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Tarso Genro


Luiz Antonio de Assis Brasil, conhecido dos leitores de ficção através de dois trabalhos de enlace temático regional (Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo) publicada pela L&PM o seu romance “A Bacia das almas”. É a história de uma decadente família latifundiária gaúcha em cujo núcleo está como fator de desagregação a Revolução de 30 e a modernização política e social que a sucedeu.

Luiz Antonio já mostrou nos seus livros anteriores que tem os requisitos mínimos para ser taxado de um excelente ficcionista: domina o texto, conhece as técnicas do romance, sabe ousar sem perder o fio e – pasmem – tem como vernáculo uma intimidade de irmão. Não foge da narrativa que exige o texto trabalhado e longo e não teme a descrição que reivindica não só imaginação, mas também talento.

Neste seu último livro está flagrante a luta permanente que trava todo o escritor sério em busca do aperfeiçoamento. Aprofunda o exame dos personagens, tenta desanuviar seus véus ideológicos e os liga às circunstância sociais e políticas que são a base da sua determinação.

O fantasma de Trajano, o grande fazendeiro que é o centro da família e que se constitui num tipo magistral criado pela pena impetuosa do escritor, percorre todo o livro. De certa forma ele é o símbolo de uma dominação que ainda hoje é muito forte e que era hegemônica em nosso Estado, possivelmente até a década de 60: o latifundiário que mandava na política da mesma forma que mandava na estância, que geria os negócios públicos – sem qualquer pudor – em função dos interesses da modorrenta produção pecuária, extensiva, e para o próprio prazer dos seus iguais.

Está bem apanhado no livro um conflito que não é mero conflito de geração, como seria próprio de uma concepção de autor menor: de um lado a vida, em geral, que se “urbaniza” (leia-se o capitalismo destruindo a hegemonia latifundiária) com os filhos de Trajano, vinculados a um outro universo e assumindo as suas próprias sexualidades e paixões e, de outro lado, a ideologia latifundiária resistindo e reproduzindo seus hábitos dentro do próprio esquema familiar, que ainda se sustenta naquele mundo já caduco.

Trajano, intendente e líder político de Águas Claras, controla a cidade mesmo depois de morto. A situação proposta não tem nada de sobrenatural e fantástica, na acepção que lhe dá, hoje, a critica moderna, pois o que é indicado de maneira exata são as sobrevivências ideológicas que sucedem historicamente aos seus agentes. Não é verdade que os caudilhetes ainda estão ai para gerar esperanças e amortecer as consciências?

O tema da decadência familiar, que tem como pano de fundo o fim de uma época e o descenso histórico de uma classe, é grandioso e não é novo. Por ele já transitaram Thomas Mann (“Os Buddenbrook”), Dostoiewsky (“Os irmãos karamazow”), Érico Veríssimo (“O tempo e o vento”) e muitos outros certamente de porte igual ou menor. O perigo da aventura, para o escritor, é perder a perspectiva histórica e cair numa decadência crônica social refinada apaixonando-se pela pura singularidade proustiana.

Luiz Antonio esteve alerta a estes impasses. Não pretendeu fazer o romance definitivo sobre a decadência do latifúndio gaúcho, pois teria que enfrentar – num plano superior – toda a enorme e bela bagagem de ficção deixada pelo “Tempo e o Vento”, sem as limitações que a paixão de Érico pelo latifúndio propuseram. E porque esteve alerta fez um ótimo romance sobre o Rio Grande, elevando uma ponta de nossa história ao nível da tipicidade artística, com os pés na terra e com os olhos no futuro.

Seu terceiro livro consolida-o, ao lado de Josué Guimarães, Ciro Martins e Dyonélio Machado (para lembrar apenas três) como um dos melhores romancistas gaúchos, que exige respeito nacional, pela seriedade do que fez e pelo que promete fazer com os alicerces que plantou.



CooJornal, Porto Alegre, dez.1981

MANHÃ TRANSFIGURADA


Ver, rever e contar

Guilhermino César

O romance histórico é o antecessor imediato do romance moderno. Segundo afirmava, com dobradas razões, um critico francês de fins do século XIX, esse gênero – floração típica do citado século – nasceu com a paixão do “fato”. Contar um episódio, referir um caso sucedido, esse foi o programa dos primeiros romancistas. Houve, portanto, nesse movimento, em busca do concreto, arraigada preocupação com a “verdade”, isto é, a veracidade devia ser o ponto de partida para os exercícios da imaginação. A esta última caberia principalmente colorir, embelezar a realidade, dar-lhe interesse, cobrindo de verniz o triste e feio cotidiano.

Há tempos, quando se deu a invasão do romance latino – americano, poucos se aperceberam de que não havia ali, nos refolhos da campanha a seu favor, nada menos do que a nostalgia da realidade...passada. Nós, brasileiros, já havíamos ultrapassado essa fase. O romance, entre nós, na primeira metade do século XIX, tomara corpo, adquirindo maioridade, mediante a exploração de fatos ligados à história recente. Na Europa, como o leitor está cansado de saber, a historicidade, como fundo do quadro romanesco, foi buscada mais longe – nas dobras da Idade Média. Herculano, o pai do romance português, e Almeida Garret, por exemplo, continuadamente escarafuncharam o passado ibérico, à caça das mulheres de pé-de-cabra, dos euricos, das damas brancas. O “cura da aldeia” e a Joaninha dos rouxinóis – personagens da atualidade – são exceções na obra de ambos os grandes escritores citados. Na Inglaterra, deu-se o mesmo. O patriarca sem rival, Walter Scott, mergulhou fundo nos velhos castelos e lagos da Escócia, em busca de névoa, do indistinto, do passado característico de uma zona esfumada, capaz de dar ao escritor bastante liberdade para recriar uma realidade muito pouco real, mas em todo o caso vincada por costumes e paisagens, tipos e cidades determinada região. O essencial é que esta tivesse individualidade própria.

Antes de Alencar (que também reviveu cenas marcantes do nosso passado em seus romances), muito antes, portanto, de O Guarani, que saiu em 1857, nossos contadores de história foram também ao passado buscar inspiração, temas e motivos. O pedestre, o descolorido João Manuel Pereira da Silva, deu ao seu romancinho precursor (o primeiro que se publicou no Brasil) um titulo que diz tudo: O Aniversário de D. Miguel em 1825. Sua segunda novela chamou-se, ao gosto dos atuais professores de Moral e Cívica, Religião, Amor e Pátria. Macedo fugiu à regra, e por isso A Moreninha se constitui num quadro fiel, imperecível, da sociedade fluminense. Mas ainda ele, em outros trabalhos, não se cansou de pedir emprestadas à História, musa compassiva, figuras e cenas com as quais enchesse de lágrimas os olhos piedosos das moças em flor. José Antonio do Vale Caldre e Fião, o criador do romance gaúcho, por sua vez relatou em O Corsário uma intriga amorosa que teve por cenário o conturbado Rio Grande da era dos Farrapos. E Teixeira e Sousa, depois da As tardes de um Pintor ou As intrigas de um Jesuíta, coisa absolutamente ilegível, mas forrada de historicidade, voltou ao mesmo processo em Gonzaga ou a Conjuração de Tiradentes (1848).

Que dizer de Alencar? Seu painel romancesco – não é novidade para ninguém – abarca praticamente toda a formação da nacionalidade. O “fanadinho” (apelido que lhe dera Pedro II, seu inimigo cordial) punha a História em tudo, até nos seus despeitos. A Guerra dos Mascates, que pouca gente conhece, é um de seus grandes livros; faz a caricatura, impiedosa, da Corte brasileira, ao tempo do “Imperados Filósofo”, com minúcias de cronista pirrônico. Logo, pode ser considerado, esse livro, um “romance histórico”, ou “romance de costumes brasileiros”, ou ainda “romance nacional”, como gostavam de dizer os autores de então. Com um subtítulo desse, na capa do livro, o leitor ficava sabendo do que se tratava: a realidade brasileira era a polpa, a substância, o atrativo principal.

Só o Realismo, depois de 1850 (isso na Europa, porque no Brasil andávamos ainda mergulhados no devaneio romântico), pôde efetivamente cumprir de melhor forma os compromissos que o ficcionista havia assumido com a verdade, isto é, a vida vivida. Alemães e italianos sabem disso melhor do que nós, porque só então surgiram por lá escritores que “atualizaram” o ficcionismo entre esses povos. E os russos? Basta citar Tolstoi. Sem embargo de se ter notabilizado por sua penetração psicológica – ou por isso mesmo – seus quadros históricos são inesquecíveis. A mais convincente batalha napoleônica foi sem dúvida a descrita por ele em Guerra e paz.

Alejo Carpentier, que considero o nome mais expressivo da novelística latino – americana de nossos dias, costumava dizer que montava o fantástico sobre o real. Sem este como alicerce, não saberia compor um romance. Estou cansado, não quero ir à estante, que está longe, para conferir. Mas é esse, em resumo, o seu pensamento acerca do realismo–mágico, que só se credencia, afinal, ao nosso gosto moderno porque não dispensa a “nudez forte da Verdade”, como disse Eça de Queiroz, coberta pelo “manto diáfano da fantasia”.

Mandemos às urtigas todas as teorias. O bom mesmo é ler romances, coisa que nem sempre agente pode fazer. Confesso-vos, grave senhor e risonha senhora, que o ideal da vida seria, para mim, residir numa ilha, tendo ao alcance de mão todo o Proust, mais a restante canalha dos homens que povoaram a Terra com pessoas mais estimáveis do que as geradas por todos os patriarcas bíblicos.

Nesse começo de Primavera, com o vento soprando à feição, a janela aberta, não há coisa melhor do que uma história bem contada. Aliás, novela, conto, romance, só se admitem na roupagem adequada: a letra preta no papel branco, de boa margem, num complexo a que não pode faltar – evidentemente – uma boa revisão. (Suspiro entre parênteses: porque não são revistos os meus artigos? Por quê?).

Quero confessar que só agora, premido por inúmeros afazeres, pude ler o último romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, que no seu nome não tomou conhecimento da ortografia vigente. Refiro-me a esta Manhã transfigurada, que recebeu já o elogio de tantos críticos, na posição humilde do leitor que leu, releu e gostou. Seus romances anteriores, aos quais aludi em outro lugar, puseram à prova uma inteligência capaz de fazer reviver o passado com extrema felicidade. Ainda uma vez, em sua nova aparição, o autor incursiona pelo Continente de São Pedro, que ele conhece tão bem, ao ponto de ressuscitar, levantando-a do esquecimento, uma sociedade tão diferenciada, como a que encheu de bulha, de conflitos, de amores e de penas, os burgos sonolentos do século XVIII. A vila de Viamão é o pano de fundo de Manhã transfigurada. E em dois traços, sem marcar o leitor, Assis Brasil tece bem o seu enredo.

Estamos diante de um livro que tem a estrutura de um romance passional. Não lhe faltam os “matadores” do gênero em que foi mestre um Camilo Castelo Branco. Mas Assis Brasil é também um escritor feito, possui astúcia e arte; em seus trabalhos não falta nunca esse mesmo passionalismo que é, afinal de contas, um traço inerente a sociedade mais antigas, menos atingidas pela permissividade que neste século subverteu quase tudo, mais ainda postula a boa formação do escritor, que só está o salva da indistinção em que se abisma tanto papel – borrado, como dizia, furioso, o sensatissimo insensato que se chamou Qorpo-Santo.

Ora, o nosso Luiz Antonio conhece bem suas possibilidades. Tem imaginação. Tem um estilo que enleia. Sabe narrar. Diante do que, só nos cabe aplaudi-lo. E com isso pedir-lhe que não pare de nos dar novos frutos de sua indiscutível vocação literária.


Correio do Povo, Porto Alegre, 18.set.1982. Letras e Livros, p. 3.

Um triângulo amoroso na Viamão do século passado
Alfredo Roberto Bessow
Se o enredo de Bacia das almas é baseado num período histórico bem definível, até mesmo pelo paralelismo político de muitos dos personagens, Manhã transfigurada tem um tempo vivencial impossível de ser definido. Tem-se percepção de que foi século passado. A Viamão que os personagens habitam é muito vaga, além da igreja e do sobrado, o autor não busca fazer um inventário mais detalhado do ambiente e dos tipos humanos que habitam. No enredo, apenas os habitantes do sobrado e da igreja se movimentam.

O triângulo amoroso traz um diferencial para com qualquer outro: mesmo casada, o “homem” de Camila – Sargento Miguel de Azevedo Beirão – não é parte ativa da trama. É exatamente a partir do pedido de anulação do casamento que os dois, Padre Ramiro e Bernardo, vêem se envolvidos pela ânsia de vida que vigora em Camila. Ao segundo coube a tarefa de desperta a consciência da carne e o primeiro atiçou a paixão. O desconhecido da paixão, a mesma paixão que ela não tinha para com o “Sargento de Ordenanças”, mais preocupado em discutir “tudo que fosse de aumentar os bens, nada que dissesse respeito ao amor”.

Será exatamente o fascínio do longe, Padre Ramiro e suas descrições de Roma, que fará com que Camila tome conhecimento daquilo que é amor. “Como seria sentir amor pelo seu noivo?”, está indagação permaneceu sem resposta, até o despertar – impossível de amar a Miguel, casou-se muito mais pela possibilidade de morar no sobrado. Eis ai o nascedouro da infidelidade, atreveria a dizer. Morar no sobrado, em frente à igreja, outros acontecimentos para uma vida que trazia a curiosidade como marca dominante.

O autor se permite até mesmo a questionar certos dogmas da Igreja. Isso sucede quando Padre Ramiro toma ciência de que o sentimento que nutre para com Camila é amor. E já não mais bastavam as palavras devocionais, a fuga para o campo – universo – dos livros. Em tudo havia a “incômoda” permanência de Camila. O “incômoda” justifica, quando se tem a certeza de que algo, mesmo sendo desejado, contradiz todas as certezas acumuladas. Não é o amor e a paixão por Camila que o levam a reflexionar toda a sua vida – sacerdotal -, mas exatamente a impossibilidade de sobreviver apenas na racionalidade da fé. Já não mais bastam os sentimentos de caridade e doação ao próximo. É a volúpia e o desconhecimento da carne, com seu fascínio, que transtornam e deformam toda a consciência do seu ser e dever ser, baseado numa conduta, dita normal, estabelecida pelos livros sagrados e pela tradição da Igreja Católica.

“Cristo é uma imagem como tantas, feitas por mão de homem”, e, diria eu, pelos homens adequado às situações que mais convém a determinados grupos, quer políticos, financeiros ou ideológicos. A imagem de Cristo tem servido, ao longo da história, para as mais dantescas justificações. Foi com a espada numa mão e a cruz noutra que nações inteiras foram dizimadas, quer na América ou na Europa; se a Inquisição não subsiste aos moldes de antanho, ela se moldou ao novo tempo. E sem fogueiras, continua condenando ao fogo do inferno os “hereges” que questionam esta monopolização exigida pelos cânones eclesiásticos.
O livro de Luiz Antonio de Assis Brasil poderia avançar mais no sentido de aprofundar as dúvidas íntimas dos seus personagens. O processo de decomposição, do qual foi alvo o Padre Ramiro, poderia ter sido aplicado, respeitando-se as nuanças e a moral de cada personagem, em relação aos demais envolvidos na sinistra história. Perdeu o romance, em densidade, uma oportunidade de retratar o mundo interior, quer de Bernardo, de Laurinda e de Camila. A abordagem poderia ter sido mais incisiva, denunciando os conflitos existenciais.

Em absoluto a ausência deste aprofundamento diminuiu a fluência do romance, apenas que, opinião particular, uma abordagem psicológica mais demorada, tornaria o romance mais compacto e a sua leitura fascinantemente dolorida.

Feito esta ressalva, que julgo importante, o livro se justifica pela habilidade do autor em conduzir a trama e desembocar numa chacina amorosa, sem cair na solução simplista. O diferencial deste romance, para o anterior, é que neste, os envolvidos, com exceção de Laurinda e André, que a tudo assistem impassíveis, exterminam-se mutuamente. A tragédia se adivinha já no primeiro segmento, quando Laurinda deduz que “o dia não seria como os outros, de trabalhos, mas um dia muito diferente e, por essa causa, temível”, e todo o romance, e a inteligente forma de estruturá-lo, servem como período preparatório para o desfecho.

Livro de fácil leitura, pela fluência com que o autor domina o material, exceção feita a uma falha quando a abordagem mais inquisidora no campo psicológico, Manhã transfigurada, ao fim da leitura, deixa-nos convencido, de que o tempo não foi despendido em vão. E isto, infelizmente, nem todos os livros tem condições de propiciar.


Folha da Tarde, Porto Alegre, 25.set.1982, p. 56

Revolta e remissão
Leda Rita Cintra Ferraz
Olhares, suspiros, perfumes, o inevitável livrinho de versos, e até a velha ama com seus avisos e presságios (todos esses elementos românticos), estão presentes em Manhã transfigurada, o novo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Mas o autor não se limita a esses moldes românticos pré-estabelecidos e vai mais além: ele faz de sua personagem principal – dona Camila – uma heroína que se revolta contra as condições sufocantes que se estendem sobre seu casamento, sua vida, enfim, sobre a sociedade em que vive. Nessa revolta, ela tenta primeiro realiza-se como ser humano, como mulher, não admitindo que resolvam por ela sua sexualidade. E para isso lança mão de Bernardo, o escrivão da igreja. Num gosto que revela por si só dois pontos - chaves do livro: a tentativa de romper com algo que sempre lhe fora imposto – a religião, que agora decidirá sua vida, e a tentativa de quebrar um isolamento a que eram condenadas as mulheres de sua época, relegadas ao mundo das escravas e dos padres, com quem podiam conviver mais intimamente, sem quebrar as aparências.

Porque a sociedade em que dona Camila tem de viver, e da qual Assis Brasil se utiliza para preparar o clima do livro, é regida unicamente pelas aparências, que determinam, num mundo mercenário, ambicioso e mesquinho, os bons e os maus. E procurar quebrar o estabelecido merece uma punição severa. E mais severa ainda, quando a ousadia parte de uma impotente mulher.

Então, como realizar o amor romântico que nasce entre dona Camila e o padre Ramiro, depositário de todas essas convenções? E se ainda por cima, já nesse trecho, dona Camila não mais se revolta, apenas deixa-se embalar por um amor mais forte do que ela? Com uma solução ainda ao gosto dos românticos – através da morte. Única chance de remissão para a personagem, e a única forma de livrá-la desse clima que a sufoca.

Na preparação desse clima, aliás, Assis Brasil se esmera: além dos elementos já citados, há outros que contribuem para que ele se torne cada vez mais sufocante – a casa sempre fechada, num circulo que restringe ainda mais a personagem, obrigada a permanecer em seu lar, as pessoas que comentam, a chuva que encharcou a pequena cidade, transformando suas ruas em barro, o amor não correspondido de Bernardo, ao mesmo tempo seu algoz e sua vitima, os conselhos de Laurinda, a ama.

Diante tudo isso, Camila sucumbe, nesse atual O crime do Padre Amaro, em que o escritor gaúcho leva a melhor sobre Eça de Queirós.

E talvez leve a melhor, exatamente por seu estilo. Porque em Manhã transfigurada mais uma vez Assis Brasil recorre aos flashbacks, e, desta feita de forma quase total já que o livro é um grande flashback, que só dá lugar ao presente nos minutos finais, quando o presente utilizado tem ainda a função de mostrar de forma contundente a pouca importância das mulheres em geral e a sua impotência diante da necessidade de conservar, sempre, as aparências.
Além desse tempo passado que predomina em quase todo o livro e talvez para melhor se adequar à história, o autor narra as aventuras de Camila num tom onisciente. E é com brilhantismo que Assis Brasil foge da mais perigosa armadilha desse tipo de narração: a de imprimir à obra um ritmo lento e arrastado. Ele consegue, entretanto, através da constante movimentação do foco narrativo, não apenas fugir dessa armadilha, mas também dar um ritmo agilíssimo ao seu livro.
Todas essas qualidades, alinhadas a uma linguagem regional sem sotaque, fazem deste mais um excelente livro de Luiz Antonio de Assis Brasil.
São Paulo, Leia Livros, out. 1982, p. 7.
Dupla servidão

Vivian Wyler

Quarto livro do gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, 37 anos (os anteriores formaram uma trilogia iniciada com Um quarto de légua em quadro e encerrada com Bacia das almas), Manhã transfigurada confirma qualidades reveladas nos romances anteriores. Também aqui se fala de submissão e prepotência, de sexo como espelho das frustrações e incapacidades humanas, das leis próprias e invioláveis de um ambiente acanhado e rural. Mas ao invés do perfil de um caudilho ou da saga de uma família que degenera, tudo gira agora em torno de uma figura feminina, Camila, destinada a um papel e predisposta a romper com as suas limitações.


Manipulando com habilidades técnicas básicas, como a do suspense, Luiz Antonio de Assis Brasil – ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e hoje professor de Direito Romano na PUC-RSRS do Rio Grande do Sul – tem estofo de ficcionista. Mesmo quando derrapa um pouco, quando, por exemplo, faz a ação trilhar caminhos por demais previsíveis.
Na trajetória de uma mulher “devolvida” pelo marido – o sargento de ordenanças e estancieiro Miguel de Azevedo Beirão – por não ser mais virgem, Assis Brasil compõe imagens pinceladas de viva ironia. Como a de Martinho Gonçalves, reduzido à penúria pela impossibilidade de continuar contrabandista. Ou as dos vários convidados que durante a festa de casamento são tomados de “uma certa indecência” e vão refestelar-se “nos matos escuros, aproveitando o momento em que na casa se apagavam as luzes”. Mas é ao descobrir o erotismo latente na religiosidade, ao perceber a proximidade e a distancia entre a servidão imposta a Camila – moldada para viver restrita aos votos do casamento – e a servidão do padre Ramiro.

- restrito aos votos de castidade – que o autor mostra a sua segurança, a intimidade com a linguagem e as suas possibilidades.

“Desdobrar cuidadosamente a casula verde sobre a mesa, de modo a ficar nenhum amassado, depois colocar sobre ela a estola de franjas ricamente trabalhadas em fio de ouro, o manípulo, o cordão de cingir a cintura, a alva” – assim descreve o autor o ritual que antecede a missa. Com igual detalhismo e sensualidade, detendo-se em caimentos e texturas de tecidos, ele fala das roupas de Camila: “As dobras do vestido, os babados, o cinto de seda, tudo estava como ontem”.

Trabalhando um tema desgastado – a relação de uma mulher com um padre – o romancista não se atém, no entanto, a noções de pecado e de dever. Não é o confeito de Camila, vacilando face aos apelos do corpo, que lhe importa registrar. Dominada por imposições sociais, mas dominadora enquanto senhora de escravos, tudo que ela quer, a cada instante, é certificar-se de que é mulher. No conflito com o padre, o autor prefere captar o contraste entre a penumbra da igreja e a luz da vida lá fora. A tentação da carne, sim, mas transfigurada em imagens blasfemas de Camila vestida de santa, branca como uma hóstia, visão deturpada de quem fez os votos de castidade aos 21 anos.


Personagem quase à beira do caricatural, Bernardo, escrivão e sacristão, é o elo de ligação de toda a história. Amante de Camila, ele não é o dono do seu coração; íntimo das coisas da igreja, ele não é um santo; apesar das suas fumaças de fidalguia, só consegue ser ridículo. E é a ele que cabe encarnar o ideal da sociedade em que vive.
Quatro livros em seis anos, Luiz Antonio de Assis Brasil, ao contrário de Bernardo – criatura sua – não para a meio caminho, não é indefinido em sua condição de romancista. Pode-se discordar desta ou daquela solução que dá às suas tramas, mas não se pode deixar de reconhecer a habilidade de narrar e de construir personagens.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22.ago.1982. Cad. Especial, p. 5.


Drama e conflitos na Manhã transfigurada

Léa Masina

Desde que estreou como ficcionista, Luiz Antonio de Assis Brasil vem merecendo a atenção dos leitores e da critica que atribuem à sua obra o mérito de revisar, dissolvendo numa ótica contemporânea, certos conteúdos ideológicos provenientes dos primórdios do século, quando o Regionalismo se impunha na literatura em consonância perfeita a uma época de afirmação nacionalista e de condicionamento político claramente definido.

A obra de Assis Brasil insere-se, portanto, no conjunto de produções de um período em que a revisão se impõe como condição de existência. E, embora avessa ao jugo castrador da tese, permitindo às criaturas literárias viverem intensamente o mundo criado, valoriza-se pelo contato com a História na medida em que se recupera, no plano da ficção, o movimento dialético que constitui o processo histórico em seu fluir permanente.

Três romances iniciais – Um quarto de légua em quadro1. A prole do corvo2 e Bacia das almas3compõe o ciclo de uma ficção de caráter nitidamente revisionista, no qual a perspectiva critica se amplia de modo a dar realce “ao outro lado da História”. Nas três obras observa-se, pois, o deslocamento contínuo do foco narrativo do episódio coletivo ao drama individual, explorando os vínculos e relações que se estabelecem entre individuo e sociedade.

Já no primeiro romance – Um quarto de légua em quadro, o Dr. Gaspar Fróes, médico de bordo que acompanha os casais açorianos colonizadores do sul do país, funciona como testemunho e consciência crítica de uma realidade de privação e injustiça; depois, em A prole do corvo, os episódios da Revolução Farroupilha permanecem como força motriz dos dramas individuais do povo e da soldadesca, principalmente de Filhinho de Paiva, feito soldado em nome de interesses – nem sempre os mais patrióticos – do pai estancieiro, preocupado em conserva o patrimônio ameaçado pela guerra.

Em Bacia das almas, a “prole” do Coronel Trajano, patriarca rural nos moldes da melhor ditadura remanescente, pela submissão e pelo convívio com a tirania, termina incapaz de equacionar e assumir valores próprios. Mesmo depois de morto o tirano, a situação perdura, porquanto todas as tentativas levadas a cabo por seus descendentes terminam sempre em fracasso, homens e mulheres privados de sua dignidade e discernimento.

Nesse ciclo, Bacia das almas é uma obra conclusiva: a História – como por aqui se conta – é mera estratificação ideológica. A verdade humana subjaz a ela e, inexoravelmente, as criaturas levam consigo as marcas do passado: a advertência permanece na obra através das analogias que uma leitura atenta pode oferecer entre o plano da ficção e a realidade com que ainda convivemos.

Mas, embora o escritor conheça a importância do conflito individual na configuração da narrativa, é óbvio que, nessa “trilogia dos mitos”, como vem sendo denominada pela critica, escolheu privilegiar inequivocamente o grupo, o coletivo composto por nuances individuais, mas repercutindo na História, na formação de uma consciência social e desmitificadora.

Porém, essencialmente um ficcionista, há momentos em que as personagens – sobretudo as femininas – reivindicaram para si um espaço maior, no qual seus dramas e mazelas individuais, seus afetos, encontrem um modo mais amplo de expressão.

Manhã transfigurada4 certamente responde a este anseio de aprofundamento psicológico e ficcional das personagens. Postas as coisas nos devidos lugares – assunto, tema e linguagem, sem romper, mas conciliando um legado cultural e histórico, Assis Brasil reinventa e recorta o tempo, mergulhando em cheio na origem dos dramas e na própria condição de existência do homem: oscilante, dividido, contraditório.

Como novela Manhã transfigurada não comporta os painéis de suporte que geralmente sustentam o arcabouço de um romance. Nela, tudo conflui para os protagonistas da estória, Camila, Bernardo e Ramiro, vivendo na Vila de Viamão, em pleno Setecentos.

A historia faz-se presente, agora, não mais centrada no episódio, mas como conjunto de circunstâncias produzidas por uma época, definindo e justificando procedimentos, concepções e imagens. Não se trata de narrar fatos passados, mas de transpor para a ficção a essência da História, as coisas acontecendo na consciência dos homens e conferindo dimensão aos dramas individuais.

Cada capítulo assemelha-se a uma tomada de cena em que a câmera se instala sob o ponto de vista de uma personagem, ajusta as lentes e colhe toda a perplexidade de um mundo densamente barroco que pulula sob a capa de aparente harmonia da Igreja Matriz da Vila de Viamão. E essa técnica corresponde, inegavelmente, à intenção de privilegiar não o enredo, que se torna quase elemento secundário, mas a apreensão do espírito pensando, as impressões contraditórias das personagens sob o aspectos vários de uma mesma ação. Cria-se, pois, de forma progressiva e, por que não dizer, espiralada, um mundo de luz e sombra, religiosidade e sensualismo, carne, matéria e espírito, fortemente tensionado e dividido.

Assis Brasil lida com tensões e contrastes: a novela impõe, de imediato, o descompasso entre a realidade objetiva, representada pelo lado externo das coisas – os cânones religiosos, os preceitos, os ritos litúrgicos, as horas marcadas pela recitação das Laudes, o Ângelus, as Vésperas – e o interior tumultuado e prospectivo das personagens.

Camila, a mulher, rompe com a estratificação de um mundo dominado pela religiosidade: ao se insinuar no espírito e no corpo dos homens da casa canônica, gera o estranhamento que leva as personagens a indagar o sentido de suas próprias existências. E será através dessas expectativas, desses desejos, desses afetos, dessas indagações que o autor irá compondo a urdidura da novela.

Hábil narrador, dominando sua linguagem de forma absoluta, Assis Brasil modula imagens pictóricas, plásticas, mantendo permanente o clima tensionado da época. As imagens são ricas e sugestivas: a nave ampla e vazia da Igreja Matriz de Viamão; nela o Padre, figura solitária. Os cheiros se misturando: o de Camila, na lembrança dos homens; o dos corpos jacentes sob o altar, como uma advertência sobre a finitude da matéria humana. O sacristão em roupas de peralvilho, a cara lambuzada de branco e com salpiques de lama, a recostar-se, encharcado, às portas de Camila. O chapéu tricorne a boiar, desmanchado, numa poça d’água. E depois Camila avançando pela nave da igreja, os braços abertos, noiva. Oferenda a ser consagrada, erotismo místico.

E o gesto final de Bernardo, rebelando-se e destruindo a representação do amor carnal e símbolo do poder divino, traduz o dilema do homem barroco que tenta inutilmente fundir os seus contrários. A manhã – transfigurada pela confluência dos dramas individuais que a retórica da Igreja é impotente para aplacar – evolui então para a tragédia.


Notas:

  1. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Um quarto de légua em quadro. Porto Alegre, Movimento, 1976.

2. .... A prole do corvo. Porto Alegre, Movimento, 1978.

3. .... Bacia das almas. Porto Alegre, L&PM, 1981.



  1. ... Manhã transfigurada. Porto Alegre, L&PM, 1982.

Jornal do Sul, Porto Alegre, 15.set.1982, p. 8


Bach transfigurado
Eunice Jacques
Ler Manhã transfigurada é quase ouvir uma fuga de Bach: sente-se, em determinados momentos, e de forma errônea, que a intensidade do cravo e a torrente da melodia já atingiu o ponto culminante e que se apressa para o fim. Mas, então, recomeçam as notas, sustenidos e bemóis, num contraponto que apenas levará a uma intensidade maior para um novo fluxo de sentimentos. E como um Bach que escreve diferente tipo de ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil chega a ser barroco no seu texto, cheio de minúcias, de vocábulos extremamente preciosos, de palavras lapidadas, repensadas, às vezes também transfiguradas.
Não havia lido ainda esse jovem e energético romancista gaúcho, embora dele possua o Um quarto de légua em quadro, que vou ler tão logo me recupere desse simples e intrincado romance de amor. Depois, com igual pausa, penso buscar os dois outros livros, Bacia das almas e A prole do corvo, já me indagando se esses títulos também vieram de uma frase, uma única frase, que deu o nome à sua ultima obra: “Um sorriso ilumina seu rosto, luz na Manhã transfigurada, hóstia cândida”.

O compasso dessa frase (de novo Bach?) caracteriza todo o fluxo da obra, que absorve nova tendência da literatura europeia, especialmente de novos autores franceses e italianos, de abrir mão de qualquer marcação gráfica dos diálogos, que ficam inseridos nos parágrafos, mesclados a descrições próprias da narrativa e a pensamentos exteriorizados dos personagens. O autor se impessoaliza na obra e muito cedo se percebe que as personagens “livraram-se” dele, tomando seu caminho autônomo. A primeira a tomar a sua independência – o que evidencia a maturidade do escritor – é Camila. Creio que Assis Brasil conseguiu criar uma das criaturas mais fortes da literatura rio-grandense, em termos psicológicos: é essa moça de família de ganhos minguados, pelo controle maior ao contrabando a que o pai se dedicava, que é projetada, para atingir um nível social superior, aos braços de um rico senhor de terras, de Viamão, que se estendem até a Lagoa, e que também possui estância para os lados de Tramandaí. Mas, antes de tudo, Manhã transfigurada é uma história da busca do amor, daquele que é bem mais profundo do que o desafio de Camila de se saber mulher. “Amo ele”. “E não é paixão, é amor”. “Queria que ele levasse algo dela, era uma forma de ir junto para seu quarto, ficar quem sabe à cabeceira da cama, vigiar seu sono”.

O romance, situado em meados do século passado, é regional na moldura, nos costumes, na rígida moral de um Continente onde os homens mandavam, especialmente quando tinham terras, gado, escravos e títulos. A igreja matriz de Viamão também é personagem, e muito importante. Mas o livro tem a dimensão universal porque, na verdade, é uma bonita e triste história de amor, de amor-ódio, de amor-solidão, de amor-amor. Poderoso, como é o estilo de Assis Brasil, intenso, forte, às vezes sufocante como a própria Manhã transfigurada.
Zero Hora, Porto Alegre, 11.jan.1982. Segundo Caderno, p. 2
A repressão numa sociedade primitiva
Regina Zilberman
Luiz Antonio de Assis Brasil inaugurou sua trajetória literária com uma novela, Um quarto de légua em quadro (1976), a respeito da ocupação açoriana no Rio Grande do Sul, durante o século XVIII. Recorrendo a uma narrativa de procedência histórica e tomando como assunto a imigração, ele foi fiel a modelos literários que até então estavam obtendo boa repercussão entre o publico gaúcho. Pois, remontando a Érico Veríssimo, que lhe deu uma dimensão épica com O tempo e o vento, o romance histórico, quando vinculado principalmente ao tema da ocupação do território rio-grandense, teve seus seguidores nos novelistas Moacyr Scliar e Josué Guimarães.

Assis Brasil não fugiu a própria regra no seu segundo livro, A prole do corvo (1978). Se abandonou os integrantes, permaneceu nos temas históricos, aliando-se à vertente regionalista ao abordar agora episódios da Guerra dos Farrapos, sangrenta guerra civil entre a província sulina e a administração imperial, nos anos entre 1835 a 1845. Por sua vez, a segunda incursão no gênero dava a medida da prosa do escritor. Em A prole do corvo, seu adentrar-se na historia tinha nítida intenção desmitificadora. Investindo contra lugares comuns do passado ou contra figuras históricas consagradas.

É esta idolatria ufanista que é outra vez chamada à cena em sua terceira obra publicada, o romance Bacia das almas (1981), para ser desmascarada através do humor e da ironia. E, se o tempo narrativo aproxima-se mais da atualidade, já que a ação transcorre entre 1917 e 1927, ainda se matem vivos os laços como relato histórico.

Mas Bacia das almas fecha um ciclo: o do projeto relativo à desmitificação de um passado sacralizado pelas instituições oficiais e pelos ocupantes do poder. Que são descendentes – e herdeiros políticos – daqueles vultos, cuja honestidade de propósito é desmascara pelo ficcionista. E, com a publicação deste Manhã transfigurada (Porto Alegre, L&PM, 123 páginas), percebe-se que o livro anterior encerra também outro ciclo, porque a obra regente apresenta novas opções estéticas e uma temática regional.

A historia ainda num passado da colonização do Rio Grande do Sul, era indigente, e os padrões de civilização e tão-somente uma aspiração distante até utópica, digna apenas das pessoas um pouco mais letradas. Mas este recuo no tempo tem outro objetivo, visa a recuperar um primitivismo radical, que unicamente esta localização numa época muito remota da historia do Estado e numa região muito afastada de qualquer outro centro podia permitir. Portanto, não se trata de uma novela de caráter histórico ou regionalista, já que toda informação relativa ao período em que se passa a trama é antes um recurso para realçar os conflitos interiores dos protagonistas, que um dado de ordem documental.

E este interessa em se aprofundar na intimidade dos atores que assinala o relato. Evita assim o processo onisciente, próprio ao narrador distanciado no tempo que empregara nos textos anteriores. Com isso, permite que sejam as criaturas ficcionais as expositoras de suas paixões, e estas vão-se intensificando à medida que crescem as proibições que as cercam.

O conflito decorre, portanto, deste choque entre o desejado e o proibido, sendo que este se avoluma em decorrência, de um lado, do ambiente em que habitam as personagens, o qual, embora primitivo e agreste, se pauta por uma legislação rígida e rigorosa. E, de outro, o conflito advém da condição das personagens, já que Camila, a jovem esposa do sargento Miguel, rico proprietário de terras, é empurrada, devido a seu temperamento, ao adultério, enquanto seus amantes possíveis, o sacristão Bernardo e, depois, o pároco Ramiro, padecem de impedimentos reconhecidamente intransponíveis.

Há, pois, uma paixão em principio irrealizável mas, por isso mesmo, incontida, norteando a conduta das personagens. E, do outro lado, um meio social nada civilizado, entretanto, por paradoxal que seja, altamente repressivo. Os ingredientes para uma tragédia estão aí dispostos, e Assis Brasil procura tirar o melhor partido deles. Com isso, escreve seu melhor livro e oferece ao leitor uma narrativa ágil que, por se passar naqueles tempos em que se implantava uma sociedade no Sul, não se mostra menos atual, nem menos interessante. Pelo contrário, propicia uma reflexão aguda sobre os frutos da repressão, quando esta se alimenta do sufocamento dos desejos mais íntimos, mas, na mesma proporção, mais intensos, do ser humano.

REGINA ZILBERMAN, Comentarista. Crítica literária. Porto Alegre

Suplemento Literário Minas Gerais, Belo Horizonte, 27.dez.1982, p. 5.
O tema em sua maturidade
Antônio Hohlfeldt
Não é de agora que Luiz Antonio de Assis Brasil ocupa-se com amores desditosos, apaixonados e fatais. Já em Um quarto de légua em quadro, seu romance de estreia, o amor do Doutor Fróes era um sentimento fatal, regido pelo destino, e ele, como a mulher, simples marionetes. Posteriormente, em A prole do corvo como Bacia das almas, tinham, em ultima análise, como tema mais constante, esta mesma situação, quem sabe o fatalismo herdado de seus maiores açorianos, e que o autor concretiza em tais situações-limite. Mas é em “Manhã – transfigurada” (1), que já chega a sua segunda edição, que Assis Brasil atinge, literariamente, o maior despojamento, a maior concentração, a tensão perfeita num equilíbrio constante que jamais até então realizara.

A narrativa é breve, pois se organiza em onze relativamente curtos capítulos, pouco além de sem páginas. Ela se distribui quase que matematicamente, cinco capítulos alternados a relação entre Camila e Bernardo, Ramiro e Camila, e o primeiro deles que dá, em ultima análise, a perspectiva geral da narrativa, reiterada sutilmente aqui e ali, e que é a da escrava Laurinda. Nesta organização, verifica-se haver uma narrativa eminentemente feminista, e, mais do que isso, fascinada com este ponto de vista.


Dois subtemas marcam todo o texto: de um lado, a força do destino que a todos conduz. Este tema também não é novo em Assis Brasil, e já começa reforçado na epígrate da obra. Mas há uma grande diferença na maneira pela qual Laurinda, Camila, Bernardo e Ramiro o visualizam. Os dois homens, na verdade, enfrentam-no a descoberto, sem o menor preparo, em oposição às mulheres, que possuem uma intuitiva visão de como dominá-lo. Das duas, porém, passa-se de um maior controle por parte de Laurinda, nos primeiros capítulos, à sabedoria decisiva de Camila. No entanto, o destino acaba por impor-se a ela própria, no desfecho trágico que surpreende o leitor. Neste sentido, a perspectiva da tragédia grega é retomada com absoluta fidelidade pelo romancista gaúcho, na medida em que Camila, pensando ter dominado o destino, comete sua desmedida, sendo por isso castigada. Seu castigo, contudo, atinge a todos os que lhe estão mais próximos. Laurinda, contudo, no parágrafo final do texto, recupera o domínio da situação, e assim, da mesma forma que é sob a perspectiva da negra escrava que a narrativa se abre, assim também se fecha: para o povo da vila de Viamão, a morte de Camila devolve-lhe a virtude que a denúncia do marido havia conspurcado.

Com Manhã transfigurada, Assis Brasil marca um importante ponto, não apenas em sua carreira literária, como faz avançar a literatura sul-rio-grandense em um de seus temas mais reiterados. Já é lugar comum dizer-se que até mesmo aqueles romancistas que mais pretenderam falar da épica gauchesca, terminaram por prestar sua homenagem ao silencio significado da mulher em nossas inóspitas paisagens coloniais. Assis Brasil, porém, faz mais do que isso. A imagem de impotência do Sargento Miguel, marido de Camila, é mais do que metáfora: é a figura da própria impotência de uma classe, acostumada a mandar, mas não a encontrar-se com seus iguais. Ou seja, é apenas sob a perspectiva da escravidão – impingida na época às mulheres – que Miguel pode se afirmar. Na medida em que descobre, porém, a anterior liberdade de Camila, que deixara sua virgindade com um peão qualquer, de quem nem sabia mesmo o nome, sente-se o proprietário traído pela propriedade. Nada lhe restando senão denunciar a burla, abre, simultaneamente, o caminho da real liberdade para a mulher que, afrontada, assume esta liberdade em todos os seus riscos, permitindo que a narrativa, desta forma, se dê num constante paroxismo equilibrado entre seu próprio sentimento de vingança e a sedução consciente ou não que realiza, primeiro de Bernardo, e depois de Ramiro.

Não é exatamente nova a temática assim desenvolvida. Podemos lembrar os textos de Soror Tereza, os livros de Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, para citarmos apenas os mais clássicos. O próprio José Régio desenvolve profundamente, em sua poesia, o tema que, em ultima análise, constitui importante subtema deste romance, que é a oposição entre Deus e o Diabo, a Virgem Maria (pureza) e Camila (o pecado), a oposição entre a vida (tanto a física quanto a espiritual) e a morte.

O tema em si é fascinante. Mais do que isso, porém, o escritor, dono do material, é capaz de reproduzi-lo sob linhas diversas, ampliando sua própria vida: assim, toda a narrativa multiplica-se no mínimo sob dois prismas, ora o de Camila, ora o de Bernardo ou Ramiro, quando não passa pelo agudo crivo de Laurinda. O que temos, pois, não é uma narrativa clássica, no sentido da certeza das coisas narradas, mas um texto eminentemente contemporâneo pela dubiedade e ambiguidade com que se caracteriza. Mais do que isso, combinando sabiamente o aspecto do destino, o narrador é capaz de criar e manter uma tensão permanente, na medida em que antecipa as ações, criando um clima de agouro e morte que se completa amplamente no contraste entre os fatos que compõem o desfecho da narrativa e o próprio titulo da obra. A Manhã transfigurada a que se refere o titulo mantém a ambiguidade, sobretudo após a leitura do texto, pelo simples fato de ratificar o sentido de vitória do Destino.

Maduro o suficiente para aprofundar um dos grandes desafios, que é o do artista capaz de expressar sentimentos contraditórios e mesmo oposto de vários personagens a uma só vez, Luiz Antonio de Assis Brasil ainda se dá ao luxo de, para tanto, valer-se de uma conquista importante da linguagem cinematográfica, que é a simultaneidade de enfoques de um mesmo fato. Emerge assim, por trás da paisagem constantemente nebulenta dos dias de chuva que caracterizam toda a fugidia ação romanesca, uma imagem fresca e luminosa do fazer literário que, talvez por isso mesmo, justifique ainda mais o titulo escolhido.

Correio do Povo, Porto Alegre, 27.abr.1983. p. 15
Presença do barroco em Manhã transfigurada

Henriette Karam Trindade


Podemos afirmar, com toda a certeza, que o barroco, como período estilístico, emerge da fusão entre o teocentrismo, revigorado pelo Concilio de Trento, e o nacionalismo precursor da Idade Moderna, sustentado por Galileu, Newton e Descartes.

A concepção de Deus, preliminar para esta tendência teocentrica, desenvolve-se no homem a partir da percepção e consciência de sua finitude. Numa anciã de vencer o destino natural e fatídico da existência humana, surge a religião: “um sistema de crenças e praticas relativas às coisas sagradas” (Durkheim), que em seu pragmatismo vai assegurar ao homem a sobrevivência espiritual.

Todavia, se a religião exerce uma função gratificadora, pois ajusta-se aos anseios humanos, possibilitando ao homem perpetuar-se, através do dogma religioso da imortalidade da ala e rituais fúnebres, enquanto instituição, impõe suas summas e cobra o cumprimento de leis que deverão reger o comprimento dos homens. Basta, para isso comprovar, observamos que a prova moral da imortalidade da alma acha-se fundada na Justiça Divina, que exige devidas sanções recompensa ou punição, à virtude ou vicio.

Assinalamos aqui que, dentro das relações do homem com Deus, há ideia de que a Justiça de Deus e a moral humana não permitem uma só medida, conforme prega Vieira: “... os pecados, ainda que acheis neles todos os falsos bens que vos prometem, só eles tiram o Paraíso, e dão o inferno. E como o verdadeiro penitente está vendo que só os pecados o podem tirar do paraíso e levá-lo ao inferno; que caso há de fazer dos juízos dos homens? Dos pecados sim, e só dos pecados, porque só por eles o pode condenar Deus”.

Acha-se o homem, portanto, pressionado de um lado pelo teocentrismo que lhe impõe o sobrenatural sob o signo do dogmatismo, e enquanto dogma, possuidor de uma “imperatividade que lhe atribuirá um caráter intocável... uma verdade absoluta que emerge acima de qualquer debate” (LYRA FILHO) e, por outro, pela ciência e filosofia progressista onde Galileu afirma que ao aceitar o homem admite-se a razão, ou um Descartes que assevera ser o homem “une substance dont toute l’essence ou la nature n’est que de penser”.

E se já no espírito grego se manifestava uma atitude dialética em que a filosofia buscava fazer de toda a ação humana uma ação consciente através da auto reflexão do espírito, na tentativa de tecer uma concepção do Universo, é igualmente indubitável, no século XVII, que o questionar é congênito do homem.

No entanto, com o racionalismo a teologia assume um caráter racional em que as novas demonstrações da existência de Deus e da alma são formuladas mediante as forças naturais da razão e suplantam antigas concepções religiosas medievais, não sem antes entrarem em conflito com o clero.

O homem é acometido de um agonicismo crônico que muito bem expressa Pascal em seus pensamentos: “A natureza nada me oferece que não seja meteria de duvida e inquietação. Se não visse nela o menor sinal de uma divindade, me decidiria pela negativa; se por toda a parte visse as marcas de um Criador, repousaria em paz na fé. Mas, vendo demasiado para negar e demasiado pouco para me certificar, encontro-me num estado digno de lástima ... Meu coração inteiro tende a buscar o verdadeiro bem para segui-lo; nenhum preço me pareceria excessivo em troca da eternidade”.

Contudo, a vida transcendente permanece envolta por um mistério impenetrável. O homem percebe a condição humana, segundo Pascal, na imagem de um grupo de condenados à morte que todos os dias assistem alguns dos seus serem degolados, e aos quais nada mais resta fazer que, vendo a sua condição e a de seus companheiros, aguardar com angustia e desespero pela sua vez.

Em Manhã transfigurada de Luiz Antonio de Assis Brasil, podemos notar justamente, o trágico da existência humana através da representação clara e vivida do sofrimento do homem perante o drama do seu ser considerado em sua finitude. Pois que sua efemeridade é ao mesmo tempo a razão de seu apego carnal e o acesso à verdade suprema.

O homem frente ao externo dilema dos prazeres terrenos ou glorias celestiais é a temática abordada. O mistério do destino humano é assim encarnado de modo vivo e loquaz em uma linguagem cheia de contrastes e rica em imagens, que se justapõem, do mais puro barroquismo.

A inovação do barroco, enquanto movimento, foi a descoberta do conflito interior da alma do homem. No entanto, ao explorar o dilaceramento do eu e a infeliz experiência da contradição interior do homem, Assis Brasil comprova a concepção de um barroco super-histórico, como tendência natural do homem, que transcende épocas, períodos e escolas.

O que podemos claramente notar é que a angústia e inquietação do homem frente ao mistério trágico do seu ser suplanta os tempos. E o barroco caracteriza-se pela manifestação do drama de consciência incitado pela morte, face ao enigma da existência.

Considerando que “a essência da Tragédia Antiga não era uma personagem ligada por um conflito a outra, mas o heroisolitário enfrentando o seu próprio destino ou representando até o fim o drama interior de sua própria alma” (KITTO), e que mesmo em Corneille ou Racine as situações trágicas se apresentavam através de um conflito interior em que o homem debate-se entre as relações antitéticas, então, constataremos que, de fato, o barroco em tudo se presta para a expressão do trágico. Isto porque se o trágico nasce “quando se destroia razão de uma existência, quando uma causa final e única deixa de existir” (STAIGER), o barroco, por sua vez, disseca o homem na angústia da fugacidade da existência. Trespassado pelo desespero frente à vida que flui, pela fragilidade da beleza humana que sofre a ação destruidora do tempo. Onde “o homem é um anfíbio, habitante do céu e da terra” e a morte a expressão suprema da efemeridade.

Toda a tragicidade da existência manifesta na literatura barroca se expressa de igual forma e conteúdo em Manhã transfigurada, no retrato, confissão dos contornos da alma conflituante do homem.

Os recessos e profundezas da interioridade do homem são revelados através de personagens que, à semelhança das de Corneille e Shakespeare, obedecem simultaneamente a impulsos contrários. Com isso colabora o apurado estilo do autor em que temos a alternância dos focos narrativos não só como variáveis do ponto de vista particular de cada uma das personagens e desvendar sua interioridade mas, também, e principalmente, uma análise do jogo conflituoso do ser e parecer, onde o disfarce e a máscara representam igualmente elementos da alma humana. Exemplo disso é a personagem feminina – Camila, que com voz disfarçada se insinua, negando e consentindo em ardilosa sedução. Assim, as personagens de Assis Brasil vacilam pendulantes entre os desejos da carne e as forças do espírito, no conflito intemporal da sensualidade e espiritualismo que bem refletem o homem em sua natureza: instinto e razão. Por vezes, tomadas pelo desespero desvendam, aos moldes das personagens de Dostoievski, experiências humanas perturbadoras em delírios que desvelam a faceta demoníaca do homem.

A personagem feminina surge na obra como elemento do trágico, pois desperta instintos de paixão carnal que eclodirão em transgressões às normas vigentes – a “hybris” da tragédia grega – uma vez que o desejo “leva os homens ao esquecimento das verdades divinas” e as “paixões são brutais ao afastar do reto caminho”. (1)

O elemento religioso adquire desta forma um papel significativo. Padre Ramiro, quando de posse da fé cega e dogmática contra o medo e a duvida, lança-se para o alto, pois não pertence “à comum espécie dos mortais”, erguendo-se “reto em direção a Deus”, tal qual as “torres da igreja alvejando um pedaço do céu”. (2) Isto porque o homem enquanto religioso se mantém harmônico com o universo, pois lhe são conhecidas as relações de causa e efeito das coisas, a origem dos entes. À semelhança dos rituais místicos do homem das sociedades tradicionais e arcaicas, faz as coisas “Assim como faz sempre” (3), onde “Tudo está como no preceito” (4)

Na crença dogmática tem sua “alma descansada, sem dúvidas, sem ameaças” (5), pois está posto “em profunda união com os mistérios da fé”, consumido pelo “dogma que sabe encerrar algo muito mais profundo que os sentidos revelam”. (6)

A figura de Camila, porém, transbordante de erotismo, coloca o mundo “sobre sustentáculos vacilantes”, pois instiga à “duvida”, a experiência nunca vivida de vacilação ante as verdades eternas” (7), que precisa ser abrasada com orações que dissimulem a ruptura imposta pela reflexão e conduzam o retorno à unidade com a natureza.


Nas imagens de Camila, dos santos, do incenso e dos cadáveres, Assis Brasil, sob a luz do barroco, delineia na ficção a crise da teologia cristã, que encara a vida como “uma preparação para a morte” (17). Nela, o homem enquanto carne, sofre as limitações espaço – temporais que lhe são impetradas em função da matéria de que é constituído e que está fadada a desfazer-se com a morte, visto que efêmera. E enquanto espírito, passível de transcendências, isto é, ultrapassamento da sua realidade carnal se se abstiver dos prazeres da carne. Na devoção espiritual o homem liberto da escravidão dos desejos encontrará a purificação de sua alma e, consequentemente, sua redenção.

Extremamente poderosa é a cena final. Pois mesmo sendo traçado o destino das personagens, a obra permanece em aberto, enquanto profundamente simbólica.


O incenso de onde “uma fina linha de fumaça adeja ainda” (18) é o único sobrevivente. Não poderia ser de outro modo. O impasse do homem não se resolve.
Assim, na representação simbólica, Camila é o cordeiro sacrificado, em que se transfigura a morte na consagração do espírito.

A intemporalidade do tema aliada ao aprimorado estilo do autor fazem de Manhã transfigurada uma obra a perpetuar-se.





  1. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Manhã transfigurada. Porto Alegre, L&PM, 1982, p. 13

  2. Idem, Ibid, p. 13

  3. Id., Ibid., p. 16

  4. Id., Ibid., p. 10

  5. Id., Ibid., p. 114

  6. Id., Ibid., p. 33

  7. Id., Ibid., p. 118.

Na antítese de imagens em que explora o sensorial, Assis Brasil joga elementos que irão sintetizar a problemática da existência humana. Evocando ora “a névoa perfumada do incenso” (8) que se ergue no ar; ora “o odor fétido dos cadáveres sob o assoalho” (9), “tisnando o ambiente com a sua presença reveladora de um mundo oculto, sem desejos” (10), “O destino de todos que a todos tragava. Tão perto, tão presente, tão inegável” (11), “que nos momentos mais sublimes da missa lhe lembrava a morte corporal, coisa terrível e odiosa” (12); ora “o cheiro dos santos, fechados em suas vidas de madeira e pano” (13), com “cabelos sem o brilho da vida, pregados a cabeça de pau” (14); ora Camila, “cheiros de vida e paixão”, “Um despejar de vida. Viço, juventude, alegria, perfumes terrenos, vestidos rocantes... a carne quente” (15), “emergindo entre as orações” (16), o pensamento obsceno despindo-a com lascívia.



  1. Id., Ibid., p. 22.

  2. Id., Ibid., p. 103.

  3. Id., Ibid., p. 33.

  4. Id., Ibid., p. 103.

  5. Id., Ibid., p. 17

  6. Id., Ibid., p. 102.

  7. Id., Ibid., p. 100.

  8. Id., Ibid., p. 99.

  9. Id., Ibid., p. 100.



Folha da Tarde, Porto Alegre, 30.abr.1983. Lazer/Utilidades, p. 2
A transfiguração em cena

Cecília Kemel

Com todo o conhecimento que lhe adveio de ter escrito seus romances anteriores (1), Luiz Antonio de Assis Brasil transborda, em Manhã transfigurada (2), numa narrativa amadurecida, uma narrativa que se ocupa do exame detido das personagens cujo perfil traça com extrema lucidez, procedendo como que a um corte longitudinal na personalidade de cada uma.


Fixando o tempo do narrado numa época de seu inteiro domínio (o início da colonização de Porto Alegre e arredores) e a atuação dos protagonistas em torno da paisagem e Viamão (mais precisamente a Igreja), Assis Brasil restringe o movimento do enredo a um tempo e a um momento interior. Examina com cuidado e capta com tino de mestre as manifestações emanadas do espírito da jovem Dona Camila. Mergulha fundo na alma feminina, de onde emerge senhor absoluto dos sentimentos, das crises, dos desejos e anseios que ali dormem, presos e silenciosos por vezes entorpecidos. Por outro lado, num segundo plano, embora com a mesma perspicácia, resolve os pensamentos e angústias do sacerdote, suas dúvidas da alma e sua tentações da carne.
Manhã transfigurada reflete o vendaval que varre uma alma de mulher, a descoberta de suas próprias arestas e a busca da transformação frustrada: “Tal como lá fora onde a chuva fazia cair fios de água e cristal, sua alma alcançava de novo o silencio e a quietude da noite (...) agora dispunha do que desejava, na tensão mesmo de escolher, não sendo levada pelos fatos da vida. Queria Ramiro, nada a impediria”, (p-109/110).

A par do motivo, por si só interessante, o autor utiliza-se da técnica do corte, sem necessariamente recorrer a memórias pessoais das personagens, o que torna seu escrito muito mais atraente. Assim, logo de início, após a primeira cena, há o grande corte e todo o enredo transcorre entre esse episódio e a última parte, onde somente então vamos reencontrar aquela primeira cena. Entretanto, há muitos outros cortes, pequenos, em que o autor traz uma a uma, suas personagens até determinado ponto. E dali novamente parte, sempre em direção à primeira cena, fazendo com o leitor um jogo de aguçar curiosidades. Completa-se o cenário com a linguagem utilizada, que permite a perfeita climatização do leitor transportando-o com naturalidade para a época em que se passam os acontecimentos.

É, pois, uma novela trabalhada e altamente sugestiva, escrita em quadros que se encaixam como um quebra-cabeça, para formar a grande imagem final, a de um tempo em que o moralismo condenou e a paixão avassaladora esmagou a ousadia de uma mulher.


  1. Um quarto de légua em quadro, 1976; A prole do corvo, 1978 e Bacia das almas, 1981.

  2. ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Manhã transfigurada. Porto Alegre, L&PM, 1982.


A Voz do Vale, Cachoeira do Sul, set.83, p. 4
Manhã transfigurada

Ely Costa Marciniak

MANHÃ TRANSFIGURADA é o quarto livro de Luiz Antonio de Assis Brasil. Nele ainda persistem, como pano de fundo, os elementos que enriqueceram os três anteriores: os centros de povoação do Rio Grande do Sul, os estancieiros e a milícia e onde a brutalidade dos homens é paralela à valentia e a vida das mulheres é a da reclusão e das quais a sensibilidade é sufocada por exigências e restrições.

O foco narrativo aproxima-se mais e mais da igreja até que se centraliza nela, tornando-a palco dos principais acontecimentos.

Mas o que é que nos prende tanto à leitura deste livro? Será a beleza que escorre de uma sensualidade dosada e exata? Será o mistério que mantém o interesse, através do vestido que está sendo costurado? A verbalização que inclui desde os giros de linguagem dos habitantes de Viamão naqueles distantes tempos, onde transparecem costumes e crendices? Ou a curiosidade com relação ao tratamento de um tema tão explorado e onde os valores impostos pelos votos sacerdotais são questionados à loucura?

Acreditamos que, no mosaico da colonização rio-grandense, tão antigo e tão novo como a vida, L.A. A. Brasil redescobriu o filão trágico, colocando, da maneira mais despojada, o amor e as imposições, tanto de uma moral social como as eclesiásticas que se abatem sobre as personagens sob formas irreconciliáveis. E nem faltou a dignidade auferida a Camila, pelo nascimento ou adquirida, no sacerdócio, por Ramiro e também a inocência perdida por Camila, ocasional e quase inconscientemente, ou conquistada por Ramiro através do amor de Cristo e dos Evangelhos.

A consciência do pecado explode do momento em que um agente (representando a estrutura social e opressora) torna evidente a quebra de um receito moral (a perda da virgindade) e desencadeia um processo demoníaco que envolve cada vez mais a heroína e vai, num crescendo, obrigar a quebra de outros preconceitos, agora os sagrados. Ramiro e Camila não podem, pelo posicionamento que adotaram, evitar ou recusar o movimento trágico para a catástrofe final que certamente os vai colher.

E não faltaram os avisos e augúrios: é a comunicação da escrava, é a manhã hibernal e cinzenta. Também os coadjuvantes – enquanto a escrava se torna quase uma projeção da ama, Bernardo, diferente de Ramiro, se abisma em sua própria fraqueza e atrai Ramiro para o vôo que não está além de suas possibilidades de homem mas sim da sua posição de detentor do puro, do verdadeiro, do justo e faz Ramiro crer, ainda que por momentos, na sua noite de agonia – que um coração tocado pelo amor ultrapassa o profano.

Bernardo realiza a sua destinação e precipitam-se na queda Ramiro e Camila. Esta, no derradeiro e ousado esforço de conciliação, apressa a catástrofe.

E, na Manhã transfigurada clama, no silêncio que se fez, somente a voz do coroinha – pureza que restou.

E, ainda, o fluir narrativo, que envolve e sugestiona, fortalece em nós a certeza da excelência de MANHÃ TRANSFIGURADA.


A Voz do Vale, Cachoeira do Sul, set. 1983, p. 6
Um triângulo instigante
Maria da Glória Bordini
Imaginem uma mulher recém-casada, que aguarda, em prisão domiciliar, a anulação de seu matrimônio. O marido, militar de posses e prestigio, descobre que ela não fora virgem ao leito de núpcias e esconde-a em sua casa da cidade, para que o escândalo não atinja sua estância e circulo de amizades. Acrescentem o escrivão da paróquia, moço letrado que acompanha os trâmites do processo canônico e presta serviços de sacristão ao pároco, e o próprio padre, uma cabeça esclarecida, que recebeu suas ordens em Roma e tem mandado para aplicar o Direito Canônico na região. De um clássico triângulo como esse só se pode esperar um numeroso caso de amor que, envolvendo padre e sacristão, promete ser melodramático, possivelmente maniqueísta ou anticlerical. Pelo menos, é o que seguido acontece nos romances de língua portuguesa, desde Alexandre Herculano e suas almas dilaceradas entre Deus e a carne ou Eça de Queirós e seus lascivos moralistas.
Pois esta novela de Luiz Antonio de Assis Brasil não sofre de nenhum desses lugares comuns. Em primeiro lugar cada personagem tem sua vez de falar e expor sua própria versão do que lhe acontece. Assim, os mesmos fatos – casamento e contragosto, escândalo, mudança para a cidade, segregação forçada, caso com o sacristão, paixão discreta do padre e o paroxismo final na missa das seis – são vistos por olhos de variada perspicácia e interpretados por corações e mentes fechadas em si, quase incomunicáveis por razões de natureza social. Esta forma de apresentar os acontecimentos lhe garante contornos imprecisos como aqueles que estamos habituados a perceber fora da ficção e acentua a verossimilhança da história, afastando-a da fórmula artificiosa do melodrama.

Em segundo lugar, utiliza-se um artifício muito hábil para aumentar a sedução das criaturas inventadas: o autor as deixa falarem, mas quase nunca diretamente. Há um narrador onisciente, neutro, que não emite julgamentos de nenhuma espécie nem reflete sobre nada. Sua função é melindrosa: distanciar cada versão com referencia ao leitor. Por esse meio, os eus que se confessam ou pensam não conseguem envolver emocionalmente aquele que os ouve. Cria-se uma barreira em torno de cada um, não só pela sua própria condição existencial, de encerrados, mas também por obra da voz do narrador. Este recurso, por outro lado, é mais um reforço para que a história conquiste quem a lê: permite que o leitor faça seus juízos, encontre suas explicações, participe da criação, enfim.


A tais fatos e figuras assim tornadas plausíveis adere um película de irrealidade imprevista. Embora não se mencione nada no texto, salvo o local, Viamão, a história desses amores sucede por volta de 1790, como se pode deduzir das informações históricas que nela aparecem. Uma pesquisa minuciosa nos papeis da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, daquela cidade, assegura à novela um cenário histórico fielmente reconstituído, que emerge nas falas das personagens, nos torneios de suas frases e no vocabulário, nas precisas descrições dos lugares e objetos, especialmente os relacionados com as alcovas e o ritual preparatório da missa, este importante não apenas em si, pela beleza hierática que nele se instala, mas também pela marca do rito sacrificial que a história implica.
Este cenário exerce uma dupla tarefa. Uma é a de escrever a História da pequena sociedade ainda açoriana que centralizava a vida do Estado do Rio Grande do Sul nos fins do século XVIII, com seus usos urbanos semipastoris e padrões sociais patriarcais, em que a mulher é a escrava do homem e o escravo é menos que a mulher, e em que importa mais a exploração do gado, a aquisição e exibição de riquezas e a conquista de um lugar político que qualquer consideração de ordem afetiva.
A segunda tarefa é a de realçar as qualidades singulares dos autores da outra história: a de uma mulher jovem a bonita, que busca realizar a sua feminilidade pelo amor físico e pela liberdade do espírito, uma leitora de poemas arcádicos presa entre os muros desse ambiente tacanho, ávida por tomar as rédeas da sua vida, sem perceber, entretanto, na sua espontaneidade primitiva, que não pode derrubar os quadros vigentes só com a força de seu desejo feminino. Compondo-se a ela, o padre é aquele que não só conhece os muros, mas também o destino das paixões, o que lhe confere uma ascendência entre os amantes que o sacristão não possui, imprensado entre o que deseja e o que lhe escapa: o corpo e Deus, a vida eterna e a morte, a podridão e o sublime.
O efeito de distanciamento operado pelo fator tempo – espaço é justamente o que torna as relações entre as personagens e o leitor tão poderosas. Radicaliza a solidão de cada um, colocando-os numa época de separação enorme entre civilizados e rudes, senhores e oprimidos, cultos e incultos, e ainda os afasta do presente familiar àquele que lê, revestindo-os de outra camada de segregação, a de pertencerem a um tempo perdido e pouco compreensível, apesar do acontecimento histórico proporcionado, um tempo de colunas abertas, onde a imaginação pode submergir.
Aliás, o jogo de luz e sombra a que aspira o titulo da obra (homenagem indireta a época de Schonberg?) também contribui para essa atmosfera nebulosa predominante. Estende-se por toda a história, a vários níveis simbólicos: claridade para o dia e suas esperanças, para a madrugada e suas promessas, para a reflexão racional, para a alegre afetividade, para a entrega livre do corpo; treva para a noite e seus ardores, suas dúvidas e tormentos, para o ciúme e o ódio crescendo às caladas, para o desejo culposo e aflito, para as tramas e violências, para os cadáveres apodrecendo sob o altar de Deus.

A luz, porém, é enganadora, assim como a treva. Não há na história sentimento ou ação que não conviva com seu oposto e que não se transforme, gerando os repentes de onipotência e de insegurança que eclodem a cada episodio. Dessa forma, mesmo prevendo o desenlace, o leitor é obrigado a prosseguir, instigado pelo desenho irregular das ações de cada figura, que se torna simétrico e equilibrado só pela repetição das várias versões das cenas, a qual provê a continuidade rítmica necessária para que ele não desista do percurso.

Nesse entrejogo de geometrias e tensões, esta novela de Assis Brasil aperfeiçoa o talento narrativo do autor, já demonstrado em Um quarto de légua em quadro (1976) e Bacia das almas (1981). Aqui, como lá, e numa obra como A prole do corvo (1978), a História se faz história, fala e criaturas se fundem e ganham poder de interpretação de nosso passado sulino. Nesta MANHÃ TRANSFIGURADA, sobretudo, essa matéria histórica, antes muito visível, se esfuma e sustenta sub-repticialmente a ficção, transcendendo o meramente regional. Há na história de Camila mais do que uma visão sociológica. Afora um certo bovarismo, uma insaciedade feminina talvez um tanto exagerada para a época, parece mais significativo um sopro primitivista, de uma sociedade em formação, feito uma trevosa Idade Média romântica, de pesados templos e estreitas clausuras, onde se preserva e se oculta um saber pagão, persistente sob o tremendo temor de Deus, enquanto lá fora se luta por terra a sangue e espada.
Correio do Povo, Porto Alegre, Letras e Livros, p.4

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