Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Castelo nos pampas

As tramas do romance – o autor sabe como poucos contar uma boa história – começam com a nascente república e estendem-se até os fabulosos anos 20, os das revoluções, do tenentismo e dos modernistas. Um dos principais personagens, o Dr. Olímpio, de hábitos elegantes e refinados, procedente de Páris, tendo o criado Raymond a tiracolo, chega ao Rio de Janeiro, achando que a cidade “tornou-se, enfim, o palco das sonhadas ações republicanas”. Ali, em meio a “anciãos de bengala e ar profundamente ofendido” ele percebe que “até o costumeiro cheiro de mijo das ruas amainou ao sabor da proclamação”. Logo segue para Porto Alegre, onde os republicanos puseram no poder o Marechal Câmara, alta autoridade militar do Império recém-abatido. Diante da estranheza do Dr. Olímpio, Júlio de Castilhos explica: “a República surgiu de um golpe militar. Nada mais natural que um oficial assumisse o governo”, aproveitando para resumir o seu plano: “implantar no Rio Grande um sólido governo inspirado nas luzes do positivismo político”. Nos diálogos com o Marechal, Dr. Olímpio vai destilando sua verve. À pergunta de “como está Páris?”, reponde à queima-roupa: “com bons governos civis”. Ah, esses moços”, retruca o militar: “proclamam a república e não sabendo o que fazer com ela, entregam-na”.

É assim, de supetão, que o romancista estabelece o quadro para a história que nos vai narrar, levando p protagonista a Pelotas, cidade próspera e culta em todos os sentidos, onde a língua oficial é o francês e em cujo teatro, o Sete de Abril, encena-se Sansão e Dalila, sendo Sansão “um genovês de cabelos pintados que come sanduíches de mortadela” e paquera Cecília, uma das românticas beldades locais. Lá ele erguerá Um castelo no pampa, obedecendo ao modelo europeu, sem esquecendo de uma adega para 2.000 garrafas, “um excelente lugar para encarcerar o Júlio”, e uma capela. Diante do espanto do construtor Leverrier, francês, naturalmente, que observa serem ateus o cliente e os republicanos, esclarece com outra pergunta: “desde quando uma capela tem algo a ver com a religião?”
Luiz Antonio intercionaliza sua prosa. Os eventos dão-se em Pelotas, Porto Alegre, Rio, mas também em Buenos Aires, Lisboa, Londres e Viena, não fosse o doutor um cidadão do mundo, ainda que apegado a sua terra e ao poder local. Pudera! Em que outro lugar do mundo, em tempos republicanos, depois de rolarem cabeças coroadas, um latifundiário e déspota, mesmo esclarecido, poderia mandar tanto e viver tão bem? Afinal, sai regime velho, entra regime novo, e quem manda são os mesmos de sempre, pois o doutor acha impossível o positivismo republicano organizar a ratatuia.

De amores e revoluções

Mas, como diz um personagem, “gaúcho” está sempre pensando em revolução porque fica muito tempo sem fazer nada, olhando para o gado” e logo explode o Rio Grande revoltoso”. Ao final, na esplendida biblioteca do castelo do pampa, o doutor Olímpio, nas palavras do general Zeca Neto, “presta um grande serviço a si mesmo”, enquanto a paz é assinada, não sem constrangimentos diversos, pelos chefes militares presentes.

Com este romance, Luiz Antonio de Assis Brasil dá mostras de sua maturidade como escritor, armando as tramas e construindo as personagens com um domínio técnico invejável. Espalhando diversas histórias de amor no entrecho de fatos políticos que moldaram a vida de nosso País a partir do Brasil meridional, ele faz com que o gênero consolide seu lugar insuperável o romance é ainda a melhor forma de espelhar essas diversas sagas que constituíram a nação brasileira, a sociedade em que vivemos, seus usos e costumes.

Soda corrosiva

É uma das melhores interpretações de um tempo tido como heróico, que encontrou lideres que pensavam para muito além de seus currais, dos interesses de particulares ou dos pequenos grupos, que arregimentavam. Ganha importância em seu romance o hono politicus, interessado num projeto de fazer do Brasil uma nação. Nada disso, porém, detém a soda corrosiva que o escritor derrama sobre carcaças escolhidas, recuperando a verdadeira história, secreta, da sociedade em que vivemos, frequentemente enganada por figuras notáveis, que do alto das estaturas nas praças públicas ainda dão a impressão de reinar, sobranceiras, sobre a ratatuia que as desconhece. Afinal, apesar de todos os esforços republicanos, ainda continuamos com uma das maiores reservas analfabéticas do mundo.

Sorte das estatuas! Do contrário, muitas delas viriam abaixo a marretadas, para que os vivos deixassem de uma vez por todos de serem governados não apenas por mortos, mas por mortos errados ou seus prepostos.

PEDRAS NA MEMÓRIA, de Luiz Antonio de Assis Brasil. Mercado Aberto. 419 págs. R$ 18,60.



D.S é o doutor em letras, escritor e professor da UFSCAR.
Jornal da Tarde, São Paulo, 20.ago.1994, Caderno de Sábado, p. 4


Liberdade e pecado em Perversas famílias
João Vianney Cavalcanti Nuto
A trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, é um exemplo, antológico na literatura brasileira, do roman-fleuve ou romance de saga, aquele romance caudaloso que focaliza varias gerações de uma família e, recontando fatos históricos, cumpre a antiga função épica de rememorização. Perversas famílias, nono romance de Luiz Antonio de Assis Brasil e primeiro de uma série Um castelo no pampa, retoma e enriquece a tradição do romance de saga.

Perversas famílias abrange quatro gerações da família de Olímpio (ou, simplesmente, Doutor), cuja ascensão política e econômica culmina com a construção de um castelo medieval em pleno pampa gaúcho, visto por aquele membro da elite “esclarecida e progressista” como um símbolo da Liberdade (palavra favorita do Doutor) no meio da “Monarquia decrépita”. Mas um castelo de estilo medieval ... com toda nobreza dos castelos europeus, só que deslocado para a rústica província gaúcha e produto de uma fortuna iniciada na lida do charqueamento de carne... Ironicamente, o castelo simboliza a falta de identidade cultural de uma classe social que aspira ao progresso e à ascensão, mas que não consegue se desvincular da imagem do colonizador como modelo. Progredir no império é assemelhar-se ao que a Europa tem de mais tradicional. Por isso é o que o fazendeiro João Felício (pai do Doutor) decide construir o castelo: para igualar-se à esposa educadora na Suíça, conhecida como a Genebrina. Ainda preso à sua origem popular (quase se pode dizer “indígena”), João Felício é literalmente esmagado por uma pedra que encerra sua canhestra tentativa de “nobilização”.

Quem consegue tornar-se um nobre senhor feudal é Olimpio, o filho de João Felício, que é bacharel e conhecedor refinado da cultura europeia, incluindo as mais revolucionarias doutrinas filosóficas e políticas. Enfim, o Doutor é um jovem “preparado”, um jovem “de visão”, cuja nobreza de espírito (a “verdadeira nobreza”), manifesta na abolição de seus escravos e nos ideais de Liberdade, é completada pela posse do castelo e pelo casamento com uma condessa austríaca.

Alegoria da Liberdade, o castelo, assim como o livro do Doutor sobre a Revolução dos Farrapos, é parte de um projeto particular de heroicização épica. Mas, ao contrario de uma epopeia, o romance Perversas famílias permite a sátira, contrapondo a Liberdade ao Pecado oculto por trás da fachada do castelo: “a Liberdade precisa conviver com o pecado, são indispensáveis”, diz o fantasma de Olímpio, com a sabedoria dos mortos. O pecado se revela nos aspectos mais escusos da nobre famílias do Doutor: alcoolismo, suicídio, uma suspeita de assassinato, intrigas, rejeição, esnobismo, tudo isto devidamente regido pela opressão e desprezo de Olímpio, o Libertador. Mas a noção do pecado em Perversas famílias não se restringe ap maniqueísmo cristão. Pecado é toda força transgressora da ordem épica instituída por Olímpio. E, neste caso, o maior pecado é a paixão amorosa como a de D. Plácida (mãe do Doutor, viúva de João Felício) que não gostava de epopeias: “- As epopeias não tem sentimentos (...) As personagens são frias, com uma pedra no peito. Vivem apenas para dizerem frases mitológicas. (...) Epopeias tem sabor de morte e mármore”. O pecado de D. Plácida é manter um caso amoroso e gerar um filho ilegítimo. O mesmo pecado é repetido por Selene, a filha do Doutor, que ousa casar-se com um “plebeu”, contra a aprovação da família. Como, “a coitada da avó”, Selene, personagem associada à Lua, não se enquadra naquele mundo de luta pela terra e pelo poder. Sua liberdade é a do Pecado: liberdade lírico-erótica, despida dos traços épicos da Liberdade social do Doutor.

Habilmente o autor tece o contraponto entre Liberdade e Pecado através de variados recursos narrativos. Contrariando a forma mais comum do romance de saga, Perversas famílias foge da estrutura linear, apresentando avanços e recuos no tempo e alternando focos narrativos, nos quais liberdade e pecado se imbricam. No pólo da Liberdade, a narrativa se identifica mais com o romance de saga, utilizando a terceira para dar uma visão panorâmica dos conflitos familiares, econômicos e políticos, através de personagens planos. O pecado, como sempre oculto e negado, é gradativamente revelado por narrativas intimistas, mas quais narradores-personagens, não panes narram os atos, mas expressam os desejos. Assim, o narrador revela gradativamente a paixão “imoral” de D. Plácida, através de um discurso em que a própria personagem é o interlocutor: “(...) tu, Genebrina, te afogas nos sentimentos caudalosos do platino professor Feliz del Arroyo”. A paixão, o alheamento e o abandono de Selene são expressos pela própria personagem, assim como os estranhamentos do seu filho Páris, o herdeiro pseudo-órfão e mal tolerado pela família que, tentando desvendar sua verdadeira origem, vai testemunhando a Liberdade e o Pecado do qual é fruto. Esta estrutura narrativa evita que o romance se concentre exclusivamente na figura do Doutor, dando profundidade a personagens que, nos trechos em terceira pessoa, tenderiam a permanecer planos, além de gerar um polifonia que contrapõe visões masculinas e femininas.

O romance Perversas famílias peca por algumas alegorias excessivamente óbvias, como os nomes mitológicos dos personagens e a cena em que Selene se despe diante do pai para expressar sua liberdade, mas se enriquece pelo virtuosismo narrativo com que mistura a visão panorâmica do romance de saga com a introspecção do romance psicológico sem perder a fluência do texto nem o interesse do leitor.
Literatura Brasileira Contemporânea/ Boletim Universidade de Brasília

Segunda quinzena de julho de 1997 Ano I, n° 5




Imigração e tragédia em Videiras de Cristal
Aos meus filhos. A besta do apocalipse está a solta.Chegou a hora de fazermos parar os ímpios, nem que seja pelo ferro e pelo fogo. Jacó está certo. A noite passada foi deles, mas a de hoje será nossa.
Luiz Antonio de Assis Brasil

Lígia Militz da Costa


Na base das diferenças entre a tragédia grega antiga e a tragédia moderna, é necessário considerar a situação existencial humana, em função do respectivo contexto epistemológico. No tempo da tragédia Ática, o homem sentia-se “em sua casa” no mundo, ou seja, sentia-se como integrante da natureza e de todo o universo; após, com todas as informações políticas, sociais, históricas e culturais, passou a considerar-se um estranho no seu próprio mundo. Se a tragédia antiga podia ser entendida como um culto, uma afirmação de valores mítico-religiosos, a moderna pressupõe um mundo abandonado por Deus, um mundo dependente só dos homens. Na tragédia grega o destino era algo que dependia dos deuses ou dos poderes acima deles; na tragédia moderna, ele está vinculado ao caráter do herói. È o caráter desregrado que leva o heroià ruína, e não a fatalidade do destino. De vítima da “Moira”, ele passa a sujeito individual do conflito trágico.

De resto, os fundamentos do gênero trágico, centrados no conflito entre ordens culturais hierarquicamente diversas, permanecem igualmente na tragédia moderna.

O trágico instala-se, portanto, pela decomposição da ordem geral da cultura humana, e isso se dá através da violência recíproca. A violência é o fator desencadeante da tragédia; ela é que causa as represálias, que são as ações impulsionadas pela vingança. Assim, o ultrapassamento dos limites e a consequente necessidade d punção para o restabelecimento da ordem rompida identificam o gênero.

O exame dos elementos trágicos na obra Videira de Cristal1 parte da relação entre a questão do trágico e a temática da imigração alemã, tomando como ponto de referência a linha histórico-ficcional imprimida ao tema por Josué Guimarães em A ferro e fogo, trilogia incompleta do autor gaúcho publicada na década de 70.2 A opção por este campo referencial de análise justifica-se não só pelo fato de Videiras de cristal começar no ponto em que Tempo de guerra termina, com o episódio dos Muckers que seria o alvo do último tomo de Aferro e fogo, mas também pelo fato de Assis Brasil dedicar o livro à memória do próprio Josué Guimarães. Nenhum desses elementos é gratuito, e com a retomada do tema e reconstrução da sequência da história, Assis Brasil revigora a ficção de Josué Guimarães e se inclui, mais uma vez, na série literária que prioriza as relações entre literatura e história no Rio Grande do Sul.

O livro de Assis Brasil rastreia um percurso trágico que começa com a chegada dos alemães em 1824. Dentro da narrativa, é o médico psiquiatra alemão Chistian Fischer que detém o espaço do discurso informativo sobre a história do imigrante, nas cartas que escreve ao seu tio e tutor, que ficara na Alemanha, Videiras de cristal contextualiza-se temporariamente a partir de 1824. Um registro inicial, através da personagem Christian Fischer, situa o leitor:

E assim a colônia apresenta duas faces de um lado a face boa, isto é, a dos imigrantes que, aqui chegados há quase cinquenta anos, adquiriram fortuna e vieram morar em São Leopoldo. (...) Enriqueceram no comércio, intermediando as mercadorias do interior. E Porto Alegre sabe comprar: comida, selas de cavalo, charutos e objetos de funilaria; explica-se: a Província é um imenso campo para cria do gado e o poucos objetos manufaturados que produzem são lamentáveis. Os alemães constituem, portanto, uma ilha industrial e agrícola no meio desse cenário. E, como o dinheiro não pode estar em duas mãos ao mesmo tempo, fica de preferência nas mãos dos que já o têm. Revela-se assim a outra face da colônia: a má, constituída por toda esta gente que se espalha na duas margens do rio dos Sinos e forma pequenos núcleos de vida apagada: falam apenas alemão, vivem em seus pequenos lotes de terras e tudo o que ganham não conseguem juntar porque estão sempre em débito com o comerciante, esse deus protetor e terrível. Raros são os que podem comprar um sapato, e a grande maioria não sabe ler nem escrever. É possível que estejam até melhor do que estariam na Alemanha, mas o fato é que há uma grande distância social e econômica em relação aos seus patrícios de São Leopoldo.3


Mais adiante, lê-se:
Antes do término da Revolução de 1835 a 1845 os colonos ainda viviam em uma relativa igualdade social, todos se ajudavam, compartilhando as mesmas dificuldades e tendo as mesmas esperanças. Com a revolução começaram as disparidades, muitos enriqueceram e passaram a explorar seus concidadãos, assumindo aqui o lugar que odiavam dos nobres da Alemanha.4

As passagens citadas evidenciam as diferenças sócio-econômicas que se efetivaram entre os imigrantes e seus descendentes na província gaúcha. Paralelamente a essa situação de penúria de uma grande parte deles, a carência de orientação espiritual era deplorável, tanto para alemães católicos como para luteranos, nascidos ou não aqui:


Quando os jesuítas aqui chegaram há vinte anos, encontraram a colônia no mais completo abandono espiritual. Não havia padres e, para suprir esta falta, alguns colonos improvisavam-se de sacerdotes, dirigindo orações; houve até um caso alarmante: um colono vestia-se de paramentos e imitava os gestos do padre na missa, só faltando consagrar a hóstia.5
Cinquenta anos após sua chegada ao Rio Grande do Sul, os imigrantes alemães mantinham-se, portanto, em situação de abandono material e espiritual. Nesse percurso e contexto é que o episódio dos Muckers pode ser compreendido e motivado em Videiras de cristal, como represália dos colonos marginalizados e desorientados, expostos a violências múltiplas desde que aqui aportaram.

O conflito trágico, como se viu, instala-se com a ruptura da ordem cultural. As diferenças hierárquicas são desrespeitadas entre os próprios homens ou entre a ordem humana e divina, e a situação trágica fica deflagrada. A seita criada pelos imigrantes, entendida como solução para suportar e reagir ao quadro aflitivo que lhe era imposto, funcionaria, dentro do mecanismo trágico, como vingança possível á violência que não poderia ter sido praticada sobre eles, que para cá vieram com diferentes perspectivas. Essa comunidade dos alemães da “face má da colônia”, com o movimento Muckers, quebrou os mitos e as normas legais tradicionalmente aceitos, rompendo com a ordem estabelecida pelos homens com o poder divino. A represália detona o acirramento da violência, com o ultrapassamento progressivo e desmedido de qualquer limite.

Entre as muitas ações que impulsionaram os seguidores para a morte trágica, salienta-se a ruptura de dogmas e sacramentos, com a criação de novos ritos sagrados, como de batismo e casamento, independentemente da tradição católica ou luterana. Os Muckers propuseram nova interpretação para a Bíblia e, em vez do nome de Cristo, falavam de Espírito Natural. Jacobina, com êxtases e delírios, encarna este espírito, protagonizando cenas fantásticas, segundo o discurso da personagem Jacó Mula, que a vê levitar, iluminada. Com ela se identificavam sobretudo as curas impossíveis, nas quais até cegos passavam a enxergar. Do ponto de vista político- ideológico, a indiferença às autoridades governamentais e ás leis da província tornou-se praxe. O problema da escolaridade foi resolvido dentro da própria seita: os Muckers não permitiam que seus filhos frequentassem a escola da colônia. A hostilidade com os detentores do poder oficial substituiu, com o crescimento inevitável do movimento, a parente indiferença inicial.

Misturando o poder humano com o divino, a pessoa fantástica de jacobina seduzia celeremente a coletividade do Ferrabrás. Através de linguagem metafísica, o texto manifesta a preocupação do Padre Mathias Munsch a esse respeito:

As almas dos íeis se assemelham a Videiras de cristal: fecundas nos verões luminosos mas frágeis e quebradiças quando cobertas pela geada do inverno.6
A seita dos Muckers punha em risco o poder civil e eclesiástico da sociedade instituída e intalava o caos onde antes parecia haver o cosmos equilibrado. Mas o equilíbrio era falso, como se pôde ver.]A revolta contra os valores de uma comunidade, onde um determinado grupo não se vê representado, antecipa a possibilidade de um epílogo catastrófico.

Por outro lado, como na tragédia existe sempre um conteúdo pedagógico e exemplar, cabe verificar se esse tipo de relação com o gênero ocorre na narrativa de Videiras de cristal. Para poderem ser consideradas a partir do gênero trágico, as mortes dos Muckers e de Jacobina na catástrofe final devem apresentar ligações com a purificação da comunidade, tornando-se sua punição e mesmo eles próprios uma “coisa Santa”, à medida que, através do seu sacrifício, toda a comunidade se redime da violência praticada por seus membros. A pergunta que se coloca é a seguinte: a morte de Jacobina e as implicações dela decorrentes poderiam configurar a personagem como heroína? A morte dela instauraria a reposição da ordem perdida na comunidade? No gênero dramático, a morte de um heroitrágico se relaciona com um novo ciclo de vida que deve se abrir, purificado. A morte de Jacobina e dos Musckers também não parece distanciar-se muito desse efeito, se for considerado que sua punição sacrificial corresponderia à conscientização ética dos colonos imigrantes, mesmo que abandonados á sua própria sorte e desorientados em uma terra estranha. Se foi um erro fatal para eles querer um poder espiritual como se divinos fossem, o sacrifício deles como vítimas desse erro tornou-se exemplar para seus descendentes, que viram a necessidade de nunca mais repetir o fanatismo coletivo e os delírios paranóicos, porque, irreversivelmente, eles conduziriam à tragédia. A história dos Muckers é exemplar quanto à certeza de não poder ser repetida.

Igualmente, o fato de eles, que eram cerca de duzentas pessoas, terem sido dizimados por batalhões de soldados armados numa verdadeira operação de guerra, conforme o texto de Assis Brasil, acaba transformando-0s em vítimas sacrificiais santificadas, porque punidas com uma violência desmedida, que ultrapassa qualquer delírio paranóico Mucker. Represália sobre represália, a violência oficial se agiganta com a operação de guerra lançada sobre as duas centenas de fiei malditos. Aliás, o relato da situação de guerra é épico e belo em Videiras de cristal. Também para a comunidade a lição torna-se exemplar: marginalizar imigrantes ou seus descendentes, retirando-lhes a dignidade de sobrevivência, pode comprometer a segurança e a vida de todos. O poder público não deve mais incorrer no erro de abandonar à própria sorte as pessoas a quem chama para servi-lo. Se fazer isso, já sabe como poderá terminar. Purificada também a comunidade para um novo e diferente ciclo de vida, onde o respeito pelo ser humano, com seus direitos, crenças e valores, parece ser o pilar mais vigoroso, resta avaliar: Jacobina, catalizando a culpa suprema dos Muckers e permitindo, com sua morte, a restauração dos valores perdidos pela coletividade, aproxima-se de uma heroína trágica, ou seja, mitifica-se ao resgatar o bem com seu próprio sangue? Que espaço atribui a ela e aos seguidores da seita a cultura do Rio Grande do Sul, hoje? Estão vivas no imaginário popular essas figuras que partiram negativamente do discurso oficial da história?

Em meio caminho entre os santos e os “santarrões” (Muckers), Jacobina é recriada por Luiz Antonio de Assis Brasil com a ambiguidade de um mito duvidoso: pura e adúltera, santa e “assassina” e, no entanto, mística, angelical e sobrenatural, capaz de levar ao delírio, á luta armada e à própria morte, pela fé num ideal, uma leva de seguidores...

In COSTA, L.M. Ficção brasileira. Santa Maria: UFSM, 1995, p. 87-92
VIDEIRAS DE CRISTAL - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Renate Schreiner


A língua e os costumes como fatores determinantes da imagem

O romance dos Muckers, Videiras de cristal, foi lançado por Luiz Antonio de Assis Brasil, em dezembro de 1990, e é dedicado à memória de Josué Guimarães, de quem sabemos que tinha o propósito de concluir sua trilogia A ferro e fogo com uma obra sobre o mesmo tema. O episódio histórico específico, restrito a tempo e espaço bem determinados, ilumina a questão da imagem do imigrante alemão no Rio Grande do Sul como um todo, de forma particular e decisiva.

A partir do texto de Assis Brasil, fica clara a existência de dois mundos – o dos brasileiros (representados em especial pelas autoridades governamentais, além do correspondente do jornal A reforma), de fala exclusivamente portuguesa, e o dos alemães e seus descendentes, em franca maioria na região, de fala alemã ou de um de seus dialetos. Bem como no texto de Josué Guimarães, a língua utilizada pelo autor poderia ter sido a alemã, tendo em vista a origem da maioria de suas personagens. No decorrer do texto, o autor se vale apenas de algumas expressões em alemão, como Der Wunderdoktor (o médico milagroso), Auf Wiedersehen (até logo), Mutter (mãe) ou Oma (avó). Quanto aos nomes, sentiu necessidade de esclarecer, em nota explicativa no final da obra, que distinguiu personagens nascidas no Brasil das ainda nascidas na Alemanha, aportuguesando seus nomes.

As personagens de Videiras de cristal se comunicam com correção linguística. “João Lehn fala o precioso idioma alemão” (p.29)3. Jacobina não fala português e necessita de intérprete no interrogatório (p.205) e também na Santa Casa (p.210). O Doutor Fischer, ao fazer-se amável a Jacó Mula, fala-lhe no dialeto do Hunsruck (p.38). Tão dominante é a língua alemã na região retratada, que o padre Musnsch se pergunta: “Estou mesmo no Brasil? (...) fazia um mês que não ouvia o idioma dos brasileiros” (p.66).

Poucos são os imigrantes que dominam o português, tanto assim que merece ser destacado que o Doutor Hillebrand se encontra entre um grupo de homens que “falavam em português” (p.110) e que Koseritz, redator do Deutsche Zeitung e residente em Porto Alegre, escreve em excelente português (p.85), tendo sido cumprimentado pelo Doutor Fischer, pela coragem de escrever seu romance “diretamente em português, esse idioma tão difícil” (p.237).

Numa nova perspectiva, em Videiras de cristal o problema da alteridade linguística parece recair antes sobre as autoridades brasileiras do que sobre os alemães, como, por exemplo, sobre o próprio Presidente da província que “não entende uma palavra de alemão” (p.86) e consequentemente se vê em dificuldades de resolver o problema que diz respeito aos Muckers.

Também os homens fardados, todos brasileiros, que vieram ao Ferrabrás com ordem de prender líderes dos Muckers, soletram “os nomes alemães com imensa dificuldade”. (p.191).

A coerência dos dois idiomas nas cidades é retratada através do fato de o Doutor Fogaça distribuir um panfleto mal impresso, onde se lê em alemão e português um informe sobre a “ilegal prisão” e “posterior soltura” de Muckers (p.200), bem como também através da descrição da Rua da Praia em que se ouviam diversos idiomas (p.209).

Ao lado desse aspecto linguístico, também a minuciosa citação de costumes se torna fator substancial para a fixação da imagem do imigrante alemão. Assim o leitor toma conhecimento de que as portas não tinham chave (p.49), que havia escarradeiras nas casas (p.122), e que havia o relógio de parede e o de bolso (p.101). O leitor também depara com a necessidade de tinteiro e penas de escrever (p.233), e com a existência de diferentes tipos de armas na colônia na época (p.235). Os meios de locomoção eram os cavalos (p.81), as mulas (p.215) ou as carroças, sendo que uma viagem do Ferrabrás a São Leopoldo levava cerca de 8 horas (p.195). A Porto Alegre ia-se de vapor, e a duração da viagem tornava necessário levar um baú de vime com pães e linguiça (p.209).

As mulheres usavam saias (p.98) e quanto aos homens, na colônia, a roupa típica deles era “camisa de riscado sem gola e fechada junto ao pescoço, calça de sarja marrom até as canelas e tamancos de pau” (p.197). Em dia de festa os homens usavam chapéus de feltro (p.170). para o domingo tomava-se banho (p.135), sendo comum noutros dias lavar-se na gamela (p.397) ou valer-se de bacia para lavar as mãos (p216).

Nesta obra, em contraste à alimentação dos alemães, descrita em O tempo e o vento, Fischer recebe uma comida insípida a ponto de afirmar: “parece que os alemães, junto com a língua trouxeram maus hábitos alimentares” (p.47) No dia de festa, entretanto, como o foi o casamento de Maria Sehn com Guilherme Gaelzer, assaram leitões no braseiro (p.171), mas ainda não se fala em churrasco, como ocorre em A ferro e fogo.

O dia de casamento nas igrejas é festejado “com harmônio, canto e bênçãos”, a noiva joga o ramalhete para o ar, lança-se arroz sobre os noivos (p.96). O casamento de Maria Sehn e Guilherme Gaelzer, o primeiro realizado entre os Muckers em seu templo, embora não tivesse sido acompanhado pelo som do harmônio, não deixou de cumprir os rituais, e o noivo estava com uma orquídea na lapela, com gravata vermelha e sapatos de verniz (p.168). Em contraste com as outras noivas, comumente vestidas de branco, esta vestiu-se de preto. O salão, como era costume nessas ocasiões, esteve enfeitado com guirlandas presas ao teto e havia biscoitos confeitados para todos (p.167). Estava tudo tão festivo que houve quem sonhasse com o fotógrafo de São Leopoldo (p.170).

Era hábito contar histórias para as crianças a fim de distraí-las (p.57), crianças pequenas, tinham como brinquedo chocalhos feitos de porongos com sementes de feijão (p.97) e divertimento dos maiores podia ser também a batalha de travesseiros (p.96). As mulheres pintavam ovos de Páscoa e faziam bolachas no Natal (p.30) e no Advento (p.268). Além disso, também bordavam ponto de cruz e remendavam as roupas, desfiando tecidos de roupa velha quando lhes faltavam os fios (p.116). Linhas, agulhas e botões eram ainda de certa forma preciosidades que mereciam ser mencionadas ao lado dos alimentos essenciais (p.94). Da mesma forma, o café era tão precioso que entre os Muckers tinha de ser distribuído com justiça (p.116).

Na vida familiar, cabia ao homem a voz de mando na casa (p,173) e, enquanto impunha sua vontade (p.96), a mulher casada sabia que não se pertencia (p.169). A educação para a honestidade era levada a extremos( p.71).

Alem disso, quanto á vida nas colônias, observa-se que as missas eram rezadas em moradias espaçosas (p.217), e as pessoas procuravam manter atitude de respeito frente ao padre (p.218). A venda era o ponto de reunião para os homens, onde bebiam cerveja, (p.77) e os armazéns cheios de gente podiam significar prenúncios de turbulências (p.279).

Na cidade, nas primeiras fábricas, trabalhava-se doze horas com intervalo para o almoço. Os operários, que não usavam sapatos eram oriundos dos arredores, manifestavam-se em fala atrapalhada, inquietos ao tratarem com gente da cidade (p.92). Porto Alegre determinava-se como oposição à colônia e era atraente, tendo em vista que lá o fotógrafo mantinha sua máquina instalada sobre o tripé (p.200), as ruas burburinhavam de pessoas e lá existia a atração das apresentações de teatro.

Os detalhes acima citados retratam de forma abrangente aspectos característicos tanto da época, quanto da vida nas colônias em contraste com as cidades e acompanham a tessitura do texto como um fio condutor, procurando construir a imagem do imigrante sobre o fato real. Em contraponto às obras anteriormente analisadas, cresce em Videiras de cristal, a preocupação com definir em detalhes os costumes e o modo de vida na colônia de imigração alemã.

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