Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



Baixar 2.4 Mb.
Página36/44
Encontro18.07.2016
Tamanho2.4 Mb.
1   ...   32   33   34   35   36   37   38   39   ...   44

Léa Masina


(Ainda inédito em meio impresso)

Cada livro novo que Luiz Antonio de Assis Brasil anuncia é sempre esperado com merecido entusiasmo por leitores cativos e novos, e a isso o autor fez jus, ao longo de sua carreira literária. O reconhecimento por sua obra tornou-o também merecedor de alguns dos mais importantes prêmios concedidos a escritores nacionais. Além disso, como todos sabem, ele é um mestre nas artes da escrita, habilidade que partilha com escritores em processo de formação.


Num certo sentido, A margem imóvel do rio independe dos antecedentes literários do escritor. Independe é modo de dizer porque, na verdade, o livro repete e amplia muitos dos acertos que fizeram de Assis Brasil um romancista brasileiro de sucesso. E nesse ato de repetir e ampliar, oferece aos leitores a finura de um estilo que amadurece para dar conta das sutilezas do espírito. Seguro de seu ofício, o autor se despoja dos adereços da linguagem, contando sua história com a elegância e a fluência dos grandes narradores clássicos.
Mas, em que reside, precisamente, a qualidade literária desse romance? Ela é sentida no primeiro impacto da leitura, no refinamento da frase, no delicado trato com a linguagem e na competência para usar a palavra certa, le mot juste que referiu Flaubert. Esse domínio da linguagem traduz – e esse é o termo exato – uma intenção autoral que se dá conhecer aos leitores como um tratado afetivo e humano sobre os sentidos e a memória. Dizendo de outro modo, a narrativa revela uma visão particularíssima de tudo o que um corpo sente e absorve pelos sentidos para, aos poucos, transformar em alma. Mais precisamente, o texto registra as diferenças entre um sujeito e seu objeto, e com isso insufla vida, pela mágica da ficção, a um tratado humanista, a uma reflexão sobre o homem. Os temas eternos do tempo que foge e da busca de sentido para a vida são aqui reinventados: a ironia, característica do escritor, cede lugar a uma pacificação da alma, quando o Historiador compreende que a história é discurso e que, portanto, depende de alguém que a escreva. O mito essencialista da verdade histórica, portanto, se desvanece. E o leitor conclui, por fim, que a memória, por ser seletiva e ligada ao sujeito que escuta, fala, vê e sente, relativiza a verdade. Assim, paradoxalmente, a responsabilidade do sujeito pode privá-lo da liberdade. Mas sentir, perceber, amar, conhecer, buscar, viver, esquecer e lembrar são atos humanos. O livro trata, portanto, dos movimentos da alma que permitem ao homem absorver o mundo e, ao fazê-lo, transformar-se.

Tudo acontece no Brasil do final do Segundo Império, no alvorecer da República. Os fatos, porém, servem de marcos para delimitar um tempo, pois a geografia e a música estabelecem as coordenadas do romance. Vejamos como isso acontece: o enredo se desenvolve em dois planos: no primeiro, Assis Brasil conta a história de um Cronista do Império que é incumbido da tarefa de encontrar, no pampa gaúcho, um tal Francisco da Silva. Este cobrava do Imperador o título de Barão da Serra Grande, prometido por sua Majestade Imperial quando se hospedara, com família e comitiva, na estância do requerente. O próprio Historiador integrara essa comitiva, embora nada disso estivesse gravado em sua memória. Nesse plano, o leitor irá acompanhar o deslocamento da personagem pelo interior do pampa gaúcho, onde muitos Francisco da Silva são encontrados, num jogo de caça-memória onde as circunstâncias contrariam as lembranças e a dúvida se instaura, modalizando a verdade. O segundo plano do enredo impõe-se já na primeira frase do romance: “Cecília estava posta em seu caixão”. A presença concreta da morta descortina o acanhado mundo afetivo do Historiador que, viúvo, enfim encontrara na pessoa da governanta o esboço de um consolo terreno para sua grave solidão. Entretanto, no Rio de Janeiro a febre amarela grassava. E às vésperas da viagem para o pampa, Cecília é contaminada pela doença e morre. Essa morte da alma irá acompanhar o solitário Historiador, recuperando a presença visível de Cecília numa fantasmagoria amena, presente nos momentos em que é necessário lembrar ao corpo que ele está vivo e que isso vale a pena.


O enredo é bem urdido, entrelaçando-se os dois planos. Para além disso, o texto alcança um nível ímpar quando o narrador se insere na narrativa, ocupando um espaço que lembra, em alguns momentos, a função do Coro na tragédia grega: sua voz, discreta e definitiva, arremata a dramaticidade de alguns momentos ou lhes empresta uma reflexão motivada pela ação das personagens. Presença invisível nas trocas verbais que articulam o texto, esse narrador serve-se da tradição de Flaubert e Eça para acentuar alguns momentos decisivos na composição do instante. No entanto, sua ironia é sutil e delicada, permitindo ao leitor sentir a beleza da linguagem e, através dela, os desejados efeitos dos sentidos: a sonoridade, a luminosidade, a leveza, a precisão do detalhe. Esses elementos que fazem a vida sensível dos homens, disseminam-se na narrativa como, aliás, abstraiu Italo Calvino nas suas Seis propostas para o próximo milênio. E são precisamente essas interferências dos sentidos que alteram a busca do Historiador, confundindo suas lembranças e afetando os planos do enredo.
A preocupação com o enredo é tão importante quanto a tessitura da linguagem. Por isso, prende a atenção do leitor sua imprevisibilidade, eis que a ruptura com o possível se dá pela intrusão de personagens estranhas, muitas delas vitimadas pela privação dos sentidos. É o caso, por exemplo, da jovem Lisabel, coadjuvante num dos pontos altos da história. Aliás, A margem imóvel do rio retoma algumas figuras basilares de As virtudes da casa, um dos romances mais bem sucedidos do escritor. A figura do estrangeiro que olha o pampa gaúcho já se encontra naquela narrativa primordial. Agora, Assis Brasil redesenha a estância e seus conflitos, quando duas mulheres solitárias voltam sua atenção para o estranho que busca o conhecimento. Assim como o francês, de As virtudes da casa, o Historiador desencadeia o conflito. Mas se o primeiro desperta uma cega paixão, nisso concentrando os desdobramentos narrativos, o Historiador desacomoda a rotina e acelera seus desenlaces. Comparando-se os dois momentos, observa-se que a transformação decorre de diferentes constituições psíquicas das personagens, que correspondem a diferentes intenções autorais: já entrado em anos, o Historiador aprende, aos poucos, a cultuar a vida que existe e que a lembrança tépida de Cecília, concretizada em imagem, está sempre a lhe apontar.
Pelo que foi dito, pode-se pensar que neste último romance altera-se a cosmografia das obras anteriores: escritor maduro e crítico, Assis Brasil não se preocupa em revisitar a história ou em desconstruir os mitos cosmogônicos da sociedade gaúcha. Sua matéria é a pessoa diante da vida e da morte. É o ser dividido que questiona sua relação com o objeto, cuja existência é relativa porque depende dos sentidos. Enfim, o livro trata também da verdadeira história de um “homem amoroso” , de “um pintor de retratos” que, pelas artes do autor, busca encontrar sua própria alma. O que muda e faz a diferença é a articulação literária mediante a qual o escritor obtém um equilíbrio perfeito entre o enredo, a intriga e a tessitura da linguagem. Há momentos de tirar o fôlego do leitor, pois a condensação do romance faz ressaltar nuanças psicológicas muito finas e habilmente retratadas.
* Léa Masina é crítica literária e professora do Instituto de Letras da UFRGS


A INTERSECÇÃO ENTRE LITERATURA E HISTÓRIA

EM A MARGEM IMÓVEL DO RIO
[Inédito em meio impresso]
Daniela Silva da Silva (PPGL/PUCRS)

1   ...   32   33   34   35   36   37   38   39   ...   44


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal