Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



Baixar 2.4 Mb.
Página23/44
Encontro18.07.2016
Tamanho2.4 Mb.
1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   ...   44

Platão

A historiografia do Rio Grande do Sul já evoluiu muito principalmente nas duas últimas décadas. Mas não se conseguiu ainda uma produção que abarque o processo da sociabilidade humana rio-grandense. As tradições historiográficas de matrizes positivista e esquerdistas, em sua disputa ela hegemonia teórica, são reféns de esquematismos inoperantes na apreensão da complexidade do real. Os positivistas são os apologetas do civismo. A ele coube a tarefa de instituir a identidade regional como a conhecemos, impondo um sufocante “superávit de fatos”.

Os esquerdistas – onde se encontram também positivistas passando por marxistas e bem comportados acadêmicos -, independentemente de suas correntes teóricas, demonstram limites de outra natureza: enquadram a história rio-grandense em algumas categorias, sem estabelecer conexões com a dinâmica particularmente processual da sociedade. Assim, o categorismo transformou-se em discurso ideológico genÉrico, aplicável em qualquer parte do mundo. Por sorte, as reflexões de alguns historiadores de esquerda tem sido as principais inovações – nenhuma, entretanto, que chegue perto dos historiadores marxistas contemporâneos de outros paises, os ingleses, por exemplo.

Alem disso, há a questão da narrativa. Independentemente da matriz historiográfica, eles são extremamente conservadores. Estão presos à herança da linguagem oficialista. Ora, os estudos sobre linguagem podem esclarecer o quanto a narrativa está conectada ao conteúdo. Não é aLéatoriamente que nossa historiografia possui aquele mofo característico do arquivismo.

Esse são apenas alguns elementos que demonstram a dificuldade do exercício teórico da totalidade rio-grandense. A totalidade não é uma soma de acontecimentos factuais e, muito menos, a tarefa de amontoar categorias para se chegar sempre ao mesmo resultado; invariavelmente, tudo seria produto de uma arquetípica luta de classes.

Então, o Rio Grande do Sul, apesar da quantidade fantástica de livros, ainda é um vastíssimo campo aberto à historiografia. Talvez seja um dos estados melhor abastecido de publicações de micro-história. O que nos falta é a macro-história. Sabe qual o sentido dessa boiada de fatos. Varias publicações, e principalmente muitas perguntas feitas nesse sentido, já colocam o problema como um tema a ser enfrentado.

Enquanto isso, a literatura segue fazendo o seu trabalho e parte da função da historiografia. Quando Marx dizia que aprendia sociologia e economia com Balzac, estava colocando a literatura como fonte fundamental de sua bibliografia. Com a devida proporção e humildade que exige o assunto, a nossa posição ainda é, metodológica e teoricamente, pré-marxista. Qual a obra de história que empreendeu o imenso espaço historiográfico de Érico Veríssimo? Qual o lugar de Cyro Martins? E, assim, como todos os problemas suscitados e colocados ao debate por muitos outros escritores.

A incompreensão teórica sobre a estética tem feito os historiadores tratar do assunto com enorme preconceito, quando não com amargo desprezo. E a literatura, de certa forma desde o romance de 30, apesar de nosso estágio incipiente, continua dando obras fundamentais à cultura rio-grandense.

Nas esferas da estética e da história, Luiz Antonio de Assis Brasil permite que se diga que, enfim, o Rio Grande do Sul possui um escritor da envergadura da grande tradição da literatura ocidental. Perversas famílias, primeiro volume da trilogia Um castelo no pampa, é um livro que, além do seu valor em si, pode servir de paradigma para a discussão sobre a utilidade da historiografia e da literatura para a verdadeira apreensão da sociedade rio-grandense. É o livro que pode ser lido com “muitos olhos”. Se não for uma chave para a História, ao menos é o enunciado de um debate necessário.

Perversas famílias pode ser lido somente como um grande romance. No entanto, ele trata no plano literário de temas que suscitam discussões alentadoras nos campos historiográficos e sociológicos. Coube a ele fazer a devassa, já tentada por outros, na alma oligárquica. Talvez o autor não esteja preocupado com tal debate circunscrito à historiografia. No entanto, esse é um registro necessário. A debilidade daqueles que tratam da oligarquia atacando a sua exterioridade acaba sempre numa preferência ideológica, num ódio sectário, sem compreendê-la. Era isso que Marx sabia ver em Balzac. Em A comedia humana, antes do leitor fazer uma opção ideológica ou de classe, a monarquia e a burguesia estão desnudadas.

Em seu livro, Assis Brasil alcança esteticamente esse resultado: demonstra como a oligarquia vive, quais são os elementos que compõem a sua cultura, como ela vê a si mesma; e, o que impressionante, como a elite olha para os indivíduos e as classes sociais fora de seu circulo. Ao contrario daqueles autores que adotam uma postura religiosa ao abordarem e oligarquia, pois fazem dela algo nebuloso, incompreensível, distante, portentoso, e, portanto, com todos os elementos voláteis típicos da classificação do mal, Assis Brasil a apanha em sua tragédia.

Para fazer isso não é necessário apenas conhecer a cultura europeia. “Aqui tudo é estrangeiro”, diz um dos personagens. No entanto, não se trata somente de culturas fora de lugar, assunto já tão debatido. Assis Brasil encontra a expressão contraditória dessa cultura que a oligarquia impõe hierarquicamente contra o meio social em que é dominante. E como ela mesma se revela sujeito dessa contradição. Não há síntese, não há aculturação, e muito menos absorção. O que há é um distanciamento trágico, um desprezo absoluto, uma dramaticidade contida no ato de ignorar o meio.

Os críticos essencialistas, a esta altura, devem estar com comichão e considerando excessiva a adoção do termo “oligarquia”. Não desconhecemos a polêmica da teoria política sobre o tema. Preferimos adotá-lo no sentido da globalidade dos restritos grupos divergentes aptos para exercer um “governo de poucos”. No caso rio-grandense, como ligadura de classe identificativa das frações da elite.

Trata-se de uma classe dominante constituída num processo de conquista do território. População, soldados, gaúchos, peonada, escravos, apaniguados, e inclusive a administração pública e o exercito eram instrumentos e objetos da conquista. Esse foi o sentimento alienígena dos potentados, a objetividade da exploração, a dimensão “de fora”, e o absoluto valor superior dado àquilo que era ou vinha de além fronteira rio-grandense. A oligarquia constituiu-se como classe dominante mais seu aspecto de intrusa a acompanhou através das décadas.
O Rio Grande como território de exploração (com seu povo) está indicado na figura de João Felício, um mineiro que viera fazer fortuna. Conhecedor da demanda de charque provocada pela mineração em Minas Gerais, localizou-se no estado para produzir uma mercadoria com lucratividade certa. A origem mineira de João Felício não é aLéatória. Inúmeras famílias oligárquicas tradicionais são igualmente mineiras. E são paulistas, catarinenses, europeus etc.

No Rio Grande do Sul, estado que resultou dos interesses territoriais impostos pelo mercantilismo, a sociedade já se constituiu com as suas contradições intrínsecas. Não evolui de comunidade de pastoreios, mais ou menos mescladas com índios e aventureiros, conformando classes e categorias sociais a posteriori. Sendo um projeto de conquista e ocupação, o modelo de organização social era pertinente ao Estado que geria a geopolítica.

A terra dada somente àqueles que poderiam fazê-la produzir economicamente afastou grande número de pessoas da posse. A fronteira entre as classes sociais até hoje é muito discutível. Mas parece bem evidente que, ao contrario do que ocorreu em outras sociedades, no Rio Grande do Sul a oligarquia foi a primeira a se formar e merecer tal classificação. Aliás, a oligarquia como mau governo da aristocracia está claramente tipificada no Sul. E, igualmente, o seu confronto com a democracia, na Primeira República.

Essa oligarquia, que abarca a tudo com sua vontade irredutível, acaba por revelar em todos os momentos da vida social algo que está em sua origem. Uma exterioridade genérica com o meio. No século 19 e na República Velha a rejeição à “tacanhez terrunha” chegou inclusive ao afastamento físico da oligarquia com o meio rural. Seu desprezo encontrava refugio nas cidades em desenvolvimento. A urbanidade opunha-se ao campo, negando-o, por contraditório que pareça, em um estado pastoril. A elite, condenando a correspondência entre modo de viver, fez dos capatazes os administradores predominantes das estâncias, refugiou-se nas cidades, onde criaria um modo de vida longe do atraso campanha e da fedentina das charqueadas.

Edificaram castelos, casarões, sobrados. Mas, historicamente, esse modo de vida artificial seria chamado á realidade pelo desastroso modo de produzir dos estancieiros. A crise retirou-os da artificialidade social e devolve-os ao campo – ou determinou hábitos e costumes mais adequados aos pagos. A decadência da representação pomposa da elite revelou um outro tipo de produtor, aquele não afeito às convenções sociais urbanas, que adotara a tacanha mas sólida cotidianidade dos campos. O odioso modo de vida gauchesco acabaria sendo o perfil oligárquico.

Na obra de Assis Brasil, Bento Maria era um típico sesmeiro do período da conquista. Decadente, venderia suas terras para o charqueador mineiro João Felício. Este escolhera para casar uma moça do lugar, dona Plácida, a Genebrina, filha do estancieiro-militar, e uma das mais sólidas personagens criadas pelo autor. O alienígena João Felício optaria pela noiva que tivera educação europeia. Eis a Genebrina. A que encanta aquele mineiro hierarquicamente mais universal, agauchado no pampa, mas que agora teria lampejos da Europa nos dedos da esposa pianista, na leitura dos clássicos na língua original, sem compreender o significado. O símbolo também atrai o homem.


Na cidade, Felício ergue para Genebrina o Solar dos Leões. E, para ser presente de surpresa, começa a edificar Um castelo no pampa. Interrompe a construção após o acidente em que, prensado sob uma pedra do alicerce do castelo, fica paralítico. A morte de João Felício deixou um castelo inconcluso no pampa. E uma mulher culta frente à estupidez geral das estancieiras. Enamorou-se do professor de sua caçula. Ficou “prenha”, escondeu a gravidez a morreu no parto. Deixou um filho bastardo. Uma mancha atribuída às tentações da pecaminosa influencia dos livros e da arte.
Ao rebento dessa paixão seria reservada a história comum aos bastardos. O desprezo e o ódio do clã. Olímpio, o filho mais velho, é que teria papel destacado na República. Atribui-se a este personagem muitos traços de Joaquim Francisco de Assis Brasil, advogado, diplomata, ministro, liberal, chefe dos maragatos e o construtor do castelo de Pedras Altas. Olímpio é uma verdadeira aula de história. O romance desde já pode ser relacionado entre os clássicos para o entendimento das articulações e razões que puseram fim à monarquia e dos conflitos posteriores entre seus dois algozes: liberais e positivistas – a luta entre eles, respectivamente como maragatos e chimangos, dividiu o Rio Grande do Sul.
Olímpio é o Doutor. É o libelo da condição excludente da oligarquia com o meio que domina. É o agente de “inovações” políticas, sociais e de produção que são, para o pampa, retumbantes transposições de exotismo. Pouco nasceria do próprio meio. Quase surgiria da arbitrariedade dos proprietários. Olímpio, assim, é também a crítica proprietária dos estancieiros tradicionais; uma reflexão interna da classe. Ele simboliza a principal potencialidade oligárquica. É a nova elite da transição da monarquia à República, adotada com paixão as ideias liberais, mas as conflituando com sua tradição cortesã e origem escravocrata – os braços negros eram diretamente responsáveis pela sua riqueza herdada. O castelo, símbolo feudal, é o nexo irrompido dessa oligarquia, mesmo quando se tornara republicana.
O Doutor vai concluir o castelo iniciado por seu pai. Mas Olímpio quer estar acima de todos. Prosseguir com a tradição de distanciamento com o meio terrunho, gauchesco e ignorante do Rio Grande, apesar de seu discurso progressista e utópico. O castelo é sua maternidade. A criar a inteligência de sue proprietário, impõe sobre os habitantes místicos. Os livros, símbolos da sabedoria, estavam às pamparras na cabeça do Doutor. Uma estranha alquimia para o simples mortal. A imensidade de prateleiras condensava-se no cérebro daquele homem. Um ser presente, porém inatingível; inclusive para os familiares.

Tal construção de Assis Brasil, em Perversas famílias, se enriquece pelo acréscimo de outro símbolo derradeiro, que apresilha essa relação de distanciamento da oligarquia no período em questão. Como uma peça de porcelana, o Doutor traz para coabitar o castelo, como sua esposa, uma condessa. Uma nobre e falida vienense, Charlotte, a Condessa von Spiegel-Herb. O Doutor conheceu-a em Paris, onde se encontrava com a Exposição Universal. Era final do século 19. Olímpio trataria seu castelo de ocasião. Traria para o castelo que estava construindo no pampa uma condessa europeia.


No primeiro volume, Assis Brasil começa já a trabalhar uma outra contradição. A primeira foi a complexidade da transição da monarquia para a República. A segunda abarca a emergência da burguesia urbana e a fusão entre alguns de seus setores com famílias oligárquicas. O produto dessa relação é Paris, filho de Selene (a caçula que abandona a casa do Doutor por um amor “plebeu-burguês”) com o engenheiro Hermes (o fabricante de cofres). Selene não morre no parto, como a avó Genebrina, mas enlouquece. Seu filho prossegue a sina dos bastardos. Paris passa para a tutela da família do Doutor. Inicialmente, sua educação é entregue aos jesuítas. Expulso do colégio, vive algum tempo no castelo, depois vai para pensões em Bagé e Pelotas, com o objetivo de estudar. Na tragédia de Paris, Assis Brasil também conduz o seu romance. Paris é a visão de fora, perscrutadora do castelo e dos habitantes, da estância, do Doutor e dos políticos que o cercam. É também é um dos narradores do romance.
Não se sabe como Assis Brasil conduzirá o segundo volume de Um castelo no pampa. Tudo indica que Paris será um dos principais personagens. Considerando o efeito do primeiro volume, a continuação estará sendo ansiosamente esperada. Em Perversas famílias a estética pôde demonstrar a sua potencialidade na apreensão do social, fazendo a vida fluir em suas conexões tipicamente regionais e universais. Um autor que consegue tal resultado merece ser considerado o mais importante escritor rio-grandense da atualidade.
Zero Hora, Porto Alegre, 13 de março de 1993, Segundo Caderno
Novo romance de Assis Brasil: narrativa de múltiplas possibilidades
Antônio Hohlfeldt
Atravessando quinhentos anos da história do Rio Grande do Sul, mas centralizado sua atenção na época contemporânea, Luiz Antonio de Assis Brasil inicia, com Perversas famílias, provavelmente seu projeto literário mais ambicioso, uma trilogia a que domina genericamente Um castelo no pampa, retomando toda a tradição do chamado romance-rio, uma conquista do realismo. Esta perspectiva é tão mais evidente quanto referir-se o titulo desse primeiro volume não a uma personagem, especificamente, mas a um coletivo denominado família, que é, em última análise, o tema com o qual o escritor trabalha.

Contrapondo-se à tradição de valorização das raízes e das árvores genealógicas, que, aliás, reconstitui cuidadosamente, Assis Brasil relata centralmente a história de um personagem que considera a si mesma como o início de uma genealogia: “Minha estirpe começa em mim” (p. 194) adverte o doutor, e ainda que a frase não seja sua, assume-a categoricamente. No entanto, a realidade vai demonstrar o contrário. E é esta contradição que se torna o fulcro da narrativa, na medida em que a personagem deste moderno político, ou que ao menos se pretende moderno, rompendo com a velha tradição do compromisso pela palavra, assumindo novas alianças com outras classes sociais e entendendo que a política deve trabalhar essencialmente com ideias e conceitos a serem livremente esgrimidos frente aos outros, mesmo que isso signifique manipulação das verdadeiras razões dos acontecimentos (veja-se, a respeito, a magnífica passagem do diálogo entre o doutor e o bispo D. Felício, p. 271 e seguintes), acaba sucumbindo à dupla tentação de alcançar aquele antigo status nobiliárquico oriundo da Europa (com o casamento efetivado entre ele e Charlotte, Condessa von Spiegel Herb), enquanto sua família, antes e depois dele, degenerando gradativamente – a viúva do fundador do clã, Dona Plácida, produz um rebento, Astor, como resultado de seu romance com o professor Félix, enquanto a filha do doutor, Selene, ao relacionar-se com Hermes, também fora do casamento, termina gerando Páris, bisneto do protagonista e provável sucessor, como herói, num dos próximos volumes da trilogia.

O grande desafio – concretizado – de Luiz Antonio de Assis Brasil é narrar, através desta família de fundas raízes na terra, a própria história da província. Neste sentido, é referencial, inclusive pelo tom bíblico, o segundo capitulo do romance, em que o narrador recua exatos quinhentos anos e ali, tão objetivo quanto sintético, vem revendo a formação do clã até alcançar o fundador, João Felício, mineiro aqui estabelecido, e que adquire a propriedade ao quase nativo – porque filho de colonos de São Miguel – Bento Maria.

Para dinamizara a narrativa, o escritor não utiliza uma única perspectiva mas, ao contrario, como que reconhecendo a impossibilidade (ou a desnecessidade) da onisciência do narrador, fragmenta-a, valendo-se, para isso, de múltiplas vozes: temos inicialmente um narrador onisciente, em terceira pessoa, que refere sobre tudo fatos pretéritos da vida do Doutor, subdividindo-se, contudo, em dois momentos diferentes: um deles (como no primeiro capitulo) reflete fatos ocorridos num presente recente, culminando na morte da personagem, ainda no início da narrativa; o outro, que se desenrola ao longo de todo o volume, centra sua atenção na juventude da personagens, exatamente nos principais momentos de sua afirmação. Neste caso, haverá uma simbiose posterior a uma terceira perspectiva, ainda em terceira pessoa do singular, que tem como fio condutor a figura do fundador, João Felício e, depois, liga-se a uma quarta linha narrativa, expressa na segunda pessoa do singular e que dá voz à mãe – Dona Plácida -, por sua vez viúva do fundador. Podemos identificar, ainda, o ponto de vista, em primeira pessoa do singular, do bisneto do Doutor, o menino Páris, que surge exatamente a partir da morte do velho e que, igualmente, cruza todo o romance, culminando as alternativas narrativas com outra primeira pessoa do singular, a de Selene, filha do Doutor, mãe de Páris, e que vem a enlouquecer após o parto, sendo imediatamente internada.


Jornal do Sul,Porto Alegre, Mar.1993 - n° 55, Pág. 14

Livros

Com a postura de um bruxo, ele debruça-se no passado.

Tabajara Ruas


No pequeno quarto onde escreve seus livros, cabem apenas Luiz Antonio de Assis Brasil e o passado. Como um bruxo, ele debruça-se sobre páginas amarelecidas, examina gravuras antigas, remove ignotos rincões da memória e despreende a imaginação em vôo cego que vai povoando o quarto, lentamente, de sua arte de escritor; homens a cavalo, cidades incendiadas, negros açoitados, padres torturados pela carne, mulheres prisioneiras da solidão, negociantes desonestos, guerreiros covardes, luxúria reprimida, sentimentos de rejeição, explosões de cólera e loucura, desespero, sacristias, galpões, cobiça, avareza, incesto e o pampa abraçando a todos em sua mortalha de silêncio.

Que enigma busca decifrar Luiz Antonio de Assis Brasil entre as paredes de seu pequeno quarto? Nossa identidade de habitantes do Sul, ele responde; mas isso não tem importância. Há um mistério maior em seus livros, e esse mistério é o poder de sua arte. É através dela que ele edifica esse território de solidões espantosas povoados de gente ásperas e ambíguas: o coronel Baltazar Antão, Dona Camila, Isabel e Micaela, laurita, Filhinho, o coronel Chicão... São nossos bisavós e suas perplexidades, narradas por voz em surdina no canto de uma sala iluminada pela luz suave, mas reveladora, de uma vela.

Luiz Antonio de Assis Brasil é um homem urbano, ponderado, culto, extremamente gentil. Algum demônio habita seu pequeno quarto e lhe sussurra essas histórias densas de amargura, fortaleza e violência. Ele sabe que o Rio Grande está ali, num desses livros tão temidos. Porque só podem ser temidos: no ano do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha ele lançou As Virtudes as casa, história de mulheres isoladas numa estância perdida no pampa. Mais do que nunca, com paixão e lucidez, ele busca nesse livro as matrizes de nossa maneira de ser. Ninguém aceitou o desafio de responder a essas páginas turvas, cheirando a sexo, incenso e campo. Não aceitaram nossos intelectuais que discutem Kundera no Borgart; não aceitaram nossos tradicionalistas que aos domingos se fantasiam com bombachas e outras insumentárias curiosas.

Em qualquer país culto, não colonizado culturalmente, um livro como As virtudes da casa provocaria discussões intensas e ricas. Aqui prefere-se discutir o sexo em Praga ou Nova Iorque. Luiz Antonio de Assis Brasil nos propõe outro desafio: já está nas livrarias. Os Cães da Província, onde vamos encontrar nossa loucura, nossa genialidade e nossas perversões. É possível que para todos seja mais confortável ler sobre essas coisas acontecendo num pais distante, como é mais cômodo que continuemos brincando com nosso sonho infantil de heróis mitológicos. O rio Grande do Sul verdadeiro e secreto que o escritor nos oferece é incômodo demais. E além disso, ainda não virou moda.

Diário do Sul, Porto Alegre


Um castelo no pampa, ou quem sabe no inferno
Tabajara Ruas
Advirto que não será fácil entrar nesse castelo, primeiro porque fala sobre nós, meridionais, e segundo porque o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil preservara em transportar seus leitores para sítios incômodos. Ninguém diria vendo-o tão afável. Ninguém diria vendo-o tão professor cercado por discípulos, tão intelectual cercado de suscetibilidade, tão ao alcance da mão. Mas não está ao alcance da mão. Não quando liga o computador e acaricia as teclas, olhar vago. Quando se transforma. Quando vira esse escritor estranho que olha a seu redor com o propósito de entender, que é o jeito mais agudo de tudo ver, o jeito mais dolorido, o olhar de quem sabe “tudo o que flameja sobre a noite/foi do coração humano alimentado”, ou que sabe o necessário para entender que-quer-que-seja é entender a si mesmo, e dai sabemos que somos produtos do nosso cenário, e nosso cenário é nossa cultura.

Gigantesco painel das origens da burguesia gaúcha e de seus hábitos sociais e culturais, tratado político e antropológico concebido como desafio estético, o primeiro volume da trilogia Um castelo no pampa, com o titulo explicito de Perversas famílias, é uma obra que não merece o desdém da interpretação nem a busca de paralelos ou explicações. Elas são tão óbvias e cansativas. Perversas famílias é a invenção de um demiurgo, a alucinação de um mágico, a dor de um artista interrogando seus fantasmas. Esse artista muniu-se de erudição rebuscada e disciplinada de monge para exercitar vários jogos simultâneos, alguns graciosos, alguns desafiadores. O gracioso é ele enganar a tanto fingindo um estilo e fazendo outro, sugerindo o passado e criando o novo, nos dando um livro com o gosto e o sabor de uma época antiga e fazendo uma literatura voltada para o futuro. O desafiador é, quando disfarçado em ironia sussurrada, ele abra as portas pesadas do castelo e nos deixa diante das carnes pálidas de nossas vergonhas. Rasgando, às vezes com faca cega, as estranhas de nossas origens para investigar as causas dessa nossa tão baixa auto-estima, dessa ainda hoje rasteira submissão cultura a mitos distantes.

Diz Astor, o bêbado, para Páris, a respeito do ilustrado senhor do castelo: “Tudo aqui é estrangeiro, menino. Desde o lustre que está sobre sua cabeça até o tapete aos seus pés. O meu finado irmão era um portento comprador, e odiava o Brasil. Ministro, Embaixador, Presidente do Estado, mas um renegado da pátria. Por debaixo de sua casemira inglesa, suas gravatas francesas de grisperle, tinha também um corpo de estrangeiro. Uma vez me disse: “Sabe, Astor, do pais possuo apenas a merda dos intestinos”. Quase sem anos depois a frase vale: mudou apenas a direção e o idioma dos nossos deslumbramentos.

Perversas famílias é um livro para ser discutido, aberta e francamente, e para isso foi escrito. É um livro que busca desvendar nossa identidade, e investe com dura ironia. É um livro que não se paralisa num esquema, como superficialmente pode parecer, mas organiza-se como o vôo de uma borboleta presa nas paredes de um quarto vazio. É um livro para se contestado (se houver inteligência e coragem para tanto) desde o titulo e sua propriedade, passado pelo humor feroz até a descrença nas entrelinhas. É um livro para ser visto como uma homenagem para á literatura, monumento feito de retalhos de nossa memória cultural, nossa força e nossa fraqueza.

Romance de perversidade, e narrado com um maldoso sorriso imperceptível, esparrama-se num universo viscoso de vícios, anomalias, segredos, culpas, paixões, impulsos – painel completo, assustador e transparente de nós mesmos, construído com doce persuação. E mesmo assim terá o rechaço dos atingidos pela síndrome do ilustrado senhor do castelo e revelada por Astor. O tempo passa e continuamos submissos. Mas o livro de Luiz Antonio de Assis Brasil não é uma casa de bonecas. Não é uma fazenda em Minesotta. É Um castelo no pampa. E nele somos introduzidos, não para ouvir baladas country de algum caipira letrado, mas para descobrir, com Páris, o mais assustador dos segredos quem somos, de onde viemos.

Esse universo em meio às dores do crescimento foi concebido pelo autor como o mais inventivo dos seus romances. Cada página é um susto da imaginação. As palavras sabem a coisa nova. Desertas Famílias deverá suscitar as especulações mais diversas, sobre a origem dos personagens ou a propriedade dos pontos de vista, mas o prazer maior será usufruído por quem se deixa levar sem resistência pela mão do romancista. Luiz Antonio de Assis Brasil está soberano, senhor do seu castelo de palavras. Os pequenos episódios, as viradas da narrativa, os minúsculos enquadramentos, os vôos líricos, as citações, a dramaticidade crescente e as sempre inesperadas soluções mostram um artista dominando sua arte e mergulhando fundo na busca da originalidade. Tudo o autor consegue. Todas as armadilhas são desmanchadas. O romance flui como um rio caudaloso observado pelo autor sentado á margem, com seu cachimbo e o sorriso enigmático.

Fechamos a última página e consideramos longamente o privilegio – e a consolação – de esperara a continuação dessas terríveis revelações, o privilegio de convivermos com a plenitude criadora de um artista superior. Emergindo destes momentos amargos da nacionalidade como um facho de luz, o talento de Luiz Antonio de Assis Brasil é uma iluminação na nossa consciência e no nosso orgulho. Esse pensamento feliz nos leva a recordar a monumental entrega anterior de Luiz Antonio, o épico Videiras de cristal, publicado a exatamente dois anos, e misteriosamente ignorado pela crítica.

Com exceção óbvia do Rio Grande e de uma resenha publicada no Jornal do Brasil, mas feita aqui, nenhum dos pomposos cadernos de cultura dos jornalões e revistas do centro do país deu uma linha sobre o livro. Inveja? Rancor? Provincianismo? Ou apenas a banal incompetência? Não importa. Esperamos que Perversas famílias, primeiro volume da trilogia anunciada, receba a acolhida a que tem direito, não pelo autor, cuja glória é o poder da criação, mas pela literatura brasileira e seus leitores.
Zero Hora, Porto Alegre, Segundo Caderno,19.dez. 1992, pág.5

Uma saga dos pampas - Primeiro de uma trilogia, romance gaúcho, com sabor positivista, narra a luta de uma casta

Salim Miguel


Em seu romance Perversas famílias, primeiro da trilogia Um castelo no pampa, Luiz Antonio de Assis Brasil dá prosseguimento a uma obra coerente, que se consolida com o passar dos anos e o surgimento de novos títulos. Vocação de ficcionista, vocação de romancista, Assis Brasil definiu sua proposta a partir do primeiro livro (Um quarto de légua em quadro, 1976), que é por igual o primeiro da trilogia, continuada com A prole do corvo, 1978, e Bacia das almas, 1981. Ele resgata e aclara aspectos históricos e culturais do Rio Grande do Sul, seja através de amplos painéis, seja se detendo na figura do teatrólogo Qorpo Santo (Cães da Província, 1987) ou do movimento dos Muckers (Videiras de cristal, 1990). Por suas preocupações, sua escrita, seus temas, Assis Brasil se insere numa linhagem de escritores gaúchos que tem, entre os nomes mais expressivos, um Érico Veríssimo e um Josué Guimarães.

Observação que logo se faz necessária: para além de suas inequívocas qualidades de escritor, dono de um estilo muito pessoal, o autor de Perversas famílias recupera, como poucos em nossos dias, o prazer da leitura, arte tão relegada. Assis Brasil envolve o leitor, deixando-o amarrado à trama, faz com que participe da vida de suas criaturas. Criador autêntico, as múltiplas vozes que ele faz chegar até nós acabam para confluir a unidade da obra, ajudando a ampliar nosso conhecimento do ser humano. No caso especifico, se conhecemos algo da história do Rio Grande do Sul, tanto melhor. Caso contrário, isto não invalida o contexto: enredo e estrutura se sustentam por si só, pela competência de Assis Brasil e por sua capacidade no transmitir.

Para melhor absorver o conteúdo do livro é bom ficar atento às pistas que o autor vai deixando. Já na página 26 temos a primeira. Diz ele: “É preciso muito esforço, é necessário socorrer-se até de autores importantes como Eça e, procurando fazer um miserável pasticho de seu estilo, trazer alguma verdade a isso tudo que obviamente é mentira”.

No transcorrer da leitura é fácil perceber-se a presença do Eça de A cidade e as serras ou de A ilustre casa de Ramires. No Doutor, de Assis Brasil, há um pouco de Jacinto de Thormes e outro tanto de Gonçalo Mendes Ramires. Impossível é concordar quando ele diz que quer “trazer alguma verdade a isso tudo que obviamente é uma mentira”. Se é ficção nunca é mentira.

No Doutor, para citá-lo novamente, há muito de antepassados do próprio Assis Brasil, em especial Joaquim Francisco de Assis Brasil, conviveu com Vragas, Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos. Nem é por outro motivo que, ao concluir este primeiro volume, Assis Brasil deixa, em Nota do Autor, nova pista esclarecedora. Ei-la: “Todas as semelhanças que forem encontradas, neste romance, com fatos e pessoas da vida real, como tais devem ser consideradas: apenas semelhanças”.

Em tudo que vai sendo revelado, mais do que mentira ficcional, é a realidade transformada em matéria ficcional que conta. Também, mais do que pasticho, o que temos é um texto paródico, amarga sátira para a evidente contradição entre as palavras e a ação do Doutor. E, se no Eça de Queirós há um paralelo França-Portugal, aqui, em Perversas famílias, existe idêntico paralelo França-Brasil. Sabendo da construção da Torre Eiffel, o Doutor, num arroubo incontido, exclama: “Em Paris a Torre, no pampa o Castelo”. Figura chave de uma fascinante galeria de personagens, o Doutor, ao mesmo tempo em que luta pela libertação dos escravos e pela Independência, busca na Europa uma condessa para casar, termina de erguer em pleno pampa o Castelo, que a morte do pai deixara inconcluso, e mantém amarrado a ele um serviçal, Raymond.

Não pretendemos tirar o sabor das descobertas (e leituras) que cada leitor irá fazendo; mas outra pista está na página 79, quando se lê: “é também o lugar onde moram os deuses”. Simbologia mais do que explicita: o Castelo é o Olímpo, o Doutor se chama Olímpio, seus filhos Aquiles e Proteu, Páris seu neto, filho de sua filha Selene e de Hermes, enquanto Astor é filho de espúrio de Genebrina, mão do Doutor.

Outra constante em Assis Brasil é a recorrência. Tal como em Bacia das almas, o positivismo está presente em Perversas famílias. E Bento Maria, de quem João Felício, pai do Doutor, compra as terras, bem pode ter transitado das páginas de As virtudes da casa, romance de 1985, para este. Pois se no primeiro é a luta pelo desbravamento e a posse da terra, agora é o predomínio de uma casa em meio a desavenças, chegando até a perversão, conforme constata, em outra passagem sumamente esclarecedora, Beatriz, mulher de Arquelau, irmão do Doutor, em conversa com Páris, o enjeitado.

Embora primeiro de uma trilogia, o livro é autônomo. Pode ser lido independente dos que se lhe seguirão. Publicados os três, teremos uma saga abrangente que, fundindo ficção e realidade, acompanha a trajetória de uma família e vai do final do Segundo Império até a Era Vargas. Personagens e situações esboçadas irão se completar.

Voltemos ao prazer da leitura. Como acontecia com os folhetins de antigamente, que eram entregues semanalmente de porta em porta, é aguardar, com ansiedade, o próximo volume.


Jornal do Brasil, Ficção/Ideias/Livros; 13.mar.1993

Ligações perigosas ao sul
Deonísio da Silva
Autor de dez romances, vários deles em sucessivas redenções, Luiz Antonio de Assis Brasil é, como tantos outros de sua dimensão, um autor pouco conhecido além dos limites de sua região, o Brasil meridional, celeiro de notáveis romancistas, que nos deu uma das megaestrelas da literatura deste século, Érico Veríssimo. Além de escritor, é professor na PUC-RSRS de Porto Alegre, onde observe o doutoramento com o romance Cães da Província como tese, e onde publicou todos os seus livros, ora pela Editora Movimento, por onde quase todos os escritores gaúchos iniciantes começaram, ora pela LPM é Mercado Aberto.

Em abril e maio deste ano, integrando um grupo de escritores brasileiros, convidados pela Haus der Kukturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo), percorreu diversas cidades alemãs, como Berlim e Heidelberg, fazendo leituras políticas e debatendo com universitários este seus décimo romance, Pedra na memória, o segundo volume da série Um castelo no pampa. O primeiro foi Perversas famílias. Ambos revelam sua fidelidade a um projeto literário em que as ligações perigosas da sociedade da época são espelhadas num contexto político apropriado.



1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   ...   44


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal