pastoris, a cristaleira, o centro de mesa de faiança, onde o ar está impregnado do odor açucarado que exalam os pastéis de santa clara, os quindins e os fios de ovos.

Ao Pleyel, a Senhora, por um momento, suspende as mãos sobre as teclas, surpreendida pela voz do aguateiro que, na praça ensolarada, apregoa o que vende.

A criada, dando-se conta de seu enfado, dá ordens ao homem para que se retire dali e, obedecendo à Senhora, lhe atira “uma frágil moeda”. O aguateiro se cala e, na praça, continua à espreita de alguém que passe e lhe compre água.

No Solar dos Leões, o piano se cala e se inicia o ritual: a chegada das visitas, a hospitalidade fidalga, os diálogos, a música que a Senhora, outra vez ao piano, faz elevar-se. Certamente, os sons se escapam pela janela aberta, invadindo a praça como se houvesse uma lei que tal liberdade permitisse.

Porque hostil é apenas o ruído do exterior, perturbando o mundo fechado do Solar dos Leões, palacete a imperar na praça da cidade mas, dela não suportando presenças.

Romance de paixões condenadas e nefastas, Perversas famílias (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1992) se povoa de personagens que mergulham na opulência. Como que apenas casuais, “os outros” que estão a seu serviço, permitindo-lhes a vida de ócio.

Romance onde Luiz Antonio de Assis Brasil cria um mundo de classes estanques. Por vezes, nele se instala uma espécie de interrogação diluída numa cena brevíssima como a dessa tarde de verão em que o “clamor” do aguateiro, para vender sua água, é um intruso que rompe o equilíbrio das mãos sobre o teclado.

O Estado do Paraná, Curitiba, 29dez1996

As transgressoras: Plácida.
Cecília Zokner

Um castelo no pampa, de Luiz Antonio de Assis Brasil, é um romance constituído de três volumes: Perversas famílias, (1992), Pedra da memória, (1994) e Os senhores do século (1995) publicados pela Mercado Aberto de Porto Alegre. Uma longa narrativa a qual se acrescentam outras tantas que, abarcando quatro gerações, avança pelo tempo e se constitui um mundo cheio de vozes.

Em Perversas famílias, a história de Plácida é contada pela voz de um narrador onisciente.

Pálida, a cabeça pequena, “magra como um galgo”, “dedos agudos de marfim opaco”, aparece no romance já adulta, recém-vinda da Suíça onde estivera onze anos, estudando. Dona de vários caixotes de livros e vítima constante de ataques de dispneia, casa com João Felício Borges da Fonseca e Menezes, rico solteirão.

“Jovem como uma parreira na primavera” tem um primeiro filho e o segundo três anos depois quando enviuva. Rica, vive para esse filho menor que o mais velho já se fora estudar em São Paulo, para suas leituras de Byron, Musset, Lamartine e para seu piano. Guarda uma terna lembrança do marido e outra, dolorosa, nunca abandonada, do infeliz amor, apenas percebido, nos seus anos adolescentes na Europa. No rosto, “eternamente essa sombra de melancolia, esse mundo incompreensível de escassos risos e sonhos mal disfarçados”.

É quando entra na sua casa como preceptor, recomendado pelo Bispo amigo da família, Félix del Arroyo.

Então, esse narrador que tudo sabe e de Plácida só dizia o que era possível ver e escutar, passa a ser mais próximo, a se comprometer com ela num relato feito na segunda pessoa.

São cinco capítulos, entremeados aos demais que dizem de sua renascente feminilidade e o que desse renascer se segue.

No primeiro deles, é o dia de seu aniversário, Plácida ainda se veste de luto e com os cabelos presos e o coração perdido entre “exaltação e angústia”, ela espera Félix del Arroyo.

Porque é, ainda, o tempo da espera, de um sorriso, de subentendidos e insignificâncias que, no capítulo seguinte, tecerão uma “teia finíssima onde o essencial é o olhar e o gesto”. Logo, o luto se esmaece em cinza, em branco e as emoções se fortalecem cada vez mais irreprimíveis, levando ao bilhete, escrito em francês, que abre a porta da alcova.

Sobrevém a transgressão (“não te comandas mais”), depois o fastio (“vês que [Félix] é um objetivo indigno de tantos poemas acumulados em teu sangue durante anos de dolência e leituras”), o desalento (“emergias em um estado de prostração comparável ao limbo, onde tudo se dissolvia num viver sem dores nem pesares”), a morte (“a tampa te reduz à porta, à carreta fúnebre de cavalos negros empenachados, em direção ao cemitério, nada mais sentes, nada mais te comove”).

E os gestos de Plácida são descritos, adivinhados os seus significados e conhecidos seus pensamentos e seus atos mais recônditos. Tudo o que faz é registrado: se lê, toca piano, olha para a praça ou para os objetos que a rodeiam, os passos que dá pela sala de visitas. Também as razões que a fazem agir e que estão na origem de seus sentimentos e de seu drama como prisioneira das convenções. Para fugir delas, se deixa morrer na ignomínia ao dar à luz a um filho espúrio que a sua viuvez tornava pecaminoso.

E o pronome tu estabelece uma intimidade com ela que, por vezes, parece se constituir um alter ego, mostrando-a profundamente humana nas suas misérias e nas suas grandezas de mulher que desejou apenas viver.


O Estado do Paraná, Curitiba, 9jun1996.
As transgressoras: Urânia
Cecília Zokner
Atravessava a praça para se recolher, após a festa, acompanhada pelo anfitrião. Falaram sobre o destino que conduzia os heróis e disse: “veja Doutor, que meu nome é como se fosse uma predestinação. Jamais gostei do apelido que me deram”. Ele concordou, dizendo que a chamaria, daí em diante pelo seu nome real, e romântico é esse nome de sua casa, Eterno Amor. E ela disse que “já isso me agrada muito, e até mandei pintá-lo de cor de rosa”.

Seu nome nesse momento não é pronunciado e ao chegar a sua casa ela o convidou para entrar.

Um breve espaço em branco nas páginas do livro sugere o tempo transcorrido. O relato é retomado e dá conta que os sinos soavam as cinco horas. Foi a hora em que ele se retirou.

Ela acabara de escolher o seu destino. Era jovem, rica, viúva, respeitada e havia escolhido ser amante do homem que sempre quisera.

A travessia da praça entre um palacete e outro fora o abandono da vida de antes. Já não seria mais a menina Nini, mas Urânia. E por ela é conquistado o Doutor nessa quinta vez em que se encontraram.

Na primeira vez ele lhe ofereceu o lenço para enxugar o choro pelo seu pai que apenas morrera. Na segunda, o dia de seu casamento, a presenteara com o broche de safiras. Depois, quando o marido estava na guerra, ele foi se despedir, de partida para a embaixada de Viena. Ao voltar, uma breve troca de palavras diante de sua casa e em companhia da mulher. E, por último, esse jantar em que convidada, ainda Nini, pode olhar para ele e deixá-lo surpreso por estar usando o pregador de safira.

A pedido da mulher, o Doutor atravessou a praça para levá-la para casa e lá ficou, enredado nesse desejo para o qual estava predestinado.

Nos romances de Luiz Antonio de Assis Brasil, Perversas famílias, Pedra da memória e Os senhores do século que formam a série Um castelo no pampa (Mercado Aberto, Porto Alegre), a figura do Doutor e de Urânia estão a cargo de um narrador onisciente. Nesse episódio amoroso é como se apenas a figura feminina interessasse pois do Doutor só se conhecem as palavras e os gestos. O que pensa de Urânia, o que sente por ela mal é sugerido por esse brinde que lhe faz de longe no dia do casamento, pelas palavras que diz ao se despedir, lamentando a partida depois de olhar detidamente seu rosto, por esse binóculo que assenta, cada noite, nas janelas de seu palacete.

De Urânia é dito o que pensa e o que sente nesse desabrochar da certeza que, inevitavelmente, um dia, o Doutor será seu. Ao longo da série, breves, alguns momentos felizes dessa relação que não mais se desfaz.

Já velho e doente ele a manda chamar e Urânia enfrenta a viagem de trem, a caminhada sob a chuva e o vento, a entrada na casa, que lhe estaria proibida, para estar com ele. A mulher legítima fechara as demais portas da casa, apagara as luzes e se recolhera na capela com a criadagem para rezar.

O que se disseram nessa noite um ao outro não faz parte do relato. Tampouco, o que Urânia deve ter passado como amante de um homem casado cuja posição política, econômica e social atraía todas as atenções.

Morre sozinha na sua casa e é enterrada à noite, discretamente diz a carta que anuncia a sua morte ao Doutor e que acrescenta: “... a cidade custará a notar, creio eu, porque ela nunca saía do Eterno Amor.”

Dias depois, diante de seu túmulo, o Doutor dirá que ela foi “única”. Sem dúvida, admiravelmente à margem dessa sociedade classista e conservadora do início do século na qual viveu isolada ao escolher o amor e por ele se esconder em vida.
O Estado do Paraná, Curitiba, 16jun1996.

As transgressoras: Selene
Cecília Zokner

Tem o nome da lua porque assim o quis a amante do pai antes mesmo de ter sido gerada. Mal nasceu, prematura, “num ritual de parteiras, febre e luzes”, é levada pelo médico “abafada em panos” para longe da mãe. Aos cinco anos brinca de bonecas no seu quarto cor de rosa. Mais tarde empurra um aro na Praça da Matriz quando Francisca Almada que será sua ama, ao saber-lhe o nome, Selene, lamenta que chamem assim a uma criança e, então, acha até natural que tendo tal nome, não distinga as cores.

São rápidas referências sobre ela esparsas no monólogo de seu filho e de seu irmão ou no texto onisciente que relata a vida do pai ou da ama. O que ela sente e como se orientou o seu destino aparece nos três monólogos de Perversas famílias (da série Um castelo no pampa de Luiz Antonio de Assis Brasil, Mercado Aberto, Porto Alegre, constituída, ainda de Pedra da memória e Os senhores do século) cujos títulos sintetizam as emoções e as razões que lhe nortearam as escolhas.

No primeiro, “Mare Serenitatis”, recém chegada do internato, Selene, no seu quarto de “cores abstratas” para seu olhar de “confuso daltonismo”, relata o encontro com Hermes e os preparativos para o baile que tanto deseja ir. É um dizer pueril como as roupas que veste – saia xadrez, blusa escura, casaquinho tricotado por ela mesma e soquetes – e triste diante da indiferença da mãe: “Quando, quando, mamãe, você me enxergará?”.

Queixa que se reforça no segundo monólogo, “Mare Humorum”: ela “esqueceu-se de mim naquela escola de austeros códigos de honra e castidade e Pecado”. E até o ponto de atribuir-lhe a responsabilidade de seus atos: “Quem mandou minha mãe consentir no baile entregando-me de mão beijada a um homem tão jovem...” Mas não ignora que foram as curiosidades de seus “humores”, a vertigem da champanha e a aceitação em se deixar seduzir que a levaram à noite de amor com o moço que apenas conhecera.

Logo depois do “Mare Humorum”, um minúsculo sub-título, “Mare Crisium” dá conta da passagem do tempo – “já um ano passou” – e da impossibilidade que tem de se fazer entender pelos pais nesse desejo de querer casar com “o que fabrica cofres”.

No diálogo com o pai, em que ele, ignorando-lhe as palavras num discurso inoportuno e exasperante onde o interlocutor, para ele, não tem a menor importância, Selene, no desespero de atrair-lhe a atenção, começa a se despir. O que o pai só irá perceber quando, nua, ela lhe estende os braços. Indignado, a esbofeteia e a expulsa do recinto e de sua vida.

Infantil e insegura ela se mostra, ainda, no terceiro monólogo onde conta a visita que recebe, em sua casa, do pai de quem tanto almeja o perdão e o nascimento do filho. São as narrativas que pertencem ao capítulo introduzido pela expressão “Mare Fecunditatis” ao qual se acrescentam dois breves textos: “Oceanus Procellarum” e “Lacus Somnii”.

Em “Oceanus Procellarum”, relata a chegada do pai no quarto de hospital apenas para determinar o nome do neto: “Páris, o que morreu em Tróia com uma flecha no peito”. O glacial desprezo que demonstra por todos e pela filha, certamente irá culminar na “misteriosa doença” que a acomete depois do parto: a loucura.

Assim, no texto “Lacus Somnii”, acreditando-se no Rio de Janeiro, fala na visita da tia – “há quanto tempo” – sem se dar conta que vive num país onde cai neve e entre freiras. Uma, lhe permite ver a Lua pela janela e recomenda que reze para Nossa Senhora de Lurdes.

E o seu tempo de rebeldia há muito já passara quando a tia intercede por ela, vivendo entre estranhos e do outro lado do mar, junto ao pai, já velho. A resposta que recebe é terrível: “Ficará para outra vida. Não tenho idade nem coragem para enfrentar mais nada”.

Reafirma a espantosa condenação de ostracismo que Selene, louca, não pode mensurar. Como jovem não mensurara que se casar só no civil e com alguém por ela escolhido era passível de um castigo tão grande.

A vontade do pai-juiz que não podia ou não devia ser discutida nesse começo de século de vozes masculinas imperou, impedindo-a de ser mulher, de ser mãe, de viver.

Então Selene se refugiou na loucura.



O Estado do Paraná, Curitiba, 23jun1996.
Um castelo no pampa ou da paródia romanesca

Antônio Hohlfeldt


Quando do lançamento de Perversas famílias, primeiro volume da saga intitulada Um castelo no pampa, tive a oportunidade de analisar aquele texto sob a luz da mitologia grega, demonstrando como o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil inspira-se em algumas das mais conhecidas personagens para construir a trama romanesca. Inclusive, e certamente de modo proposital, não chegou nem mesmo a disfarçar a tal intenção, ao batizar as personagens dentro da perspectiva daquelas figuras da tradição clássica.

Aquele primeiro volume, seguindo-se, um ano depois, Pedra da memória, um texto menos denso, inclusive na sua estrutura de construção, talvez por que, na verdade, ele era apenas uma espécie de ponto de passagem entre o primeiro e o que se seguia, que conclui a série, denominado Os senhores do século, e que retoma, em boa parte, o mesmo relato do primeiro, mas sob óticas diversas, trazendo assim, ao leitor, não apenas a complementaridade da narrativa como, sobre tudo, dando a tudo conjunto a perspectiva unitária que, em última analise, constituía o projeto literário propriamente dito.

Por certo muita coisa haveria a dizer a respeito desse terceiro trabalho, se lido de modo autônomo, como inclusive pretende o autor. No entanto, partindo de uma sugestão contida no ensaio de Airton Tomazzoni (1), quero aqui buscar uma abordagem globalizante, sob determinada perspectiva que, em meu entender, é aquela que, com maior fidelidade, da conta de maneira concreta do real projeto desenvolvido por Assis Brasil.

Observe-se, inicialmente, que, a exemplo de segundo volume, e contrariamente ao primeiro, concentram-se os pontos de vista da narrativa. Aqui temos apenas três, assim identificados:

- ponto de vista na terceira pessoa, onisciente, que acompanha a história de Olimpio, principal personagem de toda a saga, até sua morte;

-ponto de vista na terceira pessoa, onisciente, que se apresenta, sob a denominação (ambígua, ver-se-á depois) de O Romance e que enfoca uma dupla relação amorosa paralela e duplicada, a do barão e latifundiário Basileu Martins e sua amante, denominada tia Violante, e depois a de Olimpio e sua amante Urânia;

- ponto de vista em primeira pessoa, que é a de Paris, dando conta de sua alto descoberta e, ao mesmo tempo, permitindo ao leitor uma visão desmistificadora da pampa e de seus caudilhos, inclusive do Olimpio, devendo-se lembrar que Páris é neto de Olimpio, filho de Selene – que enlouquece – e que é uma das primeiras personagens a surgir no volume inicial da saga. Observamos, agora, a estrutura de cada uma dessas narrativas.
Ponto de partida
Olimpio, sabemos, pode ser uma aproximação de personagem real da história recente do Rio Grande do Sul: refiro-me ao Assis Brasil real, proprietário do castelo das Pedras Altas, a partir do qual se lançou a paz de Ponche Verde, em 1925, e cujo o episódio, aliás, é ponto de partida no relato desse terceiro volume. A validar a aproximação, basta lembrar a referencia à introdução dos pardais em nosso meio (ps. 355 e 379). Observa-se, contudo, que o relato (onisciente) que se desenvolveu sobre ele, revela-se aqui, constitui-se, indiretamente, no relato (biografia) que seu amigo Câncio Barbosa busca concretizar, acompanhando pari passu todos os acontecimentos da vida de Olimpio, surgindo-nos primeiro como uma espécie de puxa-saco vulgar, e com o correr da narrativa, evoluindo para uma figura de amigo humilde e fiel que chega a ser comovente (leiam-se, sobretudo, as últimas páginas do romance). Fica explicitado, nesta busca da biografia, que ora o biografado pretende adaptar o relato a uma imagem idealizada de sua vida, ora decide-se pela maior fidelidade ao que foi (ou não foi), restando, de qualquer forma, uma viagem idealizada, graças justamente, à admiração que ele causa em seu biógrafo, que chega ao cúmulo de decidir que não escreverá mais nada dali para frente, pois “seria uma deselegância, uma verdadeira traição à memória de Olimpio. E será seu gesto Léal, com a qual também ele, Câncio, buscará a eternidade” (p. 387).

Se juntarmos a isso a perspectiva de que Olimpio está sempre dramatizando (teatralizando, que dizer, representando sua vida, seus gestos) na medida em que tudo nele, transforma-se em discurso, isto é, uma construção separada da própria realidade da qual toma apenas pequenas referências (note-se sua referência contraditória à liberdade é seu comportamento despótico; sua fé republicana e o casamento com Charlotte e a construção do Castelo; por fim, a utopia vaidosa da construção da cidade junto ao castelo, a qual seria denominada Olímpia...), ter-se-a uma primeira linha de apoio para a tese que pretendendo apresentar: na verdade, Olimpio coloca-se verdadeiramente como uma personagem de ficção, mesmo na vida real (realidade da ficção, bem entendido), a qual pode e deve num segundo momento, ser cortejada e duplicada em relação à personagem real e histórica que o inspirou.

O segundo relato envolve a história de Urânia, ou melhor, a Menina Nini, filha de Basileu, que conhece, ainda criança, a amante de seu pai, Violante, e que toma como ideia a referência de vida, na medida em que se sente traída e seduzida pelo Castelo e decide, ainda antes de se casar com Isidoro, alcançar através do dono, Olimpio, de quem muito mais tarde, e até certo ponto seduzida também pela mulher de Olímpia, Charlotte, torna-se amante. Haveria muito a se dizer a respeito da arte de amar desenvolvida neste romance, especialmente a partir do dialogo entre Violante e Nini (que se revela depois Urânia) – ps. 153, 304 e 357 -, ou do papel feminino (p. 304), ou ainda as diferentes referências à mulher que o relato nos apresenta (ps. 27, 125, 261, 323 e 343). Mas deixamos essa perspectiva de lado. Ressaltemos que o apelido, Nini, é destacado pela própria personagem num encontro com Olímpia: “e veja, Doutor, que meu nome é como se fosse uma predestinação” (p. 356), da mesmo forma que, logo no início, outra referência se apresenta quando se fala dos cabelos da personagem, especialmente suas traças (ps. 47 e 49). Não é preciso muita sagacidade para se remeter imediatamente ao romance A Dama da Camélias ou à ópera La Bohème, no primeiro caso (a personagem da ópera se chama Nini, e a ópera de PUC-RSRScini inspirou-se no romance. Quero destacar aqui mais o romance, embora da referência da própria Nini seja à ópera, por motivos que ficarão claros mais adiante). No segundo caso a referência é o conto infantil em torno de Rapunzel, que é presa numa alta torre e proibida de namorar, chorando e confiando cabelos. Aliás, a própria estrutura narrativa inicial desse bloco lembra a dos contos de fadas, além de o bloco chamar-se, exatamente, “o romance”, isto é, um relato (ficcional) ou que refere à tradição dessa estrutura ficcional, no sentido do romance de moças, originário do folhetim romântico, ao mesmo tempo em que é referência direta ao duplo relacionamento amoroso, Basileu/Violante e Olimpio/Urânia – Nini. É, pois uma clara duplicação que depois vou retomar.
Relato folhetinesco
A perspectiva do folhetim, aliás, embora partindo de outra fonte, que é o relato aventuresco e, mais contemporaneamente, a narrativa fantástica encontra-se no bloco dedicado a Páris, narrado por ele mesmo, como se verificará ao final do texto. Trata-se de um relato oral, dirigido a um tenente que é guarda da prisão em que se acha confinado o narrador e personagem, com consequência de sua folhetinesca resistência aos golpistas de 1964, em pleno castelo: “sei que todo esse meu relato chateou você, um tenente culto, recém-saído da Academia Militar, mais sei também que tive muitas horas agradáveis, não é mesmo? E agora peço licença para voltar para minha cela, onde a sua generosidade me permite que eu fique com Lilith, que se ocupa tanto em tirar fotografias, mas a quem amo é com quem me tornarei, digamos, um homem” (p. 339).

Aliás, se eu fizer a leitura em separado apenas deste bloco e isso desde o primeiro volume, acentuado, contudo, neste último veremos que todo o relato é absolutamente folhetinesco desde a fantasia que envolve Mefistófeles (paródia de Fausto de Goethe) até as sucessivas aventuras vividas por Páris Beatriz (outra referência literária, desta vez à Divina Comédia de Dante) e Astor, contra o usurpador Aquiles, na própria estância, ou depois em Portugal, contra a IIDE, para chegar até a Suíça, onde Páris, conduzido por Beatriz (da mesma forma que Dante, no célebre poema anda, conduzido pela amada) acaba descobrindo não só a verdade sobre suas origens quanto o amor (fantástico) da jornalista Lilith, que acaba vindo com ele para o castelo. Por fim, lembremos que todo o relato de Páris se dá metalinguisticamente, com diversas interrupções e comentários do narrador sobre o que conta, culminado com uma referência especifica à literatura, que nos interessa: “Eu então entendia tudo o que me acontecera hoje, ontem e desde sempre. E decidi que nunca mais me submeteria à literatura” (p. 289). A referência pode permitir a substituição da palavra literatura por outras, como sonho, ficção, mentira, utopia, etc., mas fiquemos com a própria literatura. Renegada, ela então cada vez mais envolve a personagem e narrador, como quando, por exemplo, comenta sua despedida de Astor, que decide ficar em Portugal para regatar o amor da frustrada cantora de ópera Cecília: “imagine que este meu relato seja um romance, eu seja um escritor: se as ações das personagens não forem suficientes, é porque eu não soube escrever” (p. 329), antecipação de juízo que se permite fazer o próprio escritor, obviamente, sobre seu trabalho. Mas o relato se conclui com uma espécie de eco de dois acontecimentos anteriores, dois nascimentos de bebês que ocorreram em momentos difíceis para as personagens, e que foram encaminhadas por Beatriz (p. 134, no trem e p. 238, na prisão). Aqui, a frase final “Mas ouça, apure bem o ouvido: não está escutando? Não percebe, bem distante, o choro de um recém-nascido?” (p. 339) é uma referência outra vez ambígua: será um filho de Páris-Lilith (e por isso eles podem ficar juntos na prisão?) ou é o nascimento do próprio Paris, após o relato de sua história (e gênese) de qualquer forma, ainda um recurso literário?


Paródia e ironia
Mudemos o rumo. Estilisticamente falando, o terceiro volume (e vou me cingir a esse, deixando ao leitor eventualmente interessado a oportunidade de fazer a experiência com os dois anteriores) firma-se sobre dois procedimentos: a paródia e a ironia.

Existem as seguintes paródias explicitas: do Fausto de Goethe (p. 30/1), do conto infantil de Rapunzel (p. 47/9), de Simões Lopes Neto (ou mais genericamente de um causo gauchesco), no episodio cuja formula de reiteração “não é, Vicência?” é muito engraçada (p. 82/5), sobre a relação Beatriz/Páris já explicitada, relativa à Divina Comédia de Dante, ao Hamlet shakesperiano (p. 136/7), à utopia de Olímpia (a Thomas Moore ou Campanella, como se queira, ou até mesmo a Platão, se preferirmos a original República, talvez mais fiel pela posição ideológica de Olímpio), culminando na explicitação a Tolstoi(p. 268) cuja abertura de Ana Karenina poderia servir muito bem de epígrafe a toda a saga.

Quanto à ironia, podemos mencionar aquelas ao positivismo (p. 25), ao comunismo (p. 124), às deferentes menções de Páris aos gaúchos (ps. 132, 177, 314, 316, e 327), sobre Getúlio Vargas e seu governo (especialmente ps. 178, 183, 221/2 e 376), sobre os próprios ideais de Olímpio (p. 160/1), sobre a economia portuguesa (p. 231), a relação entre Olímpio e Charlotte (p. 266, 271, 273, etc.), a crise externa do Brasil (p. 279), a vida cotidiana da elite pelotense (p. 295/6, 344) e outras tantas.

O que há em comum entre a paródia e a ironia é o fato de ambas partirem de uma referência determinada ou conceito, para, mantendo-a referida, invertê-la ou desviá-la de seu sentido original, provocando um resultado quase sempre contraditório, ou, no mínimo, absolutamente distante do efeito original. Ora, tratam-se, a paródia e a ironia, de dois recursos estilísticos notadamente “literários”, porque concretizam um discurso, isto é, uma construção simbólica, ao nível da linguagem, que é também um discurso ideológico.

E é aqui que chego ao núcleo de minha proposição Tomazzoni, no ensaio citado, refere a importância que a reflexão sobre a literatura assume o relato. Vou mais longe: essa perspectiva é o próprio carne da construção romanesca, de modo que posso afirmar, seguramente, que o projeto de Um castelo no pampa é o de uma paródia do romanesco tradicional, parodia da epopeia clássica, melhor, paródia do romanesco tradicional da gauchesca, na medida em que sua aparente principal personagem, Doutor Olimpio, é a sede ficcional da contradição e da falsa imagem e seu oposto, Paris (o neto), capaz de vislumbra-lo criticamente, não é menos contraditório.

Observe-se que no romance tradicional realista a caracterização das personagens se dá fragmentariamente, cabendo ao leitor montar as diferentes perspectivas, sem a segurança de compor um todo. Na verdade, isso não se aplica apenas às personagens, mas a toda a ação ficcional, a todo o relato: é impossível, neste momento, caracterizar–se uma narrativa unitária. A frangmentariedade é característica da contemporaneidade (diria alguém da pós-modernidade? E a fidelidade do escritor, ao referir o real, é justamente fazê-lo fragmentariamente. Não por um acaso, um romance anterior de Assis Brasil tomava ao dramaturgo (dito louco...) Qorpo Santo como personagem central (consulte o leitor o final daquele texto). Para realizar esse desmonte do romance realista, contudo, Assis Brasil, conscientemente, lançou mão de um outro tipo de romance, o do Romantismo, numa espécie de duplo jogo de espelhos: faz-se a sério paródia do romance romântico. Daí o tom evidentemente folhetinesco, por exemplo, do bloco dominado por Páris. Ou de pequenas brincadeiras como a casa de Nini/Urânia chamar-se Pérpetuo Abandono e posteriormente transformar-se em Eterno Amor (p. 16/148). Observe-se a tradição da antecipação da ação, que ocorre no relato de Paris (e os títulos dos capítulos a ele dedicados), a espécie de predestinação de Nini a tornar-se amante de Olimpio, para não falarmos na própria ideia do castelo, que é uma referência explicita ao romantismo da primeira fase, quando a literatura europeia vai buscar na Idade Média as suas raízes e identidade (não possuindo a pampa tal passado, nada como construí-lo, artificialmente..., afinal, os gaúchos não eram centauros às semelhanças dos antigos cavaleiros da Távola Redonda?).


Ideologia gauchesca
Constitui-se, pois, a saga de Um castelo no pampa (já que Assis Brasil quer manter o vocabulário no masculino) uma denúncia da falsidade do projeto latifundiário-pecuarista do Rio Grande, sua falência e suas contradições, através de um aparo literário especifico, que escolheu a paródia e a ironia como elementos de afirmação. Partindo do modelo primeiro – o romance romântico – para contestar a realidade traduzida na forma literária da gauchesca que é nosso modelo primeiro (reflexo do projeto ideológico constituído a partir da segunda metade do século XIX no âmbito do Partenon Literário pelas elites intelectuais da província, derrotadas apenas aparentemente pelo Império em 1845), Luiz Antonio de Assis Brasil denuncia aquela mesma ideologia contida na gauchesca, desmontando o modelo mediante a construção de seu contrario. Não se trata apenas de contar a história de uma família plena de degenerações e taras: não é uma tragédia romântica. Trata-se, sim, de, com realismo, mas não no sentido do romance burguês tradicional, reexaminar o modelo e sua ideologia, constituindo um outro discurso que, na verdade, não se encontra contido em nenhuma personagem especificamente, mas na reunião desses relatos fragmentários cuja tarefa cabe ao leitor (da mesma forma que sua criação coube ao escritor) concretizar.

Daí a (última) referência importante ao Doutor Olímpio e sua relação com a (eventual) figura real-histórica: da mesma forma que não se conhece o Olímpio real (ficcionalmente) mas sim aquele que a biografia de Câncio Barbosa criou para a posteriedade, também a imagem da personagem referência na realidade histórica é relativizada (e denunciada) como um discurso, quer dizer, uma construção simbólica, ou seja, ideológica. Tudo o que sobra é o “esquecimento que, nesta hora, com uma nuvem de pesares, começa a instalar-se para sempre nos campos e nas pedras augustas do Castelo no Pampa” (p. 388), como se sintetiza ao final do relato, dando sentido à ironia final do titulo do último volume, Os senhores do século (2): “Somos Os senhores do século, Olímpio” (p. 21), afirma Getúlio Vargas logo no início do romance, para ser repetido pelo próprio Olímpio em outro momento (p. 70). Aqui, sem ironia, ainda, é a ideia de um novo Rio Grande, distante daquela província caudilhesca, ao que se pretende aludir. Contudo, com a evolução dos acontecimentos, a perversidade retorna (p. 160) para culminar na única perspectiva possível de analise, sintetizada naquela referência a Tolstoi(p. 368) reduzindo drama político-histórico à trajetória da relação familiar. Aqui, então, a irônica se consubstancia, na medida em que fica evidente que os homens que poderiam, de fato, ter-se tornados “senhores do século” não foram além de mesquinhos e egoístas senhores de uma política que reduz z coisa pública à propriedade familiar. Eis, afinal, a grande crítica que a saga de Um castelo no pampa nos apresenta, sem absoluto discernimento.




  1. TOMAZZONI, Airton – O Romance (?) Senhor, in Ensaio, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre. Sem data. P. 4.

  2. ASSIS BRASIL,Luiz Antonio – Os senhores do século, Porto Alegre, Editora Mercado Aberto. 1994. 388 páginas.


Contexto/Crítica, Porto Alegre, s/d

Novo romance de Assis Brasil:

O que dizem os nomes das personagens

Antônio Hohlfeldt

A uma possibilidade de leitura de Perversas famílias, o novo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, que apontamos no comentário da semana passada, podemos acrescentar outra: a alusão mítica e simbólica que os nomes das personagens propõem ao leitor.

Sem querer esgotar o tema, levanto aqui certas alusões relativas a algumas personagens mais importantes. O doutor, por exemplo, chama-se Olímpio. Explicitamente, a referência é ao “lugar onde moram os deuses” (p. 79), decisão da própria mãe. Na verdade, Olímpio designa Apolo, considerado como a luz da vida, o sol, o mais radioso dos mortais, destruidor dos exércitos e sempre vitorioso; deus da morte súbita e das profecias; deus que eventualmente habitava o Parnaso, lugar das Musas, isto é, da poesia e das artes em geral. Ora, veja-se como bem se aplica isso á personagem: Olímpio é, desde logo, um predestinado. Desde que o bispo D. Felício, ao batizá-lo, inadvertidamente rompeu-lhe a pele com seu anel (p. 126), provocando cicatriz que duraria toda vida (p. 296). Liderança política desde cedo reconhecida (p. 116), Olímpio, jovem, segue a tradição acadêmica e pública um livro de poemas (p. 26) a que se seguiriam depois dois outros volumes na área da política e da história (p. 187). Morrendo repentinamente (p. 73), glorifica uma vida feita inteiramente à base dos jogos da vontade e astúcia, de profecias que tratava de cicatrizar, como a vontade de ser deputado, a conclusão do castelo iniciado pelo pai, e assim por diante. Mais que isso, erigiu como (falso) dogma o conceito da liberdade, primeira palavra por ele pronunciada em vida (p. 163).

Quanto a Charlotte (Carlota), a esposa, seu nome significa virilidade, refere-se ao varão. E assim foi a Condessa ao longo da vida e, sobretudo, após a morte do marido.

Arquelau, irmão mais novo de Olímpio, na mitologia grega, é o nome do filho de Têmeno expulso da casa pelos irmãos. Não está muito distante da realidade deste homem inculto e de curta inteligência, nascido após a morte do pai, e que desposa Beatriz, cujo nome significa “a que faz a felicidade de alguém, a bem-aventurada”, o que, no caso do marido e, sobretudo, do menino Páris, é absolutamente verdadeiro.

Aquiles, o filho mais velho de Olímpio e Charlotte, na tradição mitológica é filho de Peleu e Tétis e vem a ser assassinado por Páris, que o ferirá no calcanhar, único local do seu corpo que não fora tornado invulnerável pela mãe. Estaremos aqui antecipando o desfecho da evidente e expressa oposição existente entre ele e o sobrinho? Leia-se: “Percebi naquele instante que deveria incluir Arquelau no rol das pessoas temíveis” (p. 99) e depois o registro de uma pretensa vitória de Páris sobre o opositor: “Apesar aparências eu era o vencedor daquela batalha preliminar à guerra que se anunciava” (p. 282).

Proteu, o outro filho de Olímpio, médico, é um deus marinho, capaz de adquirir diferentes formas, fugidio e fugitivo. Na narrativa, o suicida protege a irmã Selene, nega-se a casar e refugia-se em seu quarto, sempre ensimesmado.

Selene, a lua, na narrativa mítica suicida-se por amor do irmão. É a deusa Diana, em Roma, protetora e símbolo da castidade e da virgindade. Evidentemente, a ironia do escritor faz com que ela, ao gerar Páris, deva ser castigada. E, mais que isso, a relação ocorre com alguém que se chama nada menos que Hermes, o mensageiro dos deuses, aquele que, na tradição, teria roubado, quando criança, novilhos de Apolo (ou seja, de Olímpio). Ora, Hermes refaz a lenda, ao roubar Selene a seu pai, Olímpio, devendo ser por isso castigado.

Pode-se verificar que até mesmo nas personagens menores o escritor fixou sua atenção. A preta Amália, a primeira a proteger Páris, tem na significação de seu nome o conceito de trabalhadora e expedita. Quanto a Cristina, a segunda esposa de Hermes, seu nome significa “seguidora de Cristo”, de que, evidentemente, Hermes é uma extensão. Por fim, Águeda, a solteirona, irmã de Dona Plácida, atua exatamente dentro da simbologia de seu nome, que significa bondade.

Jornal do Sul, Porto Alegre, N° 56 Pág. 13

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