Luiz Antonio de Assis Brasil fortuna crítica resenhas e ensaios Jornais e revistas nacionais e estrangeiras Classificada por obras



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Wilson Chagas

O domínio da linguagem, o tratamento estilístico do tema, de tão seguro, chega a ser soberbo. Estamos diante de um romance muito bem urdido; mais do que isso, um romance poderoso. E o tom geral, percebe-se desde o inicio, é o da sátira mordaz, beirando a farsa e o deboche, como se vê no final do livro(*).

Logo na cena inicial se verifica a intenção do autor, que é a denuncia dos mitos. Era num domingo, na estância de Santa Flora, de propriedade do coronel Trajano Henriques de Paiva; e ele comunica ao anão Ribas que estavam a comemorar, naquele almoço na fazenda, a tomada de Aguaclara pelo seu ancestral Filhinho Paiva, na guerra dos Farrapos. Ora, o leitor d’ A prole do corvo, o romance anterior de Luiz Antonio de Assis Brasil, sabe muito bem que esse ancestral do coronel Trajano apenas fazia parte das tropas farroupilhas que entraram na cidade, em 1845, e sua participação na guerra fora a menos heróicas possível.

O leitor d’ A prole do corvo (e de Um quarto de légua em quadro, primeiro romance de Luiz Antonio de Assis Brasil) logo depara, também, com um a inovação técnica, neste seu último romance: a narrativa é feita sem obediência à cronologia, com avanços e recuos no tempo; mas, o que é mais importante, - transcorre através de uma sucessão de cenas, como na montagem de uma peça de teatro, com títulos indicativos da ação, e até contendo indicações outras, que integram a própria narrativa. Tem muito do roteiro de um filme; talvez não desse muito trabalho adaptar este romance para o cinema. O que ilumine a sua estrutura “cinematográfica”, ainda mais do que a puramente teatral.

O romance, firmemente plantado na História, contudo não tem datas. A história é balizada por acontecimentos políticos: no Rio Grande, o domínio do País, o golpe frustrado dos integrantes – do qual participa um dos filhos do coronel Trajano, o Gonçalo, que se converteu à nova doutrina e, de volta a Santa Flora, procura incuti-la na peonada; finalmente, a instauração do Estado Novo. O leitor depreende que a ação do romance se passa logo após, portanto, no final dos anos 30. os sucessivos flash backs que permeiam toda a narrativa,são feitos, muitos deles em várias páginas, mas num só parágrafo; dentro dele a narrativa se processa, com os diálogos entre aspas.

Este romancista urbano conhece bem os termos regionais, as expressões, os ditos – enfim, o linguajar gauchesco. Fiel às suas origens, mas escrevendo numa outra época, nele não se encontra, por isso mesmo, qualquer ranço saudosista. Muito pelo contrario: a sua ficção, como vimos, é “desmitificadora”, procura ver, compreender o nosso passado sem as lentes deformantes da história oficial (por isso mesmo se vem falando, a seu respeito, na “trilogia dos mitos”, que Bacia das almas teria vindo completar).

O livro trata da vida e morte do coronel Trajano Henriques de Paiva, que tinha a “intima convicção de que seria eterno”. Ele, a seu modo, vendera a alma ao diabo, em troca da imortabilidade (e a existência, no romance, de um personagem chamado Fausto, astrólogo e oficial de justiça, bem como as duas epígrafes, uma em cada uma das partes em que se divide o livro, tiradas de dois autos de Gil Vicente, com destaque para as falas de Satanás, no primeiro, e de Lucifer, no segundo, mostram o quanto a autor tem consciência dessa simbologia do personagem). Todos que o rodeiam são envolvidos pela sanha assassina e o poder de corrupção do coronel. Os filhos, esses, ficaram “marcados” pela prepotência e devassidão do pai, que chagou ao ponto de estuprar uma das filhas...Os resultados não se fazem esperar: a frigidez de Márcia, a pederastia de Sérgio, a importância de Luiz – que para fazer amor com a mulher, Lina, precisava ir com ela a Porto Alegre, ou Santa Maria, “fora da área de influência de Trajano”...

Bacia das almas conta a historia dos filhos de Trajano, um a um. A historia de Gonçalo – que herdou o mandonismo do pai, e se prepara para ser o sucessor na fazenda; a de Luiz, formado em medicina, casado contra a vontade de Trajano; a de Sérgio, o caçula...Mais as duas filhas, Mara, a mais velha, e Laura, cujo namorado, Renato Diniz, será o procurador dos herdeiros no inventário. A historia de cada um dos filhos do coronel Trajano vai sendo assim reconstituída, ao sabor das lembranças de cada um deles, ocasionadas por uma cena presente, em que o coronel representa, como sempre, o papel de ator principal. Em particular a agonia, o velório e o enterro do coronel dão ensejo e inúmeros desses flash backs, na primeira parte do romance, intitulada Descaminhos.

Mas o relato das turbulências e indignidade do coronel Trajano prossegue até o fim do livro, que se torna pequeno para contê-las todas. Mesmo depois de morto, o truculento intendente municipal de Aguaclara continua no primeiro plano da narrativa; a presença dele assombra a cidade, aterrorizando meio mundo, a começar pelo seu sucessor na Intendência Municipal. Em Trajano Henriques de Paiva, Luiz Antonio de Assis Brasil pintou o retrato de um déspota perfeito. Para isso, carregou nas tintas, ao ponto de fazer do seu personagem um monstro (e terá sido essa a sua intenção, como se depreende de entrevistas que concedeu à imprensa, logo após a publicação do romance). Aliás, o Guedes, da Farmácia Santé, se encarregou de encomendar-lhe um monumento à altura – que é descerrado na sequência final do livro; um monumento, como murmura o farmacêutico, prelibando o dia da inaguração solene, “do qual muito ainda se ouvirá falar na Campanha gaúcha!”.


Na definição de Fausto, o astrólogo, Trajano foi o maior criminoso de Aguaclara. Como diz ele para o anão Ribas, que está cada vez mais transtornado depois da morte do coronel: “O velho mudou tudo, nesta cidade: fez do dia noite, fez do claro escuro, do direito esquerdo”. E como as duas estrelas da Alfa Centauri, que “formam um sistema estelar, girando as duas em torno de um ponto comum” e “nunca se separam, a não ser que aconteça um cataclisma”, assim viveram Trajano e Aguaclara. “Um girando em volta do outro, alimentando-se reciprocamente, num circulo nervoso. O fim só poderá ser através de catástrofe. Uma noite de Valpurgis, talvez”.
O fogo é um tema recorrente no romance, e altamente simbólico; é mesmo o tema – môr, que vai desaguar no titulo do livro. Veja-se, a respeito, a explicação que Fausto dá a Ribas, do significado da noite de Valpurgis: “horrível noite da qual acordamos novos, ressuscitados e limpos, lavados na Bacia das almas”. E é ainda Fausto quem explica a Ribas, factotum de Trajano, cúmplice dele em vários crimes, a razão disso: “Somente o fogo verdadeiramente purifica; só o fogo é nobre e generoso, pois do que era carne deixa apenas as cinzas, apagando toda a corrupção. Depois das cinzas; não há mais apodrecimento. Por isso é que se queimava os feiticeiros, na vã esperança de apagá-los da face dos homens. Mas eles continuam vivos, reencarnando-se em seres como Trajano Henriques de Paiva, teu amo e senhor, ao qual dedicaste uma vida inteira de miséria. Esta também pode ser a tua noite de Valpurgis, anão!”
Morto Trajano, os filhos são convocados para deliberar sobre a partilha dos bens. Reunidos em Santa Flora, o procurador escolhido, Renato (que aparece como personagem – narrador em vários capítulos, quebrando com isso a objetividade em terceira pessoa do relato) submete aos cinco herdeiros o esboço de partilha, pelo qual a herança é dividida em cinco quinhões, representados pela estância, a casa da cidade, o Haras Progresso, ações do Banco do Brasil e depósitos em dinheiro. Mas nenhum deles aceita o que quer que seja da herança. E nesse ponto do relato, cada um dos filhos vai lembrando alguma barbaridade cometida pelo pai, e relacionada com os bens por ele deixados. Na verdade eles “vomitam” o velho Trajano – o que Argemiro, casado com Márcia, efetivamente faz, quando Renato propõe que a eles seja partilhada a estância de Santa Flora.

Também os peões da estância tem as suas más lembranças do falecido. A mando dele, haviam “feito o serviço” no Rodinei, que dera para rondar as mulheres do Xangri-lá, e tivera o topete de lhe desobedecer a ordem de não por mais os pés no cabaré. E ainda por cima se dizia que ele havia dormido com a Carmem, uma das suas “protegidas”. Ao se lembrarem de tudo, terminam se embebedando, massacram Gonçalo, ateiam fogo na estância, enquanto Sérgio, sentado à mesa com os irmãos, à hora da ceia, se encarrega de incendiar a casa. Significativamente, na sequência inicial do romance, hora do almoço na estância de Santa Flora, num dado momento os filhos se sentam da mesa, e Sérgio prende fogo na toalha, na cortina, mas os peões, chamados, despejam água por tudo como principio de incêndio. Enquanto isso, “Trajano permanece impassível”, e, uma vez dominado o fogo, exclama, indicando Sérgio: “Este guri tem a ideia de que um dia ainda vai incendiar Santa Flora. Aprenderá que isso é impossível”. Mas o romance demonstra que isso, tanto era possível, que veio a acontecer. E nessa noite de Valpurgis, as chamas engolem a casa, e nelas o anão Ribas se atira. Santa Flora está destruída. Trajano desapareceu da memória dos vivos. A verdade triunfou.


Correio do Povo, Porto Alegre, 20.mar.1982. Letras e Livros, p. 4.

De primeira água

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