Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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O peso dos mortos na leveza da frase
Cris Gutkoski*
Luiz Antonio de Assis Brasil inventa histórias e personagens que se movimentam sobretudo no século 19. Não se trata de capricho ou loucura qualquer: é um projeto estético que o torna especial no grupo dos romancistas brasileiros em atividade. Assis também ficcionaliza ações de criaturas reais da história, mandatários, artistas, religiosos, rebeldes, o que é uma segunda operação de risco, essa de dessacralizar memória de gente conhecida, que tem foto oficial, lápide e dá nome a escolas.

Música Perdida, lançado há pouco, retoma a representação dos impasses da criação artística, presente, por exemplo, no dramaturgo doido de Cães da Província, no índio escultor de Breviário das Terras do Brasil, nos protagonistas de Concerto Campestre e O Pintor de Retratos. A partir do retratista italiano Sandro Lanari, do romance publicado em 2001, o escritor abandonou o estilo mais rebuscado de narrativa numa série de três volumes intitulada Visitantes ao Sul. No livro do meio, A Margem Imóvel do Rio (2003), que rendeu os prêmios Jabuti e Portugal Telecom, o protagonista era um historiador algo desmemoriado do Império, chegado do Rio em missão oficial. Em Música Perdida, o maestro-visitante busca nas lonjuras do Sul um distanciamento das culpas e do próprio talento.

Porque a solidão do músico seria extrema em meados do século 19, em Porto Alegre. "Aqui todos são gente séria". Compositores nos pampas eram tão raros como afinadores de piano no Rio ou em Minas, terra natal de Joaquim José de Mendanha, autor do Hino Rio-Grandense. Há toda uma história universal das condições adversas para a produção da arte em terras periféricas nesse recorte que traça a formação musical de um descendente de escravos. E na escolha do perfil do protagonista ampliam-se espaços e tempos. Para instrumentistas sulistas, não pertence exatamente aos séculos anteriores a tortura dos ensaios no inverno em salas sem aquecimento, os dedos mais rígidos do que as cordas, para o horror de eventuais colegas europeus.

O romance se divide em cinco partes e estas, em dezenas de outras, com exceção da última. São 24 subdivisões numeradas na primeira parte, 19 na segunda e também na terceira, mais 43 pedaços na quarta parte, a mais extensa, que acompanha o músico desde a primeira exibição de sua cantata de gênio, em Vila Rica, até o prolongado exílio entre os gaúchos. A concisão da frase experimentada desde O Pintor de Retratos junta-se aqui com a brevidade de trechos de meia, uma ou duas páginas. Fragmentações dessa ordem possivelmente dizem mais das necessidades de rotina do autor do que das exigências da narrativa. As cenas rápidas vão ganhando ritmo, a cada abertura das cinco partes o leitor é trazido ao tempo presente da ficção, o final de agosto de 1885, os cenários (Minas, Rio, Rio Grande do Sul) vão trocando de cor e de temperatura e o resultado é uma tragédia que se lê como suspense, contada com surpreendente leveza.

As frases da ficção de Assis Brasil perderam quilos de peso, de certa forma elas agora estão flutuando na página. São talhadas com método, raspadas de subordinações, injetadas de sugestão e sonoridade: "A penugem de seus membros era o rocio ao amanhecer sobre as folhas". É provável que, três livros depois, a técnica esteja encontrando o seu limite, afinal fica difícil imaginar construções ainda mais simples do que "Rossini foi um homem gordo" ou "Gostava dos animais e das matas". Mas é preciso reconhecer: o risco (de perder leitores, de perder o rumo) foi chamado ao duelo, e o risco foi vencido, em meia década. As dissonâncias preparam para a harmonia, ensina um dos artistas do livro.

De pesado na história sobressaem as culpas do protagonista, filho de músico e vocacionado desde criança, pressionado por mais de um mestre a abastardar o seu talento. Há diálogos preciosos travados pelos personagens Joaquim José de Mendanha e padre José Maurício, pupilo e professor nas redondezas da Capela Imperial, ambas figuras históricas e algo fossilizadas, agora iluminadas pela ficção. Assis faz o corpo e os gestos se encaixarem no nome de um assombroso personagem secundário, Bento Arruda Bulcão, maior até que Pilar, única heroína nesse clube masculino.

Romancistas podem escolher se a exatidão servil aos fatos dá vida ou enfraquece suas histórias, como escreve Michael Cunningham em Dias Exemplares, romance que retrata Nova York em pedaços de três séculos. De ficcionistas, pede-se que as tramas que inventam possam estar acontecendo na imaginação de quem lê, por mais fantasiosas que sejam, como esta, que vai de Itabira do Campo às prisões na Guerra dos Farrapos, dali para os quartos dos empregados de Rossini, em Paris, e de volta para a Praça da Matriz.

Se espaços geográficos também concorrem para a categoria nobre de personagens, o Sul da obra de Assis Brasil é sempre um tipo de vilão, um lugar longe do mundo, terreno de violências diversas. O olhar estrangeiro (de açorianos, russos, mineiros, fluminenses) agudiza os contrastes entre civilização e barbárie. Uma cena especialmente bonita no livro é o desembarque do grupo de músicos sob os tiros da guerra. Duas frases dão conta do recado. Uma delas só tem o verbo. E abre-se o grande campo de fuga para o maestro se esconder de seus mortos.

Assis Brasil estreou no romance em 1976, com Um Quarto de Légua em Quadro. Música Perdida é seu 17º título e com ele o escritor completa 30 anos de literatura, o dobro do tempo dedicado como instrumentista à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

Porto Alegre: Zero Hora, 23.dez.2006. Cultura, p. 2.

* Jornalista. Mestre em Letras.
Acordes do passado


Maria Helena de Moura Arias*

A leitura de Música Perdida de Luiz Antonio de Assis Brasil, deve ser pausada. Sua escrita obedece a um compasso, portanto, previne-se: melhor que ler é necessário saber ouvir. O livro, que apresenta de forma melodiosa, os últimos instantes da vida do Maestro mineiro, radicado em Porto Alegre, Joaquim José de Mendanha, conhecido pela autoria do Hino Rio Grandense, flui com a firmeza e a densidade dos momentos finais da execução de uma bela peça musical. Como personagem protagonista, o Maestro, que foi discípulo de José Maurício Nunes Garcia, vive um conflito intenso ao buscar em seu passado a sua música perdida. Por isso, o livro, assim como uma orquestra imaginária, aceleram para o Finale tão esperado pelo Maestro.

O Maestro José Joaquim de Mendanha, nasceu em Itabira-MG, mas foi no Rio de Janeiro que teve suas aulas com o já conhecido compositor Padre Mestre José Maurício Nunes Garcia, com o qual aprendeu a ser um músico eficiente. No entanto, para chegar a Nunes Garcia, Mendanha teve que ser uma espécie de protegido de Bento Arruda Bulcão, rico morador de Vila Rica e amante das artes e da música. Ou seja, o protagonista sempre viveu cercado pela música: o pai era mestre de uma Lira que apresentava-se na igreja matriz da pequena Itabira do Campo; Bento Arruda tinha alguma iniciação musical e fez com que ele percebesse e valorizasse o próprio talento e, por fim, Nunes Garcia. Após a morte destes três personagens, Mendanha passa a esperar pela sua hora e, acreditando ter sido responsável de alguma forma, incorpora para si o peso intransferível da culpa. E a culpa é quase tão forte quanto a música.

Quando ainda era aluno de Nunes Garcia, recebeu deste o poema "Olhai Cidadãos do Mundo" escrito pelo músico e poeta árcade Manuel Inácio Silva Alvarenga, com a sugestão de transformá-lo em uma cantata. Realizou o trabalho de forma sistemática e apaixonada. Ao ver o resultado da composição, Nunes Garcia solicitou que fizesse algumas modificações retirando-lhe assim, a sua grandiosidade. Mendanha, preocupado em obedecer, a refaz, mas guarda consigo a música original. A cantata deveria seguir posteriormente para a Itália endereçada ao grande Rossini que dela jamais tomaria conhecimento. O pacote com a música permaneceu esquecido por quarenta anos.

Assim, como a narrativa compõe-se de cinco partes, pressupõe-se, também imaginariamente, que a sua construção inscreva-se no espaço de um pentagrama. Nada mais familiar para um músico como é o caso do autor que fez parte da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre como violoncelista na década de 60, antes de deixar aquele profissão para ser escritor.

É muito justo que seja também assinalada a indefinida posição do narrador, ou dos narradores, porque temos a impressão de que são vários deles a narrarem uma história com muitas voltas, as quais levam o leitor deste século para tempos significativos que são o passado, o presente e também o futuro do Maestro. Ou seja, o passado, que revê sua história pessoal; o presente que registra sua vida em trânsito e o futuro que resume-se na espera pela morte Mas não se trata de uma indefinição equivocada, mas sim estratégica, com a intenção de tecer e moldar estes tempos diferentes na rede narrativa interna que tem a duração de aproximadamente um dia e uma noite.

A história de Mendanha e sua cantata confunde-se com a remota e nebulosa história de Mozart e seu Réquiem. Uma composição de fundo misterioso, uma lenda sempre presente que transforma completamente a vida de seu autor. O artista se vê limitado e sufocado por sua criação. Assim como Mozart, Mendanha pede à esposa que a sua cantata seja executada em seu funeral e, projetando uma aproximação maior com o genial compositor, infere-se que aquela música, perdida por tanto tempo, era seu próprio Réquiem.

Por isso, Música Perdida é um livro voltado para espírito da arte, simbolizado pela música e que lança ao leitor imagens inesquecíveis como a mitológica de Orfeu e Eurídice, figurados na pintura do cravo da residência de Bento Arruda Bulcão; ou também a constante evocação do músico como criador e artista e não apenas executante, feita pelo maestro, situação esta que o levará a projetar-se como compositor na cidade de Porto Alegre. E, por fim, quando o narrador compara a arte da composição musical com a arte literária, equiparando o músico com o escritor.

Impossível também não registrar a força emocional presente neste Romance que, através de suas personagens, perscruta o leitor diretamente em sua alma, revelando-o a si mesmo.
Curitiba: Jornal RASCUNHO n° 84 (Abril 2007)

*A autora é Doutoranda em Letras pela UNESP-Assis/SP


Escrever não é trabalho, é ofício

Marcelo Spalding*


Poucos são os escritores consagrados em seu tempo, premiados pela crítica e queridos pelos leitores, e raros os que, depois de obter tal reconhecimento, ainda dispõem-se a compartilhar sua arte e ensinar jovens escritores sobre os ofícios e os mistérios da produção literária. Para sorte dos que moram em Porto Alegre, há nestes pagos uma destas raridades, e se trata nada mais, nada menos do que o maior romancista do Estado, Luiz Antonio de Assis Brasil.


Assis Brasil há mais de vinte anos ministra uma oficina de criação literária concorridíssima – oficina que lançou para a literatura nomes como Cíntia Moscovich, Amílcar Bettega, Michel Laub, Letícia Wierzchowski e Daniel Galera – em que ensina técnicas e discute possibilidades da criação em prosa nos moldes dos cursos de creative writting norte-americanos, de onde Assis não nega vir a inspiração. O aprendiz ouve dicas como “evite uma grande quantidade do pronome que”, “leia seu texto em voz alta”, “deixe seu texto dormir antes de reler”, “evite levar a personagem para a janela, os escritores quando não sabem o que fazer sempre colocam a personagem na janela”, e assim por diante. Mas há uma grande lição que fica de toda a oficina, de todo o pensamento do mestre: literatura é trabalho. Ou melhor, ofício.


Pois em Música perdida (L&PM, 2006, 220 págs.), mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o protagonista é um músico com a mesma angústia de todo escritor, de todo artista, qual seja produzir uma grande obra de arte, o que permite ao narrador travestir-se daquele mestre das oficinas e dar-nos pequenas lições:


“O compositor musical convive com a natureza e os homens. Num determinado momento, sempre novo e inexplicável, uma pequena e desconhecida melodia aflora a seus lábios, e logo ele a está cantarolando. A isso pode se chamar de inspiração. O resto é trabalho de pendurar as notas no pentagrama, escolher a tonalidade, estudar os acordes, obedecer – ou não – às regras da harmonia e do contraponto. Isso, aliás, não é trabalho: é ofício, como o exercido por qualquer escritor”.


O protagonista da obra é Joaquim José de Mendanha, conhecido no Rio Grande do Sul por compor nosso hino, mas representado na obra desde a infância. Filho de maestro da pequena cidade de Itabira, Mendanha é abençoado com um ouvido absoluto (reconhece as notas musicais em cada som do cotidiano), o que motiva o pai a mandá-lo para Vila Rica a fim de estudar música. Na cidade, conhece um rico minerador, o ambíguo Bento Arruda Bulcão, que ajuda o jovem a prosseguir seus estudos no Rio de Janeiro com o célebre compositor Padre-Mestre José Maurício Neves Garcia. E é a partir do contato com o mestre que Mendanha resolve compor, e de fato compõe uma belíssima cantata que o Padre-Mestre de pronto rejeita, mas a verdade é que ela o perturba por estar muito acima da capacidade dos ouvidos brasileiros. Por isso Mendanha, quando tiver oportunidade, deixará sua partitura com um francês que promete entregá-la a Rossini, ato este que marca sua existência, pois sua música acaba perdida. Por mais que se esforce, o músico não sabe repetir a composição que ele julga perfeita, e angustiado pela perda da música e dos entes queridos, alista-se no Exército, atravessa o Brasil e desafia a guerra de 1835 no Sul.


Como maestro do Exército, Mendanha é preso pelos rebeldes (leia-se Farroupilhas) e obrigado a compor o hino da República Rio-Grandense (melodia que se mantém no hino atual do Estado). Mas depois é recapturado pelos imperiais, pede baixa do exército e vai viver com sua esposa na longe e fria Porto Alegre do século XIX, onde trabalha como maestro, compõe diversos hinos mas convive com uma angústia que é o cerne da narrativa: não se considera um artista. Não considera ter feito sua obra-prima. Ou melhor, acredita ter perdido para sempre a obra que lhe abriria as portas do céu devido a sua excelência.


Não é preciso forçar muito para vermos na ambição, na angústia e na meticulosidade do músico um pouco do mestre das oficinas. Logo num primeiro olhar se percebe que Música perdida é por si só fruto de muito trabalho, não este trabalho do mercado que nos exige tantas horas de produção em massa, mas um trabalho artesanal que mescla disciplina e rigor com inspiração e talento. As frases e os capítulos são curtos e densos, cada palavra foi pensada, medida, e o texto vai se desenhando como uma partitura musical repleta de ritmos e significados.


“O tio ensinou-lhe como as notas deveriam ser desenhadas, porque de desenhos se tratavam. Começou pela semibreve, um círculo branco, achatado. A semibreve soava por mais tempo. Durava quatro batidas do dedo sobre a mesa: 1, 2, 3, 4. Em seguida, a mínima, que era a semibreve com uma haste que subia, duas batidas: 1, 2. A semínima era uma notinha negra, com uma haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste possuía uma bandeirola. As hastes poderiam ser para cima ou para baixo. E assim por diante. Pilar perguntou como os músicos, só olhando aquelas notas, sabiam o que tocar. 'Deus' – o tio respondeu – 'lhes dá esse dom'”.


Quem não acompanha a carreira de Assis Brasil com cuidado e leu um ou outro dos seus romances iniciais (A paixão de Jacobina, Bacia das almas, Cães da província), de certo ficará surpreso com a concisão e o minimalismo da linguagem de Música perdida. Mas há uma explicação, e esta é uma história interessante: na viragem do milênio, o autor escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001 e A margem imóvel do rio, de 2003, este premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom.




Música perdida, neste contexto, é o terceiro livro depois da mudança estética, terceiro de uma série que o autor chama de “Visitantes ao Sul”, e também um marco do trigésimo ano de sua estreia com Um quarto de légua em quadro, em 1976. De lá para cá, de obra em obra, sempre enraizado no Sul e com os olhos voltados para o passado de formação da nossa identidade, Assis Brasil tem se revelado um mestre em seu ofício, um mestre que não se contentaria em armar e medir com engenho palavras, frases e capítulos, mas também compor as obras e publicá-las cada uma a seu tempo, construindo assim uma sólida carreira e um conjunto ficcional perene e respeitável.
* Escritor.
Digestivo Cultural, 9.01.2007

A música reencontrada de Assis Brasil

Na história de um desacordo entre ambição e vocação, escritor gaúcho realiza contenção máxima dos recursos do romance

Fabrício Carpinejar*

Procura-se a revolução do romance no fluxo de consciência, numa linguagem poética, na alternância frenética de espaço e tempo, nos diálogos epiléticos. Mas é possível que ela esteja acontecendo onde ninguém espera, dentro do próprio romance tradicional.

Luiz Antonio de Assis Brasil, 61 anos, admirador de Eça de Queirós, romancista premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom em 2004 (3°lugar) , tinha tudo para se acomodar: 17 livros publicados e mais de 250 mil exemplares vendidos, especialmente no Rio Grande do Sul. Mas o que fez foi justamente o inverso: procurou mudar seu texto para dentro, não mudar para fora.

Trocou o romanção de mais de 500 páginas, representado, por exemplo, em Videiras de Cristal (que ambienta o conflito dos Muckers), de 1990, pela singeleza de 220 páginas de Música Perdida (L&PM).

Não que tenha renunciado à sua obra pregressa. De modo nenhum, até acentuou o valor do que realizava desde sua estreia há três décadas, com Um Quarto de Légua em Quadro. Justificou e serenou suas decisões anteriores.

O escritor gaúcho empreende uma contenção budista em sua nova fase, um breviário epifânico. Aquilo que é feito no conto por Dalton Trevisan, de suscitar a narrativa do mínimo lírico com duas ou três frases, à semelhança dos haicais, Assis Brasil executa no romance. Retira toda a pompa, todo o fundo pantanoso e psicologizante dos pensamentos das personagens para deixar apenas a musculatura da história. É uma transgressão impensável a um gênero que pede cada vez mais palavras e explicações. Sua violência está no enxugamento da estrutura, ao invés do dilaceramento joyceano ou da desestabilização pós-moderna. Mostra que a novidade pode estar na coerência máxima, em apertar ainda mais o nó-cego de Flaubert.

Se Dalton Trevisan empregou o haicai para desidratar o conto, Assis Brasil recorreu à partitura para afunilar o romance. Porque a partitura é um ponto de partida para o músico, nunca a música.

Além do sentido individual de cada instrumento, há um sentido geral do maestro, que só ele sabe. E é justamente na capacidade de harmonizar sugestões e os dois caminhos (o músico-personagem e o maestro-enredo), que o autor vem essencializando seu estilo para consolidar a ideia do conjunto, prevenindo-se da adjetivação excessiva e da gordura ideológica. A descrição do mundo é o universo interior do personagem. Em sua escrita, os desejos estão nas ações.

Música Perdida completa a trilogia Os Visitantes do Sul, ao lado de O Pintor de Retratos (2001) e A Margem Imóvel do Rio (2003). São obras gêmeas, sempre curtas e contundentes, que retratam a passagem de um estrangeiro pelo Estado gaúcho.

O novo livro desfaz alguns equívocos. Claramente, Assis Brasil não é um romancista histórico, é um romancista da imaginação. Um fabulador moral. O enfoque a um período é um pretexto para evolar a trama. Não medita sobre vidas reais, mas vidas possíveis.

Música Perdida apresenta um personagem verídico, o maestro Joaquim José de Mendanha, que criou o hino rio-grandense. Mas o que ocorre são suposições ficcionais: a fidelidade de pupilo ao padre José Maurício Nunes Garcia; seu envolvimento filial com um mecenas mineiro, Bento Arruda Bulcão; a composição de uma cantata do maestro, Olhai os Cidadãos do Mundo, que teria sido enviado a Rossini; sua relação amorosa com Pilar, copista de seus trabalhos, e inclusive a criação fácil do hino, num punhado de horas, para não ser morto.

A partir de cinco capítulos e dois planos simultâneos da vida de Mendanha, a proximidade de sua morte em agosto de 1885, em Porto Alegre, e sua peregrinação cigana, de Itabira do Campo (MG) ao Rio de Janeiro, Assis Brasil aborda a busca pela composição perfeita. Mendanha, que tem o “ouvido absoluto”, ou seja, o dom de ler musicalmente os sons do cotidiano, enfrenta uma série de resistências para se propor como artista. As limitações começam com sua família, onde o pai apenas quer que seu filho o substitua na banda da cidade, e prosseguem com a convivência com o padre-mestre José Maurício Nunes Garcia, que sempre alerta para a incompreensão do público brasileiro de criações mais sofisticadas.

Mendanha percebe seu sonho como um castigo, seu talento como um estorvo. É censurado quando deseja fazer uma música de tradição europeia num contexto submisso (caracterizado por apadrinhamentos políticos), acuado pelas dificuldades materiais e remoia culpa de não atender às expectativas (sua e dos outros). Migra de cidade a cidade, até o ponto de se alistar numa banda militar e ser enviado às gélidas planícies sulinas. “Mendanha soube que os músicos são, ao mesmo tempo, os mais desprezíveis numa guerra, a ponto de serem indignos de fuzilamento, mas também os mais necessários.”

Assis Brasil, que já foi integrante da Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), expressa nas desventuras de Mendanha uma parábola do “complexo de vira-lata”, expressão alcunhada por Nelson Rodrigues, de que o brasileiro se sente ameaçado pelo próprio talento, e não apaga a desvalia ancestral de colonizado. No fim de sua trajetória, o personagem sobrevive de fazer hinos sob encomendas e sufoca sua aspiração estética, encarnada na cantada inédita.

Um parâmetro ao enredo de Assis Brasil são dois contos de Machado de Assis: Cantiga de Esponsais, em que o mestre Romão tenta inutilmente fazer sua grande peça e acaba a descobrindo, após anos de infortúnio, na forma de assobio de uma moça, e O Homem Célebre, no qual o compositor Pestana submete-se a criar polcas para o sucesso de público e se afasta da arte erudita.

Mendanha seria como amálgama machadiano entre Romão e Pestana: a cisão entre ambição e vocação, o desacordo entre a solidão criadora e a aprovação social, além de questionar a identidade nacional, o que é nativo e o que é herdado e a refração histórica ao estranho e minoritário.

A principal qualidade da narrativa é a coesão do discurso, a redução da história a somente os episódios marcantes de Joaquim José de Mendanha, permitindo a compreensão panorâmica das escolhas e do limite de atitude do protagonista.

Entretanto, ao cuidar com precisão de cada período gramatical e da sonoridade exata, Assis Brasil corre o risco de dizer menos do que precisa, de interpor vazios narrativos e cair na arrogância da lacuna. Correr riscos não é os infligir.

O romancista modula uma vida rica de episódios em pouquíssimas páginas, não matando a fome e abrindo largamente o apetite. Tem sempre à sua disposição o fraseado legível, lapidar e conclusivo, que fermenta o subtexto, como no momento que Bento Arruda Bulcão se sente abandonado: “Aquela seria a voz de um morto, se os mortos falassem”, ou no momento em que Mendanha reflete sobre o suicídio: “É a forma mais cruel de permanecer dentre os vivos”.

São esses grandes momentos que fazem qualquer livro voar. Mesmo que as asas sejam as silenciosas da coruja.

São Paulo: O Estado de São Paulo, 4. fev. 2007.

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* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006), entre outros.


Um olhar sobre o pampa

Ricardo Ritzel


Definitivamente Luiz Antonio de Assis Brasil mudou. Suas frases estão mais curtas e as narrativas mais ágeis. Mas não se enganem; seus personagens continuam densos e suas histórias, magnéticas. A trilogia “O pintor de retratos”, “A margem imóvel do rio” e “A musica perdida” são o melhor exemplo desta nova fase do escritor gaúcho que assina também obras como "A prole do Corvo", "Cães da Província" e "Um quarto de légua em quadro". O escritor mudou para melhor.

Esta trilogia de Assis Brasil é o olhar do estrangeiro sobre o Rio Grande do Sul. È também a visão do homem comum sobre as mudanças do mundo. A transformação da sociedade monárquica, agro-pastoril e rural do século XIX em sociedade urbana, industrial e republicana do século XX. È um pouco todos nós brasileiros, oriundos de alguma imigração. Mas, sobretudo, "O pintor...", “A margem...” e “A musica perdida” são obras que discutem o homem e seu relacionamento com a arte. São épicos contados com sensibilidade e técnica ambientados na então longínqua Província do Rio Grande do Sul.


O pintor de retratos
Em “O pintor de retratos”, L&PM, 2001, o protagonista do romance é Sandro Lanari, um aprendiz de pintor de retratos italiano que vai estudar em Paris nos meados do século XIX. Descobre o amor de uma mulher e a arte da fotografia feita pelos vanguardistas franceses da época. Abandona tudo por estes dois novos amores. Desilude-se com ambas paixões. Declara guerra ao progresso e a fotografia. Emigra para o Brasil e se estabelece no Rio Grande do Sul em plena revolução federalista de 1893. Por um acaso do destino, é recrutado por uma coluna revolucionária maragata e vagueia forçosamente por este pampa como fotógrafo dos rebeldes. Uma ironia que irá mudar sua vida e sua arte.

Luiz Antonio de Assis Brasil compõe este romance com uma reconstituição histórica primorosa. O escritor faz Lanari e seus leitores percorrerem a formação dos pintores retratistas europeus com suas misturas de cores e nuances. Quando surge a fotografia e ela se consagra como arte, Lanari tem que esquecer toda sua formação com a pintura e se adaptar a captação da imagem pela luz e pela sombra. A desvendar os segredos do enquadramento e da revelação. È uma nova forma de ver e descrever as pessoas. Uma alusão ao homem e suas circunstâncias, ao embate da vida e da arte, entre o que se quer e o que se tem de fazer. Bem significativo para tempos como estes e o ritmo vertiginoso de revolução tecnológica e social que caracteriza nossa época em pleno século XXI.


A margem imóvel do rio
O segundo romance da trilogia é “A margem imóvel do rio”, L&PM, 2003. Nesta obra, Assis Brasil nos conduz pelos estertores da monarquia brasileira e o alvorecer da república. Na penúltima década do século XIX, o cronista da corte vê sua monótona rotina ser alterada por uma carta que chega ao Paço vinda da distante província do Rio Grande do Sul, endereçada a Sua Majestade Dom Pedro II. Na missiva, um estancieiro gaúcho de nome Francisco da Silva, cobra uma promessa feita vinte e um anos antes pelo Imperador Dom Pedro II: agraciá-lo com o título de Barão, em reconhecimento à sua hospitalidade e serviços por ocasião da visita imperial às terras do Sul. Como os registros do império nada revelavam, o cronista parte em viagem para o interior da Província mais meridional do Brasil. A palavra do Imperador está em jogo. Quem é Francisco da Silva?

Os contrastes da sede do Império, o tropical e festivo Rio de Janeiro, com as fronteiras gélidas e belicosas do pampa, revela a velha aristocracia rural gaúcha, e seus costumes e tradições. O cronista da corte é o olhar forasteiro para os homens e mulheres que delinearam a fronteira meridional do Brasil com espadas e patas de cavalo. São os fantasmas que assombram mulheres solitárias e homens rudes que percorrem uma margem imóvel do rio, ávidos por ouro e prestígio em uma sociedade em transformação. “A margem...” são as entranhas expostas do Rio Grande.


Música perdida
Com o romance “Música perdida”, L&PM,2006, a trilogia de Assis Brasil é encerrada com maestria. Novamente a visão do estrangeiro é que nos conduz para esta trama de pecado, culpa e redenção. O protagonista é Joaquim José de Mendanha, um mineiro que estudou música com um dos maiores mestres musicais brasileiros da segunda metade do século XIX. Mendanha vê sua vocação musical ser confirmada e torna-se a grande expectativa da musica nacional daqueles distantes dias. Porém a vida lhe prega uma grande ironia. Circunstâncias incontroláveis, entre as quais uma certa música perdida, levam-no, de renúncia em renúncia, a abdicar de seu talento e acabar nas geladas planícies do pampa.

Porém esta renúncia de Mendanha, que o faz mergulhar na mediocridade de uma carreira sólida e bem-estruturada, lhe leva a repensar a vida em uma turbulência emocional que terá o dom de redimi-lo e transformá-lo. “A musica...” é a sensibilidade entre o rústico, é a civilização entre a barbárie, é o conhecimento entre a ignorância, é a música sobre o silencio. “Música...” é o Rio Grande do Sul em forma de letras. É uma narrativa que através da musica, nos leva a refletir sobre as contradições das terras do sul. Boa leitura.

Santa Maria: A Razão., 22.mar.2007


A música de um mestre mulato em prosa

Leonardo Martinelli *

Romance polifônico, de leitura agradável e fluída, o livro “Música perdida”, de Luiz Antonio de Assis Brasil, tem como personagem principal uma figura que, apesar de relativamente comum na ficção universal, é ainda muito rara na literatura nacional, isto é, o compositor.

Um dos principais romancistas brasileiro em atividade e autor de obras premiadas – tais como “A margem imóvel do rio” e “O pintor de retratos” – em “Música perdida” (pelo qual concorre este ano o Prêmio Jabuti de melhor romance) Assis Brasil toma como fio condutor a vida do compositor mineiro Joaquim José de Mendanha (1801-1885), que na vida real é mais conhecido por ser o autor da música do Hino Farroupilha, mais tarde conduzido ao status de hino oficial do Rio Grande do Sul. Em uma laboriosa teia narrativa, na qual a ficção e a biografia se entrelaçam de forma coesa em diversos lugares do tempo e do espaço, o escritor constroium personagem complexo, no qual valores, deveres e anseios antagônicos travam uma batalha constante ao longo da sua vida.



Música de ficção

É com relativa frequência que a vida dos compositores clássicos têm sido o mote de diferentes obras de ficção, seja na literatura, na dramaturgia ou no cinema. Reais ou imaginários, é desde meados do século XIX que o compositor é uma fonte para drama e conflitos. Uma vez no campo da invenção literária – e não mais na acuidade histórica da biografia – o compositor é um personagem de grande densidade psicológica, e a vida que gira em torno dele é algo tão denso quanto sua mente criativa, o que faz de sua obra e vida singulares frente à ordinariedade do cotidiano e do cidadão comum. Seja Mozart e Salieri da pequena peça de teatro de Púchkin, o Beethoven do filme de Bernard Rose ou mesmo os fictícios Adrian Leverkuhn, de Thomas Mann, e Jean-Christoph, de Romain Rolland, o compositor enquanto personagem de ficção mostra-se um figura complexa e interessante.

Apesar da grande oferta e peculiaridades que a música brasileira oferece como referência, a figura do compositor em sua ficção é ainda escassa, quando não constrangedora (tal como o filme “Villa-Lobos: uma vida de paixão”, de Zelito Viana). Tendo isto em vista, o livro de Assis Brasil revela-se ainda mais surpreendente, na medida em que ele elege o desconhecido Joaquim José de Mendanha como personagem de seu romance.

O nome deste compositor por ser colocado ao lado de outros que, apesar do virtual anonimato no qual se encontram em nossa atual cultura musical, são nomes importantes para história da música brasileira, tais como José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, André da Silva Gomes, João de Deus Castro Lobo, Manoel Dias de Oliveira e José Maurício Nunes Garcia (este também um personagem em “Música perdida”).

Todos são compositores pertencentes ao que se convencionou chamar de “música colonial”, isto é, produzida em meados do século XVIII até os primórdios do XIX, nos então centros de riquezas brasileiros, em especial, as Minas Gerais e o Rio de Janeiro.

A vida do mestre mulato

Nascido Vila Rica, o compositor Joaquim José de Mendanha (que no romance é também chamado pelo apelido de Quincazé) realizou estudos e trabalhos profissionais no Rio de Janeiro, de onde posteriormente partiu para longínqua Capital da Província do Sul, em meio às conturbações que assolavam o Império naquela época.

Mulato, Mendanha faz parte de um tipo que se tornou relativamente comum na música brasileira da época, quando parte considerável os ofícios musicais religiosos e laicos estavam a cargo de músicos oriundos de famílias humildes, e a profissão era um dos principais meio de ascensão social de então.

Em sua imensa maioria, esses compositores realizaram sua formação musical de forma improvisada, apoiando-se muito mais em seu talento do que em um método formalizado. Grande parte de suas produções foram dedicadas à música religiosa, por meio de partituras que seriam executadas por cantores e instrumentistas com uma formação aquém dos músicos que seus contemporâneos europeus dispunham para materializar sua música.

Neste sentido, é notável o cuidado de Assis Brasil ao mostrar ao leitor não só as peculiaridades do cotidiano musical pré-republicano, que em muito se contrasta com estereótipo de luxo e excelência que cerca as práticas europeias, mas também como este ambiente foi determinante na vida de seus personagens, tal como fica especialmente claro nas falas de Nunes Garcia, para quem a consciência de nossa rusticidade musical chega ao ponto da abnegação intelectual. “Se deseja ser compositor no Brasil, domine seu talento”, diz a certa altura ao protagonista Quincazé.

A frase, de certa forma, ilustra uma das ideias principais do livro, qual seja, o perpétuo estado de ansiedade do artista sempre em meio a forças antagônicas: o poder e o ceder, a nobreza artística e a indigência comercial, a sofisticação da intelectual e o simplismo do público. Mas o antagonismo maior, que por fim é o que faz o protagonista abandonar o cosmopolitismo carioca para a provinciana Porto-Alegre oitocentista, é o choque decorrente entre as obrigações sentimentais juntos aos seus próximos (em especial ao pai e aos seus mestres-tutores) versus a vaidade e a ambição naturais a um jovem artista.

Com sua prosa envolvente e a familiaridade com aspectos históricos e técnicos das práticas musicais, Assis Brasil oferece ao leitor uma obra bela e consistente sobre a música e vida que mesmo que momentaneamente recuperada, estará inexoravelmente perdida devido ao fatalismo que projeta sua sombra sobre os trópicos brasileiros.
Gazeta Mercantil, São Paulo, 29.jun.2007. Caderno Fim de Semana
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Leonardo Martinelli é músico, musicólogo e escritor.



Em nome da harmonia

Renata Miloni


Assim Assis Brasil se mostrou em seu romance: mantendo um ritmo sensatamente emocionante do começo ao fim, com a honesta prioridade não de impactar, mas de ser fiel ao texto, ao tom de narração escolhido.
Em uma de minhas recentes descobertas tardias, percebi que todo começo de livro deixa o leitor apreensivo, como se aquele objeto fosse uma ameaça e exigisse que a pessoa esteja em permanente posição de defesa. Com Música perdida (L&PM Editores), de Luiz Antonio de Assis Brasil, aprendi que é preciso ter mais paciência na leitura do que eu imaginava.

Comecei a ler com inúmeras dúvidas e descrenças, fazendo daquele livro um estranho cuja única intenção era me cegar. É realmente necessário se livrar de certos costumes e pré-julgamentos ao iniciar uma leitura. Não sei se me deixei levar pelo ar sombrio que sobrevoa a literatura brasileira, pois confesso ter ido pronta para o ataque. Minha pré-reação durou apenas uma página, tempo suficiente para que eu admitisse ter em mãos um grande livro, que se tornaria muito importante para mim.

O cuidado e a delicadeza com os quais o autor tratou a morte, o luto negado, o susto e o terror que vive dentro das pessoas estão presentes em cada linha, na medida de uma música em plenitude. O recurso de frases curtas, com a intenção única de dar um certo efeito ao texto, nunca me agradou, mas reconheço que, para fugir de um impacto não calculado, o escritor deve ter uma lucidez muito maior do texto. E assim Assis Brasil se mostrou em seu romance: mantendo um ritmo sensatamente emocionante do começo ao fim, com a honesta prioridade não de impactar (o que pode ser uma consequência e não um propósito), mas de ser fiel ao texto, ao tom de narração escolhido.

Bulcão, o melhor personagem

Música perdida, longe de ser uma biografia, como o próprio autor já disse, trata dos momentos vividos — com a exceção de alguns detalhes que poderiam ter eliminado a literatura do livro, se assim posso dizer — pelo maestro Joaquim José Mendanha (autor do hino rio-grandense), os quais, dentro da ficção, o fizeram entender o que é ser um verdadeiro músico, um artista completo, e que nada teria sentido enquanto ele não aceitasse quem era e o que sua música fazia, levando o tempo que precisasse.

O pai de Quincazé — apelido do maestro quando jovem —, também músico, descobriu que o garoto tinha ouvido absoluto (característica daquele que consegue identificar uma nota musical isolada, algo muito raro) e decidiu que seu filho deveria se dedicar ao estudo da música. Após alguns anos e o jovem Mendanha vai para Vila Rica, Minas Gerais, e conhece Bento Arruda Bulcão, que se transforma em seu primeiro mestre. Com ele, Quincazé aprende acima de tudo o lado romântico da composição, aquele que não exige que o compositor anote, mas que conheça a música para sabê-la — o que diz muito sobre a vida:



No momento em que se anota a música, ela perde o seu drama. Mesmo que o compositor escreva todas as indicações [...], nunca será como ele pensou e como ele sentiu. [...] São apenas palavras. E o que são palavras? (página 36)

A convivência com o jovem fez renascer em Bento Arruda Bulcão uma paixão pela vida, a ansiedade para que ela continue e não pare. Na minha opinião, é o melhor personagem do livro. Seu desenvolvimento faz com que o leitor esteja ao seu lado o tempo todo, vendo seu sofrimento por tudo o que perdeu, pelo que não pôde realizar, acompanhando os estouros de felicidade e uma rara satisfação de ter Mendanha como aluno.

Decidido de uma forma completamente altruísta (do verdadeiro amor que concede a liberdade, do corte violento e necessário), Bento encaminha Quincazé para o Rio de Janeiro, onde teria melhor educação musical com o Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. Chegando ao Rio, Mendanha aprende sobre música e vida, mas de forma contrária à que Bulcão havia lhe passado. Encantado com as novidades do aprendizado e as possibilidades da nova cidade, o protagonista corta aos poucos o contato com seu primeiro professor, deixando-o num passado quase sem significado — um possível desvio dessa personalidade ainda em formação. Na cidade também consegue trabalhos, passa a considerar Nunes Garcia seu grande mestre e conhece sua futura esposa, Pilar — aquela que lhe dará força até nos momentos em que tudo parece acabar, inclusive quando Mendanha não vê a arte existir mais.

A procura sem fim

É muito fácil, na juventude, lidar com o dom que se possui, pois nada além dele é exigido. A maturidade faz com que se conviva com esse dom, o que muitas vezes implica na desistência dele por inaceitação dos que rodeiam a pessoa e, consequentemente, dela própria. Quincazé, em Música perdida, foi feito por influências. A crença única em seu talento anula a confiança em si a partir de si. O que ele é não o faz músico, mas é o que os outros querem — principalmente seu novo professor, o Padre-Mestre — que ele toma como garantia. Sua música é feita por indicações de certo e errado, sempre ditas por outras pessoas, inicialmente e de forma mais pura por Bento Arruda Bulcão.

Aos 40 anos, Mendanha compõe uma cantata, o auge de todo o seu estudo, a composição que confirmaria a grandeza de seu talento. O Padre-Mestre aprova implicitamente a cantata, mas considera um ato de soberba um músico brasileiro querer apresentar uma composição como aquela. Por isso, Mendanha decide fazer uma nova versão, de acordo com o que Nunes Garcia considera aceitável para os ouvidos do país. Isso não o impede, no entanto, de futuramente tocar a composição para um grupo de franceses, que ficam maravilhados com a exímia capacidade do músico e se propõem a enviar a partitura da cantata a Rossini. Mendanha cede aos elogios e, a partir daquele momento, se despede, sem saber, de seu auge na música.

Inicia-se então a negação do maestro pela vida, sob a tortura de uma procura que ele sabia jamais terminar. O satisfatório da vida é que quase sempre estamos errados e ainda temos direito à redenção (inclusive da culpa, inexistente no caso de Mendanha). Uma redenção que pode surgir quando uma orquestra se aquieta, tamanha a perfeição com que se executou uma música, quando a ausência de aplausos indica o intocável da arte.

Durante o livro inteiro, todos, de alguma forma, estão em seus limites. Todos se encerram, em nome da harmonia, para que Mendanha reapareça para si. Música perdida é, assim como a composição de seu protagonista, uma cantata a anunciar seu estado natural de vida: o imortal.
Le Monde Diplomatique

http://diplo.uol.com.br/2007-12,a2096


ENSAIOS ÍNTIMOS E IMPERFEITOS

O poder das palavras

 Angelita Santos da Silva*

   Um pouco do autor fica no narrador, no diálogo, na personagem, no implícito, no óbvio, no obscuro, na sua obra, enfim. Calvino nos diz da necessidade de se ler os Clássicos, Sartre questiona o que é Literatura, Friedman sistematiza a estrutura da Narrativa, Ricoeur fala do Tempo, Bachelard do íntimo Espaço, e assim desmontamos para remontar a narrativa. 

Luiz Antonio de Assis Brasil, com seus Ensaios Íntimos e Imperfeitos, vem nos dizer da insubmissão das palavras; do poder que elas têm em nos fazer acreditar que as manipulamos, quando na verdade são elas a nos encantar como sereias em alto mar. Como servo das palavras, como alguém que as respira para sobreviver, Assis Brasil nos traz pensamentos e reflexões acerca da trajetória que não é de um, mas de cada um, de todos nós. Saber ouvir, saber ler, ter a humildade de sempre aprender. Saber que tudo já foi dito, e mesmo assim pode-se inovar... pela palavra. Nada é definitivo, nada está pronto. Tudo acaba sendo um continuar, um prosseguir, um compartilhar de emoções, de sentimentos, de conhecimentos e de vazios. Com pitadas de ironia num discurso melancólico e poético, Assis Brasil nos brinda com sua erudição como se estivéssemos numa aula ouvindo um Ovídio, um Cícero, um Montaigne. Seus Ensaios nos remetem aos grandes que nos legaram reflexões e apontamentos acerca da vida e de suas ramificações. Então vêm as palavras novamente. Essas inquietas que fingem redenção, que nos levam à sala dos espelhos onde nos perdemos no mar de suas intenções. Assis Brasil diz que a personagem pertence ao autor. E as palavras pertencem a quem? Acreditamos possuir as palavras: são elas que nos restringem, nos limitam, nos enganam. Palavras ao nascer, palavras ao morrer, palavras que dão o tom certo, ou errado, palavras que cumprem sua missão, ou desertam, palavras crentes ou pagãs, palavras, palavras.... Que poder elas têm! E quão limitados somos, quão ingênuos parecemos ao tentar aprisioná-las. Bravo, Assis Brasil! Escritor/professor que persiste em sua busca pela palavra certa, essa indomável criação humana. E se me permites, seus pequenos Ensaios são o resultado de Pensamentos Íntimos, inevitavelmente Imperfeitos, que por isso serão Aceitos, mas não de maneira Categórica senão compartilhada, pois essas serelepes e atrevidas palavras não serão Esquecidas e sim preservadas, como o são os verdadeiros Clássicos. Essa é uma opinião tênue, de cunho impressionista, que fatalmente não abarcará todo o sentido que pretendia ter. 

*Mestranda em Teoria da Literatura na PUC-RS-RS

Publicado em http://www.foradolugar.com em 6.nov.2008



Ensaios da ignorância
José Castello*
Uma jovem entrega seu rascunho ao professor de criação literária.“Mestre, aqui está o que escrevi”,diz. Antecipando-se ao risco da crítica, ele acrescenta: “É péssimo. Dá-me a impressão de que foi outro que escreveu”. O rapaz está certo: a escrita, boa ou ruim, é sempre de um outro. A divergência o leva a pensar que um estranho o domina. O outro que nele habita, porém, ainda é ele mesmo. A história do jovem atrapalhado com sua escrita está em “Ensaios íntimos e imperfeitos” (L&PM Editores), de Luiz Antonio de Assis Brasil. Reunião de especulações breves que desestabilizam um pouco tudo aquilo que o próprio escritor gaúcho ensina em suas concorridas oficinas literárias. De que serve transmitir habilidade e técnica se, em literatura, o mais importante fica sempre de fora? Mais: será possível acessar essa zona cinzenta na qual a voz de um outro — involuntária como um sonho — nos subjuga?

É sim, mas não através de bulas, ou de mordaças. E só se paramos para escutar (para ler) a voz desse desconhecido. Enquanto escreve, seja o que for, um escritor lê a si mesmo. E, para ler a si, nem as rotinas da biologia emprestam garantias. A desestabilização, sugere Assis Brasil, está no próprio corpo. Em um capítulo dedicado à anatomia humana, ele diz: “Nosso corpo é nosso estranho. É um outro que não dominamos”.

O tema da submissão involuntária se repete no capítulo que Assis Brasil dedica ao destino. Nele, recorda a tarde em que o filósofo romano Cícero recebeu a visita de um amigo atormentado, o cônsul Hirtius, ansioso para saber o que é, afinal, o destino. O amigo esperava uma resposta, recebeu uma rasteira. Contorcendo as palavras, Cícero lhe mostrou que, quando falamos do destino, falamos, na verdade, de outra coisa. “Não se discute a existência do destino ao se pensar nele, mas se discute a liberdade”, resume Assis Brasil.

Interrogar-se sobre o destino só tem sentido se nos perguntamos a respeito da liberdade.

É sempre assim: pensamos falar de uma coisa, e falamos de outra. Esse deslocamento original é o tema dos pequenos, mas vigorosos, ensaios de Assis Brasil. Logo à entrada, ele nos diz que eles não devem ser de imediato aceitos; e, se aceitos, não devem ser entendidos como categóricos. Sem nenhuma auto-piedade, o escritor arremata: “Se entendidos como categóricos,

devem ser esquecidos”.

O esquecimento está na origem das palavras. As velhas tias contavam que a primeira palavra do bebê foi “água”. Assis Brasil observa: “Como eram surdas, poderia ser isso, ou qualquer outra coisa”. Piedosa, a mãe garante que as palavras iniciais do infante foram “salve Santo Antônio”. O adulto crê, deseja crer. Contudo, ele nos lembra, quando o bebê pronuncia sua primeira palavra, não há ninguém por perto. Esse é um ato sem testemunhas: “Um descuido da babá, da mamãe, da vovó, e a criança diz a palavra secreta”. Assim, a real primeira palavra é “jogada ao silêncio, ao vazio, ao nada”. Sobre esse lapso, construímos nossos destinos. A partir dele, os escritores fazem literatura.

Também as últimas palavras vêm encharcadas pelas circunstâncias. Quando subiu ao cadafalso, Maria Antonieta, a última rainha da França, pisou acidentalmente no pé de seu carrasco. Sem pensar, ela murmurou suas últimas palavras: “Senhor, peço desculpas, foi sem querer”. Segundos antes da morte, as últimas palavras de Maria Antonieta não se referiam ao destino, ou à glória, ou a Deus. Mas a um pequeno acidente que, por acaso, ainda lhe coube viver. Conclui Assis Brasil: “Maria Antonieta comprova que, sim, podemos pertencer sem constrangimento à espécie humana”. Que se constitui não de passos lineares, mas de escorregões.

Daí o cuidado que devemos ter com as palavras. Elas são cápsulas de pouca resistência, com que encobrimos (escondemos) a ignorância. “Damos nomes às coisas para encarcerá-las no tempo”, diz Assis Brasil. Palavras, então, são cárceres. Com elas, carregados pelas miudezas do cotidiano, perseguimos alguma coisa do mundo.

Alguma coisa que, como a primeira palavra do bebê, nunca se deixa pegar. Daí outra ideia, que Assis Brasil defende com insistência: a de que escrever é “dar limites”. Mas dar limites a que? Sob a crosta da escrita se abre um abismo. Ele nos leva à vertigem, nem os limites a atenuam. É o horror do vazio que nos leva, por exemplo, em pura exibição de desamparo, ao recurso dos adjetivos. “Na linguagem, os adjetivos representam o medo que o substantivo, sozinho, leve-nos ao Nada”, diz.

Os ensaios em fragmentos de Assis Brasil são, eles mesmos, com suas fendas e irregularidades, metáforas das privações que sustentam a literatura. Podemos compará-las ao que se passa no espaço cósmico, em que astros e estrelas (palavras) são apenas diminutos acidentes. Jovens escritores, ansiosos, crêem que a maturidade está em sua superação. Esquecem-se do exemplo da música, que não existiria não fosse a pausa — o silêncio. Recorda Assis Brasil: “Ali, na pausa, é que está a música”. Não houvesse pausas, não poderíamos ouvir. Houve uma pausa primordial, anterior à Criação dos místicos, ou ao Big Bang dos cientistas, que, ao descerrar (limitar) uma fenda entre a sombra e a luz, separou o caos do cosmos. Teólogos e cientistas, cada um a seu modo, tentam reconstituí-la. Ela está perdida para sempre.

Em um intervalo de minha leitura, recebo o e-mail de um amigo, M., ainda abalado com a morte recente, no Rio, do psicanalista Wilson Chebabi, que foi um mestre para toda uma geração. Escreve esse amigo, repetindo uma frase que ouviu na missa fúnebre: “Com ele aprendi a perceber que há o errado no certo e o certo no errado”. De novo, as interrupções bruscas, a ação radical do silêncio, os furos que reviram as ideias. Limites que meu amigo soube ler, não em um livro, mas em sua tristeza. Volto a Assis Brasil, quando ele nos lembra que o sábio é aquele que “não desconhece que suas palavras são relativas, que seus dentes caem, que sua lógica é frágil”. Nenhuma dessas restrições o leva a desistir de saber, ao contrário, elas o levam a desejar saber.


Jornal O Globo [PROSA & VERSO], Rio de Janeiro, 10/12/2008, p. 4
* José Castello é escritor e jornalista.
Porque pensar é preciso
Marcio Renato dos Santos*

O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil surpreende enquanto ensaísta no recém-lançado Ensaios Íntimos e Imperfeitos

Se o estar vivo é um espanto, há quem pulse. E, espantado, sistematize em palavras possíveis apreensões sobre o comportamento humano. O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, depois de empreender trajetória como romancista, apresenta agora a sua face de pensador no recém-publicado Ensaios Íntimos e Imperfeitos. Assis Brasil encontrou dicção serena para elaborar reflexões e máximas, algo incomum no gênero. Jonathan Swift e Oscar Wilde, por exemplo, notabilizaram-se pelo uso da ironia e do sarcasmo ao terem elaborado frases certeiras a respeito de motes diversos. Em alguns casos, tem-se a impressão de que tanto Swift como Wilde escreviam tendo como alvo eventuais desafetos. Com o autor gaúcho, a situação é muito outra.
Das palavras ao tempo. De geografias secretas a não-saberes.
Assis Brasil não pretendeu com esses textos breves, publicados originalmente nas páginas do diário gaúcho Zero Hora, alfinetar alguém. Pelo contrário. A busca do pensador é muito particular. Ele quer discutir, problematizar e, quiçá, chegar próximo de uma possível compreensão do que é ou pode ser o que chamam de vida.

No alvo
Das primeiras às últimas palavras dos seres humanos, incluindo as outras todas que pretendem preencher uma existência. Isso foi mirado pelo atento olhar do escritor. Se a criança conjuga verbos, e o adulto os substitui por pensamentos,

o autor tentou não ser uma fácil presa dessas armadilhas escritas ou oralizadas.

“A palavra, esta, sempre é enganadora: a prova é a existência dos dicionários.” Dos dicionários, ou mesmo páginas mais do que antigas, ele pinçou raridades: peanha, âmbula, baldaquim, amito, patena, naveta e turíbulo, entre outras, em busca não apenas de raridade, mas de som. Palavras também podem ser notas

musicais e, uma após outra, construírem (mais que partitura) canções e outras músicas. Mas isso sempre com a perspectiva do silêncio. “Não houvesse pausas, não haveria música.”


Insights
As iluminações do autor são muitas. Ao acaso, encontra-se, por exemplo, na página 113, uma leitura a respeito do verbo respirar. “Quando alguém inspira, é possuído de uma ventura semelhante à do artista; por isso, concedemos ao artista a faculdade de inspirar-se.” Os achados se escondem e insinuam em todas as linhas, mesmo nas entrelinhas. Assis Brasil observa, certeiramente, que história

de amor não tem começo – da mesma maneira que os finais são arbitrários. O autor transita da cultura ocidental canônica ao cotidiano tido como banal com similar versatilidade. Brinca com o romance A Metamorfose: “Não há originalidade no personagem de Kafka. Milhares de pessoas, às segundas-feiras, acordam transformadas em monstruosos insetos.” Sobre o estar das coisas perfeitas, consegue extrair sabedoria não-pretensiosa: “A felicidade nunca é um estado atual, porque jamais conhecemos na íntegra o momento que passa. A felicidade está no passado e no futuro.”


Sem acaso
De viagens, o não-turista, e sim viajante, soube enxergar detalhes relevantes, por exemplo, nas residências de Goethe, Freud e Balzac. Mais que meros detalhes, o escritor gaúcho soube encontrar o lugar que às vezes parece sem espaço no tempo. “Há um lugar literário a que o escritor recorre quando lhe furtam as horas do seu dia. Lá o Sol está sempre em zênite. Não há tempestades nem sismos. Lá vivem as personagens do escritor em eterna disponibilidade. Vive lá também seu desejo. Lá vivem seus livros ainda não-escritos, suas metáforas sem uso, seus viçosos períodos gramaticais, seu léxico mais raro.” Entre acasos, sortes, desejos e saberes, Assis Brasil produz literatura (ficção) ao refletir sobre desconhecidos, desses que cruzam nossos caminhos uma única vez e deixam marcas, ao desconstruir mitos como a sabedoria obrigatória de quem envelhece, até ao apontar o que parece, mas não é óbvio: “Em todo humor há maldade.”
Gazeta do Povo, Curitiba. Caderno G, capa, 14.dez.2008
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* Márcio Renato dos Santos é escritor.

ENSAIOS ÍNTIMOS E IMPERFEITOS

O MILAGRE DA PERFEIÇÃO IMPERFEITA


Larry Wienievski*

Alguns livros, quando lançados, não apenas remetem à necessidade de repensarmos nossos hábitos de leitura como também nos ensinam algo sobre a necessidade de prestarmos atenção a indícios que o cotidiano dos periódicos muitas vezes nos leva a minimizar. Vários textos, que aparecem dispersos em nossos cadernos de cultura, em sua maioria com alta qualidade expressiva, são lidos no contexto contemporâneo com uma pressa indigna de seus reais valores. Por vezes os autores nos concedem uma segunda chance e então, além das lições do texto, nos alertam também para a necessidade de uma leitura mais refletida, nesta era de fast food e conexões ultra-rápidas. Entre todos esses textos um, pelo menos, merece maior destaque.

O livro em questão é Ensaios íntimos e imperfeitos, de Luiz Antonio de Assis Brasil. O volume compila textos escritos para o Caderno de Cultura de Zero Hora entre 2007 e 2008. É um excepcional exercício de personalidade estilística, maturidade expressiva e profundidade conceitual. O gênero é um campo minado: o ensaio. Assis Brasil é um cara corajoso e tem feito sensíveis alterações em seu processo de escrita. Após obras consagradas por um amplo fôlego narrativo, aliado a uma complexidade na construção dos focos narrativos, Assis Brasil vislumbrou uma nova meta estética na concisão. Música perdida e A margem imóvel do rio são dois textos exemplares desta nova opção.

Ensaios íntimos e imperfeitos é outra coisa. O leitor precisará retroceder no tempo e mudar de continente para encontrar os êmulos destes ensaios, pois é disso que se trata. No tempo, encontrará a Clarice Lispector de A descoberta do mundo (também uma compilação de “crônicas hibridas” escritas para o Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973). Ainda no tempo, mas em outro continente, há Fernando Pessoa, ou melhor, o semi-heterônimo Bernardo Soares e O livro do desassossego. Eis aí os territórios atingidos por Assis Brasil em sua empreitada. Embora o termo epifania, tão associado a Clarice não apareça nenhuma vez no texto, o leitor logo perceberá que está diante do mesmo fenômeno. São súbitas iluminações (sim, como aquelas linguinhas de fogo pairando sobre os apóstolos de Cristo) que emanam da refinada arquitetura do texto. E é aí que surge o principal valor do ensaísta, obviamente já exercitado em outros espaços, de Assis Brasil. As epifanias nascem na percepção de um fato e se desdobram em efeitos que atingem o texto e suas inapreensíveis sensações geradas na escrita do autor. A insuficiência da palavra é aqui o motivo propulsor das buscas que o intelecto pressente e o texto resolve enfrentar. Entre esses efeitos, a perplexidade e a sensação de não estar de todo, tem um espaço significativo e estruturante daquilo que se lê.

No estilo da escrita, há que se destacar o virtuoso uso do pronome pessoal tu, como elemento especular de alteridade e também, paradoxalmente, de inclusão. Saca o “esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso de outros para me manter de pé” de lady Lispector? Pois é, troque o eu pelo tu, como nos propõe o ensaísta, e verás onde irás (iremos?) parar. Como se sabe, normalmente a segunda pessoa do singular indica a pessoa com quem se fala. Mas aqui, o jogo é mais complexo. É o caso de "Dos deconhecidos", texto que encerra o livro. No início estás (eu?, ele?, o personagem?) na cidade, a trabalho. Ao final, estamos todos a um átimo do fim dos tempos. Este tu, campeado lá nas tropeadas de Blau Nunes, chega intacto tanto à rodoviária do Alegrete quanto aos átomos que compõe o, dele?, meu?, teu? ou nosso? pâncreas. Difícil de entender? Nada disso! Não tenho é, a mínima intenção, de estragar os prazeres destas descobertas psico-litero-biliares.

Os Ensaios de Assis Brasil estabelecem conexões que vão de Bashô a Heidegger e de Diana Spencer e Rimbaud, passando por Edgar Allan Poe, mas sobra espaço, também, para um anônimo vizinho que varre as flores de uma paineira. Assim, o ensaísta escapa de armadilhas nas quais caiu, por exemplo, Alberto Manguel em seu Os livros e os dias. Basta comparar o modo como ambos tratam a poetisa e cortesã Sei Shônagon. Alberto Manguel vai lá, relata o que viu e... não volta. Já Assis Brasil vai lá, relata o que imaginou e volta, com um sorriso oculto sob o leque da literatura. Tenho uma tentação insana de citar aqui, vários trechos do livro. Não só porque mereçam, jornalisticamente ser citados, mas como legitimo elemento de apoio a meus argumentos, pois creio que se trata de uma ponte estabelecida com algo perdido na literatura brasileira desde os idos de 1973, sendo portanto obra singular na literatura contemporânea de nosso país. Mas não vou. Peço apenas a você leitor que confie em mim. E então, ficamos assim: numa possível comparação; se fosse filme o livro Ensaios Íntimos e Imperfeitos de Luiz Antônio de Assis Brasil seria a Trilogia das Cores de Kieslowski ou Le Bonheur de Agnês Warda, se fosse música seria o Trio Dumky de Dvorák ou The Boatman’s Call de Nick Cave, se fosse livro seria A Descoberta do Mundo de Clarice Lispector ou... Ensaios Íntimos e Imperfeitos do ortônimo de seus possíveis heterônimos chamados, por enquanto de Luiz Antonio de Assis Brasil. Isso é muito para uma obra só, mas como os leitores irão logo perceber, não se trata de uma obra, mas de uma vida. OK, para encerrar vou citar só uma passagem do texto: “O verbo depoente sperare tanto significava esperar como “ter a esperança ou o desejo de...” (pág. 63)” É isso aí caros leitores, se ides adquirir apenas uma obra nesta feira, traço-lhes aqui o caminho simplificado, mas já vou avisando, a obra indicada pode ser tudo menos simples. No entanto, spero que a leitura traga a vocês as mesmas surpresas que trouxe a este calejado leitor.


Revista AFINAL – Três de Maio, RS, 8.nov.2008.

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* Larry Wienievski é Mestre em Letras, professor e crítico literário. 8.11.2008



ENSAIOS À OBRA EM GERAL

A questão do “modelo” na formação cultural das Américas: um estudo de duas obras de Luiz Antonio de Assis Brasil

Mariana Lustosa

Ainda inédito em meio impresso.

Já não há motivos para que a periferia, outrora lugar do fracasso, da decepção, do proibido e do temido, esconda a hibridez (...) Combatia-se o híbrido porque se temia o caos, a que agora não se nega o direito de existir e de produzir (...) O infinito insondável, depois do universo conhecido, explorado, dominado. Mundo sem fronteiras. Possibilidades infinitas.

Donaldo Schuler

Introdução


Nos anos de 1997 e 2001, o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil publica as obras Breviário das terras do Brasil e O pintor de retratos, respectivamente. Interessante torna-se o fato de que a primeira obra foi inicialmente publicada sob a forma de folhetim, no já extinto periódico Diário do Sul, de julho a setembro de 1988. Este aspecto é destacado aqui porque em um espaço de dez anos, Assis Brasil dedicou-se à escrita de duas obras que apresentam o mesmo topos: a questão dos modelos culturais europeus introduzidos no Brasil desde a sua “descoberta” que continuaram a ser importados nos séculos seguintes. Através dessas duas narrativas, percebemos como esses modelos culturais são recebidos, subvertidos e transculturados na cultura latino-americana e, em especial, na sul-rio-grandense.

Em Breviário das terras do Brasil (1997), o autor narra a saga de um índio guarani, Francisco Abiaru, que foi catequizado por jesuítas, nas Missões. Com os jesuítas, o índio aprendera o ofício de escultor e também a trabalhar suas imagens seguindo o modelo barroco europeu. No entanto, Francisco Abiaru, ao elaborar suas esculturas, mistura os elementos barrocos com a realidade que o cerca, de modo que suas imagens carregam traços inerentes à cultura em que está inserido – tais como olhos amendoados, pele morena, cocar, os quais constituem elementos que caracterizam os traços étnicos e culturais dos guaranis. A figura do bandeirante, ameaçadora para os indígenas, é igualmente inscrita nas obras que produz. Depois de ter afundado o barco em que, junto a um padre jesuíta, levava esculturas por ele produzidas para serem vendidas em Buenos Aires, Francisco Abiaru agarra-se a um Cristo e com ele é resgatado por portugueses. Ao notarem as feições características dos índios na escultura, os portugueses decidem levá-lo ao Rio de Janeiro para ser julgado por heresia pelo Santo Ofício42. A partir de então, o leitor é levado a acompanhar a trajetória do índio pelo Rio de Janeiro – desde a sua chegada até o seu julgamento.

Assis Brasil aborda novamente a condição de um artista em O pintor de retratos (2001). Nesta obra, somos apresentados a Sandro Lanari, um pintor de retratos nascido na Itália, que, depois de conhecer o trabalho do famoso fotógrafo Nadar, em Paris, decide ser retratado por ele. Ao constatar o quão patética resultara sua imagem naquela fotografia, desiludido também pelo fracasso de seu trabalho comO pintor de retratos na capital francesa, Sandro decide viajar ao Brasil para se dedicar à sua arte, declarando ódio a todos os fotógrafos do mundo. Lanari chega ao Rio Grande do Sul, exerce sua profissão com relativo sucesso e, por conta de uma revolução que ocorria nos pampas gaúchos, acaba tendo que trabalhar como fotógrafo. Em uma das batalhas, Sandro tira a fotografia que passa a considerar a obra-prima de sua carreira, a qual demonstraria, segundo a personagem, uma arte muito superior a do consagrado fotógrafo Nadar. Por fim, após muitos anos, tendo obtido grande sucesso como fotógrafo em Porto Alegre, Lanari decide regressar à Europa para reencontrar aquele homem, cuja arte por tantos anos o atormentara.

Neste artigo, pretendemos mostrar como, em pleno século XXI, Assis Brasil cria histórias que se ambientam nos séculos XVIII (Breviário das terras do Brasil) e XIX (O pintor de retratos) e busca elementos da história do Rio Grande do Sul para revelar ao leitor vestígios que nos levam a conhecer o universo cultural predominante das épocas em que as narrativas transcorrem. Assis Brasil mostra, através dessas narrativas, uma realidade válida não só para o Rio Grande do Sul, ou para o Brasil, mas para toda a América. Ao analisar a maneira pela qual os artistas do Novo Mundo recebem esses modelos culturais e como os transformam, o escritor apresenta o modo pelo qual se forma a cultura tipicamente americana, pois em ambas as obras os artistas (o índio escultor e o retratista-fotógrafo italiano) deparam-se com modelos hegemônicos que serão transculturados, dando origem a algo que, embora novo, apresenta elementos das duas culturas. Verifica-se, portanto, um processo de transposição durante o qual o artista passa a falar a partir de seu lugar de enunciação, construindo, assim, uma cultura nova, em que modelos são superpostos e transformados, originando formações culturais híbridas.

Mostraremos também que nos dois livros a cultura hegemônica não aceita essa atitude transculturadora por parte dos artistas em questão. Poucos são os que entendem a arte transculturada do índio Francisco Abiaru, e o grande fotógrafo Nadar também não consegue entender a arte (e a pessoa) inovadora(s) de Sandro Lanari. Analisaremos então o porquê dessa recusa ao novo, ao híbrido, por parte da cultura hegemônica, que representa a visão (ocidental) europeia de hierarquização das culturas. Por fim, utilizaremos noções como transculturação, antropofagia e entre-lugar para explicar como se dá esse contato entre culturas distintas e a subversão e transformação de seus modelos nas Américas.



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