Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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[Foi respeitada a ortografia corrente em Portugal]




Jornal de Letras, Lisboa, 12.dez.2001, p. 9

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* Carlos Reis é Doutor em Letras, Professor Catedrático em Coimbra, ensaísta, ex-Presidente da Associação Internacional de Lusitanistas e ex-Diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa.

O pintor de retratos

Leó Gilson Ribeiro


A editora gaúcha L&PM sempre prepara para o público ledor brasileiro surpresas: ou será que só me mandam seus melhores livros? Confesso que, com a avalanche de livros — raros ótimos, a maioria papel inútil — que tenho de desvendar semana após semana, nunca tive a alegria de ler algum dos vários livros de Luiz Antonio de Assis Brasil, cujo total ultrapassa dez. Agora sou imediatamente arrebatado por esse recém-publicado O pintor de retratos, que assombra não só pelo domínio do estilo, como pela perfeição de unir uma história ficcional com o deslumbramento da Belle Époque parisiense, com o fotógrafo Nadar — famoso por captar a alma de seus fotografados e sua deslumbrante retratada, a grande atriz Sarah Bernhardt. O pintor de retratos pode enganar quem der uma olhada superficial ao romance. Na realidade, essa inextricável mistura de reali-dade e imaginação, ao mesmo tempo que distrai, no sentido folhetinesco do termo, revela aspectos profundos, raramente devassá-veis, das tendências, temperamentos e ações desvairadas humanas.
  Numa das mais apavorantes visões do Sol que se desfaz como um pudim, e da impossibilidade de fuga por parte da huma-nidade, o último número da revista Time entrevista seriamente os mais eminentes astro-físicos do momento. Chega-se quase que unanimemente à previ-são de que o universo inteiro levará 10.000 trilhões (repetidos oito vezes) de anos. Sem final "feliz", teremos vivido menos — nós, seres humanos — do que os dinossauros... Nem o derradeiro dos santuários buscado para a sobrevivência salvará nossos descendentes ou quaisquer outras formas de seres vivos no universo de seu desmoronamento inescapável.
     Segunda imagem: terremotos, tornados, vulcões não são mais a punição de deuses ou de um Deus inexistente para os pecados do homem. Hoje é a natureza que "se vinga" sempre que os humanos ultrapassam seus estritos limites de livre movimentação. A destruição pelas guerras, os campos de concentração dos nazistas alemães erradicam mais de incontáveis milhões de judeus, homossexuais, ciganos, inocentes e ativos combatentes da besta apocalíptica hitlerista que soergue agora, de novo, ameaçadora, suas muitas e letais cabeças, em uniões ultranacionais dos filhos do ódio. O homem, crê este autor de um livro-terremoto, Otto Friedrich, mata e trucida mais do que todos os fenômenos da natureza juntos.
Caros Amigos, São Paulo, set. 2001.


Um artista e seus limites

Regina Zilberman*


Foi o olhar estrangeiro que produziu as primeiras interpretações que tinham o Brasil como tema. Os habitantes originais da América podem ter elaborado narrações que explicavam a terra onde viviam, mas suas criações foram registradas somente após a desembarque dos europeus no Novo Mundo, o que suscitou diferentes reações, desde o entusiasmo com que Cristóvão Colombo celebrou o encontro dos indígenas até os azedos alertas provenientes dos cronistas portugueses.

Não espanta, pois, que o tema transite de diários de bordo e crônicas de viagem para a ficção, como ocorre em O pintor de retratos. O novelista, em obras anteriores, como Um quarto de légua em quadro, As virtudes da casa e Videiras de cristal, já havia introduzido personagens originárias da cultura europeia. Nesse romance, contudo, o autor inclui nuances que particularizam o foco com que se aprecia a relação entre dois universos diferenciados.

O protagonista Sandro Lanari provém de uma família de retratistas italianos. Seus ancestrais contabilizam algumas glórias passadas, mas não passam de pintores medíocres, que adulam a elite local, formada por comerciantes enriquecidos e religiosos, para garantir o patronato. Com o objetivo de aperfeiçoar sua arte, o rapaz vai a Paris, onde se depara com a ascensão do impressionismo e da fotografia, processos complementares, pois o primeiro rejeita a pintura retratista, porque a segunda pode realizá-la de modo mais eficaz.

Contramão - Sandro Lanari percebe-se colocado na contramão da arte que pretende praticar, sumariada na ação do fotógrafo Nadar, no ápice de seu prestígio. Sandro deixa-se reproduzir por esse profissional, que flagra no moço a personalidade medíocre e retraída. Sem ocupação, o heroimigra para o Brasil, trazendo a Porto Alegre a esperança de encontrar um lugar para sua atividade. Surpreende-o, contudo, o fato de que, mesmo nessa cidade, a fotografia suplantar o retrato. Por essas e outras, como o envolvimento amoroso com fina jovem da sociedade local, foge para o interior.

É então que descobre seu verdadeiro ofício - o de fotógrafo. Aliciado à força por tropas do exército castilhista, durante a revolução federalista de 1893, Sandro Lanari registra as façanhas dos soldados até ser obrigado a documentar a degola de um prisioneiro. O resultado espanta o autor da imagem, que conserva a fotografia como comprovação de sua arte. Convencido de seu talento, Sandro Lanari consagra-se profissional requisitado para sempre, constituindo família, engordando e enriquecendo.



Tal como seus predecessores - cronistas, viajantes ou mesmo as personagens anteriores de Assis Brasil - Sandro Lanari é um estrangeiro que acredita na sua superioridade diante de um meio provinciano. Contudo, diferencia-se deles, porque, desde o começo da narrativa, sua posição está comprometida: ele pratica uma arte ultrapassada. Assim, a pose - atitude programada por ele, mas inviável - é substituída pela humilhação, que acompanha sua trajetória, sempre em fuga. O olhar estrangeiro não tem condições de avaliar corretamente o novo espaço que lhe é apresentado. .

Representação - Nem por isso o ambiente é menos provinciano, quando a ação se passa no meio urbano, nem menos bárbaro, quando se depara com a guerra no pampa. Lanari, de posse de sua arte, tenta captá-lo, mas sua personalidade fica aquém das virtualidades de representação, mantendo-se na periferia dos acontecimentos, preocupado com o efeito, não com o conteúdo.

É sob esses dois aspectos que o romance enriquece o tema de outros do autor. De um lado, expõe o confronto entre civilização e barbárie, que uma guerra civil exemplifica; de outro, explora e aprofunda a temática do olhar estrangeiro, de um indivíduo que transforma o que vê em imagem. Esta, porém, não dá conta da representação, como que informando que nem a arte tradicional, nem a tecnologicamente mais avançada são capazes de traduzir as contradições de que se alimenta o universo vivenciado por Sandro Lanari.

Assim, à discussão sobre a propensão do olhar de fora, de querer desvendar o mundo brasileiro, O pintor de retratos acrescenta uma segunda questão: a dos limites da arte. Encarrega-se a essa de representar o que está fora dela, mas ela nem sempre executa a tarefa com eficiência. A obra, centrada na biografia de um artista estrangeiro questiona suas próprias potencialidades, propondo-se como reflexão sobre sua natureza enquanto visão da alteridade. Redimensiona o tema a que se incorpora e desenhando seus limites.


Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11.ago.2001. Spl. Ideias, p. 4
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*Regina Zilberman é Doutora de Romanística pela Universidade de Heidelberg.



Pintor de Almas

Cândido Oliveira Martins

Portugal
O pintor de retratos, de Luiz Antonio Assis Brasil, é a cativante história de Sandro Lanari, emigrante italiano, pintor de retratos e depois fotógrafo. Protagonista de uma vida aventureira, a paixão pela arte da pintura leva-o da sua terra natal até Paris e depois ao sul do Brasil. O romance possui uma escrita contida, de uma elegância rara e de um humor refinado.

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