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A MARGEM IMÓVEL DO RIO


Desterritorializações existenciais e historiográficas em A margem imóvel do rio, de Luiz Antonio de Assis Brasil.
José Luís Giovanoni Fornos

(Artigo ainda inédito em meio impresso)



Os romances A margem imóvel do rio (2003) e O pintor de retratos (2001) formam um ”díptico”, expondo o “olhar estrangeiro sobre o pampa”, informa Luiz Antonio de Assis Brasil. O território gaúcho, a partir de um período histórico específico da vida nacional, é sondado pela visão externa que, diante das peculiaridades locais, é surpreendida profundamente. Tal observação não deve ser entendida como elogio. O escritor gaúcho trata a questão com ironia. No entanto, o propósito irônico é conduzido com retidão, informando que a decodificação das imagens seja inferida com liberdade. Nesse sentido, personagens e episódios devem ser interpretados abertamente, recebendo valorações distintas. A frase curta, característica predominante do texto, colabora para tal equacionamento.
Em A margem imóvel do rio, a ironia recai, em especial, sobre a natureza e função do historiador e sua relação com o poder. A questão é problematizada à medida que entram em ação “novos” territórios e sujeitos, pondo em causa a narrativa histórica quando escrita sob única perspectiva. É contra uma visão monológica, marcada pela crença na objetividade, que o romance depõe. Para tanto, ocupa-se da ideia da viagem como interrogação às formas puras de ser e estar. Numa dimensão crítica, a viagem historiográfica assume aspectos fantásticos, reais e trágicos. Tais características põem em questão os apontamentos da personagem central, um cronista oficial do reinado de D. Pedro II. Como funcionário da Monarquia, cumpre a função de registrar os eventos vividos pelos membros da coroa real, respeitando-os com a máxima objetividade.
O questionamento historiográfico emerge de um episódio singular: um bilhete de um estancieiro do Sul do país solicita um título nobiliárquico conforme promessa feita pelo imperador D. Pedro II, quando de sua visita às terras do solicitante 21 anos antes. Surpreso com o fato, uma vez que o pedido é referendado pela igreja, o imperador recorre ao seu cronista maior, ordenando que esclareça o fato.
Consultando cadernos de apontamentos, o cronista encontra ralas informações acerca da viagem referida. Ao não solucionar o problema, a personagem é obrigada a viajar ao Rio Grande do Sul, a fim de certificar-se da existência de Francisco da Silva, estancieiro que reclama o título de Barão. O cronista parte contrariado. Porém, a morte de sua governanta Cecília com a qual possui discreto enlace amoroso, motiva-o a realizar tal empreendimento.
A viagem adquire um potencial de transformação inédito na vida da personagem, mudando seu modo de encarar a vida e de observar o mundo. Igualmente, retrata a situação do sul do Brasil no final do século XIX, revelando um quadro geográfico e cultural diferente ao do centro do país.
Das pequenas rupturas narrativas que se somam no decorrer de A margem imóvel do rio, a primeira é aquela em que Cecília, posta em seu caixão, é descrita sob os efeitos de um “feixe de luz sanguíneo” que, ao iluminar o rosto da morta, dá-lhe equívoca vida, sugerindo a continuidade de sua presença em torno do discreto historiador. Equivocada ou não, a imagem da governanta acompanha a personagem principal em sua viagem ao Sul. Provém de Cecília igualmente um parecer acerca do Imperador do Brasil que surpreende o historiador. É sob o signo da incredulidade que o cronista vai, a cada instante, perdendo a irrestrita confiança nas concepções que cercam seu trabalho e existência. A discrição que o caracteriza, prende-o ainda mais a uma visão de mundo restrita, corroborada pelo cargo ocupado. Em que pese o trabalho regular e sistemático, “estranhos” fatos provocam o historiador, desmentindo sua prática, aumentando a curiosidade.
A imaginação encoberta por alucinações dá partida às dúvidas e lacunas deixadas pelos apontamentos. Sonhos, visões e a realidade concreta despertam o cronista de uma existência marcada pela rotina do trabalho burocrático e pela lembrança da esposa ausente. A viagem ao Sul põe em xeque sua vida pacata. O desconforto inicial causado pela mudança repentina dá lugar à aventura e a experiências inéditas, descortinando um mundo particular, permeado por figuras singulares que acabam por transgredir os propósitos iniciais da pesquisa, relativizando sua importância histórica para o país. Subjacente ao desafio oficial, surgem outras dificuldades que funcionam como metáfora do trabalho do historiador, disposto a rastrear a história real da comunidade, ainda que essa não faça parte diretamente dos preceitos da investigação.
Nessa perspectiva, o contato do historiador com o russo Anton Antonóvich Tarabukin, ocorrida fortuitamente durante a travessia de navio, causa a primeira interrogação real após a saída da capital do império. Outras situações, já em terras gaúchas, desempenham igualmente múltiplos sinais que acabam por ocasionar à personagem sentimentos de horror e perplexidade, alcançando, no final da jornada, estranho deslumbramento.
Responsável e confiante na solução da tarefa, o historiador busca informações acerca de Francisco da Silva, estancieiro que vive na Serra Grande, acidente geográfico sugerido pelo bilhete encaminhado ao imperador. Numa recepção festiva, em casa de uma figura de destaque na capital gaúcha, ao interrogar os convidados, é surpreendido com a existência de duas Serras Grandes, criando obstáculo inicial à sua expedição. Entre as cidades de Pelotas e Bagé, perto da estação de trem de Pedras Altas, fica uma das serras, a mais próxima. A outra fica além de Bagé, em direção à fronteira, informam os convidados, resumidas pelo historiador em seu vade-mécum, caderno de anotações onde registra informações de seu périplo sulino.
Dirigindo-se à Serra mais próxima, depara-se com novas dificuldades. Na estação de trem de Pedras Altas, o cronista imperial recebe a informação da existência de dois Franciscos da Silva. Procura o estancieiro de idade mais avançada, conforme os cálculos feitos conforme referência à visita anterior. Embora otimista com a possibilidade de descoberta, a personagem não esconde sua irritação aos costumes locais. Do jantar em Porto Alegre, oferecido em sua homenagem, à tagarelice do agente de estrada em Pedras Altas, o cronista mostra-se sempre indisposto à região visitada. Na chegada à primeira estância, denominada Porteira de Ferro, reafirma seu temor ao frio, diagnosticando uma natureza indomável. Nos apontamentos, observa o pampa como paisagem imóvel, única e perpétua. Destaca a simplicidade das habitações e vestimentas e o comportamento hospitaleiro, porém, seco dos moradores.
Como na estância Porteira de Ferro, o historiador igualmente frustra-se na visita à segunda estância chamada Santa Quitéria. Em ambas, dúvidas permanecem, esbarrando em sensibilidades distintas diante de um episódio ocorrido há muito tempo. A tarefa que parecia simples confirmação de dados torna-se, a cada movimento da personagem, matéria de crescentes enigmas.
Ao deixar a primeira estância para trás, mas com a promessa de ali retornar para o aniversário de 100 anos daquele primeiro Francisco da Silva interrogado, o historiador dá continuidade à sua pesquisa, seguindo em direção à estância Santa Quitéria, conduzido pelo cocheiro Isidoro, importante personagem que redimensiona o olhar do cronista acerca dos hábitos locais.
Ao chegar à Santa Quitéria, o historiador espanta-se com certos requintes, entre os quais, chama-lhe a atenção a presença de um piano. Ali, assegura-se de que o bilhete não pertence àquele Francisco da Silva. Contudo, como na estância anterior, acontecimentos estranhos marcam a visita, encobrindo segredos familiares antigos. Se na estância Porteira de Ferro o velho Francisco da Silva é chamado pelos familiares de louco, na Santa Quitéria ocorre o mesmo com Lisabel, filha do primeiro casamento do estancieiro. Ingredientes trágicos cercam a moça que surpreende o historiador ao tocar o prelúdio A gota d’água, de Chopin, obra musical que “quase todas as mocinhas do Rio de Janeiro, com muito sacrifício e muitos erros, tentavam executar a peça”(p.96) que, por sua vez, indica o destino narrativo da personagem feminina.
Dias chuvosos obrigam o historiador a estender seu tempo na estância, retirando do exílio forçado novas constatações acerca daquele território particular. Além do fascínio e proximidade com Lisabel, o cronista depara-se com a enigmática D. Augusta que se mostra inicialmente receptiva. Contrariando seu método de trabalho, a personagem percorre as cercanias da fazenda, acolhendo, nos galpões, os relatos dos peões acerca da visita de D. Pedro II, ouvindo, contudo, opiniões desencontradas. O gesto dá sequência a pequenas e contínuas rupturas assumidas pelo historiador.
Na estância Santa Quitéria, em contrapartida à execução musical de Lisabel, têm-se a deficiência auditiva de D. Augusta, reveladora de espaços de poder distintos, equacionados pela derrota da sensibilidade artística em vista do meio hostil. Todavia, em relação às características e temperamento do cronista, a hostilidade local funciona, paradoxalmente, como mecanismo inovador, resultando na cura de sua doença. Um zumbido intenso nos ouvidos acompanha o historiador, encobrindo outros significativos ruídos. Nesse sentido, o pampa gaúcho que, num primeiro momento é rechaçado, recobre metaforicamente o zumbido da personagem, desencadeando novas relações que põem em causa as formas oficiais impostas pelo poder, representado na condição de funcionário da monarquia imperial.
No entanto, o historiador reluta, deixando a observação subjetiva e o olhar feminino em segundo plano em sua pesquisa. A mulher como personagem da história é, em princípio, recusada. Após sua estada na estância, o cronista observa: ”Estância Santa Quitéria. Francisco da Silva 2: também é falso. Vacilou, e depois: Aqui vive Lisabel. Era a primeira vez que escrevia um nome de mulher no vade-mécum. Riscou logo, várias vezes. Aquilo não interessava à História, nem a seu relatório.”(p.106)
A infiltração fantástica e sexual das mulheres desmente, contudo, a escrita comedida. Embora ausentes do relatório oficial, as mulheres atuam clandestinamente, subvertendo, de forma silenciosa, a postura do pesquisador. A presença da índia Cândida, na estância do terceiro Francisco da Silva, representa a ruptura metodológica e existencial. No registro, o cronista altera seu ponto de vista acerca das mulheres: “Anotou Estância ‘do Baile’. Francisco da Silva 3: também não é este. Com um sorriso que escondeu de si mesmo, escreveu Cândida. Desta vez não riscou, ao contrário: sublinhou-o com um traço.”(p.120)
O encontro com a beleza selvagem da jovem desperta no cronista um estado eufórico que o arrasta a uma aventura, sem rumo, pelo pampa gaúcho, através da companhia de Anton Antonóvich e do francês Picard. O passado vivido sob um ritual repetitivo de horários e compromissos, representado no relógio de bolso Omega, dá lugar a uma viagem aLéatória pelas planícies sulinas, enfrentando as intempéries da natureza. A “gula ciclópica” do russo fascina o cronista que, envolvido pela energia física daquele estrangeiro, escreve em seu vade-mécum: “é feliz quem consegue comer uma fritada de ovos com toucinho”,(p.111), frase que toma como um ensinamento singular, subvertendo sua natureza retraída.
Bêbado e fanfarrão, o terceiro Francisco da Silva é descartado. O historiador decide, então, acompanhar Anton e Picard que estão na região à procura de ouro. O “ilimitado verde do pampa”, confundindo os pontos de referências, faz com que as três personagens se percam, pouco adiantando mapas, bússolas e relógios, índices civilizatórios que são destronados pela retórica da natureza exuberante. A natureza arrasta os objetos sacralizados, oferecendo outra visão acerca da história, longe das equações discursivas oficiais.
O episódio da travessia do rio onde as águas levam os produtos da cultura, é emblemático. A natureza interdita os valores da civilização. No entanto, o retorno do historiador às estâncias visitadas igualmente revela o lado trágico da região na qual, sob tal ordenamento, leva à morte figuras cercadas por outros valores. Lisabel reflete a perversidade local, sugerindo, metaforicamente, o difícil encontro do pampa com o progresso cultural.
Como Lisabel que se refugia na música para aplacar a solidão, também o primeiro Francisco da Silva, chefe centenário da estância Porteira de Ferro, dedica-se à elaboração obsessiva de cartas, segredo desfeito ao mostrá-las ao historiador. Música e escrita, alternativas de superação ao modus operandi local, são tratadas como excentricidades, postas em segundo plano pela comunidade. Todavia, dialeticamente, a região – com seus objetos genuínos – desencadeia uma necessária insanidade à vida do historiador, preso exclusivamente às formas oficiais do existir. A celebração da vida – livre e sensível – é extraída pelo confronto de paisagens – interiores e exteriores -, denegando os valores inicialmente perseguidos pela pesquisa.
Nessa perspectiva, o conhecimento do verdadeiro Francisco da Silva, solicitante do título, é minimizado em virtude do valor extraído pelas experiências múltiplas que cercam o cronista, fazendo com que o mesmo desista de escrever a História do Império por um Contemporâneo dos Fatos, encontrando, através da renúncia, a liberdade teórica e existencial para novas aprendizagens.
De outra forma, a descoberta do verdadeiro Francisco da Silva igualmente revela as transformações sociais, relativizando o status buscado nos títulos oficiais prometidos pelo Império. Segue tal relativização as mudanças políticas no final do século XIX no país, minimizando a pesquisa encomendada, tornando, sob o ponto de vista do historiador, em um “monstruoso anacronismo”, destronada pela emergência de um outro regime político.

O ruído perturbador nos ouvidos é substituído pelo barulho do pulsar emocionado do coração, fazendo com que a personagem experimente a “pureza de todos os sons do Universo”, deixando que frases mentais eruditas sejam suprimidas em nome da música.


Ao conceder a si mesmo o direito ao encantamento musical e ao riso, o historiador transforma-se, vagando, agora, livremente pelas ruas do Rio de Janeiro, surpreendido por um novo tempo político. Nesse sentido, a viagem ao Sul adquire dupla transgressão, já que destitui, num golpe espacial e temporal, os valores coletivos e individuais de um período histórico particular. Contudo, a embriaguez da liberdade soa irônica ao se perceber a personagem gesticulando e conversando só. Da emoção da liberdade surge certo descontrole, desfigurando uma identidade cultivada sob certos princípios.
Transbordamento e retidão são examinados com ironia. Em A margem imóvel do rio, o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil dialetiza tal posição, informando, com sutileza, o difícil equilíbrio entre impulsão e racionalidade. Conteúdo e estrutura refratam a temática do livro, mantendo-se, numa tênue suspensão, a utopia da imobilidade móvel, referida a partir do título do romance.
Conteúdo e forma assentam-se, dando, em todos os sentidos do texto, valor à verossimilhança em que, a cada nó dado, um desenlace é correspondido. A margem imóvel do rio é construído nessa concepção de maneira irreprimível, confirmando a escolha e o domínio de um estilo que, independente de outras problematizações narrativas mais acentuadas, são cultivados com segurança.
Nessa perspectiva, ainda que haja o questionamento da estruturação narrativa, histórica e ficcional, Luiz Antonio de Assis Brasil, recolhendo subsídios desse debate, não se furta em flertar, no entanto, com a performance do romance dialético realista, seja na escolha temática, seja na confecção da estrutura. Tal opção deriva do comedimento irônico que põe em causa tradição e renovação, expressas como margens imóveis de um rio.

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*Doutor em Teoria da Literatura.
Sonhos de nação





Maurício Melo Júnior


A formação social brasileira, por seus incontáveis fatos inusitados, tem sido um rico veio para os ficcionistas. O requinte chega ao ponto de vários autores estrangeiros buscarem aqui o ambiente para suas reflexões. Neste sentido é possível citar os exemplos do francês Jean-Christophe Rufin, que romanceou a passagem de Villegaignon pelo Rio de Janeiro, e do peruano Mario Vargas Llosa, que escreveu sobre Antonio Conselheiro e a campanha de Canudos.


A leitura desses textos revela um ponto curioso. Nem sempre o olhar estrangeiro consegue compreender e interpretar com plenitude as filigranas do caráter brasileiro. Há, quase sempre, uma exagerada opção pelo folclórico ou pela sensualidade. Não que faltem tais elementos em nossa formação, ou mesmo que nossos autores não caiam em tal armadilha. Aliás, esse foi um dos pecados de Jô Soares em seu Xangô de Baker Street. Mas todo exagero é sempre um caminho fácil, ilegítimo e limitado.


O melhor parece mesmo ser a opção de ler a reinterpretação histórica que vem sendo desenvolvida por nossos autores. Sobretudo por uma linha de escritores que tomam a história, não como fonte exclusiva para seus textos, mas como base para melhor entender o país atual. Aí ganham destaque, por exemplo, Antônio Torres e seu belíssimo O nobre sequestrador e Ana Miranda com o fino lirismo de Desmundo.

O gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil vai mais longe e constroitoda sua obra a partir dos dados históricos. Chega mesmo a dizer que não consegue interpretar o mundo sem pôr sobre ele a visão passada. Isso difere da trilha da pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira. Ao mesmo que a escritora é capaz de se debruçar sobre o passado, pode dissecar as angústias políticas e humanas modernas, como fez no intenso romance Voltar a Palermo. No entanto, os mais recentes textos desses autores, respectivamente A margem imóvel do rio e No tempo frágil das horas, guardam profundas similitudes. Mesmo se passando em espaços geográficos bem diversos, os dois romances parecem falar da mesma sociedade.

A margem imóvel do rio conta a história do Cronista da Casa Imperial, um homem fadado à mediocridade que se vê diante de um desafio: voltar ao Rio Grande do Sul em busca de um certo Francisco da Silva a quem o Imperador Dom Pedro II teria prometido um título de nobreza. Já No tempo frágil das horas fala de Antonia Carneiro da Cunha, prometida em casamento ao próprio tio no dia em que nasce. Com o passar do tempo, cabe a moça assistir à implacável decadência da elite canavieira pernambucana.


Os dois livros falam de sociedades enfraquecidas pelos reveses políticos e econômicos dos últimos momentos do Império Brasileiro. Enquanto no Sul são as guerras que ditam a falência da pecuária, em Pernambuco é o fim da escravidão que leva ao estreitamento da bonança. Na tentativa de deter o avanço inexorável, os homens se ausentam, vão para as guerras ou para as reuniões políticas. Enquanto isso as mulheres tocam a vida, administram os espólios do idealismo.

De certa forma, tanto Assis Brasil quanto Luzilá Ferreira falam da gênese de uma espécie de matriarcado subliminar. Nas duas sociedades são sim os homens que aparentemente ditam as regras, dão as cartas. Só que por trás de tudo está a palavra da mulher. Ela demonstra subserviência ao mando masculino, mas com suas atitudes definem os rumos da sociedade. Antonia Carneiro da Cunha, por exemplo, vive a contradição de ser abolicionista e senhora de escravos, mas é a brandura com que trata seus servos o fator determinante para que ela escape da falência plena.

Também no livro de Assis Brasil sente-se a presença desse domínio feminino. Logo no início da narrativa sobressai a presença de Cecília, uma mulher que com humildade e leveza leva o protagonista a rever todos os seus conceitos. De maneira mais direta. De maneira mais clara se desenha o perfil de D. Augusta, uma estancieira que toma a todos apenas com a rigidez e a aspereza de seus gestos.

No mais, são duas sociedades marcadas pelos sonhos de poder dos homens, pela ambição de aventureiros, pela subserviência dos serviçais, pela manutenção dos gestos nobres mesmo diante do caos. São duas sociedades aparentemente opostas, mas na verdade irmanadas pela formação de um caráter comum.

Embora escritores de longo curso, com carreiras consolidadas, respeitadas pelo público e pela crítica, Luzilá e Luiz Antonio não temem ousar. Eles trabalham com o que existe de mais moderno na literatura brasileira: o texto bem cuidado, com linguagem precisa e certa poesia transitando pelas frases. Depois do frisson em torno da urgência, do texto seco, direto e ágil, os autores retomam a função lírica da literatura. Naturalmente que não se busca aquele lirismo funcionário público de que falava Manuel Bandeira. Hoje o lirismo não é vadio, ele tem a missão de aproximar e envolver o leitor. Há uma necessidade de se trabalhar com mais rigor, somando análise social, profundidade psicológica e narrativa fluente. E são estes os ingredientes desses dois livros.

Ao desvendar o íntimo social do país, enfim, Luzilá Gonçalves Ferreiras e Luiz Antonio de Assis Brasil dão a pista para se entender a unidade cultural brasileira. Isso quer dizer que nossos antepassados pensaram sim em uma nação. Lições passadas com divertimento e tensão.


Correio Braziliense, Brasília, 6.nov.2003. Caderno Pensar, p. 6

Uma celebração da literatura
Moacyr Scliar

Cada novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil é uma celebração literária. Estamos diante de um mestre, de um escritor notável pela elegância da forma e pelo domínio da técnica narrativa. Mas Assis Brasil é, antes de tudo, um escritor amável. Entrevistado há meses, disse que estava trabalhando nesta nova novela, “saboreando cada palavra”. Ou seja: ele escreve com prazer, e este prazer comunica-se ao leitor através de suas histórias, como O pintor de retratos (2001) e o recém-lançado A margem imóvel do rio, ambos da L&PM. Os dois devem ser citados juntos pois, como observa o autor, formam um díptico. E, eu acrescentaria, correspondem a uma nova fase na sólida e consistente carreira de Assis Brasil. Ambos tem temática histórica, como muitos dos livros anteriores; mas ambos se diferenciam por assumirem a forma de novela. Este é um gênero pouco cultivado entre nós, o que é uma pena, porque na categoria de novela se enquadram grandes obras da literatura, como é o caso de A morte de Ivan Illich, de Tolstói. E Assis Brasil leva o gênero ao ápice do virtuosismo.

A trama é relativamente simples. O cronista da corte de D. Pedro II (imperador que, segundo Assis Brasil, correspondeu a uma “necessidade romântica”) é enviado à então província do Rio Grande do Sul com a missão de encontrar um estancieiro chamado Francisco da Silva. Esta jornada é o ponto de partida para uma notável incursão pelo Rio Grande do século XIX. Mergulho no tempo imprescindível para entender a sociedade gaúcha contemporânea porque, como diz Assis Brasil, “tudo no pampa pertence a uma outra era”. A galeria de personagens é absolutamente notável. Se o silêncio, como diz Horácio na epígrafe, zumbe sobre A margem imóvel do rio, a ficção de Assis Brasil ressoa vibrante sobre a margem sempre móvel da História gaúcha.
Zero Hora, Porto Alegre, 03.nov.2003. Segundo Caderno, p. 4
Um olhar estrangeiro sobre o pampa

Tailor Diniz


Se em O pintor de retratos tínhamos um Assis Brasil um tanto contido, mergulhado na desafiadora busca do essencial e da frase perfeita, em A margem imóvel do rio, seu novo romance, percebe-se um autor que, apesar dos mesmos desafios, mostra-se mais à vontade, livre da angústia que gera a incerteza dos novos desafios. Ao anunciar a produção de O pintor de retratos, Assis Brasil revelou que o livro marcaria uma guinada em sua forma de escrever, e o que se percebe agora, após a primeira experiência, é um texto liberto de uma possível falta de espontaneidade que, na releitura do livro anterior, poderiam sugerir alguns trechos.

A margem imóvel do rio é um livro musical, no qual as ações narradas se escoam do leito para a imaginação do leitor com a mesma serena naturalidade dos rios. Além das virtudes já vistas em O pintor..., sua nova obra tem como acréscimo a harmonia na qual a história flui, com frases enxutas e bem forjadas, que saem espontâneas, frutos que só colhem aqueles profissionais obstinados e íntimos do seu ofício.

Esses dois livros formam um díptico em que o ponto de ligação é o olhar estrangeiro sobre o pampa. No primeiro, Sandro Lanari, um fotógrafo atormentado e em crise existencial, vem parar no Sul e acaba participando como coadjuvante da Revolução de 1893. No segundo, o Cronista da Casa Imperial é enviado ao Rio Grande do Sul para localizar um homem a quem D. Pedro II teria empenhado a palavra quando aqui estivera, vinte anos antes. Lanari, enquanto vaga pelo pampa fazendo retratos de estancieiros, encontra um grupo de legalistas e é recrutado como fotógrafo oficial da tropa. Assim, entre uma batalha e outra, lança seu olhar estrangeiro sobre a insanidade da revolução e as características geográficas do pampa e sua gente.

Ao Historiador, enquanto vaga pelo mesmo espaço, na sua busca absurda por um homem a quem o Imperador teria prometido o título de Barão, as circunstâncias reservam outro tipo de gente: a caravana de um aventureiro a caça de ouro, onde as vilezas da alma humana estão constantemente de tocaia e prontas para atacar. Sempre tangenciando a tênue fronteira entre a loucura e a sanidade mental de seus personagens, Assis Brasil coloca o Historiador diante de criaturas de vários matizes, físicos e psicológicos, em visitas a estancieiros de comportamentos diversos, numa miscelânea que lembra, com a mesma fina ironia, os tipos que encontra pela frente o espertalhão Ivánovitch Tchítchicov durante seus negócios com almas mortas na Rússia do século 19.

A destacar neste novo livro de Assis Brasil dois detalhes interessantes: uma trama com algumas características da literatura policial, de investigação e um certo mistério, na qual o personagem principal se mete num emaranhado de situações complicadas, tendo como maior antagonista a precariedade da própria memória. O segundo detalhe é o realismo mágico que perpassa, sutil, alguns capítulos. Em especial aquele sobre a muda Augusta, mulher de um estancieiro, que lê as falas da empregada no movimento dos lábios; sua enteada reclusa, que só sai do quarto de madrugada para tocar piano, e a enchente que retarda a estada do Historiador na fazenda onde moram as duas.

Nesse terreno minado, onde muita gente boa perde o rumo, a sutileza de Assis Brasil convence de que a fonte pode ser eterna se em mãos competentes. Todas as cenas e situações descritas têm explicação e são verossímeis na própria realidade. O clima criado em torno da narrativa é que dá o tom sobrenatural à história. A competência do autor está justamente aí. Não trilha o caminho fácil de usar o sobrenatural para explicar o absurdo. Prefere dizer que a mente humana sofre influências violentas do meio em que vive, tanto geográfico como político e cultural, e que os absurdos a atormentar as almas de suas criaturas se explicam neste mundo mesmo, na índole não raras vezes opressora e obsessiva de seus habitantes.


Aplauso, Porto Alegre, dez. 2003.ano 6, n. 52, 2003, p. 48-49.

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