Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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O velho patriarca do pampa


Terceiro volume de uma saga gaúcha recria personagem rela que marcou a vida política do país

Carlos Emílio Corrêa Lima


Diferentemente de Pedra da memória, segundo livro – sequência que compõe a obra Um castelo no pampa, este Os senhores do século, sua terceira e exclusiva parcela, se orquestra (seu autor também é violoncelista) pelo jogo interativo das diferenças linguísticas propagadas pelas vozes, dos gêneros embutidos dentro dos gêneros. Um livro vário, com três sulcos narrativos entrelaçados aqui se erigiu. São eles o livro do Doutor Olímpio, que mescla intimidades biográficas ficcionais com movimentos de massa da história, o livro de Urânia (Nini), amante do Doutor, de fluxo romanesco tradicional e o livro de Páris, livro-farsa aventuresco do neto meio rejeitado do Doutor. Entrincheiradas entre eles, duas revoluções, uma delas a de 30, a primeira revolução brasileira de âmbito acional e um golpe militar, o de 64. Este terceiro volume de ficção impõe à obra seu equilíbrio final.

De novo é o bisavô do autor o personagem em torno do qual se tecem todas as ressonâncias. Ele é o eixo magnético central do enredo, esse Joaquim Francisco Assis Brasil (1857 – 1938). Dele emana a ficção. Ele é o Doutor. O Doutor é um clássico neoclássico: ele é bacharel, político, estancieiro-pecuarista, republicano e arrebatado neoliberal avant la letrre. Foi esculpido pelo autor com psicanalítico martelo e define um arquétipo brasileiro. O personagem criado por Assis Brasil tem verniz, estofo e ilustração e é muito mais do que uma simples gravura de memória na parede. É um monstro de ficção. Sua configuração psíquica tremula entre o cômico, o quase épico, o trágico, o ridículo, a própria paródia de si mesmo. Este Doutor, com seus infalíveis bigodes “sempre maiores”, com suas amantes românticas, sua oratória, seu autoritarismo de gabinete e seus sonhos utópicos importados (desejava construir uma cidade dos eleitos, dos melhores no louro pampa em frente ao seu castelo), cristalizou-se ressonante.

O personagem é a personificação imantada de uma refinada aristocracia estancieira pecuniária do Sul, e de suas, na verdade, falsas revoluções e libertações de opereta, de retórica andante com muitos morticínios, principalmente entre a gente do povo utilizada como massa de manobra.

Um castelo no pampa, agora que foi terminado, pode ser percorrido pelo leitor e comparado com uma obra que descreve a civilização estancieira do Rio Grande do Sul, como Casa grande & senzala conseguira magistralmente sintetizar a civilização senhorial da Zona da Mata nordestina. É como se estivesse realizando a leitura de um livro secretamente intitulado Estância grande e galpão. Todos os eventos mobilizados pelo romancista são uma espécie de cenografia completa dos costumes, taras, propósitos, hábitos, crenças, gestos, indumentária, comidas, utensílios e ideologia da aristocracia do Rio Grande. Esta classe patriarcal tem aqui seu mural gigantesco (são bem mais de mil páginas), onde se mostram suas alcovas e suas entranhas e muito de sua relação com seus serviçais e com o povo.

Neste Os senhores do século (a frase que dá o titulo é posta numa gala de Getúlio Vargas que aqui também é personagem), o autor abusa, versátil, de todas as possibilidades possíveis do gênero romance.

Na maioria dos momentos, uma falsa ideologia de realismo funciona mesmo para escondê-la de nossa percepção, conhecimento, de nossos olhos de curiosos e admirados leitores. E a realidade é fantástica e para entrarmos mesmo nela e não nesse falso mundo cotidianamente imposto só mergulhando no universo com imaginação. É o que perfaz com virtuosidade operistica o escritor Assis Brasil numa verdadeira apoteose de narrativa literária e de suas celebrações técnicas. Maior prova material e espiritual da renovação das forças da literatura não poderia haver neste brotar de milênio. E não é a toa que todos os personagens neste último volume da série se entregam com paixão às leituras para mais intensamente serem personagens puramente literários.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18.mar.1995.

CONCERTO CAMPESTRE

Sinfonia rural do passo certo

Ricardo Carle

Em Luiz Antonio de Assis Brasil o uso da técnica da literatura encontra seus pontos máximos. Perito no assunto, o romancista gaúcho sabe desenvolver uma narrativa com as pontuações corretas, administrando os picos e os vales de dramaticidade. Especialmente em Concerto campestre, o autor acrescenta seus conhecimentos de música, adicionando-a como personagem, alem de lançar mão da harmonia dos compassos para acentuar os desvarios de uma história de amor.

Os leitores assíduos de Assis Brasil (um exército fiel) sabem que podem contar com ele. Possivelmente um dos segredos do sucesso do escritor no Rio Grande do Sul (o exílio interno perdura) seja sua capacidade de andar no passo certo. Quer dizer, garantir uma caminhada sem tropeços aos companheiros de viagem. Isso não significa que Assis Brasil seja condescendente ou inimigo da facilidade. Sua intenção, exitosa, é ser claro.

Luiz Antonio de Assis Brasil, que transmite a sabedoria do artífice numa oficina de literatura, tem talento para contador de causos. Conserto Campestre mantém a tradição das suas inspirações. A paisagem é a região rural gaúcha no século passado, terreno que palmilha com segurança (mesmo quando foge do domínio do gaúcho, como provou com maestria em Videiras de cristal). A semente da novela foi extraída do relato verídico ouvido por Assis Brasil da escritora sua amiga Hilda Simões Lopes.

Uma moça de família tradicional, pilhada em falta grave, castigada com extrema severidade pelo pai estancieiro. Os costumes medievais que inspiraram a lenda de Rapunzel foram preservados pela elite rio-grandense. Como houve nesses campos quem erguesse castelos (episódio que estimulou Assis Brasil a empreender uma trilogia), outras loucuras mágicas teriam sido cometidas. O Major Antônio Eleutério de Fontes, “potentado em terra e charqueador”, por exemplo, montou uma orquestra.

É expressivo o fato de a personagem de Assis Brasil ostentar a patente de major da Guarda Nacional e não a de coronel. Fontes tem sua influencia demarcada pelas coxilhas – longe da verdadeira política, já tramada nos centros urbanos do Rio Grande oitocentista. Evidentemente, labora com o regozijo de um reizinho no seu mundo restrito. Temos ai o vilão. Serão oferecidos em seguida a rainha barbada, o sacerdote aliciante, o pretendente plebeu e o príncipe hesitante, entre outros menos votados.numa tarde sufocante, acordes sinfônicos são disseminados pelo pampa sob uma chuva de sangue. A imagem impressionante é uma das pinceladas em perspectiva num livro em que os atores parecem se mover sobre uma superfície plana, com espíritos demasiado fugidios. Ainda quando atormentada, essa gente de Concerto campestre não sente o sangue fervendo sob a pele. Mesmo quando uma tempestade de violência se anima subitamente e produz suas vítimas.

O contador foi um pouco contido na exploração das emoções. Por vezes, tem-se a impressão de que Assis Brasil foi temeroso. Teria talvez recuado diante de uma tormenta por medo de ser tentado pelo turbilhão da imagem, pela maldição do estrépito semeado nos romances tributários do cinema. Poderia ter sido mais intenso. Augusto Meyer, por exemplo, era capaz de impactar divagando sobre uma lagoa mansa – lição que o professor Assis Brasil não desconhece.

Os leitores de Luiz Antonio de Assis Brasil podem ficar tranquilos. Não foram traídos. Enfim, Concerto campestre é uma fábula bem contada, povoada de seres fabulosos. O livro confirma o controle do autor sobre sua criação e desperta inquietações. Numa das dúvidas germinadas, entretanto, tem o poder dos parasitas destruidores. A literatura de Assis Brasil resiste, provando sua saúde inabalável.


Zero Hora, Porto Alegre, 26.ago.1997, Segundo Caderno, capa.

Concerto campestre
Álamo Oliveira

Concerto campestre é, numa definição redutora, uma alegoria sobre um tempo (meados do século passado) e um lugar (as fronteiras vazias do pampa) do Rio Grande do Sul e que o autor apresenta em plana decadência moral, social e política. Há os naturais e os intrusos e todos giram a volta do major Antônio Eleutério Fontes que, cansado de mandar e de ser obedecido, delega na esposa – D. Brígida – a sua prepotência para se dedicar ao mecenato da música. Fá – lo com tanta generosidade que não se conhece nas aldeias e cidades mais próximas quem possua orquestra própria (a Lira Santa Cecília) de melhor qualidade. Com dois filhos boçais e uma filha bonita (Clara Vitória), o major transfere para a sua orquestra grande parte do seu afecto e do seu dinheiro, para desespero (silencioso) de D. Brígida, que não se resigna a que se gaste tanto dinheiro com a música, mas que não pode, por dever social, hostilizar publicamente o marido. Assim, tudo parece correr sobre rodas: há dinheiro, a orquestra já toca afinada e até há um fazendeiro rico e de boa figura para casar com Clara Vitória; e há um padre que tudo abençoa: a música, a felicidade, o amor, o bem-viver, a boa comida. Há um senão: o maestro – um mulato feneeiro arranjado pelo padre – que o major instalou no quarto de hóspedes a paredes meias com o da filha. O resultado desta vizinhança foi catastrófico. Curiosamente, é o major quem reage de forma mais violenta: expulsou Clara Vitória grávida, deu cabo de Lira de Santa Cecília e ai dando cabo do fazendeiro que julgou ser o responsável daquela afronta, para a sorte do maestro a quem só restou fugir.

O que logo ressalta em Concerto campestre é o conhecimento da história, na sua multiplicidade de envolvências. E é esse conhecimento que provoca no leitor a certeza que está a (re) viver a verdade de um tempo e de um lugar que, tratada sobre a forma de ficção, toca as fronteiras mágicas do fantástico, do surreal. Daí, o encantamento deste livro, apoiado por uma escritora de grande rigor formal, que respira, alegoricamente, ao ritmo musical, faseado por andamento que alternam, por oposição, entre o suave e o forte, entre o trágico e o cômico, entre o sossego lírico e a inquietação dos medos.

Com esse rigor narrativo, Assis – Brasil define as personagens do seu romance, através de traços fortes, por ventura caricaturais, tornado – as paradigmáticas das diversas classes sociais que povoam o pampa do Rio Grande do Sul de então e que o autor descreve de forma radiográfica. E, assim, ele imbrinca as personagens nas sucessivas situações a que estão sujeitas, sem nunca perder a sua colocação no tempo e no lugar e não deixando que estes se sobreponham ao desenvolvimento dos conflitos. Para tanto, utilizou “pinceladas” de envolvência discretas, mas suficientes definidoras de um surpreendente sentido plástico.



Concerto campestre é mais um notável romance de Luiz Antonio Assis – Brasil – um romance que merece ser partilhado por grande número de leitores. Na verdade, Assis – Brasil é um dos grandes escritores do grande mundo da língua portuguesa e, hoje, é difícil entender porque é que as fronteiras continuam a ser as causadoras dos nossos limites.
Atlântida, Ponta Delgada (Portugal), 2ºSemestre 1997, Voll. XLIII

Sobre um livro e o seu autor
Luis Augusto Fischer
Luiz Antonio de Assis Brasil, o escritor patrono da Feira do Livro deste ano, lançou três livros em 97, um dos quais, de contos, já mencionado aqui. Outro foi Concerto campestre, pela L&PM, editora a que o autor voltou depois de ter permanecido como exclusivo da mercado Abrto por vários anos. Este o nosso assunto.

A novela, como todas as narrativas de Assis Brasil, fica de pé, se sustenta, desperta interesse por si, sem precisar de qualificativos, de muletas. Considerada no quadro evolutivo de sua obra, fica bem colocada. Mas, de certa maneira, representa uma virada. Vamos lembras, a traços largos, a tragetória de Luiz Antonio: começou com duas novelas de matéria claramente histórica. Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo, aquela fixando-se no episódio da chegada dos açorianos, nos meados do século 18, esta tematizando momento da Guerra os Farrapos, entre 1835 e 1845. Seguiram-se romances mais largos, como Bacia das almas e As virtudes da casa, esta a meu juízo ainda sua melhor criação pela força dos personagens e da trama (que envolve um dos mitos mais, arraigados entre nós, o da hospitalidade a qualquer custo, mesmo que a custo da sanidade mental) e pelo acerto do procedimento narrativo (um contraponto especial, que focaliza uma mesma cena por vários ângulos, conforme os persnagens envolvidos, em sucessão ao longo do texto. Depois novelas mais uma vez, uma pequena jóia chamada mais uma vez, uma pequena jóia chamada Manhã transfigurada, passada em Viamão e retratando uma possível história de amor, O homem amoroso e ainda Cães da Província, celebrada obra que reconstitui ficcionalmente a vida de Josué Joaquim de Campos Leão, o alucinado dramaturgo Qorpo-Santo, numa Porto Alegre totalmente aconhada e estupefada com o personagem, na altura de 1860.

Depois se seguiram os romances mais recentes, Videiras de cristal, em que tomou o bastão de Josué Guimarães na descrição dos episódios quw envolveram Jacobina Maurer e seus seguidores e outros contemporâneos, e mais recentemente ainda a série, ou o larguíssimo romance, Um castelo no pampa. E só por esta listagem, cuja data inicial está em 1976, podemos avaliar o que significa sua obra: num intervalo de vinte anos, Luiz Antonio está fazendo falar a todos o passado comum de nosso estado. Está revisando nosso patrimônio espiritual, e fazendo reviver aos olhos contemporâneos histórias que de outra forma permaneceriam reservadas aos historiadores dedicados. O papel de sua literatura na formação recente de nossa cultura é decisivo.

Mas voltemos ao Concerto. A primeira novidade que se apresenta é precisamente o retorno à novela, esta forma tão aparentada do romance mas que dele guarda uma diferença essencial: enquanto o romance, em sua forma consagrada desde o século 19, reconstroiuma totalidade, um conjunto completo de relações numa certa época, tomada em sua integralidade) e numa numa certa região, a novela se fixa numa trama específica, que, embora tenha por cenário a uma totalidade histórica, ganha sua força não do desenho conjunto, mas do desenho de um conflito, entre poucos personagens, em geral num transcurso bastante mais restrito de tempo. (Assim também com outro lançamento seu do ano, o Breviário das Terras do Brasil, que comentaremos noutra hora.)

No Concerto, Luiz Antonio conta a história de uma jovem, filha de estancieiro relativamente moderno, que na altura dos acontecimentos (algo entre 1850 e 1880) já se desataca por investir dinheiro numa charqueada atenta ao mercado. A moça, Clara Vitória, é a única filha mulher do major Antonio Eleutério e de d. Brígida. Seu pai apresenta ainda outro traço absolutamente peculiar: gosta de música, mesmo sendo um bronco campeiro, e não um refinado pelotense.

Tanto gosta que acaba montando uma inusitada orquestra em sua fazenda, contratando músicos (cuja qualidade técnica se pode imaginar) e em especial um maestro, mulato vindo de Minas Gerais, um centro muito evoluído em civilização. A moça, está claro, se destina a um casamento correto, e seu pretendente é Silvestre Pimentel, homem forte e bom bruto, como deve. Está armado o coreto para a tragédia amorosa. Clara se apaixona pelo Maestro, que ensina a ela coisas magníficas como o sentido das palavras (em cena antológica), a magia da música, o encantamento do amor espiritual, o arrebatamento do amor física.

O idílio pecaminoso e encoberto, partilhando apenas por uma serviçal da casa e por um músico amigo dele, por sinal um sujeito dado a ópera que admira a vida humana pelo prisma da inevitabilidade do destino, acaba em gravidez. E se segue daí todo um tremendo horror, com o pai enviando a filha a um fundo de campo, para morrer á mingua, coisa que afinal não acontece por obra de almas caridosas. E mais não devo contar, para não cortar o barato de quem ainda não leu.

Alguns comentários vêm à mente de pronto. Primeiro, a alta capacidade do autor em criar situações e em pôr personagens de pé, o que é um feito de registrar em nossa época, que por quinhentos motivos se dedica mais à descrição de sensações e à metanarrativa do que às prerrogativas do romance, da novela, tradicionais. Segundo, a vocação óbvia de seus relatos para a tela do cinema. Só,por insuficiência de discernimento é que Assis brasil não ganhou Hollywood ainda, tal a plasticidade de seus quadros, de suas cenas, de seus personagens (incluídos aí alguns personagens de marcação, daqueles que se apresentam com face única, sem ambiguidades 9como o violinista e a Siá Gonçalves, neste caso), e que funcionam para a leitura como portos seguros aos quais podemos recorrer para saber o que mesmo está se passando. (pode observar como o cinemão norte-americano e as telenovelas da Globo usam o recurso: botam lá um sujeito seguro, sereno, amigo, ás vezes ligeiramente tolo, como contraponto seguro para as peripécias e ambiguidades dos protagonistas. Na literatura brasileira, também Rubem Fonseca utiliza o recurso.)

Os poucos defeitos do livro (algum erro de revisão, alguma descrição demasiado detalhista, algum dado extemporâneo) não fazem a menor cócega no leitor, que fica preso solidamente ao andamento das coisas. Em particular a partir da descoberta da gravidez de Clara Vitória, episódio que precipita os acontecimentos, todos eles fortes, em ritmo apreciável: a tentativa de assassinato de Silvestre pelo pai da moça, o envio dela para aquele fim de mundo, a fuga do Maestro para uma Porto Alegre que só lhe traz desconcertos, etc. De certa forma, aí está o melhor da novela: os quase dois terços iniciais preparam aquela susessão de eventos, em ritmo lento, muitas vezes acertadamente lírico (algumas vezes forçadamente épico, como nas descrições da vida mental e econômica do major, em suas relações com o padre, etc.).

No balanço geral, pode-se sem susto dizer que se trata de literatura de gente grande, em oposição a uma prática paradidática que tantas vezes acomete a ficção gaúcha e que tem travado, creio, um desenvolvimento mais forte das formas artísticas entre nós. Mais uma vez, a exemplo do que já havíamos visto em As virtudes da casa, o enredo põe em relevo personagem feminina, nisso estando de acordo com uma circunstância não de todo compreendida: o fato de que nossos melhores personagens de ficção (e agora de cinema, com Anahy) serem mulheres, na linhagem da trágica Maria Altina de Simões Lopes Neto, da estóica Ana Terra, a sábia e bruxa Bibiana, da felina Maria Valéria, da forte Frau Catarina Schneider de Josué, e não os homens. Claro, há Blau Nunes, há o Capitão Rodrigo, há o General Netto de Tabajara Ruas, há o Naziozeno de Dyonélio; mas parece que elas é que concentram em si os horrores e as virtudes da vida gaúcha, pelo menos na arte.

E mais uma vez, igualmente a exemplo do que aconteceu em As virtudes da casa, é o pai, o estancieiro, o gaúcho honrado que, por ironia e trampa do destino, acaba induzindo sua filha (no outro romance, também sua mulher) ao pecado, acaba levando a si mesmo ao fracasso, tragédia. Assim caminham as coisas, e Luiz Antonio de Assis Brasil, com sua qualidade narrativa, percebe, dando-nos a conhecer nossos próprios demônios. O livro não tem a contundência de uma revisão histórica acerca das mazelas centrais de nosso passado (em resumo, o confronto entre a sobrevivência da herança guerreira, representada em Blau Nunes, e a imposição da lógica do Estado moderno sobre a ética dos caudilhos, representada parodicamente no Antonio Chimango), e nem a isso se propõe; mas tem a força da representação ficcional de uma grande e triste história de amor, que diz respeito a todos nós.

ABC, São Leopoldo, 21.dez.1997.


Concerto do patrono

Goida
Luiz Antonio de Assis Brasil lançou recentemente o seu 12° romance, Concerto campestre (L&PM Editores). É um livro que agente lê de uma sentada, saboreando cada página. Nele, Assis Brasil reuniu duas paixões que ele conhece a fundo a musica e a Historia do Rio Grande do Sul.Numa fazenda perdida do interior, um poderoso estancieiro resolve criar e manter uma pequena orquestra particular, isto na metade do século passado. Contrata-se um mestre-orquestra, vindo de longe, e realiza seu sonho, quase como Fitzcarraldo (personagem de um filme de Wim Wenders, que lutava construir um teatro de ópera, lá na Amazônia, no início deste século). Isto não é um fato inédito na História Mundial da Música. Entre1761 e 1790, Franz Joseph Haydn serviu, no interior da Áustria, ao príncipe Esterhazy como Kapellmeister, dirigindo uma orquestra particular. No livro de Assis Brasil, além da música,há um romance proibido, o da filha do estancieiro pelo chefe da orquestra. Luiz Antonio, que nasceu em 1945, tem carreira como músico (da OSPA), professor homem público e romancista. É, com todo merecimento, Patrono da 43a Feira do livro, que se realiza de 31 de outubro a 16 de novembro. O coroamento de uma trajetória de sucesso, algo que nunca afetou a simpatia e a tranquila humildade do escritor. Assis Brasil merece esta homenagem, a leitura, o reconhecimento de todos.


ABC, São Leopoldo, 21.set.1997, Lazer e Cultura p.4.

Concerto campestre
Vitor Biasoli

Concerto campestre é o título de um dos romances publicados por Luiz Antonio de Assis Brasil, no ano passado. Ambientado na segunda metade do século XIX, a trama se passa numa estância da Campanha rio-grandense. Um estancieiro, antigo contrabandista de gado, de sólida fortuna, descobre as delícias da música, escutando dois índios de descendência missioneira, tocadores de rabeca e guitarra espanhola. É o seu primeiro contato com a arte musical e ele resolve criar uma orquestra particular. O estancieiro ao possui nenhuma sensibilidade ou conhecimento especial nessa área, apenas fortuna, fascínio pela música e desejo de impressionar os seus pares. Então contrata vários músicos – entre eles um maestro mulato formado nas igrejas de Minas Gerais – e se dedica ao luxo de ter a sua própria orquestra. Oferece concertos à população local, de baixo de um umbu da própria estância, e ás vexes viaja com os músicos para as cidades da região. Uma paixão se estabelece entre a filha do estancieiro e um dos músicos mulatos da orquestra e está armada a situação que será o eixo da trama romanesca.

A narrativa, desenvolvida num tom de música de câmara, descreve um mundo rústico e violento que se encanta com as delícias das harmonias musicais, muitas vezes sem compreender direito o que escuta. Os instrumentistas, por sua vez, não são lá muito bons na sua arte e as partituras precisam ser simplificadas para eles tocarem com mais facilidade. A ironia do autor é muito fina ao apontar a ausência de sofisticação cultural da Campanhia rio-grandense e, lá pelas tantas, surge um personagem a nos dizer que é preciso ter alma para escutar os concertos,. Pois a “alma se encarrega de aplainar o que é mal tocado” e assim chegamos ao som perfeito. É inimaginável o som que esta orquestra campeira produzia, mas é negável o fascínio e o espanto que era capaz de causar na população local. E, ao longo do romance, é a orquestra que embala os sonhos de grandeza de um estancieiro, a relação amorosa (clandestina) da sua filha com um dos músicos e as nossas divagações (como leitores) a respeito das dificuldades de uma prática artística se desenvolver na cultura rio-grandense.

Quando o resultado do amor entre o jovem casal vem ao conhecimento de todos, aflora o substrato rústico e violento da Campanha. Como as regras da convivência social foram subvertidas pela relação amorosa clandestina, só resta a fúria e a indignação ao estancieiro e sua esposa. Não há tolerância nem sutileza de sentimentos, apenas dor, condenação e violência. Não há requintes culturais capazes de possibilitar um trato mais humano (tolerante) com as realidades da vida, com as relações amorosas que não seguem as rígidas regras sociais, por exemplo. E, nessas circunstâncias, uma orquestra musical se torna algo completamente supérfluo e desprezível. (Ironias do autor para apontar a “alma bárbara” do Rio Grande? Pode ser).

Mas o autor sabe que o público leitor quer sentir que há algum espaço para o amor e prepara um final surpreendente. É ler e se encantar, com este Concerto campestre, rude e delicado ao mesmo tempo.

A Razão, Santa Maria, 07.ago.1998
Música Mágica
Vicente Araguas

Madrid, Espanha



Luiz Antonio de Assis Brasil, autor brasileño perfectamente desconocido entre nosotros (y de empezar a difundirlo se encarga una editorial tan pequeña como meritoria, y rica en su catálogo de autores extranjeros), comparece ahora en lengua castellana en versión bastante aceptable  de no ser por algunos “falsos amigos” que la limitan: apenas no es apenas, aunque también pueda serlo  de Juana María Inarejos Ortiz. Y lo hace por medio de Concierto campestre, primera edición portuguesa de 1997, una novela que pide lectura y difusión en el mundo librero español, demasiado acostumbrado  cuando se trata de literatura en lengua lusa  a degustar sota, caballo y rey. Concierto campestre es novela exuberante, como el entorno que la rodea, y tan barroca como las apetencias sensuales de sus protagonistas, empujados por la vorágine ambiental del Brasil selvático y primitivo de mediados del siglo XIX, cuando ni siquiera Stefan Zweig había podido señalar todavía cuánto de futuro encerraba. Ahí, en esse entorno pródigo en hipérboles, también  es claro  en brutalidad, sitúa Assis Brasil la historia del hacendado António Eleutério de Fontes, quien da en la manía melancólica de hacer acompañar su soledad agreste de una orquesta perfectamente integrada en el paisaje y dirigida por un enigmático maestro, al cabo artífice del más que dramático in crescendo que terminará precipitando al glorioso socavón, ombligo de la novela, todo aquello que habían venido arrullando sus toccatas. Dos aspectos formales vienen a alumbrar tan sugestivo concepto: la música en sí, que ordena com rigor a partir de un magnífico oído la historia compuesta por Assis Brasil y, en segundo lugar, el sentido cinematográfico que el autor deposita en sua narración, haciendo que ésta se mueva em flashbacks siempre al ritmo de la música con el fin de mudar en lógico el rompecabezas inquietante que es  en conclusión  Concierto campestre. Una novela, hasta cierto punto, deudora del viejo realismo mágico, solamente que cuando el hilo fantástico se estira en profundidad  así es el rostro azulado por causa de la barba diariamente afeitada de doña Brígida, esposa de António Eleutério , Assis Brasil vuelve al ovillo primitivo del realismo melancólico que convierte lo problable en tan solo possible. De esta manera el argumento de Concierto campestre, com la historia de amor bravío, y por lo tanto transgressor, entre Clara Vitória, hija de António Eleutério y doña Brígida, y el maestro (genial en su economía expresiva el cachicán de éste, Rossini), deviene en la onda del realismo comme il faut, y ahí se incluyen las uvas milagrosas que se producen en el socavón, onfalós y núcleo puro y duro del argumento, al que irá a parar la heroína de la historia como consecuencia de su enredo sentimental con el músico. Y es entonces cuando el arrebato y la violencia se apoderan de esta historia briosa, y el momento en que Assis Brasil tensa vigorosamente las cuerdas en las que descansaba su estrategia narrativa. Que tiene como fondo histórico un Brasil todavia imperial, en el que indios y esclavos sirven de comparsas para una novela en la que el coro nunca se deja ver al completo sino que resulta suma de individualidades, outro de los aciertos de Luiz Antonio de Assis Brasil. Un escritor muy bien dotado para los cambios de ritmo, también para la impostación estilística que, en el caso de esta novela, parte de un amplio universo desconocido  ya se dijo  entre nosotros, apunta por momentos hacia la lírica aunque sin olvidar en ningún momento, y menos aún en el tremendo final, que la épica es su línea conductora esencial. Y en el lirismo que fluye como corriente subterránea en Concierto campestre convendria considerar las escenas eróticas que saltan aqui y allá, incluyendo entre ellas las implícitas que aparecen al escuchar Clara Vitória la presencia del maestro, un hombre que la enamora no precisamente por su presencia física, deleznable, en la habitación contígua. Una novela, Concierto campestre, digna de una lectura entregada, cuando no de una audición.
Revista de Libros, Madrid, n. 84, p. 42, dez. 2003
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Vicente Araguas é escritor, tradutor e crítico literário.



Concierto Campestre
Diário Montañes

Santander, Espanha

Uno de los más notables escritores brasileños es presentado en esta colección literaria de amplio espectro geográfico con una destacada y poética novela 'Concierto campestre'. Se trata de una obra ambientada hacia 1850 en la profunda tierra donde los latifundistas son hombres de horca y cuchillo, decididos a mantener su honor y su hacienda a toda costa.

Por uno de esos caprichos de la cultura, uno de talles hacendados, hombre que se ha hecho a sí mismo a base de esfuerzo y pisotones, decide tener una orquesta de cámara propia, y a los conciertos invitar a sus vecinos y autoridades nominales locales.


Para ello contrata a un maestro y director de orquesta, que se encarga de la ardua tarea de formar una pequeña orquesta con los músicos que encuentra por las zonas próximas. La formación de tal orquesta es ya toda una pieza maestra de la literatura mágica, al estilo de lo que hiciera García Márquez, donde el paisaje exuberante, la incapacidad de los músicos, la desesperación de los hacendados y el trabajo de los esclavos negros forma una amalgama que sería de opereta a no ser por la capacidad del autor para manejar el lenguaje y dar un tono poético a la situación. Con tal arranque, la novela adquiere una base que irá desarrollando adecuadamente a medida que avanza la trama. La hija del hacendado terminará por enamorarse del músico, romperá el matrimonio que le tenía preparado la familia con otro hacendado y llevará el desorden a la comunidad, con un final diverso para cada encausado. Pero el interés principal radica en la capacidad del autor para encandilar al lector con su estilo, entre lírico y épico, entre lujurioso e intimista, pero siempre moderado, medido en su extensión y en su intensidad: una novela suave y atractiva, que consigue que el interés no decaiga y la belleza no se difumine.


Diário Montañes, Santander, Espanha, 8.jul.2003
A música sem esperança que vem das palavras
Elisabeth Orsini
O gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, de 52 anos, vive repetindo que o Rio Grande do Sul tem milhares de histórias fantásticas que proporcionam um inesgotável material ficcional, para seus escritores. Foi uma delas que serviu de inspiração para seu 12° livro, Concerto campestre. A trama gira em torno do romance ocorrido numa estância gaúcha, em meados do século XIX, entre o maestro mineiro de uma orquestra e a bela Clara Vitória, filha do estancieiro Antônio Eleutério.

  • Ela infringiu os códigos morais da época e acabou confinada num boqueirão perdido da estância – conta Assis Brasil. – essa exclusão pela transgressão revela um aspecto ainda bárbaro da nossa sociedade.

A decisão de incluir um maestro mulato na trama não foi por acaso. Assis Brasil lembra que, no Rio Grande do Sul, vivia-se uma situação peculiar: uma sociedade predominante branca, com poucos negros e nenhuma comunicação entre as duas raças. Para o autor, o mulato tem um caráter incompreensível nessa sociedade, por ser um intermediário desconhecido no Rio Grande do Sul:

  • O mulato já é um equívoco pela sua constituição humana, o que é um motivo literário rico.

O autor admite que essas diferenças ainda persistem na sociedade riograndense, onde a divisão das raças é nítida:

  • Eu não usaria a palavra discriminação mas o sentimento de raça aqui inda é bastante forte. O fato é que não vemos uma presença mais intensa de negros no serviço público ou nos postos diretivos da sociedade em geral.

Considerado um autor de romances históricos, Assis Brasil recusa o rótulo.

  • Isso é um clichê – protesta. – Meus romances têm uma preocupação com a identidade brasileira, especialmente com a do sul do Brasil. Como a identidade transita necessariamente pelo passado isso gera confusões. Em outros livros meus, como As virtudes da casa, Manhã transfigurada e Cães da província, o espaço temporal está no passado, mas eles também não são romances históricos, apesar de os personagens serem. É apenas uma circunstância.



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