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Os guaranis e o princípio da devoração cultural


Em Breviário das terras do Brasil, Assis Brasil volta ao século XVIII para contar a história de Francisco Abiaru, residente das Missões e escultor de imagens sacras em sua aldeia. O índio fora ensinado por um Padre-mestre jesuíta a esculpir tais imagens seguindo o modelo barroco europeu; no entanto, algumas formas das esculturas de Abiaru não se mostram idênticas àquelas que os jesuítas produziam. Após o acidente com o barco, no Rio da Prata, sobram apenas Abiaru e o Cristo por ele esculpido, que são então resgatados por uma embarcação portuguesa. As feições típicas do povo guarani presentes na escultura sacra causam espanto e estranhamento àqueles que detêm algum conhecimento relativo à arte barroca europeia. Alguns portugueses percebem as diferenças na imagem e, por não conceberem a possibilidade de haver um outro Cristo, com traços não europeus, decidem prender o índio e levá-lo até o Rio de Janeiro para que este seja julgado pelo Santo Ofício.

O Cristo esculpido por Francisco Abiaru segue a linha barroca europeia, apresentando, contudo, aspectos típicos da etnia indígena guarani. A partir daí, podemos traçar um paralelo com a realidade histórica dos séculos XVII e XVIII em toda a América Latina e, em especial, com a dos Sete Povos das Missões. Desde os primeiros anos da presença de europeus na América, portugueses e espanhóis disputavam terreno no Novo Mundo, a fim de garantir maiores conquistas a seus reinos. Após muitas disputas e batalhas, em 1534, foi assinado o Tratado de Tordesilhas, em que era feita a divisão das terras americanas entre duas das maiores potências marítimas da época: Espanha e Portugal. Mesmo depois desta divisão, a área da bacia do Prata, em especial o Rio Grande do Sul, continuou sendo alvo de disputa entre espanhóis e portugueses, especialmente pelo fato de o Tratado não ter dirimido todas as dúvidas no tocante à linha imaginária que passaria pela parte mais ao sul do Brasil. Como nos esclarece Armindo Trevisan:


o Rio Grande do Sul estava fadado a ser uma baliza na extremidade sul do Brasil. A ideia de que o Rio da Prata era uma fronteira natural, entre os domínios portugueses e espanhóis no continente sul-americano ... vinha de longe. Obedecia a uma espécie de paradoxo: por um lado, a geografia do Rio Grande inclina-o para o Prata; por outro, a história, que segue rumos diversos, “puxa-o para o Norte, sempre e cada vez com mais intensidade” (s/d, p.8).

Primeiramente, a terra havia sido ocupada por jesuítas espanhóis, que passaram a catequizar as tribos indígenas ali assentadas. Aos poucos, os bandeirantes começaram a se interessar pela região (especialmente pelo Rio da Prata) e decidiram conquistar aquelas terras. A partir daí, houve um massacre das tribos, muitas delas sendo dizimadas, uma vez que os índios não aceitavam servir a esses (portugueses) paulistas, que tentavam escravizá-los. Dessa forma, a maioria da população indígena do sul do Brasil passou a temer o povo português – por sua característica crueldade – e a aceitar a catequese praticada pelos jesuítas espanhóis. Esses jesuítas passavam aos índios os ensinamentos não só da Bíblia Sagrada e da religião católica, mas também da arte sacra. Ao mesmo tempo em que aprendiam a esculpir imagens baseadas em modelos europeus, aprendiam que Deus era feito à imagem e semelhança dos homens. Em princípio, seria esse o fato a explicar o porquê da presença de motivos guaraníticos nas esculturas produzidas por Francisco Abiaru, uma vez que é nesse contexto que se insere a história contada por Assis Brasil. A partir de então, podemos trazer a esse artigo a noção de transculturação, que poderá explicar essa mistura de elementos na arte do índio guarani.

Desde a chegada de portugueses e espanhóis às Américas, o fenômeno de transculturação mostrou-se presente e tornou-se característico do Novo Mundo. Tal conceito, porém, foi somente formulado em 1940, pelo sociólogo cubano Fernando Ortiz, na obra Contrapunteo cubano del azúcar y del tabaco, sendo assim descrito:
... processo de transição de uma cultura para outra ... este processo não consiste somente em adquirir uma cultura diferente, o que, a rigor, significa o vocábulo anglo-saxão acculturation, porém o processo implica também, necessariamente na perda, no desenraizamento de uma cultura anterior, o que se poderia chamar de uma desculturação parcial e, além do mais, significa a criação consequente de novos fenômenos culturais, que se poderiam denominar neoculturação (2001, p.18/9)43.
O choque de culturas que se deu com a colonização das Américas trouxe consigo este fenômeno, muito bem representado na obra Breviário das terras do Brasil, com a figura do guarani Francisco Abiaru e suas esculturas sacras. Primeiramente somos apresentados ao Cristo que o índio esculpiu, o qual, ao mesmo tempo que segue as características do barroco, insere novos elementos socioculturais guaranis: “… a boca entreaberta de quem expira dores, o nariz pontudo bem diferente dos narizes índios e os olhos, estes sim rasgados e insolentes da raça guarani …” (Assis Brasil, 1997, p.22). No decorrer da narrativa, os costumes e a língua de Francisco Abiaru são menosprezados. Quanto mais tentam despi-lo de sua cultura, mais imagens transfiguradas o índio constrói, como uma forma de resistência à aculturação a que os portugueses tentavam submetê-lo durante sua estada no presídio-manicômio no Rio de Janeiro. Um padre amigo de Francisco Abiaru consegue que o índio seja enviado ao Mestre Domingos – respeitado escultor de imagens sacras no Rio de Janeiro – enquanto espera por seu julgamento. Mestre Domingos é aconselhado a deixar que o índio trabalhe livremente, sem que haja qualquer intervenção por conta do teor de seus trabalhos. E assim Francisco Abiaru segue construindo imagens sacras que agora apresentam não apenas olhos amendoados, mas também outras características de sua etnia:
Anjos de torsos largos, pernas curtas e pés esborrachados de índio, Santa Isabel feita à imagem de sua velha mãe da Redução, os cabelos escorridos até a cintura e dentes estragados, São João Batista coberto com pele de onça (Assis Brasil, 1997, p.180).

Percebemos, deste modo, como se dá o contato entre duas culturas distintas na região missioneira e de que forma este contato vem a influenciar Francisco Abiaru. O índio guarani, assim que toma conhecimento sobre o Catolicismo por intermédio dos jesuítas, passa a acreditar que este Cristo pode assemelhar-se à sua etnia, como a própria personagem explica em conversa com o Vigário Geral da Diocese da cidade do Rio de Janeiro, quando em depoimento acerca de sua escultura:


– Os olhos são feitos iguais aos olhos dos homens da minha gente. Há algum mal nisso? Cristo era de que nação?

  • Era judeu, isso você deveria saber.

  • Pois assim como na Europa não fazem Cristo com a cara de judeu, eu também imaginei outra cara para ele (Assis Brasil, 1997, p.91).

Através deste Cristo, apresenta-se, portanto, o processo de transculturação descrito por Ortiz, já que na escultura há o encontro de duas culturas distintas – a europeia e a guarani – que servem de base para a formação de um produto cultural novo, híbrido.

A reação da sociedade – especialmente os brancos, que estão no poder – quando se depara com a arte inovadora proposta por Francisco Abiaru, é geralmente a mesma: as obras do índio guarani despertam desprezo e ojeriza. Isto acontece porque, especialmente nos primeiros séculos de colonização da América, predominava a ideia do etnocentrismo europeu, em que a cultura, a língua e a religião deste continente eram consideradas superiores a qualquer outra existente. Assim, todos os valores e normas da sociedade europeia deveriam ser tomados como parâmetros a serem aplicados nas demais sociedades, em particular nas americanas – sociedades autóctones consideradas selvagens, desprovidas de cultura. Silviano Santiago nos expõe o resultado do etnocentrismo pregado no continente americano:
A América transforma-se em cópia, simulacro que se quer mais e mais semelhante ao original ... Pelo extermínio constante dos traços originais, pelo esquecimento da origem, o fenômeno de duplicação se estabelece como a única regra válida de civilização (1978, p.16/7).

No entanto, ainda que os europeus desconsiderassem a cultura dos povos que já habitavam o continente americano antes de sua chegada, os autóctones organizavam-se em uma sociedade que tinha uma religião própria, com seu próprio Deus, sociedade esta que contava também com uma cultura própria. Desta maneira, como Fernando Ortiz esclareceu através da teoria da transculturação, não poderia haver um contato entre essas duas culturas distintas sem que ambas perdessem algo, absorvessem algo e, por fim, apresentassem elementos novos, resultantes desse encontro ou choque.

Ainda que os jesuítas espanhóis tenham tentado impor sua cultura como a única válida no território sul-americano – ao menos na parte que o Tratado de Tordesilhas lhe havia concedido – os indígenas não poderiam simplesmente esquecer todo o universo cultural que os cercava. A cultura desses povos autóctones, cujas manifestações seguiam uma tradição oral, encontrava-se intimamente ligada à sua história, que era transmitida e perpetuada oralmente geração após geração. Como nenhum povo ou nação pode desligar-se de sua história, tampouco poderiam os índios apagar a sua, perpetuando também, por conseguinte, a cultura que a mantinha viva.

Percebemos, a partir de então, a criação de uma cultura heterogênea, tipicamente americana. Como aponta Silviano Santiago:


A América institui seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio de norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o Novo Mundo... Sua geografia deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência (1978, p.18).
Seguindo as indicações do crítico brasileiro, o Cristo de Francisco Abiaru fere a ideia prevalecente do etnocentrismo – a de que a Europa é a única capaz de oferecer modelos a serem seguidos, por esta ser a civilização mais avançada e, portanto, detentora de poder e sabedoria supremos e inquestionáveis – mostrando traços de uma outra cultura que não a europeia. É por não seguir apenas as regras do barroco europeu que a escultura do índio é considerada uma heresia, uma vez que “esse ‘desvio de norma’ ou ‘deformação’ tem uma vocação antropofágica que converte o produto final não em cópia, mas em simulacro destruidor da dignidade do modelo” (Coutinho, p.26).

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