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Não se lembrava de nada. Era uma ironia em seu caso, mas uma grande verdade no geral, que Clio fosse filha de Mnemosyne, a deusa da memória.



A margem imóvel do rio

Com base no estudo sistemático da consciência e dos processos mentais, o filósofo austríaco Edmund Husserl cria, no segundo quartel do século XIX, uma disciplina teórica intitulada fenomenologia. Objetivando reconduzir o saber à certeza de si mesmo, tal disciplina parte do princípio de que o conhecimento verdadeiro sobre os objetos só é alcançado quando refletimos sobre eles, necessitando, para tanto, que o sujeito abstraia a sua consciência de mundo e passe a pensar os objetos em suas essências.


O ato de refletir, segundo Husserl, em seu Meditações cartesianas – introdução à fenomenologia, no item que reserva ao tratamento da reflexão natural e da transcendental, tem como tarefa não o reproduzir uma segunda vez o estado primitivo, mas de o observar e de lhe explicar o conteúdo. A passagem a essa atitude reflexiva dá naturalmente origem a um novo estado intencional, estado que, na singularidade intencional que lhe é própria de “se referir ao estado anterior”, torna consciente, até evidente, não qualquer outro estado, mas esse mesmo40.

Quando aliamos a fenomenologia husserliana ao estudo da obra de arte literária, percebemos que o autor, entidade que dá vida à criação ficcional, reproduz não o universo que lhe serviu de objeto de reflexão, mas um estado de coisas repensado e reorganizado dentro de uma nova estrutura, essencialmente diferente. Essa, por sua vez, obedecerá às regras que lhe são imanentes as quais não possuem nenhum compromisso com as regras do mundo em que vive o escritor, sujeito histórico.


Orientado pela teoria fenomenológica, tal como fora concebida por Edmund Husserl, em seu Meditações cartesianas, o presente trabalho pretende realizar uma abordagem do romance A margem imóvel do rio, escrito por Luiz Antonio de Assis Brasil, em 2003. A proposta parte da hipótese de que, embora se situe na intersecção de dois domínios, o da história e o da ficção, a referida obra literária possui um caráter eminentemente ficcional, estando submetida às regras desse universo.
O romance, constituído por cinqüenta capítulos, um epílogo e um prólogo, situa-se no Brasil do século XIX e tem início quando o Imperador D. Pedro II recebe uma missiva de um estancieiro gaúcho, Francisco da Silva, que reclama ser agraciado com o título de Barão da Serra Grande, conforme sua majestade havia prometido, por ocasião de uma visita ao Rio Grande do Sul, vinte e um anos antes. Após não ter sido encontrada, nos registros oficiais, nenhuma evidência que documentasse o fato, o Imperador decide enviar o Historiador, viúvo e Cronista da Corte, à Província de São Pedro, atrás do tal estancieiro, para que se fizesse valer a palavra imperial.
Esse historiador sofre de perda de memória e tudo o que ele percebe dentro da narrativa é introjetado por meio dos sentidos. A maneira como vê o mundo passa por um filtro sensorial, que ora registra impressões olfativas, como em: “Os cheiros da cozinha misturavam-se ao aroma noturno das acácias” e (p. 75) “... o cheiro de terra molhada.” (p. 95); ora impressões táteis, como as que são descritas nos seguintes fragmentos: “O russo ergueu o boné e veio ao seu encontro, dando-lhe os dois beijos.” (p. 124), “ele possui Cândida com a urgência desesperada de quem sente desfazer-se em si o nó da vida.” (p.118).
A personagem também percebe o que acontece à sua volta através da visão, o que vemos registrado na seguinte passagem: “Ele conseguia ver, naquele olhar, a selva do Brasil, que era também um desejo” (p. 48), bem como por meio da gustação, conforme: “apresentando-lhe uma travessa cheia de figos douçados, sumarentos...” (p. 32). Salienta-se, entretanto, que a percepção auditiva do Historiador manifesta-seapenas ao final do texto quando, curado de uma doença que lhe causava um constante zumbido nos ouvidos, Tinnitus Aurium, passou a ouvir “até o pulsar de seu

coração” (p. 167).


Segundo a teoria husserliana, a percepção de um estado de coisas por um determinado sujeito dá-se através dos sentidos e, portanto, não é intencional, diferentemente da reflexão, que ocorre quando o sujeito, agindo conscientemente sobre determinado objeto, passa a pensá-lo e estruturá-lo dentro de sua consciência. Esse processo compreende, então, a percepção, a nomeação do objeto que é observado e, finalmente, o juízo sobre o que é trazido à consciência. Como ocorre dentro de uma temporalidade, a consciência não consegue reter tudo o que o sujeito percebe, ficando armazenado na memória apenas um resquício da imagem primordial, e é, pois, esse resquício que dá sentido existencial ao que aconteceu.
Em virtude de apenas perceber as coisas sem refletir sobre elas, o Historiador não é capaz de emitir juízos de valor, portanto não dá sentido aos fatos que vivencia, o que lhe acarreta a perda da memória. O narrador, por outro lado, apresenta-se na obra por meio de sua onisciência intrusa, demonstrando plena consciência a respeito do que narra, o que o autoriza a opinar sobre a vida das personagens, ao mesmo tempo que sabe de tudo o que acontece com elas.
Sua intrusão é marcada por meio do discurso indireto livre, em que há a fusão da voz da personagem com a do narrador, como na seguinte passagem: “– Aqui – um peão gritou. – Aqui! – O russo e Picard comiam um espeto de ovelha. Largaram aquilo e se apressaram. Antonovich corria de forma cômica, as pernas grossas como pilões socando a terra” (p. 133). O fragmento recortado da obra de Assis Brasil é representativo dessa idéia, pois a partir do mesmo não sabemos se quem fala é o Historiador, que presencia a cena, ou o narrador, porque sabe de tudo.
Além disso, tal entidade narrativa utiliza-se de uma linguagem subjetiva, própria do discurso ficcional, expressa não apenas por meio de adjetivos: “frio não completamente metereológico” (p. 59), “pampa aberto” (p. 71), “anacrônica sobrecasaca” (p. 74), “aroma noturno das acácias” (p. 75), como também através de comparações: “Caminhava como uma pomba” (p. 65) e juízos sobre os fatos: “Os gaúchos faziam bem, ao atribuir nomes às suas propriedades” (p. 71), manifestando com isso a opinião sobre o que narra.
É a voz do narrador que dá vida a esse universo ficcional, construído com uma linguagem subjetiva, dentro de uma cronologia, que possibilitará ao Historiador da Corte Imperial a ordenação e a nitidez dos fatos. Esses, por sua vez, lhe servirão de motivo para que inicie um processo de transformação de uma fase em que ele simplesmente percebia as coisas para outra em que ele começará a refletir e emitir juízos sobre os fenômenos que traz à consciência.
Com a ajuda do narrador, a personagem volta a reter os fenômenos que observa, deixando de perceber as coisas apenas pelos sentidos, o que lhe permite dar vida à sua consciência e começar, portanto, a constituir uma nova memória. Isso é possível porque a nitidez da impressão atenua-se pela retenção, podendo-se não só passar a viver a modificação da impressão, mas olhá-la, não modificada, de um novo agora que já viveu essa mudança41. Nessa fase, iniciada durante sua estada no interior do Rio Grande do Sul, ele pode comparar esse agora modificado com as imagens vividas, o que faz com que tome consciência de si mesmo e passe a questionar o mundo à sua volta.
Suas primeiras demonstrações de mudança são percebidas logo depois que ele se redescobre homem nos braços de Cândida. A partir desse episódio, o Historiador decide abster-se de seu luto, retirando “da lapela a tira de seda negra”, e pôde, enfim, ter uma boa noite de sono, “pela primeira vez, em toda a sua vida, ele acordava com a claridade do sol”, O que eu fazia com todas essa longas manhãs (...) Como o mundo se renova. É uma celebração em minha homenagem. (...) Tinha, já, menos embaraço do que sarcasmo ao dizer Bom-dia, Sua Majestade”. (p. 120)
As modificações em seu comportamento podem ser vistas, também, por meio dos apontamentos que faz em seu vade-mécum sobre as estâncias por que passara durante seu itinerário pelo Rio Grande do Sul, “território gélido, meio castelhano, bárbaro, lugar de guerras e sedições, pouco brasileiro.” (p. 12), em busca do Francisco da Silva. Sobre a primeira estância registrou: “Estância Porteira de Ferro. Francisco da Silva 1: tem noventa e nove anos, e contudo é falso... Primeira Serra Grande. De um momento para outro, passei a classificar os homens como verdadeiros ou falsos” (p. 80). A respeito da segunda, escreveu: “Estância Santa Quitéria. Francisco da Silva 2: também é falso. Vacilou, e depois: Aqui vive Lisabel” (p. 106). Sobre a terceira anotou: Estância do Baile. Francisco da Silva 3: também não é este. Com um sorriso que escondeu de si mesmo, escreveu Cândida.” (p. 120).
Além de registrar os encontros com os falsos Chicos da Silva e com as demais pessoas que cruzaram o seu caminho, o Historiador passa a emitir juízos sobre os fatos que aponta em seus escritos, demonstrando-se ciente dos acontecimentos, bem como salientando que sua memória está novamente alerta para as coisas que vivencia. A noite de amor com Cândida fez com esquecesse da “memória da corte” e fosse em busca de si mesmo.
Ao final, depois de muitas tentativas mal sucedidas, ele encontra o verdadeiro Francisco da Silva. No entanto, opta por não levá-lo ao Rio de Janeiro para ser agraciado com o título de Barão, e num gesto pensado abre o vade-mécum e escreve seu último apontamento: “Desisto de saber se o português é o verdadeiro Francisco da Silva. Desisto de escrever a minha História do Império por um Contemporâneo dos Fatos. Pôs um ponto final. Desistia de escrever qualquer História. Ele tinha certeza de que, agora sim, era um homem livre”. (p. 162).
Transitando na intersecção de dois domínios – o da história e o da ficção – o romance de Assis Brasil conta a trajetória de um Historiador que não coincidentemente sofre de perda de memória, tendo a possibilidade de recuperar a sua musa através da voz do narrador que dá vida a essa criação literária. Em A margem imóvel do rio, portanto, os dados concretos e objetivos cedem espaço para que os sentidos ficcionais predominem.
Sendo assim, a personagem que no início pretendia escrever a Historia do Império por um contemporâneo dos fatos, após ter tomado consciência de si mesmo e ter deixado de perceber o mundo apenas pelos sentidos, abandona o seu compromisso com a Corte – com a verdade – mudando o rumo dos acontecimentos: “Francisco da Silva desaparecia da memória, tragado nas paragens do Sul. E a História passava a ser outra.” Provavelmente a história da ficção, que, por sua vez, “tem uma seqüência imprevisível” (p. 125), conforme afirma o narrador e intérprete desse universo ficcional.
Embora haja uma interseção entre os dois mundos, o da história e o da literatura, A margem imóvel do rio é uma narrativa eminentemente ficcional. Após refletir sobre importantes eventos históricos do Brasil e do Rio Grande do Sul, portanto, o autor decidiu organizar esses acontecimentos dentro de um novo contexto, através de um discurso subjetivo.
Seguindo a orientação da teoria fenomenológica e o exame da obra em questão, percebe-se que a versão dos fatos oferecida pelo narrador não pode ser atribuída a eventos ocorridos no tempo e no espaço. De forma indireta, Luiz Antonio de Assis Brasil criou uma imagem da realidade, a qual não se configura, como diz Edmund Husserl, na reprodução de um estado primitivo, mas num outro que, por sua vez, não possui nenhum compromisso com o mundo exterior.

BIBLIOGRAFIA
BORDINI, Maria da Glória. Fenomenologia e teoria literária. São Paulo: Edusp: 1990.
BRASIL, Luiz Antonio de Assis. A margem imóvel do rio. Porto Alegre: L&PM, 2003.
HUSSERL, Edmund. Meditações cartesianas – introdução à fenomenologia. Porto – Portugal: Res Editora.

Mistérios e memórias do Brasil imperial
Fernando Sobral

Portugal
Entre o Brasil e Portugal muitas vezes há muito mais do que um oceano a separa-los. A escrita, de um e de outro lado, raramente descortina uma ponte de contacto. Mas a história, muitas vezes, pode muito bem ser essa linha de referência.. E é isso que descobrimos neste fascinante. A Margem Imóvel do Rio de Luiz Antonio de Assis Brasil, que venceu em 2004 o Prémio Portugal Telecom de Literatura e o Prémio Jabuti. A vida de um oficial da corte de D. Pedro II do Brasil, que parte para as terras das pampas em missão imperial, acaba por ser uma forma de tomarmos o pulso a uma época de grandes mudanças no enorme país do continente americano. A ironia (“Os jornais humorísticos do século XIX informam que Sua Majestade o Sr. D. Pedro II, Imperador e Defensor perpétuo do Brasil, protector das ciências e das artes, também chamado pelo vulgo de Pedro Banana, tinha o curioso hábito de repetirJá sei, Já sei”. Falavamnolhe muitas e variadas coisa e, para defender-se do tédio, ele abreviava as conversas”) cruza-se com a morte de Cecília, que o oficial procura a esquecer antes de partir para o Rio Grande d Sul. E com a mudança: quando regressa ao Rio de Janeiro, o Imperador fugira e fora proclamado a República. O Brasil mudara, da mesma forma como mudara a Cida do oficial ou de Cecília, nascida em Évora. “A primeira coisa do Brasil a chamar a atenção de Cecília foi a selva. Em Portugal a natureza fora domada há séculos. Aqui, a selva, plena de vapores, crescia por tudo, recobrindo as montanhas do Rio de Janeiro e entranhando-se no carácter das pessoas. A selva possuía algo de misterioso, como um coração. A busca de um misterioso Francisco da Silva acaba por ser um verdadeiro mosaico do que era a complexidade do Brasil nesta altura pós-independência e anterior a proclamação da República. Afinal encontramos aqui um território que estava a alterar-se de forma drástica. E com ele a mistura de pessoas que tinham ficado fascinados pela sua grandeza. E de mudança (das pessoas e dos países) que fala este livro que apetece ler de forma rápida. Porque ele é uma selva: cheio de mistérios e maravilhas. Porque nos retrata um Brasil agreste que queria encontrar o seu próprio destino. Como o narrador desta obra estimulante.

A Margem Imóvel do Rio – editora Âmbar – 176 páginas. 2005

Jornal de Negócios, Lisboa (Portugal), 04.mar.2005
Pedro, o Banana
Joel Neto

Portugal


Uma corte eufórica, um interior longe de mais, um regime no ocaso. O Brasil de D. Pedro II, cognome “Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil” – ou, mais prosaicamente, “O Banana” – é isso: um gigante com uma cabeça pequenina e ainda por cima exibicionista, a meio caminho entre a história que não tem e o futuro que nunca terá. Dele sabe Luiz Antonio de Assis Brasil como poucos, e vive, cormo poucos romances, este prodígio de narração e contenção que é A Margem Imóvel do Rio, o segundo livro do grande escritor gaúcho a chegar a Portugal (o primeiro fora O Pintor de Retratos, também publicado na Âmbar, e que com este volume forma um díptico a que o autor chamou Visitantes ao Sul).

Vinte e um anos depois de uma visita ao interior do Rio Grande do Sul. D. Pedro recebe uma carta de um estancieiro, chamado Francisco da Silva ao qual prometera o título de barão. Quem perde é o cronista oficial do Império que, no rescaldo de uma viuvez, tem de deslocar-se à procura do referido latifundiário. E o romance é sobretudo a história dessa viagem – uma longa caminhada através de todos os tipos de paisagem, pontuada por encontros com todos os tipos de gente, marcada pelo cruzamento de todo o tipo de ambições. Ao regressar à capital, o cronista encontra o Império derrubado e a República instaurada. Localizara Francisco da silva, mas decide sonega-lo para sempre ao mundo. E não voltará à redacção da sua história do império - ´´e enfim, um homem livre. Com A margem Imóvel do Rio, a Âmbar continua o seu percurso entre os autores de diversas latitudes aos quais as modas e as disposições haviam impedido uma atempada chegada ao mercado português. Assis Brasil, que com este livro venceu o Jabuti em 2004, devia cá estar há muito tempo. Saudemo-lo.

ASSIS BRASIL, QUE COM ESTE LIVRO VENCEU O PRESTIGIADO JABUTI EM 2004, DEVIA CÁ ESTAR HÁ MUITO TEMPO. SAUDAMO-LO, POIS.

Grande Reportagem, Lisboa (Portugal) 19.nov.2005.

Dois mundos
Teolinda Gersão

Portugal
Um romance, até certo ponto, histórico, em que o autor ilude e ultrapassa o gênero, convertendo-º de modo inovador, em “outra coisa” – eis o que desde logo se pode dizer de A margem Imóvel do Rio, de Assis Brasil, publicado em Porto Alegre, em 2003, um dos vencedores do Prémio Portugal Telecom (PT) de Literatura Brasileira, no campo da ficção (ler reportagem e entrevista como autor no JL 891, de 24/11/2004). O romance será lançado em Portugal, com a presença de Assis Brasil, nas Correntes d’ Escritas da Povoa de Varzim, seguindo-se outros lançamentos nos Açores, também com a sua presença.

Assim, em A Margem Imóvel do Rio encontramos muitos dos ambientes, paisagens, casas senhoriais e grandes propriedades do rio grande do Sul, nas últimas décadas do século XIX, que o autor desenrola diante de nós, com pormenores saborosos, resultado de uma investigação apaixonada e de uma intuição poderosa. Assis Brasil é aliás profundo conhecedor do rio Grande do Sul: vive, escreve e é prof. Universitário em Porto Alegre. A sua família originariamente açoriana, foi para essa região do Brasil há muitas gerações (uma das avenidas principais da cidade chama-se, aliás, Assis Brasil, em honra de um antepassado).

O pretexto do romance é a viagem que a personagem central – não por acaso, um cronista paciente e minucioso – é levada a realizar pela paisagem imensa das pampas. Residindo habitualmente no Rio de Janeiro, o cronista olha o Rio Grande do Sul com o olhar de um forasteiro, que sempre de novo se deixa surpreender por este Brasil, em muitos aspectos “diferente” de todos os Brasis que conhecemos.

A viagem centra-se na busca de um tal Francisco da Silva, a quem o imperador, mais de duas décadas antes, tinha prometido um título nobiliárquico, em agradecimento ao donativo feito por Francisco da Silva para terminar as obras da cúria (p.62). Na verdade D. Pedro II, posteriormente, esquecera-se de cumprir a promessa, mas agora que uma carta misteriosa a vem lembrar, sente-se compelido a honrá-la (palavra de imperador oblige)

Vinte e um anos antes, na viagem que o imperador realizara àquelas terras do Sul, com a sua numerosa e brilhante comitiva, o narrador fora ele próprio seu acompanhante. Assim a viagem de agora assemelha-se (aparentemente) a uma repetição da outra viagem, que o historiador- narrador guarda na memória. E é buscando também na memória e em documentos antigos, e indagando junto de personagens locais, que procura averiguar sobre a existência de Francisco da Silva – para verificar com surpresa que existem afinal vários. A tarefa passa então a ser procurar, entre todos, o “verdadeiro”, que outrora mereceu a promessa do rei.

No entanto a busca revela-se difícil, porque entretanto o tempo passou, e nada está igual. Entre tapetes, quadros, retratos, cartas e documentos desbotados pelo tempo, anfitriões que perderam a memória, ou se apresentam como débeis e senis, qual deles é o verdadeiro Francisco da Silva? “Como num jogo de espelhos, os Francisco da Silva iriam multiplicar-se ao infinito. Podia até imaginar suas caras, suas falas, suas ambiguidades, seus jogos de esconde-esconde”. Talvez o historiador o encontre. Ou talvez, não. De facto, o objecto da procura acaba por se tornar irrelevante, o que fica e ganha sentido é a procura em si mesma.

O caminho que o historiador agora segue, com novos companheiros de viagem, vale por si mesmo, vale o que vale uma experiência de vida. A segunda viagem – verifica-se- não repete a primeira, é uma outra experiência, num outro tempo e num outro mundo. Embora, como anteriormente, haja encontros, personagens estranhas que cruzam o caminho do cronista e se iluminam sob o seu olhar curioso, cúmplice e fraterno. Como a da surda Dona Augusta, que comunica com o narrador através de frases escritas, ou a da louca Lisabel que toca piano até que de repente se mata. Ou o francês Adrien Picard e o russo Antonovivh, que aparentemente procuram outro, embora depois o historiador verifique que enriquecer não é o seu objetivo: “Sou como esses nobres da Europa Central que participam das caçadas só pelo prazer”, diz Antonovich. Os animais mortos são apenas troféus nos pavilhões dos bosques.

Até ao horizonte há a presença obsessiva e deslumbrante do pampa, um mar verde, uma paisagem horizontal, poderosa, esmagadora. Paralelamente à viagem exterior, percorremos os labirintos do mundo íntimo que cada um leva consigo. O mundo pessoal e intransmissível da memória e dos afectos, onde uma rosa que se guarda é sempre muito mais do que uma rosa.

Assim o historiador leva consigo o seu amor por Cecília, com quem na vida se cruzou por um tempo breve mas intenso, e que lhe ensinou o valor inigualável dos afectos, para lá da condição social, da erudição ou da cultura. Cecília era uma presença que, como um perfume, enchia a casa e quebrava a solidão, sem perturbar a concentração e o alheamento feliz com que o narrador escrevia livros, folheava documentos, tirava notas. È ela que, na memória, o acompanha, em todos os momentos da viagem. Depois de a epidemia de cólera a ter levado.

A percepção final é que poucas coisas afinal contam na pequena história pessoal de cada um. Mas também que a História com H é difícil ou impossível de entender e mais ainda de escrever, em última instância revela-se talvez como algo fútil e absurdo, como um novelo de fios porventura desconexos.

Pouco importa assim afinal que tenha ou não sido encontrado o verdadeiro Francisco da Silva. No fim do livro chegam novas de que fora proclamada a República: a pesquisa do narrador deixou, portanto, de fazer sentido.

É essa então a fatalidade de toda a acção humana em geral? Chega de algum modo sempre tarde, é inútil e efêmera, porque as razões da sua realização desaparecem, ou tornam-se vãs, com o passar do tempo que tudo devora e onde apenas ficam boiando objectos, rostos, vozes, cheiros, penumbra, retratos, memórias?

“O silêncio, mesmo ao meio dia, mesmo no momento da maior lassidão do estio, o silêncio zumbe sobre as margens imóveis dos rios”, refere a citação de Horácio que serve de mote á narrativa. O tempo flui, portanto, como um rio, mas as margens dos rios são imóveis. O homem pertence a esses dois mundos: ao do rio, porque também ele passa e desaparece, mas também ao da margem, do que é imutável e imóvel e pode talvez significar a eternidade, ou o tempo como enigma. O homem é um ser problemático, fascinado e perplexo, olhando. Como fascinado e perplexo fica, depois de fechar a última página, o leitor deste livro. Belíssimo.


Jornal de Letras, Lisboa (Portugal), – 16.fev – 1.mar.2005.
Aventuras pelo grande Sul
Virgínia Capoto

Portugal


Assis Brasil não é um autor preocupado com descrições demoradas de lugares ou de gentes, e no entanto quando se lê os seus livros o apelo do Rio Grande do Sul assume um carácter de urgência. Perante o leitor toma forma uma região de mistérios que esmaga pelo assombro dos espaços imensos e liberta pela sua natureza indomável. Nas entrevistas que concede, o escritor refere mesmo com frequência as perplexidades que este Sul suscinta – um permanente espanto e uma absoluta rendição que ele muito bem transporta para a sua obra. E fá-lo com uma (aparente) simplicidade que encontrará paralelismo no próprio mundo gaúcho, sem sustentar, assim, o texto na muleta perigosa que é a adjetivação excessiva.

O que torna de facto a escrita de Assis Brasil especial é essa forma simples e superior de usar a língua, e o modo fluído e cadenciado com que desenvolve personagens e acção. Uma construção a que não serão alheias outras grandes paixões do autor: música, fotografia e cinema estão muito presentes nos seus livros, dotando-os de musicalidade e de uma dimensão tanto filmica quanto plástica.

Pelo que nos é dado a conhecer tanto em “A Margem Imóvel do Rio” como em “OI Pintor de Retratos” – os dois únicos romances do autor publicados em Portugal, o primeiro há um par de meses – Assis Brasil opta por fases e capítulos curtos, onde o pormenor, aqui e além, está ao serviço do movimento. Ao jeito do contador de histórias, a acção desenvolve-se sem paragens desnecessárias.

- Em ambos os títulos, que aliás constituem um díptico, encontramos dois personagens, dois solitários, que vão ao encontro do Rio Grande do Sul e, sobretudo, ao encontro de si mesmos. Na vastidão nua da pampa brasileira, salpicada a espaços por pessoas de um mundo onde os silêncios dizem muito, o pintor que odiava a fotografia (“O pintor de retratos”) ou o cronista oficial de D. Pedro II (“A margem imóvel do rio”) procuram e descobrem-se. Num e noutro, uma aventura no Sul e pela alma. Sim, no princípio e no fim, devemos ainda afirmar estar perante belíssimas aventuras.


O Comércio do Porto, Porto (Portugal), 18.abr. 2005

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