Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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A importância do fato histórico
A questão social: os dois lados da colonização

Em forte contraste à imagem generalizada de sucesso material e econômico presente em O tempo e o vento, e de certa forma também perceptível em A ferro e fogo, a partir do progresso material alcançado por Catarina Schneider, em Videiras de cristal determinam-se com clareza os dois lados sociais da colonização. Tendo em vista essa questão, o médico Fischer escreve a seu tio:


... a colônia apresenta duas faces: de um lado a face boa, (...) dos imigrantes que, aqui chagados há quase cinquenta anos. Adquiriram fortuna e vieram morar em São Leopoldo. (...) É como o dinheiro não pode estar em duas mãos ao mesmo tempo, fica de preferência na mão dos que já o têm. Revela-se assim face da colônia: a má, constituída por toda esta gente que se espalha nas duas margens do rio dos Sinos e forma pequenos núcleos de vida apagada: (...) vivem em seus pequenos lotes de terras e tudo o que ganham não conseguem juntar porque estão sempre em débito com o comerciante, esse deus protetor e terrível. (...) o fato é que há uma grande distância social e econômica em relação aos seus patrícios de São Leopoldo (p.46-47).
Porto Alegre também retrata essa realidade acima descrita portanto; conhecer a cidade não significa apenas percorrer as ruas da Capital da Província, mas saber também “que há ali inúmeros alemães, divididos em suas classes: (...) há uma hierarquia perfeita entre os alemães da Província: os de Porto Alegre no topo, gozando, além da riqueza, a proteção das autoridades brasileiras (...) por fim os colonos, a arraia miúda das Picadas (p.85).

No interior, o comerciante faz às vezes de banqueiro (p.84), e comerciantes atacadistas de São Leopoldo também se beneficiam com a venda de gêneros alimentícios à capital Porto Alegre (p.50). A questão dos Muckers envolve interesses comerciais, tanto assim que o moleiro Phillip Sehn fundamenta seu ódio aos fiéis de Jacobina no fato de se tornarem auto-suficientes e não deixarem moer seus órgãos no seu moinho. O problema passa a ser “o dinheiro que não circula” (p,140). Phillip Sehn interpreta a adesão de seu próprio irmão à causa dos Muckers como a atitude de “um traidor de sua classe” (p.140).

Quanto aos dois lados da colonização, o doutor Hillebrand observa que no início os colonos ainda viviam uma relativa igualdade social, compartilhando dificuldades e esperanças, e vê na Revolução de 1835 a 45 o início das disparidades (p.49). Com o decorrer do tempo, entretanto, é importante salientar que não apenas a casa limpa e rica do médico Fischer em São Leopoldo (p.39) contrasta com o local no interior em que se encontra o velho louco e miserável, entre excrementos humanos (p.88), mas com este também contrastam as casas de Sehn (p.94) ou do comerciante Gaelzer (p.95) na própria colônia.

Há igualmente o drama dos velhinhos que devem se encontrar dicididos entre o filho pobre e o rico (p.48). Há o caso de Ana Maria Hofstätter que precisa auxiliar no sustento da família e por isso se torna doméstica no ferrabrás. E assim, a diferença social existente entre os imigrantes, também se estende ao próprio reduto dos Muckers, a ponto de ser perceptível “a distância entre o Doutor Maravilhoso e aquela meia dúzia de tristes e obsequiosos seres” (p.21). mais tarde, quando o velho Sehn pela primeira vez pisa na casa de Maurer, “todos os fiéis se ergueram à entrada das pessoas mais importantes de todo Padre Eterno” (p.133).

A toda esta realidade social existente, contrapõe-se a ordem de Jacobina: “Só cuidem para que nenhum receba mais do que o outro” (p.97). O surgimento do fanatismo religioso em torno de Jacobina se fortifica através do abandono em que se encontram a maioria de seus seguidores, que vêem nela uma luz em sua desesperança ou, como´é o caso do velho Sehn, o princípio de uma sociedade mais justa. Neste sentido, a liderança dessa mulher representa uma afronta à ordem instituída.


Os aspectos históricos e políticos
Nos primeiros anos de imigração, muitos professores foram escolhidos entre os colonos (p.151) e também pastores não formados exerciam atividades junto ás comunidades de luteranos (p.126-127), que constituíam um pequeno reduto dentro da enorme extensão católica do país (p.106). A partir dos problemas do “Pastor” Klein, nota-se a transformação desse fato com o passar do tempo.

Nesses primórdios de colônia, todos ajudavam-se uns aos outros (p.150). O Imperador havia também mandado dar armas aos colonos, o que fazia parte do contrato que todos haviam assinado na Alemanha (p.226). Há menção também ao fato de lotes de terras terem sido adquiridos à firma Schmitt e Krämer (p.123). Tais são elementos históricos que dizem respeito à questão dos primeiros tempos de imigração.

O enredo específico de Videiras de cristal, entretanto, desenrola-se em época posterior, a partir de 1872 (p.11), abrangendo a época de surgimento do grupo dos Muckers (apelido dado a eles pelo Pastor Brutschin, de Dois Irmãos) (p.108), numa época em que a comunidade Evangélica de Padre Eterno já se tornara independente da de Campo Bom (p.124), embora o registro civil no Império continuasse sendo feito pela Igreja Católica (p.162). Nessa época já começavam a morrer os primeiros imigrantes (p.268), introduzindo na paisagem o cemitério e na vida social uma atividade profissional específica.

Num espaço definido geograficamente com precisão a partir de mapa com escalas para as distâncias (p.9), com nomes de picadas, povoados, passos e estradas, com características climáticas nítidas (p.30, p.235, p.443), o leitor localiza-se também no tempo – época de construção da primeira estrada de ferro no Rio Grande do Sul (p.871) e de sua inauguração (p.316), época do Partenon Literário, retrato de intelectualidade da Província (p.238), época igualmente de confronto entre ideias de conservadores e liberais.

O governo da Província estava nas mãos de conservadores que ainda se escandalizavam ao ver surgir entre os liberais “até ideias de proclamação da República” (p.91). Além disso, autoridades políticas e policiais, redatores de jornais, médicos e pessoas da população são citados com nome real e decisões e atitudes tomadas por eles.

O leitor também depara com informações como a de que militar e pensionista do Exército só podia ser preso por um oficial superior (p.192), ou de que havia Inspetores de Quarteirões com a incumbência de zelar pela ordem nas colônias (p.59), ou que os Muckers, perseguidos, decidiram escrever ao Imperador (p.306) e que o fizeram em carta na língua alemã, no Rio de Janeiro traduzida e entregue em mãos por alguns de seus líderes.

Sobre este panorama de dados históricos determinados, constrói-se decididamente o ponto de vista de que o episódio dos Muckers dependeu em grande parte da parcialidade das autoridades (p.148). Sabe-se que “João Lehn tinha razões subalternas para adotar essa atitude feroz com os Muckers” e que Lúcio Schreiner “não podia esquecer-se da afronta de Maurer ao negar-lhe os votos” (p.149) e, consequentemente, como autoridade policial agia, importando-se não com os acontecimentos reais, mas como lha diziam que aconteciam (p.114). Torna-se também vidente que o interesse das autoridades pelo povo apenas surgia com a proximidade de eleições, como é o caso igualmente de Lúcio Schreiner (p.57).

Ampliando o painel, há a informação de que o bispo não desejou se envolver com o problema e que autoridades subalternas tanto civis, quanto eclesiásticas, tornaram as decisões primeiras de repressão (p.223, 244, 265). Padre jesuíta e Pastor evangélico, embora opositores, se uniram para combater quem lhes afrontava a autoridade, afastando membros de ambas as comunidades. Como Jacobina ordenara retirar as crianças das escolas, a não contribuição de mensalidade para a escola, bem como também à paróquia, fixou a cisão, e o consequente isolamento dos Muckers foi determinado, portanto, por valores antes materiais do que de fé.

Mais tarde, quando a situação já estava incontrolável, o Padre Munsch reconheceu seu erro, mas não conseguiu a adesão do Pastor para a sua causa. Simbolicamente Padre Munsch em vão passou a tentar salvar a carreta com o aleijado excepcional, símbolo da própria colônia doente. Também simbolicamente o Pastor Boeber perdeu o contato com a realidade de sua paróquia na luta pelo encaixe que lhe faltava à conclusão da catedral que se propusera a construir em meio à selva. Na tentativa por resolver um problema que julgava ser de engenharia, não logrou alcançar o discernimento de que o problema residia em bases humanas e sua catedral inconclusa sucumbiu com o ruir de todo mundo.

Também o cacto é símbolo da própria imigração. À beleza das flores contrapõe-se a dureza dos espinhos. Não é de surpreender que alguns dos espécimes mais lindos tenham sido encontrados junto ao reduto dos Muckers e igualmente não será por acaso que o próprio médico Christian Fischer, tão envolvido em compreender a situação do imigrante e em especial dos Muckers, passa a ser o responsável por reunir o maior número de espécimes da planta.

As imagens metafóricas se inserem nos fatos que dizem respeito à realidade histórica, aspecto central do enredo. Caracterizam o período ataques mútuos entre liberais e conservadores, que em muito se distanciavam da verdade imparcial. Os liberais eram em sua grande maioria brasileiros (p.52), e muitos dos imigrantes e de seus descendentes eram conservadores, talvez porque, como Lúcio Schreiner apregoava, o Imperador do Brasil certamente era conservador, tendo sido quem trouxera os alemães (p.58) e consequentemente merecia o reconhecimento da população, muito embora fosse possível observar, a partir da pequena cena em que o Imperador é retratado em seu meio, seu distanciamento da realidade do povo (p.325 e 326). Importante, entretanto, se mostra na opinião da personagem Fischer, que os alemães e seus filhos ainda se sentiam estrangeiros no Brasil e, por conseguinte não se sentiam à vontade em manter oposição ao governo (p.52).

Na parte final da obra, são apresentados dados históricos concernentes à campanha militar através da qual foram subjugados os Muckers em seu reduto. O Coronel Genuíno e seu substituto San Tiago Dantas são retratados com seus homens, suas estratégias, fracassos e vitórias.

Em Videiras de cristal o leitor e confronta com dados históricos definidos, obviamente não esgotados na exemplificação do presente trabalho, tendo em vista serem esses dados históricos não ficcional.
A imprensa
Conforme Videiras de cristal, a imprensa da época exerceu um papel decisivo sobre a questão dos Muckers.

De um lado havia, em mãos de liberais, o jornal de brasileiros. A Reforma, cujo correspondente de São Leopoldo, Fogaça, instiga os conservadores e o governo provincial (p.51). Sem assinatura, publica-se neste jornal um artigo, denunciando as reuniões no Ferrabrás e acusando o Delegado de São Leopoldo de omissão, devido a relações de parentesco com Jacobina Maurer.

Advém do relato a importância da notícia que, embora distorcida, é aceita como verdadeira pelo Presidente da Província que, ao sentir-se agredido pelo jornal liberal de oposição (p.183-186), reage, mandando chamar o jornalista Koseritz, agente intérprete da imigração e diretor do Deutsche Zeitung, jornal que circulava pelas colônias e apresentava certa ligação com o jornal A Reforma, podendo ser considerado a “versão alemã do periódico dos liberais rio-grandenses” (p.86). também Koseritz sente-se agredido pela notícia, tendo em vista desconhecer o assunto que diz respeito à zona de imigração. Não procurando saber da sua veracidade, sugere o envio de força policial (p.185), oferecendo-se para utilizar seu próprio jornal “para precaver os incautos”.

Havia também em São Leopoldo o jornal confessional Der Bote, o “mais lido e melhor, dirigido a comunidade luterana” (p.50), cujo o diretor não aceita o artigo do ex-pastor leigo Klein, em que este critica a administração do Pastor Boeber (p.127), mas permite que escreva contra os Muckers, em período anterior à adesão de Klein ao grupo (p.91) e alerte, em artigos posteriores, sobre os perigos do fanatismo e da livre apreciação da Bíblia (p.128).

Em constante polêmica com o Der Bote, havia em São Leopoldo o Deustsches Volksblatt, dirigido por jesuítas, de propriedade de um católico (p.50). Nele o Padre Munsch se manifesta, afirmando que “só os sacerdotes podem ser os intérpretes da Revolução” (p.139) e prometendo o “Inferno a seus fiéis que se deixarem encantar pelas imoralidades do Ferrabrás” (p.166).

Nota-se que a imprensa da época reflete nítidas zonas de conflito entre liberais e conservadores, oposição e governo, brasileiros e alemães, católicos e evangélicos, sendo que a todos esses segmentos, os Muckers através de seu isolamento e insubmissão se apresentaram como alvo para o ataque. O não compromisso com a informação verídica por parte de jornais e redatores serviu ao acirramento dos ânimos, preparando o campo para a violência.



A perspectiva do imigrante: o brasileiro visto como o OUTRO
O texto Videiras de cristal, centralizado numa questão que diz respeito ao imigrante alemão, introduz uma nova perspectiva, que é a do posicionamento do imigrante ao lançar seu olhar sobre o brasileiro, desta vez visto como o OUTRO.

Observa-se aqui que a predominância étnica alemã se faz sentir no comportamento do Tenente-Coronel José Maria de Alencastro que, embora autoridade, como um dos poucos brasileiros presentes a uma festa, “evidenciava um constrangimento que nem sua condição de líder partidário conseguia superar” (p.112).

Há nesta obra alemães que, por sua vez, observam a alteridade do brasileiro se construir especialmente a partir da estranheza que lhe causa ou a partir de seu interesse pelo pitoresco. Nessa perspectiva, Fischer, através de suas cartas, dirige seu olhar de observador estrangeiro para a região e seus habitantes, comentando até pequenos detalhes, como o de que os nomes dos brasileiros eram enormes (p.51). também o Padre Superior dos jesuítas se posiciona, afirmando que “os padres brasileiros não eram aproveitáveis, e não só por desconhecerem por completo o idioma alemão (...) mas também por seus costumes” (p.64). Von Koseritz, por sua vez, manifesta: “Mias uma vez comprovo que os brasileiros são imprevisíveis. Acho que vou morrer sem entendê-los” (p.242).

A esses pontos de vista acrescem-se perspectivas com maior ou menor grau de preconceito em relação aos brasileiros e é necessário salientar que elas provêm de alemães também intransigentes para com seus próprios compatriotas, súditos de Jacobina. Grande adversários dos muckres procuram lançar sobre os brasileiros, especialmente sobre as autoridades, a culpa dos problemas vividos na colônia. Assim, por exemplo, Phillip Sehn diz: “Os brasileiros são frouxos” (p.216) e o Delegado Lúcio Schreiner afirma: “Estou farto dos brasileiros” (p.299). para o pastor Boeber os brasileiros são desregrados e bebedores de cachaça, e o médico Hillebrand “na prática não esconde sua indignação de ver seus domínios invadidos pelos brasileiros” (p.196). mais tarde ele se mostra preocupado em manter a imagem positiva do alemão e desejoso de lançar sobre os brasileiros a culpa do extermínio dos Muckers (p.446-7).

Ocorre em Videiras de cristal, a partir da penetração nos diferentes aspectos concernentes ao elemento imigrante alemão, a constatação da multiplicidade de perspectivas que não havia ocorrido nem em O tempo e o vento, nem em A ferro e fogo. Mantendo-se a cisão entre EU e o OUTRO, sugere-se que, houve preconceito da parte de brasileiros para com os alemães, como vimos em O tempo e o vento, este preconceito também existiu da parte de alemães para com brasileiros.

A partir de Videiras de cristal, o preconceito, que num primeiro momento havia sido fundamentado de forma unívoca na alteridade étnica, no estereótipo e no desconhecimento, passa a ser visto como problema humano amplo, que supera os limites do etnocentrismo. Atraves desse aspecto, o texto de Assis Brasil logra alcançar um grau de imparcialidade não alcançado pelos textos anteriores analisados.


A reversão da imagem instituída
Os fatos desaparecem. Fica apenas a literatura, são palavras de San Tiago Dantas (p.456), que Assis Brasil, em homologia entre autor e personagem, admitiu serem também suas4. Justifica-se, a partir da colocação, a própria necessidade de escrever para a compreensão da história social humana e através dela alcança compreensão do próprio ser humano a se debater a sua própria mesquinhez.

O homem acossado pelo próprio orgulho e amor-próprio feridos, pela sede de poder e influencia, pelo medo do ridículo, pelos interesses comerciais, pelas rivalidades e traições, bem como pelo ódio, na luta por sobrevivência ao abandono e ao mundo hostil, perde o domínio da razão e pratica as maiores atrocidades. Em construção edificada sobre o fato histórico, surge a literatura a perguntar-se sobre o sentido da existência humana, sobre o motivo de tantas dores e angustias.

Para compreender o presente, faz-se necessário construí-lo sobre o resgate da memória do passado. A partir de Assis Brasil, a reversão da imagem institucionalizada da tragédia dos Muckers passa pelo retrato multifacetado da realidade histórica. A ficção, por tanto, encontra sua razão de ser na sua própria história humana, ao mesmo tempo em que submerge diante da realidade.

Videiras de cristal faz compreender com os Muckers, mais do que tudo, representaram uma afronta á ordem instituída e por isso abalaram a vida na colônia, a ponto de serem combatidos de todos os lados. O retrato sui-generis da colônia torna-se fundamento para a reversão da imagem unívoca de culpabilidade exclusiva dos seguidores da seita.

Como mulher, Jacobina, por si só, afrontava uma sociedade machista. A partir da insubmissão às autoridades e às leis das igrejas católicas e evangélicas, a partir da insubmissão às autoridades civis da região (não prometendo seus votos a Lúcio Schreiner e procurando auxílio diretamente com o Imperador), a partir da libertação do domínio do médico (sendo-lhes suficientes os conhecimentos do curandeiro Maurer), os Muckers procuraram viver o socialismo da divisão de bens e alimentos com a aceitação de pobres, doentes e ingênuos. Esta auto-suficiência abalou as bases estruturais da sociedade da região na época, tanto assim que os chefes da comunidade se puseram contra a seita (p.181)5.

O autor de Videiras de cristal, ao abandonar este tema, reverte a imagem instituída, encontrando-se, portanto, na trilha do discurso transgressivo. A transgressão se fixa na reversão da imagem que passa a ser construída sobre nova leitura do fato real e histórico.

Diferentes perspectivas são fixadas na busca de uma imagem que se pretende imparcial. A voz do narrador retrata diversos pontos de vista e através dela o leitor se defronta com sentimentos e razões de diferentes seguidores de Jacobina, do pastor evangélico, do padre jesuíta e de seu superior, das autoridades instituídas, tanto de descendência lusa quanto alemã, de conservadores e liberais, do estrangeiro Christian Fischer com sua necessidade de defender os Muckers e dos militares brasileiros como Genuíno e San Tiago Dantas, a se debaterem com a incumbência de subjugar os Muckers inimigos.

Constata-se, com todo o painel, que não é possível condenar os Muckers, embora também não possam ser inocentados de seus atos, permanecendo a constatação de que crimes foram cometidos de todos os lados. Ao vislumbrar diferentes perspectivas a linhas de conduta, o leitor passa a compreender o caráter antes humano do que étnico das decisões tomadas. O problema de um fato histórico especifico se ilumina a ponto de deixar entrever homens e atitudes numa amplitude acima do preconceito. A definição identitária do imigrante alemão, calcada no resgate da memória do passado e na difusão dos dados históricos concernentes à imigração no Estado, abre as portas para a superação de preconceitos e consequentemente para uma nova imagem ficcional.

Ao penetrar mais fundo nos costumes e na pesquisa histórica, dá-se continuidade em Videiras de cristal ao processo de reversão do discurso excluinte, já presente em A ferro e fogo, através da desconstrução da imagem unívoca e do discurso monológico, institucionalizado na literatura do Rio Grande do Sul a partir de O tempo e o vento, assim que a reconstituição e divulgação do fato histórico passa a tornar-se condição sine qua non para a nova ficção de abrangência do imigrante alemão na prosa de ficção do Rio Grande do Sul.

Reverter a imagem do imigrante alemão, como vimos, de modo algum significa idealiza-lo, mas significa antes recuperar o dado histórico e defender a disposição ao diálogo, como maneira única de aproximação entre o EU e o OUTRO. A alteridade pode ser vista de múltiplas perspectivas, tanto assim que em Videiras de cristal os papéis também podem inverter-se e o EU passa a ser visto como o OUTRO.

Através da ruptura de preconceitos, Videiras de cristal ocupa papel importante para a aquisição de uma visão crítica que abranja o outro lado da história, tanto assim que, a partir de sua publicação, abre-se o caminho para a grande obra de ficção sobre a saga do imigrante alemão, desejada por Jean Roche em 1969. Resta saber se esta ainda precisará ser o do imigrante alemão ou se não poderá ser agora a do homem do rio Grande do Sul, formado da interação das mais diferentes etnias. E então novamente será possível afirmar com San Tiago Dantas ou com o próprio Assis Brasil: desaparecem os fatos, mas permanece a literatura.


CONCLUSÃO
A partir das três obras analisadas, é possível constatar vozes polifônicas formadoras de uma base dialógica com o leitor que, ao elaborar os dados, passa a ser co-autor, tendo em vista sua participação na seleção e combinação dos aspectos formadores da imagem. A polifonia dialógica se instala entre as diferentes épocas de escritura, obras, personagens e o leitor, tendo em vista que “todo discurso se estabelece sobre u discurso anterior e aponta para outro (que é seu ‘futuro’)”.6

Em O tempo e o vento (1949-1962) a imagem transmitida se encontra centrada na visão unívoca da oligarquia que, ao defrontar-se com a ameaça de perda da exclusividade do domínio social, se mantém fechada à aproximação efetiva os imigrantes. O Rio Grande do Sul ameaça descaracterizar-se com o novo elemento humano, e este, consequentemente passa a ser condenado ao silêncio, tanto que não ocorre nesta obra, a representação do mundo ideológico do OUTRO, visto que o imigrante não logra proferir suas palavras, permanecendo considerado intruso, limitado a ser focalizado como o OUTRO, sem que lhe seja concedida a palavra.


SCHREINER, Renate. Entre ficção e realidade: a imagem do imigrante alemão na literatura do Rio Grande do Sul. Santa Cruz: FATES, 1996, p. 102-119
Prêmio Açorianos e Tibicuera

Pedra da memória
Léandro Sarmatz
Segunda parte de uma trilogia (a primeira é Perversas famílias, e a terceira ainda não saiu), Pedra na Memória é um romance na acepção completa da palavra. Nele, Assis Brasil, o consagrada autor de Cães da Província, Videiras de cristal, entre outros, ergue uma narrativa plena de acontecimentos e significados.

Assumidamente influenciado por Eça de Queirós, o autor esbanja um domínio de3 fabulista pouco visto. Além disso, preenche seus personagens com carne, ossos e sangue – deixamos a leitura e ainda temos em nossas cabeças as figuras bem desenhadas de Doutor Olímpio, Proteu, Astor e outros de menos importância mas de igual profundidade.

Assis Brasil nos conduz através de cenários opulentos, onde a riqueza da paisagem não eclipsa a trama bem urdida – seja em Porto Alegre, Lisboa, Londres, Bueno Aires ou outra capital. É em algumas dessas cidades que movem-se seus personagens.

Pedra da memória alinha-se na mesma fileira romanesca de Érico Veríssimo, o ancestral direto de Assis Brasil na elaboração de grandes painéis temáticos. É romance para ser lido num só fôlego, dado o ritmo alucinante dos eventos. A história eu não conta para não estragar o prazer da descoberta, uma descoberta que será feita com muito gosto pelos leitores que apreciam narrativas movimentadas.
Jornal Porto & Virgula (Ed. da Feira do Livro) Porto Alegre, 7.nov.1999

A Perversa Memória dos falsos Senhores
Antonio Hohlfedt
Ainda ignorada ou contestada pela chamada crítica acadêmica e/ou de simples resenha de alguns segmentos do centro do País, resultado do puro e tradicional preconceito, aliado à uma crassa ignorância da história nacional e regional, a obra literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, não obstante, consolida-se e afirma-se não apenas enquanto sucesso junto a seus literalmente milhares de leitores àqueles que entendem ser a literatura – especialmente a prosa – uma forma de pensar criticamente a realidade, abrindo-lhe caminhos de compreensão mais profunda.

No caso de Um castelo no pampa, que o escritor teima em não caracterizar como trilogia, ainda que boa parte dos leitores ignore tal preocupação, a importância de um escritor e de um projeto literário ficam mais do que evidentes. Para os que tentam comparar Assis Brasil com Érico Veríssimo, pode-se dizer que, sem dúvida, não teríamos Luiz Antonio sem o escritor de Cruz Alta. Por outro lado, não se pode deixar de assinalar que, por lhe ser sucessora, a perspectiva de Assis Brasil é mais ampla e de certo modo ultrapassa a de Érico Veríssimo. Cabia a esse escritor buscar nossas raízes e entender suas relações com o presente. O plano de Assis Brasil é diverso porque, de certo modo, parte do ponto a que Érico chegou para avançar, no tempo, e na análise, o que temos na série Um castelo no pampa é a abordagem da história contemporânea do Rio Grande do Sul sob a perspectiva da evolução-industrial das relações sociais e institucionais que caracterizam nossa estrutura de propriedade e, consequentemente, cultural. De simbiose mineira - açoriana de João Felício, chegamos à figura de falso heroiDr. Olímpio, que, de fato e de direito, centraliza a ação, para desfazer-se e sofrer profunda decadência a partir de sua prole, especialmente na figura de Páris.

Cada volume da não pretendida trilogia buscou uma estrutura narrativa especifica. No primeiro, a referencialidade à mitologia grega é mais do que evidente. No segundo, o contraste entre a visão de algumas personagens centrais e aquelas que constituem o conjunto de diferentes servidores do Castelo, mais ou menos anônimos (mesmo que em alguns casos seus homens de batismo venham designados no texto), confrontam duas diferentes visões do mundo. Por fim, no terceiro volume, recentemente lançado, opõe-se uma eventual “realidade” a uma perspectiva da “ficção”, a partir da narrativa que Câncio Barbosa está a construir em torno de seu amigo e chefe.

Um castelo no pampa, neste sentido, é uma sólida construção romanesca – certamente mais sólida que a casa a que alude e às figuras a que se refere – e leva o escritor, recentemente premiado com o Açorianos de Literatura, ao reconhecimento de um dos criadores mais objetivos e críticos de nossa realidade. Poucas vezes, em nossa produtiva literatura, as contradições do Rio Grande do Sul foram tão clara e objetivamente compreendidas e denunciadas. Por outro lado, raramente um escritor se mostrou tão fiel e tão competente, profissionalmente falando, quanto Luiz Antonio de Assis Brasil que, por isso mesmo, merece o reconhecimento que hoje em dia alcança. Livros



Jornal do Comércio, Porto Alegre, 28.dez..1994

O romance e seus senhores
Volnyr Santos
A literatura que se faz no Rio Grande do Sul – já se disse antes – vive de uma realidade concreta: uma história marcada por circunstancias que tornaram a região o palco ideal para a expressão de valores diferenciados em relação ao Brasil. A consequência disso é o fato de, artisticamente, o Rio Grande ser mostrado a partir dessa perspectiva histórica.

Essa constatação, no entanto, não obriga o artista gaúcho (escritor ou não) a fazer da gauchidade uma forma de expressão.

Também é verdade que (talvez) por isso a arte aqui feita tem uma marca própria, especialmente em relação ao texto literário. Começando com Érico Veríssimo, considerado (até agora) o nosso grande escritor, os livros publicados posteriormente parecem sofrer não só de gauchismo, mas também da “influencia” desse conhecido romancista. A aparente consciência disso é tão grave, que a crítica do centro do país, especialmente de São Paulo, não consegue distinguir entre a influencia do localismo e a universidade que certos aspectos da realidade física podem sugerir.

Com O castelo no pampa, romance iniciado em 1992 com Perversas famílias, continuando em 1993 com Pedra da memória e terminando em 1994 com Os senhores do século, Luiz Antonio de Assis Brasil retoma, sob a perspectiva histórica, a ascensão e morte do Doutor Olímpio, personagem que tipifica certo modelo de político rio-grandense, ao mesmo tempo em que aborda aspectos da realidade social e cultural gauchesca.

Num imenso painel em que é recuperada parte da história político do Rio Grande do Sul, Assis Brasil constroiuma narrativa na qual, de modo ambíguo, a realidade e a imaginação (de que outro material se nutre a literatura?) se fundem para dar ao leitor a possibilidade estética de constatar que o presente não deixa de estar no passado (isto é, na história), desde que isso represente não apenas o registro da experiência histórica, mas signifique, virtualmente, a possibilidade de relacionamento dos fatos com a experiência de leitores atuais.

Gaetan Picón, em O escritor e sua sombra, já disse isso de forma convincente: “O sentimento de grandeza de uma obra não é jamais o de sua realidade histórica, mas sempre o de sua relação com uma consciência viva. A obra não está na história, mas está na leitura que dela fazemos”.

Visto desse modo, o romance O castelo no pampa, ao refazer o trajeto histórico de Olímpio (político, embaixador e ministro), propõe uma retomada de problemas que envolvem a sociedade brasileira, insinuando atitudes que, de certo modo, encaminham a compreensão do personagem dentro de um processo em que os pressupostos de verossimilhança se confundem, dando à narrativa uma imagem da sociedade, utilizando, para tanto, as suas próprias regras de linguagem, de códigos discursivos e de gênero. Isso significa dizer que a literatura, enquanto dimensão da cultura, revela o modo de organização social, articulando-se, ela própria, dentro desses padrões.

Dito isso, é de se perguntar em que medida a literatura que se faz no Rio Grande do Sul, marcada de forma indelével por fatos em que se reconhecem aspectos marcantes de uma história guerreira, pode prescindir desses elementos. A resposta, obviamente, não é tão simples, considerando que há quem julgue que fazer literatura é escrever, de forma exclusiva, para leitores contemporâneos, pelo fato de imaginarem que somente os coevos são capazes de entender as provocações que o texto requer. Como elemento complicador, acrescente-se que a internacionalização decorrente dos modismos faz com que os escritores dos países periféricos (como é o caso brasileiro) dêem sequência a ideias e procedimentos literários já utilizados pela elite do país nucLéar, como já observou Fábio Lucas.



Um castelo no pampa, especialmente no terceiro volume da série – Os senhores do século – alcança objetivos que, de certo modo, respondem às questões propostas. Sem perder o vinculo com a realidade histórica, o romance mostra, numa perspectiva critica, que é possível tratar de assunto – digamos, histórico – e fazer dele um cenário de comunicação estética, rompendo com o sistema institucionalizado, trazendo para o texto não só a literariedade então desgastada pela repetição de soluções formais consagradas, mas também a possibilidade de dar a conhecer (vá lá, conceda-se!) as inovações, mesmo que isso ocorra de uma perspectiva irônica.

Lidando com a realidade histórica gaúcha, Assis Brasil dá sequência a uma atitude que vem de seus primeiros romances, acrescentando ao texto grande força expressiva justamente pelo apelo que faz à própria literatura. Ao aproximar textos clássicos como a Odisseia, Madame Bovary, Fausto, ou ainda, o teatro de Shakespeare, ao universo gaúcho, o autor faz com isso a relação com os mitos que ocultam a consciência da mortalidade do homem e que são, a um só tempo, uma forma de abreviatura de existência e um modo de compensação.

Como a característica essencial do mito situa-se dentro do pensamento conservador, ele afasta-se do fluxo do tempo e repete-se permanentemente. Eis aí um dado expressivo que Assis Brasil utiliza com propriedade no romance Os senhores do século: o personagem Páris, neto do Dr. Olímpio e, portanto, um provável herdeiro de tudo quanto o avô deixou, vive a ilusão do mito, deixando-se dominar pela irrealidade e pela aparência. (Sua atuação cinge-se à repetição de ações de personagens clássicos). Resta dizer que a boa literatura independe de motivações. Históricas ou não. E a obra de Luiz Antonio de Assis Brasil, se não obteve (ainda), sob a perspectiva critica, o reconhecimento que seus leitores já referendaram, isso se deve a um certo preconceito que teima em permanecer e cuja origem, provavelmente, se acha na (equivocada) noção de que seus livros têm como referente apenas a tradição imposta pela obra de Érico Veríssimo. Isso não corresponde à verdade literária (afinal, são dois escritores que têm procedimentos narrativos diferenciados que uma detida análise viria mostrar), como também uma forma de canonização de certas obras (como é o caso de Érico Veríssimo), considerando, na avaliação, apenas a circunstancia de terem sido produzidas.

Jornal do BRIQUE, Porto Alegre, jan.1995.
O Senhor dos Pampas
Regina Dalcastagnè
A História costuma guardar lacunas que só a ficção pode preencher, seja restabelecendo aquilo que foi propositalmente esquecido no meio do caminho, seja recuperando a dimensão humana de acontecimentos que se fizeram monumentais com o passar dos anos.

O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil vem dedicando sua obra a essa tarefa – recompor a história do Rio Grande do Sul (e por extensão a do Brasil) a partir de ângulos novos, de personagens quase insignificantes, de fatos ignorados.

A trilogia Um castelo no pampa, que se encerra agora com a publicação de Os senhores do século, é um belo exemplo do que a ficção pode fazer pela História.

Nobreza – Ao resgatar a memória de um antepassado seu que, em pleno século XIX, fez erguer um castelo medieval no pampa gaúcho, Assis Brasil cria uma personagem repleta de significados.

O Dr. Olímpio que vai surgindo por entre as páginas do romance é um republicano ferrenho que não resiste aos encantos da nobreza. Ao mesmo tempo em que se bate contra o poder monárquico no Brasil, constroium castelo, casa-se com uma condessa austríaca e, para desespero de seus correligionários, adota hábitos absolutamente aristocráticos.

Só que, muito mais que a “biografia” desse homem, Um castelo no pampa é a história de um conflito – o desagradável confronto vivido pelas elites daqueles tempos entre a sofisticação e o requinte importados da Europa e a selvageria dos caudilhos gaúchos, da qual elas se sabiam dependentes.

O castelo do Dr. Olímpio, uma fortaleza luxuosa e anacrônica plantada num chão que arde em revoluções, se transforma em palco dessa crise, além de espaços por onde passam as principais decisões políticas do Rio Grande do Sul.



Os senhores do século, volume que fecha a trilogia, dá continuidade à história do Dr. Olímpio, chegando até a sua morte. Como nos livros anteriores – Perversas famílias e Pedra da memória – várias linhas narrativas, embaralhadas entre si e no tempo, dão conta do desenvolvimento da trama, que inclui desde os pais do protagonista até seu único neto, herdeiro da decadência do castelo. Cada uma dessas personagens tem vida própria e transporta consigo outras histórias, onde novos protagonistas vão se fazendo.

Assim, se o Dr. Olímpio é o grande protagonista de Um castelo no pampa, há outros deles isolados, seja num dos volumes do romance, seja em alguma das linhas narrativas que o atravessam.

Páris, o neto, é protagonista numa dessas linhas. É a única personagem que tem o privilegio de narrar suas próprias aventuras. E como as narra! Criado longe da família até os oito anos e sendo reincorporado a ela apenas algumas horas antes da morte do avô, ele é o olhar estranho, “não comprometido”, sobre a trama.

Destilando ironia, o menino, depois adolescente e enfim adulto, é o contraponto do avô – desde sempre destinado à posteridade, petrificado em função de uma biografia futura.

Já Urânia, a amante do Dr. Olímpio, é senhora absoluta do ultimo volume do romance. Ela já havia aparecido antes, mas então era apenas uma pequena coadjuvante. Em Os senhores do século ela ganha vida e se transforma numa dessas personagens femininas que dificilmente serão esquecidas, pela dignidade e resolução que carregam em si.

Feridas – Apesar de trabalhar praticamente com as mesmas personagens em tempos diferentes e alternados de suas vidas, Luiz Antonio de Assis Brasil consegue reservar surpresas impressionantes para o leitor.

Perversas famílias parecia um livro acabado, perfeito em seu estilo, nos seus mistérios, na densidade de seus dramas. As personagens moviam-se ali com uma grandiosidade quase operística, rodeadas pelo luxo e assombradas pela dor.

Em Pedra da memória, Assis Brasil aproximou o foco, mostrou pequenas mesquinharias, exibiu as feridas, a vergonha, fez das personagens seres humanos.

Agora, em Os senhores do século, ele as conduz de volta ao mundo da ficção. Dr. Olímpio, que sempre viveu de forma a se transformar numa bela biografia – escrita pelo amigo Câncio Barbosa – entra finalmente para a História.

Mas, antes disso, ainda põe em dúvida a existência concreta de seus filhos: “Literários demais, esses dois, por que nos romances os irmãos são sempre opostos?”. Páris, o garoto que conversa com fantasmas e acreditava ter o poder sobrenatural de matar apenas com a força do pensamento, se envolve em aventuras cada vez mais surreais.

Tudo isso com a condescendência do leitor, uma vez que logo de início ele se confessa um “narrador pouco confiável”, e garante que “a mentira e a verdade tornam-se apenas detalhes para quem sucumbe às leituras”.

Luiz Antonio de Assis Brasil pode ser incluído hoje no primeiro time da literatura brasileira. Grande narrador, ele consegue equilibrar com maestria o humor e o drama, as paixões e a política, a História e a crítica a ela.


Trecho
E irritado e triste, chegando ao máximo de minha resistência, abandonei-o e subi ao meu quarto, disposto a dar um fim em meus dias: os jovens naturalmente estão sempre à beira do suicídio. Sentei-me à mesinha de cabeceira e ali redigi um testamento monumental, em que me despedia de Beatriz e do mundo culpando-a por me haver deixado naquela penúria depois de haver afirmado que me amava. Não queria um enterro pomposo, pedia apenas que espalhassem minhas cinzas sobre os campos do Castelo, de modo a que eu me reintegrasse à Natureza que me criara etc, isso que os suicidas escrevem. Estava a ponto de assinar – apenas com as iniciais, como faziam nos romances antigos – quando senti um forte cheiro de enxofre inundando o aposento. Pressenti logo o que aconteceria, e por isso não foi uma absoluta surpresa ver, de pé e vermelho sobre o tapete, quem? – Ele, com uma capa que descia até os pés calçados com botinas de bicos curvos. Bastante característico: sobrancelhas grossas em V, cavanhaque de bode, nariz pontiagudo e dentes lustrosos abertos num riso diabólico. Sem surpresas, porque era o encontro de duas personagens. Eu já disse como na infância conversei com fantasmas, e assim, e como nenhuma desgraça seria maior da que eu vivia, eu, a criança, perguntei-lhe por que saíra do seu reino de trevas.
Correio Braziliense, Brasília, 06.fev.1995


No fim da trilogia, uma crônica da decadência

Luiz Antonio de Assis Brasil encerra seu vasto painel da província gaúcha, Um castelo no pampa, com um romance que é um jogo de espelhos entre realidade e ficção.
Flávio Loureiro Chaves
Com a publicação de Os senhores do século, Luiz Antonio de Assis Brasil finaliza a trilogia inaugurada em 1992 sob o titulo geral de Um castelo no pampa. Os volumes precedentes, Perversas famílias e Pedra da memória, dimensionaram a ação no microcosmo do antigo patriciado do Brasil meridional, fazendo-a remontar à saga dos fundadores.

Alcançando agora um momento decisivo do nosso tempo, este último volume fixa o eixo cronológico na Revolução de 30, quando Getúlio Vargas empolga o governo do País. Projetada neste cenário, é interessante a situação do Doutor do Olímpio, protagonista de Os senhores do século. Nas trincheiras provinciais, ele já foi um inimigo declarado do ditador, liderando a oposição ao autoritarismo castilhista. Mas, como logo se vê, o mecanismo político é uma engrenagem complexa. Na mudança dos eventos, as alianças partidárias acabaram por colocá-lo lado a lado com o governante da privilegiada posição de Ministro de Estado.

No panorama descortinado por Assis Brasil prevalece então uma sutil ironia, denunciando a visão crítica. Seja qual for a aparente diferenciação ideológica, aqueles que aí comparecem pretendem ser Os senhores do século. A própria História logo irá desmenti-los.

Qualquer um deles poderia assumir a onipotência emblemática traduzida por Olímpio a certa altura do relato: “Aqui sou eu que digo como são os novos tempos”. No entanto, o que se lê é a crônica de decadência ou, melhor, da ilusão em que trafegam as personagens numa cadeia de desastres que vai da desagregação familiar à falência dos ideais. Este é o verdadeiro drama.

Percebe-se assim que o “romance histórico” de Assis Brasil tanto mais se fez romance quanto mais deixou de ser propriamente histórico. Ai permanece uma impressionante minúcia atribuindo veracidade ao relato, tudo rigorosamente conferido na bibliografia sobre a tumultuada formação social do Rio Grande do Sul. Embora fiel à exaustiva pesquisa dos fatos, o narrador sabe entretanto que tudo isso não vai além do contexto. As personagens imaginárias nascem na outra margem e não estão aí como ilustração da História, pois evidenciam justamente sua natureza absurda, indicando já uma “visão do mundo”.

Este é o motivo pelo qual Os senhores do século está armado numa sequência cronológica bastante complexa, admitindo a imbricação entre o passado e o presente, misturando intencionalmente as mazelas de uma e outra geração familiar, como se não houvesse sucessão mas antes a repetição das ilusões.

Creio que também aí está a origem da preferência do autor pelas personagens femininas, a modo de Beatriz e Nini, certamente privilegiadas pela densidade psicológica que adquirem. Trata-se de um universo essencialmente viril e machista, os homens sempre ocupando o primeiro plano do comando social e político. Mas isso se dá apenas no nível mais aparente, no fundo, só as mulheres hão de intuir a natureza trágica da existência. Elas ocupam, assim, o espaço mais importante da narrativa psicológica que afinal predomina neste jogo de espelhos proposto por Assis Brasil. Pertencem à linhagem de Ana Terra e Bibiana no resgate de uma tradição literária cujos antecedentes são respeitáveis.

Propondo a dialética entre a realidade e a ficção, este livro de Assis Brasil melhor esclarece um território emaranhado da criação. Faz ver que não é histórico o romance que procura catalogar a exatidão dos acontecimentos históricos e sim aquele que, instaurando o universo imaginário, atinge finalmente a contradição da História. Eis ai uma das razões da literatura. Dela o autor não se afastou desde o aparecimento de A prole do corvo, quando iniciou a extensa releitura da crônica do Brasil meridional. Os senhores do século é seu melhor resultado.


OS SENHORES DO SÉCULO, de Luiz Antonio de Assis Brasil, Mercado Aberto, 388 págs. R$ 18, 60.
Flávio Loureiro Chaves é doutor em Letras pela USP, ensaísta e critico literário.
Jornal da Tarde, São Paulo, 25.fev.1995, Caderno de Sábado, p. 6
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