Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Assis Brasil diz perseguir a “perfeição do som”

Ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, o autor se diz influenciado pela música de duas formas.



  • Como tema ela me influenciou em O homem amoroso e Concerto campestre – lembra.

  • Ela também me levou a buscar a melhor sonoridade da palavra, a frase mais cadenciada. Venho perseguindo a perfeição do som desde Manhã transfigurada.

Para materializar esta busca Assis Brasil lê em voz alta todos os seus romances. Às vezes pede que amigos leiam, para que possa escutar atentamente. Ou então se grava para ouvir depois:

  • Também busco essa frase sonora através de uma adjetivação pertinente, contrastante com o substantivo. Enfim, a música está presente no meu trabalho, temática e linguisticamente.

Ser um escritor gaúcho também é ser exaustivamente comparado a Érico Veríssimo, coisa que o autor acha um equívoco “totalmente compreensível”.

  • Meu olhar sobre o passado é crítico, sem esperança. Ele pretende ser novo na medida em que mergulha no passado sem iluminações, coisa que Érico Veríssimo só começou a fazer depois de “Incidente em Antares”. No final da vida, ele também já estava olhando criticamente esse passado. Apesar disso, existe um clichê em relação ao Érico. Ele será sempre o homem de olhos líricos e fantasiosos sobre o passado sugerido por “O tempo e o vento”.

O mercado literário riograndense também é analisado por Assis Brasil. Ele admite que é um mercado muito isolado:

  • Existe aqui o que o crítico Antônio Cândido classifica de “sistema literário”: temos autores, editoras, livrarias, escolas poderosas e leitores. Esse sistema tem certas marcas de auto-suficiência. Há autores gaúchos cujas edições tem tiragem de seis mil exemplares por edição, número que se compara a autores consagrados em termo de tiragens. Essa auto-suficiência faz com que, às vezes, a gente fique um pouco displicente em relação ao mercado do Rio e de São Paulo. Um autor gaúcho de repente pode se acomodar com sua grande tiragem no sul, porque isso lhe possibilita fazer uma carreira.

No final do outubro, Assis Brasil estará lançando outro livro pela editora L&PM. Trata-se de “Breviário das terras do Brasil”, folhetim publicado originalmente em 1988, no “Diário do Sul”. O livro se passa no século XVII, durante a Inquisição. A história é ambientada no Rio de Janeiro e gira em torno de um índio-escultor das missões do sul, que é aprisionado porque faz imagens com feições indígenas:

  • ele é acusado de heresia e levado à inquisição no Rio de Janeiro. Mas isso é apenas um pretexto para uma disputa de poder entre as ordens religiosas no tempo da colônia. O processo que o índio sofre é, no fundo, um problema de conflito entre essas ordens religiosas.


O Globo, Rio de Janeiro, 4.out.1997. Prosa & Verso, p. 5

Farsa e tragédia em um Concerto campestre

Léa Masina


O que torna Concerto campestre um momento de extraordinária vitalidade, no conjunto notável da ficção de Luiz Antonio de Assis Brasil, é a transfiguração de duas vertentes, ambas presentes desde seus primeiros textos. A primeira é a vertente crítica, que promana do desejo de revisar a História, com notado influxo social. Documentam essa tendência os diários de Gaspar de Fróes, em Um quarto de légua em quadro, a consciência angustiada de Filhinho de Paiva, em A prole do corvo, a geração débil e apática do Coronel Trajano, o patriarca de Bacia das almas. Não obstante, a crítica aos costumes, que leva o romancista a privilegiar vultos insólitos, evolui gradativamente para expressar-se numa crítica visceral. No universo ficcional de Concerto campestre, lê-se que nas sociedades oligárquicas, habitadas por homens divididos em classes, não existe espaço para o amor e a conciliação. E assim, a ironia, de leve esboçada nos primeiros livros, transforma-se em sátira e paródia já nos três romances que compõem a série O castelo no pampa.

Em Concerto campestre, curiosamente, a vertente crítica não se mostra apenas como formulação discursiva, mas como forma de conceber o mundo. Ao invés de seguir apenas a racionalidade mimética da narrativa tradicional, Assis Brasil acolhe, na lógica do texto, mundos simultâneos que alteram as passagens entre o universo mimético e real e a insurgência do sonho, do alegórico e do espectral. A oposição real-imaginário, como captação de matéria ficcional determinada, por sua vez, a articulação da novela como forma acabada e redonda, semelhante ao poema, onde cada elemento ocupa um determinado espaço, não podendo ser alterado ou substituído.

Se pela vertente irônica Concerto campestre pune a sociedade e os costumes com a ironia, o pastiche, a paródia, ao mesmo tempo que relata o debater-se inútil das vítimas, fantoches de um mundo decaído, pela segunda vertente, a obra instaura o grotesco como manifestação formal de uma ordem de mundo essencialmente barroca. As antíteses poderosas deslocam-se da forma tradicional e compõem a ordenação do universo novelesco, como se pode ler fartamente através das articulações das personagens e dos demais elementos narrativos. A seleção de episódios, por sua vez, manifestam as oposições desses mundos em que a chuva de sangue é o castigo bíblico: a ordem fora rompida. A fantasmagoria da videira, o caráter sepulcral da tapera onde Clara Vitória será confinada pelo pai, deixam claro tratar-se de texto que trabalha a alegoria barroca.

Mais uma vez, chama a atenção o modo hábil como Assis Brasil apresenta suas personagens, sempre justificadas pela ação que realizam. Não obstante, o narrador experiente dos romances anteriores surpreende o crítico ao deformá-las propositadamente, acentuando-lhes os traços definidores. Essa deformação caricaturesca, própria da sátira, transforma os entes humanos em marionetes rígidas, a noverem-se mecanicamente. A leitura que proponho corresponde, desse modo, ao recorte crítico do grotesco como categoria estética.

Veja-se, porém, que na Estância de Fontes, o jogo das distorções grotescas não é gratuito,. Pode-se entendê-lo como montagem parodística e, portanto, como paródia de uma literatura edificante que se mostra, no caso, pervertida. E essa é a sua qualidade. O Cômico deformante impõe mais a reflexão do que o riso. E se, no início da narrativa, julga-se perceber no aguçamento caricatural das personagens o zelo de um crítico da sociedade, como ensina Kayser, os acontecimentos irão mostrar que o grotesco, como categoria da estética barroca, reside propriamente na mistura de coisas incompatíveis: de um lado, os dramas mais cruéis da vida; de outro, o riso contrafeito das máscaras.

Em Concerto campestre o autor ultrapassa a crítica à sociedade: farsa e tragédia, máscara e face não se deixam separar. Não obstante, a máscara deixa a face - e isso ocorre quando Clara Vitória e o maestro encolhem-se diante das circunstâncias, reconhecendo seus limites e sua pequenez. Resistindo ao desespero, separam-se, embora mantendo um amor sem projetos, desejo epifânico de que tudo terminasse bem. A experiência dolorosa do maestro, no decorrer dos concertos na Estância, fizera-o ver o fosso que separava os dois mundos, o dos pardos e dos pobres e o mundo dos brancos e ricos, cujos código ele jamais poderia atingir. Como na commedia del’arte italiana, a fuga dos amantes para além da sociedade, dos amigos, da lei, de tudo converte-se em fuga do mundo. Os pressentimentos, as súbitas consciências da insânia cometida, a relação conflituosa entre o Vigário, Deus e os escravos, que mais sofriam do que pecavam, confirmam a alegoria dos mundos antagônicos.

Entretanto, a confusão entre aparência e realidade decorre também da própria concepção dos sentidos e de seus deslocamentos: se ouvir, isso não é com a orelha, é com a alma, e se ouve-se também com os olhos, como dizia o músico Rossini, certamente um alter-ego do escritor, Concerto campestre tem de ser lido como um poema. A frase melódica, a harmonia formal recobrem, paradoxalmente, o jogo de distorções grotescas nessa comédia moralizante contra a natureza cruel do homem.



Adverso, Porto Alegre, Março (1º quinzena) 1998.


Concerto Campestre is a very seductive novel

Ladyce West



Concerto Campestre is a very seductive novel and haunts our imaginations even after we have put down the book. The story tells us about two of the most common Brazilian passions: Music and Forbidden Love. Luiz Antonio de Assis Brasil shows how racial prejudice worked in the 19th c.; he also shows the emptiness of the lives of women, born and raised in farms at the time, usually illiterate;  they had very little to distract themselves with and yet they were not of the laboring class...

Assis Brazil also shows the general prejudices and beliefs of country folks in rural Rio Grande do Sul in the 1800s.  Rio Grande do Sul is the Southernmost province in Brazil.   That's the land of gauchos, of Pampas Grass, of cattle raising, large land owners and particularly rebellious, and independent.   In this book we find the rude upbringing of Brazilians at the time, their narrow mindedness, their hair-splitting definitions of social classes peculiar to this Rio Grande do Sul, and also to much of country life in Brazil.


The story: a country gent decides to have a small country orchestra for outdoor concerts. He contracts a well known mulatto maestro who sets about building this small group of musicians.  This maestro  conquers not only the country gent with his music, surprises all neighboring farmers, and also falls in love with daughter of his patron.  She is an intelligent though illiterate woman, who is aware of the sterile  life that awaits her, and looks at her approaching engagement  to a neighboring farmer as one of the worst things that could happen to her.   She reciprocrates his love.

 The story is narrated with an incredibly light touch; that which is not said, may be more important than what is written. This is a novel almost written between the lines. These elipses are eloquent and disturbing. This is the hand of a masterful story teller, working on text and history. A very small novel [176 pages], it works as a window into the Brazilian unconscious. It will survive its time, it will become a classic, because it renders the Brazilian soul.

Let me remind those who are not particularly familiar with Luiz Antonio de Assis Brasil that he is one of the most outstanding contemporary writers in Brazil.  In 2004 he won both the Jabuti Award [the great Brazilian literary award] and the Portugal Telecom award with his book:  A margem imóvel do rio.  He has an extensive list of publications.  His most recent book is Musica Perdida, 2006, L&PM Editors, RS.

I believe the most exciting literature being written in Brazil NOW is in Rio Grande do Sul.  This state has produced some fantastic writers throughout last century, but it has recently catapulted to a place of prominence with several groups of excellent writers.  

http://livinginthepostcard.blog.terra.com.br/review_concerto_campestre_country_concer Acesso em 24.09.2007

Concerto Campestre, um clássico contemporâneo



Gabriela Vargas

Todo ano, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), são adicionados quatro novos livros à lista de leituras obrigatórias, com o total de doze leituras. Durante a divulgação das quatro obras escolhidas para o vestibular de 2008, eis uma surpresa muito grande e inovadora: entre os quatro autores escolhidos, três são vivos.

Os autores em questão são Milton Hatoum, autor manauense, que participa com seu célebre romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti em 2000, Lygia Fagundes Telles com Antes do Baile Verde, uma reunião de suas melhores crônicas entre os anos de 49 e 69, e o tão conhecido escritor gaúcho, exímio incentivador da cultura no Rio Grande, Luiz Antonio de Assis Brasil, com a obra Concerto Campestre (L&PM, 2007,

176 págs.).


Meu amigo, conterrâneo e colega aqui no Digestivo, Marcelo Spalding, fez uma excelente resenha sobre o livro Dois Irmãos. Então, como este ano enfrentarei o terrível vestibular, tive a ideia de fazer uma resenha sobre um dos outros livros em questão, Concerto Campestre e, de certa forma, ajudar meus concorrentes vestibulandos e tentar acabar com aquele mito de que todas as leituras obrigatórias têm de ser chatas e penosas. Muito pelo contrário, Concerto Campestre é um livro de leitura rápida que flui naturalmente.

O livro narra a história do Major Eleutério de Fontes, dono de uma estância nos pampas gaúchos que, já velho, descobre o prazer pela música ao ouvir dois índios tocarem rabeca e guitarra espanhola, quando ambos param na sua estância, esfomeados. Antes desse acontecimento, a música, para o Major, “era divertimento de borrachos e putas”. E não somente para ele, mas para toda a sociedade preconceituosa da época. Porém, depois desse acontecimento, o Major se entrega sem pestanejar ao prazer da arte e começa a contratar músicos que aparecem na sua estância aos montes, após estes saberem do abrigo que o major está oferecendo em troca de, nada mais, nada menos, que música, boa música.

Como é de se prever, a vinda de tantos músicos para a estância acaba trazendo uma grande desordem, pois aqueles homens ficam lá como uns vagabundos, comendo e bebendo de graça e não se organizam para tocar. Então, quando o major comenta com o vigário (sim, toda história dessa época que deseja chegar perto da realidade, tem que ter um padre, ou algo do gênero), este lhe dá a ideia de se contratar um maestro que mora na cidade e precisa de um lugar pra ficar, depois de ter se metido em confusões com mulheres. O major logo aceita e o maestro vai para a estância.


Um fato relevante nesse momento é que o Major tinha uma filha, chamada Clara Vitória, que estava na idade de casar, pelo menos naquela época. Sua mãe, Dona Brígida, fazia votos de que ela se casasse com um rapaz direito, de família, e tinha grande preferência pelo Silvestre Pimentel, sobrinho de um rico estancieiro de terras vizinhas, mas do qual Clara Vitória não gostava porque o homem por quem ela caiu de amores – e, como na maioria dos clássicos, um amor proibido – foi o maestro.


Os filhos dos estancieiros a volta afirmavam que morreria virgem, pois ninguém teria a audácia de macular aquela inocência angélica – e casavam-se com as outras. A ela não mais importavam esse juízos levianos, nem esses matrimônios de varejo: se havia algo de certo na vida, que a empolgava até latejarem as têmporas e doerem os ossos, fazendo com que perdesse a fome e até a palavra, era a sua paixão pelo Maestro.”

A história passa então a falar sobre o desenrolar do amor intenso e proibido que se dá entre Clara Vitória e o Maestro, e a forma como esse sentimento vai aumentando após cada encontro escondido, na calada da noite, quando os dois se amavam loucamente e o perigo que isso trás para o casal por causa da sociedade conservadora e rígida da época.

O livro se torna a cada página mais fascinante, trazendo muitas surpresas. Ficamos tão obcecados por saber o que irá acontecer no final, que é difícil largá-lo. Assis Brasil consegue tratar de um tema tão comum – o amor – de uma maneira nada banal.



Concerto Campestre faz jus ao nome, abordando muito a questão musical ligada ao social. Por exemplo, como a orquestra do Major passa a ser importante na região e o status que isso acaba por trazer para a sua família. Essa questão me faz lembrar quase inconscientemente dos mecenas do Renascimento, que incentivavam a arte com o seu dinheiro e, em troca disso, ganhavam grande reconhecimento por parte da sociedade. E é mais ou menos o que acontece com o Major; porém, ele incentiva a música não pensando nos benefícios que isso pode lhe trazer, mas o faz por prazer, porque realmente descobre o gosto pela música.

Assis Brasil consegue tornar este um livro encantador por tratar sobre uma orquestra e ao mesmo tempo misturar sentimentos comuns a qualquer indivíduo, humanizando a música, a arte. Esse é um livro que realmente vale a pena ser lido, não apenas pelos vestibulandos, mas por todos que gostem de boa literatura. Foi excelente a iniciativa da UFRGS de colocar autores vivos na lista, pois mostra que estes, por serem contemporâneos, não são menos competentes que os clássicos. São apenas estilos e épocas diferentes.


http://www.digestivocultural.com Acesso em 10.out.2007

BREVIÁRIO DAS TERRAS DO BRASIL


Ovo da serpente tropical
José Onofre

Os países, como as pessoas, podem chegar a uma crise de objetivos que os torna incapazes não só de seguir em frente como de perceber o que está ocorrendo. Há movimentação e muita energia aplicada nela, mas a situação não muda. Países que se julgam com um destino manifesto, como o Brasil, crentes de um futuro escrito nas estrelas, perdem-se na própria metáfora. Problemas concretos, ao evidenciar as dificuldades na rota para o generoso futuro que espera o País, são considerados circunstanciais, devendo desaparecer na caminhada. Um ufanismo que atropela qualquer obstáculo, destituído de razão e juízo, é a base dessas certezas. Mas isto não é uma ideologia, é uma bravata. De fato, os brasileiros não conseguem encontrar motivos para se orgulhar do País, exceto em seus heróis esportivos. A frivolodidade do brasileiro, sua bazófia e triunfalismo, nasce de seu crescente empobrecimento espiritual. O Brasil está com uma cultura pobre e uma arte de má qualidade. As pessoas consomem vulgaridades porque o biscoito fino prometido pelos modernistas não se materializou, nem para os “happy few” nem para a turma da televisão. E isto é coisa que não se resolve nem com incentivo nem com subsídios ou ação governamental. Não há exigência, tudo se nivela; e a qualidade, quando surge, logo desaparece num mar de mediocridade, com a cumplicidade de quem deveria fazer a distinção. Caminhando entre a miséria material e a espiritual, o brasileiro procura bruxas, anjos, duendes ou qualquer outra mágica que o justifique e o reconcilie com a má vida que está levando.

Os artistas nunca aceitaram a ideia de que a função da arte fosse a de reconciliar o homem com seu destino. Sempre consideraram seu trabalho como destinado à libertação do indivíduo de uma prisão cujas barras são a próproa religião, o esquema familiar, a desinformação ideológica, o conformismo. A desobediência foi sempre seu principal objetivo. Desobedecer à repressão da família, da religião, do Estado e da própria sociedade, acabando com os mitos que enquadravam os indivíduos de conformidade com o grupo, era despertar o indivíduo da alienação. Hoje, a tarefa é a mesma, mas o objetivo mudou. O jugo do brasileiro não é mais a religião, embora ela ainda atue fortemente para impor sua moral. A família, fragmentada, tem pouca influência. Há o Estado, mais pelo que não faz do que pelo que faz, que parece subjugar todos os governos que o enfrentam, fazendo-os cúmplices a reproduzir e expandir o mesmo Estado que pretendiam reduzir. O Estado brasileiro passou por várias etapas e algumas rupturas, todas assimiladas de forma a que saísse mais forte da crise. Há o que se poderia chamar de “natureza” ou caráter do Estado brasileiro, que, sob governo autoritário ou democrático, conservador ou reformista, o torna incapaz de romper as barreiras da miséria e integrar o País, eliminando as causas e a marginalidade endêmica. Nunca conseguiu. Porque não pode ou porque não quis.

A ideia de que o Estado brasileiro não está programado para atender estas demandas circula como um fantasma desagradável, que faz seus ruídos sem deixar a menor pista. Foi buscando a origem desta ação deliberada de exclusão que o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil escreveu seu 13º romance, “Breviário das Terras Brasileiras- Uma Aventura no Tempo da Inquisição”. Assis Brasil preferiu ficar em seu território, a arte, para desembarcar no Brasil do século XVIII, em pleno período colonial, num tempo em que a Inquisição mandava mais que o Rei Seu personagem é o índio guarani Francisco Abiaru, escultor em madeira especializado em imagens sacras. Abiaru e o padre que lhe ensinou o ofício tentam atravessar o rio de la Plata para vender esculturas em Buenos Aires. São apanhados por violenta tempestade, o padre morre afogado; e o índio, mais uma estátua de Cristo, em tamanho natural, são apanhados por um barco português e levados para o Rio de Janeiro, onde o índia é jogado na prisão hospício. Ao contar a vida de Abiru. Assis brasil está remontando os primeiros momentos da formação do estado brasileiro, quando a Igreja tinha um controle absoluto sobre a vida da Colônia e de qualquer um que ali vivesse.

O romance foi publicado originalmente como folhetim no extinto jornal “Diário do Sul”, de Porto Alegre, em 1988, tem 29 capítulos e 226 páginas. A brutalidade da prisão do Rio de Janeiro não fica nada a dever aos presídios brasileiros de hoje, tampouco a capacidade de violência dos guardas. Mas o principal problema do índio Abiaru será, mais do que o desprezo por sua raça, indiferença por sua arte, a inveja do escultor oficial e o dogmatismo dos padres, que vêem no seu Cristo de olhos amendoados a presença da Heresia. Aproveitando o ambiente e a época, Assis Brasil deixa o texto se formar ao gosto da palavra, criando uma retórica leve e rica. Com ela descreve a possível vida nas ruas, onde a população e os animais domésticos abrem caminho pelo barro e pela miséria da cidade, numa promiscuidade antecipadora das favelas. No hospício, onde um mulato homossexual chora por não saber mais se é um preso ou um carcereiro, está o “holandês voador”, um maluco que quer o retorno de Maurício de Nassau e consorte o que poderia ter sido o primeiros ultraleve do mundo, para escapar da prisão.

Nesta viagem por um suposto momento de vida no Brasil Colônia, já está incubado o ovo da serpente de país futuro. E esta serpente no paraíso brasileiro é a combinação de pragmatismo e conformismo, na corrupção e no rancor diante do povo miúdo, na subserviência aos graúdos e na brutalidade com os marginais, tudo encimado pela insensibilidade a qualquer manifestação do espírito que não tenha um valor material. O Brasil imaginado não está muito longe do país real, que ainda está precisando entender o que o retém, o paralisa e o impede de seguir seu rumo.



Gazeta Mercantil. São Paulo, 7.nov.1997. Cultura, p.7

A Inquisição nos trópicos
Cecília Zokner

Francisco Abiaru, náufrago de uma pirágua, é salvo das águas do Rio da Prata por um navio português. Içado por uma corda, agarrado ao Cristo de madeira que esculpira nas Missões é, semi-desfalecido, largado no tombadilho do navio.

Aí tem início o caminho de seus dias futuros. Por ser índio missioneiro, por ter o

seu Cristo os olhos amendoados é preso e, assim, segue para o Rio de Janeiro onde nos cárceres da Inquisição deverá responder por heresia.

É o que irá contar Luiz Antonio de Assis Brasil no seu Breviário das terras do Brasil: uma aventura nos tempos da Inquisição, publicado pela L& PM de Porto Alegre, no fim do ano passado.

O drama de Francisco Abiaru na prisão, se entrelaça com o do Padre Vasco Antonio da Costa, da Rainha Hécuba, do Mestre Domingos, do holandês voador, com o do Vigário Geral. Todos eles se enliando nas tramas que leis ditadas por vontades esdrúxulas instituíam nesse século XVII ainda sob a Jurisdição da Inquisição. Sobre tudo, o medo reina entre eles e cada um a seu modo ou a ele se submete ou busca uma salvação para fugir das ordens que atravessaram o Atlântico para se instalar no Brasil-colônia.

No romance de Assis Brasil, elas se mostram como que menos cruéis, como que menos severas na convivência com as cores e com as luzes. A figura do índio guarani, os tons exuberantes e os perfumes da natureza tropical diluem os horrores da prisão e dos rituais que aparecem como se mais do que ditos fossem insinuados. Os próprios inquisidores se suavizam, as penas se reduzem e ao holandês voador, como ao índio é oferecida a salvação. Eles se lançam ao espaço numa nave artesanal de fazendas coloridas que se afasta dos seus juízes em gaciosas evoluções.

Nesse dia, que seria o dos castigos, a baía da Guanabara refulgia de “águas belíssimas”. A vista “alcançando a imensidão do mar e a grandeza do céu, dissolvendo-se toda a paisagem numa largueza onde se desconhecem os limites entre a terra, a água e o ar”.

A ficção permitiu o belo e o alentador de uma nave  algo prenhe de loucas esperanças – a voar para o seu destino. Assim finaliza Breviário das terras do Brasil: uma aventura nos tempos da Inquisição. Para trás, no silêncio dos Arquivos, ainda por se conhecer, os duros, os funestos, os sombrios meandros da Inquisição no Brasil.

O Estado do Paraná, Curitiba, 10.mai.1998.

A ilusão

Cecília Zokner

Acusado de heresia por esculpir santos com fisionomia indígena – “fazer santos que contrariam toda fé”- o índio guarani Francisco Abiaru é atirado nas masmorras do Rio de Janeiro e, lá, espera julgamento. Como Petrus Cornelius, o holandês calvinista. Homens importantes mandaram que o deixassem solto no pátio da cadeia. Ele, então, trepa no beiral para chamar a atenção e obter o que deseja: “uns panos, linhas, varas de taquara e um agulhão grosso”. Quer construir a sua máquina voadora.

Francisco Abiaru convence o guarda da conveniência de lhe dar o que deseja e pouco a pouco vai obtendo essas fazendas que o holandês “armazena entre seus trapos”. E o artefacto vai se fazendo.

Quando chega a Visitação do Santo Ofício está terminado: “um bicho, um desenho imprudente, um delírio”. Que seu autor entende e explica na certeza de que voará . E, nas suas certezas, permanece alheio ao poder da ordem que o mantém preso: “poderosa e intrincada Ordem acima de qualquer ordem, odiada e temida, que julga, prende e mata e é dirigida ninguém sabe como e que se dedica a manter a pureza da fé, e que todos na Colônia portuguesa querem mais é destruir, sendo ela entretanto indestrutível como o Demônio, tudo vê, tudo enxerga e que tem Familiares (nome tão enganosamente suave) por todos os lados cuja função é delatar suspeitos e que tem mais poder que o Rei, e a cujo nome todos tremem de pavor e que leva o cálido nome de Santo Ofício ou mais vulgarmente Inquisição”.

Por essa ordem será interrogado. O Visitador que viera ao Brasil para “verificar o estado das almas de uma terra assim carente de apoio espiritual” o inquire. E teve que render-se a sua loucura e curvar-se ao seu desejo: “Pois que assim seja. Voarás com tua máquina”. Assim aconteceu. Indiferente ao ritual que o julga, e aos outros acusados, Petrus Cornelius pede para armar seu artefacto e pede que o índio guarani o ajude. Juntos são amarrados na máquina voadora e juntos correm até a proeminência da pedra e se lançam no espaço aereo. Partem em “graciosas evoluções”, em meio às nuvens.

Desta maneira termina Breviário das terras do Brasil: uma aventura nos tempos da Inquisição, romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, publicado, em 1997, pela L&PM de Porto Alegre. Um final auspicioso nesse afastar-se de um tribunal do Santo Ofício, sem mesmo saber da absolvição, em asas coloridas.

Começara com o naufrágio da pequena embarcação, no rio da Prata, em que Francisco Abiaru carregava o Cristo de madeira. Salvo pela galera Nossa Senhora da Glória, a imagem que havia lavrado com as próprias mãos, escandaliza o frade – “magro e de estranha cabeça raspada, cingida por uma breve coroa de cabelos” - ao fixá-la nos seus olhos amendoados. Influenciando o capitão, o faz decidir a levar preso o índio para o Rio de Janeiro e lá, ainda que sem “ordem decretada e sim de boca” o jogam “numa enxovia recoberta de pedra no chão, no teto e nas paredes”.

Mas, Francisco Abiaru não está sozinho, pois, recolhidos, também ali estão “gentes de todo feitio, feiticeiros, mulheres de má vida, ladrões, blasfemadores, sodomitas, inventores de máquina, padres amancebados que dizem que o comércio carnal não é pecado, judeus ainda não conversos, muçulmanos que estiram seus tapetes ao solo e oram a Maomé, negros que não abandonam seus deuses da África, hereges de Calvino, João Huss e Lutero e adivinhadores do futuro”.

Muitos deles são passíveis, como ele, de comparecer ao Tribunal da Inquisição por verdadeiros ou por falsos crimes. Mas o Visitador chegara brando. No morro da Gávea, onde instalou a sessão final da Mesa do Santo Ofício com a pompa devida – e grande mesa, candelabro, toalha de veludo, cadeiras de braço e altos espaldares, jarros e bacias – absolveu a todos com um grande sinal da cruz.

No dia claro, na “grande pedra plana como um piso de sala, sobranceira à cidade e à baía refulgente de azuis belíssimos”, prevalecendo o perdão, para seu projeto louco voou Petrus Cornelius e levou o índio guarani.

  


O Estado do Paraná, Curitiba, 5. jul. 1998, p. 12

Moisés Israel e Rainha Hécuba: quem são eles?

Isabel Cristina Farias de Lima


Tornar-se um geneticista [especialista em Crítica Geneticista] nos dias atuais é abrir caminhos no universo acadêmico, ou seja, é poder apreciar, duplamente, os escritos de um autor, pois temos o prazer de entrar em contato tanto com a obra publicada quanto com os manuscritos da mesma, o que nos proporciona um maior conhecimento do trabalho do escritor.

Vivenciamos um mundo de ideias e possibilidades que um escritor nos oferece a cada texto através de seus manuscritos; por isso, abranger este estudo é poder também transitar nos marcos deixados pelo escritor durante o processo de criação. É poder contribuir para avanços de novos caminhos de interpretações literárias no universo acadêmico.

Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor contemporâneo que várias vezes nos homenageou com obras de cunho nacional, nos proporciona com Breviário das Terras do Brasil: uma aventura nos tempos da Inquisição uma outra oportunidade: a de ingressarmos e investigarmos o processo de criação da mesma.

Gostaríamos de ressaltar que esta é a primeira obra do autor a passar por um processo de investigação de Crítica Genética. Nossa pesquisa está centrada no dossiê referente à obra do autor e estabelecemos como prototexto o próprio dossiê entregue pelo autor, que vem a ser o caderno de anotações, os originais datilografados e o folhetim publicado no Diário do Sul em meados de 1988, último objeto antes da publicação final em livro.

A narrativa traz uma história sobre a Inquisição portuguesa em terras brasileiras. É a história de um índio guarani, vítima da Inquisição, mostrando uma grande alegoria sobre a formação de um País que bravamente mantém-se vivo.

Para tanto, o autor constroipersonagens típicas para discutir nossas raízes nacionais e também a colonização portuguesa no Brasil: o Brasil que tanto nos comove e assusta ao mesmo tempo, pois, como ele mesmo afirma:
"O que pretendo não é mostrar a outra face da Inquisição, mas trazer alguma luz em relação a esse assunto. Na verdade, ela foi um instrumento de dominação política antes de mais nada. No período absolutista, ela estava a serviço do poder civil, do poder real. Mecanismo que reforçou-se com a descoberta do ouro.
O texto apresenta também várias personagens para referendar o universo diegético da obra: Francisco Abiaru, Rainha Hécuba, Moisés Israel ou Vasco Antônio, Mariana Grabriela, Mestre Domingos, O Visitador e o Holandês Voador ou Petrus Carnelius.

Entretanto, para ilustrar nosso trabalho, trazemos aqui apenas duas personagens: Rainha Hécuba e Moisés Israel ou Vasco Antônio, personagens prisioneiros, juntamente com Francisco Abiaru. Periféricas se formos analisá-las num todo dentro do campo diegético, mas pontuais no que se refere a construção da narrativa para mostrar a construção da nossa Nação.

Percorrendo o material de pesquisa, verificamos que Rainha Hécuba, personagem misteriosa, que aparece no silêncio da noite para alertar o aborígene Abiaru das mazelas que estão por vir e de como o Brasil está se estruturando, é uma alegoria do processo místico que abarcou o nosso povo e, de certa forma, ela representa o próprio Brasil. O país, tendo sua base étnica formada pelos índios, portugueses e negros, adotou, principalmente deste último, a pré-disposição para as crenças e adivinhações.

O processo alegórico, segundo Walter Benjamin, mostra ao observador a outra face da história: a face hipócrita. A alegoria pode ser a busca do outro lado da realidade ou uma maneira de ver a realidade por antecipação. É é isso que vemos nas anotações do autor: o cuidado em criar uma personagem que percebesse os fatos sem estar baseado em dados científicos. Pois como ele mesmo diz:

- Fazer com que cada prisioneiro da Inquisição represente um tipo, todos rebeldes: a) o lusitano xenófobo, que odeia tudo quanto é espanhol e pega uma cruzada contra a espanidade; b) aquele que é totalmente descrente da lusitanidade, e augura um péssimo futuro ao Brasil.

Rainha Hécuba aparece acompanhada de uma garrafa, na qual todos respeitam por saber que é ali que fica guardado Alimã, seu enviado do Demônio que prediz o futuro das terras brasileiras.

Ao construir uma personagem voltada para adivinhações e crenças, o escritor quis "personificar" a terra: Brasil, pois quando ela perde sua garrafa fica sem rumo:
(...)"- Não sou mais Rainha" - ela diz, os olhos cravados nele - perdi meu consolador e o meu guia. (...) "esse infeliz pensa que posso ser ainda mãe. Meu leite secou. Me tiraram todo e nada mais me resta. De agora em diante pode me chamar de Brasil".
É curioso a investigação desta personagem, por que Assis Brasil parece ter muito bem definida a construção desta metáfora, pois no caderno de anotações ela é apenas pontuada, assinalada, ao passo que no caderno datilografado ela é desenvolvida de forma bem definida, sem receios da parte do escritor, ou seja, ele gasta algumas laudas para expor o pensamento de Rainha Hécuba e se Alimã.

O autor, para melhor evidenciar esta alegoria/personagem muda alguns parágrafos de lugar e substitui, muitas vezes, frases inteiras. As mudanças de verbo parece ser uma constante no processo de criação do escritor; o que dá para nós uma maior clareza da construção deste actante, pois no diálogo do Visitador com o Filipe mostra bem a preocupação de todos quanto ao conteúdo da garrafa e o que ela e o seu possuidor representam naquele momento. Em outros momentos o autor deixa apenas como ideia, sem necessariamente desenvolver posteriormente.

Moisés Israel (Vasco Antônio), personagem religiosa, já tem outra função dentro da narrativa. O escritor cria esta personagem para exercer a função de um organizador dos fatos e sintetizador da tensão crescente que apresenta os escritos, uma vez que relata ao índio seu destino (e dele mesmo, Vasco Antônio) que em nada difere do que a Rainha Hécuba havia "adivinhado".

Moisés Israel traz dentro de si uma imensa melancolia, evidenciada cada vez mais por sua lucidez diante dos fatos e por suas longas introspecções, prevendo os destinos catastróficos da cada prisioneiro, pois nada mais havia para fazer do que esperar e pensar até que tudo chegasse a um fim. Tal como Rainha Hécuba, Moisés Israel também, em alguns momentos, é apenas pontuado no caderno de anotações para no caderno datilografado ser desenvolvido e "caracterizado" em suas mazelas e preocupações infinitas diante da nova terra.

Primeiramente o autor pensa em criar uma personagem forte , decidia e ciente de seu lugar na sociedade. Para isso no caderno de anotações ele "rascunha" um padre de fala alta e grossa, sem temer qualquer autoridade. Porém, mais adiante ele muda essa característica, pois resolve dar outro rumo ao personagem. De um actante resoluto, decidido e, muitas vezes, tendo uma atitude debochada em relação ao Santo Ofício, surge um padre assustado, com todos os medos que um ser humano pode ter, sem forças e clareza para esperar o julgamento. Tornou-se tão pesada esta situação que para ele foi como se estivesse indo para o julgamento do Juízo Final, pois não aguentou tamanha pressão e se suicidou enforcando-se dentro de sua cela na prisão.

Quem são eles na verdade? Por que o escritor os pontuou em anotações enxutas para mais adiante serem desenvolvidos com toda a força? Eles são personagens que ajudam a elucidar a formação da Nação que o escritor queria evidenciar. Essa Nação que foi criada com interesses, com o velho "jeitinho" brasileiro para resolver problemas de interesse próprio. A partir daí, ele pede licença para o leitor reconstruir a história de forma mais comprometida, refletindo, via literatura, sobre os erros do passado, e a ver em que medida eles permanecem presentes entre nós, com que razões, por que motivos.

Comunicação foi apresentada na Xº Semana de Letras da UFRGS, nos
dias 02 - 05 de dezembro de 2003, no Campus do Vale - Instituto de Letras da
UFRGS.

Celebração da mestiçagem

Luís Bueno


Se, com aquela vontade de dizer tudo, mas sabendo que se vai dizer quase nada, fosse possível escolher uma expressão que definisse a melhor qualidade de romancista de Luiz Antonio de Assis Brasil, essa expressão seria, certamente, “um contador de histórias”. Dizendo de outra forma, ele é um autor que, escrevendo a partir da História, interessa-se mesmo pela história.

Seus dois novos livros são boa demonstração disso. Concerto campestre narra a história de um estancieiro já velho que resolve montar e manter uma orquestra particular. Para isso, além de alguns músicos, contrata um maestro com fama de libertino, que, mais tarde, acabará se envolvendo com sua filha. Esse caso de amor será o verdadeiro centro de desenvolvimento do livro. Mas a forma pela qual o leitor vai descobrir isso indica a habilidade do contador de histórias Assis Brasil. Aparentemente fixando o foco de atenção na estranha mania musical do fazendeiro, o narrador deixa para as últimas linhas de cada um dos três primeiros capítulos revelações bombásticas que, literalmente, desnorteiam o leitor. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que funde as histórias do pai e da filha, cria uma forma de suspense que nos joga irresistivelmente para a frente na leitura do livro.

O mundo em que o romance opera é o da vida íntima das famílias ricas do interior do Brasil no século 19; nesse ambiente, aparece uma heroína peculiar, Clara Vitória. Um pouco presa de sua própria ignorância, há nela uma coragem que resiste pela passividade, pela aceitação do caráter naturalmente transgressor do destino que lhe coube. Sem discursos ou heroísmos de almanaque, sua alma simples, mas nada banal, é desenhada com a perícia de um autor que, em obras anteriores, já havia se mostrado bom construtor de personagens femininas.

Em “Breviário das Terras do Brasil” estamos mais próximos da “grande História”, colocados diante do poder o Santo Ofício em inícios do século 18. Francisco Abiaru, um índio guarani criado nas Missões, é salvo por um navio português das águas do rio da Prata, agarrado a uma imagem de Jesus Cristo esculpida por ele mesmo. Os traços indígenas desse cristo levam um padre que está a bordo a suspeitar de heresia e conduzir o índio ao Rio de Janeiro, para os cárceres da Inquisição. Aí somos apresentados a uma série de acusados de crimes contra a igreja, como um padre jesuíta que permanece ligado a suas origens judaicas ou um holandês que inventou uma máquina de voar e sonha restabelecer o poder de Maurício de Nassau em Pernambuco.

O julgamento, no entanto, caminha de forma a dissolver a “grande História” da inquisição portuguesa na vida pessoal de um inquisidor cheio de culpas pelo papel que voluntariamente cumpriu, quando jovem, no processo do padre Vieira. e o que era para ser uma demonstração arbitrária de poder da metrópole acaba se convertendo numa celebração do que há de mais radicalmente próprio à colônia: o elemento marginal (o índio, o negro, o não-europeu) e a mestiçagem.

Essa celebração também está presente, embora mais sutilmente, em Concerto campestre. Afinal, o maestro, “um mulato-claro corpulento demais para a função”, é que vai provocar uma crise e sua superação num lugar morto do interior do rio Grande do Sul, trazendo-lhe vida. A figura- síntese do mulato é o elemento novo, capaz de iniciar uma nova tradição.

Em “Breviário das Terras do Brasil” ainda é possível apontar um ou outro detalhe que fica negligenciado em nome da fluência do texto, como acontece quando Francisco Abiaru, no meio de um diálogo, troca abruptamente o espanhol pelo português, aplainando um ponto que se revelará importante no livro – a relação do homem com o idioma e seu eventual esquecimento. Mas Concerto campestre, aparentemente menos ambiciosos, é exemplar da boa literatura que Assis Brasil vem fazendo, uma literatura que consegue ir muito além de um regionalismo mais estreito sem deixa de se voltar para uma região específica do país.
Folha de São Paulo, mais! 03.mai.1998.
Personagens sem voz povoam romance-folhetim
Volnyr Santos
Assis Brasil expõe traços da marginalizada cultura indígena e da Inquisição no país do século 17.

Não resta a menor dúvida de que há muitas e discutíveis razões para a visão preconceituosa que os primeiros colonizadores tiveram das terras americanas, até mesmo das brasileiras. Os portugueses aqui chegados não tinham interesse na preservação da cultura indígena existente. A própria palavra índio, por exemplo, hoje estereotipada na concepção de homens inferiores, nasceu da ilusão geográfica de Colombo e de seus marinheiros.

A contribuição que a literatura vem dar a essa discussão, sem que isso signifique um trabalho de pesquisa etnológica, vem da publicação de Breviário das Terras do Brasil, de Luiz Antonio de Assis Brasil (Porto Alegre; L&PM, 1997), texto anteriormente publicado sob a forma de folhetim no jornal Diário do Sul, entre julho e setembro de 1988.

A narrativa preparada pelo escritor gaúcho utiliza técnicas de um tipo de texto reconhecido como romance-folhetim, o que de nenhum modo diminui sua importância enquanto contribuição criativa. É claro que não são omitidos do texto alguns aspectos canônicos o gênero: à intriga, num ritmo tenso, vão sendo acrescentados incidentes que se desdobram em outras situações similares contínuas, objetivando o desenlace quase sempre compensador.

No caso de Breviário das terras do Brasil, o caráter ortodoxo o romance-folhetim é extremamente sugestivo. É com esse recurso que Assis Brasil trata de uma temática curiosa, a presença da Inquisição no Brasil no século 17, sem perder a validade relativa dos valores a serem interpretados.

O formato da narrativa permite quebrar a rigidez e a complexidade do tema e, ao mesmo tempo, iluminar aqueles ângulos que normalmente escapam a um exame meticuloso e frio da realidade. Aos olhos da literatura, os mitos, as tradições em sua configuração viva se manifestam simbolicamente, dando ao escritor as condições de ficar muito além dos fatos, sem que isso represente uma deturpação.


NO ÚLTIMO CAPÍTULO SÃO JULGADOS OS QUE VIOLARAM PRECEITOS CATÓLICOS
A Sociedade brasileira escravocrata do século 17 tinha sua dinâmica equilibrada pelo relacionamento entre colonos produtores de açúcar e reinóis. É nessa época que se da a invasão holandesa e é também o momento histórico em que Portugal radicaliza o pacto colonial e, por consequência, se acentuam as insatisfações e as primeiras rebeliões. No fim do século, a descoberta do ouro, o surgimento da chamada região das minas. Acima disso tudo, a Igreja. E, acima da Igreja, a Inquisição.

O Brasil, não tendo um tribunal de inquisição autônomo, dependia do Santo Ofício português. A visitação era o modo como a Inquisição funcionava por aqui: um padre visitador, um notário e um meirinho julgavam crimes como judaísmo, , bigamia, homossexualismo e heresia. É nesse espaço social, histórico e religioso que se situa o livro de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Como não há verdade que exclua a emoção estética, o romance estiliza, não sem uma dose de ironia, o mundo colonial desordenado e dividido do seiscentismo brasileiro, associando a trajetória de um índio guarani, Francisco Abiaru, naufragado no Rio da prata, á chegada de um visitador inquisitorial no rio de Janeiro. De Navio, o índio, juntamente com o padre-mestre jesuíta, dirigia-se para Buenos Aires, para comercializar esculturas produzidas nas missões.

Olhos amendoados - Salvo por um navio português, Francisco Abiaru vai ser levado preso para o Rio à disposição da inquisição. Seu crime: haver esculpido um Cristo com olhos amendoados, obra considerada herética, escultura que, ironicamente, permite a sua salvação, já que, naufrago, se manteve abraçado a ela, à espera de socorro.

A captação de sugestões que o Breviário das Terras do brasil assinala é variada. Partindo da circunstância histórica, o papel que a Igreja exerceu no processo inquisitório é filtrado com ironia complacente num ceticismo que fica num meio-termo entre o humor e o trágico. Deslocando o problema, no entanto, se seus fundamentos históricos, o que ocorre é a metamorfose do episódio em seu nível transfigurador e metafórico.

O texto passa a ser lido, então, como uma forma de restauração da cultura, seja no seu estado espontâneo, seja como reconhecimento de sua sobrevivência, circunstância que o escritor, sensível à denúncia e ao apelo, refaz no seu sentido original. É notável, por isso, o modo como Assis Brasil, ao reconstruir o universo poético popular, mostra-o aparentemente rude, mas de uma expressividade comovente.

Dizia André Gide que, em arte, a descendência dos grandes homens é sempre duvidosa e não é jamais a obra-prima que o discípulo imitará ou n qual buscará inspiração, mas contrariamente, é o defeito. Para o escritor francês, é o imperfeito que o discípulo retoma, porque é isso apenas que ele pode ter a veleidade de levar adiante.

É provável que Gide tivesse razão. Pensando, no entanto, em Francisco Abiaru, o índio guarani que esculpe o cristo de olhos puxados, a metáfora vai mais além, porque, se é possível aceitar a hipótese de que o cristo que a Igreja invoca para justificar a própria ação inquisitorial é ausente de defeitos, é, da mesma forma, plausível a ideia de que essa perfeição é incompatível com o uso que se faz dela. (O processo inquisitório não dava ao réu oportunidades de defesa.) Diante disso, o Cristo-índio representa, assim como o seu criador, o caráter emancipatório das populações ameríndias, porque a sua originalidade recompõe uma cultura em seu estado mais puro.

FORMATO DA NARRATIVA PERMITE QUEBRAR A RIGIDEZ E A COMPLEXIDADE DO TEMA

Extravasando os elementos factuais, há outros valores éticos e outros objetivos estéticos que podem ser alcançados no sacrifício a que Assis Brasil submete o índio Francisco Abiaru e toda uma plêiade de personagens que, historicamente sem voz, são invocados poeticamente. A dialética que o escritor propõe é a possibilidade de mostrar o conflito da criatura com a realidade que a circunda, mesmo que isso esteja marcado por uma circunstância fantástica.

No episódio que encerra Breviário das Terras do Brasil, há o julgamento dos que transgrediram os preceitos católicos. Entre eles, além do índio Francisco, está o holandês voador, um sonhador malucado que atende pelo nome de Petrus Cornelius e constroiuma máquina voadora para alcançar um lugar chamado Mauritzstaad. É nessa passagem da história que os destinos dos dois se unem.

Auxiliado pelo índio, Petrus Cornelius consegue sua inusitada máquina voe: em seu bojo, sugestivamente, um índio guarani e um europeu visionário, imagem com a qual Assis Brasil propõe, ao assumir-se como um ilusionista, um fim enigmático para o romance que, independentemente da solução encontrada pelo leitor, se revela compensador.

A redenção dos pecadores, assim como o ajustamento do mundo, tanto pode representar a paródia de uma certa realidade social a que recorremos para podermos dela nos desvincular, quanto a atitude racional que se utiliza da fantasia como agente de uma ambiguidade em que o mundo se diz aparentemente como linguagem.
O Estado de São Paulo, São Paulo, 26.10.1997. Especial Domingo, p. 6


A Justiça e a literatura
Luís Augusto Fischer
Breviário
Falamos ainda esses dias no Luiz Antonio de Assis Brasil e me lembrei de recomendar, agora, uma leitura para acompanhar o El Nino (legal usar este artigo duplo, o “o” e o “El”, que nem a gente dizia os The Doors), que nos deixa enfurnados em casa, pedindo aos céus alguma clemência. Trata-se da novela Breviário das Terras do Brasil, que traz por subtítulo “uma aventura nos tempos da Inquisição” (editora L&PM).

Para quem não lembra, é aquela novela que o Luiz Antonio fez publicar no falecido Diário do Sul, de saudosa memória, em formato de folhetim, um capítulo ao dia, em 1988. Eu tinha lido então, mas agora reli. A visão de conjunto é outra coisa. Temos aí a conhecida qualidade do autor em manejar a narração longa, em linguagem e em estrutura. Aliás, em linguagem o breviário apresenta, sobretudo nos primeios capítulos, uma certa ousadia maior do que a média do trabalho de Assis Brasil. Uma linguagem que tem algo de vivacidade e da renovação sintática que José Saramago trouxe para a língua portuguesa de nossos dias. (depois, a linguagem se acomoda no leito já conhecido.)

Conta a história de Francisco Abiaru, um índio escultor das Missões jesuíticas hoje em território gaúcho, que estava indo de barco, com mais gente, até Buenos Aires, para vender a produção artística de seus pares. Mas o barco afunda e Abiaru sobrevive, só, agarrado a um cristo de madeira, esculpido por ele. É resgatado por um barco português, que está indo o sul para o Rio de Janeiro. Claro, alguma confusão deveria acontecer para que o subtítulo fosse o que é: um padre resolve encrencar com a escultura e com Abiaru, achando que o índio tomou liberdades demais ao fazer sobretudo o rosto do salvador dos cristãos. Que o cristo estava, enfim, conspurcado por traços indígenas.

Segue-se que ele vai preso, sofre processo da Inquisição, aquela demência toda que hoje conhecemos bastante bem. E Abiaru segue firme em suas convicções católicas temperadas de jesuitismo (numa época, é bom lembrar, que perseguiu aos próprios jesuítas, na segunda metade do século XVIII). E conhece um jesuíta judeu (sim, uma bela criação), o Holandês Voador, preso como o índio, uma negra feiticeira chamada Rainha Hécuba, além de figuras interessantes ficcionalmente, como o Mestre Domingos, escultor medíocre que se dana do talento de Abiaru, sendo uma espécie de Salieri tropical e colonial. Mais uma vez, ao longo da leitura vai ficando clara, escarrada, a vocação da narrativa de Assis Brasil para o cinema, e para o cinema de espetáculo especificamente.

O livro é bom de ler, agradável, correto. O final, talvez pela circunstância de ter sido escrito para jornal, apela para uma fantasia que não me soou bom, mas não fez feio, no contexto. Se fosse possível um comentário ideológico da novela, diria que Assis Brasil faz, aqui, a apologia do trabalho missionário dos jesuítas e a acusação da rastaquerice (se existe a palavra) da Igreja portuguesa em geral. Absolve totalmente a Companhia de Jesus (Assis Brasil estudou no Anchieta e conhece a fundo a história brasileira) e mete o pau na mentalidade do estado português e da Igreja correspondente. E Abiaru surge como uma espécie de bom selvagem redivivo, um índio bom, educado, defensor de preceitos relativamente liberais dos jesuítas (ou, pelo menos, dos jesuítas segundo a opinião do autor, opinião de que partilho, aliás).

ABC, São Leopoldo, 15.mar.1998, p. 8


O PINTOR DE RETRATOS


O romance da fotografia
Carlos Reis

Portugal
1. Num certo comento d’ O pintor de retratos, de Luiz António de Assis Brasil, o protagonista Sandro Lanari recebe um envelope, contendo o seu retrato tirado uma semana antes. Olhando para aquela que deveria parecer-lhe a sua imagem, Sandro Lanari conclui: “Não se parecia a nenhum retrato seu. Era alguém ignorado, um Outro, que o fixava com um olhar obtuso, aturdido por uma obstinação equívoca e desagradável” (p. 34). O retrato, convém notar, fora tirado em Paris, pelo fotógrafo Nadar, esse mesmo que fixara também Sarah Bernhardt, Baudelaire e muitos outros. Ainda assim, como que rejeitando a participação na “galeria de tipos humanos” que Nadar lhe anuncia, Sandro Lanari queima o retrato e lança-o ao Sena; logo depois encerra-se o capítulo: “Naquele momento da História, iniciava-se o ódio metafísico de Sandro Lanari a todos os fotógrafos-retratistas: e todos tinham um nome: Nadar” (p. 35).


2. Não se percebe bem (mas provavelmente é essa ambiguidade que importa respeitar) se aquela História maiusculada é apenas a que o romance relata ou se é também em termos muito mais alargados e porventura desmididos para o protagonista Sandro, aquela que aos historiadores interessa. E contudo, se atentarmos no que está em causa, reconheceremos na história contada um episódio fundamental di que foi uma decisiva mutação de procedimentos artísticos, na Segunda metade do século XIX, mutação determinada para consagração da fotografia como técnica e também como arte de representação de pessoas e coisas.
O romance O pintor de retratos (edição L&PM, de Porto Alegre) conta a história de um jovem italiano, filho de retratista, que sai de Ancona, sua cidade Natal, para aperfeiçoar, em Paris, “o destino familiar dos retratos”. Herdeiro de um legado de seis gerações de artistas, Sandro Lanari empreende uma viagem de busca e de refinamento artístico, que se alarga não só por Paris, mas também pelo longínquo Brasil, no ainda mais longínquo Rio Grande do Sul: é aí que agitadas aventuras e desventuras impõem ao retratista uma mudança de rumo em sua vida, na sua profissões e, mais do que isso, na suas crenças arísticas. E assim, por fim, Sandro Lanari acaba por se fazer fotógrafo. Fotógrafo de retratos, bem entendido.
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