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Tomem lá mais um grande escritor gaúcho

Jorge Marmelo

Portugal

Depois de, durante muitos anos, a literatura contemporânea brasileira quase ter andado arredada da edição e das livrarias portuguesas, o espaço recentemente conquistado pelo romance do Brasil nas preferências dos leitores lusos principiou a dar lugar a alguns fenómenos curiosos. Já aqui se deu conta, entre outros casos, da publicação, em menos de um ano, de três livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza na Gótica e da edição da obra completa de Patrícia Melo na Campo das Letras, sendo igualmente de notar a especialização da Ambar no nicho de mercado dos escritores do Rio Grande do Sul. Depois de Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski, a editora do Porto apresenta agora Luiz António de Assis Brasil e o seu O pintor de retratos, como que dizendo: "Ora tomem lá mais um grande escritor gaúcho".


Senhor de uma escrita sóbria, elegante e semeada de um finíssimo sentido de humor, Assis Brasil acompanha, n'O pintor de retratos, a atribulada vida de Sandro Lanari, último de uma linhagem de pintores italianos que abandona a Ancona natal para ir aperfeiçoar em Paris a sua arte: o retrato. Ali chegado, enfrenta, porém, a primeira contrariedade. O último grito não eram já Monet, Manet, Pissarro ou Degas, mas as fotografias de Nadar. Lanari chega a apaixonar-se pela nova arte - o motivo é uma imagem de Sarah Bernhardt, que lhe provoca um sonho lascivo e o leva a romper com o seu professor de pintura, para o qual as máquinas fotográficas têm tanta alma como uma máquina a vapor e são, por isso, incapazes de captar emoções -, mas, após ter sido retratado como um louco pelo mestre, arma-se de um profundo ódio pela fotografia e acaba por fugir para o Brasil para escapar ao nome de Nadar.


Chegado ao Rio Grande do Sul, Sandro Lanari vê prosseguirem as contrariedades que o transformarão num beberrão incorrigível, embora, numa Porto Alegre com vários fotógrafos-retratistas e apenas um pintor de retratos, consiga sobreviver com relativa facilidade, pintando clérigos e outras personalidades. Mas esta actividade dar-lhe-á não só a fama de ser responsável pela morte dos retratados, como o põe em contacto com Violeta, a adolescente parecida com Sarah Bernhardt, uma amazona cheirando a cavalo, suor, couro e sabão Windsor. Por sua causa terá que voltar a fugir, desta vez para a "pampa" gaúcha - "terra tão inculta e provisória" -, onde acabará por ser feito prisioneiro durante a revolução e transformado em fotógrafo oficial da Quinta Unidade Legalista. A rocambolesca aventura termina aqui, dando o desvairado alcoólico lugar a um fotógrafo de sucesso - fica famoso por pintar sobre os retratos com aguarelas - e a um devotado e abastado chefe de família, principiando o movimento de regresso às origens, durante o qual voltará a fazer-se fotografar por Nadar.


Sendo este, em traços gerais, o rumo da narrativa, O pintor de retratos não se pode resumir ao que aqui se diz, apenas ganhando a sua real dimensão no confronto directo com o olhar irónico do narrador, que ora conta como Lanari e a sua primeira paixão adolescente se amam sob um carvalho, devorados pelas formigas, só regressando "mediante as grosseiras ameaças do cocheiro, que se aborrecia de esperar", ora comenta que o retratista se achava muito poético.
Para quem não se contente com o puro prazer da leitura, sempre se poderá acrescentar que o sentido mais profundo do romance se encontra no debate sobre a (im)possibilidade de a arte do retrato alcançar a alma do retratado, resultando com lapidar eficácia o comentário de um velho que tenta juntar os pedaços da segunda fotografia feita por Nadar a Sandro Lanari. Diz ele, olhando para o "puzzle" incompleto: "É o retrato de um homem, mas é impossível formá-lo por inteiro. Faltam muito pedaços, muitos... - Fez um gesto envolvendo toda a paisagem - devem estar por aí... - e com olhos de sábio, olhos que tanto viram e tanto amaram, percorreu a solidez terrestre dos campos e o devaneio infinito das nuvens." Verdade para a fotografia e para a pintura, estejam os retratos completos ou por terminar. Verdade também para a literatura, afinal.

Público, Lisboa. 27 set. 2003. Mil Folhas, p. 8

Um artista e seus limites

Regina Zilberman
Foi o olhar estrangeiro que produziu as primeiras interpretações que tinham o Brasil como tema. Os habitantes originais da América podem ter elaborado narrações que explicavam a terra onde viviam, mas suas criações foram registradas somente após a desembarque dos europeus no Novo Mundo, o que suscitou diferentes reações, desde o entusiasmo com que Cristóvão Colombo celebrou o encontro dos indígenas até os azedos alertas provenientes dos cronistas portugueses.

Não espanta, pois, que o tema transite de diários de bordo e crônicas de viagem para a ficção, como ocorre em O pintor de retratos. O novelista, em obras anteriores, como Um quarto de légua em quadro, As virtudes da casa e Videiras de cristal, já havia introduzido personagens originárias da cultura europeia. Nesse romance, contudo, o autor inclui nuances que particularizam o foco com que se aprecia a relação entre dois universos diferenciados.

O protagonista Sandro Lanari provém de uma família de retratistas italianos. Seus ancestrais contabilizam algumas glórias passadas, mas não passam de pintores medíocres, que adulam a elite local, formada por comerciantes enriquecidos e religiosos, para garantir o patronato. Com o objetivo de aperfeiçoar sua arte, o rapaz vai a Paris, onde se depara com a ascensão do impressionismo e da fotografia, processos complementares, pois o primeiro rejeita a pintura retratista, porque a segunda pode realizá-la de modo mais eficaz.

Contramão - Sandro Lanari percebe-se colocado na contramão da arte que pretende praticar, sumariada na ação do fotógrafo Nadar, no ápice de seu prestígio. Sandro deixa-se reproduzir por esse profissional, que flagra no moço a personalidade medíocre e retraída. Sem ocupação, o heroimigra para o Brasil, trazendo a Porto Alegre a esperança de encontrar um lugar para sua atividade. Surpreende-o, contudo, o fato de que, mesmo nessa cidade, a fotografia suplantar o retrato. Por essas e outras, como o envolvimento amoroso com fina jovem da sociedade local, foge para o interior.

É então que descobre seu verdadeiro ofício - o de fotógrafo. Aliciado à força por tropas do exército castilhista, durante a revolução federalista de 1893, Sandro Lanari registra as façanhas dos soldados até ser obrigado a documentar a degola de um prisioneiro. O resultado espanta o autor da imagem, que conserva a fotografia como comprovação de sua arte. Convencido de seu talento, Sandro Lanari consagra-se profissional requisitado para sempre, constituindo família, engordando e enriquecendo.

Tal como seus predecessores - cronistas, viajantes ou mesmo as personagens anteriores de Assis Brasil - Sandro Lanari é um estrangeiro que acredita na sua superioridade diante de um meio provinciano. Contudo, diferencia-se deles, porque, desde o começo da narrativa, sua posição está comprometida: ele pratica uma arte ultrapassada. Assim, a pose - atitude programada por ele, mas inviável - é substituída pela humilhação, que acompanha sua trajetória, sempre em fuga. O olhar estrangeiro não tem condições de avaliar corretamente o novo espaço que lhe é apresentado.

Representação - Nem por isso o ambiente é menos provinciano, quando a ação se passa no meio urbano, nem menos bárbaro, quando se depara com a guerra no pampa. Lanari, de posse de sua arte, tenta captá-lo, mas sua personalidade fica aquém das virtualidades de representação, mantendo-se na periferia dos acontecimentos, preocupado com o efeito, não com o conteúdo.

É sob esses dois aspectos que o romance enriquece o tema de outros do autor. De um lado, expõe o confronto entre civilização e barbárie, que uma guerra civil exemplifica; de outro, explora e aprofunda a temática do olhar estrangeiro, de um indivíduo que transforma o que vê em imagem. Esta, porém, não dá conta da representação, como que informando que nem a arte tradicional, nem a tecnologicamente mais avançada são capazes de traduzir as contradições de que se alimenta o universo vivenciado por Sandro Lanari.

Assim, à discussão sobre a propensão do olhar de fora, de querer desvendar o mundo brasileiro, O pintor de retratos acrescenta uma segunda questão: a dos limites da arte. Encarrega-se a essa de representar o que está fora dela, mas ela nem sempre executa a tarefa com eficiência. A obra, centrada na biografia de um artista estrangeiro questiona suas próprias potencialidades, propondo-se como reflexão sobre sua natureza enquanto visão da alteridade. Redimensiona o tema a que se incorpora e desenhando seus limites.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11.ago.2001. Ideias, p. 4
Emissão radiofónica do programa "Hoje pode ler"

Graça Vasconcelos

Portugal

A literatura brasileira lentamente vai entrando no nosso país, dando-nos a conhecer outros escritores, para além dos nossos queridos e consagrados Guimarães Rosa, Jorge Amado, Erico Veríssimo, C. Drummond de Andrade e outros, que a lista apesar de tudo ainda é relativamente extensa.

A Editora Ambar publicou há meses, na sua colecção Biblioteca Ambar de Bolso, um magnífico livro de um escritor brasileiro, nascido em Porto Alegre em 1945, para nós desconhecido: Luiz Antonio de Assis Brasil. O livro intitula-se O pintor de retratos e foi prémio Machado de Assis em 2001, no Brasil.

Numa escrita colorida e cinematográfica, Assis Brasil conta-nos a história de um pintor de retratos, Sandro Lanari, que nasceu em Ancona na Itália na 2ª metade do sec. XIX, mais tarde vem para Paris e a sua vida transforma-se no dia em que vê, fascinado, numa vitrine, uma fotografia ,o retrato da então jovem actriz Sara Bernhardt. Era no tempo em que a fotografia começava a surgir em grande plano, o retrato fotografado substituía largamente o retrato pintado. Nadar era o grande mestre francês da fotografia.

O jovem pintor procura Nadar, quer fazer-se fotografar por ele. Não consegue. Declara guerra aos fotógrafos, aos retratistas. Decide então emigrar para o Brasil, para o Rio Grande do Sul, e continuar a ser pintor de retratos, pensava ele, longe da perversão que era o retrato feito pelo fotógrafo. Puro engano. "Mas soube, decepcionado que Porto Alegre infestava-se de fotógrafos de retratos, e para cúmulo todos italianos", leio na pág.57.

Para ele, era imenso o poder do retrato pintado. Só uma pintura era capaz de nos dar a alma, a verdadeira profundidade humana do ser, defendia. Muitos retratos e muitas aventuras depois, ele, que renegara a fotografia como forma de arte, tornava-se fotógrafo de renome.

É uma história surpreendente, que nos interroga sobre os limites da arte e da sua representação do mundo e do homem. Que nos diverte também.

Luiz Antonio de Assis Brasil, para além de romancista, já com vários livros publicados e vários prémios é professor de literatura no Rio Grande do Sul e especialista em literatura açoriana. Este foi o seu 1º romance editado em Portugal, pela Ambar.



O pintor de retratos é o livro que vos deixo hoje.

8h35min do dia 22.jan.2004. Rádio Antena 2 – RDP Lisboa


LITERATURA E HISTÓRIA EM O PINTOR DE RETRATOS, DE


LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

* Nubia Jacques Hanciau

A busca identitária de Sandro Lanari, uma inextricável mistura de realidade e imaginação, pode ser analisada em O pintor de retratos15, de Luiz Antonio de Assis Brasil, sob o aspecto ou temática do olhar estrangeiro de um indivíduo que transforma o que vê em imagem. Esta porém não dá conta da representação, como que informando que nem a arte tradicional, nem a tecnologicamente mais avançada são capazes de traduzir as contradições de que se alimenta o universo vivenciado pelo protagonista, Sandro Lanari, um menino rústico nascido na cidadezinha italiana de Ancona, porto do Adriático, que se torna pintor de retratos em Porto Alegre, e, mais tarde, nas estâncias isoladas do Rio Grande do Sul. Entre a Itália e o Brasil, há uma permanência em Paris, centro artístico europeu, durante a virada do século XIX, momento crítico em que a arte fotográfica ameaçava, para logo substituir, a arte dos pincéis.

Novela para alguns16, romance para outros, Assis Brasil contempla igualmente nessa obra o confronto entre civilização e barbárie. De um lado do Atlântico, “em Paris, Rodin esculpia Le baiser em mármore finíssimo, e Debussy compunha o delicado L’après midi d’un faune” (p. 121). Do outro, é a guerra civil rio-grandense que vai servir de pano de fundo para a narrativa, agora substituindo os amplos painéis históricos que deram renome ao artista, por uma escrita mais precisa, introspectiva, engenhosa, “um livro talhado a golpes de faca”17. O contexto histórico e geográfico da terceira parte, que focaliza a Revolução Federalista, lembra que, por falta de munição, “eram degolados cinquenta em um só dia”. O pintor de retratos evoca ainda a errância e as reações dos predecessores de Lanari ante o Novo Mundo, cronistas viajantes, que acreditaram em sua superioridade em relação à terra papagallis, o tema transitando dos diários de bordo e crônicas de viagem para a ficção.

“A história de Sandro Lanari começou na adolescência”, na Europa (p. 11), primeiro Ancona, berço italiano do heroie de seus ancestrais; mais tarde Paris, que, de acordo com Pierre Rivas, era “capital da América Latina” e estava deslumbrada pela “luz, a modernidade, a libertação” (1993, p. 101). É para lá que Lanari viaja, levando as economias do pai e uma carta de recomendação, com a intenção de aperfeiçoar o conhecimento em pintura de retratos, arte que herdou da família. “Seu pai era pintor, seu avô também o fora, e assim por anteriores seis gerações, todos foram pintores” (p. 11). Torna-se inquilino de um gabinetto, conforme chamou seu apartamento, na Rue du Chemin Vert, perto da Bastilha, e vai ao encontro, na Rue Monge, do artista que seu pai recomendara. A indicação de René de la Grange, pintor cujo atelier situa-se na Place des Vosges, aumenta seu conhecimento da geografia parisiense; “bastaram porém oito aulas para Sandro Lanari concluir que o professor bebia mais do que ensinava” (p. 23). Quanto a La Grange, faltava “psicologia”, “personalidade” nos retratos de Lanari. “Ninguém quer ser retratado como é, mas como gostaria de ser” (p. 24). Insatisfeito, Sandro vagueia pelas ruas, quando, na Rue Saint Antoine, é atraído por um intenso e galvanizante olhar, vindo de uma vitrine: “Não era uma pessoa. Era uma pessoa numa fotografia”.


Uma jovem. De qualquer ângulo trazia gravado o espírito do modelo, a verdadeira psicologia. Uma alegre prostituta de olhos transparentes de luz, envolta num pano à romana, alvo, com borlas e franjas. À mostra ficavam os ombros de uma carnação firme, curva e saudável. Os cabelos negros separados ao meio, eram as asas esvoaçantes da Vitória de Samotrácia. Ao pé do retrato, um cartão: L’actrice Sarah Bernhardt (p. 25).
O autor da fotografia, Gaspard-Félix Tournachon (1820-1910), o grande retratista francês, atravessou o século XIX, morreu aos noventa – em 1910 –, tornando-se muito cedo o famoso Nadar, aos vinte anos. Escrevia crônicas, folhetins, romances, todos em estilo jornalístico. Mas é a partir de 1846 que se aplica ao desenho brincalhão e zombador. Seu panteão – tornado célebre – aparece mais tarde, composto de aproximadamente trezentas criaturas. É para prepará-lo que utiliza pela primeira vez a fotografia, em ascensão naquele momento, paralela à ascensão do impressionismo, complementando-o, pois realizava de modo mais eficaz o que a pintura retratista não conseguia (Zilberman, 2001).

Pelas lentes de Nadar – responsável pela primeira foto aérea do mundo registrada de um balão de hélio –, cruzaram algumas das maiores figuras da época: Daudet, Gautier, Baudelaire, Dumas Filho, Vítor Hugo, D. Pedro II, o Imperador do Brasil, e... Sarah Bernhardt... “até Delacroix fez-se fotografar”! (p. 41) Dizia-se que capturava a alma dos modelos e, com um simples olhar, adivinhava seus rostos. Ma em O pintor de retratos o protagonista é Sandro Lanari, cuja vida se transforma no dia em que vê, naquela vitrine, a foto da grande diva do teatro internacional. Fascinado, procura seu autor para fazer-se fotografar. O resultado, porém, é desconcertante e patético: “não se parecia a nenhum retrato seu. Era de alguém ignorado, um Outro, que o fixava com um olhar obtuso, aturdido por uma obstinação equívoca e desagradável” (p. 34). Tal foi a impressão que causou no artista, que, ao recebê-lo em casa, junto encontrou um bilhete, preso por um grampo, que dizia: “Não mando a conta porque o senhor vai ilustrar minha galeria de tipos humanos”! (p. 34 ). Daí em diante, seu desapontamento é tamanho que ele declara guerra a todos os fotógrafos do mundo. De acordo com o narrador onisciente: “Naquele momento da História iniciava-se o ódio metafísico de Sandro Lanari a todos os fotógrafos-retratistas. E todos tinham um nome: Nadar” (p. 35).

Na segunda parte do romance, que se poderia chamar “da Europa para a América”, sem ocupação, Lanari emigra para o Brasil;

aliás, todo o mundo emigrava: seleiros, agricultores, sapateiros, lapidadores de vidro, artesãos de agulha e linha, chapeleiros, qualquer ofício, até artistas, todos iam para aquela selva. O que iam fazer no Brasil? Queriam ser devorados pelas feras? (p. 47).


Apesar disso, e depois de muito pensar, prevalecem as palavras do pároco: “...no Brasil eles vivem na bem-aventurança do paraíso terrenal, desfrutando as dádivas do Nosso Senhor. Quem trabalhar terá sua recompensa e ficará livre dos tormentos do espírito, dado que os da carne são inevitáveis” (p. 47). A frase “Merde! Pois emigre!” (p. 47), de um bêbado no bar que Lanari frequenta, não por acaso denominado “Barbare”, é decisiva e leva novamente a pensar em Rivas, para quem o sistema americano representa para a Europa o mito das origens, enquanto para o europeu a América representa a utopia do futuro. Neste momento do romance, o discurso literário de Assis Brasil transfere-se de cartografia para refletir a respeito do que é viver, produzir cultura em província ultramarina, analisando, por intermédio de seu protagonista, as relações entre as duas civilizações, cujo estranhamento de uma à outra data dos primeiros encontros, num procedimento de intercâmbios, que ressalta a singularidade do próprio em confronto com a diversidade do alheio, procedimento característico de múltiplas escritas por ocasião dos quinhentos anos das descobertas de Colombo, no fluxo das reconsiderações a respeito da presença europeia nas Américas e de suas consequências.18

Foi do porto de Marselha que Lanari partiu a bordo de um navio de carga. Atravessou o Atlântico entre os odores de gases fétidos dos companheiros de compartimento e o maravilhamento com o Cruzeiro do Sul para chegar a Porto Alegre num domingo de “calor úmido e viscoso” (p. 51) e instalar-se à Rua da Praia, na pensão de um compatriota, que o aceita em homenagem a Garibaldi, o Heroide Dois Mundos. O narrador enfatiza mais uma vez o lado primitivo local:


Os hóspedes comiam concentrados, e mastigavam de boca aberta. Sem guardanapos disponíveis, limpavam-se com mangas das camisas. Duas escarradeiras de faiança azul demarcavam o comprimento do salão de refeições; ali (...) cuspiam, segundo a educação ou a pontaria (p. 52).

O velho mundo – civilizado e culto –, permanece o modelo, enquanto as noções de unidade e pureza que Lanari trazia na bagagem sofreram reviravoltas, infiltradas progressivamente, contaminando-se pela mistura sutil e complexa que se dá entre elementos europeus e autóctones, abrindo o caminho para a transformação (Santiago, 2000, p. 15).

Lanari sobrevive como pintor de retratos – só havia um na capital, o Alcides, e era “inofensivo”. No entanto, para sua decepção, a cidade estava “infestada de fotógrafos-retratistas, e por cúmulo, todos italianos” (p. 55). Desde 1860 (Lanari ignorava), o Rio Grande conhecia a fotografia. Profissionais de estirpe – Carducci, Lucchese, Terragno – estabelecidos no centro de Porto Alegre, retratavam as pessoas e a cena urbana19. Reproduzia-se novamente na capital gaúcha o contexto da Cidade Luz. Tal qual Paris, onde os castanheiros “cobriam-se de flores piramidais que para nós, basbaques da parte Sul do mundo, são como pinheiros de Natal em miniatura” (p. 41), o prestígio dos pintores de retratos havia sido transferido para os fotógrafos-retratistas.

Em contraponto geográfico às flâneries parisienses, ou à paisagem pictórica de Ancona, agora “era o Guaíba” que Lanari via quando se espraiava nas tardes porto-alegrenses, “as águas (...) refletindo o fulgor do sol” (p. 55). Mas nesse “fim do mundo” (p. 56), habitado por uma sociedade rudimentar e tosca, no “rio tão belo” (p. 55) não havia heróis, batalhas, deuses; era apenas o Guaíba;


lá, (...) o Adriático, povoado por lendas de heróis descabelados e furibundos, varridos pelo colérico ribombar dos canhões, itinerário de bojudas galeras venezianas e bizantinas desde épocas sem memória, habitação dos deuses e cenário de batalhas decisivas para a Humanidade (...). E ele, Sandro, era um artista que trazia nas costas a Europa e seus séculos de civilização (p. 55).
Lanari define-se civilizado com relação a esse “lugar inferior”, revelando a dupla perspectiva que guia Assis Brasil, duas coordenadas, uma interna, a brasileira, e outra externa, a europeia. A genialidade do escritor também está em construir esse discurso, um olho voltado para lá, o outro para as entranhas de sua sociedade, cruzando ambos na figura de um Lanari descentralizado, atuando assim na perspectiva da “teoria do molho”, de Machado de Assis, segundo a qual “o artista pode ir buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o molho de sua fábrica” (Carvalhal, 2001, p.152).

Por ironia, é nessa “metade inferior do planeta” (p. 48) que Lanari vê a foto de Sarah Bernhardt ganhar vida. Ainda que a original fosse mais bela, a cópia gaúcha tinha nome de flor e carregava suas características. Chama-se Violeta, emblema da modéstia, “um picante mistério a ser desvendado. Passou a fantasiá-la perfumada, recém-saída do banho, envolta na veste romana, como no retrato de Nadar” (p. 75).

Hospedado na casa dos pais da moça, às noites do frio rigoroso de junho no Rio Grande do Sul, dos sonhos do jovem pintor ela frequenta agora seu leito. Perseguido pelo pai de Violeta, que o ameaça de morte, Lanari foge para o interior gaúcho, deixando o espaço urbano da capital por Rio Pardo, enraizando-se ainda mais nas terras brasileiras.

Desta vez, já na terceira e penúltima parte do livro, são atravessadas as águas do Jacuí. Foi na travessia das profundezas dos mares do Atlântico que veio outrora de Ancona, a terra natal, até estas paragens. A água, metáfora do destino, o conduz. Apesar da fragilidade que experimenta, o heroide Assis Brasil finalmente chega a um porto. “E para demarcar sua nova existência, liberta-se de Il Libro dell’Arte de Cenino Cenini, jogando-o num arroio de águas confusas: ‘Vai-te, petulante, que não tens nenhum valor nesta parte do mundo’” (p. 118); transforma-se doravante em artista ambulante para pintar o retrato de fazendeiros, vaqueiros e homens rudes, inclusive de defuntos. Em circunstância ao mesmo tempo trágica e fortuita, marcado pela “sede de ser”, torna-se fotógrafo e “centro de uma contradição insolúvel” (Santos, 2001, p. 6-7), ao participar como coadjuvante da Revolução Federalista (1893).

É então que Lanari tem sua experiência fundamental, quando, aliciado à força por tropas do exército de Júlio de Castilhos, ao registrar suas façanhas no pampa gaúcho, é obrigado a documentar, depois de uma batalha, a degola de um prisioneiro. “A última imagem, aquele que o desgraçado levaria para a eternidade dos séculos foi a de Sandro Lanari, o braço erguido, na atitude de quem deseja impedir algo” (p. 135). Como comprovação de sua arte e de seu talento, conserva a fotografia, que batiza de A foto do destino. Decide então que somente Nadar poderia admirar a sua terrível beleza, produto de um momento epifânico, de revelação irrestrita e, por isso, absolutamente inexplicável pela razão. E faz disso seu objetivo de vida.

As relações entre a civilização e a barbárie, seus limites quase invisíveis parecem sintetizados na foto... O próprio pampa gaúcho, que parece conter a alma do sul, transforma-se em assombração, uma contradição entre sonhos de grandeza e destruição, que formam os elos que dominam a narrativa de Assis Brasil.

Na última parte, de volta a Porto Alegre, Lanari consagra-se profissional requisitado, casa, tem filhos, prospera. Retorna então à Europa, onde o aguarda seu passado – e Nadar, cuja reação é de desespero ao ver a fotografia que lhe mostra. Culpa-o por não ter salvo a vítima fixada em flagrante terrífico. Se ao longo de toda a sua vida perseguira o “ser artístico”, primeiro na da pintura, depois na fotografia, sente-se agora derrotado. Rasga e joga fora a imagem, que alguns meninos tentam recompor, revelando a fragmentação da personagem. Com isso chega-se ao cerne da preocupação do autor: o sentido da vida e a questão da ética aplicada ao cotidiano.

Denominado por Assis Brasl de “exercício de essencialidade”, O pintor de retratos, ao relacionar dois universos oitocentistas diferentes, o da Europa e o da América, centrado na biografia de um homem, vem igualmente lembrar, em sua forma concisa, que foi o olhar estrangeiro o primeiro a interpretar o Brasil. O desembarque dos europeus no Novo Mundo suscitou “diferentes reações, desde o maravilhamento e o entusiasmo com que Cristóvão Colombo celebrou o encontro com os indígenas, até os menos entusiasmados alertas provenientes dos cronistas portugueses” (Zilberman, 2001). E nos faz pensar nas declarações do próprio autor:


Só pela história se entende um povo e sua cultura. Mas não sou um escritor de romances históricos. O que me interessa é entender os personagens, o que está por baixo. As pessoas, mais do que o fato histórico, que é o pano de fundo. Muitos acham que tenho vocação para destruir mitos, mostrar os podres dos personagens históricos e grandes famílias. O que quero é trazer à luz a paixão, o desespero, a tragédia pessoal de cada um [...]. O mito é revisitado para se descobrir sua humanidade20.
Embora ampliados os limites geográficos habituais da narrativa de Assis Brasil, além dos elementos externos ele aqui se fixa numa questão para muitos artistas e/ou intelectuais mais profunda: as tecnologias não são neutras; acima de tudo, são os homens (e as mulheres) que decidem sobre seu sentido e valor. Daí a frustração da perseguição utópica de Sandro Lanari. Ainda que como indivíduo possa ter sido um vencedor, seu arrivismo social impediu-o de entender a responsabilidade ética da arte.21

Referências

ASSIS BRASIL, Luís Antonio. Rompi com a grande família. Jornal do Brasil, 3 jul. 1993, p. 6.

CASTELO, José. “O pintor de retratos” é talhado a golpes de faca. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 12 ago. 2002.

CARVALHAL, Tânia. Culturas e contextos: um recorte no tema das relações Europa/América latina. In: COUTINHO, Eduardo (org.). Fronteiras imaginadas. Rio de Janeiro: Aeroplano, p. 147-154, 2001.

HANCIAU, Nubia. A feiticeira, personagem histórica e ficcional em três escritoras da América francófona. Porto Alegre, 2001. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

HOHLFELDT, Antonio. Assis Brasil. O pintor de retratos. Brasil/Brazil, n. 27, p. 101-103, 2002.

RIVAS Pierre.“Paris, capital da América Latina”. In: CHIAPPINI, Lígia & AGUIAR, Flávio. Literatura e história da América Lantina. São Paulo: EDUSP, 1993.

SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. In: ______. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

ZILBERMAN, Regina. Um artista e seus limites. Jornal do Brasil, Caderno Ideias, 11 ago. 2001.

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Cadernos Literários, Rio Grande: Editora da FURG, vol. 12, 2006, p. 55 a 59.

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