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A margem imóvel do rio

Paulo Scott


A margem imóvel do rio (Editora L&PM, 2003), do conhecido escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil é um livro que merece toda atenção, força ao resumo (de cinquenta e dois capítulos breves e bem estruturados) os limites existenciais de um velho historiador, cuja condição de cronista da Casa Imperial, ao ser lembrada numa questão menor da rotina monárquica e às vésperas da passeata republicana de 1889, servirá para lançá-lo num carrossel de ocasiões que saltitam às pressas e que o precipitarão no desaconchego definitivo.

O texto inteiro justifica o início (ou reinício) contido no último parágrafo do livro. Haverá, antes dele, dois outros igualmente marcantes: os que estão no último parágrafo do prólogo e no antepenúltimo parágrafo do epílogo. Nesse meu contar de leitor, são três passos (ou saltos, dado o caráter de nítida ruptura) que resolverão a vida do protagonista. O primeiro passo tem como antecedentes quinze capítulos - será o mais grave; nele se encontra, ainda, a prudência (notoriamente enganosa a partir de certa altura da história; é possível dizer, com relação a esse aspecto, que a narrativa busca veladamente trair o leitor) e o conflito (surgido nas tentativas que são cada capítulo) presentes na tarefa que o protagonista se deu: a de "organizar a alma" - e, após iniciado, tomará trinta e cinco capítulos e meio, até o segundo passo, e o terceiro. Entre os três, há mistério - o mistério que é possível a todos nós e se apreende no exaurir da identidade que serve de prisão à própria vida -, ele está no protagonista, mas também nos ambientes que se lhe escolhem para corresponder.

Nesse sentido, o ápice da narrativa foi deixado na seguinte passagem, onde o autor combina as almas de todas as mulheres da história, e, por arranjada coincidência, todos os desafios de insanidade e não:"Dado que criados não tocam piano, vivia mais alguém na casa. Ele deixou-se dominar pela ideia de ir ver. Levantou-se e empunhou o trinco da porta. Abriu-a. O perfil de uma jovem mulher ao piano repetia-se no espelho oval. O rosto desvelava-se pela luz das duas velas nos castiçais aplicados ao instrumento. As velas iluminavam também a partitura. 'Essa jovem não mostra uma beleza na obrigatoriedade geral de serem belas, e que tanto exigimos das mulheres.' Era bela por ser única, o queixo talvez um pouco projetado para a frente, ou o nariz pequeno demais. Toda essa assimetria ressaltava pela exatidão dos cabelos penteados em bandós idênticos. Ele procurou uma cadeira na penumbra. Era justo no momento em que a jovem feria o acorde final, o qual ficou ressoando pela força dos pedais. A seguir ela abriu outro livro de partituras e o pôs na estante do piano. Ele pôde ver que as mãos eram brancas (...) Ela agora começa o prelúdio A gota d´água, em que o intérprete martela com obsessão uma única tecla com a mão esquerda, enquanto a direita realiza uma fantasia de todas notas lentas." Sem dúvida, é um trecho belíssimo.

Destaco também a linguagem do narrador - que não é brasileira, mas algo de "entre caminho" desta (nossa) e a portuguesa. Numa leitura apressada (como, por exemplo, as de verão, já que Assis Brasil é autor que vende bastante e atinge todo tipo de leitor), o conjunto pode sugerir um quadro inofensivo. Mas, o final e o que nele (de assalto imensurável) ganha e perde o protagonista provam claramente o contrário - quando, justificados, tangenciam o preço da redenção.




Revista eletrônica Bestiário, ano 1 número 4 - junho de 2004

Acessado em www.bestiario.com.br

Contemporâneo dos fatos
Miguel Sanches Neto

Um romance histórico típico acaba sendo sempre uma paródia de maneiras de ser e de falar, o que o torna propício a adaptações televisivas e cinematográficas, em que o anedótico e o artificial se sobrepõem à profundidade narrativa. Em uma época em que romance e cinema vivem uma relação de simbiose, esta modalidade tem sido muito comum. Mas o bom romance histórico só é histórico naqueles aspectos indispensáveis, sem carregar a mão nem na linguagem de época nem na descrição de hábitos, vestuários, paisagens, personalidades etc.

Autor identificado com esta corrente de nossa narrativa contemporânea, por sua preocupação em entender o Rio Grande do Sul, Luiz Antonio de Assis Brasil consegue fazer uma ficção em que os elementos históricos estão antes implícitos em obras que primam pela naturalidade. O segredo de sua literatura talvez seja entregar-se aos fatos narrados como uma cuidadosa contemporaneidade e não como alguém que, preso ao presente, olha um tempo perdido e só o enxerga por suas marcas mais salientes. A chave do bom romance histórico, quer me parecer, não está no uso de linguagens e eventos do passado, mas em conseguir capturar um ritmo condizente com o momento em que se passam as ações.

Embora ligado a seu romance anterior (O pintor de retratos, 2001), por tratar de viajantes no sul, o novo livro de Assis Brasil – A margem imóvel do rio, L&PM, 2003 – tem uma vida totalmente independente e parece responder melhor a esta naturalidade narrativa que reivindico para o romance histórico. O seu ritmo tem a placidez de um tempo em que as viagens eram mais lentas e em que havia um senso de continuidade. Não há dissonâncias neste romance que vai do começo ao fim no mesmo registro musical. Em todos os capítulos, manifesta-se uma música suave, algo como o barulho do movimento de águas calmas.

A ideia de imobilidade, presente no título, remete a uma contradição. O personagem principal é o Cronista da Casa Imperial que deve voltar ao pampa, 21 anos depois de sua viagem com o Imperador, para esclarecer um pedido de título nobiliárquico que não teria sido concedido. Está em jogo a palavra do Imperador, e este seu servo responsável, cumpridor de suas funções, apesar de recentes perdas sentimentais, tem que deixar a corte e vagar em uma geografia que lhe é praticamente estranha, pois ele foi acometido pela ausência de memória.

Em sua viagem pelas paragens campestres, ele se move em círculos. A circularidade aparece de três formas. 1) Temporal: por um lance do acaso, ele volta no mesmo navio usado duas décadas antes e escolhe o mesmo camarote, num processo de progressivo rejuvenescimento. 2) Geográfica: ele sai de Rio Grande e faz o périplo em espiral, primeiro seguindo um mapa, depois perdendo-se junto com uma expedição à procura de ouro, tomada mais pelo desejo de movimentação do que por um objetivo certo: “aquela busca ávida e insaciável de acumular aventuras, sem preocupar-se com os resultados” (p.124). 3) Simbólica: há vários estancieiros que trazem o mesmo nome, Francisco da Silva, confundindo-o: “como num jogo de espelhos, os Francisco da Silva iriam multiplicar-se ao infinito. Podia até imaginar as suas caras, suas falas, suas ambiguidades, seus jogos de esconde-esconde” (p.122). No final, o procurado é o primeiro – um pequeno comerciante que ele havia descoberto assim que desceu no porto de Rio Grande, tendo, no entanto, logo descartado esta hipótese como improvável. A imagem do círculo preside todo o romance e está estampada no anel de uma das estancieiras, que “usava o broche da cobra mordendo o próprio rabo” (p.153).

A mobilidade, logo, é ilusória. Por mais que o personagem percorra os espaços, ele está dentro de uma paisagem enganadora, porque repetitiva, e de uma sociedade em que os papéis sociais são sempre os mesmos. Fica sugerido um apagamento da individualidade no pampa, visto como algo que não pode ser lembrado, o que empurra o Historiador para uma espécie de terceira margem do rio, o sem-tempo. Ele se esquecera totalmente de sua longa viagem com o Imperador e agora repassa, tateando as trevas de sua memória, lugares que são sempre idênticos.

Sob a mobilidade aparente, descobre a imobilidade deste rio que é o tempo. Como historiador, o Cronista crê que a permanência das coisas está na fixação dos eventos pelo uso responsável da palavra. Ele deve escrever a História para garantir alguma possibilidade de permanência e é um lapso seu, pois não registrara corretamente a passagem de D. Pedro II pelo Rio Grande, que o obriga a voltar e corrigir a falha. Nesta travessia, ele não descobre nada relevante, mas percebe que o sentido do homem não reside na sucessão dos acontecimentos, como ele sempre acreditou, mas na permanência anônima da vida, que não se perde com as mudanças da superfície. Esta descoberta é de grande importância pessoal, pois o coloca em sintonia com Cecília, a mulher morta dias antes de sua partida. Ela estará com ele, mesmo sendo antes uma sombra.

Voltando à corte, o Historiador descobre que mudou o cenário político, iniciando-se a República. Sente-se supérfluo neste novo sistema, mas ele já se libertara de suas funções ao descobrir, neste périplo triplamente circular, que não é na história que está a permanência do homem, mas no que sobrevive à história. A sua revolta contra o peso dos fatos se completa com o fim do Império. O Cronista renuncia a seu projeto de testemunhar os acontecimentos, pacificando-se com o mistério da existência: “Desisto de saber se o português é o verdadeiro Francisco da Silva. Desisto de escrever a minha História do Império por um Contemporâneo dos Fatos. Pôs um ponto final. Desistia de escrever qualquer História. Ele tinha certeza de que, agora sim, era um homem livre” (p.162). Ele pode, enfim, sentar-se na praça e contemplar o mundo de sua margem imóvel.

Esta constatação do Historiador pode ser lida ainda como defesa de uma prática do romance histórico que não se funde na casca dos eventos. Para Otto Maria Carpeaux, “a história não se faz com armas e tesouros; a história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. A verdadeira história passa despercebida, tranquilamente, no centro da alma humana” (Ensaios reunidos. Topbooks, p.96). Assim, a verdadeira narrativa histórica deve ocupar-se antes dos dramas interiores, tal como acontece neste A margem imóvel do rio, prova de que a literatura necessária tem com objeto o homem e seus fantasmas.



Gazeta do Povo, Curitiba, 01.dez.2003, p. 8.

A margem imóvel do rio leva País de volta aos tempos do imperador Pedro II
Moacir Amâncio

Se nada é mais fictício do que a história, nada mais adequado para discuti-la do que o romance, que se torna a ficção da ficção. O narrador de A margem imóvel do rio (L&PM Editores, 176 págs., R$ 28) sabe disso, mas não seu personagem, o Historiador, serviçal ideológico de d. Pedro II, encarregado de uma missão kafkiana às avessas. Nas narrativas do escritor judeu checo, há sempre um títere querendo chegar a algum lugar, pleiteando acesso a uma esfera superior, sem resultado positivo. No caso do romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o postulante é que surge como o problema.

Trata-se de um tal Francisco da Silva, estancieiro gaúcho, que através de carta reclama de d. Pedro II um título de nobreza supostamente prometido a ele durante uma visita imperial à região dos pampas. Como o imperador não pode faltar com a palavra, será preciso descobrir quem é e onde se encontra Francisco da Silva. A missão cai em cima dos ombros combalidos (ociosidade também abate) do Historiador. Ele num navio rumo aos enigmas que pairam sobre as coxilhas do Sul, em busca da solução de um mistério do passado, sem ter a menor ideia de que algo ocorrerá no meio tempo, alterando tanto o futuro como passado e presente.

Mas atenção, é com boa mão de romancista e não de historiador frustrado que Assis Brasil monta a narrativa, ou seja, criando uma dinâmica que se explica dentro dela, na relação de fatos e da psicologia dos tipos expostos no cenário da contingência temporal. Sem isso não existe massa crítica literária capaz de propulsionar a trama e levar com ela o leitor. O entrecho parece simples, não as suas consequências.

O Historiador sai em missão burocrática para descobrir o artificialismo em que foi produzido e vive, a deparar com fatos humanos naturais e sobrenaturais, o que confere ao romance um discreto tom de sátira fantástica. Há tantos Franciscos da Silva, tantos com provas mais ou menos verossímeis de que são o "verdadeiro", que a coisa se complica. No final das contas, todos são ou nenhum poderá ser. Ao descobrir o inexplicável das situações e das pessoas, descobre a si mesmo, embora isso também não sirva para muita coisa.

Um escritor menos consciente do ofício poderia cair na armadilha e repetir, mesmo às avessas, o fim dos textos de Kafka, inacabáveis por definição. O títere fica esperando, etc. Assis Brasil dá o passo adiante, como disse, passando aí pela prova de fogo do romancista que se preza, buscando sempre o caminho de seu próprio texto, para surpreender o leitor, no caso, com uma gargalhada e um lamento.

Assis Brasil mistura o conto de estrada, o picaresco da tradição peninsular, com o romance de atmosfera intimista, numa linguagem rápida e segura, adequando-a de modo surpreendente a essas faixas literárias. Às sombras do mundo de uma moça que caminha consciente para a morte, acrescenta o grotesco de um suicídio com um tiro na... nuca. A suspeita, claro, cai sobre a madrasta, mas quem poderá ter certeza de que a moça não teria forjado o próprio assassinato para incriminar a megera surdo-muda faminta de sexo que se insinua para o lado do Historiador, a essa altura ainda um frade-de-pedra, preparando-se para a queda que o elevará ao nível do humano?

Essas variações de ponto de vista no plano dos personagens e que movem o conto, são também expressão da impossibidade de certeza sobre os fatos tidos convencionamente como históricos. Tudo dependerá da intepretação de alguém em determinado momento. O mito, quando desfeito, logo será substituído por outro de ocasião, referendado pelo Historiador da hora. É com sutileza que o autor trata da questão da malha arrecadadora e o mito do centro que sustenta o poder tido como central, do qual cada província se sentirá distante, partindo em busca de outros mitos inúteis, sem perceber que as diversidades regionais jamais podem ou deveriam ser submetidas a modelos homogeneizantes.

É aí que se fecha o arco dessa ficção sobre a ficção da história (a ambiguidade do termo é um dado de riqueza idiomática, ao contrário do que pensa quem adota o equivocado estória - apenas passável em Guimarães Rosa), justificando-se como experiência efetiva em ambos espaços de um território que se revela contínuo. Território por onde passa um rio com as margens fixas e as águas que levam adiante o rumor de seu próprio movimento. A propósito, o livro começa bem a partir da epígrafe.
O Estado de São Paulo, São Paulo, 26.10.2003.
Zumbido intermitente das cigarras

Fabrício Carpinejar


É curioso notar que boa parte da narrativa brasileira recente está se voltando às viagens para fora do país, à procura da estranheza e do confronto cultural. São os casos de Mongólia, de Bernardo Carvalho, Budapeste, de Chico Buarque, e Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll. Todos esses escritores grifam o nome das localidades exploradas nos títulos e partem da compulsão de universalizar a experiência. A língua estranha cumpre a metáfora de algo remoto e desconhecido. O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil caminha na contramão da caravana. Em seu novo livro A margem imóvel do rio (L&PM, 128 páginas, R$ 28), completa um díptico com o "Pintor de retratos", prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em série chamada de "Visitantes do sul". Ao invés de sair do Brasil, o autor entra nele como uma geografia misteriosa. Articula um olhar livre sobre o que se julgava conhecido, mostrando que o Brasil está longe da unidade e de se perceber com nitidez. Em O pintor de retratos (2001), Assis Brasil acompanhava a chegada do artista italiano Sandro Lanari ao Rio Grande do Sul, onde ele enfrentava a ascensão da fotografia, um ambiente passional de guerras e fraturas políticas do século XIX e a influência de Nadar, o mais célebre fotógrafo francês do período. Em A margem imóvel do rio, oferece a história do cronista oficial de Dom Pedro II, que precisa checar a promessa imperial de transformar em barão o estancieiro Francisco da Silva. A palavra da Corte havia sido empenhada há vinte e um anos e a tarefa não é a das mais fáceis, já que Francisco da Silva era tão comum quanto o chimarrão e o toucinho. O historiador deixa o Rio de Janeiro para suportar o inverno rigoroso das estâncias, cavando pistas a partir das anotações da expedição anterior. Essa é uma das virtudes da obra. Se antes era mais visível a imersão de um estrangeiro, na figura de um italiano descobrindo Porto Alegre, agora esse estrangeiro é – paradoxalmente - um brasileiro, da sede do governo, que ruma ao sul como quem é designado a um forçado exílio. O primeiro choque surge do exacerbação das diferenças regionais. Com agudeza crítica, Assis Brasil coloca as ideias fora do lugar. "Revoadas de aves migratórias subiam para o Norte. ‘Só eu venho para o sul e para o frio’", diz o personagem.

Com mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros publicados, Luiz Antonio de Assis Brasil não está brincando. Seu texto prima pela transparência narrativa. Uma jóia radiofônica sem arestas e desperdício. Não é forçoso dizer que se trata de seu melhor texto, tanto tecnicamente como pela sua capacidade de atordoar. A densidade psicológica se expressa na ambientação externa, nas lacunas dos fatos. Os rompantes líricos são combinados harmoniosamente para atuar como contrapeso à objetividade. "Tivesse ouvidos sadios, já poderia escutar o caminhar macio dos lobos-guarás em seus hábitos crepusculares."

Nada é gratuito e aLéatório, os fios vocabulares e cordões de pensamento atendem unicamente à necessidade da história. O historiador sofre de Tinnitus Aurium, ou seja, o zumbido intermitente de cigarras nos ouvidos que não permite sequer estar em silêncio. Essa doença contagia a própria operação das frases: curtas, elípticas e letais. Em um lance machadiano, o romancista internaliza o tema a ponto de ele virar o próprio epicentro do estilo, evidenciado nos sobressaltos, nas obsessões descritivas e na fixação dos cenários. A narração provém da irritação do personagem de não escutar o silêncio, de precisar se distrair para calar a si mesmo. O romance pode ser visto como um tratado sobre a imobilidade da fala. Fala-se para não se ouvir. "O silêncio completo não existe, pois jamais um som poderá ser fracionado até o fim, sempre restará algo dele." O silêncio aqui não é líquido, como sugere o título, mas empedrado, imutável, inaudível. Os outros personagens fortalecem a caracterização da trama. O historiador encontra a surda-muda Dona Augusta, esposa de um dos possíveis Francisco da Silva. Ele ambiciona não escutar como ela. Sua deficiência total é vista como uma cura. Pior é ter uma deficiência parcial como a dele, que o coloca entre dois mundos e nunca integralmente em um deles. Outro dado: Francisco da Silva, que ficou viúvo justamente no momento em que retornava de sua primeira viagem do Rio Grande do Sul, vai despertando sua sexualidade adormecida à medida que avança em sua missão. As mulheres vão se avolumando uma nas outras: a esposa falecida na criada Cecília, a criada na jovem e atormentada pianista Lisabel, Lisabel na índia Cândida. As mulheres vão se completando para consumar a mudança de personalidade do historiador. De temperamento distante e impessoal, converte-se em um homem frágil e presente, duvidando da infalibilidade de sua memória, instrumento de seu trabalho. "De que idade estou falando, se tenho em mim todas as minhas idades?".

Da encruzilhada feminina, emerge o outro pulmão do enredo: o esquecimento, que não deixa de ser um modo áspero de silêncio. O historiador questiona suas lembranças e pior, suas anotações de viagem, documentos que constituem a história brasileira, sem espaço para a subjetividade. Sente vontade de preencher o espaço com suas vivências, mudando o foco de observador e testemunha distanciada dos fatos para uma posição autoral. Acostumado a servir quer ser servido. Presente na antiga expedição onde a promessa de título de barão fora feita, tenta reconstituir os lugares que passou e as pessoas que viu, mas não os reconhece. "O que é uma lembrança, senão a lembrança de uma história?" No ponto em que sua memória começa a trai-lo, age mais livre para viver fora dos cadernos. Não nasce mais unicamente de sua letra, admitindo improvisar e dispensando a consulta dos roteiros. "Seu passado começava a tornar-se mais imprevisível que o próprio futuro."

O objetivo da procura termina sendo secundário. Catalogando os Francisco da Silva em falso ou verdadeiro, percebe que esses critérios não representam o passado, feito de impressões e não acontecimentos. Assim como quando se procura uma coisa não se acha e quando não se procura é que se encontra. Na verdade, o cronista caça provas de que existiu e passa a aceitar o esquecimento como um destino mais generoso do que a morte, essa sim, a forma mais extremada de quietude, onde se escuta, porém não se pode comunicar o que se ouve. A desmemória crescente não é exclusividade do protagonista. A História costuma também se esquecer e se apagar violentamente, como prova o Epílogo. Não serei eu a denunciar e estragar o prazer da leitura.
Rascunho, Curitiba, nov. 2003, p. 8


O silêncio e o murmúrio dos fatos em A margem imóvel do rio22
Débora Mutter – UFRGS
Y mientras de más alto caigas,

más larga tu duración en la memoria de la piedra.

(Vicente Huidobro, Altazor).

Considerando as relações entre Literatura e História, apresento algumas reflexões sobre o romance A margem imóvel do rio, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil. O cenário ficcional situa-se na efervescente penúltima década do século XIX no Brasil. Para cumprir uma promessa feita pelo Imperador Dom Pedro II e contra a sua vontade, o Cronista da Corte é forçado a deixar a capital carioca e vir ao Sul para localizar um fazendeiro chamado Francisco da Silva. A promessa é a concessão de um baronato para retribuir a hospitalidade recebida por ocasião da passagem do Monarca pelo pampa sulino, vinte anos antes. Porém, uma cordilheira de obstáculos se ergue entre o funcionário imperial e o seu objetivo. É assim que ele penetra em um mundo que, inicialmente, parece-lhe hostil. Conhece homens e mulheres que destoam da sua pacata rotina de viúvo de meia idade e, após inúmeras aventuras, pistas falsas e experiências extraordinárias, ele encontra o candidato a barão, porém descobre ter perdido a finalidade de sua incumbência.

Pela quantidade de referências cruzadas com o plano histórico, parto das relações dialógicas entre dois níveis: o interdisciplinar e o intertextual. Fatalmente, a escolha exige uma consideração sobre os discursos envolvidos: o histórico e o literário, pois a propriedade discursiva é intrínseca a qualquer gênero literário ou não, permitindo a concepção de imagens. Para isso, utilizo conceitos da imagologia, que tanto servem às produções do espírito quanto a outras.

A interpretação histórica da ficção na sua dimensão mítica, como saber que organiza o real, funda e cauciona um discurso que se faz relevante para a abordagem cultural como autoridade. A leitura racional a posteriori da história por meio da identificação de certas regularidades e/ou reiterações em obras artísticas recusa o modelo único e possibilita o seu alargamento, pois é sensível à alteridade. Assim, as representações do Outro contidas no imaginário social, que integram o conjunto mais complexo da história do imaginário, permitem tratar documentos literários e artísticos como plenamente históricos sob a condição de ser respeitada a sua especificidade.

Do nível interdisciplinar, recolho n’Amargem uma reflexão teórico-filosófica sobre a natureza de ambas as disciplinas que, por razões de espaço, não aprofundo aqui. Limito-me a dizer que a trajetória do Cronista Imperial em busca de um suposto candidato a Barão chamado Francisco da Silva, às vésperas da República, no pampa rio-grandense — terras meio esquecidas por Clio —, leva-o ao encontro de seus próprios fantasmas. A circunstância o eleva ao patamar emblemático de personificação alegórica da via crucis da disciplina História, em um período que vai desde as práticas anteriores às convicções do apogeu positivista do Século XIX até o relativismo e o paradoxo atuais, especialmente no que se refere à escritura. Espaço partilhado por ambas as disciplinas.

No plano intertextual, identifico pontos de articulação que sugerem novas realidades sobre o nosso passado e suas imagens. Sejam oriundas do texto histórico, sejam das representações ficcionais. Tradicionalmente, o objeto de estudo da imagologia são as imagens de países configuradas em obras poéticas. Segundo Pageaux, a imagem é:

o resultado de uma distância significativa entre duas realidades culturais. Ou melhor: é a representação de uma realidade cultural estrangeira através da qual o indivíduo ou o grupo que a elaboram (ou que a partilham ou que a propagam) revelam e traduzem o espaço ideológico no qual se situam (p.40)

A partir daí, tem-se uma base para investigar também o discurso histórico. A questão é redefinir o conceito de estrangeiro não no plano da nacionalidade, mas da cultura. Um país de dimensões continentais como o Brasil, na condição de ex-colônia portuguesa e com histórico de imigração, não só permite como exige que se amplie a noção de estrangeiro a pessoas de mesma nacionalidade quando evidentes as diferenças culturais e ideológicas. E a experiência da viagem, tal como a concebe Pageaux, é o meio eficaz de interrogar a personalidade do protagonista, a sua ideologia, a sua maneira de ver e de sentir – distinguir sua equação pessoal, ou seja, separar o que é aquisição cultural e o que é confissão individual.

Após a adesão afetiva que alia o leitor ao herói, aguçando a curiosidade quanto à importância da missão para os acontecimentos políticos do país, surge a frustração e a dúvida. A interdição das expectativas leitoras aparece porque o tal Francisco supostamente verdadeiro, quando encontrado, dispensa o título. Esse relâmpago de fatalidade que atravessa a narrativa lança uma luz inesperada e estranha sobre o contexto histórico. A partir daí, mesmo o leitor mais desatento reconhece um escandaloso paradoxo na relevância dispensada pela Casa Imperial ao assunto em momento tão delicado para a monarquia. É então, e com a mesma sensação de engodo e de sem-sentido que atinge o Historiador, que sentimos certa coerção para buscar um segundo sentido ao que se lê. É esse efeito que insinua o território alegórico como possibilidade interpretativa. Mas é também aí que os silêncios da narrativa conquistam atenção. Silêncios que são estratégicos e estão insinuados ou murmurados tanto nas epígrafes de abertura e encerramento do romance quanto no mal que aflige o Historiador: um zumbido insuportável nos ouvidos.

A interpretação alegórica, porém, conduz a reflexão às teorias e à filosofia da História, que ora não aprofundo. Já os silêncios remetem a elementos factuais e ficcionais. Nesse ponto, abrem-se dois caminhos a partir da interdisciplinaridade. De um lado, o diálogo com a História, de outro, com as suas representações artísticas; englobando-se aí, além da própria literatura, o cinema, a fotografia, a pintura, etc., que coincidem no espaço e no tempo com os eventos aludidos. Não obstante, sigo no viés das imagens constituídas a partir da ficção com relação às preexistentes nos arquivos do imaginário cultural literário.

Na obra, tanto o Historiador brasileiro como o Monarca revelam percepções de estranhamento maiores com relação ao Sul do que personagens efetivamente estrangeiras como o russo Ánton e o francês Picard – aventureiros em busca de ouro – ou a criada portuguesa Cecília. E é precisamente este aspecto, embora não o único, que sugere uma espécie de duplo entre o Historiador e o Monarca.

As impressões de alteridade do Historiador, para além de realçarem a sua condição de viajante estrangeiro, reforçam, em analepse, as impressões do Monarca com relação ao Sul, mostrando o quanto o Imperador era um estrangeiro, por ser um estranho em seu gigantesco Império. Estabelecida esta conexão de ressonância cultural entre as duas personagens, são diversas as opções revisionais de imagens sobre a época. Por ora, destaco a de D. Pedro II, que se constrói basicamente no silêncio ou no eco da imagem do protagonista.

Um Sul marginal – geográfica e culturalmente – emerge do imaginário de ambos. A imagem do Sul como território gélido, meio castelhano, bárbaro, lugar de guerras e sedições, pouco brasileiro (p.12) é do Imperador do Brasil, mas, a partir daí, desdobra-se no Historiador condensada, na sensação de um frio que não era completamente meteorológico, mas algo mais amargo, como um desamparo e um afastamento (p.59). Igualmente quando este demonstra a sua perplexidade ante as relações interpessoais dos nativos: Ali tudo assumia um ar meio transtornado (p.89). O atributo de bárbaro e transtornado utilizados por ambos intensifica a aproximação perceptiva.

A conexão permite constatar que ambos são culturalmente europeus, embora nascidos no Brasil, e revela impressões de alteridade que, na perspectiva imagológica, define-se como fobia. Mas, para além do aspecto cultural, a conexão entre ambos abrange aspectos psicológicos. Por exemplo, um certo ar de ausência pertencente ao Imperador que parecia estar sempre querendo fixar-se em alguma outra coisa que nunca era o que lhe queriam dizer. Abreviava sempre os diálogos ao dizer já sei, já sei, fosse para livrar-se do tédio, fosse porque estivesse distraído com seus próprios pensamentos. A distração é também característica do Historiador e exaspera o diligente e interessado Mordomo-mor da Casa Imperial, quando constata que ele sempre dava a impressão de estar longe de onde estava (p.15). No entanto, aos olhos da criada Cecília, a mesma é positiva, pois crê que os distraídos são generosos. Pertence a ambos também o apagamento de lembrança do fato ocorrido no Sul – revelando memória afetiva similar. Se D. Pedro II tinha decisões categóricas (p.11), o protagonista, por sua vez, tinha fama de opiniático. O que não sabiam era que logo se arrependia (p.23). Ademais, há uma identificação interpessoal entre ambos que reforça a conexão e se traduz na admiração mútua. Verifica-se uma espécie de idealização, cujo modelo cultural europeu, corresponde ao conceito de philia, ao diálogo igualitário entre a cultura que olha e a que é olhada. Adesão identificadora. Conforme a narrativa, o Historiador devota ao Monarca um fascínio muito além das contingências humanas (p.29). Este vê no Historiador um exemplo de perfeição nos moldes europeus quando afirma que se todos os funcionários fossem como Vosmecê, nosso Império seria igual aos da Europa (p.39). Consolidando, assim, a idéia de espelhamento ou de duplicação.

De certa forma, a partir do espelhamento entre as personagens, o estereótipo conhecido de D. Pedro II acaba atingido. As representações literárias do Monarca, as imagens construídas pelo discurso histórico e a própria memória leiga de tradição oral apresentam-no como o vulgo o via à época: Pedro Banana. Um pouco frívolo, frágil, desinteressado das questões político-administrativas, apaixonado pelas artes. No entanto, a intimidade do leitor com o Historiador no espaço da narrativa faz com que se solidarize de forma profunda a este e assim volte o olhar ao Imperador.

A descida forçada do Cronista ao Sul, que inicialmente revela o fardo do historiador no seu enfrentamento com as ambiguidades metodológicas do ofício metaforicamente — borgeanamente —, se constitui em um processo de descida ao íntimo de si mesmo, libertando sua sensibilidade reprimida, sua capacidade para cair. Por outro lado, tal processo de autoconhecimento empurra naturalmente o leitor a um processo análogo, mas em outro viés. Se a personagem de Borges, atravesado y transfigurado pela imensidão da paisagem, vastidão que apesar de tudo era íntima y secreta, chegou a sospechar que viajaba al pasado y no sólo al Sur (p.528), essa outra viagem ao Sul feita pelo Cronista leva-o a admitir que estar no Sul significa estar em lugar nenhum (p.123). O que não é lugar, não é espaço; logo, é tempo. É o passado imemorial do Sul e do Brasil. Isso conduz o leitor a um movimento similar com relação ao seu passado histórico.

Apesar dos acontecimentos políticos candentes à época, a narrativa entrega-nos uma personagem cujas convicções, valores éticos e estéticos são mais evidenciados que os políticos. Estes, pode-se dizer que são ausentes, ou seja, um dos silêncios da narrativa.

A sensação de desamparo e afastamento (p.59) do herói pressupõe um lugar que é o seu lugar. Digamos seu centro geográfico e cultural, mas também emocional, pois havia perdido uma pessoa querida – a criada Cecília. Ao sofrer esse descentramento, ele se torna ex-cêntrico. Como se pode deduzir, tal condição de descentramento ou ex-centricidade deriva também para o plano ideológico.

Neste aspecto, é bastante significativa a época em que a trama se situa por duas razões. Primeiro, por ser o Outono da própria monarquia. Segundo, porque essa antevéspera da nossa república é também o momento em que começam a se fragilizar as convicções do positivismo e da História como ciência imparcial. Sem alusão direta a isso – apenas num murmúrio que depreendemos dos conflitos do Historiador –, a narrativa institui como antagonista a própria tomada de consciência do herói sobre essa realidade. O fato de que era o cronista, mas que se sentia um Historiador antes de mais nada (p.13), além do dilema com relação à objetividade, demanda a observação das diferenças entre a função de cronista e a de historiador. O Cronista estaria vinculado a uma fase anterior ao positivismo; o historiador, ao contrário, imbuído das certezas da História. Ocorre que os ideais republicanos também estão vinculados ao positivismo. E a personagem é, em aparência, um monarquista. Isso antecipa um conflito ou paradoxo que repercutirá na imagem do próprio Imperador, a partir da projeção que o texto estabelece entre ambos. Naturalmente, os significados latentes resultantes da análise, para que adquiram um significado social e cultural (já não apenas textual), deverão ser confrontados com os dados históricos. Não obstante essa ausência de comprovação factual ou histórica, o texto suscita e suporta tais interpretações em especial nos recursos narrativos que garantem os efeitos superlativos do real.

A metáfora do outono que se instalara no espírito do Historiador (p.17) intensifica o jogo de imagens e a dualidade possível da narrativa. Quando se inicia a trama, apesar de já instalado o outono oficial (p.12), ainda fazia muito calor, causando incômodo ao Monarca — Outono que reflete sobretudo as circunstâncias da Monarquia. E, novamente, embora de ângulos diferentes, cruzam-se liames entre as duas personagens. A função de cronista está aparentemente obsoleta ou em desuso na rotina do Paço, pois o Mordomo, apenas por causa de uma inspiração, lembrou-se dele, situação sugestivamente análoga à condição do Monarca.

O Historiador como duplo do Monarca incita à revisão das causas e dos desdobramentos históricos da república e levam a suspeitar que o sacrifício imposto ao Historiador é, mantidas as proporções, similar ao que foi submetido o Monarca. Basta lembrar-se de que não foi amado nem temido: foi uma necessidade romântica (p.11). A pergunta que se faz é: necessidade de quem? A impressão de fardo ou de sacrifício é reforçada com a afirmação de que precisava defender-se do tédio (p.11) de seu ofício. O tédio pressupõe que não havia uma motivação, uma causa e um sentido pessoal no seu ofício. Do mesmo modo, muito o Historiador desconhecia as origens daquela incumbência (p.10).

Conforme a obra, as sátiras dos jornais humorísticos da época chamavam-no de “Defensor Perpétuo do Brasil, Protetor das Ciências e das Artes”. Entretanto, ao mostrar o senso de disciplina e ética do protagonista, a fineza de seu espírito e seu lado encantadoramente humano que repercutem na figura do Monarca, a obra de Assis Brasil faz brotar no leitor, ironicamente, a imagem de um D. Pedro II meio mártir da república brasileira. Sua vida de homem teria sido sacrificada pelos interesses de alguns. Aqueles mesmos que teriam dita necessidade romântica e queriam preenchidas suas vagas aspirações de antigüidade e nobreza (p.11). Aqui surge também a necessidade de revisão da memória farroupilha e de como as elites rurais sulinas contribuíram para tal. Murmúrio que a narrativa nos entrega na alusão a PEDRAS ALTAS e no ar de segredo e mistério que o herói experimenta na fazenda do centenário Francisco da Silva, sugestivamente nascido 1789.

Se para a Monarquia a metáfora do Outono remete a um tempo cronológico – tempo dos homens –, linear, sem retorno; para ambas as personagens o Outono remete a um tempo cíclico natural. Após o inverno sulino, com a primavera, o Historiador renasce como homem e liberta-se de seu passado e das contingências que o submetiam a estar secando como um fruto longe do pé. Assim, quando a Proclamação da República oficializa a liberdade já conquistada pelo Historiador, no silêncio da narrativa, repercute como liberdade também do Imperador.

Para além dos destinos das personagens, o tempo cíclico remete ao tempo mítico, tempo da escritura. Lugar onde presente e passado são a mesma e única coisa: a palavra do homem, atravessada de subjetividade, grávida de seus passados, de seus discursos e de suas imagens.

Sem levar ao extremo a redução das fronteiras entre História e Literatura, voltamos ao ponto que parece básico, qual seja, a escritura. Seja literária, seja histórica, vive de uma espécie de autofagia ou de autodevoração que leva ao infinito, à busca infinita, que se insinua tanto nas cartas do Francisco centenário – inacessíveis ao herói – quanto na Serpente que come a própria cauda no broche da mulher do mesmo estancieiro. Busca cuja consciência verbaliza-se na voz do russo Ánton.

O estudo de imagens em literaturas específicas fortalece e dá subsídios ao diálogo imagológico. Seja no âmbito da própria literatura em questão, seja no processo dialógico com outras literaturas ou outros discursos. Além de identificar as imagens nacionais dentro de um contexto mais amplo – globalizado/mundializado –, podem-se monitorar as suas modificações no tempo e no espaço auxiliando na compreensão dos processos que as geraram. Mas, sobretudo, o quanto tais imagens nacionais retornam e são recebidas de volta pelo leitor num processo de autoconhecimento e reelaboração de pontos obscuros, porque a imagem do Outro está sempre relacionada à imagem do Mesmo.

A estratégia analítica histórica em consórcio com a imagológica não pode ser negligenciada, uma vez que opera com elementos de uma realidade que nos diz respeito como nação de terceiro mundo preocupada em dotar-se de uma História própria, fruto da necessidade de definir uma identidade coletiva e pensar seus sistemas de valores.

Para concluir, afirmo que a abordagem imagológica concede À margem um lugar privilegiado nas tendências do gênero. Resume a paixão e o renascimento do Historiador na relação de amor e ódio com a imaginação e, de quebra, alerta sobre a importância de percorrer e explorar o itinerário paciente e implacavelmente preparado para essa personagem nas produções anteriores do romancista em razão da intratextualidade/transtextualidade. A definição, o confronto, a comparação das imagens que povoam muitas de suas obras é indispensável para a discussão imagológica em nível nacional e entre países no atual cenário cultural expandido a limites impensáveis.

Por tudo isso, A margem funciona como um farol iluminando novas rotas a serem exploradas, e a imagologia fornece instrumentos adequados para navegar no rio ou no mar da ficção e do tempo, mostrando que a margem da História pode ser relativa e inesperadamente móvel.


O mito em A margem imóvel do rio de Luiz Antonio de Assis Brasil 23

Fernanda Rodrigues Garcia

Mestranda Letras PUC-RSRS

(Ainda inédito em meio impresso)


O objetivo deste texto é identificar estruturas míticas na narrativa A margem imóvel do rio, analisando a presença de símbolos universais e a forma como eles estruturam as ações.

A relação da humanidade com seus mitos se transformou ao longo da história. Karen Armstrong24 divide em seis os períodos de modificações que foram fundamentais na concepção humana de suas mitologias.25 A nossa modernidade ocidental estaria, segundo ela, num tempo de culminância de uma mentalidade que começa a se formar a partir de 1500, cuja característica fundamental seria a incompatibilidade entre o logos científico e o mito. Nesse tipo de mentalidade, o mito foi associado a modos primitivos de pensamento e o logos elevado a única maneira possível de alcançar a verdade; esta precisava ser reduzida ao que era demonstrado e demonstrável, o que, deixando a religião de lado, excluiria também as verdades reveladas pelas artes.

Ao elevar o logos à única verdade possível, paradoxalmente, criaram-se mitos funestos, que conduziram à destruição, massacres e genocídios. E a humanidade, perdida no vazio da racionalidade que não conseguiu resolver os problemas e nem ajudou a encarar a perspectiva de vazio e extinção, tornou-se desesperada, ansiosa e neurótica.

Mas nossos mitos sobreviveram, metamorfoseados e multiplicados, principalmente através de nossos artistas. Se os líderes religiosos não podem nos instruir no conhecimento mítico, nossos artistas e romancistas talvez possam ocupar esse papel sacerdotal e apresentar uma nova visão a nosso mundo perdido e avariado, pois como escreveu Bernadette Bricout: no tecido do céu como no tecido dos textos, onde constelações míticas se deixam entrever, escreveu-se o sonho dos homens.26

Em A margem imóvel do rio, do título pode-se depreender uma relação intertextual com a frase heraclitiana sobre a impossibilidade de se descer duas vezes o mesmo rio. Para Heráclito havia uma lei natural ordenadora, denominada Logos que a tudo comanda27. No mundo tudo flui e tudo está em continuo movimento, um dos princípios da historicidade. Mas o título refere à uma margem imóvel, e, sendo imóvel, está dessujeita às leis da história, inscrevendo-se, assim, no campo do mito, pois este, de acordo com Mircea Eliade28, é anistórico, vive no tempo cósmico, circular, em contraposição ao tempo linear e irrepetível daquela. A contraposição entre história e mito, ou entre logos e mito, se apresentará, no decurso da narrativa, sob outras imagens significativas, as quais quero apontar mais adiante.

A narrativa se inicia com um prólogo, uma prolepse de um momento fundamental da narrativa: a ajuda sobrenatural para que o heroiparta para à aventura que foi chamado. Estamos no início de 1889 no Brasil monarquia sob o governo do imperador Dom Pedro II. A reclamação de um título nobiliárquico prometido há tempo a um estancieiro do Rio Grande do Sul chega à Corte. Para que seja cumprida a palavra imperial é preciso, antes, descobrir quem é o tal requerente Francisco da Silva, para tanto, chamam à presença o cronista imperial que acompanhara o imperador na viagem ao sul há vinte anos atrás.

O cronista, auto-intitulado Historiador, é o protagonista da história. Incumbido da função de anotar todas as atividades de Dom Pedro durante a expedição, nada anotara sobre tal fato e em seus cadernos de apontamentos apenas uma nota breve, Francisco da Silva, Campos do Rio Grande, nada mais de sólido e confirmado. O imperador pede, então, que parta para o sul e descubra o requerente. Mas viajar para o sul é tudo que o Historiador não gostaria de fazer. Tentando prorrogar o máximo sua decisão, segue seus dias solitários de viúvo na companhia de Cecília, uma moça que viera para lhe auxiliar nas coisas de casa. Acostumado já a solidão, estranha quando pela jovem começa a sentir desejos. Cecília corresponde. Mas quando a declaração de amor chega, é tarde: ela já compartilha dos primeiros sintomas da febre amarela que veio a matar centenas de pessoas no Rio de Janeiro naquele tempo.

O velório de Cecília é a situação descrita no prólogo. É a partir deste acontecimento que o Historiador decide: A morte de Cecília era o sinal: aceitaria a missão que lhe davam (p.10).

Se decalcar a estrutura mítica descrita por Campbell29, teríamos justamente as etapas iniciais: O heroié chamado à aventura, recusa o chamado, mas recebe ajuda do sobrenatural que o impele a partir para cumprir sua missão.

Partir é deixar para trás o mundo cotidiano, conhecido e cosmogonizado em direção ao desconhecido do caos. O mundo do historiador é emblemático: a sua casa foi sempre a mesma, nela nascera e até então vivera, dela conhecia cada palmo no escuro. O seu centro por excelência. O sul, ao contrário, é o lado esquerdo do sol, o sentido que leva para baixo, onde reside seres nefastos e o Deus da Morte. É a direção da ação e da destruição 30. Mas é preciso partir: E amanhã ele precisaria fazer algo para dar sentido a tudo que até então chamara, apenas por displicência e tédio, de vida (p.53)

O “herói” então parte. Chega ao Sul. A direção contrária a tudo: Revoadas de aves migratórias subiam para o Norte. Só eu venho para o Sul e para o frio.(p.61).

Em Rio Grande toma conhecimento da existência de um Francisco da Silva, comerciante de secos e molhados. Mas não o chega a conhecer. Um comerciante dificilmente seria aquele que procurava. A sua missão lhe parece mais difícil que imaginara: Francisco e Silva são nomes abundantes por estas terras. Tem em mãos informações sobre alguns outros estancieiros que assim se chamam, e à procura deles parte. Durante seu trajeto irá pernoitar na casa de três Franciscos da Silva. O três pode nos revelar alguns aspectos interessantes da jornada do Historiador : o três é um emblema (p.108). Indica o primeiro universo, mas que só será plenamente manifestado com o quatro. O três exprime um mistério de ultrapassagem, de síntese, de reunião, de união e de resolução. Marca o limite entre o favorável e o desfavorável. São três as coisas que destroem a fé do homem: mentira, impudência e sarcasmo.31

Na casa do primeiro Francisco, a Estância Porteira de Ferro, o proprietário é um ancião quase centenário. O quarto de dormir era daqueles em que, mal fechada a porta, a solidão se instala. Nesta noite Cecília aparece a ele, um anjo protetor que lhe dá a lenta certeza de que algo eterno e maternal vela por ele [...] Viveu um momento de vertinosa felicidade, superior a qualquer ideia de qualquer filósofo. (p.76). O logos que nunca alcança a superioridade indizível do mito.

Francisco da Silva centenário é o limite entre a loucura e a lucidez. Nestas paragens o historiador perde-se entre ditos e não ditos - “Doutor, não acredite em nada do que disserem os da minha família” . De um momento para outro, escreve, passei a classificar os homens em verdadeiros e falsos. Lembrando o três: são três as coisas que destroem a fé do homem: mentira [...]. O historiador parte da fazenda Porteira de Ferro.

Chega na casa do segundo Francisco, a Estância Santa Quitéria. O historiador perplexo vê que sua memória cada vez mais o abandona. Tudo o que até então escrevera em seus vade-mecuns de nada valem: sua memória, todavia, era um vazio em que não entrava luz (p. 87). Na estância está somente a esposa de Francisco, os criados e uma filha misteriosa. A fazenda apresenta maior requinte que a anterior, no entanto paira no ar uma atmosfera sombria: devo sair logo desta casa. Sinto um miasma de morte que percorre as paredes (p.95). No álbum de família uma foto da comitiva imperial que ali estivera há vinte anos atrás e num assombro, viu-se a si mesmo. Ele aprecia atrás da imperatriz [...] era apenas ele, ocupando um lugar, olhando o infinito. Mas onde a lembrança daquilo? Inteirava-se com aflição, que seu passado começava a tornar-se mais imprevisível que o seu próprio futuro. “Sim, aqui sou eu, mas não sou o mesmo de hoje” .



O esquecimento, escreve Eliade32, equivale ao sono e a perda de si mesmo, isto é, a desorientação, à cegueira. A passagem citada é emblemática deste processo. O historiador olha atônito a si mesmo em uma foto mas não consegue se encontrar na imagem. Quem era aquele eu que ficou perdido no tempo? Mas é preciso salientar: há uma diferença entre memória e recordação: uma memória perfeita é, pois, superior à faculdade de recordar. De uma forma ou de outra, a rememoração implica esquecimento, e este, equivale à ignorância, à escravidão e à morte (Eliade)33 ou ainda: os perfeitos nunca perdem a imagem da verdade e não tem necessidade de a rememorar. A história então, como símbolo da recordação, é inútil : Os acontecimentos históricos propriamente ditos, não têm significado [...] a História não pode constituir um objeto de conhecimento ( Eliade).

O Historiador, como representação da história, é a memória que de nada serve, como bem ele percebe: tudo o que havia anotado em seus cadernos como história não lhe auxiliam, são palavras vazias e sem referentes concretos, nem ele mesmo: Onde estiveram? Como pode uma comitiva imperial perder seu rastro na História? Entendia, e até perdoava-se, de não confiar em suas lembranças, agora que já não podia confiar nem nos seus próprios escritos.

O tempo torna-se chuvoso, adiando a sua partida de Santa Quitéria. Nesse ínterim são figuras misteriosas que se movem: uma filha que pouco aparece, uma madrasta surda muda com estranhos ímpetos. Os contornos de uma tragédia. Impudência

Na quinta feira a chuva cedeu... Ele, então, parte.

A partir deste momento da narrativa, a linearidade temporal vai se transformando em tempo cíclico : deixou-se pairar num espaço em que o presente e o passado são uma coisa só. Teve um sonho rápido como um rio, e nesse rio havia uma canoa. Os remos, ao emergirem, levantavam irisados arcos de água (p.101) . - Mas qual a minha idade real? Melhor: “De que idade estou falando se tenho todas as idades dentro de mim?” (p.111). A história vai se perdendo no mito.

De trem ele vai até Bagé, quando reflete: decisão reafirmada, era a sua terceira e última investida na descoberta de Francisco da Silva. Três é um emblema. Depois de experimentado o três, tudo pode ser afirmado, de bem ou de mal (108). Em um estabelecimento comercial conhece o último possível Chico da Silva, um sujeito pouco provável de ser quem procura, mas o acompanha até a Estância do Baile, a casa do terceiro Francisco.

Nas duas estâncias em que estivera, o quarto em que o imperador dormira há vinte anos atrás era cuidadosamente marcado, asseado, e até mesmo nunca mais usado. Na casa do terceiro Francisco, ao historiador destinaram o quarto imperial : nunca imaginara isso, dormir onde dormiu o Monarca.



Mais surpresas lhe estavam reservadas: Ao deitar-se na cama do imperador ele não tinha mais ideias [...] Pouco depois, alguém abria a porta. Ele acendeu a vela. Era uma jovem, meio índia [...] debaixo do dossel imperial, sobre o colchão imperial, revolvendo-se nos imperiais lençóis, ele possuiu Cândida com a urgência desesperada de quem sente desfazer-se em si o nó da vida. Cândida correspondeu-lhe com todas as formas possíveis de amar, e nunca se cansava. (p.117/118).

E neste momento o Historiador e o Imperador não são entidades distintas. O que fora reservado a um, pertence agora ao outro. As contingências circunstanciais se desfazem. Se o imperador, como dissera Cecília: é um homem igual aos outros, o historiador agora descobre: ainda sou homem. Mais um limiar é ultrapassado: Ao acordar, e já era dia, ele soube de imediato o que significara a noite anterior: pela primeira vez, em toda a sua vida, ele acordava com a claridade do sol. “O que eu fazia com todas essas longas manhãs? (p.121). Este amanhecer vai simbolizar o renascimento do homem, o primeiro de toda a sua vida: Como o mundo se renova, é uma celebração em minha homenagem. p.121. É o seu instante de recuo no tempo e ao caos original, de onde tudo pode voltar a ser tudo, a noite, como escreve Eliade, de onde todas as manhãs nasce o sol, simboliza o caos primordial, e o nascer do sol é uma réplica de cosmogonia34.

Voltar ao tempo original, tempo forte e sagrado, como o define Eliade, é a única maneira de garantir a renovação total do Cosmos, da vida e da sociedade. A plenitude e o vigor encontram-se no começo. O historiador se reencontra com o seu momento ad originem: em muitíssimos anos, seu primeiro ato de homem livre. Hoje, na voluptuosa sensação de quebrar o gelo com os tacões das botas, ele soube que estava no Sul, distante de tudo o que lhe impunha um determinado lugar no mundo. No caos dos começos, longe do seu espaço sagrado, o homem pode ser tudo novamente. O sul, como representação do espaço caótico, da direção da morte, é também onde tudo pode recomeçar, pois sendo o oposto do norte, a ele é complementar. O sul leva ao norte e, este processo de descontinuidade cíclica, é a base dos processos de encadeamento iniciático da morte e do renascimento.35 Estar no sul significa estar em lugar algum - estar em lugar algum é estar no momento original, atemporal, o regresso ao amorfo da morte que leva, enfim, ao renascimento.

O terceiro Francisco conclui o triângulo do três, ou seja, o mundo foi manifestado. Ele pode não estar ainda compreendido, pois a compreensão só virá no 4.

O Historiador deixa a Estância do Baile, na despedida, o terceiro Francisco lhe diz: “o senhor velho como é, pode padecer na viagem” [...] não sou tão velho quanto você imagina, Seu Chico Silva (p.123) . Sarcasmo.

Como havia decidido anteriormente, a busca do Francisco da Silva, não continuaria, como num jogo de espelhos, os Franciscos da Silva iriam multiplicar-se ao infinito. Podia até imaginar suas falas, suas ambiguidades, seus jogos de esconde-esconde (122)

´ Já longe da Estância do Baile, o historiador no Hotel dos Viajantes, soube que, ao contrário do que sempre pensou, a vida não lhe impunha nada. O prazer da noite passara, como passa qualquer prazer, mas fica o gosto de experimentar algo repentino e voluntário. No Rio de Janeiro ele organizara suas horas e minutos como um rito. O que antes lhe dava conforto era, ao mesmo tempo, o que o sufocava (p.125). A vida renascida traz o recomeço de uma nova existência com todas as forças vitais intactas.

De acordo com Eliade, uma das formas de renovação da existência, de curar a ação do tempo, é recuar no tempo até a origem. Esta experiência está explícita na narrativa: “estar com aquela gente era uma experiência que o colocava num outro tempo, próximo ainda ao instante da Criação.” Imergir no instante primordial, enquanto experiência mítica, não é acessível ao logos: Esse sentimento, que era o primeiro de sua vida, ele não sabia como escrever no vade-mécum, nem sequer organizar as frases na cabeça. Suas palavras, palavras da Corte e dos livros de História, ali no sul eram inúteis [...] como descrever o cheiro, esse vento que corta o rosto e deixa azuladas as mãos - e mais: esse ar de infinita liberdade que se infiltrava nos membros e se propagava por todo o corpo? - Esse é o momento em que o sagrado revela a realidade absoluta36, e o homem é contemporâneo dos Deuses, participa do espaço e do tempo sagrado. O tempo sagrado não flui, é um tempo atemporal, pertence à eternidade: Naquele momento, no bolso de seu colete, sem que ele soubesse, o Omega deixou de funcionar (p.130).

Imerso no mítico, o historiador passa a andar em círculos, os lugares em que estivera retornam: volta à estância do primeiro Francisco, este completa 100 anos. Volta à estância do segundo Francisco: Lisabel, a filha misteriosa fora assassinada pela madrasta. A bússola confunde os pontos cardeais - os pontos cardeais estavam de lado opostos - o sul então é o norte, o norte é o renascimento.

O três está completo. Não manifesto: Ele fazia a barba, no quarto da Pensão Ideal [...] sobre a cama pousava um bilhete que lhe haviam trazido dez minutos antes: “Se o senhor ainda quiser falar comigo, estou na portaria. Atenciosamente, Francisco da Silva”

O quatro foi utilizado para significar o sólido, o tangível, o sensível. A totalidade do terrestre, do criado e do revelado37: “ Pois bem, sou eu mesmo. Escrevi ao Imperador com o que me resta de movimento nestes dedos [...] O imperador me prometeu esse título de que o senhor fala, Barão da Serra Grande. O quarto e o “verdadeiro” Francisco. Aquele primeiro de que ouvira falar o historiador logo que chegara no Sul, mas o qual nem esperara para conversar. O mito é isso: aquilo que está tão claro e tão fácil mas não o percebemos - o distendemos em tão extensas provações até entender que a verdade é tão mais simples de ser encontrada: tudo que antes parecia mentira, agora começava a fazer sentido. Estava ali o homem. Toda a procura estava materializada à sua frente (p.161)

Mas quando se entende é tarde, nada faz muito sentido: pôs um ponto final. Desistia de escrever qualquer História. Ele tinha a certeza de que agora, agora sim, era um homem livre (p.162)

Voltar ao Rio de Janeiro, cruzar o trópico. Voltar ao seu Norte. Era tudo o que iria fazer agora: depois que entregasse o relatório, iria requer sua reforma. Mas, foi então que soube [...] não havia mais Império. Proclamara-se a República há dois dias (p.165).

Olhava para aquela inesperada inutilidade. Nada daquilo fazia mais sentido, e seu cargo de Cronista da Casa Imperial transformara-se do dia para noite numa monstruosidade de pomposo anacronismo. O Historiador e a História definitivamente esvaziadas: a memória pessoal não entra em jogo: o que conta, é rememorar-se o acontecimento mítico, o único digno de interesse, por que é o único criador. É ao mito primordial que cabe conservar a verdadeira História, a história da condição humana: é nele que é preciso procurar e reencontrar os princípios e os paradigmas de toda a conduta (Eliade) 38.

Ele era agora um Homem. Sem nome. Imerso na verdadeira história da condição humana: algo sucedia de extraordinário e belo [...] na plenitude daquilo que apenas acontecia no vácuo dos sonhos, e que ele desejava apenas como uma efêmera benção noturna, ele pôde, enfim e para sempre, experimentar a pureza de todos os sons do Universo. Naquele arrebatamento feliz, tentou formar uma de suas eruditas frases mentais para descrever o que sentia, mas frases não eram mais necessárias: sua alma, a partir de agora, compunha músicas (p.167). Tudo fica claro e simples. Não há mais necessidade de palavras. O logos é insuficientemente precário para dar sentido a plenitude de um universo que é uma sinfonia cósmica. O heroiconquista a liberdade de ouvir. A liberdade de viver39.
A margem imóvel do rio

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