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Aprendiz de pintor

Luiz Antonio de Assis Brasil(n. 1945, Porto Alegre) é autor de outros romances, particularmente centrados na problemática da identidade gaúcha. Tem sido premiado, bem recebido pela crítica e pelos leitores brasileiros.


É doutorado em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) do Rio Grande do Sul. Nessa instituição, coordena a Oficina de Criação Literária. É ainda especialista em Literatura Açoriana. Já antes a editora Ambar nos dera a conhecer outros escritores gaúchos: Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski. É pena que só agora conheçamos este escritor brasileiro, mas nunca é tarde para o prazer da descoberta.
Este livro está estruturado, com pertinência e linearidade cronológica, em quatro partes. Em capítulos bastante breves, o fio narrativo e cinematográfico segue o percurso aventureiro do seu protagonista.
Sandro Lanari é natural de Ancona, Itália, cidade portuária voltada para o Adriático. Os seus ascendentes (bisavô, avô e pai) foram pintores, mais particularmente retratistas. Não enriqueceram com essa arte, é certo, sobreviveram. E Sandro não podia fugir a essa fatalidade familiar.
O pai decide enviá-lo para Paris, a fim de aperfeiçoar a sua técnica de retratista. É aí que — no meio de lições de pintura com vários mestres e da revolucionária inovação dos impressionistas — acontece um facto que marcará para sempre a vida de Sandro Lanari: um dia, passeando por uma rua de Paris, vê numa vitrina a belíssima fotografia da jovem Sarah Bernhardt, beldade do teatro dessa época.
O seu autor é o admirado e genial fotógrafo francês Nadar (Félix Tournachon). Através da nova arte das fotos que faz de várias personalidades europeias (artistas, escritores, políticos, nobres, etc.), torna-se numa verdadeira celebridade, em finais do séc. XIX e primórdios do seguinte. É logo premiado na Exposição Universal de 1878, sendo procurado por muitas individualidades de vários países.


Inesperado fotógrafo


Gradualmente, em contraponto com a pintura, a fotografia torna-se o grande motivo catalizador da matéria diegética. Discute-se o seu estatuto, as suas técnicas, a sua novidade e até a sua eternidade.


Daí não ser exagero afirmar que a fotografia assume um estatuto de quase personagem da história narrada.
Sandro Lanari fica profundamente seduzido pela arte daquele trabalho, pelas virtualidades da nova arte: “Tais retratos, espalhados pelas vitrinas e galerias de arte, mais do que o rosto, mostravam a alma dos modelos”. Por isso procura Nadar, conversa com o artista e faz-se fotografar por ele, mas fica decepcionado. Afinal, também era esta qualidade que ele buscava na sua arte tradicional de retratista.
Os seus professores parisienses de pintura negam o estatuto artístico à nova técnica da fotografia, cada vez mais popular. Como poderia um processo químico, instantâneo, substituir a paciente arte da emoção captada pela pintura? Sandro Lanari continua, porém, a aperfeiçoar a sua arte de retratista.
Na sua estada pari-siense, permanece dividido entre o fascínio da nova arte e o “ódio metafísico” que sente à nova praga de fotógrafos-retratistas. Paulatinamente, eles vão-se espalhando pelo mundo. Mas a guerra estava irremediavelmente perdida: “Paris regurgitava de pintores de retratos, todos morrendo de fome. A moda era o retrato fotografado. A moda era Nadar e seus congéneres. Pois até Delacroix fez-se fotografar. Os retratos pintados perderam a razão de ser”.
Um dia, Sandro Lanari emigra para o Brasil, para a cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, tal como muitos dos seus conterrâneos. Levava a esperança de aí não ser confrontado com a concorrente arte da fotografia, nem com o nome de Nadar.
Puro engano: a cidade já contava com um pintor-retratista; e sobretudo “infestava-se de fotógrafos- -retratistas”, como Carducci, a maioria de origem italiana. Enfrentando inúmeras dificuldades, Sandro Lanari instala-se junto ao rio Guaíba como artista emigrado.
Porém, com os esporádicos trabalhos, a sobrevivência não é fácil. A explicação é enfatizada por Carducci: “Cada vez mais as pessoas querem fotografar-se. O retrato pintado tornou-se caro. E no século do telégrafo e da locomotiva as pes-soas têm pressa”.
O destino, porém, reservava-lhe várias surpresas: Sandro Lanari é forçado a transformar-se em fotógrafo, para sobreviver. Casa-se com a amada Violeta, tem filhas, enriquece.
E regressa à Europa, onde reencontra o fotógrafo Nadar, pedindo-lhe um (novo) retrato artístico: “A arte, meu caro senhor Lanari, é a única filosofia que pode explicar a natureza humana. (…) A arte não existe sem a humanidade do homem que a cria, e a humanidade de quem a vê”. Afinal, também Lanari se esforçava, através da fotografia, por captar “o carácter moral do modelo”.


Diário do Minho, Portugal, 10.mar. 2004. Suplemento Cultura, p. 27.

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Cândido Oliveira Martins é professor de Literatura na Universidade Católica de Braga (Portugal). Colabora regularmente com algumas publicações portuguesas na crítica de livros.
A arte e suas sombras
Volnyr Santos
Os gregos entendiam a arte da pintura de dois modos, querendo, com isso, caracterizar uma forma de percepção da realidade: um quadro podia expressar o desenho da vida, reproduzindo o movimento, as cores, ou realçar sobretudo as formas, o desenho das sombras, circunstância que evidenciaria a densidade do que seria pintado. Platão, na República, relaciona esse segundo modo com a magia que, segundo o filósofo, levaria ao engano, já que o artista daria substância a algo que não possuísse.

Talvez essa tenha sido essa a percepção de mundo que tornou singular a arte de Nadar, célebre fotógrafo francês, o qual, ao valer-se da iluminação artificial, deu à fotografia uma nova dimensão estética. Talvez tenha sido esse homem, ainda, a razão por que Sandro Lanari, um imigrante italiano, personagem do romance O pintor de retratos, de Luiz Antonio de Assis Brasil, ao viver a condição de artista, coloca-se sempre em situações tais, que sua arte desemboca no fracasso. Talvez tenham sido, finalmente, essas as motivações (o uso da temática artística como intertexto de seu novo livro) que ensejaram uma possibilidade de reflexão sobre as sempre tensas relações humanas face da criação. Valeu-se o escritor, para tanto, de uma linguagem que  sabemos  originando-se na cultura, nas imagens e nas relações intersubjetivas, a elas retorna. Só que, agora, imantada de novas significações, posto que submetida à experiência a ao fazer do romancista.

Sandro Lanari viaja da Itália para a França. Instala-se em Paris, a fim de aperfeiçoar o seu conhecimento de pintura, atividade artística herdade da família. Seu aprendizado é precário. Lá, no entanto, vai-se deparar, de forma irremediável, com a arte de Nadar, quando, casualmente, seus olhos, perplexos, se fixam numa fotografia: nada mais do que a atriz Sarah Bernhardt retratada de forma sublime. É o começo de uma busca impossível de ordenação do caos no qual ele vai viver.

Marcado pela sede de ser, faz da arte (a pintura de retratos) o centro de uma contradição insolúvel. Vindo para o Brasil, fixa-se em Porto Alegre, comO pintor de retratos. Conhece Violeta, por quem se apaixona. A moça é de uma semelhança perturbadora com a atriz Sarah Bernhardt. Rejeitado pelo pai da jovem, é obrigado a transferir-se para Rio Pardo. ComO pintor de retratos, transforma-se em artista ambulante. Pinta o retrato de fazendeiros e homens rudes, inclusive de defuntos. É envolvido pela Revolução de 93 e, lá, tem sua experiência fundamental: é (agora) obrigado a fotografar soldados executados pela degola. Uma foto é monstruosamente expressiva: o momento em que exato em que os olhos do condenado encontram-se com os seus numa impossível solidariedade. Sandro consegue, numa simbiose em que se mesclam o horror e o fascínio, a rara imagem que marca a inefável ruptura entre a vida e a morte: a Foto do Destino. Decide, então, que somente Nadar poderia admirar a sua terrível beleza, produto de um momento epifânico, de revelação irrestrita e, por isso, absolutamente inexplicável pela razão. Faz disso o seu objetivo de vida. Volta a Porto Alegre, casa-se com Violeta. Enriquece burguesmente.

Ao retornar à Europa, pela morte do pai, procura o mestre. Alcançando o momento desejado, fracassa mais uma vez, porque Nadar, ante a foto que o perplexo e frustrado artista lhe mostra, tem apenas uma dramática explosão de ira, sentindo-se ofendido pelas circunstâncias do momento. A intenção de protesto esboçada pela rapaz dilui-se na impotência: Sandro é um homem sem grandeza e, pior do que tudo, toma consciência de que entre o mundo sagrado da arte e a existência vazia dos homens não há matéria de compensação.

Com essa densa nota humana, Luiz Antonio de Assis Brasil propõe, talvez, o grande impasse que envolve o que hoje denominamos, simplificadamente, a questão da pós-modernidade. O que se observa, no gesto de extrema desolação do personagem central do romance, nada mais é do que a impossibilidade de oferecer, ante o homem que personifica o caráter absoluto da arte, uma impressão favorável e harmoniosa de si próprio e, ao mesmo tempo, de constatar a impossibilidade da criação. O contrário, de certa forma, corresponderia à ideia de fazer da arte uma impostura. É tão plausível essa forma de ver que, na sequência da narrativa, o personagem, a caminho da Itália, tentando desfazer-se do jugo que significava a lembrança de Nadar, joga pela janela do trem os pedaços de sua própria foto feita pelo mestre. Esses fragmentos vão posteriormente ser encontrados junto aos trilhos, merecendo, pro parte do narrador, sob a máscara de um imenso sarcasmo, a observação de que os pedaços daquilo que foi o retrato de um homem não podem ser reunidos por inteiro. E conclui: “...faltam muitos pedaços, muitos”.

Nessa hipotética revisão que se depreende da leitura de O pintor de retratos é possível considerar, em primeiro lugar, um traço de relação com o que se produz, hoje, artisticamente, assim como suas virtualidades criadoras; num segundo aspecto, essa mesma realidade, vista da perspectiva da sua integridade, se relaciona com o caráter de fragmentação que designa não só a arte, mas a própria circunstância que presentemente vivemos. Ou  quem sabe  por tudo aquilo que, rigorosamente, não vivemos. Afinal, mais do que ambígua, a pós-modernidade é duplicada e contraditória.

É possível que a consciência quase dramática da dispersão possa conter outras implicações nesse moderno mosaico de inclinações e tendências. Um fato, no entanto, não pode ser omitido: a já talvez repetida afirmação de que a busca da verdade (qualquer delas) não se traduz apenas pela ironia ou pelo humor, mas, principalmente, pela (essa sim!) repetida estimação pelo ser humano, pois o homem é sempre idêntico a si próprio em todas as suas manifestações. Artista ou não.


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Volnyr Santos é Professor de Literatura Brasileira na PUC-RSRS.


Blau, Porto Alegre, n. 33, jul. 2001, p. 6e 7

O pintor de retratos
José Castello

Depois de 14 livros, escritos ao longo de 25 anos, em que prevaleceram o estilo barroco e um grande interesse pela história, o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil dá, aos 56 anos, uma guinada. Em vez da escritura dispersa e caudalosa, ele opta agora pelo caminho mais estreito, mas também mais engenhoso, da concisão. O resultado não podia ser mais feliz. O pintor de retratos (Editora L&PM, R$ 19, 181 páginas) é um livro talhado a golpes de faca, não só contido, mas preciso, em que cada palavra parece ocupar um espaço insubstituível.

Depois de escrever as primeiras 40 páginas de O pintor de retratos, ainda no ano de 1998, Assis Brasil entrou em crise. Insatisfeito com o próprio estilo, decidiu parar e meditar. Ficou quase seis meses sem escrever, em pânico, ruminando suas dúvidas, até que um dia pegou a primeira frase do livro anotado, que se estendia por longas seis linhas, e a resumiu assim:

"Embora os descaminhos futuros, Sandro Lanari nasceu pintor." Desse modo começa O pintor de retratos, um romance de frases breves e inexoráveis, do qual todos os excessos parecem excluídos.

A primeira frase de O pintor de retratos guarda, desse modo, as sementes de uma nova estética, da contenção e da brevidade, que se alastra por todo o romance. São 181 páginas divididas em quatro partes e 67 capítulos (cada parte tem 16, 18, 14 e 19 capítulos, respectivamente), numa armação quadrangular que indica fechamento e autocontrole. O romance conta a história fracassada de Sandro Lanari, um artista italiano que, nascido em Vicenza, se muda para Paris disposto a aprimorar-se na arte do retrato, mas, atordoado pela descoberta das fotografias de Félix Nadar (1820-1910, o mais importante retratista do século 19) - em especial, um retrato de Sarah Bernhardt -, entra em profunda crise.

Vem parar no Rio Grande, apaixona-se por certa Violeta, mas, perseguido pelo pai da moça, é obrigado a fugir para o interior gaúcho, onde acaba sobrevivendo como artista ambulante, pintando retratos de fazendeiros, vaqueiros e anciãos. Mete-se na Revolução de 93 e, depois de uma batalha, toma o retrato de um homem à beira de degola. Ao ver que o prisioneiro seria executado, Lanari só teve tempo de gritar um "não!". E é esse último lapso de esperança que ele acaba por registrar. "A última imagem, aquele que o desgraçado levaria para a eternidade dos séculos, foi a de Sandro Lanari, o braço erguido, na atitude de quem deseja impedir algo." Convencido da força de sua foto, que ele batiza de Foto do Destino, dela guarda uma única cópia.

Logo que pode, regressa a Paris para mostrá-la a Nadar, o único destinado a fitá-la que, no entanto, a rejeita. "Isso não é arte. Isso é um ato de barbárie", Nadar grita. Termina derrotado, entre os escombros de seus sonhos que, mesmo quando se realizam, só parecem conduzir à derrota.

As relações entre a civilização e a barbárie, seus limites frouxos, quase invisíveis, parecem sintetizados na foto de guerra tomada por Lanari. Elos que Assis Brasil sempre tratou de enfrentar e que agora, em O pintor de retratos, dominam a narrativa. Sua visão, por fim, é pessimista. Mesmo o pampa gaúcho, através do qual Lanari transita em busca de clientes e que parece até hoje conter a alma gaúcha, nada mais é que uma assombração. Uma tela imaginária, na qual os gaúchos projetam seus sonhos de grandeza, mas que, na verdade, carrega a destruição.

Desde 1997, quando lançou o delicado Concerto campestre, os amplos painéis históricos traçados por Assis Brasil vinham dando sinais de esgotamento, surgindo em seu lugar uma escrita mais introspectiva e tensa. Agora, com O pintor de retratos, o romancista passa a praticar o que ele mesmo denomina de um "exercício de essencialidade", expresso numa narrativa substantiva, de frases curtas e insubstituíveis, em que não se permite digressões ou reflexões, escrevendo apenas para empurrar a ação para a frente e para a frente.

Um autor mais prolixo faria da mesma história um romance de mil páginas, tantos são os acontecimentos embutidos nos parágrafos curtos, construídos com frases que poucas vezes ultrapassam as dez palavras. Trabalhando com esses elementos mínimos - frases cortantes, imagens fortes, ação acelerada -, Assis Brasil carrega o leitor para um ambiente narrativo avaro, em que nada se desperdiça e no qual só a pulsação da vida parece contar. Um mundo adverso, em que "tudo gira, tudo se move e, a despeito do que façamos, tudo tem seu inexorável curso, nada por ser mudado".



O Estado de São Paulo, São Paulo, 12.ago.2001 Segundo Caderno, p. 3.


R
omance de muitos sentidos

Gonçalo Júnior





São Paulo, 14 de setembro de 2001 - Uma regra que marca todos os romances do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil é o que ele define como o uso dos cinco sentidos como forma de seduzir o leitor. Ou seja, suas narrativas históricas ambientadas no Rio Grande do Sul se apóiam em elementos visuais, auditivos, táteis, gustativos e olfativos para envolver com surpreendente magnetismo quem lê suas estórias. Seus livros procuram descrever com precisão e detalhes paisagens e situações que aproximam e atraem a atenção do leitor. Como ele mesmo diz, talvez por isso seus livros despertem tanto interesse dos diretores de cinema - três romances seus devem virar filmes. Na próxima segunda, por exemplo, Fábio Barreto começa a filmar 'A Paixão de Jacobina', adaptação de 'Videiras de cristal', lançado em 1990. Seu novo romance, 'O pintor de retratos', não foge a essa caraterística, com uma história irresistível que deixa mais uma vez a impressão de um grande filme narrado com palavras e que dispensa o uso de imagens.

O livro conta a história do pintor Sandro Lanari, um dos muitos 'retratistas' que trocaram o norte da Itália por Porto Alegre no final do século XIX. Ainda em seu país, quando se torna profissional, o artista vive um momento de transição fundamental para a história cultural, quando a rápida difusão da fotografia aniquila uma profissão secular: a dO pintor de retratos - até então, a única forma de os governantes e as famílias mais abastadas registrarem em imagem seus descendentes. Como seu pai, Curzio Lanari, Sandro quer dar continuidade à tradição de tão nobre tarefa, mas cabe a ele resistir a todo custo à nova tecnologia. Até que um dia vê numa vitrine de Paris uma foto da jovem atriz Sarah Bernhardt, feita pelo fotógrafo Félix Tournachon, conhecido apenas como Nadar, então uma celebridade na vida cultural francesa. Enfeitiçado pela imagem, numa atitude provocativa, o pintor procura Nadar e lhe convence a fotografá-lo. O resultado - considera patética sua imagem - leva-o a declarar guerra a todos os fotógrafos do mundo.

Tudo isso não passa de uma introdução para Assis Brasil contar as peripécias e infortúnios de Lanari pelo Rio Grande do Sul, para onde migra na última década de 1800. O escritor se tornou um dos principais nomes do chamado romance histórico - gênero criado no século XIX que se apóia em fatos reais. A fórmula também está presente no novo romance. Nadar, como sabem os especialistas e interessados em fotografia, realmente existiu e morreu em 1910, aos 90 anos de idade. As informações relacionadas à vida e às ideias do fotógrafo resultaram de muitas pesquisas no Serviço de Documentação Fotográfica de Paris. Uma das fontes recorrentes foi um livro do próprio fotógrafo nunca lançado no Brasil, no qual ele narrava várias de suas experiências profissionais. 'No princípio, pensei em colocá-lo como protagonista, mas vi que não era exatamente isso que queria', recorda Assis Brasil.


O pintor de retratos que protagoniza o livro, porém, foi cria da imaginação do autor. Aliás, fora Nadar, todo o resto do romance saiu da cabeça do escritor, um especialista em história gaúcha. Por isso, admite, 'O pintor de retratos' marca uma nova fase de sua carreira literária, com predominância da narrativa ficcional. 'A história me asfixiava porque me dava elementos mais obrigatórios que deveriam ser apresentados, enquanto que com a ficção tenho mais liberdade para trabalhar a narrativa.' Sem nenhuma obrigação com tipos que realmente existiram, Assis Brasil fez de Sandro Lanari uma fusão de muitos fotógrafos que ele sabia terem existido na virada do século XX e que teriam sido pintores de retrato anteriormente.

Em seu romance, o autor diverte e ensina história ao mesmo tempo com literatura bem feita e atraente. Sua clareza e capacidade de seduzir o leitor em nada tiram seus méritos de bom narrador que já devia há muito tempo ter ido além das fronteiras da literatura gaúcha - quem sabe ajude nesse sentido o fato de escolher temas ligados à história de seu Estado? Assis Brasil sabe como prender a atenção com um personagem marcado por aventuras amorosas e trapalhadas, com doses de emoção e humor. Seu desafortunado e simpático pintor, enquanto luta para resistir à fotografia, vive situações tragicômicas como a fama de pé-frio, depois de certas coincidências que levaram à morte alguns de seus ilustres clientes. Também empolga pela ação com as andanças de Lanari pelos campos de batalha da Revolução Federalista (1893-1895), um sangrento conflito no qual a degola se tornou uma lei para economizar munição.

Por trás dessa estória, surge um painel histórico precioso sobre os primeiros tempos da fotografia e o impacto hoje pouco perceptível sobre a vida das pessoas. Lanari vive um drama pessoal que afligiu muitos de seus colegas de profissão e acabou por levar à morte seu ideal diante do destino e da luta pela sobrevivência. Seu pai fora pintor, seu avô também. O bisavô idem. E mais três gerações que antecederam a este. Nenhum ficou rico, mas nada lhes pagava o orgulho do respeito profissional. Perfeccionistas, acreditavam que um quadro deveria chegar tão próximo do real que todos acreditariam que não fora pintado. Na prática, porém, esse tipo de retrato era idealizado de modo a satisfazer a vaidade de quem o encomendou. Tanto que a rainha Vitória afirmou que, com a fotografia, finalmente surgia um meio que mostrava as pessoas como elas realmente eram. E nunca mais se deixou fotografar.

Lanari não demorou para descobrir que o desafio de combater a fotografia o colocaria no coração de uma tempestade, tamanha a força com que a novidade ganhava adeptos e democratizava o registro iconográfico. Quando se mudou para Paris, com o propósito de aprender pintura, descobriu que a figura mais famosa da cidade como retratista não eram Monet, Manet, Pissarro ou Degas, mas Nadar. Não um pintor, mas um fotógrafo, então algo parecido com o sujeito que sabia operar máquinas que registravam imagens de pessoas e objetos, sem conotação artística. Paris inteira se curvara a Nadar - escritores, poetas, músicos, imperadores destronados ou reinantes e ministros. O erotismo também aparecia como um sinal do encantamento que as fotos registrariam ao longo do tempos, com a nudez de atrizes e concubinas.

Nadar, no entanto, era um sujeito especial, cujo talento fazia a diferença e ajudaria no futuro a promover a fotografia ao status de arte. Seus retratos foram espalhados pelas vitrines e galerias de arte da capital francesa e não demoraram a convencer alguns que seus registros mostravam a alma de seus modelos. Sem muito esforço, o espectador se via convencido a pensar que tal pessoa acreditava em Deus, se era socialista ou gostava de costeleta de carneiro, segundo observação de Assis Brasil. 'E isso era uma completa novidade, num meio em que os retratos fotografados transformavam as pessoas em estátuas de giz.' Por tudo isso, alguns até atribuíam a Nadar poderes mágicos.

Na luta de Lanari contra um fim que lhe revelou inevitável, essa discussão entre as diferentes formas de representação - pictórica, fotográfica e literária - permeia o livro de Assis Brasil. A questão está justamente em saber até que ponto se pode captar a vida em toda a sua integralidade a partir da arte. Um exercício nesse sentido pode ser feito com a própria edição de 'O pintor de retratos', que traz na capa a fotografia que Nadar fez de Sarah Bernhardt. Não parece possível ler o livro sem voltar a essa imagem incontáveis vezes. À medida que a narrativa avança, a foto feita por Nadar parece enfeitiçar cada vez mais. A escolha feliz da capa deixa a certeza de que muitas vezes uma bela ilustração ajuda a vender o livro, independentemente do seu conteúdo. Não acontece assim com o romance de Assis Brasil, pelo qual o leitor sai compensado de todas as maneiras.
Gazeta Mercantil, São Paulo, 14.set.2001. Fim de Semana, p. 11.


A TRANSCULTURAÇÃO NA TRAJETÓRIA DE SANDRO LANARI

EM O PINTOR DE RETRATOS, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
Luís Henrique Abreu Drevnovicz*

(Ainda inédito em meio impresso)

Uma guinada, uma mudança de rota e de estilo, um momento de transição. Assim tem sido definido O pintor de retratos no conjunto da obra de Luiz Antonio de Assis Brasil. Abandonando o estilo barroco e a linguagem caudalosa que podem ser facilmente observados em seus outros quatorze livros7, Assis Brasil inaugura uma nova estética e opta por uma linguagem concisa, sem excessos, em que cada palavra adquire uma importância e um significado únicos.

A mudança estética, no entanto, não implica o abandono do autor a um de seus grandes interesses, que tem sido o entrelaçamento entre literatura e história, o entrecruzamento do real e do ficcional. Em suas obras, personagens e acontecimentos históricos misturam-se a outros por ele criados, num jogo fascinante, num borramento de fronteiras que surpreende e encanta o leitor.

Ao analisar as diferenças entre o romance histórico tradicional e o romance histórico de hoje, é ele próprio quem revela as características de sua escrita, especialmente quando fala do chamado romancista histórico contemporâneo:

Como autor de hoje, seu compromisso é com o estético, e, por isso, não renuncia a seu próprio tempo. É alguém que rememora o episódio histórico, mas sem arredar pé de sua condição de intelectual de hoje, com critérios de hoje, com valores de hoje, com a estética de hoje, e com profunda intencionalidade. Por essa razão, autoriza-se não a interpretar, mas a reinterpretar o fato no propósito narrativo; habilita-se a comentar, a fazer projeções, deformar, tomando hipóteses como se fossem realidade; enfim, comporta-se como um verdadeiro artista. Não tendo compromisso com o fato material, pode inclusive criá-lo ou suprimi-lo. (...) A razão dessa audácia reinterpretadora é muito simples: é que o romancista não faz história. O motivo é verdadeiro, as vertentes são factuais, mas o texto resulta em literatura (Assis Brasil, 2000, p. 259).

E é exatamente nessa perspectiva que Assis Brasil constroiO pintor de retratos. A trajetória de Sandro Lanari, personagem ficcional, é narrada em contraponto com a vida de Nadar, fotógrafo de comprovada existência histórica8. Acontecimentos presentes na historiografia do Rio Grande do Sul são incorporados ao universo diegético da obra; ficção e história são urdidas lado a lado, numa construção em que a “verdade” e a necessidade do leitor de saber o que pode ou não ser comprovado pelos acontecimentos reais acaba perdendo a sua importância diante da força do texto literário e do universo habilmente criado pelo escritor.

Sandro Lanari é um pintor de retratos, nascido em Ancona, na Itália, herdeiro de uma tradição familiar na pintura, que é enviado pelo pai para Paris, com a finalidade de aprimorar a sua arte. Lá, descobre as fotografias de Nadar (considerado o mais importante retratista do século XIX), especialmente a famosa foto de Sarah Bernhardt, cuja beleza, envolta num pano à romana, tem o poder de aguçar-lhe os sentidos, levando-o a procurar o artista para que o fotografe. Nadar, seguindo o seu estilo de conversar com o seu fotografado para conhecê-lo e tentar captar sua alma na fotografia, assim o faz com Sandro. Considerando-o um tolo, é assim que o fotografa. O resultado patético leva Lanari a declarar guerra a todos os fotógrafos do mundo. Sandro emigra para o Rio Grande do Sul, onde se envolve em inúmeros acontecimentos, inclusive a Revolução Federalista9, e acaba tornando-se também fotógrafo. Casa-se, prospera, constroiuma sólida e bem-sucedida carreira na fotografia. No entanto, a inquietação provocada por Nadar o persegue ao longo de toda a sua trajetória e o obriga, no final, a voltar diante do fotógrafo para o último confronto.

Essa trajetória circular proposta por Assis Brasil nos permite analisar seu protagonista sob o enfoque da transculturação10. O Sandro Lanari que retorna à Europa para o encontro final com Nadar não pode ser considerado o mesmo que partiu da Itália em busca do aperfeiçoamento de sua pintura. Entre um e outro existe não apenas uma distância provocada pelas experiências de vida percorridas, mas também os traços das diferentes culturas por ele absorvidos. Ele, o próprio Sandro Lanari, carrega em si o resultado do processo transcultural vivenciado na América do Sul. Inúmeras foram as transformações incorporadas pelo protagonista nos seus hábitos, no seu dia-a-dia, no seu modo de falar e de se comportar, mas as principais ocorreram no campo de sua arte, que, como ele, tornou-se híbrida, sua arte de pintar misturou-se de uma maneira única com o processo da fotografia com o qual esteve envolvido nos pampas gaúchos.
Quando falamos em transcultura estamos nos referindo a um processo dinâmico, resultante do choque entre diferentes culturas que, quando colocadas em contato, acabam por produzir um novo produto, diferente das culturas originais. Por muito tempo se falou em aculturação no sentido de domínio de uma cultura sobre a outra, num conceito que levava em conta apenas um lado da questão e trazia consigo a noção de perda da identidade cultural. O conceito de transculturação, ao contrário, busca eliminar essa ideia de vencidos e vencedores, pois encara o processo como uma via de mão dupla em que ambos sofrem perdas e ganhos e geram um produto híbrido11, uma “terceira margem”.12

Zilá Bernd, em seu ensaio “Deslocamentos conceituais da transculturação”, retoma o conceito de transculturação concebido pelo antropólogo cubano Fernando Ortiz: “quando há choque de culturas, transição e ou passagem de uma cultura a outra, não há unicamente perdas, apagamentos ou apropriações; há também a criação de novos produtos culturais. O processo em seu conjunto é que caracteriza a transculturação onde as trocas se fazem nos dois sentidos e geram uma cultura híbrida original e inacabada.” (Bernd, 2002, p. 2).

Ao analisar as afirmações críticas de Alberto Moreiras sobre o conceito de transculturação, Bernd faz a importante observação de que nos processos transculturais sempre existirão a exclusão e a censura de alguns elementos e a escolha de outros. Essa “terceira margem”, esse produto do processo transcultural, diferente das culturas que o originaram e, ao mesmo tempo, com elementos delas oriundos, elimina a antiga noção de que só o “puro” é merecedor de valor. Ao contrário, as estéticas compósitas são extremamente ricas em função de sua heterogeneidade e de seu caráter híbrido. Além disso, o produto cultural é sempre inacabado, uma vez que o permanente contato entre as culturas proporciona a cada momento novas escolhas e novas exclusões e, portanto, a constante geração de novas possibilidades.

Em O pintor de retratos, Assis Brasil, ao apresentar a trajetória de Sandro Lanari, narra inicialmente sua infância na Itália, mais tarde seu contato com a efervescente Paris, centro cultural europeu do século XIX, mais adiante sua emigração para o Brasil, onde entra em contato direto com a cultura americana e, mais especificamente sul-rio-grandense e, por fim, sua volta à Europa. Ao fazê-lo, é inevitável que apresente todas as transformações sofridas pelo protagonista, que, mesmo inconsciente do sistema em que está inserido, faz suas escolhas e exclusões e torna-se participante de um processo transcultural.

As quatro partes em que a obra e, consequentemente, a história de Sandro Lanari estão divididas nos permitem observar com clareza as diferentes etapas desse processo. Na primeira parte, é apresentada a origem do protagonista e a cultura europeia da qual ele é herdeiro; na segunda, surge o choque cultural, o confronto direto entre a cultura europeia e a americana; na terceira parte, o protagonista dá início ao seu processo de inclusão e exclusão, à sua seleção; e, finalmente, na quarta, o processo se completa. Sandro surge como o representante de uma cultura híbrida, com suas criações originais, suas tintas e novas formas de obtê-las, uma cultura que, apesar de toda a sua riqueza e valor, ainda necessita da legitimação daquela que a originou.

Já no primeiro capítulo da primeira parte de O pintor de retratos, Sandro é apresentado como o legítimo herdeiro de toda uma tradição e cultura europeias que, desde esse momento, na obra, estarão ligadas à arte da pintura: “Seu pai era pintor, seu avô também o fora, e assim por anteriores seis gerações, todos foram pintores.” (Assis Brasil, 2001, p. 11). Mais do que o herdeiro, é eleito pelo pai como o responsável pela continuidade, pela preservação e pela transmissão dessa tradição consagrada pelo uso: “E deu de presente ao filho a obra clássica de Cenino Cenini, Il libro dell’Arte, com receitas para o bom pintor. Era um exemplar amarelado, com respingos de tinta, e várias dobras nos cantos das páginas. Pertencera aos artistas Lanari desde que estes vieram para Ancona” (p. 18). Il libro dell’Arte, entregue a Sandro por seu pai, Curzio Lanari, manchado pelo tempo e desgastado pelo uso, representa a herança cultural, a tradição passada de geração em geração e finalmente entregue para que fosse perpetuada. O livro, em conjunto com outros símbolos, a exemplo da foto tirada com o pai antes de sua partida da Itália e o material de pintura usado na confecção dos retratos, retornará várias vezes durante a narrativa como marca desse passado e dessa herança presentes na vida do protagonista.

Ainda na primeira parte, Sandro é mandado pelo pai a Paris, com as economias familiares, para que aprimore sua arte de pintar. No século XIX, Paris é a capital cultural do mundo, que tudo legitima, e essa passagem de Sandro vem mais uma vez reforçar a influência da cultura europeia em sua formação. Também é na capital francesa que ele conhece a fotografia de Nadar e entra em contato com o novo: há algo diferente que o choca, o intriga e o encanta também. “Em Paris não era famoso nem Monet, nem Manet, nem Pissarro, nem Degas, nem outros que viriam a habitar os museus do globo. Famoso era Nadar. A febre era Nadar. Todos saudavam Nadar” (p. 20). Já longe de sua terra natal, surgem novamente os símbolos que definem claramente o compromisso de Sandro com a sua tradição: “Pôs sobre a mesa o livro de Cenino Cenini, o qual leria até a exaustão. Pregou na parede o retrato feito em Ancona por Paolo Pappalardo. Estavam ali: ele e o pai” (p. 22). A escolha da capital francesa não é feita por mero acaso por Assis Brasil: Paris, como capital global, como “capital desterritorializada” (Pierre Rivas, 1993, p. 102) é o cenário perfeito para essa antecipação do choque cultural que está por vir, para que Sandro perceba a presença do diferente e abra-se para a possibilidade de descobri-lo.

E é em busca desse “novo” que o encanta e intriga, que o fascina na foto de Sarah Bernhardt vista em uma vitrine, que ele procura Nadar para que o fotografe. O resultado o decepciona, ao mesmo tempo que o prepara para partir; sente-se incompreendido e incapaz de compreender a cultura a que pertence. Os símbolos voltam para marcar o momento do início da ruptura com o passado: “Acordou-se no outro dia, ainda vestido. E a intensidade de sua tragédia voltou-lhe como um manto de chumbo. Olhou a foto do retratista de Ancona. Ele e o pai, ali, eram dois mortos” (p. 46).

No final dessa primeira parte, tudo parece antecipar o confronto entre as culturas que surgirá: Sandro prepara-se para partir, fugindo de um passado que o acompanhará e de uma cultura na qual buscará, durante toda a sua trajetória, os seus referenciais e a sua legitimação. Assis Brasil utiliza um recurso narrativo que prepara o leitor para esse encontro: enquanto a voz do narrador surge posicionada na América – “Curzio contava, repassado de indignação, que um parente de Vicenza viera para o Rio Grande do Sul” (p. 47) –, Sandro ainda está situado na Europa: “Lá abaixo, na metade inferior do planeta, ficava o Rio Grande do Sul, a selva que nunca teria escutado o nome de Nadar” (p. 48).

A segunda parte de O pintor de retratos começa com a chegada de Sandro ao Rio Grande do Sul. O confronto, o choque diante de uma cultura diferente e as escolhas que vão desencadear o processo de transculturação ficam claros nas primeiras linhas. Sandro não chega sozinho, traz consigo a tradição da qual é o herdeiro e que aparece mais uma vez representada por objetos muito significativos:

Desembarcou no cais fluvial com alguns chassis recobertos de telas virgens, um cavalete, a maleta de pintura e um caixote contendo potes de tinta, pigmentos, terebintina, pincéis, espátulas, mais o betume da Judeia que dá translucidez às misturas e os papéis Fabriano para as aquarelas furtivas. Trazia também um baú forrado em couro da Rússia, fechado por brilhantes dobradiças de cobre. Dentro, além de suas roupas, vinha o livro de Cenino Cenini (p. 51).

O espanto com a cultura diferente da sua é evidente: “Seu primeiro espanto foi pela quantidade de negros nas ruas. Pensou que fossem maometanos. Mais tarde saberia a verdade (p. 51). E, no momento seguinte, o primeiro sinal do produto que nasce: “Cedeu a uma fraqueza: comprou, ainda no cais, um chapéu panamá branco, redondo, de abas largas e moles, circundado por uma fita de tafetá azul cujas pontas caíam até o ombro. O vendedor pôs um caco de espelho à frente de Sandro. Ele mirou-se e deu um sorriso” (p. 51).

A partir desse ponto da narrativa o processo transcultural torna-se bastante evidente: a cultura europeia e a cultura americana caminham lado a lado, são comparadas, confrontadas pelo protagonista em um mecanismo dinâmico e progressivo. Não há como refletir sobre a transcultura sem considerar a posição imigrante de Sandro, que se define nesse momento com extrema clareza, inserindo a obra de Assis Brasil na vertente da literatura de imigração, atualmente em voga. As formas de identificação de Sandro Lanari levam o leitor a refletir a respeito da noção pouco precisa que os imigrantes tinham da América.

Eurídice Figueiredo, ao falar do imigrante dentro da literatura, afirma que “o olhar do estrangeiro está sempre voltado para um outro tempo e um outro espaço, nostálgico e desadaptado no país de adoção” (Figueiredo, 1997, p. 47) No mesmo ensaio, cita Cabrera Infante, que afirma: “o exilado carrega o país dentro de si, onde quer que ele vá” (Infante apud Figueiredo, 1997, p. 49). Já Pierre Nepveu salienta que “dans un deuxième moment de ses manifestations, l’écriture immigrante se définit essentiellement comme une expérience de la mémoire”13 (Nepveu, 1989, p. 23)

Assim surge Sandro Lanari: ele está, neste instante, no “entre-dois”, aquele que sabe não mais pertencer ao mundo que deixou, mas que também ainda não é parte integrante da nova realidade. Caminha no desvio, na terceira margem, rememora e compara, traz dentro de si o fascínio do novo e a saudade do que deixou:

Em Ancona ele também contemplava paisagens aquáticas e bastante pictóricas: lá, era o Adriático, povoado por lendas de heróis descabelados e furibundos, varrido pelo colérico ribombar dos canhões, itinerário de bojudas galeras venezianas e bizantinas desde épocas sem memória, habitação dos deuses e cenário de batalhas decisivas para a Humanidade.

Aqui, era o Guaíba.

E ele, Sandro, era um artista que trazia nas costas a Europa e seus séculos de civilização (p. 55).

Esses são sentimentos que vão acompanhar e conviver com o protagonista durante toda a sua história: a nova cultura que vai surgindo e tornando-se parte integrante de Sandro será sempre vista por ele em comparação com sua cultura originária. O novo precisa ser “aprovado” pela tradição e isso é muito claro na narrativa de Assis Brasil, que recorre mais uma vez à simbologia de seu universo: “Após a caminhada vespertina, subia ao quarto e verificava os pincéis. Lembrava-se de Ancona com uma leve saudade. Fitava o retrato feito por Paolo Pappalardo, que fixara na porta. O retrato já mostrava duas marcas de prego” (p. 59). O retrato já não tem mais a pureza anterior, ao contrário, tem marcas, foi modificado. Mas, de alguma maneira está presente como quem vigia, como quem aprova. Outros são os símbolos que demonstram essa necessidade de legitimação: a fotografia precisa ser legitimada pela pintura, a América precisa ser legitimada pela Europa, Sandro precisa do reconhecimento de Nadar.

A terceira parte da obra inicia narrando a viagem de Sandro para o interior do Rio Grande do Sul, onde o momento mais decisivo do processo transcultural acontecerá. Sandro viaja pelo Rio Jacuí, afasta-se do litoral e penetra com mais intensidade na realidade e na terra americana. Assis Brasil distancia seu protagonista do litoral como se quisesse isolá-lo nesse novo universo que o atingirá com intensidade, fazendo com que as escolhas ali tomadas enraízem-se em sua história de maneira definitiva. Dessa viagem, um novo Sandro Lanari surgirá.

No início, Sandro resiste: “Deu-lhe um vago desejo de não ser ele o homem que vivia aquela situação grotesca... quantos mundos trilhados... Nadar hoje em seu atelier... em Porto Alegre, Violeta prisioneira...” (p. 101). Mais uma vez os símbolos estão presentes de maneira significativa: “A foto de Paolo Pappalardo, ele a deixou dentro do baú, junto com o livro de Cenino Cenini. Curzio Lanari não deveria saber o que acontecia a seu filho” (p. 103). A realidade, no entanto, vai pouco a pouco o atingindo de maneira profunda, embora ainda buscando o seu referencial europeu:
Por vezes, eram degolados cinquenta em um só dia. Os coronéis esqueciam-se de comunicar esses morticínios a seus superiores. E os superiores dedicavam-se à política. Em Paris, Rodin esculpia Le baiser em mármore finíssimo e Debussy compunha o delicado l’Après midi d’un faune. Nadar consolidava-se como o maior fotógrafo do século, ao retratar Debussy e Rodin (p. 121).
Sandro envolve-se, mesmo contra a vontade, com a Revolução Federalista, travada no interior do Rio Grande do Sul. A situação extrema faz com que as mudanças se acelerem e sejam mais evidentes: “Quem o visse meses mais tarde, não o reconheceria com aquela barba e as duas cartucheiras de bandido atravessadas ao peito. Deram-lhe um fardamento pela metade, um poncho e o posto de capitão honorário” (p. 126). As mudanças externas são acompanhadas por aquelas que se produzem no espírito de Sandro Lanari: “Sem remorso, constatou que a pintura não era forte em seu espírito, tanto que a abandonara como se nunca a tivesse praticado” (p. 127). A situação “entre-dois” aparece de maneira clara na tessitura da obra: “Dois homens o habitavam: aquele que pintava e o Outro, que precisava seguir a obscura vida” (p. 127). Os imigrantes são constantemente confrontados, à sua origem e ao outro que gostariam de ser, interrogando-se a respeito de sua função cultural, fazendo paradas de reflexão instigantes, numa viagem à origem, na qual cada um, como pode, busca identificar-se.

Essa terceira parte é encerrada deixando alguns pontos decisivos: as eleições feitas por Lanari, aquilo que ele vai deixando de lado, aquilo que vai adotando como “seu”, a definição do híbrido que surge em um novo ser humano que incorporou aos seus hábitos o linguajar, o modo de vestir, a rotina comum do dia-a-dia, a transformação de sua arte. O envolvimento com a Revolução Federalista e com a fotografia o faz abandonar a pintura, deixar de lado aquilo que não mais lhe serve na atual situação, fazer a primeira de muitas outras exclusões: “E para demarcar sua nova existência, libertou-se de Il libro dell’Arte, jogando-o num arroio de águas confusas: “Vai-te, petulante, que não tens nenhum valor nesta parte do mundo” (p. 118), o que é reafirmado mais adiante: “Sandro partia: deixava para trás sua vida de pintor. Tudo ficara sobre uma coxilha. A primeira geada do ano recobria a maleta dos pincéis. A chuva, ao penetrar a caixa de cartolina das aquarelas, dissolveu e misturou as cores, criando um arco-íris que foi aos poucos absorvido pelo solo. Em novembro, um quero-quero depositou os ovos ali perto” (p. 136).

Na quarta e última parte da obra, Assis Brasil acelera o ritmo narrativo e mostra o novo Sandro Lanari adaptando-se e transformando-se mais intensamente a cada momento. O retrato com o pai reaparece para marcar as transformações: “O retrato de Paolo Pappalardo retornou à parede, já com três furos de pregos. Sandro não sabia como julgar o pai, que o mirava com uma face dissolvida pelos anos” (p. 142). O Sandro estrangeiro e o Sandro completamente envolvido com a cultura americana dão lugar a um novo protagonista que traz em si os efeitos evidentes do processo transcultural vivenciado: casa-se com Violeta, uma brasileira, e com ela tem quatro filhas, ascende socialmente, aproxima-se e torna-se sócio do fotógrafo Carducci, seu estúdio cresce, prospera e enriquece. “O retrato de Paolo Pappalardo voltou à parede, agora numa moldura, e na sala” (p. 151).

Sandro não mais rejeita sua tradição e seu passado, e ao mesmo tempo assimila e incorpora o novo. Sua arte simboliza o produto rico, híbrido e em constante transformação, típico da transculturação: incorpora à fotografia os elementos da pintura, seus retratos tornam-se famosos por sua originalidade. O novo produto que surge deixa de lado a “pureza”, mas assume seu lugar e seu valor. A trajetória circular de Sandro Lanari começa a se definir:


Ante esses resultados, Carducci comentou:

  • Interessante. Você já notou uma coisa?

  • O quê?

  • Que seus retratos são quase quadros?

  • Bobagem.

  • Mas são. Não percebe que, com isso, você volta a pintar? (p. 154)

A partir desse momento, Assis Brasil começa a traçar o caminho que levará Sandro ao retorno, ao confronto final com o que o tem atormentado ao longo de toda existência: o novo Sandro Lanari precisa da aprovação de Nadar, precisa da legitimação da cultura de origem que lhe foi legada. Alguns elementos do início da narrativa reaparecem no texto: “Tentou conversar com seus retratados antes de submetê-los à câmara, tal como Nadar fizera com ele. Mas eram diálogos tão sem resultado que ele eliminou essas preliminares” (p. 165). Algumas situações reaparecem invertidas para marcar mais fortemente a ideia do retorno, do ciclo que se completa. Assim como na primeira parte, Sandro fica completamente seduzido por uma fotografia vista em uma vitrine, mas, nesta última parte, é uma pintura que o atrai:


Ao retomar o caminho, sentiu que a persistência de um olhar o perseguia. Parou de novo, voltou-se para o outro lado da rua.

Era o retrato a óleo de uma mulher, na vitrina da casa de molduras A Popular. Ao fundo do quadro, os campos do Rio Grande, em soberbos horizontes de luz e verde. Um rosto inesquecível.

Ia seguir, mas uma força quase mística o prendia (p. 167).

A necessidade de legitimação é definidora do caráter circular da obra. É preciso que o ciclo se complete, é preciso encontrar Nadar, voltar à Europa, encarar o passado de frente. A morte do pai é a volta ao início da obra e é o mote de Assis Brasil para levar Sandro ao seu destino: ele embarca e procura o artista para a pergunta final, deixa-se fotografar novamente e mais uma vez se frustra com o resultado patético da fotografia. Mostra então ao famoso fotógrafo aquilo que considera a sua obra-prima, a foto de um prisioneiro que obteve durante a Revolução Federalista, no interior do Rio Grande do Sul, minutos antes da degola, e que chamou de A Foto do Destino. Espera e quer desesperadamente a aprovação e o reconhecimento de sua arte. Não a obtém: Nadar não considera arte aquilo que vê e o expulsa de sua casa. Do alto de sua prepotência, rejeita o novo e o desconhece, numa atitude que já nos é muito familiar na relação das culturas americana e europeia. Revela-se aqui, mais uma vez, a impossibilidade de compreensão da cultura do outro; de um lado, o eurocêntrico ignora o novo mundo; do outro, a releitura do tradicional valor – desafiado pela posição singular de Lanari ante a antiga dependência cultural – fez com que surgisse uma nova postura. Essa postura, misturada à bagagem original e à regionalidade gaúcha, atendem ao apelo de instâncias subjetivas, que renovam o discurso em circulação.14

Tudo parece completar-se, o ciclo parece estar fechado. Mas, nesse momento, Assis Brasil muda o rumo da narrativa, abre o círculo e nos mostra um Sandro que não mais necessita de legitimação, que não tem mais a necessidade da aprovação. Sandro é, neste momento, o representante de uma cultura híbrida que reconhece o seu valor, independente de qualquer processo legitimatório. Ele olha a situação com o distanciamento necessário e parece, finalmente, encontrar sua identidade.

O ciclo se abre para mostrar o caráter inacabado do processo transcultural. Sandro rasga a sua fotografia em pedaços e os espalha, num gesto de libertação. O homem que recolhe esses pedaços é a voz que encerra a narrativa e que deixa no leitor a certeza do caráter fragmentário e em constante construção de uma cultura, especialmente quando fruto da transculturação: “É o retrato de um homem, mas é impossível formá-lo por inteiro. Faltam muitos pedaços, muitos... – Fez um gesto envolvendo toda a paisagem – devem estar por aí...” (p. 181).

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