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Manhã transfigurada


Ligia Militz da Costa


Um caminho fascinante para o exercício de uma leitura critica do texto literário é o que investiga a força do mito e das crenças sobrenaturais, como vertentes temáticas para a criação em prosa e verso, na literatura de todos os tempos. As crenças sobrenaturais próprias da espiritualidade do homem, tradicionalmente expressas nas verdades religiosas, fazem parte intensa das referencias externas e intertextuais de que os autores se utilizam, para criar o seu universo ficcional e poético.

Publicada em 1982, a obra Manhã transfigurada exemplifica, na literatura brasileira e rio-grandense, a permanência de uma vertente temática mítica, que tem atravessado o tempo da história, dentro da literatura: a questão do celibato sacerdotal. Com essa obra, seu Autor, Luiz Antonio de Assis Brasil, revitaliza contemporaneamente, o tema do sacerdócio e de suas proibições sacramentais, incluindo-se numa série literária de língua portuguesa, da qual participam escritores de envergadura de Alexandre Herculano (Eurico, o presbítero, 1844), Eça de Queirós (O crime do Padre Amaro, 1875) e Machado de Assis (Dom Casmurro, 1900).

No Brasil, também o período romântico abrigou a produção de uma obra em torno do celibato sacerdotal, no ano de 1872: trata-se de O seminarista, de Bernardo Guimarães. Dois jovens, Eugênio e Margarida, de diferentes classes sociais, criados juntos na infância e desde sempre apaixonados, são afastados, um do outro, pela imposição do seminário ao rapaz. A situação é exposta como uma violência aos jovens e a historia acaba explodindo num fim trágico para os dois, mostrados como vitimas da organização e dos valores sócio-culturais: Margarida morre de sentimento, porque perdeu irremediavelmente Eugênio, transformado em padre; Eugênio enlouquece, arrancando de seu corpo os pagamentos, no momento em que a primeira missa que estava rezando como padre, transforma-se em missa fúnebre, com a chegada do corpo morto de Margarida, sua amada.

Na literatura da atualidade, Manhã transfigurada é uma narrativa que retoma o tema religioso em pauta, culminando com um desenlace trágico, dentro de um espaço sagrado, que é a Igreja de Viamão.

Uma diferente recorrência mítica aparece na obra, entretanto, como suporte para o desenrolar dos acontecimentos descendentes dos casais açorianos, a narrativa alterna situações temporais, armando coerentemente as ações e os desejos extravagantes de Camilo e denunciando, nas entrelinhas, a agressão de uma realidade sem espaço para uma mulher menos submissa à dominação geral. O uso erótico do corpo, por ela, aparece como a única saída para experimentar a afirmação de uma individualidade real do ser humano, desprezível de resto, para todos os desempenhos significativos, considerados da competência do homem. Por aí se tornam explicáveis as relações de Camila com Bernardo, sacristão pobre e desajeitado, ridículo até, como também se explica a paixão/admiração dela pelo homem mais culto e intelectual do lugar: o Padre Ramiro.

Se a personagem principal dessa história dramática é Camila, a força maior da narrativa parece residir na indagação reflexiva de Ramiro, acerca do sacerdócio, dos sacramentos da Igreja e das verdades religiosas, que impõe limites à vida de um homem e reduzem seu direito de questionar. O sacerdócio é o grande tema posto em questão em Manhã transfigurada, e de maneira renovada e contundente.

A partir daí, o questionamento da submissão pode ser considerado como a mola propulsora do desenvolvimento da obra, seja pela dominação sofrida pela mulher, marginalizada numa sociedade que privilegia direitos masculinos, seja pela repressão do próprio homem, em meio aos cânones religiosos.

No plano da construção verbal, o livro mostra que os produtos da criação literária não independem do conhecimento técnico, para terem qualificação. Luiz Antonio de Assis Brasil elabora seu texto com um cuidado artesanal até os mínimos detalhes, não deixando de incluir, por um lado, elementos próprios aa região sulina.



A Razão, Santa Maria, 17.set.1987

AS VIRTUDES DA CASA

Uma narrativa densa, que revela um autor maduro

Antônio Hohlfeldt

Não é esta a primeira vez que Luiz Antonio de Assis Brasil conta uma história de amor. Desde seu livro de estreia, Um quarto de légua em quadro, ele vem se ocupando de encontros e desencontros. O que muda, substancialmente, dos primeiros livros pra cá, é que antes tínhamos uma clara preocupação com a formação de um painel histórico, ao contrario de agora, onde a perquirição psicológica e sobretudo o exercício estilístico ganham notoriedade. No caso de As virtudes da casa, especialmente, estes dois elementos aprofundam de tal maneira a permitir a realização, por parte do escritor, de seu livro mais bem acabado, mais complexo, mais ajustado, onde todo e cada detalhe compõe parte importante da narrativa a que se propôs.


A narrativa, ainda aqui, é uma história de amor: um viajante francês, no século XVIII, chega à Estância da Fonte, domínio do coronel Baltazar Antão. Primeiro a filha Isabel, depois a esposa Micaela, envolvem-se com o visitante, e no segundo caso, com consequências bem mais desastrosas. Em meio às duas mulheres, Jacinto, aleijado, querendo defender a irmã e titubeante em afrontar a mãe. A narrativa se complica nos sentimentos avesso da filha pelo pai, das difíceis ralações deste com o filho, dos desejos censurados do rapaz pela mãe, ou da repulsa entre as duas mulheres. A chegada do francês, Félicien, tudo precipita e revela na ausência de Baltazar Antão que, ao regressar, envolvido na trama que afinal lhe é fatal.
Se o estilo é a difícil linha curva através do qual o verdadeiro artista exercita sua sensibilidade, Assis Brasil realmente atinge aqui o Maximo de sua literatura. O panorama histórico está esboçado com precisão suficiente para sugerir e justificar as ações: o gado transportado para São Paulo e Minas, a partida para a guerra contra Artigas, o domínio de Rio Pardo, próximo á qual se acha a Estância da Fonte.
O conjunto de personagens é extremamente econômico: Micaela desponta sobre todos, pois na verdade é em torno dela que se concentra e desenvolve toda a ação, seja a partir dos filhos, aos quais o narrador dedica os dois primeiros capítulos, seja a sua descoberta pelo francês. Por isso mesmo, na construção do clímax da obra, Micaela é o alvo do terceiro capítulo, embora se insinue nos dois anteriores. E é ela quem, nas adivinhações e nas sugestões que surgem dos dois personagens visitantes, o Padre Simas e Felipe de Andrade, comanda as trágicas ações do capitulo final.
Luiz Antonio de Assis Brasil organiza uma narrativa densa, valendo-se do estilo indireto livre, sem dialogo aparente. O enredo gira, na verdade, em torno de um único fato, resumível em poucos parágrafos, mas aprofundado, labirinticamente, em meandros, saídas e nichos que jogando num claro-escuro permanente, às vezes aparente, mas nem sempre, vai avançando com cuidado na trama. O narrador jamais é explicito – as antecipações, a figura do destino, o simbolismo, os sinais, marcam todo o texto. Cada objeto, por mais insignificante que seja na aparência descomprometida, tem um papel especifico, logo depois revelado. Não se trata apenas de configurar uma época onde certa ação decorre. O narrador recria cultural e vocabularmente este tempo, seja atreves dos valores morais e dos complexos levantados, seja no detalhamento das palavras que rodeiam cada figura. Ao movimento de uma personagem corresponde movimento contrario ou complementar de outra: Isabel, ao descobrir o amor, extravasa-se na luz, enquanto a mãe pena na penumbra. Mas Micaela, ao sair para a claridade, joga a filha nas sombras, ofuscando-a. Jacinto esgueira-se permanentemente no lusco-fusco do entardecer, incapaz de assumir postura definida. Da mesma forma o francês, que se espraia nos alvoreceres, luz matinal que invade a todos que dele se aproximam. Baltazar Antão, o sol pleno, recebe no peito a sorte que lhe haviam traçado. Como os grandes heróis trágicos, cai de borco, impávido mas absolutamente indefeso.

Desde o titulo As virtudes da casa, Luiz Antonio de Assis Brasil joga com a ambiguidade e o duplo sentido. Isso porque as referidas virtudes tanto podem ser visualizadas, ironicamente, como as características positivas da propriedade (personalizada em seu proprietário, Baltazar Antão), quando, traduzidas enquanto “propriedades”, aplicam-se diretamente às personagens, e neste sentido antecipam a tragédia da qual nenhuma delas pretende ou pode escapar. Neste sentido, a morte do proprietário nada mais faz do que concretizar o que, na prática, já deixara de existir: a casa, enquanto instituição. Neste sentido, o novo romance de Luiz Antonio de Assis Brasil coloca-se visceralmente contrario à narrativa clássica de Homero, em que se exaltam as virtudes da digna esposa, Penélope, à esposa do valoroso guerreiro e marido, Ulisses. Naqueles tempos heróicos tal poderia ocorrer, jamais, contudo, em tempos de rebelião, de mudança, de derrocada como aqueles escolhidos pelo escritor para panorama de sua narrativa, metáfora dos dias atuais. Eis porque ganham, na literatura de Assis Brasil, as modificações dos humores das personagens, um peso tão grande e uma significação tão decisiva.


Gazeta Mercantil, Porto Alegre, 09.abr.1985. Livros, p. 3.
Assis Brasil lança As virtudes de casa

Carlos Appel


Ele veio crescendo devagar, sem os alardes costumeiros da sociedade de consumo, que tudo permite, mas a tudo devora e tritura. Assis Brasil superou esta situação. Seus romances já se firmaram no conceito do grande público leitor, jovem e adulto, e não fica restrito aos elogios da crítica literária apenas. Conseguiu muito cedo essa congregação, sendo admirado nas duas áreas por Um quarto de légua em quadro, onde analisa os problemas da colonização açoriana, com uma perspectiva já invulgar e uma segurança que supera de muito os limites dos estreantes; em seguida, apareceu A prole do corvo, em que faz uma análise dos dois últimos anos da Revolução Farroupilha. Sua visão de época, afora os aspectos ficcionais, seriam assinados pelos nossos melhores historiadores. Bacia das almas vai completar a imagem da campanha de épocas passadas. Seu quarto romance é Manhã-transfigurada. Agora, lança seu mais novo e ambicioso romance, As virtudes da casa (Mercado Aberto), que marca a volta à campanha, à estância. Ali transcorre a história. Assim como Saint-Hilaire e Arsène Isabelle andaram pelos campos do Rio Grande, por vários anos, um dia chega à Estância da Fonte, em Rio Pardo, um francês? Ali vivia um estancieiro com a mulher, filha e os costumeiros agregados da estância. O francês, de cabelos dourados e olhos azuis, com um corte romântico e aventureiro, chamado Félicien, fica ilhado por uma grande enchente. O mesmo havia acontecido, de fato, Saint-Hilaire.O estancieiro andava guerreando contra Artigas, longe da Estância da Fonte. Félicien configura, no porte, nas maneiras e no comportamento, um típico representante da civilização europeia: é o homem culto ante um mundo primitivo. Félicien passa a se constituir no fator de perturbação no mundo pacato e fechado da estância. Mãe e filha se apaixonam pelo francês, o que estabelece um convívio conflitado e rompe a estabilidade da Estância da Fonte. Os amores, sem perspectiva e sem futuro, desvelam um mundo insuspeitado de grandezas e misérias e a tragédia é eminente. Estas vidas e fatos sinalam uma grandeza perdida. Diz Assis Brasil: “hoje temos um homem sem grandeza, envolvido com o seu BNH, a sua caderneta de poupança e a sua sobrevivência da forma mais mesquinha, tendo perdido o sentido do trágico e do grandioso. A minha ficção, e este romance em particular, é uma tentativa de recuperação da grandeza do homem e da mulher primitivos que povoaram escassamente o imenso Continente de São Pedro”.

Desde já, As virtudes da casa pode ser visto como um dos lançamentos mais importantes da ficção brasileira de 1985. Em breve faremos uma segunda e mais detida leitura deste romance.



Universitário, Porto Alegre, abr.1985, p.02

A virtude do sul
Jorge de Sá
Um romance feito de novelas, ainda que não haja independência das partes. As contrario: Isabel, Mas os deuses estão vivos, As dores e as frutos e Os mistérios da Fonte compõem um todo inseparável amparado por um equilíbrio familiar que parece bastante sólido. Mas no momento em que o coronel Baltazar Antão viaja para enfrentar a guerra, entra em cena um estrangeiro. E o equilíbrio se desfaz.

A síntese diz pouco. As virtudes da casa é o quinto romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, gaúcho de Porto Alegre, 1945. Depois de Manhã transfigurada, o que se poderia esperar dele era exatamente um trabalho de fôlego, densa narrativa que desmascara desejos amorosos e o duelo que existe, latente, entre Isabel, jovem mais ainda inexpressiva, e sua mãe Micaela, madura e sensual, capaz ainda de arrebatar corações. A chegada de Félicien, o naturalista e literato francês, cumpre a sugestão do seu nome. Isabel e Micaela conhecem o gosto da felicidade, porém logo pagarão o alto preço desse aprendizado.

Provocada a rachadura do teto da família virtuosa, a estância da Fonte começa a jorrar suas águas poluídas. Jacinto e seus complexos edipianos, a relação entre senhores e escravos, o fascínio de uma nova cultura – tudo contribui para que o jogo erótico se misture ao jogo da morte. E narrado de tal forma que o leitor – apesar de uma extensão às vezes desnecessárias se sente cúmplice do narrador, à espera dos acontecimentos. Mesmo quando o texto se vê ameaçado por um clímax que não acontece. Sem explicações, o narrador segue seu curso. A narrativa, apesar da ausência de um esclarecimento, mantém o seu fascínio. Porque a linguagem de Assis Brasil é firme, constroicom segurança as diferentes atmosferas que embalam os sonhos e desenganos dos personagens. Enfim, porque As virtudes da casa tem a virtude do Sul, sem perder-se em regionalismos, recompondo um bonito painel de nossa gente.
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20.abr.1985. Caderno B, p. 9

Virtudes e virtuosismos, no melhor sentido

Leda Rita Cintra Ferraz

O Rio Grande do Sul do século passado, longínquo, remoto, isolados por suas grandes extensões e suas águas na época das chuvas, vitimas do minuano que enerva as pessoas, é novamente revivido por Luiz Antonio de Assis Brasil em seu último romance, As virtudes da casa 387 páginas (editora Mercado Aberto).

Novamente, mas não de forma repetitiva, Assis Brasil, sobre quem recaem as responsabilidades do texto, jamais se permitiria tal descuido ao narrar, como autor onisciente, a história do coronel Baltazar Antão Rodrigues de Serpa, dono da estância da Fonte e de sua gente: peões, escravos, criadas, o frágil filho Jacinto, deformado por uma paralisia, a belíssima mulher Micaela, a filha Isabel, para quem o pai era “o sol de sua vida”.

Tudo isso num tom perpassado de poesia, que esconde o desencadear violento de paixões, ódios e desatinos que animam os personagens; como a estância da Fonte, em sua majestosa e tranquila beleza esconde os terríveis acontecimentos e mistérios que abalam seus moradores.

Dono de um estilo e de uma técnica raros, Assis Brasil reina soberano sobre sua criação e nunca dela se afasta, como afasta seu coronel Baltazar Antão de suas mulheres, responsáveis pelas “Virtudes de casa”, deixando-as desprotegidas quando parte para mais uma luta na banda Oriental, contra o uruguaio Artigas. Nessa última ausência, acontece o inesperado – que traz o novo e o desconhecido – na figura de Félicien, o francês, com sua pele clara, seus olhos azuis, seus cabelos cor de trigo maduro, cor de mel, tão diferente da gente conhecida da Fonte, com seus presságios, seus cabelos e pele escuros.

Aí se mostra por inteiro a ironia do autor, que faz Baltazar Antão exclamar, ao saber da chegada de pessoa recomendada pelas autoridades: “Para o francês, o melhor”.

Micaela, sua mulher linda e jovem, cede, pois ao francês, dando-lhe o que de melhor havia na estância.

“Estância grande, essa do coronel Baltazar Antão” – diz Gabriel de Simas, padre engajado pelo coronel como capelão da fazenda. “De longe, parelhos e uniformes; perto, mostravam possuir as mais surpreendentes diferenças, não eram um só...”

Estranho autor, essa Assis Brasil que retoma preceitos da narrativa romântica e os vira a seu favor, os faz trabalhar em perfeita consonância com seu texto e seus personagens.

Um texto feito de virtudes e virtuosismo que vão desde o mais evidente, como o autor onisciente, até extremos como o de nunca chamar Micaela de nona, indício de sua mocidade. Micaela é, sim, a Dona – de tudo o que se move na Fonte: pássaros, animais, escravos, Jacinto, a filha Isabel, fraca diante de tanta formosura, argúcia e força, o coronel Baltazar Antão, reto e justo que se deixa enredar pelas manhas da mulher. Só uma coisa lhe deixa escapar: Félicien que a despertou os prazeres da carne. Esse, Micaela deve perder. Ao crime do adultério sucede o castigo e, numa penada de gênio, o autor escapa do castigo tradicional do romance romântico: o amante despreza Micaela, olha-a com desdém, nem no céu serão felizes. Félicien é realmente o novo, a ruptura com o tradicional, o romântico, com os hábitos e costumes.

Assis Brasil, porém, vai mais longe, ao apequenar criadas e escravas, quando acrescenta a seus nomes próprios o artigo definido, que designa as coisas: a Piana, a Florência. Ou ainda quando insiste nos olhos dos personagens até a máxima sartriana: os olhos que nos observam nos objetivam, objetivando nossos sentimentos. Assim, os olhos do francês objetivam a fragilidade de Jacinto, os amores desinteressados de Isabel e o ardente apetite de Micaela.

Ou ainda quando move o foco narrativo com a rapidez de um canhão de luz e o faz incidir cada vez sobre um dos personagens: Isabel, Jacinto e Micaela que, presos à estância como em uma jaula em que se desenrola uma luta feroz, narram, cada um sob sua ótica, os acontecimentos num vai-e-vem da história que ajuda a decifrar essa exploração psicológica dos personagens. Dessa luz incisiva, que expõe as estranhas dos outros, apenas Baltazar Antão se vê livre – o personagem é sempre narrado em terceira pessoa. Como se o próprio autor recuasse diante de tanta retidão, poupando seu personagem maior, num último recurso que prova, mais uma vez que, quando se fala de virtudes e virtuosismo na obra de Assis Brasil, é no melhor sentido.


Jornal da Tarde, São Paulo, 23.abr.1985, p. 25
A confirmação de um grande escritor
Sérgio Faraco
Depois de sua Trilogia dos Mitos (Um quarto de légua em quadroA prole do corvoBacia das almas) e de Manhã transfigurada, bibliografia respeitável que já lhe garantia destacado lugar no moderno romance brasileiro, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (Porto Alegre, 1945) convoca seus leitores para outra aventura nos domínios da ficção com As virtudes da casa, volume de quase quatrocentas páginas. Mas vá o leitor debruçar-se no livralhão: dificilmente o larga, e se o faz mantém o coração em suspenso, mal podendo esperar a hora de novamente abeberar-se nesse caudaloso manancial de emoções.

Em As virtudes da casa, Mercado Aberto, 1985, Porto Alegre, Luiz Antonio de Assis Brasil narra as vicissitudes da família de Baltazar Antão, Coronel de Auxiliares e titular da Estância da Fonte. Vai em meio a guerra contra os castelhanos de Artigas, e o Coronel, veterano de outras correrias a serviço do rei, não consegue e nem quer ignorar o entrevero. Arregimenta seus homens e parte para a guerra, unindo suas forças às do General Lecor.

Para a família de Baltazar Antão, Micaela, sua mulher, Jacinto e Isabel, seus filhos, também para a criadagem e a negrada, a ausência do Coronel é um transe suportável, porque já experimentado noutras épocas. Um fato novo, porém, vem alterar essa atmosfera de respeitosa saudade. Estava prevista a chegada à estância de um naturalista francês, recomendado pelo Capitão-General do Continente de São Pedro, e a ordem do Coronel era recebe-lo com a principesca marca da hospitalidade sulina. Tendo parido o dono da casa, chega o estrangeiro, que é relativamente jovem, atraente, além de culto e possuidor de hábitos requintados. É uma nova ordem cultural que se instala na Estância da Fonte, sedutora e quase irresistível para os que vivem os costumes feudais do continente, fechados, repressivos. A presença do francês, então, deflagra violentos processos de mudança nas relações interpessoais, fazendo aflorar todos os componentes das paixões desenfreadas, como a audácia e o medo, a crueldade e a suspeita, o desejo e a culpa, o langor e a sensualidade – o fogo da vida que antes era mortiço como as lanternas de Isabel e agora fulgura como as lamparinas de Micaela.

Para Jacinto e Isabel – Édipo e Eletra perdidos nos esconsos continentinos, atraídos pelo visitante e ao mesmo tempo cativos da velha ordem de cultura – o francês é quase um Diabo; para Micaela, quase um Deus, impressão nebulosa que ela vai expressar claramente num momento de desespero. No auge dos conflitos, quando se mostram as profundas brenhas da alma humana, toma corpo um ritmo narrativo onde as emoções vão porejando folha a folha, até o desfecho que se torna inevitável e que quer preservar, com alto custo e ainda que só na aparência, as ‘virtudes da casa”. Em última instância, sobrepondo-se às individualidades, o que está em jogo é a auto-suficiência do feudo, a resistência de uma casta social prestes a desaparecer e que se agarra com unhas e dentes (a energia do desespero, diz Plekhanov) às suas tipicidades mais agregadoras. Nesse particular, agiganta-se o perfil revolucionário de uma admirável mulher, disposta a tudo sacrificar em nome de sua descoberta da vida.

Aspecto que merece registro á a estrutura perfeita que articulou Assis Brasil, dividindo o romance em quatro novelas, cada uma das três primeiras correspondendo à visão que tem dos fatos um dado personagem, e adotando na última um procedimento diverso para precipitar o ajuste de contas. Essa estrutura aproxima As virtudes da casa da concepção que Lawrence Durrell deu ao Quarteto de Alexandria, com a diferença de que no livro de Assis Brasil há um encadeamento tal que o leitor, ao findar uma novela, já está envolvidos pelos sucessos da seguinte.

Cabe destacar também que tais temas e estruturas se desdobram em linguagem tão elaborada quanto é natural e adequado o seu resultado, transportando o leitor, sem que o sinta e mesmo que lhe faltassem outras referencias temporais, á quadra extra em que se passa o romance.



As virtudes da casa é o livro que não se pode deixar de conferir, sob pena de faltar-se com a melhor literatura brasileira. É daquelas obras cuja leitura acrescenta uma porção de vida às nossas vidas e que nos tornam mais possuidores de dons humanos, mais perto da compreensão da alma e de sua trajetória nos caminhos contingentes da História. Não é a revelação de um escritor, este já está pronto e é reconhecido, mas a confirmação de que Luiz Antonio de Assis Brasil é uma das mais altas vozes do romance americano. Não lhe falta nada. Ou por outra: falta apenas que a castelhanada o descubra.
Suplemento Literário Minas Gerais, Belo Horizonte, 22.06.1985, p. 10.
As virtudes da casa
Virgínia Almeida Rosário
Assis Brasil situa a história que conta em As virtudes da casa, no Rio Grande do Sul do início do século XIX. O livro começa com a parida da personagem Baltazar Antão que decide lutar contra Artigas, deixando sua estância para auxiliar na invasão da Banda Oriental, o que resultará na anexação desta com o nome de Província Cisplatina. À época, chega á estância de Baltazar Antão, como hóspede, o francês Felicien – personagem que representa o pesquisador Augusto de Saint-Hilaire.

Traçam-se, então, as relações amorosas entre Felicien e Micaela, esposa do ausente Baltazar Antão. Instaura-se assim, o conflito familiar, já que os dois filhos dos donos da estância, Isabel e Jacinto, repetem o relacionamento da mãe com o francês.

De maneira subjacente, Assis Brasil introduz, no texto, Édipo e Eletra que forjam as ligações entre as personagens de modo que se acentuem as relações paralelas entre filho e mãe e entre filha e pai.

Percorrem o livro, além destas personagens, os escravos, os peões, e as escravas, peonas. Uns e outros engrossam a massa dos comandados, prestando serviços à manutenção da grande propriedade, quer no trato da terra ou do gado, quer na formação das imensas fileiras dos exércitos, chefiados pelos fazendeiros.

Porém, o que merece destaque em As virtudes da casa é a retomada da história da mulher gaúcha do passado para qual o autor dá um enredo próprio, resgata seu papel de personagem atuante – não raramente, principal – e estabelece a ruptura com a convenção de que a história da mulher se fazia à sombra da história do homem.

Nesta obra, Assis Brasil traz também à tona a mulher escrava, menos para expor a cumplicidade desta com a senhora, como acontece em Manhã transfigurada – obra anterior do autor – e mais para mostrar o servilismo ou regozijo em face da decadência da estrutura familiar dos patrões.

Se, por um lado, o autor mostra que à senhora de escravos não cabe a gerência dos bens materiais, por outro lado desvela a tentativa do rompimento feminino com a função secundária que lhe é outorgada. Neste sentido – Micaela, principalmente, e Isabel, em menor grau – em incluir-se como mais uma das posses do homem – no caso Baltazar Antão.

É Micaela quem leva às últimas consequências a sua procura de libertação. E consegue-a. Se, em Manhã transfigurada, a obra conclui com a morte, como punição ao prazer, em As virtudes da casa, a conclusão se dá com a conservação da vida, mesmo que para tanto seja necessária a morte do dominador, como forma de manutenção do poder.


Campeador, Alegrete, 11 a 17.jul.1985, p. 9


Família unida na reza e no ódio

Um bom romance longe dos antigos clichês

Francisco Maciel Silveira
Sondagem psicológica – Porto-alegrense, quarenta anos, advogado, Luiz Antonio de Assis Brasil dedica-se atualmente ao magistério universitário, além de ser diretor do Instituto Nacional do Livro no Rio Grande do Sul. Para a trilogia dos mitos rio-grandenses (Um quarto de légua em quadro, A prole do corvo e Bacia das almas) buscou matéria em nossa história. As virtudes da casa, que chega agora às livrarias, trilha o ruma da sondagem psicológica, inaugurada em Manhã transfigurada.

As vinte primeiras linhas – Um francês. Um francês? todos inauguram ao mesmo tempo do pai, que exibia uma carta floreada, com sinete de armas em brilhante lacre. Sim, temos um francês em casa, chamado Felicien de Clavière, disse o pai, pousando o papel sobre a mesa. Um francês vagamundos, metido a homem da ciência, dizem que junta todas as plantas que encontra pela frente. E os bichos também, principalmente as borboletas, que mete espetadas numa caixa. Traz um soldado e um escravo, cedidos pelo Capitão-general do Continente; deve ser muito ilustre, senão não lhe davam tanta honra, essas coisas não são comuns; decerto é maçom igual ao Capitão-general, eles se amparam muito. Mas vamos prestar ao estrangeiro toda ajuda, e que possa juntar suas plantas em paz, para que sai falando bem da estância da Fonte; não seremos nós que vamos desfeitear o homem, isso pode chegar aos ouvidos do Capitão-general, e nos desmerecemos sem necessidade.



Micaela ruborizou-se, perguntando ao marido qual o quarto dariam ao francês. O Coronel Baltazar Antão pensou um pouco e disse que cederiam o quarto da torre, o melhor e mais amplo, o quarto de Jacinto.
As virtudes – a chegada dum visitante que, trazendo à tona desejos inconfessáveis e reprimidos de mãe, filha e filho, subverte a santa paz familiar, pode soar ao leitor como eco do Teorema de Pasolini. Mesmo que soe, prossiga. As virtudes da casa hão de recompensa-lo. Entre elas incluem-se os dotes nativos de Assis Brasil. No século XVI, um português de nome Antonio Ferreira dizia “dos que sem saber escrevem, o mundo é cheio”. Para a felicidade geral dos leitores, não é o caso de Assis Brasil. Maneja com habilidade o enredo. Sua prosa confere ao relato a dignidade trágica de que ele e seus personagens precisam. O ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica gaúcha acompanha, com tom adequado, os lances de uma trama enriquecida pela analise de Micaela, Isabel e Jacinto – trio sobre o qual se ergue o conflito. Aliás, enquanto o drama se prende à óptica dos três, o autor consegue manter uma densidade louvável, afrouxada apenas na parte final (“os mistérios da Fonte”), quando Assis Brasil precisou introduzir dois novos personagens para mergulhar o desfecho da tragédia em sombras enigmáticas.
Os pecados – é verdade que o esmiuçamento psicológico arrasta o enredo, comprometendo um pouco uma das virtudes do livro, que consiste em criar tensão e suspense ao fim de cada parte. A expectativa do leitor, sob o perigo de diluir-se com a mudança do enfoque narrativo, talvez exija uma precipitação, maior dos acontecimentos. Por outro lado, o titulo, á luz do enredo de incesto e adultério, ganha dimensões irônicas que o discurso não consegue vibrar.
Juízo final – os reparos não chegam, todavia, a desmerecer o livro. Assis Brasil tem uma história a contar e sabe contá-la. Sabe inclusive, gratificar a tenção de quem o leia, fugindo a um desfecho que o desenrolar dos fatos tornava demais previsível. E que, se ocorresse, empobreceria o livro, reduzindo ao chicle maniqueísta da vitória do bem sobre o mal. O epílogo que Assis Brasil propõe tenta resgatar o travo irônico contido no titulo: uma família que odeia e reza unida, permanece unida, acompanhando o féretro dAs virtudes da casa.
Visão, São Paulo, 10.jul.1985, p. 65
Romance gaúcho
Wilson Martins
Há coisas incompreensíveis e inacreditáveis: que um excelente romancista com Luiz Antonio de Assis Brasil (As virtudes da casa. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985) possa ocasionalmente cometer os mais elementares erros de português e que um romance de alta qualidade literária seja apresentado com capa de pruriente subliteratura são incongruências ao mesmo tempo insignificantes e imperdoáveis, que certamente dizem mais a respeito das letras contemporâneas no Brasil do que gostaríamos de admitir. O mais curioso é que o autor escreve brilhantemente, tanto no que se refere à elegância da frase quanto nas notações narrativas e no desenho dos caracteres; soube estruturar solidamente a intriga no desenvolvimento dos episódios e no harmonioso equilíbrio dos blocos narrativos; inseriu o drama psicológico num largo contexto de história e paisagem, costumes e tipo de civilização. Nessas coordenadas, pode se dizer que os seus livros anteriores foram meros exercícios de solfejo.

A história e a paisagem, os costumes e seus exotismos peculiares, aqui concorrem, entretanto, apenas para fornecer o toque de realismo indispensável a essa tenebrosa tragédia psicanalítica dos pampas; críticos rabujentos poderiam, mesmo, desconfiar de algum anacronismo e até de uma ou outra inverossimilhança, como, em certa cena crucial, o champanha quente que o francês refinado seve à amante numa alcova da estância (pode-se ver nisso a contaminação involuntária dos filmes americanos, nos quais o vinho borbulhante é a metáfora por excelência do prazer, se não do pecado, ou de ambos). Mas, é evidente, por outro lado, que o autor fez as leituras a respeito da época, como se percebe através das discretas alusões a personagens históricas e, em plano por assim dizer plástico, ao criar a figura do “negro do naturalista”, que volta das suas expedições com dezenas de borboletas penduradas no chapéu, enquanto carrega a rede de caçada e o resto da aparelhagem: dir-se-ia que a imagem foi diretamente colhida numa gravura dos famosos Sketches of a resident and travels in Brazil (1845), do reverendo Daniel P. Kidder.

Não se trata, como ficou dito, de romance histórico, mas de romance psicológico fortemente mergulhado na atmosfera sulfurosa do incesto: mãe e filha disputam duas vezes o amor do mesmo homem, primeiro com relação ao marido e pai, depois com relação ao fascinante naturalista francês de passagem pela estância. A mãe vence nos dois casos, graças aos eflúvios misteriosamente irresistíveis de sua extraordinária beleza, assim como domina o espírito do filho em processo que é, nela, segundo tudo indica, conscientemente incestuoso, quero dizer, no qual tira partido da atração que ele exerce a fim de dominar-lhe as decisões e escraviza-lo à sua vontade. Nesse quadro de personagens “fortes” (só o filho é um temperamento fraco e passivo, claramente paralisado pela excessiva masculinidade do pai), os mais fortes, em termos de ação e presença, são os mais sutis e dissimulados, como a mãe e o francês, enquanto os que, parecem fortes (como o pai e a filha) são apenas violentos e, por isso mesmo, ineficazes e impotentes. Os “fortes” desta última categoria terminam derrotados e os da outra vitoriosos: o francês porque se retira a tempo, depois da conquista amorosa e antes do inevitável desenlace sangrento, a mão porque derrota simultaneamente o marido, o filho e a filha, assim escapando, por sua vez, ao castigo implícito no código moral do meio e da época, e o faz com perícia tanto maior quanto acaba por forçar a cumplicidade da própria filha, inimiga e rival.

É justamente no desenlace que se encontra a maior inverossimilhança, resultante, em parte, da definida técnica narrativa com que os diversos episódios são desenvolvidos. Na cena culminante da história, quando o marido regressa e está a ponto de saber o que se passara, ele e a mulher recolhem-se à alcova, de onde, dentro um pouco, vem o alarma de que ele está morrendo. Sabe-se, em seguida, que foi envenenado pela mulher (por maio do poderoso tóxico com a intenção obscura de cometer suicídio, havia subtraído da caixa do naturalista) apunhalado pela filha, que, acorrendo do local, desejou abreviar os terríveis sofrimentos do pai. Assim, as duas não só se tornam cúmplices homicídio como, ainda, a filha coopera para que a mãe escape de qualquer punição (pelo adultério e pela morte do marido). A filha, de seu lado, “mata” por vingança amorosa o homem que escapara aos seus impulsos incestuosos subconscientes.

Nada disso é inverossímil, muito pelo contrário, pois é dessa matéria que se faz a substancia das tragédias. Inverossímil é a solução arbitraria encontrada pelo autor para poder fazer saber o que ocorrera a portas fechadas. De fato, um dos figurantes secundários, alheio até então a toda a história, imagina o que deve ter ocorrido, sem que, como ficou dito, nada haja presenciado. Sua hipótese se confirma, entretanto, quando horas após o logo guardamento, o sangue do defunto passa a escorrer do saco de couro em que o transportam para o cemitério. É apenas um filete, logo absorvido nas dobras do envoltório. Mas, justamente: esse sangue deveria ter aparecido muito antes e em enorme quantidade, na cama do casal, nos lençóis em que o corpo repousou durante o guardamento. Ainda qui pode-se pensar em alguma contaminação cinematográfica, pois nos filmes as vitimas de morte violenta raramente sangram ou só sangram quando a intenção é provocar horror pela vista do sangue.

O leitor ao pode reprimir alguma decepção diante desse desenlace de subliteratura num romance da melhor literatura; outros, talvez se preocupem menos com os erros de português (se é que os percebem) e com as inverossimilhanças. O que lhe interassa é saber o que aconteceu com o mocinho e a mocinha, mas não creio que Luiz Antonio de Assis Brasil não escreve, nem deve escrever, para essa categoria de leitores.


Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10.ago.1985. Caderno B, p. 8
Trajetória e virtudes de um romancista
Léa Masina
Na literatura gaúcha são frequentes as obras que referem o estrangeiro como elemento estranho à ordem cósmica, aquele que se imiscui no mundo para romper com sua estabilidade, instaurando o desentendimento, a desgraça. Desta vez é na Estância da Fonte, nos idos de oitocentos, que Félicien de Claviére, jovem naturalista francês, se instala, sob as benesses do capitão Geral do Continente, para estudar as plantas, os bichos e as gentes daqueles rincões perdidos.

Mas Félicien, personagem de Luiz Antonio de Assis Brasil, tem de fato outra tenência: é ele que permite às mulheres da Fonte mostrar suas paixões, desvendando lentamente todos os valores, as “virtudes” e os azares de um mundo perdido na memória do povo.

Escritor de maduro oficio, Assis Brasil sente-se a vontade para perquirir, com riqueza imaginativa e poder de invenção, um passado remoto, fazendo aflorar à narrativa toda a carga de humanidade escondida há mais de séculos. Suas personagens desprendem-se do tempo e obrigam o leitor a conviver com elas, deslocando-se por entre as coisas da estância, a faina diária, os objetos que descreve com zelo de ourives.

Não me importa, como nas obras anteriores, aprender o significado da História em seus amplos movimentos coletivos, revisá-la e denunciar o absurdo da prepotência e os desmando do autoritarismo. Profundo observador do humano, o escritor contempla, extasiado, a riqueza que sua memória histórica descobre. No mergulho profundo que realiza em busca das raízes do povo do Continente, Assis Brasil se assume como romancista pleno, e cria uma obra onde a paixão se instaura como personagem principal.

“Para o francês, o melhor”, diz o coronel Baltazar Antão, rico estancieiro, fiel aos princípios da hospitalidade. E quando se afasta das terras, em virtude da luta contra Artigas deixa às mulheres da casa a tarefa de bem atender o hóspede.

Numa casa onde imperam “as virtudes”, a presença do francês rompe com a estabilidade aparente de um mundo de emoções contidas. A paixão avassaladora que se apossa das duas mulheres – Isabel, a filha, e Micaela, a mulher, dona da estância – é a matéria narrativa sobre a qual Assis Brasil se debruça.

Desse modo, a ruptura que As virtudes da casa 1 estabelece, principalmente com relação às obras de primeira fase (estas, segundo a critica, pretendiam atestar uma modalidade de romance histórica e um tipo de funcionamento social (2)) significa, do ponto de vista da criação literária, uma nova postura do escritor. Mais maduro, mais hábil, deixa que o fato social se imiscua e se produza com reflexos na consciência da personagem. Livre do compromisso com teses, cria uma linguagem que, interpenetrando planos narrativos, permite a apreensão simultânea dos acontecimentos que formam a urdidura do romance.

Arnold Hauser, estudando as características da arte contemporânea, aponta a proximidade da cinemática como elemento decisivo no tratamento do espaço e do tempo no romance. Refere, pois, a existência de um novo conceito de tempo “cujo elemento fundamental é a simultaneidade e cuja natureza consiste na especialização de elemento temporal” (3).

Ora, tendo o autor escolhido a forma tradicional do discurso narrativo, - certamente por adequar-se melhora à ordenação cronológica da história -, a montagem do romance em quatro novelas permite o tratamento simultâneo da ação, pela mobilidade do ponto de vista. As novelas, com subtítulo próprio, são precedidas de um epígrafe que subsume seu conteúdo e significado: Isabel, Mas os deuses estão vivos, As dores e o s frutos,.Os miseráveis da Fonte.

Cada novela corresponde a uma personagem em cuja perspectiva a mesma situação é apreendida. Isso confere à narrativa aquele senso do relativo que caracteriza a visão que tem o mundo do homem contemporâneo, no que reside a modernidade do texto.

Desse modo, Assis Brasil reinaugura entre nós o romance das grandes paixões, com clímax dramático, concentrando sua atenção no comportamento e na densidade psicológica de suas personagens. E o faz sob ótica moderna porque, à semelhança do que ocorre com o romance epistolar, no passado, institui, pela técnica da criação literária, o que Sartre denominou “uma orquestração das consciências”. (4).

Por outro lado, ao reduzir o espaço narrativo, transforma a Estância da Fonte no cenário onde, com astúcia e arte, a câmara do narrador se instala dentro das personagens. Revela, desse modo, fantasias, desejos, emoções, fazendo com que as imagens se sucedam através de pequenos “closes” que permitem o seguimento da história.

A unidade narrativa compõe-se, pois, no plano sintático pela imbricação das novelas. Mas seu significado se completa pela forçada massa elocutiva, frase habilmente trabalhadas, num apuro de linguagem que lembra muito a harmonia musical. Assim, se do ponto de vista da técnica de composição, a prosa de Assis Brasil se afigura devedora do cinema e da música, do ponto de vista estritamente literário há que ressaltar na obra a capacidade de desvendar, palavra, todo erotismo e a vida que existe nas personagens.

A estância vive de ritos: o trabalho diário, o preparo da guerra, o rosário puxado na capela, as bênçãos à colheita, os bordados e crocheteados dos serões diários ao pé do fogo. Os ritos servem para preservar a aparência estável das coisas. Turbados na sua pratica, a paixão explode; e domina os sonhos, as fantasias, o ódio, a saudade, e inveja, os desejos amorosos daquelas mulheres e homens a quem Felicién, com seus sortilégios, seduzira.

Sombra e luz, claro e escuro, água e vinho – os escritor explora as nuances das relações humanas com gosto de esteta. À sombra da capela, Jacinto, aleijado: filho e irmão, meio-pader; no lado sombrio da casa, as negras, “peças da África”, prescrutando, agourentas, a origem de tanto desatino. Os símbolos recorrentes: as cruzes, as cicatrizes; Baltazar Antão: solidão e guerra.

Felicién, a luz, a felicidade. Mel e trigo maduro. As imagens que o escritor inventa são capciosas, sugestivas e permitem associações imediatas. O erótico e o religioso, o pecado e a virtude. E o conflito barroco que em Manhã transfigurada (5) se transforma em matéria narrativa, as coisas da Igreja imiscuindo-se com as coisas da carne, a tensão elevada ao clímax, agora serve de sustentação aos dramas psicológicos.

Conhecedor da natureza humana, o escritor se rende ao fascínio da mulher. Isabel e Micaela encarnam os conflitos da mulher-raiz, presa à terra, ou mulher-vulcão, ativa na realização dos deus desejos. A tensão entre carne e espírito se reflete na consciência de todos, produzindo seus atos, compondo destinos. O escritor tudo aprende e registra porque está ávido de verdade humana.

Visível na própria ideia de escrever um romance de amor, nos idos de oitocentos, a postura do escritor, com seu que de romântico, pode ser interpretada também como a recusa em aceitar o aviltamento do homem, massificado pela forma niveladora de um sistema social e de uma ordem econômica que o arrasa, privando-o de sua dignidade.

Assim como Stendhal, consciente do momento histórico que vivia, sentiu seu própria época como “uma época de promessas e expectativas insatisfeitas, de energias não exploradas e de talentos desapontados”, Assis Brasil procura buscar no passado qualquer coisa da grandeza perdida. E encontra, fundamentalmente, a capacidade do homem de viver por inteiro seus conflitos, seus dramas e paixões. Transformar tudo isso em linguagem, constitui a virtude maior desse romancista.
NOTAS

1 – ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. As virtudes da casa. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985.

2 – ZILBERMANN, Regina. A literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982.

3 – HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo, Mestre Jou, 1972 v. 2, p. 1128.

4 – SARTRE, Jean Paul. Qu’est-ce que la littérature. In: BORNEUF, Roland e OUELLET, Réal. O Universo do romance. Coimbra, Almedina, 1976. P. 120.

5 – ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de de. Manhã transfigurada. Porto Alegre, L&PM, 1982.


D.O. Leitura, São Paulo, 4.set.1985, p. 12
Um romance feminista?
Luiz Felipe Maldaner
Será mesmo este um romance feminista? Se formos pela capa do livro, a associação é imediata. Está tudo nela. Uma fazenda do interior, e uma bela e recatada mulher. Esta é Isabel, a filha de Baltazar Antão e Micaela. Numa determinada ocasião a família recebe a visita inesperada de um jovem “cientista” francês, Felicién, que vem pesquisar sobre os animais da região.

É recebido na casa com todas as honras. Entrementes Baltazar Antão é obrigado a ir guerrear os castelhanos na fronteira e deixa Isabel apaixonando-se pelo estrangeiro. Tudo pareceria bastante óbvio, mas acontece que quem vai frequentar o quarto do solitário visitante nas noites escuras é nada mais nada menos do que a dona da casa, Micaela, mulher que concentra todo o vigor de que é capaz naquela aventura.

O argumento vem com alguns requintes interessantes, com a dominação de Micaela sobre o seu filho Jacinto, que não sabe a quem dirigir a sua revolta. E a própria personagem Micaela, sem dúvida, o grande mérito do romance de Luiz Antonio de A. Brasil. O final é inusitado e enriquecedor da personagem que atinge bom nível de aprofundamento.
A Gazeta de Campo Bom, Campo Bom, 14.jan.1987, p. 04
As virtudes da casa
Silvia Niederauer
“Ah, os mistérios da Fonte, terríveis e tenebrosos”.

(Luiz Antonio de Assis Brasil).


A analise de As virtudes da casa mostra que essa narrativa caracteriza-se pela linearidade, com a colocação dos fatos em ordem natural. O narrador observa à vida na Estância da Fonte e apresenta as relações antagônicas que se estabelecem entre as duas mulheres, Isabel e Micaela, e as personagens masculinas Baltazar Antão, Félicien e Jacinto. As demais personagens são figuras esfumadas que servem para acentuar os traços fortes da personalidade das personagens principais.

O narrador só em raros instantes desloca sua visão da Estância da Fonte, para focalizar mais de perto uma ou outra personagem. Nesse caso, joga com a desarticulação da sequência natural e transita entre presente e passado, entre o aqui presente e o ausente possibilitando o tratamento simultâneo da ação.

Observa-se, também, que em As virtudes da casa prevalece um nexo de justaposição coordenado do episódico, o que dá autonomia ás novelas>>. Há, entretanto, uma certa complexidade romanesca na história proposta por Assis Brasil, quando a esfera temática, fechada na instituição patriarcal e autoritária, abre-se ás denúncias religiosas e político-sociais e aos sentimentos que animam as personagens. Em consequência, ocorre a simultaneidade dramática.

O narrador que não é o autor Assis Brasil, é colocado por esse como observador dos fatos, de maneira a forçar a perspectiva segundo um ponto de vista que seria tomado das personagens protagonistas.

O tema da formação histórica do Rio Grande do Sul e da sobrevivência do homem gaúcho desenvolve-se numa história rica em que a guerra e a política também participam. O narrador de As virtudes da casa revela a evolução do romance de Assis Brasil mostrando que, nos romances desse autor gaúcho, o processo criador não acaba com a fábula, mas deixa a última parte sob responsabilidade da imaginação do leitor. Mesmo onisciente, esse narrador mostra a dialogicidade que se instaura entre narrador-leitor e narrador-personagens em todo o texto.

Por isso, pode-se dizer que, sendo uma narrativa objetiva, há, em As virtudes da casa, um processo intimista que propõe uma lição de vida que parte da consciência de um ou mais indivíduos. Consequentemente, essa narrativa, mesmo enfatizando o estado tensional das personagens, torna-se dialógica e de muitas vozes.

O dialogo estabelece-se não só no interior do texto, mas com outro texto da literatura universal: a tragédia de Ésquilo, Oresteia, onde Clitemnestra entrega-se a Egisto traindo o marido que se encontra na guerra. À volta de Agamémnon, Clitemnestra envolve-o com palavras doces e mata-o Orestes, o filho que fora desterrado, volta e encontra sua irmã, Electra, levando flores ao túmulo de Agamémnon. Ele e seu amigo Pilades dirigem-se ao palácio a fim de pedirem hospedagem. Lá chegando, Orestes mata Egisto, amante de sua mãe. Depois, encontra-se com a mãe Clitemnestra e mata-a.

Como se vê, as personagens Oresteia, de certa maneira, são reduplicadas em As virtudes da casa. Micaela assemelha-se à Clitemnestra, pois ambas traem o marido durante sua ausência e o assassinam à sua volta ao lar; Baltazar Antão encara Agamémnon, uma vez que parte para as guerras e, na volta, deixa-se seduzir pela adúltera mulher que o assassina; Jacinto se parece com Orestes, o filho que retorna a casa; Isabel assemelha-se á Electra, a filha que deseja vingar a morte do pai e ainda quer ser mais pudica e respeitadora que sua mãe; Félicien é Egisto, aquele com quem Clitemnestra comete o adultério. Também o ambiente final de As virtudes da casa é o mesmo da Oresteia. Nele predomina a calma solenidade e o lirismo.

O problema, em parte, fica solucionado, apesar de, aparentemente, a solução concreta ter sido encontrada por Micaela, com o assassinato de Baltazar Antão. Isso obriga o leitor, cúmplice dos acontecimentos ocorridos na Fonte, a pensar no futuro das pessoas e nas coisas da Estância. A presença desses acontecimentos confirma a intertextualidade e o dialogismo da obra de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Narrativa objetiva, intertextual, dialógica, As virtudes da casa alcança a realidade de seu próprio mundo, isso é, alcança a realidade do texto.


A Razão, Santa Maria, 4.fev.1988

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