Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Antônio Hohlfeldt


Luiz Antonio é descendente de açorianos, e por isso não causa surpresa ele ter escolhido, para seu romance de estreia, um tema que esteja intimamente ligado a sua própria experiência. O artista, em geral, tende a expressar, no seu primeiro livro, ideias mais diretamente ligadas a si mesmo, e só à medida que evolui consegue distanciar-se de si. Talvez por isso mesmo, muitos críticos defendam o aspecto catártico da arte (isso é, aspecto em que o artista expressa sentimentos, conceitos e tendências ao nível da criação que, de outra maneira, seriam transformados em ações práticas, talvez até com repercussões perigosas para si mesmo ou para a sociedade. O termo “Catarse” originou-se dos textos de Aristóteles na “Poética” (Globo, 1973), que pode ser excelentemente consultada na edição da Editora Globo ou na série “Grandes Pensadores” da Editora Abril Cultural, que tem o mesmo texto).

Estreando em 1976, Luiz Antonio vem a publicar, dois anos depois, no início de 1978, através da mesma editora, a Movimento, seu segundo romance, A prole do corvo, agora enfocando aspectos que já lhe é mais distanciado, embora também ligado ao Rio Grande do Sul: a versão mais verdadeira da Revolução Farroupilha de 1835 a 1845, pacificada pelo Duque de Caxias. Entendeu-se, então, também, sobre tudo ao saber-se que o terceiro romance do autor, em preparo, tem sua ação desenrolada nos anos 30-40 até nossos dias, o porquê de ele ter-se fixado na estreia na colonização açoriana: é ali que ao menos oficialmente começa a história do estado, com a chegada de Silva Pais à barra do Rio Grande, hoje cidade, e fundação do presídio e forte com que Portugal iniciava a conquista desta província, até então terra-de-ninguém, embora amplamente povoada pelos indígenas de tribos as mais diversas, e cujo morticínio seria desenvolvido nos anos seguintes, criando um dos maiores heróis míticos do sul, Sepé Tiaraju.

Um quarto de légua em quadro, como se denomina a primeira obra, faz referência às dimensões das terras oficialmente prometidas pelo rei de Portugal aos casais de açorianos que se deslocaram desde o arquipélago de Açores até o sul do Brasil no século XVIII em busca de nova vida. Chegados aqui, porém, a partir da segunda leva, descobriram os colonizadores que as terras prometidas não se encontravam livres, mais sim ocupadas pelos índios guaranis até então aldeados pelos jesuítas am torno dos Sete Povos. A ação ficcional toma a forma de um diário que um Doutor Gaspar de Fróis escreve sempre que pode, e que abarca o período de dois de janeiro de 1752 até 20 de junho da 1753. A técnica de “fingir” que um editor encontrou os cadernos do diário e os publicou, etc., é antiga na literatura ocidental, tendo sido utilizado tanto na França como na Rússia ou Inglaterra, conforme se pode ver das análises que B.Tomachévski realiza, no artigo denominado “Temática”, e que se encontra no volume “Teoria da Literatura dos Formalistas Russos”, da Editora Globo, facilmente encontrável.

O autor vale-se de um drama individualizado e intimista, o romance entre o Doutor Gaspar e Dona Maria das Graças, mulher já casada, para fixar o pano de fundo da colonização açoriana em seus mínimos detalhes.

Trata-se de uma contribuição definitiva para a literatura brasileira e gaúcha, pois focaliza ficcionalmente importante momento de nossa história. Este texto, com os romances de um Josué Guimarães e Érico Veríssimo, e depois Gladstone Osório Mársico (enfocando a colonização judaica e italiana em suas duas únicas obras publicadas até o momento), forma um largo quadro de nosso primeiro tempo de vida, ligando-se intimamente a uma série de elementos que hoje conhecemos da realidade do estado, sem nem sempre poder ser explicada racionalmente.

Ao nível de linguagem, sem afetação e artificialidade, mas na medida justamente em que o escritor opta pela forma de um diário, pode ele recriar a linguagem portuguesa da época, ao mesmo tempo em que a aproxima da linguagem atual, não lusitana. O autor manipula um diálogo simples, e mesmo na descrição é objetivo e facilmente compreensível. Inicia Luiz Antonio de Assis Brasil, com esta obra, uma verdadeira revisão da participação lusa na formação do Rio Grande do Sul, tema tradicionalmente debatido, ao nível do ensaio, por Moysés Vellinho, de um lado (“Capitania del Rey” ou “Fronteira”, ambos da Editora Globo) ou, sob perspectiva contrária, por Manoelito de Ornellas (especialmente em “Gaúchos e Beduínos”, Editora José Olympio).


In: Antologia da Literatura Rio-Grandense.Porto Alegre: L&PM, 1978.

Série Contemporânea, vol. 1.



BACIA DAS ALMAS


Caudilho estéril

Rubens Borges

Um personagem devastador, uma narrativa cheia de casos, um autor que domina a arte de escrever: Bacia das almas, de Luiz Antonio de Assis Brasil, é livro que se lê de ponta a ponta com interesse, completando a trilogia iniciada com Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo.

Neste terceiro livro do autor gaúcho nascido em 1945, ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, professor de Filosofia do Direito e Direito Romano da PUC-RS-RS e diretor da Divisão de Cultura do Município de Porto Alegre, a matéria ficcional é a saga de um típico líder rio-grandense do início do século. O Coronel Trajano Henriques de Paiva é o fazendeiro poderoso que espalha medo e submissão, anulando filhos, correligionários, dependente, o que for. Somente o seu poder e a sua versão da história importam.

Eleições fraudadas, filha estuprada, assassínios, abuso econômico, tudo isso fez o caudilho, tranquilamente. Pela violência e corrupção tornou-se um poderoso; mas a morte significa o fim de sua estirpe. Regina Zilberman, a propósito de Bacia das almas, analisa a história sulina que subjaz no romance: “A geração positivista, que foi responsável pelo exercício da autoridade e do arbítrio do Estado desde sua fundação, com a instalação da Republica produz uma descendência simultaneamente incapaz e doentia. Pois a anormalidade e a incompetência constituem o traço que perpassa todos os herdeiros de Trajano, e não apenas o fraco Gonçalo. Por isso, a frigidez de Márcia, a impotência de Luiz, a pederastia de Sérgio são os sintomas de um processo similar: a degeneração que atinge a todos e costuma-se na sua esterilidade, tanto intelectual, quanto social e sexual”.

Composto de duas partes, “Descaminhos” e “Teatro Mágico”, o romance lida com as relações de poder no meio rural gaúcho, sem esquecer de que ironia e homor também complementam a visão deste. Danúsia Bárbara.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12.dez.1981. Cad. B, p. 5.

Destruição de mitos

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