Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Realismo e personagens



Bacia das almas, romance de 1981, surge também da reflexão crítica sobre a pesquisa histórica. Muito embora o estudioso permaneça visível no substrato da obra, na concepção do tempo e principalmente na predisposição ao registro de costumes, a narrativa já não privilegia, como as anteriores, os grandes painéis coletivos.

Se em Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo os deslocamentos de massa – colonos, soldados, o povo que verdadeiramente fazia a vida regional – ocupam o cerne dos romances, em Bacia das almas a História já não define o contorno e a evolução das personagens. Ao contrário, o episodio se atenua, cedendo espaço à fixação realista do contexto e à recriação da atmosfera da época.

Também chama atenção em Bacia das almas a montagem formal do texto: é clara a articulação dos episódios, forçada pela plasticidade quase cinematográfica da linguagem.

O cuidado com a verossimilhança, por outro lado, reflete maior interesse com a verdade realista das personagens. Estas afloram com vigor, impondo ao texto uma visão, por assim dizer, fenomenológica. Seres conflituados, fracassam porque vivem à sombra do despotismo. Sempre através de seus atos a História se desloca do episódio relatado – e dos conflitos que desencadeia – para a apreensão da atmosfera de uma época em que o autoritarismo atrofiava a consciência do povo.

Se nessas três obras iniciais, personagens e episódios compõem o macrocosmo da Província, numa visão interpretativa da trajetória do Estado, a partir de Manhã transfigurada o escritor investe num modelo novo. Compondo células dramáticas fortemente interligadas, cujo fundamento se encontra entre personagens e contexto, o conflito central da novela decorre da transgressão de normas. Ao violar padrões de comportamento do Rio Grande de Setecentos, Camila, Bernardo e Ramiro criam uma ordem nova, pela adesão quase absoluta entre enredo, atmosfera, local e tempo. A paixão de Camila pelos homens da Casa Paroquial e toda a ambiência da religiosidade e sensualismo, transmitidas pela linguagem do escritor; nada mais são do que manifestações do Barroco.

Manhã transfigurada inova também no tocante à apreensão e ordenação da matéria: se o escritor escolhe inicialmente, o fato social – a vinda dos imigrantes, a guerra, o despotismo político -, a partir de então irá buscar seis motivos mais inéditos da experiência humana. E inéditos porquanto singulares. Assim ocorre em As virtudes da casa, quando o naturalista francês perturba a paz domestica da Estância da Fonte, pela paixão que provoca a Isabel e Micaela. Do mesmo modo, em Cães da Província, a presença ímpar de Qorpo – Santo, genial em sua loucura, destaca-se no confronto com a pequenez de uma sociedade hipócrita e criminosa. O eixo desloca-se,pois, do contexto às personagens, já não mais com o intuito de desmitificar. Importa ao escritor iluminar as paixões humanas. E, na melhor tradição do romance europeu de Novecentos, apreendê-las como um recorte sociológico, ligadas à engrenagem social contra a qual de debatem.

Em O homem amoroso, porém, o escritor segue rumo diverso no tocante à invenção temática e seu tratamento narrativo. Ao invés de mergulhar na História e pesquisar documentos de época, volta-se a fontes mais próximas: no caso, sua experiência pessoal como músico. Luciano, narrador em primeira pessoa, em meio a uma crise existencial e familiar, intercala suas reflexões com os problemas da Orquestra Sinfônica a que pertence. As carências que o grupo enfrenta do subemprego à sobrevivência e à luta pelo reconhecimento profissional num país de Terceiro Mundo, conferem a este texto um caráter diferenciado. A denúncia, no caso, é imediata, presente no próprio contexto de submissão dos músicos a um regime político ditatorial.



O humanista e o esteta


Incontestavelmente um humanista, Assis Brasil investe talento na defesa da dignidade humana. E isto acentua a unidade de sua obra. À medida que esta oportuniza uma leitura contemporânea da História gaúcha, desde suas origens, o escritor cumpre o propósito de lançar luzes sobre nossa identidade como povo. Mas a preocupação com o documento e a tendência realista do relato, que se produzem sob diversas formas, têm a ver com o momento histórico em que publicou os primeiros livros: era o decênio de setenta, quando o arbítrio e a força, no Brasil, emudeciam as vozes e obscureciam as consciências.

Talvez a sensibilidade do escritor seja o ponto de conexão entre o humanista e o esteta, cuja natureza se afeiçoa quase que por instinto ás artes. Ex-músico profissional, leitor ardoroso dos clássicos, sua formação cultural tem raízes no Humanismo, traduzido no fascínio pelo homem e seus desígnos. E será o homem, na sua complexidade e no seu aspecto uno, que definirá a linguagem do romancista. A própria História, apreendida de um ponto de vista singular e seletivo, mais do que revisão crítica representará a diferença, a ruptura, o fato humano gerador de conflitos. A obra adquire, a partir de então, maior vigor e universalidade.

É sobre essa perspectiva que se pode compreender As virtudes da casa, romance de 1985. obra madura, nela o projeto literário do escritor alcança um momento expressivo, pela conjugação da matriz histórica com o trabalho artesanal rigoroso. Narrando em terceira pessoa, o autor empresta ao romance a técnica da novela tradicional, conduzindo os núcleos dramáticos e epílogos simultâneos. A mobilidade do ponto de vista, recurso habilmente trabalhado, confere á narrativa o senso do relativo, o que assegura a adesão do leitor ao texto.

As virtudes da casa desenvolve, também, algumas tendências embrionárias que se podem rastrear na produção anterior. Uma delas é o fascínio pela mulher apaixonada e o poder que esta exerce sobre os homens. As personagens femininas detonam a ação dos romances, poderosas e sedutoras, lascivas e misteriosas. Também a temática do estranhamento avulta nessa obra, tomada como herança da literatura regionalista gaúcha: é o estrangeiro que rompe com a estrutura social da região. Sua transitoriedade gera desgraça, numa terra de homens nômades e mulheres sedentárias.

Ainda aqui o autor demonstra sua mestria no manejo do tempo: jogando com planos narrativos diversos consegue, através do discurso do narrador, entender ou encurtar a duração dos acontecimentos, conforme o local, o momento e a ótica de cada personagem.

Com relação á estrutura da obra, Manhã transfigurada impõe um dado novo. Decorrente da visão do “Homo Aestheticus”, para o qual a arte é, antes de tudo, impressão sensorial e artesanato, o erotismo passa a ocupar um lugar importante na ordenação da narrativa. Não se limita, porém, à temática amorosa, às paixões desenfreadas e românticas que avassalam e tornam vibrantes as personagens. Ele ressurge na própria linguagem do escritor, no modo como toma a palavra, no prazer com que traça perfis ou descreve momentos e emoções, quando o objeto lentamente se compõe ou se revela – ante a visão fascinada de quem lê.

É flagrante a paixão visceral de Assis Brasil pela palavra: manipula-a a seu modo, inverte-a no seu ordenamento sintático habitual, escuta-lhe o som, exige dela todo o significado. Age assim do mesmo modo – egoísta e generoso – com que lida com a História: usa, frui, abusa e termina por descartá-la quando se torna excessiva ou acanhada.

Hábil no manejo da linguagem, á medida que produz sua obra, a execução do texto e o estilo se tornam para o escritor uma obsessão. Cinzela a frase, pondera a sonoridade da massa elocutiva. Como em Flaubert, de quem se confessa devedor, o ato de escrever é, para ele, um permanente exercício de vida.

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