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À procura do Silva brasileiro

Fernanda Cachão

Portugal
EM A MARGEM IMÓVE DO RIO, de Luiz Antonio de Assis Brasil, D. Pedro II recebe uma carta a cobrar uma promessa que teria feito 21 anos antes, quando da sua visita ao rio grande do Sul. Francisco Silva, o signatário e dono de uma estalagem, reclama o prometido título de barão. Sem saber como, o cronista do reino, que tinha acompanhado a coroa naquela expedição, vê-se incumbido de, sozinho, procurar o tal Silva na imensidão da pampa, em terras do Sul, longe da corte e do rio de Janeiro.

É este o pressuposto que faz avançar um livro em que a História, com h grande, e a ficção se confundem. Foi alguma vez. D. Pedro II em viagem à pampa? Existem mesmo as ruas onde se passeia o cronista? Houve uma funerária chamada casa de Pompas Fúnebres Pacheco & Pacheco? Existe a tal Serra Grande onde poderá estar Francisco Silva?



A Margem Imóvel do Rio é um daqueles livros que nos fazem ter a certeza de que a simplicidade é difícil mas de grande excelência. A obra doipremiada em 2004 com o jabuti e com o conceituado Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Recorda-se Budapeste, de Chico Buarque era um dos concorrentes a este último prémio.

A obra de Assis Brasil começa com a morte de Cecília, a criadinha de Évora por quem o cronista se apaixona. É a morte da portuguesa que o mergulha num segundo luto, depois do falecimento da mulher legítima e qe determina o estado de alma com que inicia a demanda em favor do rei. “Já comprara o bilhete para o Alagoas. Levava no bolso o dinheiro requisitado à Intendência e, na valise uma carta de recomendação assinada pelo Mordomo-mor. Desligava-se de seu mundo. Vendera ontem o seu cavalo, por não ter quem o cuidasse por tanto tempo. Não pensaria mais em Cecília”.



MAS A PRESENÇA encantatória da portuguesa acompanha o cronista ao longo da viagem. Ele luta por manter a objetividade, enquanto a pampa toma conta da sua alma e torna ainda mais doloroso o assobio que ouve permanentemente dentro da cabeça.

Ao longo de todo o percurso, como um detective, o cronista tenta descobrir o verdadeiro Francisco Silva, entre os muitos que encontra. E enquanto avança na planície, o Rio de Janeiro torna-se naquela terra longínqua cujo significado é semelhante àquele que o Sul do Brasil tinha para ele antes de iniciar esta viagem- metáfora sobre a transformação do próprio Brasil.



Primeira Escolha, Lisboa (Portugal), 11.mar.2005

Como passar de uma margem para outra


Paula Macedo

Portugal
A margem imóvel do rio permite-nos um (re)encontro com a literatura que actualmente se produz do outro lado do Atlântico, com sua vivacidade, originalidade e refrescante simplicidade formal.

Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista conceituado em Terras de Vera cruz, premiado e traduzido em Espanha e França, para além de ter um livro publicado em Portugal, conquistou com esta obra o prestigiado Prêmio Jabuti e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

Em A margem Imóvel do Rio, este brasileiro nascido em porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, consegue reunir ao enquadramento histórico concreto a mais delicada trama ficcional, criando personagens temas e inesquecíveis na sua busca metafísica e tão humana do ideal de felicidade.

Pelo Meio descreve a atmosfera e paisagens envolventes da pampa, no Sul do Brasil, sendo que este livro tem nesse aspecto, segundo o autor, uma ligação temática com o anterior O Pintor de Retratos, também publicado pela Âmbar, uma casa editorial que eleva nesta coleção bem cuidada o conceito de edição de bolso.

Esta é a história de uma missão fútil, atribuída ao cronista da casa imperial, da corte do último rei do Brasil, D. Pedro II. Este oficial do reino, o protagonista da história, é incumbido de descobrir o paradeiro de um Francisco da Silva, que apresentara ao rei uma petição para se tornar barão da Serra Grande.

O pedido tinha por base uma promessa real, feita por D. Pedro II anos antes, durante uma viagem ao Rio grande do Sul, quando se hospedaria na casa desse rico proprietário rural. Tendo sido tão bem tratado, prometera torná-lo barão, mas os anos haviam passado sem que o desígnio real de cumprisse, e Francisco da Silva vinha então reclamar aquilo que julgava ter direito,

O problema é que ninguém se lembrava d tal personagem, nem mesmo o exaustivamente competente cronista, que tudo registrava em actas oficiais e que fizera parte dessa comitiva real duas décadas antes. Cabe-lhe portanto a ele descobrir Francisco da Silva e avaliar da justeza das suas pretensões.

O cronista, de quem nunca sabemos o nome próprio numa espécie de reverberação kafkiana que acentua o carácter triste de funcionário público, zeloso, conformado e alienado da essência do mundo, parte então para o sul, para esse território vasto e frio, longe do poder central como se de um outro continente se tratasse.

Já nada o prende. Viúvo, padecendo de um estranho zumbido constante nos ouvidos, parte com a dor da ausência de Celina, a jovem e intuitiva governanta de origem portuguesa, por quem se apaixonara mesmo quando julgava que o coração estava morto e enterrado.

O cronista apanha um barco, o mesmo de 20 anos antes, depois segue viagem num comboio a vapor, e visita grandes propriedades rurais, em busca de Francisco da Silva. No decurso da viagem, cruza-se com personagens fantásticas como o aventureiro russo Antonóvitch Tarabukin, depara-se com mistérios e violências escondidas, e descobre-se a si mesmo nas horas frias das extensões do sul brasileiro. O périplo dura um ano, um tempo de reencontro pessoal, que ganha força à medida em que o motivo original da viagem se dissolve na vertigem dos acontecimentos.

O cronista que regressa ao rio de Janeiro é uma pessoa mudada, alguém que se libertou dos seus fantasmas pessoais, num acto de escolha consciente. À chegada depara-se, porém, com um pais que também mudou durante a sua ausência.

O que muitas das personagens de A Margem Imóvel do Rio nos gritam, de maneira poética e personalizada. É que a procura constante e o percurso que ela implica são eventualmente mais importantes do que chegar ao fim de uma viagem, seja ela qual for, na medida em que isso traduz a nossa imorredoira essência humana, eternamente alimentada pela quimeras e sonhos.
A Capital, Lisboa (Portugal), 20.abr.2005

MÚSICA PERDIDA




Crónica de Novembro com Assis Brasil por perto
Urbano Bettencourt*

Portugal

Novembro ainda no seu andamento tímido e eu avançado na leitura, em busca da música perdida que dá título ao mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil.

E talvez este seja mesmo o tempo mais apropriado o percurso melancólico do Maestro Mendanha, desde a infância em Minas Gerais até à sua morte na Província do Sul, em 1885. Afinal, Novembro, cidade dos crisântemos esquecidos (como se lê em título do poeta Almeida Firmino) pontua a história de Música Perdida, não apenas pela referência à morte de Rossini em Paris, mas pela modulação sombria (ou seja, o tom menor) que enforma os acontecimentos e o seu decurso. O tempo da leitura cola-se, deste modo, ao tempo da vivência de uma personagem que, na errância pelo Brasil até o exílio definitivo no Sul, vai transportando consigo a memória angustiada de seus mortos – apenas três, mas a sombra e o peso dos mortos não se medem em números, antes pela força da assombração íntima.

Este é o romance de um tempo e de um homem, igualmente um romance sobre a música e a arte em geral. O percurso do Maestro Mendanha é o de um homem que fez (ou quis fazer) da música a sua única paixão, mas a quem o destino trocou as voltas e a vontade. E se os mortos o perseguem para sempre, a grande ausência-presença da sua vida será a “Cantata Verdadeira” onde pôde exprimir-se livremente, contra o gosto e a doxa do tempo brasileiro, e que, levada para Paris, acabaria esquecida na casa de Rossini. Essa partitura perdida traduz, afinal, a rasura do artista e do sonho, é a metonímia da capitulação perante o quotidiano e da rendição aos escolhos e aos deveres de uma vida mesquinha e funcional. No desfecho, a Cantata regressará ao Brasil ao mesmo a tempo de ser , enfim, executada nas cerimônias fúnebres do autor, mas o triunfo do Artista não vai sem esse pathos próprio de tudo o que ocorre já para lá do limiar da eternidade.

Em nota autoral escreve Assis Brasil que este romance forma, com O Pintor de Retratos, de 2001, e A Margem Imóvel do Rio, de 2003 (ambos justamente prmiados, acrescento eu), um conjunto que poderia receber o título genérico de Visitantes ao Sul. Em qualquer dos casos, o Sul cosntitui-se, na verdade, um lugar de peregrinação, descoberta ou refúgio, que a narrativa nos vai revelando através do olha daqueles que o desvendam; lugar de passagem ou de chegada também de personagens que fazem o percurso da sua própria aprendizagem e descoberta interior. Tudo isso numa escrita muito marcada, de sintaxe incisiva e seca, em que os sentidos e os afectos se condensam e intensificam.



Açores Atlântico. Ponta Delgada, Portugal, 29.nov. 2006, p. 7

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Urbano Bettencourt é escritor, poeta, crítico e ensaísta. Professor da Universidade dos Açores (Portugal).

Duas Vidas
Márcia Helena Barbosa

Doutora em Teoria da Literatura

Coordenadora do Mestrado em Letras/UPF

marciabarbosa@upf.br
Eu estava relendo poemas de Fernando Pessoa, quando desviei os olhos para o jornal e me deparei com a notícia do lançamento do novo romance de Luiz Antônio de Assis Brasil: “Música perdida”. Coincidentemente, a temática dos poemas do escritor português sobre os quais havia recaído minha atenção guarda certa relação com o enredo da obra de Assis Brasil. Em “Música perdida”, segundo a matéria do jornal, o autor gaúcho conta a história de Joaquim José Medanha, o maestro mineiro a quem devemos a autoria do hino rio-grandense. Esse homem, que viveu no século XIX e residiu por vários décadas no Rio Grande do Sul, a despeito do notável talento que possuía, sucumbiu diante dos obstáculos que lhe opôs um ambiente medíocre. Depois de algumas decepções e tragédias, Medanha conformou-se e passou a acreditar que, talvez, não merecesse o reconhecimento almejado.

Das passagens da vida do maestro, chama atenção aquela que se refere à sua ousadia – reprovada por um professor - de compor uma cantata que agregava elementos brasileiros à tradição clássica. Conforme se lê no trecho do romance reproduzido no jornal, o maestro, na opinião desse professor, “não iria chegar a lugar algum daquele jeito pretensioso. Deixara-se dominar por seu talento, incidira em pecado”. Ora, no poema intitulado “Pecado original”, Fernando Pessoa afirma: “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?/ Será essa, se alguém a escrever,/ A verdadeira história da Humanidade./ [...] Sou quem falhei ser./ Somos todos quem nos supusemos”. E no poema seguinte, continua: “Temos todos duas vidas:/ A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,/ E que continuamos sonhando, adultos [...];/ A falsa, [...]/ Que é a prática, a útil,/ Aquela em que acabam por nos meter num caixão”. Em seu romance, Assis Brasil conta uma parte da “história do que poderia ter sido”, ao falar do maestro que viu seus sonhos naufragarem. Porém, não são apenas os indivíduos de talento extraordinário que têm duas vidas. Todos possuímos talentos, sonhos, pequenos prazeres - que, para nós, são raros - dos quais desistimos, “nessa ímpia e injusta guerra” cotidiana em que estamos enredados. Assim, a grande arte a ser exercitada é a capacidade de regermos nossos movimentos como um maestro. Harmonizando tempo e vontade, habitamos, por um instante, a vida “verdadeira”. E continuamos respirando.


O Nacional, Passo Fundo, Caderno Cultura, 01.nov.2006.

Música perdida, uma cantata de Assis Brasil

Luís Henrique Abreu Drevnovicz *

(Ainda inédito em meio impresso)

A prosa enxuta e concisa, as imagens e os acontecimentos recortados "à faca", com precisão, dando ao leitor não mais do que a essência do fio condutor da narrativa, recursos inaugurados por Assis Brasil em O pintor de retratos e aprimorados em A margem imóvel do rio estão de volta, com toda a sua força e, com certeza, na sua melhor forma, em Música Perdida.

Esses três romances formam, segundo o próprio Assis Brasil, um conjunto chamado de Visitantes ao Sul. Em Música Perdida, essa nova linguagem perseguida pelo autor parece ter chegado ao seu tom exato. Como em uma cantata, um dos temas centrais da narrativa, Assis Brasil rege seus elementos como um maestro maduro, que sabe retirar todos os ruídos supérfluos, que sabe onde está a essência do som de cada instrumento, e, que sabe que cada nota tem o seu momento preciso.

História e ficção estão presentes ao longo de toda a produção literária do autor, que jamais delimita suas fronteiras, que faz questão de eliminar o tênue limite que muitos tentam lhes impor e que, a cada narrativa, transita com mais propriedade entre o que foi (ou o que acreditamos que foi) e o que poderia ter sido. No jogo instigante do pacto que faz com seus leitores, verdade e ficção se confundem na criação do universo onde se movem suas personagens, com seus sentimentos, muitas vezes sutis, seus questionamentos e sua eterna busca de si mesmos que suplanta qualquer acontecimento de suas vidas que possa ser "comprovado" por registros históricos.

Em Música perdida, Joaquim José de Mendanha, ou simplesmente Quincazé, até hoje, para muitos de nós, apenas um obscuro nome que consta como autor da música do hino riograndense é chamado para o centro da narrativa por Assis Brasil. A criação do hino, que poderia ser considerada por muitos como a maior criação de Mendanha - afinal foi a que deixou seu nome registrado na história - é um acontecimento menor dentro da intrincada construção psicológica da personagem e surge como um mero fruto do acaso dentro de uma trajetória de vida muito mais densa do que se poderia imaginar.

Mulato, filho do mestre da Lira da pequena cidade de Itabira do Campo, em Minas Gerais, Quincazé possui o raríssimo ouvido absoluto, descoberto pelo pai ainda em sua infância. Com a visão limitada do talento e da arte, veio explorado com habilidade por Assis Brasil, o pai é o primeiro que tenta controlar e aprisionar a habilidade do menino, preparando-o para sucedê-lo no posto de mestre da Lira. Esse é o máximo que seu horizonte de expectativas permite. Para ele, ser famoso era um luxo, "deve-se cumprir bem e com fidelidade o próprio ofício". Com a ajuda financeira do Bispo, o pai envia o jovem para aprender composição com o organista da Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, em Vila Rica. Para tomar o seu posto na Lira, é preciso que saiba compor. O pai o envia, mas, de certa maneira, continua tentando exercer o seu controle através das cartas em que nunca deixa de lembrá-lo que precisa aprender rápido para voltar e "honrar a ajuda do Bispo".

Em Vila Rica, Quincazé conhece Bento Arruda Bulcão, que logo percebe o enorme talento do jovem. Bento age com coerência dentro da trama onde nem tudo é dito, onde, num estilo machadiano, a sugestão tem mais força do que os acontecimentos. Bento percebe o talento, mas cala. Sabe, em sua experiência, que o reconhecimento desse talento implicará no distanciamento de seu jovem protegido. E ele o quer próximo, dentro do seu universo de influência. Nesse emaranhado de destinos, Bento também quer manipular os cordéis que movem as ações e o futuro de Mendanha.

Em silêncio, sem confrontar-se diretamente com Bento, Joaquim José foge da influência de seu protetor, como já o havia feito com seu pai e parte para o Rio de Janeiro, onde vai procurar José Maurício Nunes Garcia, o padre-mestre com quem quer aprender e estudar. Estranhamente, Quincazé não rompe os cordéis com que o pai e Bento tentam manipular seu destino, estica-os ao máximo, escrevendo para ambos e mantendo nos dois a impressão de que voltará. Um jogo de culpa e dominação estabelece-se entre eles.

E é justamente o padre-mestre quem vai deixar claro esse jogo. É ele quem, ao receber a cantata composta por Mendanha, coloca, pela primeira vez em palavras, o desejo de controlar o seu talento e sua arte, acusando-o de "não ouvir as palavras de quem não tinha melhor capacidade, mas era mais velho e experiente." A obra prima da vida de Mendanha é renegada pelo Padre que, em sua juventude, também aprendera que, por vezes, é preciso dissimular o talento, disfarçar-se na identidade comum e medíocre, para ser aceito. Assis Brasil lança mão de um tema complexo e delicado, movimentando suas personagens com sutileza e maestria. Mendanha aceita o jogo, e cria duas cantatas, uma a cantata verdadeira que revela a sua arte, a sua verdade, a outra, a cantata para o padre-mestre, que o torna aceitável dentro do papel que dele é esperado. Luiz Antônio, num jogo especular, volta ao tema da essência versus a aparência, tão presente em sua obra.

Há um pouco de destino trágico nas personagens de Assis Brasil, desse destino que, de certa maneira as conduz, independentemente de sua vontade. Por vezes escondem-se dele, mas, por fim, sempre há um encontro marcado. O pai, Bento e o padre-mestre tentam, de todas as maneiras, impedir esse encontro de Mendanha com a sua essência. Mas, quando os três morrem no mesmo dia, dando ao protagonista a chance de libertar-se, revela-se então aquele que realmente o impede de seguir o seu destino: é ele mesmo quem, num exílio voluntário, disfarça-se, esconde-se de sua arte, exila-se na revolução que ocorre no sul do país e transforma-se num compositor de hinos. Os espectros dos três personagens o seguirão por toda a vida e, junto com ele retardarão o seu encontro.

Joaquim José Mendanha, assim como Sandro Lanari, o protagonista de O pintor de retratos passa a vida em busca de si mesmo. O que os difere, fundamentalmente, é que Lanari não tem consciência dessa busca, age, durante toda a sua trajetória em função de Nadar, o fotógrafo que o provocara no início de sua vida. Mendanha, ao contrário, têm consciência de suas escolhas, sabe que luta consigo mesmo e conhece as regras do jogo. Em muitos momentos questiona essas escolhas, lamenta a cantata perdida e busca, no fundo de sua memória, reencontrá-la.

Pilar, a mulher que acompanha Mendanha durante o longo exílio que ele se impõe é a presença silenciosa que, de certa maneira, antagoniza os três personagens que o atormentam, atuando como o ponto de equilíbrio na trajetória do maestro. Simbolicamente, Assis Brasil faz de sua heroína aquela que escreve as partituras, aquela que materializa a criação do artista. É ela quem faz de tudo para reencontrar a cantata perdida. É ela a testemunha silenciosa do reencontro do maestro com sua obra prima, a composição final e o grand finale de toda a sua existência. O encontro com seu destino. É Pilar quem garante que a cantata seja executada, e que depois seja destruída e, só então, permite-se chorar pela morte do homem que amou.

Ao contrário de Sandro Lanari que,ao final de O pintor de retratos rasga a sua fotografia, lançando-a ao campo, dividindo-se e fragmentando-se, Joaquim José Mendanha encerra sua participação no ciclo de Visitantes ao Sul com a execução de sua obra-prima, com o real encontro consigo mesmo e com a sua constatação: "Ele sabe que agora sou, e para sempre, um artista".

História e ficção, essência e aparência, a arte fugidia, a busca de nossa obra prima são elementos que, harmonicamente, nos chegam nessa cantata de Assis Brasil. E encantam nossos ouvidos de leitores/ouvintes. Ao final da terceira parte, ao tratar "Dos ruídos dos instrumentos", o autor diz que "só um músico, ou alguém de ouvido apuradíssimo, pode escutá-los. (...) Antes de surgir a música, há os ruídos. No clarinete, no fagote, no oboé, no corne inglês, existe uma sucessão de chaves metálicas que se chocam, retinem, estalam. (...) Mesmo no órgão: o vento que sai dos tubos, antes de se transformar em música sagrada, percorre ductos cheios de quinas, provocando turbilhões cacofônicos. Tudo isso são ruídos." E é esse "ouvido absoluto" que Luiz Antônio de Assis Brasil possui para a literatura que o faz identificar cada um desses ruídos e eliminá-los, entregando aos seus leitores a melodia límpida e perfeita. Ao final da obra, parece juntar as mãos junto ao corpo, no movimento do maestro que rege até o silêncio final da última nota que reverbera no ar. Bravo. Bravíssimo.




Data: 29 de outubro de 2006.

* Luís Henrique Abreu Drevnovicz é Mestrando em História da Literatura pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande.

Elegância Literária
Vicentônio Regis do Nascimento Silva*
Doutor em Letras, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RSRS), Assis Brasil foge do turbilhão infrutífero dos “técnicos das letras”, transpõe os limites dos conceitos técnicos e num bom exercício literário, que atrela estética à leveza das palavras e à correnteza da depreensão textual, nos brinda com mais um livro envolvente, delicado, primoroso pela excelência, pela suavidade, pela construção de personagens, aparentemente simples, mas profundamente intricados em imbróglios sentimentais e interpessoais. Sua escrita é Arte, Maravilha, Deslumbramento, Elegância, Erudição, Profundidade.

Se os personagens e as cenas imaginariamente arquitetadas permaneceram em nossas mentes – quem poderia esquecer o ímpeto de Sandro Lanari, protagonista de “O pintor de retratos” (L&PM, 2001), ao gritar na tentativa de impedir a degola de prisioneiro de guerra e, ao mesmo tempo, capturar a imagem daquilo que, para ele, o tornaria um verdadeiro artista? – por longos períodos, desde o término da leitura, com “Música Perdida” não poderia ser diferente.

Se a tentativa de imposição de identidade gaúcha é bem aprofundada no campo jurídico brasileiro, essa mesma tentativa de imposição de identidade na construção literária persegue não apenas Assis Brasil, mas também escritores como Érico Veríssimo, Josué Guimarães, Sergio Faraco, entre outros. A imposição (ou criação?) da identidade do Rio Grande nos leva a questionar a falta dela em outros escritores brasileiros contemporâneos, excetuando-se certamente Autran Dourado.

Embora a história de “Música Perdida” se passe inicialmente nas Minas Gerais e no Rio de Janeiro, o questionamento e o desconforto psicológico atingem o clímax nas terras gaúchas onde, envolvido pelos fantasmas daqueles a quem dedicou afeto ou de quem o recebeu, Joaquim José de Mendanha amarga o isolamento espontâneo pelo sentimento de culpa da morte paterna, do suicídio de seu benfeitor mineiro e do amargor do adeus ao professor magnânimo da música clássica brasileira do período colonial. Sua angústia não o torna mais melancólico em razão do amparo dado por Pilar, bela mulher escolhida a gosto e à sorte.

Por ser mineiro, Joaquim José de Mendanha simboliza a concatenação de diversos brasileiros e estrangeiros, comprometidos por um desejo maior de construção de si, atrelados ao torrão de guerras, de revoluções e de brigas, mesclados ao sentimento singular de pertencimento à terra erigida calmamente (“Em poucos anos, Mendanha considerava-se do Sul”, p. 172), mas sem perder o objetivo bélico de independência. Pura demonstração de como o Rio Grande, cultivado por europeus e migrantes, transformou-se num estado sem possibilidade de comparação a outros, criando hábitos e costumes, considerações jurídicas e elaborações literárias próprias, elementos impactantes na solidificação da identidade gaúcha.

“Música Perdida” é um romance sem possibilidade de síntese, pois ele mesmo é a síntese da verossimilhança da imagem do perfeito buscada por cada um na minimização das angústias sentimentais, pessoais e inexplicáveis. Síntese procurada por todos, assim como a “Música Perdida”.


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*Vicentônio Regis do Nascimento Silva é tradutor, professor e crítico literário.


Assis (SP): Jornal de Assis, 2.nov.2006, p. 2
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