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Os antepassados de todos nós, numa boa ficção


Regina Dalcastagnè

Em meio aos pampas gaúchos, em pleno Século XIX, ergue-se um castelo medieval. Para habitá-lo Luiz Antonio de Assis Brasil convocou uma família que trouxe na bagagem seus dramas, segredos e paixões. Um bastardo bêbado, uma viajem daltônica, uma condessa austríaca, um político liberal dos começos da República, seus parentes e fantasmas, todos se ajeitam pelos muitos cômodos do lugar e começam a trazer sua história – uma mistura de ideias literários, traições, amores proibidos e velhacarias políticas. Perversas famílias, último livro de Assis Brasil leva o leitor para uma visita a esse castelo.

Logo na entrada, informações sobre a construção, a qualidade do material, a suntuosidade da decoração. Aos poucos pode-se ir confirmando cada detalhe, subindo às torres, entrando nos grandes banheiros ou na biblioteca de 25 mil volumes, na cozinha que ainda cheira a “louro, esfragao e banha”, ou nos jardins, belos como todo o resto. Um pouco mais adiante ouvem-se passos e sussurros, como se ainda houvesse vida por aqueles cômodos, um sopro qualquer da existência. De repente o visitante esbarra numa menina e o resto da família começa a surgir, descendo escadas, abrindo portas, ligando o rádio. Já estão quase todos ali e o castelo se transforma então num grande palco, onde a história volta a se fazer.

Muitos começos são possíveis. Muitas vidas transcorreram ali, senão sob o teto daquele castelo, ao menos sobre a terra que o sustenta. Por isso a história vai se montar aos poucos, indo e voltando no tempo, acompanhando pessoas diferentes em diferentes etapas da vida, nem sempre pela ordem cronológica. Primeiro se pode encontrar o velho, com sua fala grandiloquente e seus gestos largos, para só depois descobrir o jovem, antiescravagista e republicano. Os dois uma só pessoa, que vai se mostrando devagar – como quando encontramos um estranho e aos poucos o vamos conhecendo. Ou então se pode rir daquele menino com olhos apavorados e jeito mentiroso, confundi-lo com um irão da menina daltônica que passara ainda há pouco por ali, para depois ser visado de que ele não é irmão, mas filho.



Medieval – Para acompanhar a história desde o início, seria preciso reordenar os capítulos do livro, embaralhados pelo vento dos pampas. Mas isso seria desprezar as surpresas que só uma narração fragmentada pode oferecer. Perversas famílias iniciar-se-ia então pela história da terra que um dia pertenceu a um colono que a ganhou de um comandante e que a deixou para seus filhos. Ali foi construída uma casa, onde cresceram crianças e se perdeu muito dinheiro. Para cobrir as dividas a terra é vendida. Agora sim vai começar a história dos Borges da Fonseca e Menezes. João Felício, o novo proprietário, seria pai de Olímpio, o jovem abolicionista, o mesmo que um dia passará a ser conhecido como Doutor, grande homem da República do Rio Grande do Sul, dono de um castelo medieval que ele mesmo fez construir.

Junto com Olímpio o leitor/visitante vai acompanhar um pedaço da história do Brasil – os movimentos republicanos no Sul do País. Vai participar de encontros com figuras importantes como Quintino Bocaiúva e Rui Barbosa, inserir-se-á nas acirradas discussões da época, sobre positivismo, Platão e a Liberdade. Não como se tivesse entrando num desses museus empoeirados, ou num livro didático cheio de datas e nomes, mas como um observador divertido que saísse de uma maquina do tempo e pudesse observar, invisível, a exaltação rebelde (e também a empáfia) da juventude republicana. Jovens representados por uma das personagens, um cavalheiro “de cabelos insubmissos, moço suficiente para alojar na cabeça mil ideias renovadoras, mas rico o necessário para ter a audácia de defendê-las”.

Mas essa História com H maiúsculo é só uma das muitas que vão sendo encenadas no castelo, seja porque tenham se passado realmente ali dentro, seja porque ele é o depositário de tantas existências. A ideia do castelo não veio de Olímpio, republicano convicto que se cerca de aristocracia por todos os lados e acaba se casando com uma condessa, mas de seu pai João Felício, que morre sem conseguir erguer seu maior sonho. O filho apenas segue os riscos do pai, aproveita as fundações já feitas, imagina as torres e a rica decoração e, para espanto de todos, faz surgir ali, em meio ao pampa, um castelo republicano consagrado à Liberdade. Castelo onde, muitos anos depois, um menino se encontra com os fantasmas do tio e do avô.

Mentiras – Páris, o menino, é a última geração dos Borges da Fonseca e Menezes e outro plano narrativo do romance, que se diferencia dentro do contexto do livro por ser o único narrado pela própria personagem. Justamente em consequência disso, essa parte é carregada por uma saborosa inocência, temperada pela maldade das crianças e pela ironia implacável de Páris diante dos parentes que acaba de conhecer. Decidido a mentir e “ser perverso”, o menino é um ponto de vista estranho sobre a família, que acaba sendo representada sob seu olhar perspicaz. A partir de Páris, as outras personagens tomam novas proporções, exibindo suas fragilidades, talvez porque tenham que se justificar diante do menino, talvez porque já tenha chegado a hora de faze-lo diante de si próprios.

Aqui o visitante vai se entreter não só com a pesada história da família mas, principalmente, com a estripulia do menino que vai se fazendo adolescente e se tornando homem em meio à intenção de mentir sempre e a terrível necessidade de ser verdadeiro com algumas pessoas. Toda a história de Páris é feita de humor e ironia. Impossível não simpatizar com ele, não se solidarizar com seus medos ou torcer pelo efeito planejado para as suas mentiras. Mas também é difícil não se comover com o resto da família, todos essencialmente humanos, com suas histórias expostas, seus segredos e pesadelos mais íntimos exibidos diante do olhar atento de qualquer visitante.


Eça – Luiz Antonio de Assis Brasil (não confundir com o piauiense Francisco de Assis Brasil, outro bom romancista), com sua escrita cativante e seu humor continuo, confessadamente inspirado em Eça de Queiroz, consegue fazer de suas personagens os nossos antepassados. No final da visita, a sensação é de que não estávamos num lugar estranho e a dúvida que nos assalta é de como podemos estar indiferentes ao destino daquelas pessoas durante tanto tempo. Mais uma vez, realiza-se o milagre da boa ficção – fazer da mentira verdade, tão mais autenticas quanto mais nos identificamos com elas.

Os outros oito livros publicados por Assis Brasil – que incluem um romance da força de Videiras de cristal, recriação da história dos colonos fanáticos gaúchos conhecidos por “os Mucker” – já haviam consolidado seu nome com um dos melhores ficcionistas da nova geração. Perversas famílias,primeiro volume de uma trilogia da Um castelo no pampa, reafirma plenamente essa reputação. A visita que o leitor faz à propriedade de Borges da Fonseca e Menezes é uma aventura fascinante. Um livro que se pega para não mais largar, que se lê de um só fôlego. Até que no final do dia, já postado do lado de fora dos altos portões, o visitante espera ansioso a próxima incursão.


Perversas famílias – Luiz Antonio de Assis Brasil. Porto Alegre. Mercado Aberto, 404 páginas.
Correio de Brasília, Brasília, Caderno Dois, 08.mar.1993,p. 5

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