Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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3. A história d’ O pintor de retratos transcende, deste modo, os acidentes e incidentes de percurso do jovem pintor, depois feito fotógrafo. A história d’ O pintor de retratos constitui verdadeiramente um sugestivo motivo de reflexão, em registo de deambulação, pela história da pintura e pela específica questão da representação, num momento crucial: esse momento é aquele em que emerge e se afirma a fotografia, como técnica de fixação da imagem, pondo em causa a nitidez e a precisão da pintura. Mais: esse momento é aquele em que a fotografia, não se limitando a ser uma técnica de representação, quer conquistar uma condição artística autónoma, levando a pintura a procedimentos de deriva artística como os que o impressionismo cultivou.

Aquilo que Sandro Lanari assiste em Paris, sem disso se aperceber nitidamente (até por estar demasiado próximo do que está a acontecer) é a dupla tensão entre tendências distintas: por um lado, a tensão entre

A pintura realista de uma realidade impressiva só por si (ou quase) e a pintura das impressões dessa realidade, subjectivamente filtrada por enquadramentos e por luminosidades singulares; por outro lado, a tensão entre a pintura em geral (sobretudo a que já suprerara os propósitos do realismo) e a fotografia de que Nadar é o exproente máximo. Por isso, lê-se em certo momento do romance “Em Paris não era famoso nem Monet, nem Manet, nem Pissarro, nem Degas, nem outros que viriam a habitar os museus do globo. Famoso era Nadar” (p. 20).

É a partir daí que Sandro Lanari desenvolve um trajecto d efuga, iniciado ainda em Itália. Sem as cautelas que a juventude não lhe consente, Sandro enfrenta a fúria de um coronel enciumado e foge. “Uma sina”, observa o narrador, “homem feito, e em outras paragens, fugiria de um revólver norte-americano” (p.16).

4. É nessas “outras paragens” que o percurso pessoal e a sina de Sandro Lanari tomam rumos estreitamente cruzados com a vida social e política do Rio Grande do Sul.

Antes de avançar, notarei que Luiz Antonio de Assis Brasil contempla nesse romance temas e acontecimentos que confirmam algumas das dominantes de sua já extensa obra ficcional. Autor de mais de uma dezena de romances, publicados a partir de 1976, Assis Brasil é hoje um dos escritores mais importantes do Rio Grande do Sul, contribuindo para a reputação de singular diferença de que gozam as letras gaúchas, no concerto da literatura brasileira. É preciso dizer que, neste contexto, o Rio grande do Sul distingue-se precisamente por oferecer uma produção literária indissociável dos valores e da memória histórica de um Estado que não só é o mais meridional do Brasil  com todas as implicações inerentes a um certo imaginário de periferia e de fronteira  como é sobretudo um daqueles (juntamente com a Bahia e com Minas Gerais, por exemplo) em que são mais fortes os traços identitários: no folclore, na indumentária, na gastronomia, nos modos de vida e também na literatura. Em vários romances de Assis Brasil, estão preservados, sem concessões regionalistas, esses traços identitários, de modo particularmente expressivo quando a oscilação entre crónica, ficção e história impõe gestos de afirmação nacionalista que, em certos momentos da história do Brasil, chegaram a tomar a forma de processos separatistas ou, pelo menos, de rebelião anti-centralista.

5. O facto que acaba por mudar a vida de Sandro Lanari, já em Porto Alegre, é a morte de um dos seus retratados, exactamente durante a sessão de pintura: gozando da liberdade de configurar uma imagem que recompõe o modelo (“não sou Nadar, afinal”), reflecte o retratista; p. 76), Lanari assiste à morte do provedor que está a ser retratado, mas não pode fixar essa morte, porque o tempo da pintura não é o tempo do instantâneo. Por isso, o retrato é completado depois da morte do provedor; por isso, ele alimenta a ilusão de uma arte que transcende a inapelável violência da morte.

Depois disso, escasseiam as encomendas, porque a superstição é forte: a pintura de retratos arrasta a ideia da morte, mais ainda quando Sandro é chamado a pintar um morto que odiava a fotografia. E esse é verdade que pelo artifício da pintura o morto parece reviver, também é verdade que ela traz consigo o remorso da mentira artística. “A fotografia”, diz o narrador, provavelmente traduzindo o pensar do pintor, “apenas podia captar a hora fugaz antes da putrefacção. Mas de certo modo aquele retrato pintado seria uma fraude” (p. 107).

Curiosamente, Sandro Lanari parece só possuir definitivamente Violeta, a mulher que muito perseguira, quando, um dia, rendido já à fotografia, consegue retratá-la. Com um olhar que permanecerá além da morte, Violeta traz até Sandro o “olhar constrangedor” que vem do passado turbulento em que ambos se haviam conhecido, anetes ainda de a fotografia desbancar a pintura.

Confrontada com a morte, a fotografia triunfa perante a pintura, não porque seja capaz de reproduzir “o interior de pessoa”, mas por reter nela o instante único e irrepetível em que a vida e morte confinam. O episódio em que tal se representa vale emblematicamente por todo o romance e sintetiza muito da reflexão meta-estética que nesta narrativa de Assis Brasil se encontra. É na sequência de uma batalha, momento relevante da rebelião gaúcha em que Sandro Lanari acaba por se integrar: Adão Latorre degola um prisioneiro e o fotógrafo fixa, com sua objectiva, o acto bárbaro. E então, “a última imagem, aquele aque o desgraçado levaria para a eternidade dos séculos, foi a de Sandro Lanari, o braço erguido, na atitude de quem deseja impedir algo” p. 135). Foi essa fotografia  significativamente intitulada Foto do Destino  que por muito tempo acompanhou o fotógrafo e permitiu que ele superasse o fantasma de Nadar, fotógrafo de retratos, mas não do instantâneo da vida prestes a extinguir-se. Fora Nadar quem que um dia surpreendera o jovem pintor com uma imagem de Sarah Bernhardt: nela a mítica actriz observava, do interior da fotografia, o pintor assim desafiado. O final do desafio é o triunfo de uma estética em que o retrato (mesmo o retrato fotografado) cede lugar a expressiva tensão entre a vida e a morte, representada num momento único. O triunfo da fotografia feita arte é, à sua maneira, o triunfo da vida sobre a morte.

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