Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Alfredo Roberto Bessow

Certos assuntos exigem, para serem abordados, mais do que a qualidade de autor. Requerem, por suas peculariedades, uma verdadeira comunhão e um amplo domínio das situações possíveis de serem, ou terem sido, reais e, acima de tudo, capacidade de transformar toda esta situação extremamente complexa em arte.

Luiz Antonio da Assis Brasil em Bacia das almas, terceiro momento de uma caminhada pelos mitos da formação de uma pátria sulina, busca tais objetivos. Em Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo, Assis Brasil fez uma revisão de dois momentos de acentuada influência em nossa agir, enquanto povo que busca na sua história lições que sejam capazes de redimensionarem caminhos e até mesmo definirem sendas estreitas, por onde somos obrigados a nos locomover.

Nós, gaúchos, sempre tivemos uma identidade muito grande para com a terra e aqueles que, segundo as ensinanças, definiram a esta pátria sulina certas características idílicas. Assim é normal que o autor busque no meio de suas origens, fundo e substrato para sua produção. Pois que “a obra do homem está vinculada ao meio social em que nasce, por uma íntima relação que não se pode desconhecer e muito menos recusar impunemente”, segundo Manoelito de Ornellas.

Uma destas características idílicas, muito cara, diga-se de passagem, a todos nós, é a mitificação para com o poder exercido pelos grandes fazendeiros. Todos sabemos que a mitificação obedece a interesses, principalmente porque o “mito é a deformação de um sentido histórico a serviço de uma ideologia”, no dizer de Guy de Mallac. A mitificação busca legitimar o mito e apresenta-lo como fatalidade de um momento.

Bacia das almas é a análise de um destes clãs, grupos apegados ao culto de certas leis que valorizam os homens pelos fatos que transcendem os atos e nos mais das vezes buscam, inclusive, eliminar o ato do fato. O Coronel Trajano deste romance existiu e continua a existir, pasmem, em muitas cidades mais interioranas, alguns com escrúpulos, outros preocupados com o aumento do seu poder – tanto temporal como igualmente espiritual.

Partindo de uma situação limite, o desmoronar do clã: a partilha e a Noite de Valpurgis, o autor traz à lume toda uma análise estrutural dos traumas e complexas redes de fugas de todos àqueles que viveram as suas vidas sob o tacão ferrenho do poder de um coronel. E desfilam em suas fraquezas, surgem as mazelas decorrentes de todos os fatos anteriores, que passam a ser vistos sob a luz de atos.

As consequências diretas são vistas não apenas como resultado final, mas através de um hábil jogo de alteração de formas de narração, o autor busca mostrar a causa de cada trauma.

É um exercício árduo. Levado que foi a bom termo, tornou-se uma forma a mais na armação de toda a trama. Assis Brasil fez valer o seu hábito de advogado e estruturou o romance como um libelo de acusação, no qual transporta-se e interpreta como sendo Renato, advogado de acusação escolhido para o testamento e que mantém para com Laura, a mais nova das filhas do coronel, um amor que o traumatiza, mostrando-se este sentimento, depois da posse física, vazio como tudo que a cerca. Toda vez que o advogado destina-se a palavra, o discurso passa a ser feito na primeira pessoa do singular, sem, contudo, haver, no desenrolar dos demais segmentos do discurso do romance, qualquer relação. O advogado fala por si, mas não narra o que sucede.

Neste libelo acusatório da mitificação de um mito e da estrutura de poder criado, não existe uma acusação formal – senão que a acusação velada de cada um. Cada um resolvendo, como que buscando libertar-se das forças onipresentes do coronel e assumir-se enquanto ser independente e com vida própria.

Noite de Valpurgis é o momento definidor de quem tem condições de assumir uma vida própria e quem prefere, ou sente-se impedido a sumir-se entre as cinzas do grande incêndio. Bacia das almas propõe uma reflexão de toda a mitificação interesseira que existe por detrás da tipificação e exteriotipação de uma verdade desconhecida, mas sabida.

Não adianta apenas destruir um mito, é preciso mostrar porque é importante destruir. Não adianta apenas escrever sobre um tema, é preciso sentir-se capaz de transcender e criar uma nova verdade – questionável para alguns, porém respeitada pelo fato de ampliar os limites nos quais tendemos a criar a aceitabilidade (e viver passar a ser uma questão de repetir verdades, sem questionar nada), mesmo o que sabemos estar alicerçado sobre o fel e a podridão. Propõe-nos isto Assis Brasil em Bacia das almas.
Zero Hora, Porto Alegre, 9.jan.1982. ZH Cultura, P. 15.

Purgatório particular e histórico

Antônio Hohlfeldt

O primeiro romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um quarto de légua em quadro, possuía uma tonalidade grave, quase trágica, na narrativa dos diários do Doutor Gaspar. Já no segundo romance, porém, A prole do corvo, a tonalidade se modificava para uma tragicomédia, o que se mantém na terceira obra do romancista gaúcho, Bacia das almas (L&PM Editores, 1981) em que prossegue a saga da fazenda dos Henriques de Paiva, abordada inicialmente a partir de seu patriarca, Chico Paiva e Filhinho, seu herdeiro, e que chega aqui, saltando por algumas gerações a seu desfecho, de certa forma, com a destruição da fazenda Santa Flora.

Se numa primeira leitura, Bacia das almas é o final da saga dos Henrique de Paiva, não menos verdade e que o romancista prossegue em sua tarefa de denúncia e desmistificação de certos heróis e perspectivas da historia regional e patriarca. Especialmente nos episódios mais recentes em tornos dos acontecimentos de 30 a 37, que se narram neste livro, a historia regional e a nacional de misturam e confundem, de maneira que, ou falar de uma, o escritor termina por falar de outra, abrindo quem sabe, as portas para uma nova trajetória que venha a cursar no futuro, ampliando horizontes para além do Rio Grande do Sul, que tem até aqui polarizando suas atenções.

Bacia das almas organiza-se em duas partes de ritmos diversos. Em “Descaminhos” é uma narrativa mais tradicional, mais aproximada ao realismo, com a mescla de cenas contemporâneas, observadas quase sempre por Renato, prometido de Laura, uma das filhas do Coronel Trajano, violentada pelo próprio pae cenas narradas em flashback, em que se explicam os acontecimentos atuais mediantes associações e rememorações. A segunda parte é mais densa, mais repleta de emoções, inclusive, ganhando em ritmo, na medida em que o desfecho apocalíptico se acelera. Mais do que em A prole do corvo, o apocalipse da família se desdobra com clareza neste novo romance.

Trajano orgulha-se de sua estirpe e de sua herança, a partir da fazenda original de Chicão Paiva, ampliada por Filhinho, heroida Guerra Farroupilha. Aqui se coloca, justamente, a primeira ironia: o orgulho de Trajano apóia-se sobre uma falsidade, uma vez em que A prole do corvo bem se sabe que o nível de heroísmo viveu Filhinho. Contudo, termina a contenda, presume-se, como o narrador sintetiza, numa única frase, que a propriedade foi substantemente alargada em seus domínios, às custas dos moradores e proprietários, lindeiros. Mas já em Filhinho repousava um certo estigma de degeneração, na relação quase anormal que existe entre ele e a irmã – o que, de certa forma, coloca-se como figura impotente, abandonada pelo marido, uma espécie de Capitão Rodrigo menos aureolado que a personagem de Érico Veríssimo da mesma forma que a descrição do encontro da Laura com o Renato, em certa hora de sesta, evoca-nos obrigatoriamente aquele de Ana Terra com o índio missioneiro que lhe gerará um filho. Com a sucessão das gerações, as taras externam-se e radicalizam-se, concentrando-se na fígura do Coronel Trajano, que pretende recriar em Márcia, uma das filhas, a semelhança com Donana, sua mãe, por quem tinha, aparentemente, alguma fixação que a psicanálise deve explicar como espécie de complexo de Édipo, fomentada, inclusive, pela autoridade paterna. Como se isso não bastasse, Trajano problema de impotência parcial em Luiz, em sua relação com Lina; transforma Sérgio em um homossexual, que ele externamente condena e reverbera, descobrindo-se a final da narrativa, porém, que o mesmo coronel afinal tinha também sua tara particular, revelada através da denuncia do farmacêutico Guedes. Além de violentar a filha Laura, termina por também afastar o outro filho, Gonçalo, que busca compensação numa prepotência artificial que o Integralismo vai lhe oferecer, através dos elementos externos do fardamento, das canções marciais, das saudações disciplinadas e apoteóticas, etc.

Por trás da decadência familiar, assim, Luiz Antonio de Assis Brasil leva mais longe sua análise, que culmina exatamente no que Fausto, o irônico e misterioso personagem que se pretende adivinho, caracteriza como a noite de Valpurgis, “onde o demônio se apresenta com toda a sua face horrível” (p. 253). Aqui cabe a relação que me parece importante para a plena compreensão do romance: o Integralismo idealizara a “noite dos tambores silenciosos”, em que o movimento comemoraria, através da comunhão espiritual de todos os seus adeptos como carismático líder Plínio Salgado, a vitória total e final de seus ideais. De certa maneira, esta seria também uma noite de Valpurgis, em que a vitória do mal se definiria. No caso de Bacia das almas, porém, o processo é inverso. Dá-se a derrota das forças malignas, com a morte de Gonçalo nas mãos dos peões revoltados, o abandono da fazenda por parte de Luiz e sua esposa, bem como o marido de Márcia, Argemiro, que liberta-se enfim dos fios que o ligavam ao sogro, enquanto Sérgio radicaliza sua degeneração num teatro de fantoches que antecipa o final da fazenda. E como explica um personagem, sob a ética do mesmo Fausto, o incêndio da casa-sede de Santa Flora, que se segue, bem como a série de violências que a rodeiam, significam uma espécie de purgação que permite, quem sabe, a recuperação do equilíbrio da estirpe (p. 254). Eis porque, repentinamente, o relógio volta a soar na casa de Luiz, enquanto a empregada da casa da fazenda descobre que aquele, ao contrario, quebrou suas molas (p. 258 e 260). O tempo do Coronel Trajano, que se pretendia imortal e infinito, atingiu a eternidade, sim, mas sob outro aspecto, revelado através da sucessiva violação de sua sepultura pelos que o temiam em vida e também na morte. Trajano morreu definitivamente. Purgado, Luiz e Lina, quem sabe (pois formam, ultrapassada a situação critica, o único casal potencialmente apto à procriação), poderão retomar a estirpe, agora sob nova perspectiva, reconstruindo e recuperando Santa Flora.

Observe-se que o tema da destruição pelo fogo não é novo na literatura da chamada gauchesca. Cyro Martins, ao final de “Estrada Nova”, também enfocava um incêndio: à luz do qual o jovem Ricardo abandona a fazenda que tantos prejuízos causara ao pai. Aparentemente, pode-se concluir que apenas a destruição absoluta das sedes das fazendas e de suas produções são capazes de acabar com a situação de violência constante e característica que apresenta o sistema econômico, político e social por elas representado, ao longo de pelo menos um século, e que a Revolução de 30 não chegou a modificar substancialmente, pois foi à sua sombra que se instituiu também o Estado Novo.

Para além das personagens principais em torno de quem decorre a ação, a família Paiva, Luiz Antonio de Assis Brasil colocou, porém, outras personagens não menos importantes, como Renato e Guedes, já mencionados, mas especialmente Fausto e Ribas. De certo modo, as duas figuras compõem uma dupla face da influência de Trajano. Fausto, cujo nome lembra-nos a personagem de Goethe, ao contrario daquele, embora conviva com o mundo das sombras, domina-o e usufrui dele, jamais sucumbindo a seu peso. Quem sofre tais contradições é o anão Ribas, talvez a figura literariamente falando mais interessante do livro, pelas oposições que apresenta, pois para além do puxa-saco característico, ele nos surge como uma figura cujo destino escapa-lhe a compreensão, atingindo seu momento culminante quando resolve suicidar-se nas ruínas fumegantes da casa da Fazenda. De certa maneira, embora odiando Trajano, que sempre exerceu sobre sua pessoa domínio nefasto, Ribas reconhece não poder viver sem tal exploração, e como espécie de duplo, deve desaparecer à medida que a primeira face deixou de existir.

Ironizando os processos de violência, tanto, do integralismo quanto do Estado Novo, ou os disparates senhoriais de Trajano, Luiz Antonio de Assis Brasil evidencia, em Bacia das almas, o processo pelo qual as chamadas maiorias silenciosas terminam subjugadas pelas minorias, atuantes, que se valem da força própria e do temor dos outros para impor suas vontades. Nenhuma novidade no fato, mas é importante que o mesmo seja constantemente recordado.


Correio do Povo, Porto Alegre, 9.mar.1982. Letras e Livros, p. 9.

Noite de Valpurgis

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